"Nem sempre as coisas correm do jeito pretendido. Por vezes, não existe justiça, igualdade. Na verdade, a vida é um momento, uma etapa onde todos procuram realização, felicidade, harmonia!
Acontece que tudo deve ser conquistado com empenho, com força e com irreverência. É por isso que só os audazes, os corajosos, atingem seus objetivos. Não há tempo para ter medo da mudança; é ela que determina o sucesso. Sem medo, arrisque e mude tudo que está errado em você, em seu mundo!"
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ANALU
Sabe quando você tem sonhos, mas não tem grana para realizar?
É meu caso, meu sonho é cursar psicologia, mas para isso preciso de dinheiro.
E eu fui atrás dos meus sonhos e foi assim que tudo começou.
[...]
Estava olhando o classificado do jornal até vê um anúncio que se encaixava nos meus horários.
Procuro auxiliar de limpeza.
Horário Segunda a Sexta
De 07H às 18 horas
Sábado o dia inteiro
Domingo Folga
Eu sou uma menina de dezenove anos, começando a vida, o emprego me privaria de viver muitas coisas, mas preciso me formar e sei que vai valer a pena o esforço.
Pulo do sofá, tomo um banho, visto uma calça jeans, uma blusa de manga comprida e tênis, anoto o endereço e vou até o local, que fica um pouco longe de onde moro.
Salto do ônibus e caminho um pouco até lá, paro em frente a uma enorme mansão e não acredito que seja ali. Verifico mais uma vez o papel e sim, é aqui.
Toco a campanhia e em alguns minutos, um senhor uniformizado me atende.
- Bom dia moça...
- Bom dia Senhor, me chamo Ana Lúcia, e vim para a entrevista...
- De auxiliar? Tem certeza? -Ele me olha encabulado
- Ora, certeza absoluta! - respondo erguendo a sobrancelha esquerda
- Tudo bem. Entre!
Entro reparando tudo, a casa é enorme e toda luxuosa com uma decoração antiga. Mas existe um silêncio mortal nesse lugar, algo que me incomoda, e eu adoro música e muito barulho, não sei como vivem nesse silêncio medonho.
- A Senhora Morgana irá recebê-la.
- Obrigada!
"Essa deve ser a dona da casa." - penso comigo
Fico numa imensa sala à observar tudo. Observo atentamente os quadros que devem pagar minha faculdade de tão caros e também vejo uma rack cheia de fotos. Me aproximo para ver, mas sou interrompida por uma voz firme.
- Bom dia! - uma mulher fala
- Bom dia! - me viro sorrindo enquanto a mulher me encara com cara de desdenho
- Sou Morgana, a governanta da casa.
- Prazer! Sou Ana Lúcia, mas pode me chamar de Analu se preferir. - falo sorrindo, mas ela se mantém séria
"Ai Senhor! Pelo visto estou de frente com uma bruxa."
- Você sabe que isso é uma entrevista para auxiliar de limpeza? Está no lugar certo? - ela me repara dos pés a cabeça
- Claro que sei! Não sou tão inocente quanto pareço. Eu preciso fazer faculdade e necessito de um emprego para pagar à mesma, esse foi o motivo pelo qual estou aqui. - falo a encarando
Moro com minha avó, meus pais nunca se importaram comigo, não sei nem quem são, sempre batalhei pelos meus sonhos, e nunca abaixei a cabeça para ninguém. E não seria agora que faria algo assim.
- Por curiosidade, quantos anos você tem menina? - ela fala com o dedo apontado para mim
- Tenho dezenove anos senhora, nunca tive mordomia, muito menos moleza, se é isso que está pensando. - respondo logo em seguida
- Olha, como eu havia dito eu sou a governanta da casa. Nosso patrão está viajando à negócios, eu gostei da sua... digamos que ousadia e atitude. Mas o serviço braçal será pesado e acredito que não seja para você. E cozinhar você sabe? - ela pergunta
- Oxe! Claro que sei! Sei inúmeras receitas gostosas e bolos maravilhosos.
