Miguel McNa
– Droga! – grito enquanto dou um soco na mesa de meu escritório. – Como isso pode acontecer? Eu tenho pessoas imprestáveis e incompetentes trabalhando para mim?
– Calma filho! – James McNa meu pai diz para mim.
Olho para o meu pai e vejo que está com o mesmo olhar de raiva que eu. Ele e meu tio Jorge McNa ergueram a empresa de construção e restauração de hotéis do zero e hoje é um grande império, dono de grande parte dos hotéis de Nova York e de outros lugares espalhados pelo país, agora quem administra tudo isso sou eu. Estou me sentindo um lixo humano, isso nunca havia acontecido enquanto eles administravam.
Eles começaram aos vinte e poucos anos com a reforma de um hotel, depois disso começaram a expandir os negócios. Compravam hotéis antigos e perto da falência e os transformavam em hotéis magníficos cinco estrelas.
Hoje além de hotéis contamos na nossa franquia resort, prédios comerciais e residenciais além de condomínios de casas de luxo.
Comecei a administrar as empresas depois que meu pai e tio resolveram trabalhar em casa e aproveitar o tempo em família e dedicar mais a suas esposas, isso ocorreu logo após eu e meu primo Andrew nos formarmos. Eu me formei em administração e meu primo em Direito, ambos somos essenciais para a empresa.
Agora estávamos sendo roubados debaixo do meu nariz de dentro da empresa, tínhamos que descobrir de qual filial estava vindo o desfalque de milhões de dólares e quem era o responsável por isso para colocá-lo atrás das grades.
Descobrimos pois o gerente do banco onde mantemos nossas ações e todo dinheiro da empresa nos alertou que alguma coisa estava errada e que os números presentes nos relatórios não batiam com os valores nas contas.
Andrew McNa meu primo e advogado da família nos olhava também com raiva brilhando em seus olhos azuis. Todos nós havíamos herdado os olhos azuis de nosso avô paterno.
Somos uma família unida, mesmo que cada um dos herdeiros tenha seguido caminhos diferentes, nossos pais nos apoiavam para que nós seguíssemos nossos sonhos e anseios, então não foi surpresa quando eu tomei o posto de CEO e Andrew o advogado da empresa.
Nós precisamos de um plano para descobrir o que está acontecendo.
Meu pai e primo estavam sentados de frente para mim no meu escritório, eu estou sentado na minha cadeira olhando para a vista do Central Park através das enormes janelas do meu escritório com as mãos no bolso tentando de toda forma organizar meus pensamentos de forma coerente. Meu tio está sentado em uma das poltronas no canto da sala perto das estantes de livros com o celular no ouvido conversando com alguém.
– Vou ligar para um amigo delegado e ver o que ele pode fazer para nós ajudar. – Andrew fala pegando o celular, mas é interrompido por seu pai.
– Espera meu filho. – Jorge, meu tio fala desligando o celular e se levantando da poltrona vindo em nossa direção. – Acabei de falar com um colega e ele pode nos ajudar sem levantar suspeitas, pelo menos a princípio, depois acionamos a polícia.
Não podemos fazer alarde se não o criminoso vai escapar de nossas mãos.
Me virei e encarei meu tio que agora já estava de frente a minha mesa.
– Qual é o seu plano? – perguntei já desejando que seja uma boa ideia.
– Meu amigo Samuel Martins tem uma empresa de consultoria de contabilidade, uma das melhores do país, ele pode mandar seu melhor contador para verificar todos os dados da empresa e assim descobrir de onde está vindo o desfalque e possivelmente quem está por trás disso. – Ele diz olhando pra mim.
– Certo, podemos fazer isso! – digo de forma enigmática.
– É uma excelente ideia pai, mas precisamos avisar as autoridades também, sei que podemos contar com esse meu amigo delegado, a polícia ajudará na investigação também tenho certeza. – Andrew diz é logo solta um suspiro longo e cansado.
– Ok tio Jorge. Peça para que seu amigo mande o melhor dos melhores para nós. Devemos começar o quanto antes a resolver esse problema. – Digo me aproximando da mesinha de canto me servindo de uma dose de uísque puro.
– Toda essa tensão não pode sair daqui ninguém da empresa ou de casa pode saber o que está acontecendo, você sabe que a saúde de sua mãe anda frágil e o quanto ela ama essa empresa assim como todos nós. – Meu pai diz abaixando os olhos com tristeza ao pensar na minha mãe doente.
Meus pais se conheceram na adolescência, eram melhores amigos, com o tempo o amor dos dois foi aumentando e depois de terem sido separados por muitos anos por causa do meu avô materno que não aceitava a filha com um garoto pobre filho de fazendeiros.
