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Retorno da Cova: Resgatando Meu Coração Traído

Retorno da Cova: Resgatando Meu Coração Traído

Autor:: Sarah
Gênero: Moderno
Voltei para São Paulo depois de três anos, não para buscar perdão, mas para morrer. Minha família, que me culpava pela morte da minha mãe, me expulsou. Eles me substituíram por uma órfã quieta e grata chamada Gabriela. Ela roubou o amor do meu pai, o carinho do meu irmão e meu namorado de infância, Caio. Agora, com uma doença terminal, meu único desejo era recuperar o vestido de noiva da minha mãe. Uma última parte dela para me agarrar. Mas Gabriela ia usá-lo para se casar com Caio. Quando a confrontei, ela destruiu o medalhão da minha mãe e me amaldiçoou, desejando que eu caísse morta. Cega de fúria, eu lhe dei um tapa. Ela gritou, esfaqueou o próprio braço e me incriminou pelo ataque. Enquanto minha família e Caio me olhavam com nojo, me chamando de maníaca, meu corpo cedeu. Eu desabei, tossindo sangue, minha doença secreta revelada da maneira mais brutal possível. "Vocês sempre me culpam", eu disse com dificuldade, as palavras borbulhando com sangue. "Mas eu só estava... morrendo." Seus rostos se encheram de um horror crescente, mas era tarde demais. Eu já tinha partido. Até que abri os olhos novamente, e minha mãe, que esteve me esperando o tempo todo, pegou minha mão. "Nós vamos renascer", ela prometeu, seus olhos ardendo de fúria contra a família que me destruiu. "Juntas. Como mãe e filha, de novo."

Capítulo 1

Voltei para São Paulo depois de três anos, não para buscar perdão, mas para morrer.

Minha família, que me culpava pela morte da minha mãe, me expulsou. Eles me substituíram por uma órfã quieta e grata chamada Gabriela. Ela roubou o amor do meu pai, o carinho do meu irmão e meu namorado de infância, Caio.

Agora, com uma doença terminal, meu único desejo era recuperar o vestido de noiva da minha mãe. Uma última parte dela para me agarrar. Mas Gabriela ia usá-lo para se casar com Caio.

Quando a confrontei, ela destruiu o medalhão da minha mãe e me amaldiçoou, desejando que eu caísse morta. Cega de fúria, eu lhe dei um tapa. Ela gritou, esfaqueou o próprio braço e me incriminou pelo ataque.

Enquanto minha família e Caio me olhavam com nojo, me chamando de maníaca, meu corpo cedeu. Eu desabei, tossindo sangue, minha doença secreta revelada da maneira mais brutal possível.

"Vocês sempre me culpam", eu disse com dificuldade, as palavras borbulhando com sangue. "Mas eu só estava... morrendo."

Seus rostos se encheram de um horror crescente, mas era tarde demais. Eu já tinha partido.

Até que abri os olhos novamente, e minha mãe, que esteve me esperando o tempo todo, pegou minha mão. "Nós vamos renascer", ela prometeu, seus olhos ardendo de fúria contra a família que me destruiu. "Juntas. Como mãe e filha, de novo."

Capítulo 1

Meu retorno a São Paulo não foi anunciado com festa ou mesmo com boas-vindas cautelosas. Foi marcado pelas manchetes cruéis que me seguiram por três anos, um fantasma em todos os grandes jornais: "A Ovelha Negra dos Alencar Retorna: Bianca Poole, a Famosa Maníaca de São Paulo, de Volta à Terra Natal."

Os artigos se apressaram em lembrar a todos do meu passado. Eles me pintaram como uma força destrutiva, uma rebelde imprudente que despedaçou sua influente família. Eu sabia que a maioria das pessoas ficou aliviada quando parti. Respiraram fundo, como se uma tempestade finalmente tivesse passado. Eles viram o caos, os escândalos, as prisões, e me julgaram.

Eu já fui uma figura constante nas colunas sociais deles. Uma jovem bailarina promissora, uma herdeira dos Alencar. Depois, me tornei um tipo diferente de celebridade: aquela cujos surtos eram públicos, cuja dor era usada como arma contra ela, cuja sanidade estava sempre em questão. Agora, após anos de silêncio, o zumbido familiar do escrutínio público começava a soar novamente. Minha reaparição era uma ferida fresca, um novo escândalo esperando para acontecer.