- Ótimo! Te deixarei na cozinha ajudando à Vera, se você conseguir se sair bem, ficará lá com ela, caso contrário... R.U.A. - ela fala firme a última palavra - Lembrando que o Senhor Fizterra é bem exigente. A sua data prevista de retorno é daqui a vinte e um dias, você terá quinze dias de experiência, eu irei avaliar, se for bem sucedida ótimo, se não, irei dispensá-la antes que ele retorne. Entendeu?
- Sim senhora Morgana! Eu juro que você não irá se arrepender. - falo empolgada
- Assim espero pequena menina. Amanhã às sete horas em ponto te aguardo aqui.
Vou para casa toda empolgada para dar a notícia à minha vó sobre eu conseguir o emprego. De começo ela não acha muito adequado já que passarei muito tempo lá, mas me apoia pela força de vontade de ir atrás dos meus sonhos.
Durmo feito uma pilha de nervos e ansiedade, eu preciso que tudo dê certo no primeiro dia.
Às cinco da manhã já estou de pé. Tomo um banho, visto uma calça legging, uma bata comprida, uma sapatilha e faço um rabo de cavalo. Às seis horas saio de casa me dando quinze minutos de adiantamento no serviço.
- Bom dia menina! Você voltou! - fala o rapaz uniformizado que eu suponho ser o mordomo
- E porque não voltaria? Oxe, estou disposta a trabalhar! - falo firme e vejo ele dando um sorriso
- Entre! Já estão à sua espera.
Entro na casa e mais uma vez continuo a observar tudo, parece um castelo de tão grande
- Bom dia Analu, confesso que achei que iria desistir. - Morgana me chamou pelo meu apelido, isso deve ser um bom sinal
- Bom dia Senhora Morgana! Eu sou osso ruim de roer, não desisto fácil das coisas. - falo com entusiasmo
- Ótimo! Venha até meu escritório que vou te mostrar quanto será o seu salário se você ficar, e lhe dar um uniforme provisório.
Pego o contrato e leio atentamente. O salário é absurdamente grande para mim, vai dar para pagar a faculdade e ajudar minha vó em casa. Então preciso fazer valer a pena.
- De acordo? - ela pergunta depois de um tempo
- Claro que sim, nunca vi tanto dinheiro na vida. - Digo empolgada e ela sorri com sarcasmo
- Vá se trocar que Vera à espera na cozinha.
Vou a um banheiro que é do tamanho do meu quarto, tinha um espelho enorme e a banheira cabe no mínimo duas de mim. Aqui é tudo tão ostensivo, que dá até medo de tocar.
Coloco uma calça e uma blusa branca que fica igual um vestido. O uniforme é claramente bem maior do que eu, que tenho apenas um metro e sessenta e cinco centímetros de altura, mas tá bom já que será provisório.
Já na cozinha sou apresentada a Vera, uma senhora um pouco mais nova que minha vó, e logo de cara já peguei um carinho por ela.
- Tão menina, você deveria está buscando sonhos e não presa nessa cozinha. - ela diz assim que a senhora Morgana se vai
- E eu estou buscando meus sonhos, por isso estou aqui, preciso do dinheiro para minha faculdade e também para ajudar minha avó.
Ela sorri e as rugas de expressão aparecem no canto dos seus olhos.
- Então vamos lá. O almoço de hoje será pato ao molho de laranja. Vou te ensinar como se faz, é um dos pratos preferidos do Senhor Fizterra. E ele é bem exigente na alimentação.
- Com laranja? Minha vó faz um com macarrão que é de cair o queixo de tão gostoso.
Novamente ela sorri...
- Vamos começar com o tempero.
Vera vai me mostrando tudo. E assim foi nosso primeiro dia, almoço pronto sem nenhum elogio, mas também sem nada contra. No segundo dia fiz uma broa com queijo para tomar café, e a senhora Morgana provou, porém mais uma vez não disse nada. Mas sei que gostou, pois comeu dois pedaços e o senhor Otávio o mordomo também gostou. Ele ao menos me parabenizou e disse que agora sim iria engordar um pouco, já que terá comida com "sustança", como ele mesmo diz.