O amor deles era forte demais, quando se reencontraram após a anos separados resolveram fugir e vieram para Nova York, onde minha mãe trabalhou com ele como secretária quando os irmãos começaram a empresa. Ela tinha seu coração aqui também e descobrir que algo estava errado iria deixá-la ainda mais debilitada.
Mamãe está com câncer de mama em estágio inicial, mas os tratamentos demandam muito de seu corpo. Mas ela está lutando, ela diz que sem o amor de seu marido e filhos ela nada seria.
Apesar de tudo é uma mulher linda e carismática seu sonho é me ver casado e feliz. Mas não é isso que quero agora, a empresa demanda muito do meu tempo e é minha verdadeira paixão, paixão essa que não será colocada atrás de uma mulher, até porque não preciso de uma para viver. Quando preciso de uma companhia não é difícil conseguir uma, sou milionário e tenho uma ótima aparência, costumo chamar atenção por onde passo.
Meu tio Jorge se despede de nós falando que vai passar no escritório de seu amigo para resolver as coisas referentes a contratação da pessoa responsável por nos ajudar a descobrir o criminoso.
Meu pai se levanta, passa as mãos nos cabelos brancos que antigamente eram loiros e se retira para se encontrar com minha mãe. Meu primo Andrew me olha pensativo antes de falar.
– Você precisa de mais alguma coisa?
– Não, obrigado. Só estou muito irritado com toda essa situação, como alguém é capaz de uma coisa dessa? – Esmurro a mesa mais uma vez. – Merda! Essa pessoa vai pagar caro por isso.
– Ah, mas vai mesmo! Agora temos que manter a calma e ter foco. Tudo vai se resolver.
Estou no meu escritório caso precise de alguma coisa.
Ele fala e sai da minha sala me deixando sozinho com meus pensamentos. Só consigo sentir o ódio crescendo dentro de mim fazendo meu corpo ficar ainda mais tenso.
Só consigo pensar em como isso pôde acontecer sem que eu tenha percebido. Isso era o que mais estava me corroendo. DROGA!!!
Amanda Martins
Estou no meu escritório terminando o relatório final do meu último cliente quando o telefone toca. Só mais esse relatório e finalmente férias.
– Oi Flor. – Flor é minha secretária e amiga, trabalhamos juntas a um tempo na empresa de consultoria contábil do meu pai.
– Mandy o senhor Martins está pedindo que você vá a uma reunião com um novo cliente às dezesseis horas na sala dele. Posso confirmar? – Ela diz calmamente quase querendo evitar algum resmungo meu.
– Sim, por favor. Confirme. – Solto um suspiro longo e cansado. – Depois dessa reunião eu tenho mais alguma coisa?
– Não, por hoje é isso. – Ela diz e sinto que está sorrindo, já imagino o que seja.
– Ah Flor, eu jurava que depois dessa última ia poder tirar férias. – Digo ficando emburrada e fechando a cara instantaneamente mesmo ela não podendo me ver. – Nem adianta vir cheia de sorrisos para mim, se eu não tiro férias você também não tira.
– Espera! – ela diz num tom agudo e desliga na minha cara, me deixando ainda mais irritada, coloco o telefone no lugar e aguardo a entrada triunfal da bonita.
Não demora muito ela entra na minha sala com um enorme sorriso no rosto.
– Sabe Mandy eu não estou ligando muito para as férias, já é a terceira vez que remarcados, MAS...– ela enfatiza me deixando curiosa. – é a primeira vez que temos um gato trabalhando no nosso andar.
– O que? – olho para ela confusa – que gato?
– Minha querida, seu pai acabou de contratar um novo contador, ele está ocupando o escritório ao lado – ela aponta para a parede do lado esquerdo do meu escritório. – Tem que ver como é bonito, se chama Thomas Clark.
– Só você mesmo para me fazer feliz a essas horas. – digo rindo da sua cara de safada – agora me diz, é gato tipo muito gato?
– Mulher, um verdadeiro Deus grego. Poderíamos organizar as suas coisas para a reunião com seu pai lá na minha mesa, daqui a pouco ele termina com o cliente que está atendendo agora e você poderá ver com seus lindos olhos castanhos a veracidade das minhas palavras. – diz se aproximando da minha mesa.
– Ok, mas vê se disfarça. Você não sabe ser discreta. – Me levanto arrumando minha saia.
Olho para Flor que é uma linda mulher, tem os cabelos castanhos iguais aos meus só que cacheados na altura dos ombros, olhos verdes, usa saltos bem altos pois tem uma estatura baixa. Adora um belo romance, então vive com novos contatinhos.
Nos conhecemos quando comecei a trabalhar aqui e ela foi a escolhida para ser a secretária da filha do chefe, além de auxiliar os outros contadores em pequenas tarefas. Seguimos até a sua mesa que fica do lado de fora da minha sala em uma salinha adjacente de onde ela tem a visão de tudo que acontece no andar, inclusive uma ótima vista para a sala ao lado da minha.
