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Ressurgindo das Cinzas

Ressurgindo das Cinzas

Autor:: Nalva Martins
Gênero: Romance
Alberto Village conheceu de perto a dor da traição e se apaixonar outra vez com certeza não está nos seus planos. Após uma temporada em Londres para afastar seus pensamentos da única mulher que amou na vida e que lhe destruiu da forma mais sórdida possível, ele precisa voltar ao Rio de Janeiro para o casamento do seu irmão caçula, Alex Village. "De volta ao poder" Ele pensou. "Como senti saudades disso!" Entretanto, Alberto não contava com o fato de encontrar sua secretária, Valquíria Drumond em um momento doloroso de sua vida. Seu instinto de proteção é ativado e Alberto já não consegue deixá-la sozinha. * Duas vidas completamente opostas. * Dois corações quebrados. * E um amor improvável. Venha mergulhar na intensidade do mais um livro da Série Amores Improváveis da autora Nalva Martins.

Capítulo 1 1

QUANDO TUDO COMEÇOU.

Acordo meio atordoado e abro os meus olhos com dificuldade. Imediatamente a minha cabeça começa a latejar e sinto minha boca seca. Noto que ainda estou deitado no tapete do meu quarto e forço-me a levantar do chão. Meu corpo inteiro está dolorido. Com um rosnado estrangulado, olho ao redor do cômodo e observo os vestígios dos meus momentos mais insanos. Seu perfume derramado pelo chão, pedaços de suas roupas espalhados por todo o lugar e algumas joias destruídas. Com pesar, seguro um pequeno broxe de pedrinhas verdes em formato de uma borboleta e deslizo o meu polegar pelo objeto delicado por algum tempo. A recordação do nosso encontro casual me vem a memória no mesmo instante.

(...)

- Vamos mamãe, tenho certeza que a senhora vai amar esse restaurante! - comentei, tentando animá-la.

Desde que papai faleceu a dois anos e meio, Clara Village perdeu o gosto pela vida. Então eu e meu irmão Alex nos revezamos em passeios para que ela não se sinta sozinha. Na entrada do restaurante, alguém esbarrou forte contra o meu corpo e vi a jovem quase indo ao chão, devido ao impacto da colisão. Segurei firme a garota pela cintura e nossos olhos se encontram de um jeito impactante.

- Desculpe! - Ela sibilou, sentindo-se constrangida. Por algum motivo, aquilo me fez sorri. - Eu não o vi se aproximar.

- Não tem problema... - Esperei que se apresentasse para concluir a minha frase.

- Ângela, Ângela Simões.

- Ângela. O nome faz jus a pessoa. Parece um anjo - comentei. Ela sorriu.

- Me chamo Alberto Village, e esta, é a minha mãe, Clara Village. - Por algum motivo, a garota parecia apressada.

- Me desculpe, Alberto. Posso chamá-lo assim, não é?

- Claro.

- Eu preciso que ir, estou atrasada.

- Tudo bem, senhorita, Simões...

- Ângela, me chame apenas de Ângela.

- Tudo bem, Ângela! - Seu sorriso se ampliou e ele era... lindo! Então ela faz um gesto e eu concordei, dando-lhe passagem. Contudo, quando passou por mim, olhou para trás e me sorriu outra vez.

(...)

Falsa! Ordinária! Traidora de merda! Resmungo frustrado e aperto o broxe na palma da minha mão. Você desgraçou com a minha vida! Com um rugido forte, por conta da dor infernal, levanto-me do chão e vou para o banheiro. Faço minha higiene bucal no automático e quando termino, encaro o homem do outro lado do espelho. Eu não me reconheço nele. É um homem sem vida, sem alegria, vazio e sem expectativas. Abro o chuveiro e deixo a água morna banhar o meu corpo. Tenho vontade de chorar, mas me recuso a derramar mais uma lágrima por ela. Não mais, nunca mais! Minutos depois, pego minha mala e vou para porta de saída do meu quarto, mas antes de sair, dou mais uma olhada naquela imagem patética e saio fechando a porta atrás de mim. São seis da manhã e todos ainda devem estar dormindo. Entro no escritório da casa e ligo o computador. Primeiro, envio uma mensagem para Valquíria, minha assistente e explico que preciso me ausentar por tempo indeterminado, e deixarei Alex, meu irmão, assumindo o meu lugar na presidente da Village Exportation Ltda. Conto com seu auxílio nessa nova jornada com meu irmão caçula, já que sua experiência é resumida as funções de CEO. Depois, envio várias mensagens paras nossos sócios e acionistas, dando-lhes uma desculpa plausível para minha ausência repentina e quando termino, vou até o bar de canto e me sirvo um copo de uísque. Bebo de uma só vez, o líquido, que em nada diminui a dor em meu peito. Acredito que nada conseguirá tirar essa dor de dentro de mim. Terei que aprender a conviver com ela. Encho o meu copo mais uma vez e vou para sala, enquanto tomo um gole da bebida e Alex aparece no topo da escadaria. Ele me lança um olhar especulativo, olha para o copo em minha mão, mas não diz nada, apenas caminha em minha direção.