- A última vez que comi uma broa gostosa assim, foi na minha época de menino, feito pela minha avó. - seu Otávio fala enquanto tomava um gole de café
- Sim ela tem gostinho de avó, a receita é da minha vozinha. - falo toda contente
A cozinha é um dos meus lugares preferidos, sempre gostei de cozinhar, miha vó trabalhou durante muito tempo e eu tinha que me virar para comer, e foi então que começei a aprender a cozinhar e ter gosto por isso. Sei muitas receitas, não tão sofisiticadas, mas muito boas, creio que me darei bem aqui.
[...]
Com uma semana de experiência fiz uma rabada para eles, no começo dona Vera disse que eu era doida de arriscar, a senhora Morgana me julgou, mas quando provou ficou até com a boca suja de gordura de tanto que comeu. E no final do expediente me chamou para que eu assinasse o contrato que consiste em três meses de experiência, caso dê tudo certo, renovaram o mesmo.
Estou radiante e pela primeira vez tudo está dando certo na minha vida. E como estamos no mês de outubro eu só entrarei na faculdade ano que vem, tempo suficiente para juntar mais um dinheirinho e dar de entrada no curso. Graças à Deus tudo está se caminhando bem e estou cada vez mais perto de conquistar um dos meus sonhos. Só espero que a chegada desse senhor Fizterra não mude nada do lugar e que eu continue em paz trabalhando aqui nessa casa por um longo tempo.
Eu me chamo Ana Lúcia, mas me chamam de Analu, tenho dezenove anos, um metro e sessenta e cinco centímetros de altura, branca, cabelos ruivos, tenho um corpo normal, nem magra e nem gorda. Mas nada disso é mais importante do que realizar os meus sonhos e cada dia que passa percebo que estou no caminho certo, e logo poderei oferecer uma vida melhor à minha avó. Afinal esse sempre foi o meu maior objetivo: Que àquela que me ofereceu tudo e me deu tanto amor, tenha uma vida sossegada.
E assim será!
Continua...
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ANALU
Alguns dias depois...
Faltando dois dias para o tão temido patrão chegar, então resolvo tirar algumas dúvidas com Vera, que já é minha amiga íntima aqui, na verdade ela e senhor Otávio são pessoas incriveis. Dona Morgana saiu para comprar os mimos do patrão, e apesar do seu jeito rígido moldado para agradar o senhor ranzinza, ela já mudou muito seu jeito comigo, e até parece gostar do meu serviço.
Agora estamos nós três na cozinha tomando um suco e como uma curiosa aproveito para comecar meu interrogatório.
- Qual o nome do nosso patrão? -acreditem, mas só ouço as pessoas chamarem ele por Senhor Fizterra
- Santiago, mas um aviso, não o chame pelo nome, ele não gosta. Na verdade só se direcione à ele o necessário. Ele é uma pessoa calada, fria, arrogante e bastante ignorante, então se queres mater o emprego, seja discreta. - dona Vera fala
- Nossa! Falando assim até parece que ele é um monstro. - falo
- Não, um monstro não, mas chega perto. - Vera termina de falar
- Ele não é casado?
- Não, na verdade se ele tem mulher nós não sabemos, pois ele nunca trouxe uma para sua casa, muito menos fala de sua vida pessoal.
- Entendi, um velho rabugento, arrogante e babaca. - falo dando de ombros
Dona Vera sorri e diz:
- Você irá se surpreender, mas por favor não se afobe, seja sempre discreta prestativa e educada, assim não terá problemas com o Senhor Fizterra.
- Ok! Ok! Já entendi o recado: "Fique bem longe do Senhor babaca se quiser manter teu salário." - falo mudando a voz e todos sorriem - Não se preocupe Verinha, eu o farei.
Depois dessas declarações criei uma certa ansiedade para conhecer essa tal pessoa. No mínimo deve ser alguém armagurado, porque pela casa se vê que é um sujeito com muito dinheiro, mas pela decoração já vejo que é um velho sem personalidade e bom gosto, porque tudo aqui é sem vida e sem nenhuma graça. Mas isso não é da minha conta, vou continuar executando o meu trabalho da melhor maneira, e assim garanto meu salário no final do mês. O patrão no canto dele e eu no meu, como uma doméstica, e assim tudo ficará bem.