Ela se senta em sua cadeira e eu me sento na sua frente com a minha cadeira de lado, de modo que posso ter uma ótima visão da sala vizinha a minha. Conversamos um pouco e logo escutamos vozes vindas de lá, a porta se abre e dois senhores saem acompanhados de um homem realmente muito bonito. Seu sorriso é calmo e radiante.
Ele tem a pele negra, careca estiloso, barba por fazer, mas bem desenhada. O corpo bonito se molda perfeitamente em seu terno cinza.
Ele se despede dos homens a sua frente e se vira na nossa direção, tem os olhos negros mais intensos que já vi. Seu sorriso aumenta quando vê que estamos olhando para ele.
– Boa tarde garotas! – nos cumprimenta de forma que faz Flor arregalar os olhos verdes e corar, eu nunca a vi corar isso era novo para mim. Ele caminha em nossa direção e me estende a mão. – Não fomos apresentados ainda, me chamo Thomas Clark.
– Olá senhor Clark, me chamo Amanda Martins– estendo a mão pegando na dele de forma educada. – Seja bem-vindo!
Eu dou um sorriso para ele e me viro para minha colega que está estranhamente calada olhando fixamente para o homem a nossa frente.
– Obrigada senhorita. – Ele olha para minha amiga e seu sorriso fica ainda mais radiante– senhorita Flor, é bom te ver novamente, não tinha te visto hoje ainda.
Ela continua olhando para ele de forma estranha e eu me levanto indo em sua direção atrás da mesa a apertando de lado, ela parece sair do transe e pisca algumas vezes ainda o olhando.
– Ahn, olá senhor. – Ela se engasga nitidamente nervosa. Aquilo era bem engraçado de se ver. – Estávamos em reunião a manhã toda, precisa de alguma coisa? – Amém, ela voltou a si.
Eu já estava achando bem divertido essa situação. Dei uma risada disfarçada com uma pequena tosse. Ela me olha com raiva e eu me seguro mais ainda para não rir alto.
– Não preciso de nada, obrigado. – Ele passa a mão no queixo e ela segue seus movimentos com o olhar – adoraria que me chamassem apenas de Thomas, somos colegas de trabalho agora. E que tal tomarmos um café na cafeteria aqui da frente? Fui hoje de manhã e o atendimento é bem rápido, então não atrapalharia o rendimento do trabalho.
– Ah, eu realmente adoraria ir – digo segurando mais uma risada – mas tenho uma reunião com o senhor Martins em dez minutos, mas vocês dois poderiam ir, aproveita Flor e tira o resto do dia de folga, vou para casa logo depois da reunião. Ela me olha com os olhos indecisos, mas concorda.
– Claro, se não for incômodo ir apenas nós dois senhor... quer dizer Thomas.
– Não, claro que não. Seria ainda mais interessante. Vamos então?
– Vamos sim... – ela se levanta e pega a sua bolsa. – Nos falamos mais tarde Mandy? – pergunta com um grande sorriso no rosto e uma piscadinha.
– Claro! Te mando mensagem quando eu chegar em casa. Se divirtam. – Amanda Martins dando uma de cupido, quem diria.
Dou uma pequena risada enquanto vejo os dois caminhando até o elevador. Pego a minha bolsa e sigo para a sala do meu pai que fica no final do corredor. Vamos ver o que me espera dessa vez...
Amanda Martins
Paro na frente do escritório do meu pai o senhor Samuel Martins aliso o vestido que estou usando tirando o amarrotado imaginário dele, bato na porta e espero sua autorização para entrar, assim que ele o faz eu entro e me deparo com seus olhos castanhos iguais aos meus me olhando curioso.
– Chegou cedo filha. – Ele diz apontando a cadeira da esquerda a sua frente para que eu me sente, assim eu faço.
– Apenas dez minutos adiantada pai. – Lanço um sorriso carinhoso para ele. – O que tem de tão importante nesse cliente que vai me fazer adiar minhas férias novamente?
Meu pai me olha curioso, eu nunca fui de fazer esse tipo de pergunta até porque trabalho é trabalho e eu nunca recuso ou questiono. Mas seu olhar me diz que o negócio é sério pois não quis indicar nenhum outro contador da empresa.
– Querida esse cliente é realmente importante, mas muito mais que isso é um amigo de longa data e ele me pediu o melhor dos melhores e esse alguém é você.
Abro um sorriso para ele feliz por receber esse elogio, sei que vindo dele é algo muito verdadeiro, ele não passa a mão na minha cabeça só porque sou filha dele. Ao contrário do que muitas pessoas pensam lutei muito para estar onde estou.
