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Ruptura

Ruptura

Autor:: Nayara Barbosa
Gênero: Outras
"Ruptura" Vinte anos após a tragédia que destruiu sua cidade, Sofia e Rafael, irmãos que perderam seus pais no primeiro terremoto de magnitude 8.1, se veem novamente no epicentro de um novo desastre. Quando um aviso de movimento das placas tectônicas chega com minutos de antecedência, a população tem pouco tempo para se preparar. À medida que a cidade desmorona, os irmãos começam a investigar o que realmente aconteceu naquela fatídica noite, descobrindo segredos antigos que podem mudar tudo o que sabiam sobre o passado. Em meio ao caos e à revolução, eles precisam enfrentar escolhas impossíveis e lutar contra um governo corrupto, enquanto o mundo ao redor deles é devastado por um terremoto global que marca o fim de uma era. O que restará quando as ruínas se tornarem o novo começo?

Capítulo 1 Prólogo

Sofia Castellano

O despertador tocou, mas ignorei. Meu corpo implorava por mais algumas horas de descanso depois de um turno de 48 horas no pronto-socorro. Era o meu dia de folga, e eu precisava dormir. Mas, quando meu celular vibrou sobre o criado-mudo, soube que algo estava errado.

Atendi com a voz rouca de cansaço.

- Dra. Castellano, precisamos de você no hospital. Agora.

Reconheci a voz tensa do chefe da emergência. Sentei-me na cama, tentando afastar o torpor do sono.

- O que aconteceu? - perguntei, já me levantando.

A pausa do outro lado da linha fez meu estômago revirar.

- Ele voltou.

Minha respiração ficou presa na garganta. Por um segundo, desejei ter ouvido errado, mas sabia que não era o caso. Ruptura. A palavra que há vinte anos destruiu tudo o que conhecíamos. E agora, estava de volta.

Coloquei uma calça jeans e uma camiseta qualquer, amarrei os cabelos rapidamente e peguei a mochila com alguns itens médicos que sempre mantinha à mão. O hospital ficava a poucos minutos de carro, mas o trânsito já estava um caos. O pânico se espalhava pela cidade como um vírus, e sirenes ecoavam de todos os lados.

Ao chegar, vi a correria dos médicos e enfermeiros preparando tudo. Ninguém falava abertamente, mas os olhares diziam tudo. Tínhamos, no máximo, uma hora. Uma hora para organizar os leitos, garantir que o gerador estivesse pronto, reforçar as salas de atendimento e preparar os pacientes para o pior.

Os alertas oficiais soaram nos alto-falantes da cidade. As placas estavam se movendo mais rápido do que o esperado. A cidade inteira se preparava, mas sabíamos que era em vão.

Quando as primeiras ondas do tremor começaram, uma onda gelada percorreu minha espinha. Prendi a respiração.

E então, Ruptura nos atingiu.

---

Rafael Castellano

A noite estava tranquila demais.

Eu deveria ter desconfiado.

Depois de um turno longo e exaustivo no corpo de bombeiros, finalmente estava me preparando para ir para casa. Tirava os equipamentos de proteção quando o rádio chiou, e uma mensagem urgente interrompeu qualquer pensamento sobre descanso.

- Todos os postos de emergência, atenção! Há uma movimentação anormal das placas. Repetindo: Ruptura pode estar de volta!

Engoli em seco. Meus colegas trocaram olhares tensos. Alguns nem estavam aqui há vinte anos para saber o que aquilo significava, mas eu sabia. Eu vi o que Ruptura fez da última vez.

Larguei o capacete e corri para o centro de operações. Em poucos minutos, a cidade entrou em alerta máximo. Equipes de resgate se preparavam, evacuações começaram. Eu tentava manter a calma, mas meu coração martelava contra o peito.

Liguei para Sofia, mas caiu direto na caixa postal. Ela devia estar no hospital, tão sobrecarregada quanto nós.

Os minutos passaram como facas cortando o tempo. O chão sob meus pés parecia vibrar antes mesmo do desastre começar.

Então, ele veio.

O estrondo foi ensurdecedor. O mundo tremeu, prédios começaram a ruir, o solo se abriu em fendas assustadoras. Gritos ecoaram por toda a cidade, e tudo virou poeira e caos.

Ruptura não apenas havia voltado. Ele estava determinado a acabar com o que restava de nós.

{...}

Capítulo 2 01

Capítulo 01 – O Início do Fim

Sofia Castellano

O caos tinha um som.

Não era apenas o estrondo do concreto rachando, do vidro se estilhaçando ou dos alarmes soando sem parar. Era o som de gritos, de pedidos de socorro, de sirenes misturadas ao ranger das estruturas cedendo sob a força do inevitável. Era o som do terror, do desespero, do fim.

E eu estava no meio dele.