- Você está bem? - pergunta. Sinto um pouco de receio em sua voz e isso me deixa com mais raiva ainda. Não quero a pena dele, eu não preciso disso.

- Vou viajar - aviso com um tom áspero, ignorando a sua pergunta. Só então ele percebe a minha mala no canto da parede.

- Para onde você vai, Bel? E a empresa?

- Já falei com Valquíria, você assume o meu cargo por enquanto.

- Mas...

- Alex, eu preciso de um tempo só pra mim. Preciso reorganizar minha cabeça e não conseguirei fazer isso dentro daquelas paredes. - O interrompo. Relutante, ele assente. - Prometo que ligarei pra você diariamente. Valquíria vai ajudá-lo no que for preciso - falo. Meu irmão me abraça e eu retribuo o seu gesto. Entretanto, minha vontade agora é de sumir desse lugar, de desaparecer no mundo.

- Estarei aqui para você, sabe disso, não é? - sussurra se afastando e me olha nos olhos. Apenas balanço a cabeça em um gesto positivo. Meus olhos estão queimando com as lágrimas que insistem em querer derramar. Respiro fundo, pego a minha mala e sigo para o aeroporto.

_________________

(...)

- Sabe, estive te olhando a algum tempo... - comentei. Ela se virou de frente para mim. Seus cabelos ruivos e longos se balançam com o movimento. Então me lançou um olhar surpresa, que me fez rir.

- Ah, você por aqui? Que surpresa!

- pois é! É aniversário de um dos meus sócios. Você está acompanhada?

- Sim, vim acompanhando do meu primo Santiago. - Ângela apontou para um jovem do outro lado do salão conversando com alguns empresários do ramo hoteleiro. Volto o meu olhar para ela e sorrio.

- Ângela, não é? - perguntei. Ela assentiu. - Me dá o prazer dessa dança? - Convidei e fui agraciado por mais um sorriso. Esse além de lindo, era sedutor.

- Claro! - Ela segurou a minha mão estendida e eu a guiei para a pista de dança.

- Devo dizer que você está perigosamente linda essa noite! - sussurrei no seu ouvido. A garota afastou o seu rosto do meu e me olhou com um brilho nos olhos. Seus lindos olhos verdes me prenderam e parecia revelar os meus maiores segredos.

- Obrigada, Alberto! - sussurrou de volta e inevitavelmente, sorri largamente.

- Você lembrou.

- Como esquecer um nome tão forte e um homem como você? - Arqueei as sobrancelhas curioso com o seu comentário.

- Um homem como eu?

- Você é um homem muito sexy, Alberto. É elegante e determinado, e sabe o que quer - disse com um tom baixo e devo dizer que rouco também.

- Como pode dizer com tanta precisão tudo isso de um homem em apenas um esbarrão e uma dança? - Brinquei. Ela me abriu mais um sorriso sedutor e tocou o meu rosto apenas com o indicador. O simples toque me causou um frisson.

- Sou boa em ler as pessoas.

(...)

- Senhor? Senhor? - Acordo com a aeromoça do meu lado me chamando.

- Sim? - falo me ajeitando no banco.

- Iremos aterrissar em alguns minutos, por favor aperte o seu cinto!

- Claro, obrigado! - digo atordoado. Respiro fundo, lembrando do sonho que acabara de ter. Suas últimas palavras martelaram dentro da minha cabeça.

Sou boa em ler as pessoas.

- E com certeza você leu a palavra "trouxa" em minha testa! - rosno para mim mesmo.