Não fui criada pelo meu pai, na verdade ele não sabia da minha existência. Foi quando eu tinha quinze anos que minha mãe ficou muito doente então um pouco antes de morrer me deu seu nome e seu telefone pois se ela partisse eu não iria ter ninguém no mundo e iria para um orfanato até completar a maioridade.
Entrei em contato com ele e expliquei toda a situação, ele pareceu confuso no começo, mas apenas até eu falar o nome da minha mãe, ele pediu todos os dados importantes para que fosse me ver e realmente foi.
Ele de primeira me olhou nos olhos e me abraçou forte. Minha mãe e ele viveram um romance nas férias de verão que ele passou no Brasil com sua família antes de ele ir estudar fora do país.
Eles se separaram sem eles saberem que haviam feito um filho junto. Minha mãe depois que descobriu foi atrás da família dele para contar mais foi impedida pelos meus avós paternos.
Eles a ajudaram financeiramente até morrerem em um acidente de avião dois anos antes de minha mãe descobrir que estava doente, isso sem contar da minha existência para meu pai e também sem ter nenhum contato direto comigo.
Quando eu vi meu pai pela primeira vez percebi que realmente não era nada parecida com minha mãe, eu sou igual ao meu pai. Ele chegou a se casar, mas não teve outros filhos, era apenas eu. Sua ex-mulher não queria e ele acatou sua decisão.
Seu casamento durou pouco tempo, pouco mais de três anos e simplesmente não deu certo e ele não chegou a se casar novamente.
Depois da morte da minha mãe ele me trouxe para Nova York com ele e me colocou em uma das melhores escolas da cidade, sempre nas minhas horas vagas vinha até seu escritório e o via trabalhar e o ajudava, assim eu ficava mais tempo com ele e com o tempo me apaixonei pelo ofício, com isso eu resolvi seguir seu caminho e fiz faculdade de contabilidade e finanças, além de algumas pós-graduações e um mestrado também na área. Hoje sou seu braço direito em sua empresa.
Saio de meu devaneio no momento em que a secretária do meu pai bate na porta anunciando o senhor Jorge McNa.
Aquele homem junto com sua família era o dono de praticamente metade dos hotéis de Nova York. Esse realmente era um cliente e tanto, acredito que o melhor que já tivemos em todos esses anos que trabalho aqui.
O homem é realmente elegante e usa um terno sob medida, ele entra na sala e meu pai vai até ele o cumprimentar, me levanto e deixo que meu pai nos apresente. Dadas as apresentações tomamos nossos lugares e iniciamos as negociações.
Com o passar do tempo percebo que o senhor Jorge está com a raiva contida, o que é no mínimo plausível, aquilo tudo que está acontecendo em sua empresa é um tremendo absurdo, realmente a empresa dele está precisando de serviços especializados já que seus funcionários podem estar roubando-os na cara dura a muito tempo.
Vai ser a primeira vez que vou trabalhar em uma situação como essa, nas outras vezes que dei minha consultoria era para aprimoramento de serviços ou organização ornamental, agora trabalhar com um possível roubo e tentar achar o culpado era nova para mim. Mas eu vou dar o meu melhor como sempre faço.
Meu pai mesmo disse que sou a melhor das melhores então devo fazer por merecer esse posto. Terminamos nossa reunião já com outra para o dia seguinte marcada. Vou trabalhar na empresa deles nesse meio tempo para descobrir mais lá de dentro, outra coisa inédita para mim, me ausentar da minha própria empresa.
Mas devo fazer tudo o que for necessário e dessa forma ficará mais fácil ter acesso a tudo e todos.
O trabalho será totalmente sigiloso para que o criminoso não seja alertado. Saberei mais sobre o "cargo" que irei assumir amanhã durante uma reunião com o atual CEO, sobrinho do senhor Jorge McNa.
Logo após a reunião acabar vou para meu apartamento, estou exausta e com fome. Vejo que Lúcia minha governanta deixou comida pronta para mim na geladeira, contida típica brasileira esquento e a como com gosto, logo depois tomo um banho quentinho e bem demorado para tirar todo o estresse e dores do corpo, me seco e em seguida sigo para o meu quarto e me jogo na cama nua mesmo, adoro a sensação do lençol macio e cheiroso no meu corpo.
Mando uma mensagem para a Flor perguntando como que foi com o gato do escritório, mas ela não me responde então coloco meu celular para despertar mais cedo do que o habitual já que amanhã as nove horas tenho que estar no escritório do senhor Miguel McNa para nossa primeira reunião. Coloco o celular para carregar na mesinha de cabeceira e me aconchego para dormir, pego no sono logo em seguida, sem sonhos ou pesadelos, apenas a expectativa de ser feliz nesse novo trabalho.