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Resentment

Resentment

Autor:: _darcklauser
Gênero: Romance
Após anos longe de sua cidade natal, Lorenzo retorna para o funeral de seu irmão, que faleceu inesperadamente. Apesar do tempo que passou longe, ele não consegue deixar de lado o ressentimento que carrega pelos acontecimentos do passado, que o fizeram partir sem olhar para trás. Ao voltar para sua cidade Natal e reencontrar pessoas que marcaram sua história, Lorenzo é confrontado com lembranças dolorosas e segredos que nunca foram totalmente esclarecidos. Enquanto lida com o luto das pessoas à sua volta e o peso do seu passado, ele começa a questionar sua decisão de ter fugido e percebe que, para seguir em frente, será necessário enfrentar seus demônios pessoais e confrontar as pessoas e situações que a fizeram partir. Este livro é uma história emocionante sobre perdão, superação e a busca pela verdade, mostrando como o retorno à origem pode ser uma oportunidade de cura de um ressentimento

Capítulo 1 1 - Welcome back

Lorenzo Ballard | Point Of View

*Última chamada para o voo 272 com destino a Miami*

Respirei fundo e me levantei, Demi me encarou por alguns segundos e caminhamos lado a lado até o portão de embarque. O silêncio entre nós era um ato de respeito dela, minha amiga sabia muito bem que preciso de tempo para processar as coisas.

Nos sentamos e me remexi um pouco desconfortável com alguns olhares curiosos em mim, faz tempo que não utilizo voos comerciais. Porém a urgência e delicadeza da situação, me forçou a tomar medidas drásticas e rápidas. E o fato de terem seguranças em minha volta, chamava ainda mais atenção das pessoas.

Por motivo de força maior eu sempre ando com a minha equipe de segurança. Como agora, dois estão sentados nos bancos da frente e dois atrás. A presença deles chama bastante atenção, mas é mais do que necessário tê-los comigo.

Quando o avião levantou voo, fechei os olhos por alguns minutos e tentei acalmar meu coração. Tem um turbilhão de sentimentos e questionamentos, rondando a minha mente. Em meu peito uma angústia com misto de incredulidade. Fazem quinze anos que eu não vou a Miami, mas jamais pude imaginar que eu voltaria nessas circunstâncias.

A morte do meu irmão gêmeo veio como uma bomba, servindo a marinha a equipe dele sofreu uma emboscada em uma operação. Meu irmão morreu servindo o país, minha mãe sempre me disse que essa era a vocação dele.

- Como você está? – Demi me trouxe a realidade, eu a encarei por alguns segundos tentando encontrar uma resposta para sua pergunta.

- Não sinto nada. – Fui sincero. - Eu tento sentir alguma coisa, mas quando eu penso nele, eu não sinto absolutamente nada. – Era como se meu próprio irmão fosse um completo desconhecido.

- Não se culpe, Enzo. – Demi segurou minha mão e sorriu tentando me tranquilizar. - Depois de tudo que vocês viveram, é compreensível que se sinta assim. – Talvez ela estivesse certa...

A gente compartilhou o mesmo útero por quase nove meses, normalmente irmãos gêmeos têm uma conexão diferente. Mas comigo e o Chris nunca houve essa conexão, me arrisco a dizer que desde o útero ele competia comigo.

Hoje eu volto a Miami por amor à minha mãe, sabendo que não deve estar sendo fácil para ela. Como pai eu me coloco no lugar dela, nós nunca imaginamos que um dia poderíamos ter que enterrar nossos próprios filhos. A ordem dos fatos é que os filhos enterrem seus pais, e quando isso se inverte, a dor é imensurável.

Por isso me colocando no lugar dela, imaginando como seria insuportavelmente doloroso enterrar meu filho, eu decidi que deveria estar presente do lado dela.

- Senhor, as outras equipes notificaram que estão prestes a chegar em Miami. – Warren falou assim que entramos no carro.

- Certo, o apartamento está todo pronto. Eu preciso ir para casa dos meus pais, vamos deixar Demi antes de seguirmos. – Falei com meus olhos vidrados na janela do carro.

- Acabei de soltar uma nota oficial para imprensa, confirmando que seu irmão foi um dos que vieram a óbito no incidente da marinha e que nesse momento você precisa de privacidade para se despedir dele junto a sua família. – Demi explicou, ela digitava freneticamente em seu celular.

- Ótimo, não quero especulações e paparazzis em cima de mim. – Suspirei pesadamente, Miami continuava do mesmo jeito de sempre.

- Alex comentou que Lawrence está bastante agitado. – A cautela na voz de Demi, me fez olhar para ela.

- Eu vou conversar com ele, quero que quando todos chegarem no apartamento você me avise. – Ela apenas confirmou e voltou sua atenção para o celular.

Quando chegamos resolvi subir no meu apartamento, troquei de roupa e desci novamente para a garagem. Entrei no meu primeiro carro que tive na vida, hoje ele está todo reformado. Mas a nostalgia em entrar nele me tomou, me lembrou de quando eu tinha dezesseis anos. Quando meu falecido avô me presenteou com esse carro, eu andava por toda Miami com ele.

Dirigi pelas ruas, vendo que tudo estava assustadoramente igual. O carro dos meus seguranças me guia logo atrás, não tive pressa em chegar na casa dos meus pais. Guiei meu carro pela orla me lembrando do tempo em que eu vivia aqui. Me serviu para relembrar que nem só de momentos ruins esse lugar estava marcado.

Se eu fechasse os olhos eu ainda conseguia ouvir as risadas de Keana enquanto corríamos pela praia, o reggaeton tocando de fundo e o calor me fazendo ficar vermelho.

- Obrigada por ter vindo... – Minha mãe sussurrou no meu ouvido, ainda abraçada em mim.

- Eu jamais te deixaria sozinha nesse momento. – Apertei ela em meu corpo.

Minha mãe soluçou e voltou a chorar, o corpo dela tremia. Eu queria poder chorar assim como ela, sentir a morte do meu irmão e compartilhar desse sentimento com ela. Mas tudo que eu pude fazer foi consolá-la, ficar em silêncio enquanto ela colocava toda a tristeza para fora.

Taylor me ajudou, fizemos minha mãe sentar e demos um calmante para ela.

Ver minha mãe tão abalada mexeu muito comigo, queria poder tirar toda essa dor que ela está sentindo.

Ficamos nós três aninhados no sofá, até ela pegar no sono. Carreguei minha mãe até o quarto, Taylor me mostrou onde era. Deixamos ela descansando um pouco, os últimos dias foram bastante difíceis para ela.

- O nosso pai está na base militar acompanhando Camila, ela foi receber os pertences do Christopher. – Taylor explicou enquanto descíamos as escadas.

- Vai ter um velório, mesmo sem corpo? – Perguntei.

- Acho que não, provavelmente uma cerimônia no enterro. De qualquer forma vou pedir a Paul que chame um médico para ficar à disposição da mama. – Taylor explicou meio aérea, mas concordei com a ideia dela, pois amanhã as emoções serão fortes, prefiro que tenha um médico para pronto atendê-la caso seja necessário.

Quando eu estava descendo o último degrau da escada, meu pai apareceu na porta da sala, assim que ele me notou o olhar dele foi de surpresa. Ele sabia que eu viria, mas pela sua cara de espanto acho que ele tinha suas dúvidas.