Mas eu não estava aqui por eles. Não estava aqui para reconciliação, ou mesmo vingança. Eu estava aqui por um túmulo. Um lugar de descanso final, bem ao lado da única pessoa que já me amou de verdade.

Minha primeira parada não foi a imponente mansão da família ou as ruas movimentadas do centro. Foi o verde silencioso e sereno do Cemitério do Morumbi. O ar aqui era sempre diferente, sussurrante e respeitoso. Um contraste gritante com o barulho da cidade e o ruído dentro da minha própria cabeça. Meus pés conheciam o caminho de cor, me guiando por fileiras de mármore polido e pedra gasta até que eu o alcancei. O túmulo da minha mãe.

"Oi, mãe", sussurrei. As palavras ficaram presas na minha garganta, com gosto de cinzas. A pedra estava fria sob meus dedos. Parecia que o mundo tinha acabado ontem, e ainda assim, uma vida inteira de dor se desenrolou desde então.

Uma sombra caiu sobre mim. Eu não precisei me virar para saber quem era. O cheiro de perfume caro, a postura rígida, o silêncio que falava volumes de desaprovação. Bruno. Meu irmão mais velho.

"Bianca", sua voz era seca, sem calor, como uma camisa perfeitamente passada sem um corpo dentro. "O que você está fazendo aqui?"

Eu não respondi imediatamente. Meus dedos traçaram o nome gravado. Eleonora Poole Alencar. O nome que eu carregava, mas o amor que perdi. O que eu estava fazendo aqui? Eu estava morrendo. Lenta, dolorosamente, de dentro para fora. Câncer de estômago terminal. Um segredo que eu carregava, mais pesado que qualquer uma das acusações lançadas contra mim.

Eu tossi, um som seco e áspero que vibrou no meu peito. Senti uma pontada familiar no abdômen, uma dor surda que parecia zombar de cada movimento meu. Era uma companhia constante e indesejada, um lembrete do relógio correndo dentro de mim.

"Só visitando", eu finalmente disse, minha voz rouca, tentando uma leveza que eu não sentia. Era um velho hábito, desviar com sarcasmo, um mecanismo de defesa aprimorado ao longo de anos de guerra emocional. "Sabe, a reunião de família de sempre. Edição lápide."

Ele permaneceu imóvel, uma estátua de julgamento. Esse era o Bruno. Sempre julgando, sempre desaprovando. Lembro-me de uma época em que seu olhar continha admiração, quando ele era meu protetor, meu confidente. Isso foi antes da mamãe morrer. Antes que o amor em seus olhos se transformasse em gelo, substituído por um ressentimento frio e duro que parecia me culpar por tudo. Fazia anos que eu não via nem um vislumbre do irmão que um dia conheci.

"Você não volta há três anos", ele afirmou, não uma pergunta, mas uma acusação. "E agora, de repente, decide nos agraciar com sua presença?"

Eu queria gritar, atacar, dizer a ele o porquê. Rasgar minha camisa e mostrar as cicatrizes, os hematomas desbotados das cirurgias, a magreza sob minhas roupas. Esfregar meus prontuários médicos na cara dele, fazê-lo ver a verdade. Mas qual era o sentido? Ele não se importaria. Ninguém nunca se importou.

"Eu decidi", respondi, dando de ombros, tentando parecer indiferente. Mas minhas mãos tremiam levemente, um sinal revelador da tempestade que se agitava dentro de mim. Meu corpo, antes um recipiente de graça e movimento, era agora uma jaula de dor e fraqueza.

"Quando você chegou?", ele pressionou, seus olhos examinando meu rosto, como se procurasse por algo, talvez um sinal da "maníaca" que ele acreditava que eu era.

Notei o pequeno medalhão de prata manchado em sua mão. O medalhão da mamãe. Aquele com uma pequena bailarina gravada na frente, um presente que ela me deu no meu quinto aniversário. Meu coração se apertou, uma dor familiar. Ele não deveria tê-lo. Era meu.

"Ontem", murmurei, meu olhar fixo no medalhão. "Bem a tempo do aniversário, certo? Tenho certeza que todos vocês tiveram uma bela reunião. Sem mim, é claro."