Olho pela pequena janela do avião e encontro um dia está claro e sem nuvens. Daqui é possível ver uma Paris minúscula lá em baixo. Como a aeromoça avisou, em alguns minutos aterrissamos em solo francês. No aeroporto, faço o check-out, pego minha mala na esteira e caminho direto para um ponto de táxi. Paço o endereço do hotel onde fiz minha reserva e logo estamos no trânsito. Penso na noite passada, em suas palavras sedutoras dirigidas ao meu irmão, trancados naquele maldito escritório. As imagens do seu corpo colado ao dele, enquanto o seduzia me invadem a minha mente e as lágrimas querem vir à tona. E mais uma vez não permito. - Não vou chorar. Não por você. Nunca mais! - sussurro para ninguém em especial. Observo através da janela do carro as pessoas andando apressadas pelas calçadas, praticamente se esbarrando umas nas outras e respiro fundo mais uma vez.

- Nous sommes arrivés, mossieur. - O motorista avisa que chegamos.

- Merci! - digo e pago a corrida. Um empregado do hotel se aproxima para pegar a minha mala, assim que saio do carro e sigo para o elegante hall do hotel Valbecour. - Bonne après-midi! Jai une réservation ao nom d'Alberto Village. - aviso para a moça atrás do balcão.

- Oh! Oui M. Village! Voici votre clé.

- Merci! - Pego o cartão-chave em seguida e sigo para o elevador.

Enquanto aguardo o meu andar, olho para os números vermelhos a cima da minha cabeça para passar o tempo. Em alguns segundos estou no vigésimo andar, em frente ao quarto 3.400, passo o cartão na porta e entro. O rapaz deixa a minha mala em um canto de parede, no quarto e lhe dou uma gorda gorjeta.

- Merci, mossieur! - Ele sai sorridente.

Capítulo 2 2

Já são quase duas da tarde e bufo, olhando para o cômodo quase vazio, sem saber ao certo o que fazer. Vou até o bar de canto e me sirvo uma dose generosa de uísque. Bebo cada dose observando a grande Paris através dos vidros transparentes das paredes do enorme quarto de hotel. O líquido amargo parece adoçar a minha alma amargurada. Tomo mais um gole e caminho pelo ambiente ansioso demais. Algumas horas depois, estou sentado em uma poltrona, com a garrafa de uísque vazia em uma mão e um copo menos da metade da bebida na outra. Tomo o resquício do meu copo e sinto o meu estômago reclamar.

Droga, não comi nada desde ontem a noite e confesso que não sinto fome. Não quero nada, eu só quero que a porra dessa dor passe logo.

( ... )

- Você é muito linda, Ângela, e muito gostosa também! - sussurro. E droga, eu não consigo não me maravilhar com esse sorriso lindo que insiste em abrir para mim! Meus olhos passeiam ávidos por seu corpo nu, deitado em minha cama e em meus braços. Estamos suados e ofegantes, pois acabamos de fazer um sexo extremamente gostoso, quente e selvagem.

Ângela é uma felina na cama.

Começo a deixar beijos cálidos em sua pele, deixando minha mão passear deliberadamente por seu corpo nu.

- Hum! E você também não é nada mal... - cantarola com a voz arrastada, acariciando o meu peitoral, passando as suas unhas vermelho-escarlate em minha pele. Pego a sua mão e beijo a sua palma.

- Está com fome? - Ela faz um sim, com a cabeça. Deslizo o meu corpo por cima do seu e pego o telefone do outro, em cima do criado mudo. Ligo para o restaurante do hotel e peço algo especial para nós dois e um bom vinho para acompanhar.

- Que tal me dá um pouco mais de você, enquanto o nosso pedido chega? - sugere, levando a sua mão para as minhas partes íntimas, me fazendo rosnar imediatamente. Sorrio safado e tomo a sua boca em seguida, acariciando seus seios grandes e macios nas minhas mãos.

( ... )

- Merda! - Acordo sobressaltado e com uma respiração pesada. Percebo que ainda estou na poltrona e me levanto. Em um surto de raiva, jogo o copo contra uma parede e ele se quebra em mil pedaços. - Porra de mulher que não sai da minha cabeça! - grito exasperado e volto para o bar de canto. Pego outro copo e encho até a borda. Bebo como se fosse água, largando o objeto em cima do balcão do bar em seguida, e sigo para um banho, sentindo a minha cabeça girar. Livro-me das roupas e as deixo caídas pelo chão, e entro com pressa debaixo do chuveiro frio, passando horas no banho, tentando lavá-la do meu sistema. É inútil! Penso. Quando saio do banheiro vejo que já é fim de tarde e resolvo ligar para o Alex.