No dia anterior a sua vinda, Morgana avisou que ele teve problemas e sendo assim só vira mês que vem. Isso é ótimo! Assim ganho mais experiência.
Os dias foram passando e até a senhora Morgana consegui conquistar, essa é mais firme, mais rígida, mas consegui amolecer seu coração.
Meu uniforme chegou, a calça é como a provisória, porém a blusa é uma batinha branca com detalhes rosas, bem meiguinha, e agora está no tamanho certo.
[...]
Um mês se passou, e eu já aprendi fazer até alguns pratos franceses. Aprendi à selecionar vinhos que combinam com cada prato. Confesso que quando estou em casa, pesquiso sobre essas combinações e assim avanço cada vez mais no meu trabalho.
Hoje Morgana entrevistou uma mulher para auxílio geral, segundo ela não vai ser necessário a moça vir todos os dias, apenas três vezes por semana.
Hoje na cozinha o prato é macarrão e molho pesto, enquanto cozinhamos ligo a play list de meu celular, sou eclética gosto de tudo um pouco, mas nessa hora está tocando Justin Bieber - Sorry.
Estou com um macarrão pendurado na boca fazendo graça enquanto danço, Verinha corta a cebola e dá até uma mexida no bumbum. Estou em êxtase com a música, pego a colher de pau e me empolgo quando ele canta sorry me sinto a cantora e digo: SORRY! Aquele bem esticado e alto no rítmo da música. Estava tudo perfeito até escutar uma voz ecoar na cozinha. Era uma voz grossa, firme e fria, eu que estava de costas sem ver de quem se tratava senti meu corpo arrepiar. É uma voz máscula, porém uma voz que passa medo a qualquer mortal.
- O que está acontecendo aqui? Desde quando minha cozinha virou uma baderna?
Discretamente coloco a colher de pau na bancada que até então era meu microfone, e lentamente viro meu corpo já pensando:
"Ai meu Deus! O velhote chegou sem avisar."
Mas quando meus olhos encontram com os dele, eu perco até o ar. Além do seu olhar penetrante que irradia raiva, ele tem uma beleza descomunal, fora que ele deve ter no máximo seus trinta e nove anos. Eu juro que idealizei ele um velhote barrigudo com seus sessenta anos, mas estou boquiaberta sem saber o que dizer.
"Uau! Que homem lindo é esse gente?"
Sinto minha testa soar, meu corpo inteiro estremecer, minha pupila dilatar e meu coração parece querer saltar pela boca. Fico perplexa com esse Deus Grego diante dos meus olhos.
"Ele é o homem mais lindo que já vi na vida."
Ele me encara de testa franzida, claro que não gostou do que viu aqui. E a música ecoa novamente em minha mente, "Sorry" era o que eu queria dizer, um leve sorriso brota em meus lábios, mas logo se esconde quando percebo que ele continua a me encarar sério.
- Senhor Fizterra, voltou sem avisar. - Morgana fala aparentemente nervosa
- As vezes é necessário, porque assim vejo o que de real acontece em minha casa quando não estou. - ele fala ainda me encarando
- Essa é Ana Lúcia, a nova ajudante de Vera. - ela fala percebendo o olhar dele para mim
- Essa garota é uma criança! - ele bufa e eu desperto para a realidade
- Ei perae, não sou uma criança, só porque tenho idade para ser sua filha não significa que eu seja uma menininha. Me respeite senhor ba... -falo irritada e engulo a última palavra, mas pelo visto não faltará a oportunidade de dizer o que ele é na realidade
Que droga! Odeio ser tratada como uma garota.
Todos me olham assustados inclusive ele, que desvia o olhar de mim pela primeira vez desde que chegou e fala para Morgana.
- Morgana, venha ao meu escritório agora!
Antes de sair Morgana me olha com uma cara ruim.