Seu maxilar se contraiu. "Tivemos. E você não estava lá. De novo."

"Por que eu estaria?", retruquei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Para ser culpada? Para ser lembrada de como eu arruinei tudo?"

"Você ainda guarda esse ressentimento, não é?", a voz de Bruno estava carregada de um cansaço que quase soava como pena, mas eu sabia que não era. Era apenas outra forma de acusação.

Ressentimento? Não. Não mais. Não por eles, de qualquer maneira. Eu estava cansada demais para isso. Perto demais do fim para desperdiçar meus preciosos suspiros restantes com raiva. O único ressentimento que eu guardava era pela mão cruel que o destino me deu, pela doença que estava roubando meu tempo restante. Mas eu não podia dizer isso a ele.

A verdade era que eu não comparecia às reuniões deles porque o ar em nossa casa de família me sufocava. O silêncio, as acusações não ditas, os fantasmas do que um dia fomos. Era demais. A picada amarga da rejeição deles, sua fria indiferença, havia cauterizado meu coração há muito tempo.

No meu oitavo aniversário, tudo que eu queria era o bolo perfeito - um bolo de morango com cobertura extra. Mamãe, com seu amor e paciência infinitos, prometeu buscá-lo, mesmo que isso significasse atravessar a cidade sob uma chuva repentina. Ela nunca mais voltou. Um motorista bêbado. Uma carcaça de metal retorcido. E meu mundo, meu tudo, se estilhaçou em um milhão de pedaços.

Meu pai, Fernando, um homem cuja dor se transformou em uma fúria fria e dura, olhou para mim como se eu tivesse pessoalmente arrancado seu coração. Bruno, meu irmão mais velho, seus olhos espelhando os do nosso pai, não viu uma criança de coração partido, mas a causa. O desejo inocente por um bolo de aniversário, torcido em uma exigência monstruosa que levou à morte dela. Eles nunca disseram em voz alta, não diretamente, mas seus olhos, seu silêncio, sua retirada absoluta de afeto, gritavam isso. Eu tinha oito anos e havia matado minha mãe.

Eles pararam de me amar então. Eu senti isso, profundamente, como uma amputação física. E então, um ano depois, veio Gabriela. Uma garota que mamãe apadrinhava, de origem humilde. Depois que mamãe morreu, eles a adotaram. Ela era tudo que eu não era: quieta, obediente, grata. Eles a cobriram com a bondade que um dia me deram, a bondade que eu agora desejava como oxigênio.

Eu assisti, uma observadora silenciosa, enquanto ela deslizava sem esforço para o meu lugar. Meu quarto, minhas roupas, os olhares de aprovação do meu pai, os sorrisos gentis de Bruno. Eu lutei, das únicas maneiras que uma criança ferida e negligenciada sabia. Eu me rebelei. Quebrei regras. Gritei por atenção, por uma migalha do amor que eles davam tão livremente a Gabriela. Eles me chamaram de "difícil", "indisciplinada", "louca".

Bruno zombou, me puxando de volta para o presente. "Você certamente mudou. Menos... teatral." Ele me olhou, um brilho de algo indecifrável em seus olhos.

Eu tinha mudado. A garota que antes ansiava pela validação deles, que fazia birras e quebrava coisas apenas para ser vista, se foi. A doença me despojou dessa necessidade desesperada, deixando para trás uma casca oca, calma em sua rendição. Não havia espaço para o amor deles, ou o ódio deles, diante do que estava por vir. Eu estava além de me importar com a aprovação deles. O amor deles havia sido retirado de forma tão completa, tão brutal, que meu coração simplesmente aprendeu a bater sem ele.

"É, bem", eu disse, uma risada seca presa na garganta, "três anos no exílio tendem a fazer isso."

Ele se mexeu, um toque de constrangimento em sua postura. "Papai quer que você volte para casa. Só... por um tempo."

Casa. A palavra tinha gosto de veneno. Minha casa era um campo de batalha, um lugar onde cada canto guardava uma memória de traição, de um amor perdido e uma vida roubada.

A mídia, é claro, adorou. "Bianca Poole: A Herdeira Louca", "A Filha Escandalosa", "A Maníaca de São Paulo". Eles se deleitavam com cada acusação que Gabriela fabricava, cada fofoca, cada incidente encenado.