Assim como faziam quinze anos que eu não vinha a Miami esse era o mesmo tempo que eu não via o meu pai, sua aparência não havia mudado em nada, ele era o mesmo homem que eu me lembro.

- Oi, Lorenzo! – Sua voz contida e sua postura retraída, mostrava o seu desconforto.

- Pai... – Tentei ser o mais cordial que eu conseguia.

- Que bom que você veio, você está crescido. – Ele sorriu com os olhos cheios de lágrimas.

- Minha mãe precisa de mim aqui, ainda tem os meus sobrinhos que eu nunca tive a chance de conhecer. Estou aqui por eles, e somente por eles. – Dei de ombros e terminei de descer as escadas, tentei disfarçar o impacto que era rever ele depois de tantos anos.

- Entendo, fique a vontade. A casa é sua... – Ele se recompôs e me olhou sem graça. - Bom, se me derem licença, eu ainda preciso fazer algumas coisas.

Ele saiu rapidamente, voltou por onde havia entrado. Taylor suspirou e me olhou sem graça, dei de ombros, afinal de contas, eu sabia que vindo para cá esse momento seria inevitável.

- Taylor, você pode me levar até a casa de Christopher? – Pedi já que não queria conhecer meus sobrinhos somente no dia do enterro.

- Claro, eu vou apenas pegar a minha bolsa. – Ela falou e saiu correndo para buscá-la.

Minha irmã dirigia meu carro com um ar satisfeito, parecia uma criança que acabou de ganhar o seu presente favorito. Ela nos guiou até o subúrbio de Miami, onde tudo era mais simples.

Ela parou em frente a uma casa não muito grande, pra mim era pequena para criar duas crianças. Chris rejeitou todas as tentativas da minha mãe, quando eu quis dar uma casa no mesmo condomínio onde ela mora. Era de se esperar que ele não aceitaria nada de mim, sustentado sempre um orgulho absurdo.

Descemos do carro, eu fiquei parada olhando a fachada da casa. Meus seguranças ficaram dentro do carro observando tudo de lá, eu sinalizei que entraria na casa e eles saíram discretamente olhando tudo.

- Eu sei o que você está pensando. – Minha irmã encostou no carro. - Chris sempre foi orgulhoso, mas não ter aceitado a sua oferta na época tinha um grande significado para ele. – Taylor fez uma pausa tentando encontrar a melhor forma de falar. - Ele só queria fazer as coisas sem depender de ninguém, no fundo ele só queria provar que ele era capaz. – Ela gesticulou nervosa.

- Eu não quero entrar nesse assunto com você, Taylor. Christopher está morto, e eu gostaria muito de enterrar tudo com ele. – Falei seriamente e ela concordou.

- Desculpa.

- Está tudo bem Tay!

Quando eu pensei em falar para entrarmos, a porta da casa abriu e duas crianças passaram como vento. Gritaram o nome da minha irmã e segundos depois estavam se jogando em cima dela, Taylor gargalhou e abraçou os dois.

Tirei minha atenção da cena, para ver a mulher parada na varanda da casa. Era uma latina belíssima, tinha uma expressão cansada como se não dormisse bem há algum tempo. Com certeza é a viúva do meu irmão!

- Crianças, quero que vocês finalmente conheçam uma pessoa... – Voltei minha atenção para eles.

Me agachei e pela primeira vez desde que cheguei aqui, me permiti dar um sorriso sincero. Eles eram mais lindos do que eu via pelas fotos que Taylor compartilhava, os dois se parecem muito comigo.

- Oi! – Falei um pouco tímida.

- Tio Enzo! – Os dois foram tão genuínos, pularam em mim, tive que me equilibrar para não cair.

Confesso que fiquei emocionado com a forma que eles me trataram, apertei os dois em meu corpo. Olhei para Taylor que sorria travessa, eu sabia que ela não deixaria os dois não saberem quem eu sou. Através dela eu sempre mandei presentes e cartões, com certeza ela fez questão de falar de mim para eles.

- Viu Nico eu disse que ele era muito igual a você. – Luna falou assim que nos afastamos.

- Meu olho é igualzinho o seu, tio Enzo. – Sorri com o jeitinho de Nicolas.

- Eu vi, você é muito lindo cara! Na verdade, os dois são lindos. – Eles sorriram.

- Tia Taytay falou que você ia babar na gente. – Eu e Taylor rimos.

- Ela tem razão, eu tenho dois sobrinhos lindos!

Fui rapidamente apresentado a Camila, eu sempre ouvi falar dela. Taylor e minha mãe sempre me falaram muito bem da esposa do meu irmão, confesso que eu ficava muito intrigada em saber quem era a mulher que conseguia aguentar o meu irmão e ainda ter filhos com ele.

Devo dizer que fiquei muito surpreendida, ao encontrar uma mulher muito bela, aparentava ser bem simples uma típica mãe de família. Com certeza uma guerreira, porque aguentar o temperamento instável de Christopher não era para qualquer uma.

Entrei naquela casa onde eu nunca imaginei que um dia fosse entrar, fui apresentado ao quarto das crianças. Todos os brinquedos que eu havia dado estavam ali, enquanto as crianças me mostraram tudo. Taylor e Camila me explicaram que elas instruíram as crianças a não dizerem para Christopher, que eu havia presenteado elas.

Minha irmã decidiu levar as crianças para tomar sorvete, e eu aceitei tomar um café para conversar melhor com Camila.

- Eu sinto muito. – Quebrei o silêncio vendo ela observar a xícara com café fumegante.

- Sente mesmo? – Ela me olhou em dúvida.

- Independente dos meus problemas com Chris, eu sei que ele se tornou um bom homem. E ele tem uma família que ama ele, e que agora tem que lidar com essa perda inesperada. Então sim, eu sinto! – Tentei ser imparcial, não sei até onde e como as coisas do passado foram contadas para ela.

- Está tudo muito confuso ainda, eu não faço ideia de como vai ser agora. – Vi cansaço e preocupação nos olhos dela.

- Eu vou estar aqui, Camila. Você e meus sobrinhos jamais ficarão desamparados, isso eu nunca irei permitir. – Segurei a mão dela, ignorei a sensação estranha que isso me causou.

- Obrigada Lorenzo, mas não sei se deveria... – Ela desfez o contato com delicadeza e pegou sua xícara.

- Ainda está tudo muito recente, mas espere um pouco antes de termos uma conversa em definitivo. – Pedi e ela concordou.

- Você pretende morar aqui, agora que ele se foi?

- Não, vou permanecer até quando eu sentir que minha presença é necessária. – Expliquei bebericando meu café.

- Sua mãe iria gostar, ela sempre me disse que o sonho dela era ter você aqui novamente. – Camila tinha os olhos fixos em mim.

- E infelizmente as circunstâncias que me trazem aqui, não são felizes para ela. – Suspirei.

Tomamos nosso café em silêncio, havia uma troca de olhares entre nós, porém não fui capaz de decifrar o que os olhos dela diziam.

Sentamos na sala e ela resolveu me mostrar um álbum de fotos das crianças, enquanto esperávamos Taylor voltar com elas.

- Você tem ótimas crianças aqui, eles são tão amorosos e receptivos. – Falei vendo uma fotos deles brincando na praia.

- Luna é muito inteligente, ela fala muito bem e sabe se comunicar. Já Nicolas, ele é muito carinhoso e sensível. – Camila tinha um sorriso que uma mãe tem.