"Ai meu Deus! Será que falei demais?"
- Menina, desligue esse celular, e continue a fazer o almoço. E capriche! Pois depois do ocorrido o humor dele deve ter ido de mal a pior. - Verinha fala e engulo em seco
Minha mente só consegue ter o vislumbre de seus olhos negros encarando os meus. Estou em choque! Imaginei um velhote, e o que me aparece é um belo homem. E que homem!
É normal ficar meia deslocada, mas eu preciso recuperar a razão e focar no que é realmente importante; O almoço de hoje!
- Analu! Controle-se menina! Por pouco você não foi mandada embora. - Morgana sussurra na cozinha
- Ah! Fala sério! Só por causa da música? - falo pegando um vinho
- Foi mais pela sua resposta afiada do que pela música. - Morgana fala baixo com medo do Senhor babaca aparecer como um fantasma
"Será que esse doido colocou escutas por toda a casa? Vai saber né!? Esses milionários egocêntricos tem dessas coisas. Pensam que todos a sua volta são babacas como eles."
"Ai Analu, se controle, ou perderá seu emprego em dois tempos." - me repreendo mentalmente
- Desculpe pelo embaraço! Prometo me controlar.
- Espero que sim menina! Eu facilitei para você esse emprego porque gostei de ti, você trabalha relativamente pouco, e recebe o triplo do que qualquer outro lugar te pagaria apenas para cozinhar. Então faça por onde, se quiseres ser uma psicóloga um dia, regue bem sua plantação aqui, para mais tarde colher seus bons frutos. - Morgana me aconselha e apesar de não gostar muito de quando conseguem me calar, eu concordo e sei que é para meu bem
- Sim! Você está certa! Desculpas novamente.
Pronto! Esse babaca me murchou!
Eu era um balão de gás hélio e agora pareço um maracujá de gaveta!
Sirvo o almoço séria, fora da minha postura normal e sinto seus olhos me queimando. Coloco a tigela com o macarrão, o pote com o molho pesto, o vinho já está à mesa junto com o prato e os talhares. Saio da sala de almoço, mas sua voz firme e grossa me faz parar.
- Me sirva! - ele fala firme
- Eu posso fazer isso senhor. - Morgana diz
- Quando eu quiser seus serviços, você saberá Morgana. Eu não solicitei você para nada, e acredito que fui bem claro. - ele fala um pouco rude
- Certo! Me perdoe senhor Fizterra! - Morgana baixa o olhar e se afasta da mesa, agindo como se ele fosse um rei e ela uma serviçal qualquer
"Isso me deixava com muita raiva! Ela sempre sendo obediente e esse sujeito em poucas horas que está aqui sempre sendo e agindo como um grande babaca. Ai, que raiva!" - penso trincando os dentes
Fecho a cara ao ver esse comportamento, a ignorância dele e o respeito demasiado grande dela me deixam profundamente indignada.
Isso não funciona comigo, até porque se ele fala dessa forma comigo eu taco o macarrão e o pesto bem no meio da fuça dele.
Volto para a mesa e primeiramente sirvo sua taça de vinho para que ele prove. Coloco apenas um pouco, o suficiente para uma degustação, me afasto e aguardo que ele fale algo.
Ele beberica, joga o líquido para um lado e para o outro em sua boca. Seus olhos estão fechados, e seu rosto transmite total apreciação, dou um suspiro aliviada, e enquanto ele permanece com os olhos fechados reparo seu belo rosto. Esse homem exala beleza por todos os seus poros.
"Que perfeição! Pena ser tão arrogante e babaca!"