O pronto-socorro, que já vivia no limite, virou um campo de guerra em segundos. O terremoto ainda não havia terminado, mas os primeiros feridos já chegavam, alguns carregados pelos próprios familiares, outros pelos poucos paramédicos que conseguiram atravessar a cidade em meio à destruição. O chão tremia sob nossos pés, e mesmo assim continuávamos. Porque era isso que fazíamos.

Um garoto ensanguentado foi colocado sobre a maca à minha frente. Não devia ter mais do que sete anos. Seu braço estava completamente esmagado, os olhos arregalados de pavor.

- Vamos precisar amputar. - A voz da enfermeira ao meu lado estava tensa, mas firme.

Pisquei, tentando focar no presente, no que estava diante de mim.

- Sedação agora! Se não fizermos rápido, ele não vai resistir à hemorragia.

Minhas mãos estavam trêmulas. Meu coração pulsava em um ritmo acelerado, mas eu precisava continuar. Fizemos a amputação ali mesmo, no chão do hospital, sem tempo para protocolos ou equipamentos sofisticados. A sala de cirurgia não existia mais, tinha desmoronado junto com parte do prédio.

E isso era só o começo.

O terremoto durou longos e excruciantes minutos, mas a verdadeira devastação veio depois. Não havia eletricidade, os geradores falhavam, os celulares estavam sem sinal. E o hospital, que deveria ser um refúgio, agora era apenas mais uma ruína na paisagem de destruição.

Me apoiei contra uma parede, tentando recuperar o fôlego. Olhei ao redor, contando mentalmente os médicos e enfermeiros que ainda estavam de pé. Era menos da metade da equipe original.

Meu peito apertou. Rafael.

Não sabia onde ele estava. Não sabia se estava vivo.

Não podia pensar nisso agora.

- Precisamos organizar os pacientes! - gritei, tomando a frente da situação.

Os que estavam menos feridos ajudavam os que estavam em pior estado. O chão estava coberto de sangue, poeira e destroços. Mas eu continuei. Porque era isso que sempre fiz.

Só não sabia por quanto tempo mais conseguiria.

---

Rafael Castellano

Meu mundo virou de cabeça para baixo.

Literalmente.

Quando o tremor começou, eu e minha equipe estávamos no pátio da base dos bombeiros, preparando as viaturas para um possível resgate. Mas nada nos preparou para o que veio a seguir.

O solo se abriu, como se o próprio inferno estivesse tentando escapar. Um dos nossos caminhões foi engolido pela fenda que se formou no meio da rua, levando consigo dois colegas. Não houve tempo para gritos ou despedidas.

Eles se foram.

Tentei me segurar em algo, mas o chão se movia como se estivéssemos em um navio no meio de uma tempestade. Prédios desabavam ao nosso redor, poeira e escombros enchiam o ar, dificultando a visão e a respiração. O barulho era ensurdecedor.

Sabíamos que isso poderia acontecer de novo. Mas nunca imaginamos que seria tão brutal.

Quando o tremor finalmente cessou, caí de joelhos, sentindo o gosto metálico do sangue na boca. Meu ombro latejava - devia ter batido em alguma coisa na queda. Mas eu estava vivo.

Olhei ao redor. O quartel dos bombeiros estava destruído. Viaturas capotadas, colegas feridos, alguns mortos.

Não podíamos parar.

O rádio chiou. Uma voz trêmula veio do outro lado da linha.

- Precisamos de ajuda na região central. O hospital... foi atingido.

Meu coração congelou. Sofia.

Me levantei imediatamente, ignorando a dor no corpo. Peguei um dos rádios ainda funcionando e respondi:

- Aqui é Rafael Castellano. Estamos a caminho.

Abracei a adrenalina e corri em direção ao caos.

Eu precisava encontrá-la.

Eu precisava salvá-la.

Porque se algo tivesse acontecido com minha irmã, não haveria mais nada para reconstruir.

{...}

Capítulo 3 02

Capítulo 02 - Cinza e Esperança

Sofia Castellano

O cheiro de queimado impregnava o ar. Não sei se vinha dos fios elétricos rompidos, dos carros em chamas ou das estruturas desmoronando. Tudo estava destruído. Cada canto da cidade parecia um campo de guerra, e o hospital não era diferente.

Corri pelos corredores improvisados do que restava do prédio, passando por corpos cobertos por lençóis brancos e por pacientes feridos demais para sequer gemer. A poeira grudava na minha pele, e a sensação de impotência pesava em meus ombros como uma âncora.

- Sofia! - A voz de uma enfermeira me despertou dos meus pensamentos.

Virei-me e vi Mariana, seu rosto pálido e coberto de suor.

- O que foi? - perguntei, temendo a resposta.

- A ala infantil está desabando. Ainda tem crianças lá dentro.

Meu coração parou por um segundo.