- Quero muito que eles conheçam o Lawrence, apesar da diferença de idade, eles vão se amar. – Lembrei que meu filho sempre quis conhecer os primos.

- Oh sim, você tem um filho! – Ela falou batendo na testa. - Que cabeça a minha, sua mãe sempre fala do Lawrence. Qual é a idade dele mesmo?

- Ele tem quatorze anos.

- E ele veio com você?

- Sim, ele estava no Brasil com a mãe e o padrasto. Eles devem ter chegado a poucas horas, eu preferi vim ver minha mãe e vocês logo.

>>>>

O sol já estava se pondo, quando eu e Taylor saímos da casa de Camila. Eu dirigia com um pouco mais depressa, ainda queria levar meu filho em um lugar para conversar.

- Então, o que você achou?

- As crianças são maravilhosas, muito obrigada por falar de mim para elas. – Sorri para minha irmã e voltei a atenção no trânsito.

- E de Camila, o que achou?

- Ela é bem simples, achei ela muito cansada... – Comentei e minha irmã suspirou.

- Posso dizer que Chris sempre foi Chris, nem mesmo Camila e as crianças escaparam disso. – Fiz uma careta.

- Então ela deve ter comido o pão que o diabo amassou.

No restante do caminho fomos em silêncio, não havia muito o que dizer. Eu sabia que a minha irmã também estava sofrendo com a perda do nosso irmão. Deixei ela na casa dos nossos pais, mesmo com vários pedidos para que eu entrasse preferi não entrar. Me despedi avisando que amanhã cedo estaria aqui, e segui o meu caminho.

Quando finalmente cheguei no meu apartamento todos estavam ali, Keana foi a primeira que veio em minha direção e me abraçou. Nós dois sabíamos muito bem o quanto significava estar aqui novamente, abracei ela tentando confortá-la.

Em seguida vi meu menino com os olhos cheios de lágrimas, eu sabia o quanto tudo isso poderia ser confuso para ele. Me sentei do lado do meu filho e o abracei o mais forte que podia, sussurrei em seu ouvido dizendo que tudo bem se sentir daquela forma.

- Sobe e pega um casaco, vamos sair. – Falei para ele.

- Como foram as conversas na casa de seus pais? – Alex perguntou-me olhando sério.

- Complicadas, minha mãe está inconsolável. Taylor parece bem, já meu pai... eu o vi muito rapidamente. – Expliquei.

- Eu não vou mentir, estou aliviada. Menos um crápula no mundo, mas tenho pena da tia Clara. – Keana falou e foi abraçada pela esposa.

- Até eu que não tive o desprazer de conhecê-lo pessoalmente penso da mesma forma. – Victor resmungou.

- É complicado... – Suspirei pesadamente.

- Gente calma lá, apesar de tudo ele é irmão do Lorenzo. Vamos ter cuidado com as palavras, principalmente perto do Lawrence. – Kelly advertiu.

- Vou levar ele no Jack's, mando trazerem lanches para vocês. – Falei me levantando.

Meu filho logo desceu, achei que seria legal se fôssemos de moto e assim que ele viu a minha escolha, logo se animou.

Pilotei pelas ruas de Miami, meu garoto abraçou minha cintura e ria às vezes. Nós temos esse hobbie de andar de moto juntos, obviamente Keana fica louca com isso.

- Eu estou confuso. – Lawrence finalmente falou. – O senhor e a mamãe sempre me contaram tudo, eu jamais duvidaria da palavra de vocês, mas eu queria...

- Conhecê-lo pessoalmente, tirar suas próprias conclusões. – Falei por ele.

- O senhor não fica chateado, papa? – Meu filho me olhou preocupado.

- Jamais. Eu e sua mãe nunca ficaríamos tristes ou magoados, se um dia você nos pedisse para vim conhecer essa parte da minha família. – Falei olhando nos olhos dele. - Nós dois sempre te protegemos de tudo, não queremos que você se machuque. Mas se fosse algo que você sentisse no coração, te entenderíamos.

- Eles nunca vão poder saber da verdade?

- Um dia vamos contar, mas esse não é o melhor momento. Eu e sua mãe não estamos sofrendo pelo passado que tínhamos com ele. Mas tem gente que ama muito o seu tio e está sofrendo com isso.

- Tudo bem, de qualquer forma eu estou feliz em estar aqui. Eu quero conhecer o vovô Michael.

- Você vai conhecê-lo, vamos passar um tempo aqui.

Eu estaria mentindo se afirmasse que me sinto bem em ver meu filho se aproximando do meu pai, todos esses anos e todas as circunstâncias que nos cercaram, me fazem ser egoísta. Mas eu jamais colocaria no meu filho minhas frustrações, se é algo que ele deseja eu vou apoiá-lo.

Toda essa situação é uma bagunça, eu jamais imaginei que meu irmão fosse morrer tão cedo. Bem lá no fundo eu sinto uma sensação estranha, não é o suficiente para eu conseguir definir o que é. Mas posso afirmar, eu sinto muito, sinto por tudo.

- Lorenzo Ballard, o bom filho sempre volta! – Jack gritou chamando a atenção de todo mundo.

O homem de quase dois metros de altura, com sua barrigona, veio sorrindo me abraçar. Me sentindo nostálgica e feliz, abracei o homem e suspirei me sentindo em casa.

- Quanto tempo, Jack! – Afirmei sorrindo.

- Você não mudou nada, continua o mesmo menino de sempre. – Ele disse sorrindo. - E esse garotão aí? Não vai me dizer que...

- Sim, é meu filho. – Abracei Law pelos ombros. - Jack, esse é meu filho Lawrence. – Meu sorriso de orgulho quase se rasgava.

- Olha só, não é que você caprichou no menino. – Jack falou sorridente.

- É um prazer conhecer o senhor. – Lawrence falou todo educado.

- Agora não resta dúvidas, até a educação você puxou do seu pai.

Jack puxou meu filho para um típico abraço de urso, que só ele sabe dar. Ele fez questão de nos atender e ir para cozinha preparar nossos hambúrgueres, aproveitei para contar ao Law que eu e meus irmãos sempre tivemos costume de vir aqui.

De certa forma, voltar para Miami tinha seu lado bom. Com o tempo vou poder mostrar para o Lawrence lugares que marcaram a minha vida, provavelmente Keana faça o mesmo. Miami está lotada de histórias, que valem muito a pena recordar.

Capítulo 2 2 - Hard truths to read

Camila Castellani | Point Of View

Ver o caixão sendo gradativamente baixado e consumido pela terra, fez a ficha cair.

Chris não vai voltar.

É muito difícil, não temos um corpo para velar e o caixão é apenas um símbolo. Isso torna tudo mais difícil de aceitar, meu marido está morto mas seu corpo não estava ali.

Eu assumi os riscos quando aceitei me envolver com um soldado, desde que eu o conheci. Na época, Chris tinha um sorriso sedutor, me ganhou com seu jeito meigo, sorridente e atrapalhado. Nunca escondeu de mim que era da Marinha, quando eu aceitei ficar com ele, eu já conhecia todas as consequências, escolhi conviver com cada uma delas, todos os dias.

Mas há três anos atrás, a ambição do meu marido de ganhar mais dinheiro e de se provar capaz, o fez se inscrever para tornar-se um seal, Christopher passou quase um ano em treinamento e mais dois anos trabalhando em campo, e assim, tudo acabou.