- Como você está? - pergunta assim que atende o telefone. Bufo internamente.

- Estou bem, Alex! Estou ligando apenas para avisar que já cheguei.

- Tá!

- Tudo bem... eu vou...

- Bel? Promete que não ficar trancado nesse quarto - pede. Levo uma mão aos cabelos e deslizo pelos fios. - Procura manter a sua mente ocupada e... sei lá... sai um pouco. - Tenho vontade de perguntar se ela apareceu, se perguntou por mim, mas desisto. É melhor não ter notícias. É melhor ficar longe, será mais fácil esquecê-la... eu acho. - Bel?

- Tá! Eu prometo.

Como meu irmão sugeriu, decido sair um pouco, respirar um ar puro e quem sabe assim, consigo me livrar do seu fantasma. Às ruas de Paris a noite inspira romance. Suas luzes brancas, suas praças. E agora me lembro do porquê comprei essas malditas passagens. Eu tinha planos de curtir cada cantinho desse lugar com ela. Andar de charrete, enquanto a beijaria por todo o tráfego. Levá-la a ponte dos desejos. Nos abraçar enquanto caminhamos por alguma praça.

- Porra, Alberto, você não está ajudando em nada, caralho! - Bufo audivelmente.

Já escureceu e continuo minha caminhada pelas ruas parisienses, até encontrar um lugar para me distrair. Entro em uma boate que está lotada para um início de noite e vou direto para o balcão. Peço uma bebida e quando estou no meu terceiro copo, uma loira se senta no balcão ao lado. Ela sorri e me lança olhares.

- Oi, posso me sentar aqui? - pergunta. Dou de ombros e tomo um gole do meu uísque, tirando os meus olhos dos seus, e fito o outro lado do balcão.

- Claro, fique à vontade! - digo sem emoção.

Quase como um homem de gelo. Penso. Foi nisso que ela me transformou.

Ela pede uma daquelas bebidas coloridas com canudinho de guarda-chuva, suga um ou dois goles e me olha com um sorriso tímido.

- Está sozinho? - Insiste em puxar uma conversa. Assinto sem muito interesse.

- Como você ver - ralho seco.

- Você não é muito de falar, não é?

- Só não estou interessado. Me desculpe! - rebato ríspido e seu sorriso morre.

- Hum, deixe-me ver. Ela te deu uma rasteira e você decidiu que o mundo não presta e que vai beber até morrer.

- Ela? - A garota dá de ombros.

- Só pode ter sido uma mulher.

- Quer saber?

- Olha, cara, se ela te deu um pé na bunda, dá a volta por cima. Se entrega a diversão, viva um dia de cada vez. Acredite, não é assim que vai esquecê-la. - Porra!

- Para o seu governo, eu mandei ela embora e quanto a me divertir... O que você sugere? - pergunto cheio de insinuações e ela sorri maliciosamente.

- Primeiro, vamos encher a cara. Segundo, vamos dançar a noite toda e terceiro, se você quiser é claro, vamos transar até o dia amanhecer.

Direto ao ponto. Talvez ela esteja certa. Sorrio.

- Você é maluca, menina! Você não me conhece e já fez todas as propostas possíveis.

- Não se preocupe. Eu sei ler as pessoas e nunca erro! - diz com um piscar de olhos. Eu só consigo pensar que ela acabou de foder tudo apenas com essa maldita frase! Meu sorriso morre no mesmo instante e me levanto do banco, jogando uma nota de 100$ no balcão.

- Não vai rolar! - digo carrancudo. Ela fica séria e faz cara de quem não entendeu nada.

- Ou! Eu disse alguma coisa errada?

- Não. Eu é que sou a pessoa errada e no lugar errado - resmungo me afastando da garota.

Até que era bonitinha e eu estava disposto a aceitar a sua proposta. Mas ela fala demais!

Capítulo 3 3

O PASSADO ME ATORMENTA.

(...)