Lembrei-me do pior, três anos atrás. Gabriela, com seus olhos inocentes e coração venenoso, fingiu um sequestro por uma gangue local. Ela apontou um dedo trêmulo para mim, alegando que eu havia orquestrado tudo, movida pelo ciúme. Meu namorado de infância, Caio Dodson, que um dia fora meu defensor mais feroz, ficou ao lado dela, seus olhos duros de acusação. Ele havia acreditado nas mentiras dela, assim como todo mundo. Foi ele quem quebrou minha perna, uma fratura brutal que encerrou minha carreira de balé, uma carreira que minha mãe havia nutrido com tanto cuidado. "Você é um monstro, Bianca", ele rosnou, seu rosto contorcido de nojo ao ver o terror fingido de Gabriela.

Meu pai, Fernando, acreditou em todos eles. Ele me internou em um hospital psiquiátrico, assinando os papéis sem um olhar, seu rosto uma máscara de desdém frio. "Você está doente, Bianca", ele disse, sua voz seca. "Você precisa de ajuda."

Quando finalmente saí, uma casca do que eu era, eles se foram. Todos eles. Eles me deserdaram, me cortaram completamente. Não havia casa para voltar, nenhuma família para salvar. Deixei São Paulo, não por escolha, mas porque simplesmente não havia outro lugar para ir. Eu não tinha ninguém. Estava totalmente sozinha.

"Casa?", repeti, a palavra um eco amargo. "Que casa, Bruno? Eu deixei de ter uma há muito tempo." Minha voz falhou na última palavra, uma ponta de emoção crua que eu não pretendia revelar. Meu peito se apertou e senti uma onda de náusea. Isso era demais. Tudo isso. As memórias, a dor, a fria indiferença.

Eu precisava sair. Agora. Antes que eu desmoronasse completamente. Antes que eles vissem a real extensão do dano, as rachaduras na minha fachada cuidadosamente construída. Dei um passo para trás, meu olhar endurecendo, me afastando da beira do colapso emocional. Eu não lhes daria essa satisfação.

"Eu tenho que ir", eu disse, minha voz mal passando de um sussurro, meus olhos piscando para os contornos borrados da cidade, qualquer coisa menos o rosto dele. Eu podia sentir a pressão familiar se acumulando atrás dos meus olhos, a ardência de lágrimas não derramadas. Eu não choraria. Não aqui. Não na frente dele. Nunca mais.

Bruno me observou, sua expressão indecifrável, e por um momento fugaz, pensei ter visto um brilho de algo que se assemelhava a... arrependimento? Mas desapareceu tão rápido quanto apareceu, substituído pela frieza familiar. Ele não disse nada. Ele simplesmente me deixou ir.

Era isso. O começo do fim. E eu tinha que enfrentar, assim como enfrentei tudo o mais - sozinha.

Capítulo 2

Bianca Poole POV:

Não. A resposta era uma recusa silenciosa e veemente que ecoava nas câmaras ocas do meu coração. Eu não voltaria para aquela casa, para aquelas pessoas. Não depois de tudo.

O aviso do hospital chegou naquela manhã, um envelope branco e austero cheio de palavras frias e impessoais. Minha cobertura do plano de saúde estava acabando. Os tratamentos experimentais, os exames intermináveis, os cuidados paliativos - tudo custava dinheiro, dinheiro que eu não tinha muito mais. Meu fundo fiduciário, a herança da minha mãe que deveria garantir meu futuro, ainda estava bloqueado, inacessível. E havia a outra parte, a razão pela qual eu realmente precisava voltar: o vestido de noiva da mamãe. A obra-prima feita sob medida que ela usou, confiada a mim antes de sua morte. Era o único elo tangível que me restava com ela, e era meu por direito.

Então, apesar do "não" gritando na minha cabeça, meus pés me levaram de volta. De volta à imponente propriedade dos Alencar, uma mansão que um dia pareceu um lar, agora uma gaiola dourada de memórias dolorosas. Os portões de ferro forjado, familiares, mas ameaçadores, se abriram lentamente.