Tive que engolir seco, todas as vezes em que Luna questionava o porquê de não ter o seu pai em reuniões escolares, ou o porquê de não ter quem nos acompanhasse aos passeios no parque quando outras famílias eram "completas".

Mas, era diferente, porque Chris sempre voltava, mesmo que eventualmente. Mesmo que, nunca para "completar".

As informações que me foram dadas são superficiais, as operações especiais da marinha desenrolam-se em total sigilo. O que puderam me contar, foi que a equipe que Chris fazia parte, entrou em um prédio em algum lugar do oriente médio, porém não estavam cientes da existência de bombas no local, por isso, infelizmente, não restaram chances de qualquer fuga. Dez homens morreram na explosão, levaram duas semanas até conseguirem material genético suficiente para identificar as vítimas. Chris era uma delas.

- Mama, o papai não vai mais voltar não é? – Olhei para o meu filho em meu colo, ele não parecia triste.

Bobagem da minha cabeça... apesar de muito inteligente, meu filho ainda é muito novo para entender toda a dimensão do ocorrido.

- Não, meu amor... agora o papai está lá no céu! Mas, parte dele continua aqui... – Apontei para o peito dele e sorri tentando confortá-lo.

A pior parte foi ter que contar para os meus filhos, de onde devo retirar palavras para justificar uma partida sem retorno?

Christopher sempre me disse que receber visitas de oficiais enquanto ele estivesse em campo não era nada bom. E quando eu vi aquele homem fardado parado em minha porta, meu sangue gelou.

Jamais pude imaginar que algo fosse acontecer, eu sempre esperava pela volta do meu marido. Há apenas duas semanas desde a última vez que o vi sair pela porta, ele sorria enquanto dizia que levaria apenas seis meses até o seu retorno.

Eu acreditei fielmente. Esperava pela sua volta.

No final, nunca acreditamos que algo tão angustiante aconteça a alguém tão próximo. A morte é a parte da vida que menos sabemos absorver.

A cerimônia de enterro do meu marido foi repleta de homenagens, Clara e Mike estavam inconsoláveis. Lorenzo e Taylor estavam o tempo todo com eles, os irmãos do meu marido pareciam rochas sustentando os pais.

Nico não saiu do meu colo, meu caçula estava bastante confuso com toda a situação. Luna, por ser mais velha, já entendia melhor. Ela preferiu ficar com meus pais, desde que saímos de casa, não falou absolutamente nada.

A convivência difícil de Christopher em casa, certamente está colaborando para o conflito das crianças... devo confessar que também me sinto da mesma forma.

- Eu sinto muito, senhora Castellani, o seu marido foi um grande homem. – Um general da marinha veio prestar suas condolências.

- Obrigado. – Agradeci e ele logo se foi.

- Isso está parecendo um circo, todo mundo sabia que Chris tinha o temperamento de uma garotinha durante a puberdade. – Dinah comentou em um tom baixo, olhei para baixo e vi que Nicolas estava adormecido. - Sem contar com aquilo ali... – Ela apontou disfarçadamente para meu cunhado. - Desde quando aquele ali se importa? É muita cara de pau dele aparecer aqui.

- Dinah, por favor! Fazem muitos anos desde a traição. Seria pior se ele deixasse a mãe dela sofrendo. Ele está aqui para ajudar. – Repreendi minha melhor amiga.

- Você tem razão... e outra, existem grandes possibilidades dessa história ser falsa. Conhecíamos o seu marido e... o histórico duvidoso dele. – Olhei chocada para Dinah, que arqueava as sobrancelhas parecendo não se importar. - Eu só estou dizendo que toda história tem dois lados... – Deu de ombros acenando cinicamente para Lorenzo, que estava nos observando à distância.

Ficamos em silêncio, algumas pessoas vieram se despedir, me dizendo suas últimas palavras de conforto.

Não devem imaginar que estou longe de me sentir reconfortada.

Longe...

>>>>>

Michael e Clara convidaram a minha família e alguns amigos mais próximos para almoçarmos na casa deles. Esse tipo de recepção após o enterro era muito comum na tradição americana. Por mim, seguiríamos a tradição cubana, cada um iria para sua casa encarar eu luto sozinho.

Estou exausta, prestes a desabar... E se eu ao menos pudesse, negaria o convite dos meus sogros e iria direto para casa.

Com a morte repentina de Chris, muitas complicações começaram a se alastrar pela minha mente. Preocupações das quais eu não precisava lidar antes, já que Chris era quem resolvia tudo.

Claro, por insistência dele...

Fui arrancada dos meus pensamentos ao ouvir as gargalhadas dos meus filhos e do filho de Lorenzo.

Parei para prestar mais atenção em Lawrence, o menino era extremamente parecido com o pai. Seus trejeitos também lembravam um pouco do meu Nicolas.

- Como se sente, mi cielito? – Virei meu rosto e vi minha mãe se sentando ao meu lado.

Encarei a mulher mais velha, mordi meu lábio tentando encontrar uma resposta convincente.

- Eu não sei, mama... a ficha ainda não caiu. – Suspirei e deitei minha cabeça no ombro dela.

- Eu sei que é difícil, hija, mas precisamos acreditar nas constantes melhorias que o tempo ocasionam às nossas vidas. – A voz doce da minha mãe, seu acolhimento me traziam paz.

- No fim das contas, você tinha razão... – Falei rindo sem humor.

- Não vamos falar sobre isso agora, eu e seu pai estamos aqui e vamos te ajudar em tudo. – Beijou a minha têmpora enquanto acariciava os meus cabelos.

Pouco tempo antes da notícia chegar, eu e minha mãe estávamos tendo nossa milionésima briga, ela não aceitava me ver tão presa à vida que aceitei para mim e refém das circunstâncias impostas pelo casamento. Mama queria que eu enfrentasse Chris e fosse trabalhar, insistia que eu precisava ter uma vida.

Agora suas palavras fazem total sentido e demonstram que mamãe sempre teve razão, afinal, como vou sustentar meus filhos somente com a pensão do exército?

- Aquele é o Lorenzo? – Minha mãe perguntou, apontando para o hispânico.

- É sim, mãe. Ele nos visitou ontem... – Falei vendo-a se aproximar das crianças.

- Ele é bem diferente do que eu imaginava.

Fiquei quietinha nos braços da minha mãe, ela me passava conforto e alívio no meio desse caos. Mas meus olhos ainda se mantinham presos no irmão gêmeo do meu marido, que brincava distraidamente com as crianças.

Lembrei-me do que Chris me contava, apesar de gêmeos, suas semelhanças são pouquíssimas. Ambos dividiram o mesmo útero, mas não o mesmo saco gestacional.

A leveza nos movimentos de Lauren, não lembram em nada o jeito desajeitado de Chris. Uma vez Taylor deixou escapar uma piadinha sobre os dois, que na época eu não entendi.

"- Eles são como o pink e o cérebro... – Taylor murmurou baixinho e riu."

- O almoço está servido. – Clara falou tentando sorrir.

Fomos para a mesa, Nicolas e Luna estavam eufóricos com a presença de Lorenzo e Lawrence. Tanto que quiseram se sentar ao lado deles, meu cunhado me tranquilizou dizendo que cuidaria de tudo. Eu resolvi deixar somente pelo fato de que a presença dele, parece estar fazendo bem para eles.

Lorenzo encaminhou os dois e o filho para lavarem as mãos, eu apenas me sentei e deixei que meu pai me servisse.