- Onde você viu que esse vinho com massa combinam? - ele pergunta sério
- Eu pesquisei na internet. - digo firme
- Pois bem, a internet nem sempre é leal com as informações que fornece! - ele fala ríspido
- O senhor está querendo dizer que o vinho não combina? É isso? - pergunto sem esboçar nenhuma reação
- Combinar até que combina, mas não me agrada, então da próxima vez procure mais de um, para quando eu não me agradar de um você poder me oferecer uma segunda opção. Entendeu? - a forma que ele fala faz meu sangue ferver, eu sou empregada dele sim, mas não uma escrava
- Olha aqui, deixa eu te informar algo sobre... - falo com o dedo apontado para ele
Ele fita meu dedo e depois me encara, com uma cara de que diz: "Adoro desafios, tente a sorte!", mas então me lembrei que se eu for demitida hoje, amanhã mesmo ele tem outra pessoa. Já eu amanhã não terei outro emprego, então engulo minhas palavras, coloco um sorriso forçado no rosto e digo:
- Ok! Você está correto, anotarei a sua dica. Posso servir sua refeição agora? - falo com um pouco de sarcasmo
- Bom, caso a Morgana tenha sido falha em relação à algumas exigências minhas, vou lhe esclarecer. O termo "você" só é aplicado à minha pessoa quando a mesma que se dirige assim tem total liberdade e intimidade comigo, que não é o seu caso, sendo assim me chame de Senhor Fizterra. Caso não goste ou não esteja satisfeita, da mesma forma que entrou, poderá sair. Agora me sirva! - ele fala de uma forma arrogante
Mas dessa vez não, não consegui mesmo me calar, enquanto sirvo seu prato vou lhe dizendo.
- Olha Senhor Fizterra - falo dando ênfase a letra última letra - Concordo que lhe devo sim um respeito devido, já que o senhor é o meu patrão, mas não pense que me completarei de forma ofensiva e submissa como a dona Morgana e todos dessa mansão se prestan a VOCÊ! Estou aqui para lhe servir e sim sei de suas exigências, e as seguirei, mas não pense que baixarei a cabeça para você sempre que for arrogante comigo, porque não vou. Da mesma forma que entrei com certeza posso sair. Ou entramos num contexto bom para ambos, ou então aguardo seu alvará para que Dona Morgana me demita! - acabo de falar e o encaro
Ele me olha com aquele olhar frio, gélido e diz:
- Pode se retirar, qualquer coisa eu torno a lhe chamar. - ele fala sem sentimentos
Saio dalí com o coração saltando na boca e as mãos suando. Bebo um copo de água gelada enquanto Verinha que ouviu tudo pela parede diz:
- Muleca você é maluca, como afronta o homem assim?
- Simples! Ele é o meu patrão, não meu dono, portanto não preciso abaixar a cabeça sempre.
Ela me olha e volta a comer... Depois disso confesso que eu perdi a fome completamente. Pego um copo de suco de graviola e vou até o jardim que fica na parte de trás do quintal. Fico parada olhando para o céu estrelado e começo a pensar. Na verdade à sonhar com minha futura vida. Aei que não vai ser fácil, meu problema acabou de se apresentar hoje para mim, e quando digo problema não é só pela sua arrogância, frieza e indiferença, mas sim pela sua beleza mística.
Digo mística porque ele é lindo, mas esconde um mistério tão grande em seu olhar, que não sei porque eu consigo ver e sentir. Pelo visto nada será tão fácil e outra vez volto a ser a gata borralheira, que para conseguir algo na vida precisa lutar e fugir dos seus perseguidores. Mas como vou fazer isso, se o meu pior pesadelo é o meu próprio chefe?
Continua...
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ANALU
Após o ocorrido na hora do almoço, meu digníssimo patrão não deu mais as caras, a não ser faltando uns dez minutos para eu ir embora. E como sempre disposto a tirar a minha paz.
- Não jantarei em casa. - ele avisa dando as costas e vai embora
Assim que ele sai tomo a liberdade de imitar.
- "Não vou jantar em casa." - faço uma voz diferente
Verinha sorri e fala:
- Ah menina, tome juízo!
- Apenas um pouco de humor não faz mal a ninguém, desde a hora que ele chegou que essa casa parece estar de luto. Eu hein. Deus é mais!
Junto minhas coisas para ir embora, dou um beijo no rosto de Verinha, um abraço em Otávio, e jogo beijo para Morgana. Ela ainda está brava comigo por causa do esporro que recebeu, mas logo a faço amolecer novamente.