Bruno estava esperando na entrada, as mãos enfiadas nos bolsos de seu terno sob medida. Ele estendeu a mão, um gesto de conforto hesitante, mas eu recuei, um reflexo nascido de anos de hematomas emocionais e físicos. Ele viu, o recuo quase imperceptível, e sua mão caiu, pendendo desajeitadamente no ar.

"Só tentando te ajudar com a mala", ele murmurou, seu olhar fixo em algum lugar sobre meu ombro. O ar entre nós era denso, pesado com palavras não ditas, com anos de mágoa e ressentimento.

"Eu consigo", respondi, minha voz seca, segurando minha pequena mala de viagem com mais força. Eu preferia carregar meus próprios fardos, físicos ou não. Era mais seguro assim. Menos expectativa, menos decepção.

A viagem do cemitério para a casa foi silenciosa, o carro de luxo um casulo de tensão. Agora, o silêncio se estendeu novamente enquanto caminhávamos pelo grande hall de entrada, passando pelos retratos de ancestrais que eu mal reconhecia, em direção ao coração da casa.

Então, uma voz, doce como mel, afiada como uma navalha. "Bianca! Você realmente voltou!"

Gabriela. Seus olhos, grandes e aparentemente inocentes, continham um brilho predatório que eu conhecia muito bem. Ela desceu a escadaria imponente, uma visão em um vestido pastel, seu sorriso muito brilhante, muito perfeito. Ela me abraçou, um abraço rápido, quase superficial, mas senti a tensão calculada em seu corpo, o triunfo mal contido. Ela achava que tinha vencido.

Ela achava que eu estava aqui para reivindicar meu lugar, para lutar por uma família que há muito me descartara. Ela achava que eu ainda era a mesma garota frágil e insegura que ela manipulou com tanta facilidade. Mas ela estava errada. A garota que ela conhecia se foi, substituída por alguém oco, alguém que não tinha mais luta para batalhas triviais. Minha doença tirou muito, mas também me deu uma estranha paz, uma aceitação que transcendia seus joguinhos mesquinhos. Minhas prioridades mudaram. Tudo que eu queria agora era morrer em paz, perto da minha mãe.

"É bom te ver, Gabriela", eu disse, minha voz calma, quase distante. Meu olhar piscou para o anel de noivado brilhando em sua mão esquerda. Era um diamante substancial, um símbolo de tudo que ela havia roubado de mim.

Fernando, meu pai, saiu de seu escritório, sua presença ainda tão imponente como sempre, mas seu rosto gravado com novas e cansadas linhas. Ele acenou secamente para mim, um reconhecimento distante. Sua frieza era um peso familiar, uma constante em minha vida turbulenta. Ele era a força imóvel, o arquiteto do meu exílio, e sua indiferença era um escudo atrás do qual aprendi a viver.

Eu não perdi tempo com gentilezas. Meus olhos examinaram os arredores familiares, procurando por algo. "Onde está o vestido de noiva da mamãe?", perguntei, minha voz cortando a fachada educada. Meu fundo fiduciário era uma coisa, mas aquele vestido... aquele era minha mãe.

A governanta, Sra. Neves, uma mulher gentil que sempre me tratou com uma pena suave, torceu as mãos. "Ah, senhorita Bianca... o vestido..." Ela parou, seus olhos dardejando nervosamente em direção a Gabriela.

Meu estômago despencou. Eu já sabia. Um pavor frio se infiltrou em meus ossos.

"Gabriela está com ele", Bruno forneceu, sua voz seca. "Ficou lindo nela. Ela vai se casar no próximo mês, sabe."

Raiva, fria e aguda, perfurou a dormência que se tornara minha companheira constante. Não pelo dinheiro, não pelo afeto deles, mas por isso. Pelo vestido da mamãe. Não era apenas tecido; eram memórias, um legado, um pedaço da minha mãe que eu pensei que estava seguro, esperando por mim. E eles o deram a ela. Para ela.

"Ela vai se casar?", perguntei, minha voz perigosamente calma, as palavras com gosto de cinzas. "Com quem?" Eu já sabia, no fundo, uma premonição doentia torcendo minhas entranhas.

O sorriso de Gabriela se alargou, um sorriso triunfante que ela mal se preocupou em esconder. Ela levantou a mão esquerda, o diamante brilhando. "Com o Caio, é claro! Ele me pediu em casamento no mês passado. Não é maravilhoso?"