Quando os quatro chegaram à mesa, Lorenzo colocou comida para os dois. Observei em silêncio, ele tentando fazer Luna experimentar brócolis.

- Eu não sei não, Lolo. – Minha filha parecia indecisa.

- Vamos fazer assim, eu vou colocar um bem pequeno. Se você provar e realmente não gostar, tudo bem. – Lorenzo tinha uma doçura e calma em sua voz, e pareceu convencer minha filha.

- Tudo bem titio, mas só um! – Diante da afirmação da minha filha, Lorenzo sorriu terminando de servir o prato dela.

De canto eu assisti meus pais observando toda situação com surpresa, já que eles tentaram diversas vezes fazer com que Luna experimentasse brócolis, mas nunca tiveram sucesso.

- Lolo me ajuda aqui. – Meu filho pediu, ele visivelmente estava agoniado por não conseguir cortar sua carne.

- Calma rapazinho, eu vou te ensinar... – Lorenzo falou calmamente e se posicionou atrás do meu filho.

Com toda paciência do mundo ela explicou para ele como deveria segurar os talheres, ajudou ele a cortar um pedaço e deixou que o mesmo tentasse sozinho.

Dinah me cutucou me fazendo assustar, não havia notado que ela se sentou ao meu lado. Minha melhor amiga silenciosamente quis me mostrar a forma como Lorenzo tratava meus filhos, eu apenas dei de ombro.

Ele só está fazendo tudo isso porque Chris morreu, antes quando ele ainda estava vivo, ele nunca teve coragem de aparecer aqui.

Quem não deve, não teme... e pra mim, Lorenzo temia muito. Por isso nunca mais voltou para Miami. Certamente ela não conseguiria encarar o próprio irmão, depois de tudo que ele fez.

O almoço foi quase silencioso, as crianças falavam algumas coisas, porém não passava disso. Todo mundo notava o olhar conflituoso de Michael em Lorenzo, ele almoçava sem tirar os olhos do filho.

Quando todos terminaram de comer, minha mãe subiu com Clara e meu pai sumiu pela casa com Michael. Durante esses anos eles se tornaram grandes amigos, não era pra menos, depois que comecei me envolver com Chris, Taylor e Sofia engataram um namoro que dura até hoje.

Me sentei perto da piscina, aproveitei um pouco do silêncio mesmo que minha própria mente seguisse me tirando a paz.

Notei que Lorenzo se aproximava com cautela, meu cunhado se sentou ao meu lado mas não disse uma palavra sequer. Só agora eu notei que ele parecia tão em conflito quanto eu, era totalmente perceptível sua inquietude.

Respirei fundo quando vi Dinah se aproximando, silenciosamente eu rezei para os deuses pedindo ajuda. Hoje parece que a minha amiga está mais impossível que de costume...

- Atrapalho? – O olhar debochado de Dinah, me fez olhar seriamente para ela.

- Não. – Falei sem tirar os olhos dela, tentando fazê-la entender que era para pegar leve.

- Não tivemos a chance de sermos apresentados, eu sou Dinah Jane, vulgo melhor amiga da Camila. – Dinah estendeu a mão para Lorenzo, que analisou por alguns segundos antes de apertar.

- Eu sou o... – Ele tentou falar mas Dinah fez questão de interrompê-lo.

- Lorenzo Ballard, eu sei... todo mundo conhece a sua fama. – Fiz uma leve careta, tentando disfarçar o meu constrangimento.

O silêncio entre era constrangedor, as feições duras de Lorenzo e a minha amiga que não tirava seus olhos dele. Eu me sentia no meio de uma possível catástrofe, e para piorar não parecia que eu pudesse fazer algo para mudar.

- Então Lorenzo, como é voltar aqui depois de tantos anos? – Dinah perguntou, e automaticamente eu queria esganar ela. - Deve ser difícil ter que lidar com tudo isso, e ainda tem todo aquele passado conturbado... – Puta merda!

- Esse não é o momento para você ou qualquer outra pessoa, tentar tocar em um assunto que não lhe diz respeito. – Lorenzo olhou para Dinah, com fogo nos olhos. - Creio que não te ensinaram a não se meter no que não é da sua conta, Dinah Jane. – Lorenzo disse com calma e se levantou. - Se me derem licença...

Olhei para minha melhor amiga, e pela primeira vez eu vi que ela havia ficado sem graça com a resposta de Lorenzo.

- Bem feito, eu disse para você não se meter nisso. – Falei dando um tapa na coxa dela.

- Eu não sei o que realmente aconteceu... mas para ele ter agido assim...

- Dinah! Por favor, pela milionésima vez. Esquece esse assunto! – Fui taxativa, pois estou cansada demais.

- Me desculpe, eu sei que está sendo difícil para você. – Dinah sorriu sem graça e me abraçou.

- Só para de implicar e insistir nesse assunto, já estou me sentindo mal por deixá-lo tão próximo. – É como se eu estivesse traindo a memória do Chris... – Estou me forçando a isso por ver que ele está fazendo bem para as crianças, e agora é isso que realmente importa...

Mesmo com as minhas dúvidas, meus sentimentos de repúdio por saber o que ela fez com o Christopher. Ele está aqui, está ajudando e parece que suas atitudes são genuínas. Eu não posso ser egoísta e tirar isso dos meus filhos, e é indiscutível o bem que ela está fazendo para eles.

Sem contar que todos nós prometemos para ele, que nunca tocariamos nesse assunto com a família dele. Tudo que aconteceu foi doloroso demais, rachou a família Ballard por anos. Chris morreu sem ter a chance de ver novamente o irmão, provavelmente ele nunca a perdoou. Seria terrível nós tocarmos nessa ferida, logo agora em um momento tão triste.

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Fechei meus olhos, eu estava no total escuro do meu quarto. Meus pais levaram as crianças para casa deles, insistiram para que eu fosse também. Mas eu precisava desse tempo sozinha, e aqui no silêncio do meu quarto eu chorei.

Chorei porque apesar de tudo, eu gostava muito do meu marido e não queria que as coisas tomassem esse rumo.

Me lembrei dos últimos planos dele, ele vendeu a picape e muito em breve a gente ia começar a ampliar a casa. Chris sempre foi esforçado, orgulhoso, mas esforçado.

Ele tinha tantos planos, e agora tudo se acabou.

Chorei por medo de não saber se vou dar conta de tudo sozinha, por temer não conseguir um emprego.

Peguei no sono consumida pelo cansaço, com certeza se eu pudesse, dormiria até que tudo se acalmasse novamente. Mas era óbvio que esse era um dos meus desejos que jamais poderiam se concretizar.

Quando acordei pela manhã, tudo estava silencioso, mas não era um silêncio bom. Fiquei por um tempo deitada na minha cama pensando nas milhares de coisas que precisava fazer e resolver, quando alguém da família morre o que resta é muito mais do que um luto profundo, pois existem muitas questões a resolver, mas no meu caso parece pior.

Afinal de contas eu passei esses últimos anos confiando e dependendo total e exclusivamente de Christopher provendo tudo que eu e as crianças necessitamos na medida das possibilidades dele.

Me levantei já eram dez da manhã, fiz um café forte e tomei comendo algumas torradas enquanto refletia e traçava um plano de como e por onde eu começaria organizar a minha vida e dos meus filhos. Mesmo que eu quisesse muito me postar e deixar que o luto me derrube junto com todos os problemas, eu não poderia jamais me permitir a isso.