- Val, onde você está menina? - Escuto minha mãe me chamar e imediatamente corro para as escadas, antes que ela se aborreça e me bata. Mariana bebeu a noite toda e quando voltou para casa, já era madrugada e como sempre, estava acompanhada de um "amigo".

Desde que o meu pai morreu, há cinco anos e meio, ela tem vivido de farras e sempre volta com uma companhia diferente. Desde os meus treze anos, tenho que aguentar suas bebedeiras e a violência contra mim.

Toda essa raiva é por que Mariana me culpa pela morte do meu pai.

- Valquíria, onde você se meteu? Se não aparecer aqui agora, já sabe o que vai receber! - grita.

Abro a porta do porão e a vejo em pé na sala. Seus olhos avermelhados indicam que se drogou. Respiro fundo, porque sei que não será nada fácil li dar conta da sua bebedeira es efeitos da drogada ao mesmo tempo.

- Estou aqui mamãe. - Forço-me a responder e apareço em seu campo de visão.

Ela me olha irritada e anda em minha direção com passos vacilantes e quando se aproxima, segura firme os meus cabelos, puxando-os com força.

- Onde está o meu café da manhã, sua vadiazinha de merda? - pergunta bem próximo do meu rosto. O cheiro forte da bebida me sufoca no mesmo instante. Meus olhos queimam com as lágrimas querendo se formar devido à dor em minha cabeça. - Estou com fome, vá fazer a minha comida agora!

Mariana me empurra com força, e caio no chão, o impacto me faz bater a cabeça no pé da mesa de centro. Um homem entra na sala segundos depois. Inevitavelmente observo a sua barba espeça, os cabelos compridos e cacheados. Ele é alto e tem uma barriga protuberante. Seus olhos azuis também estão vermelhos como os da minha mãe.

Atordoada, forço a levantar-me do chão e sigo apressada para cozinha.

- Sua filha é uma delícia Mariana! - Escuto-o dizer e sinto um arrepio na minha espinha dorsal.

(...)

- Val? Val, acorda! - Sobressalto ao escutar a voz da Sil me chamando e respirando com dificuldade, me sento na cama. No mesmo instante sinto os seus braços me envolver e uma mão desliza suavemente pelas minhas costas.

Sil é minha amiga de quarto faz um bom tem. Dividimos um pequeno apartamento de um quarto, bem próximo ao centro do Rio de Janeiro. Quando cheguei aqui no Rio, a família de Sil me ajudou bastante. Eles pagaram alguns cursos e supletivos para eu terminar meus estudos, para que eu não precisasse da minha mãe para nada.

- Acordei você outra vez? - indago assim que me sinto mais calma. - Eu gritei muito?

- Não. Na verdade, eu estava indo beber água quando percebi que você estava tendo mais um pesadelo. Solto um suspiro.

- Obrigada, Sil! - digo e engulo em seco. - Que horas são? Ela olha o relógio em seu pulso.

- Falta uma hora e meia para seu horário de trabalho. - Merda! Xingo mentalmente, sentindo-me frustrada.

- Nesse caso, vou tomar um banho e preparar algo para comermos. Está de folga hoje?

- Estou. Acho que vou aproveitar para fazer umas compras de roupas para mim, estou precisando. Quer que eu traga algo pra você? - Forço um sorriso para a minha amiga.

- Não, obrigada!

Vou até uma cômoda, no canto do quarto e tiro o meu uniforme e o arrumo com cuidado em cima da minha cama e em seguida, entro no banheiro. Tomo um banho rápido e me arrumo sem muita pressa. Em meia hora irei para empresa de exportação Village. Sou assistente do senhor Alberto Village. Um emprego maravilho que o pai de Sil conseguiu para mim. Eu tinha dezoito anos quando comecei a trabalhar na empresa e já tem quatro anos que trabalho para o grupo Village. Alberto é um ótimo patrão! Ele me ensinou tudo o que sei sobre exportação e contratos. E não posso negar que é um homem muito bonito, além de sério e focado em seu trabalho. Admiro a sua dedicação e tudo que faz com muita excelência.

Apesar de o seu trabalho ser algo muito sério, ele ainda exigir muito si, mas sem se desfazer do seu humor extraordinário. E se tem algo me deixa fascinada é o fato de Alberto Village trata bem os seus funcionários. Deu para perceber que sou sua fã número um, não é?