Minha respiração engasgou. Caio. Meu Caio. Meu namorado de infância, o garoto que um dia jurou me proteger, que me prometeu o para sempre. O garoto cujas mãos quebraram minha perna, acabando com meus sonhos. O garoto que escolheu Gabriela em vez de mim, repetidamente. O garoto que agora estava prestes a se casar com ela, usando o vestido da minha mãe.

Uma onda fria me percorreu e, por um momento, o mundo inclinou. Caio. Como ele pôde? Eu me lembrava dele, tão claramente, me defendendo na escola primária, afastando os valentões, sua pequena mão firmemente na minha. "Deixem a Bianca em paz!", ele gritou uma vez, seu rosto vermelho de indignação.

Então, as coisas começaram a mudar. Depois que mamãe morreu, depois que Gabriela chegou, Caio começou a se afastar. Ele passava mais tempo com Gabriela, ouvindo suas histórias de som inocente, acreditando em suas lágrimas fabricadas. Lembro-me do dia em que os peguei na biblioteca, o braço dele ao redor dela, confortando-a após alguma ofensa inventada. Eu o confrontei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Caio, como você pôde? Você não vê o que ela está fazendo?"

Ele olhou para mim, não com o calor familiar, mas com um lampejo de irritação. "Bianca, ela é tão frágil. Você sempre faz uma cena." Suas palavras foram um golpe físico, pior que qualquer soco. "E pare de chamá-la de 'a novata', Bianca. Ela é Gabriela agora."

Lembro-me de implorar a ele, chorando: "Por favor, Caio, não me deixe. Você é tudo que eu tenho." Ele gentilmente, mas com firmeza, afastou minhas mãos. "Você está me sufocando, Bianca. Você é sempre tão... intensa."

Então veio o "sequestro". Gabriela, com lágrimas escorrendo, uma bochecha machucada, sussurrando meu nome. Caio, seus olhos cheios de uma raiva que eu nunca tinha visto, acreditando em cada palavra dela. Ele me prendeu contra a parede, seu aperto como ferro, seu rosto a centímetros do meu. "Você é uma vadia doente e pervertida, Bianca! Você a machucou! Você machucou a Gabriela!" O chute, rápido e brutal, no meu joelho. O estalo doentio que ecoou em meus ossos, quebrando não apenas minha perna, mas meu futuro. Minha carreira de balé, tudo pelo que eu havia trabalhado, se foi em um instante. E ele apenas me viu cair, seu rosto uma máscara de nojo, antes de se virar para confortar Gabriela.

Agora, ele ia se casar com ela. Usando o vestido da mamãe. Meu vestido.

Meu mundo, que já havia sido reduzido a uma contagem regressiva finita, de repente pareceu totalmente estéril. Eles haviam tirado tudo. Minha mãe, meu lugar na família, minha carreira, minha sanidade, meu amor. Agora, até a última memória sagrada, o vestido da minha mãe, não estava a salvo de suas mãos gananciosas. Eu não tinha mais nada. Nada.

Capítulo 3

Bianca Poole POV:

O e-mail de confirmação do jazigo da mamãe chegou, uma pequena vitória em uma batalha perdida. O custo era exorbitante, muito mais do que eu tinha em minhas economias minguantes, mesmo depois de vender os poucos objetos de valor que me restavam. Isso solidificou a necessidade desesperada do meu fundo fiduciário, dos últimos resquícios do patrimônio da minha mãe. E daquele maldito vestido.

Respirei fundo e trêmula, o gosto metálico de medo e doença cobrindo minha língua. Eu tinha que enfrentar Gabriela. Tinha que pegar o vestido de volta, de um jeito ou de outro. Era mais do que apenas tecido; era um símbolo, o último fio que me conectava ao mundo, à minha mãe, antes que eu desaparecesse.

Enquanto eu me dirigia para a opulenta sala de estar, onde Gabriela costumava reinar, uma figura bloqueou meu caminho. Caio. Seu rosto estava tenso, seus olhos sombrios, um cansaço desconhecido agarrado a ele como uma segunda pele. Ele parecia... assombrado.

"Bianca", ele disse, sua voz áspera, um contraste gritante com o tom descontraído que eu lembrava da nossa infância. "Por que você voltou?"