Luna e Nicolas são meus maiores incentivadores, para que eu encare de frente todos esses problemas e me esforce ao máximo para resolvê-los...

- Viemos ver como você estava, ficar sozinha não é bom para você nesse momento. - Ally falou carinhosa, me olhando com extrema empatia.

- Obrigada meninas, mas eu estou bem... estou tentando organizar minha mente primeiro antes de encarar tudo que eu tenho que resolver agora. - Falei soltando um suspiro longo.

- Eu sei que tudo que aconteceu foi de forma repentina, ninguém estava pronto para tudo isso, especialmente você. Mas estamos do seu lado, vamos passar por isso do seu lado, dando todo o suporte que você precisar. - Mani segurou minhas mãos e suas palavras me trouxeram conforto.

- Em alguns dias eu tenho que comparecer na base onde Christopher servia, depois disso eu vejo como vou fazer. - Falei pensativa, pois eu teria que começar a procurar um emprego.

- Primeiro tire um tempo para processar tudo, a morte de Christopher foi tão repentina e o enterro foi tudo tão rápido e você precisa desse tempo para que a ficha caia e você possa processar tudo na sua mente. - Ally instruiu e eu assenti.

Olhei em direção da minha melhor amiga que estava parada no batente da porta da sala, ela segurava uma xícara de café e escutava tudo em silêncio com uma feição fechada.

- Tudo bem, Dinah? - Perguntei fazendo a mesma sair dos seus pensamentos e focar seus olhos em mim.

- Sim, eu estava pensando... o que acha de você e as crianças ficarem uns dias lá em casa? A Maya vai amar ter os primos em casa. - Ela perguntou com cautela.

- Eu prometi para os meus pais que ficaria com eles, eu estava organizando algumas roupas, o material escolar das crianças e remédios para ficarmos uns dias com eles. - Expliquei e minha melhor amiga apenas maneou a cabeça positivamente.

As meninas ficaram mais um pouco, mas logo tiveram que ir embora cumprir seus compromissos, afinal de contas a vida segue independentemente de quem morreu.

Terminei de arrumar minhas coisas e as crianças e liguei para meu pai, infelizmente eu não tenho carro. Ele não demorou para estacionar o carro dele na porta de casa, depois de trancar tudo e colocar as bolsas no carro, seguimos para casa dos meus pais.

Enquanto meu pai dirigia pela cidade, ele passou pela orla da praia e eu aproveitei a brisa fresca do mar para fechar meus olhos e deitar minha cabeça na janela do carro. Silenciosamente eu rezei, pedi para que tudo se ajeitasse na minha vida e dos meus filhos.

Capítulo 3 3 - Half-truths and many lies

Lorenzo Ballard | Point Of View

*Christopher Michael Ballard. 1988 - 2020 "Bom pai, filho, marido e patriota."*

Meu peito queimava consumido pela dor que eu tentei ignorar, eu olhava para a lápide do meu irmão. Um desespero me consumia, havia muito acumulado no meu peito.

Eu estava ali sozinha, então soltei. Chorei de forma desesperada, jogando para fora toda a dor.

- Droga Christopher! – Gritei em meio às lágrimas. - Mas que droga! – Perdi as forças das pernas e me ajoelhei.

Chorei ali sentindo pela primeira vez, tudo que eu havia guardado por tanto tempo. Misturado com o pesar de ter perdido meu irmão, e o medo de não conseguir...

- Eu te amava, e você estragou tudo! – Olhei para a lápide, meus olhos estavam embaçados.

- Mas você estragou tudo, e eu nem pude me despedir de você. – Murmurei.

Me levantei mesmo em meio ao protesto das minhas pernas, deixei um buquê de flores. Olhei ao redor, só havia eu e meus seguranças que estavam espalhados.

- Eu vou cuidar de tudo, mesmo que isso signifique a minha ruína. – Prometi sabendo que essa promessa acabaria comigo.

Corri até o meu carro, comecei a dirigir de forma imprudente. Minha mente inundava com memórias que eu lutei muito para reprimir, eu chorava como um bebê enquanto acelerava ainda mais o carro.

Por um minuto passou pela minha cabeça a possibilidade de acabar com tudo...

Entregar os pontos e deixar o caos para quem ficasse.

Eu queria ser egoísta, queria deixar tudo para trás. Mas eu sabia que não podia fazer isso, eu precisava ser forte.

Mas de onde eu tiraria essa força?

Olhei pelo retrovisor e vi o carro dos meus seguranças tentando me acompanhar, continuei dirigindo como se isso fosse aliviar tudo que estou sentindo.

Depois de um tempo encostei o carro em frente à uma praia, estava deserta. Hoje era um dia atípico em Miami, estava chovendo e os ventos bem fortes.

Minha mente não era capaz de pensar qualquer coisa coerente, eu só queria que meu peito parasse de queimar. Queria parar de sentir, queria não chorar pela morte de Christopher...

Andei pela areia e caminhei em direção ao mar, a agitação dele me passava um pouco de paz. Por isso não me importei em entrar nele, de roupa e tudo.

Me sentei na areia em um ponto que as ondas quebravam e molhava meu corpo, fiquei observando o mar tentando me reorganizar.

Eu queria muito ser levada pela fúria do mar, para acabar de uma vez por todas com todos esses sentimentos ruins dentro de mim, toda essa bagunça que eu não sei como resolver.

Eu não me importaria se fosse levada pelo mar... não me importava em morrer assim!

Observei uma grande onda se formando no horizonte, ela vinha em minha direção de forma inevitável. Eu permaneci ali parado à mercê de sua fúria, me sentindo pequena diante daquela imensidão.

Mas eu estou conformado, toda minha vida foi marcada pelas ações dos outros. Essas mesmas que nunca me deram a chance de me proteger, de fazer algo para que não me ferissem.

Fechei os olhos ouvindo o som do mar, sentindo a água bater no meu corpo.

Senti a presença de alguém do meu lado e vi Keana se sentar ao meu lado, ela deitou a cabeça no meu ombro e suspirou. Ter ela aqui comigo me ajudou a me reorganizar, me lembrando que apesar de tudo a gente sempre vai ter um a outro e o nosso bem maior que é o nosso filho.

- Eu sei que é tudo muito confuso, eu também me sinto da mesma forma que você! – Keana chorava e me abraçando pelos ombros. - Eu sei que você está sofrendo, sei que toda essa merda é pesada demais para você. – Comecei a chorar também, porque diante dela não havia motivos para me esconder.

- A gente vai passar por isso juntos. – Ela me abraçou forte.

- Como sempre fizemos...

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Keana dirigia em silêncio, meu carro estava sendo guiado por um dos seguranças logo atrás de nós. Nós estamos completamente encharcados e com frio, só não estamos congelando graças ao aquecedor do carro.

- Não queria que o nosso menino me visse assim. – Falei assim que entramos na rua do nosso prédio.

- Ele saiu com Demi e Victor, eles levaram ele até a Siesta Key. – Fiquei mais aliviada.

- Eles voltam hoje? – Sondei pensando na reunião que quero fazer amanhã.

- Sim, elas foram até uma pizzaria que juram ser a melhor pizza de Miami. – Keana falou risonha e nós duas negamos com a cabeça.

- Se elas foram de carro, vamos ter que requentar a pizza. – Dei de ombros.

- Elas foram com o helicóptero. – Trocamos um olhar cúmplice.