Como ainda é muito cedo, abro o meu notebook e a minha caixa de e-mails em seguida, encontrando inúmeras mensagens de clientes da empresa, da tia Júlia, a mãe da Sil e uma do meu chefe. Curiosa, clico para abrir sua mensagem.

Alberto Village, CEO da Village Exportation Ltda.

Bom dia Val!

Estou saindo de viagem para França,

e não tenho dia para voltar.

Meu irmão, Alexander assumirá o meu lugar.

Por favor, ajude-o no que precisar.

Respiro fundo. Alex é um bom rapaz, mas estou me perguntando como ele dará cabo daquilo tudo? A final a Village é um monstro da exportação e para domá-lo exige esforço e tempo. Espero saber lidar com ele. Penso. Saio do meu quarto e encontro Sil na cozinha.

- Já está de pé? - pergunto. Ela dá de ombros e me abre um meio sorriso.

- Perdi o sono, então preparei alguns sanduíches naturais e suco de laranja para nós duas. - Sorrio abraçando apertado a minha amiga.

- Obrigada, Sil! Se eu tivesse uma irmã, gostaria que fosse igual a você! - falo assim que me afasto. Seu sorriso se amplia e ela vem para mais perto, para outro abraço carinhoso.

- Faz tempo que não tem pesadelos como o de hoje. O que houve? - questiona preocupada. Dou de ombros.

- Não sei. Ontem no centro, vi uma mulher muito parecida com a Mariana. Talvez tenha desencadeado algo em mim.

- É, talvez. Amanhã é o aniversário de Alisson, quer ir comigo?

- Acho que não, Sil. - Ela revira os olhos.

- Val, você precisa sair um pouco. Como vai arrumar um namorado trancada nesse apartamento? _ Solto o ar de modo audível.

- Não sei se quero arrumar um namorado agora.

- Vamos, você pode dançar um pouco, beber algo, se distrair. - Ela insiste.

- Prometo que pensarei no seu convite.

- Você sempre diz isso e nunca vai - resmunga. Termino o meu café da manhã e me levanto da cadeira, levando o prato e o copo para pia.

- Se já sabe, não sei porque insiste - ralho.

- Por minha meta é fazê-la se divertir e encontrar alguém para chamar de seu. - Minha amiga cantarola e eu solto uma lufada de ar. Termino de lavar a louça e ponho para escorrer.

- Já parou para pensar que pode não ser isso que quero no momento?

- Claro que você quer! Toda garota quer isso para a sua vida, Val.

Quando conheci a Sil, havia acabado de fazer dezoito anos. Eu fugi de casa e estava nervosa, com fome, suja e perdida, sem saber para aonde ir e nem o que fazer.

Sil apareceu no lugar certo e na hora certa. Tia Júlia e tio Paulo faziam projetos sociais para ajudar crianças carentes que viviam nas ruas e aos poucos, foram se aproximando de mim e me ajudaram. Sua primeira atitude, foi me incentivar a terminar os meus estudos, a fazer alguns cursos e o resto vocês já sabem...

- Estou saindo - aviso, enquanto seco as minhas mãos.

- Você ainda tem uma hora. Não é muito cedo?

- Doutor Alberto Village vai se ausentar da empresa por tempo indeterminado e seu irmão mais novo ficará no seu lugar. Tenho que ir mais cedo para ajudá-lo no que precisar - explico, enquanto pego as minhas coisas e as ponho na bolsa.

- Aquele Alberto Village é um gato! Lindo não, é a molesta! Imagino como seria o irmão daquela perdição. - Ela comenta sonhadora, abrindo um par de olhos pidões, me fazendo rir e menear a cabeça negativamente. - O quê? Vai me dizer que você nunca olhou para o seu chefe como eu olhei?

- Ele é um homem muito bonito mesmo, seria cega se não reparasse - retruco.

- Bonito? Bonito? - Sil ralha exasperada. - Ah! Val, por favor! O homem é um tesão de lindo!

- É você quem está dizendo! - retruco, levando a minha bolsa ao ombro e sigo para a saída.

- Sério, Val, você é lésbica? - indaga com sarcasmo e com humor, lhe mostro o meu dedo do meio.

- Não me espere para almoçar. Não sei como será o meu dia hoje no escritório - aviso e fecho a porta atrás de mim.

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