Antes de cruzar o portão de saída já coloco meu fone no ouvido para satisfazer meu vício de música, pois por culpa do poderoso chefão já estava em abstinência.
Assim que chego na porta da minha casa já sinto cheiro daquela sopinha de legumes que só as avós sabem fazer. E então sinto aquela famosa paz, e satisfação de estar em meu lar.
- Boa noite minha vó! A sua bênção! - falo assim que entro e vejo minha vó na cozinha mexendo nas panelas
Ela se vira, seca suas mãos no avental que está preso sobe uma saia floral que vai até suas canelas finas e diz:
- Deus te abençoe minha neta. Como foi o serviço hoje? - ela fala e logo me dá um beijo na testa
- Vozinha tenho muitos babados para te contar sobre hoje, mas primeiro deixe-me tomar um banho e te conto tudo tomando essa sopinha que está cheirando lá no portão.
Nossa casa é bem simples e humilde, o portão é seguido daqueles muros baixos que até uma criança consegue pular. Do portão até a varanda tem um caminhozinho curto e dos lados é cheio de flores e plantas. Tem comigo ninguém pode, copo de leite, espada de São Jorge e um pezinho de rosa branca também. Já na varanda tem aquele piso vermelho que parece barro, uma parede branca e uma rede pendurada. A casa é pequena composta por dois quartos, um banheiro, a sala e a cozinha. O quintal atrás é cheio de árvores frutíferas, temos: goiabeira, amoreira e um pé de manga espada. Além da uma pequena hortinha da minha vó. Enfim é um lugar que te trás aconchego e paz.
Já de banho tomado e com minha camisola de algodão que vai até o pé, que segundo minha vó é para espantar namorado, me sento ao lado dela que já colocou na mesa nossos pratos de sopa e uns pedacinhos de pão para molharmos enquanto ela esfria um pouco. E só mais um detalhe, minha avó tentou corrigir a minha boca nervosa a vida toda, mas acreditem eu aprendi a ser assim com ela, ela tem setenta e dois anos, mas é de uma saúde e de umas respostas bem pensadas que só Deus na causa.
- Então vamos lá Analu. Quais são aqueles tais de babados que você iria me contar?
- A senhora acredita que estava eu na minha melhor perfomance de cantora de banheiro, quando meu patrão chegou? - falo agora rindo, porque agora tem graça, mas na hora não tinha
- Meu Jesus Cristinho! E ai?
- E ai que o homem ficou uma fera de bravo, e insinuou que eu era muito menina e que não daria conta do serviço.
- Você não respondeu ele, né Aninha?
- Ora, com toda certeza do mundo que sim, mas o pior foi nosso confronto na hora de servir o almoço.
Conto para ela nossa conversa bastante agradável no almoço. Claro que isso foi sarcástico
- Ai meu pai eterno, desse jeito você não irá ficar lá nem mais um mês. - ela fala rindo
Só mais um detalhe, minha vozinha é católica quase uma beata, então a maioria de suas expressões irão sempre ter santos no meio. Minha avó é única.
- Se eu não ficar corro atrás de outro vó.
- Mas me conte, como é o seu patrão? - ela pergunta
E então focalizo meus pensamentos nele hoje quando saiu, vestido com uma calça jeans preta, blusa social de manga preta, enfim todo de preto, a única luz que tem nele são do mel que irradia na cor de seus olhos. Que homem lindo!
- Vó, ele é um homem arrogante, prepotente e um grande babaca. E é só o que tenho para falar.
- Só isso? - ela me encara
- Até o presente momento sim, tivemos pouco tempo hoje. Mas acredito que em breve ele me surpreenderá com muitos outros defeitos. Porque é só isso que aquele homem tem.
Ela me olha e continua a tomar sua sopa, mudo de assunto antes que ela venha com suas pérolas de avó.
Acabamos de jantar, enquanto arrumo a cozinha minha vó foi guardando as louças, sentamos no sofá, assistimos novela e às dez horas da noite já estávamos as duas nos braços de Morfeu dormindo.
[...]
Continua...
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