Chegamos em casa e fomos direto para o banho, enquanto a água quente caia sobre meu corpo eu pude repensar nas minhas atitudes.

Depois de tudo que aconteceu e agora com a morte dele, causar mais uma tragédia não vai ajudar em nada.

O que está acontecendo não é sobre mim...

Encostei minha cabeça no vidro do box, respirei fundo. Preciso ser forte, preciso pensar na minha família, eu preciso ter calma.

Nossa mente nasce sabendo como lidar com a perda, mesmo que essa perda seja grave ao ponto de nos baquear. Eu tenho que me apegar de que com o tempo, a minha mente lide e se acostume com essa perda.

Christopher era meu irmão gêmeo, mas as atitudes do passado acabou tornando ele um desconhecido. Tantas mágoas, tantas mentiras, tantas coisas encobertas e não ditas... tudo isso nos levou a caminhos diferentes.

Só que isso não diminui a dor que eu tentei a todo custo camuflar. O vazio que nunca mais será preenchido. O pesar por saber que a minha esperança de um dia olhar para o meu irmão e encerrar toda aquela merda e seguirmos em frente, morreu junto com ele naquela explosão.

A impotência por saber que eu, que projeto tantas coisas, que crio tantos equipamentos que deixam milhares de pessoas seguras, não fui capaz de fazer algo para proteger o meu próprio irmão.

E por último o medo porque eu sabia, que no instante que os meus pés pisaram em Miami novamente. Uma caixa onde todos os acontecimentos de quinze anos atrás, foi exposta. E uma hora ou outra eu vou ter que abri-la, expô-la assim como uma ferida mal curada, e lidar novamente com tudo.

- Papa! – Ouvi meu filho bater na porta.

- Oi amor. – Falei alto, desligando o chuveiro.

- Tia Demi pediu para avisar que chegamos com as pizzas. – Ele falou animado.

- Tudo bem, eu já estou descendo. - Puxei a toalha e comecei a me secar.

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- Eu vou entender se vocês quiserem voltar para São Francisco, mas eu preciso de mais tempo aqui. – Me inclinei no encosto da cadeira e dividi meu olhar entre todos ali.

- Lorenzo, nossos trabalhos estão interligados. Sem contar que somos uma família, eu não sei vocês... mas eu e Alex vamos a ficar. – Keana foi taxativa.

- Keana está totalmente certa, somos uma família e vamos permanecer juntos. – Kelly afirmou.

- Nem precisamos nos lembrar de Londres de 2016... – Lucy comentou sorrindo.

Nessa época nós nos mudamos para Londres, quando Victor e Lucy tiveram problemas familiares. Nós somos uma família, moramos no mesmo condomínio e sempre estamos todos juntos. Quando elas tiveram problemas, não fazia sentido ficarmos aqui. Sem contar que nossas funções estão interligadas.

- O condomínio onde fica a casa de Taylor é meu, lá tem casas o suficiente para todos nós nos acomodarmos. – Falei já pensando na logística.

- Amanhã eu vou entrar em contato com a administradora do condomínio e acertar tudo, por enquanto estamos bem no apartamento. – Alex falou enquanto anotava algo em sua agenda.

Fiquei quieto observando eles se organizarem, a maioria das nossas reuniões são assim. Todos falando ao mesmo tempo, na nossa confusão todas se entendem.

Sorri agradecido, porque são poucas pessoas que podem dizer que tem duas famílias, e eu sou um dos sortudos.

Saí dos meus devaneios vendo que Taylor me ligava, atendi minha irmã que nem esperou que eu falasse qualquer coisa.

- Pelo amor de Deus, me diga que não está ocupado com algo sério! – Taylor estava ofegante.

- Não, Tay, estou finalizando uma reunião de família. – Falei me levantando para me afastar do falatório.

- Ótimo, porque eu preciso de você. – Saí da sala e continuei escutando minha irmã. - Hoje eu fiquei de acompanhar Camila até o quartel, ela precisa assinar alguns papéis e formalizar toda a burocracia da pensão que vai receber. – Taylor explicou rapidamente.

- Certo e onde eu entro nisso?

- Estou com um imprevisto com os clientes da Ucrânia, tem como você ir no meu lugar?

- Posso sim, onde encontro Camila?

- Você tem que buscá-la em casa, ela está sem carro há alguns meses. – Fiz uma leve careta.

- Tudo bem, deixa comigo.

Desliguei a chamada e avisei para todos que sairia sem hora para voltar, escolhi um carro menos chamativo e em menos de cinco minutos eu e meus seguranças já estávamos indo em direção a casa de Camila.

Levamos quase trinta minutos para chegar ao bairro onde Camila e meus sobrinhos moram, enquanto eu dirigia eu pude prestar mais atenção. Duas quadras antes da casa deles, havia um ponto de tráfico, tanto que os homens ficaram de olhos abertos nos meus carros.

Confesso que fiquei bem apreensivo com a segurança deles vivendo aqui, pensando que antes de Christopher morrer, ele passava longos períodos longe de casa.

Só de imaginar os perigos que Camila e meus sobrinhos estão a mercê morando aqui, um arrepio passou pela minha espinha.

Nesses momentos que eu não sinto pena alguma de Christopher, toda aquela arrogância e seu pensamento machista e egoísta, achando que poderia dar conta de tudo. Ele colocou a própria família em um bairro nada seguro, onde eles passavam boa parte do tempo sozinhos.

Ele jamais aceitou as minhas propostas de dar uma casa para ele, no mesmo condomínio onde Taylor mora. Seu ego inflamado nunca deixaria que eu o ajudasse, a teimosia dele nunca deixou ele recuar.

Quando parei o carro em frente a casa de Camila, ela já estava saindo. Ela tinha a aparência mais descansada, parecia nervosa e apreensiva, mas estava bem melhor.

- Oi... – Ela me cumprimentou sem jeito. - Me desculpe por te fazer largar tudo, só para me acompanhar. – Ela corou envergonhada.

- Tudo bem, Camila. Eu estou aqui para te ajudar. – Sorri tentando mostrar que estava tudo bem. - Vamos? – Perguntei abrindo a porta do carona.

- Vamos sim... – Ela passou por mim e entrou no carro. - Obrigada. – Eu apenas sorri e fechei a porta.

Antes de entrar no carro sinalizei para os meus seguranças, informando que já partiríamos.

>>>>>>

- Como estão as crianças? – Perguntei na intenção de quebrar o clima tenso.

Será quase uma hora até a base da Marinha, então seria bem desconfortável ficarmos esse tempo todo como se tivesse um elefante no nosso meio.

- Estão bem! Essa semana a diretora e a psicóloga da escola, acharam melhor deixá-los em casa. – Camila falou meio enrolada, parecendo estar nervosa. - Meus pais levaram eles para ficar na casa deles, eu achei melhor. Assim eu posso organizar tudo, e depois focar somente neles. – Vi rapidamente que ela olhava para as mãos e brincava com os dedos.

- Quando eles voltarem, eu gostaria de passar um tempo com os dois... claro, se não for um incômodo. – Falei me sentindo ridiculamente nervoso.

- Tudo bem, eles amam estar com você. – Respirei aliviado diante da sua afirmação.

O restante do caminho foi silencioso, não estava tão desconfortável como no início, mas ainda sem era um silêncio não havia nada para dizer.