Eu não respondi. Meu olhar caiu para a mão dele, depois para a perna dele. Aquela que, todos aqueles anos atrás, desferiu o golpe que estilhaçou minha patela, acabando com meus sonhos. A memória era uma cicatriz fresca, latejando sob minha pele.

Minha mente repetiu a cena como um disco quebrado: o rosto manchado de lágrimas de Gabriela, suas acusações sussurradas sobre o falso sequestro, seu dedo trêmulo apontando para mim. Caio, seu rosto contorcido de fúria, seus olhos ardendo com um ódio do qual eu nunca o julguei capaz. Ele não apenas acreditou nela; ele agiu com base nas mentiras dela. Ele me chutou, me quebrou, tudo por ela. Minha promissora carreira como bailarina, a única coisa que me trouxe alegria e propósito após a morte da mamãe, terminou em um estalo doentio de osso e cartilagem. Lembro-me da dor surda, depois da dor lancinante, e então da dormência horrível enquanto o médico explicava o dano irreparável. Minha vida, meu futuro, se foram. Simples assim.

E eu não senti nada então. Não de verdade. Apenas uma observação estranha e distante da agonia física, como se estivesse acontecendo com outra pessoa. A dor emocional já era grande demais, avassaladora demais, para registrar outro golpe.

Ele viu meu olhar, seguindo-o até sua perna, até o fantasma da violência que ele infligiu. Um lampejo de algo, culpa talvez, cruzou seu rosto. Ele recuou, puxando a perna ligeiramente para trás.

"Eu... eu não deveria ter", ele começou, sua voz mal um sussurro, seu olhar fixo no chão. "Eu estava com tanta raiva. Gabriela... ela estava com tanto medo. Ela disse que você torceu o tornozelo dela tentando empurrá-la para dentro do carro. Eu só... eu reagi." Ele estendeu a mão, sua mão pairando incerta. "Bianca, eu sinto muito. Juro, eu nunca quis... quebrar sua perna. Eu pensei que você era perigosa. Pensei que estava tentando machucá-la."

Eu recuei de seu toque, uma reação visceral. Desculpe? Depois de todo esse tempo? Depois de destruir minha vida? A palavra parecia barata, sem sentido. "Não", eu disse, minha voz quase inaudível. "Não finja que se importa agora."

Ele visivelmente murchou, seus ombros caindo. "Eu me importo, Bianca. Sempre me importei. Você só... você ficou tão diferente depois que a Eleonora morreu. Tão zangada. Tão fora de controle."

Eu contive uma risada amarga. Zangada? Fora de controle? Essa era a narrativa deles, a desculpa conveniente para me abandonar. Eu era uma criança que teve seu mundo despedaçado, e tudo que eu queria era que alguém me visse, me amasse. O amor deles dependia da minha conformidade, do meu sofrimento silencioso. Quando ousei exigir atenção, eles me rotularam de louca.

"Não importa", eu disse, virando-me, o cansaço se instalando profundamente em meus ossos. Eu não queria suas desculpas. Não queria sua culpa. Eu simplesmente queria completar minha missão final.

"Onde você esteve, Bianca?", ele perguntou, sua voz mais suave agora, quase suplicante. "Por três anos, você simplesmente desapareceu."

"Por aí", respondi vagamente, a única palavra um muro entre nós. O que eu deveria dizer a ele? Que passei o último ano entrando e saindo de clínicas, passando por tratamentos brutais que me deixaram fraca e enjoada? Que estive lutando contra os demônios da depressão, os ecos de suas acusações, o aperto frio de uma doença terminal?

Minha saúde mental foi uma corda bamba por anos, uma luta constante contra a escuridão que ameaçava me consumir. Pós-trauma, pós-abandono, pós-diagnosticada com depressão severa. E então o câncer. Uma invasão lenta e agonizante que começou sutilmente, depois rugiu para a vida. Os médicos foram claros: 'Estágio IV. Agressivo. Prognóstico... sombrio. Coloque seus assuntos em ordem. Encontre apoio, Bianca. Você precisa da sua família.'

Família. A ironia era um gosto amargo na minha boca. Minha família foi a arquiteta do meu sofrimento, aqueles que me levaram ao limite. Eles eram as últimas pessoas a quem eu recorreria em busca de conforto. E além disso, qual era o sentido? O resultado era inevitável. Eu estava morrendo. Eles provavelmente nem se importariam. O pensamento trouxe apenas uma dor surda, não a dor lancinante que um dia traria. Eu estava entorpecida à indiferença deles agora.

Caio abriu a boca para falar novamente, mas uma voz aguda e açucarada o interrompeu.

"Caio, querido! Aí está você!" Gabriela. Ela emergiu da sala de estar, uma visão em branco, um delicado robe de seda agarrado à sua figura esguia. Seus olhos, no entanto, não eram delicados. Eram afiados, calculistas, estreitando-se imperceptivelmente quando me viu com Caio.

Ela deslizou em direção a ele, possessivamente passando o braço pelo dele, seus olhos fixos em mim com uma hostilidade mal disfarçada. "O que você está fazendo, querido? O pessoal do buffet está aqui. Você sabe como eu fico estressada." Ela fez uma pausa, seu olhar percorrendo-me, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios. "Ah, Bianca. Ainda aqui? Pensei que você já tivesse feito estrago suficiente por um dia."

Eu encontrei seu olhar, sem piscar. "Não estou aqui para causar estragos, Gabriela. Estou aqui pelo que é meu."

Seus olhos se arregalaram, uma exibição teatral de inocência. "O que é seu? Querida, tudo aqui é nosso agora." Ela apertou o aperto no braço de Caio. "A menos que você queira dizer o último resquício da sua reputação? Porque eu te garanto, isso já se foi há muito tempo." Sua voz pingava condescendência. "Pensando em causar problemas de novo, é? Tentando recuperar sua posição? É patético, Bianca. Ninguém te quer aqui."

Senti um leve sorriso tocar meus lábios. Ela realmente não entendia. Ela pensava que eu ainda estava lutando pelo reino patético deles. Minha vida era curta demais para tais trivialidades. O câncer me purgou de todas aquelas necessidades desesperadas e infantis. Eu não me importava mais com o amor deles, a aprovação deles, sua posição social. Tudo que eu queria era paz. E o vestido da minha mãe.

"Eu não quero o amor deles, Gabriela", eu disse, minha voz suave, mas firme. "Eu parei de querer isso há muito tempo. O que eu quero é o vestido de noiva da minha mãe. O feito sob medida. Onde está?"

Suas sobrancelhas perfeitamente esculpidas se ergueram em surpresa, um lampejo de choque genuíno em seus olhos. Ela não esperava isso. Ela esperava uma briga por Caio, pela família, pelo dinheiro. Não pelo vestido.

Então, uma risada desdenhosa irrompeu dela. "O vestido? Ah, Bianca, querida. Esse é o meu vestido de noiva agora. Fernando e Bruno me deram. Eles disseram que era um símbolo do meu lugar nesta família. Um símbolo do quanto eles me amam." Ela levantou a mão esquerda, o anel de noivado brilhando. "E combina perfeitamente com o anel do Caio, não acha?"

Minha respiração engasgou. O anel. O anel de Caio. Aquele que ele me deu, anos atrás, uma simples aliança de prata com uma pequena safira. Já se fora há muito tempo, é claro, descartado em algum lugar no rescaldo da minha vida. Agora, ele havia dado um diamante a ela.

"Você não pode tê-lo", declarou Gabriela, sua voz se elevando, um brilho triunfante em seus olhos. "Assim como você não pode ter o Caio. Ou esta família. Ou qualquer outra coisa. Tudo que um dia foi seu, Bianca, é meu agora. Cada coisinha." Ela se inclinou, sua voz um sussurro venenoso. "E não há nada que você possa fazer a respeito."

Eu olhei para ela, realmente olhei para ela, seu rosto uma máscara de alegria maliciosa, e depois para Caio, que estava ao lado dela, seu rosto pálido e conflitante, mas silencioso. Ele acreditava nela. Ele sempre acreditou. Ele sempre acreditaria.

Um desespero estranho e silencioso se apoderou de mim. Ela estava certa. Eles haviam tirado tudo. E eu estava cansada demais para lutar. Cansada demais para sequer me importar. Meu mundo estava encolhendo, dia a dia, hora a hora. Não havia espaço para batalhas, nem energia para a guerra. Apenas a marcha silenciosa em direção ao inevitável.

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