Camila e eu ainda somos completos desconhecidos, que apenas tem vínculos em comum. Eu gostaria que ela me desse a chance de me conhecer de verdade, que soubesse quem eu sou apesar das especulações que eu sei que ela faz em sua cabeça.

Mas eu compreendo que esse não é o melhor momento para que isso aconteça...

Ao chegarmos, fomos direcionados por um soldado até uma grande sala de conferência, dois dos meus seguranças vieram junto, mas ficaram na porta. Eu fiquei bastante surpresa por ver vinte pessoas divididas em pares ali, todas abatidas.

- O que é isso? – Murmurei para mim mesmo, me sentando ao lado de Camila.

Não demorou para que três homens adentrassem na sala, eles subiram em um palco. E começaram a falar sobre a perda do esquadrão que Christopher era integrante, eu observei toda essa palhaçada em silêncio.

- Nós entendemos e lamentamos muito a perda de cada um de vocês... – O General Thompson falava com frieza.

Foram trinta minutos de uma balela que nem mesmo ele acreditava, dava a pra notar seu olhar soberbo e superior.

O fim para mim foi quando um dos seus subordinados passou entregando documentos e canetas para cada representante, quando eu vi que se tratava...

- Espere um pouco... – Falei me levantando e interrompendo a explicação do homem. - Vocês estão fazendo disso uma terapia em grupo, ao invés de ter uma conversa decente com cada um que perdeu seu ente querido. - Ouvi um burburinho atrás de mim, concordando comigo.

- E o senhor quem é? – Um dos homens que entrou com o general perguntou.

- Lorenzo Ballard. – Quando falei meu nome eles ficaram assustados.

- Senhor Ballard, nós sentimos pela sua perda. Se a senhora e a viúva de seu irmão preferirem, podemos conversar em particular quando acabarmos aqui. – O general falou sorrindo amarelo para mim.

- Eu não quero tratamento especial, eu quero que todos aqui tenham um tratamento decente. – Rebati ficando ainda mais irritada. - Cada um presente aqui perdeu alguém que amava, não teve a chance de velar um corpo. E é assim que vocês vão tratá-los?

- Senhor Ballard se acalme, não precisa de escândalos. - Um deles tentou apaziguar a situação

- Até porque você não está na sua multinacional, para me dizer o que eu devo ou não fazer... – O General debochou.

- Eu posso até não estar na minha empresa, mas posso me dar ao trabalho de ir pessoalmente a Washington e ter uma longa conversa com o Almirante Johnson. – Falei olhando bem no fundo dos olhos dele.

- Você não pode falar assim comigo, eu tenho que te lembrar quem eu sou? – Ele praticamente rosnou tentando demarcar seu território. - Isso é desacato e eu posso te prender por isso, e não me importo com quem você é. – Ele sorriu torto achando que conseguiria me amedrontar.

- Você quem está enganado general... – Me inclinei e o encarei. - Quem eu sou me dá plenos poderes de pregar você numa cruz, sujar tanto o seu nome que nem trabalhar como guarda de trânsito, o senhor irá conseguir. – Vi aos poucos o semblante de arrogância dele diminuir. - O senhor quer me prender? Então prenda. Mas imagine só, quando tiver milhares de microfones na sua cara, te questionando o motivo da minha prisão...

- Você não... – Ele gaguejou.

- Eu posso e eu farei, caso você não comece a dar às famílias do esquadrão do meu irmão, o auxílio e respeito que eles merecem.

Nós nos encaramos de forma intensa, esperei que ele desse ordem de prisão para mim, mas não o fez. Eu sorri e me virei para as pessoas que estavam ali.

- Peço perdão pela cena que presenciaram agora, mas eu não posso deixar que todos sejam tratados com tanto descaso. Não quando pessoas da nossa família morreram a serviço do país. – Falei vendo todos emocionados.

- O senhor tem razão, nós nem pudemos enterrar os corpos de nossos maridos. – Uma mulher falou aos prantos.

- Eu prometo que vou resolver tudo isso. – Fui até a porta e chamei um dos meus seguranças. - Esse daqui se chama Kelce, ele vai anotar o nome de vocês e pegar a conta bancária de vocês. Ainda hoje eu vou depositar um valor, para que vocês possam se manter enquanto eu vou pessoalmente a Washington resolver isso.

- Isso é um absurdo! – O general esbravejou, mas eu o ignorei.

- Peguem meu número se necessário, todos vocês sabem onde a Jaguar Corp fica. Então tudo que precisarem podem me ligar ou ir até lá e procurar por Kelce. – Falei.

- Nós nem sabemos como agradecer.

O babaca se deu por vencido, e deixou a sala de conferências e eu pude falar com todos ali, que me agradeceram por falar o que eles não tiveram coragem. Enquanto falava com alguns, de canto eu vi Camila sentada e calada. Ela apenas falava quando alguém dirigia a palavra a ela, dava a pra notar que algo estava errado.

>>>>>

Estacionei na casa de Camila, o silêncio entre nós dois durante o percurso de volta, era quase sufocante. Eu sabia que algo estava a incomodando, mas eu não sabia o que era.

Outro carro parou na frente do meu, duas mulheres desceram, e reconheci a intrometida do dia do velório.

- Está tudo bem, Camila? – Perguntei soltando meu cinto e me virando para ela.

- Não está nada bem. – Ela faz o mesmo e me olhou com raiva.

- O que eu fiz? – Perguntei porque era óbvio, o problema dela era comigo.

- Eu quero que você pare, pare de agir como se você se importasse com Chris. – Não foram as palavras dela que me assustaram, mas sim a agressividade no seu tom de voz.

- Camila eu não quis... – Tentei buscar as palavras certas, mas eu estava constrangido demais.

- Só para! Não precisa vir aqui depois de sei lá quantos anos e fingir que se importava com o meu marido, fazer esse seu papel de defensor, como se você se importasse de verdade com o Christopher. – Camila gritou e cuspiu aquelas palavras como flechas em mim.

- Você não sabe de nada, não tem o direito de agir assim comigo... – Mesmo querendo gritar, eu controlei meu tom de voz.

- O Chris me contou tudo, como o irmão que ele tanto amava foi capaz de o trair com a namorada dele. Quando descobriu que seu caso com ela resultou em uma gravidez, vocês fugiram e nunca mais tiveram a coragem de voltar. – Meu coração errou a batida, minha respiração faltou. - Então você não tem o direito de vir aqui depois da morte dele, fingir que se importa com ele. Não tem o direito de fingir que nada aconteceu, sendo que você nunca teve a coragem de voltar para pedir perdão.

Meu corpo perdeu força, eu escutava a voz de Camila distante, eu estava preso dentro de mim. Eu olhava para ela com a visão embaçada, meu peito parecia ser esmagado.

- Você é uma farsa, um traíra que não devia estar aqui. E eu só aceito a sua presença por causa dos meus filhos e de Clara, mas não aja como se eu não soubesse o quão mal caráter você é.

Camila saiu do carro e bateu a porta tão forte que me fez recobrar os sentidos, me virei, coloquei o cinto e saí com o carro cantando pneu. Consumida por um ódio tão grande, dirigi até a casa de Taylor torcendo para ela estar lá.

Quando eu parei o carro ela estava chegando, minha irmã estacionou o carro e veio sorrindo até a mim. Mas seu sorriso morreu quando viu as minhas feições, ela se aproximou preocupada.

- O que o Christopher saiu falando por aí? – Taylor me olhou preocupada. - E Taylor, eu quero a porra da verdade!

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