Sem pensar, corri.

Os corredores estavam bloqueados por escombros, mas consegui atravessar um buraco na parede para chegar à ala pediátrica. O teto rangia acima de nós, como se estivesse prestes a ceder. O chão estava repleto de cacos de vidro e sangue.

- Tem alguém aqui?! - gritei, minha voz ecoando.

Um choro baixo me guiou até um canto do corredor. Três crianças estavam encolhidas debaixo de uma mesa, assustadas, segurando as mãos umas das outras. Me agachei para alcançá-las.

- Vai ficar tudo bem. Eu vou tirar vocês daqui.

Uma das meninas soluçava, o rostinho sujo de poeira e lágrimas. Ela agarrou minha mão com força.

- Minha mãe... - sua voz era um fio.

Não tive coragem de dizer que talvez sua mãe já estivesse morta.

- Primeiro, precisamos sair daqui, tá bom? - falei, forçando um sorriso tranquilizador.

Peguei a menor nos braços, enquanto as outras duas seguravam minha roupa. Meus músculos gritavam de exaustão, mas eu continuei. O teto rangia, a poeira caía sobre nós como neve suja, e eu sabia que tínhamos pouco tempo.

Corri o mais rápido que pude.

Assim que atravessamos o corredor, uma explosão sacudiu o hospital. O teto cedeu atrás de nós.

Saímos por segundos. Apenas segundos.

Respirei fundo, tentando acalmar minha pulsação frenética.

Olhei para as crianças em meus braços. Elas estavam salvas.

Mas quantas mais eu ainda perderia antes do dia acabar?

---

Rafael Castellano

O calor das chamas fazia o suor escorrer pelo meu rosto, mas eu não parei.

A cidade estava um inferno.

Corpos pelas ruas, pessoas presas sob os escombros, chamas consumindo prédios inteiros. Meu rádio apitava sem parar, chamando socorro para todos os cantos. Mas não havia socorro suficiente.

Meu primeiro instinto era ir até Sofia, mas se eu parasse agora, mais gente morreria.

Uma senhora idosa estava presa sob uma viga metálica caída. Me ajoelhei ao seu lado.

- Vou te tirar daqui - prometi, mesmo sem saber se conseguiria.

Pedi reforço pelo rádio, mas não havia tempo. Peguei um pedaço de cano e usei como alavanca para levantar a viga o suficiente para puxá-la.

Ela gritou de dor, mas quando a tirei dali, desabou em meus braços, chorando.

- Você está segura agora - murmurei.

Mas será que alguém realmente estava?

Mal terminei esse resgate e já fui chamado para outro. E outro.

Cada pessoa salva parecia insignificante diante da destruição. Mas eu continuei. Porque, se eu não continuasse, ninguém mais o faria.

Foi então que ouvi um nome pelo rádio.

- Castellano... - a voz estava cheia de estática, mas entendi o suficiente. - Hospital. Sua irmã...

Minha respiração falhou.

Larguei tudo e corri.

Corri sem olhar para trás.

Se Sofia estivesse morta, não haveria mais nada para salvar.

---

Sofia Castellano

O caos dentro do hospital parecia não ter fim. As paredes tremiam a cada réplicas do terremoto, e os gritos de dor e desespero se misturavam ao som de sirenes distantes.

Depois de tirar as crianças da ala infantil, voltei para ajudar mais feridos. Meu corpo implorava por descanso, mas eu não podia parar. Passei por um corredor onde enfermeiros tentavam conter o sangramento de um homem com o rosto coberto de poeira e um pedaço de vidro atravessando a coxa.

- Ele precisa de cirurgia urgente! - gritou Mariana, a enfermeira que me ajudava.

Olhei ao redor. A sala de cirurgia estava destruída, e os equipamentos, espalhados pelo chão, inutilizados.

- Vamos fazer aqui mesmo - decidi, puxando meu kit médico improvisado.

Mariana arregalou os olhos.

- Aqui?!

- Se esperarmos, ele morre.

Ajoelhei-me ao lado do homem e comecei a trabalhar. Meus dedos tremiam, mas minha mente estava focada. A adrenalina tomava conta, me guiando por instinto.

A cada segundo que passava, mais pessoas eram trazidas em macas improvisadas. A maioria estava ferida, mas alguns... alguns já não tinham mais chance.

Engoli em seco e continuei.

Não tinha tempo para luto.

Não tinha tempo para medo.

Até que um estrondo ensurdecedor ecoou pelo prédio, seguido de um tremor violento. O teto da recepção desabou.

O choque congelou meu corpo por um segundo.

- Sofia! - alguém gritou.

Então, vi.

Os escombros bloqueavam completamente a entrada.

Eu estava presa.

Com dezenas de feridos ao meu redor, sem saída e sem esperança.

---

Rafael Castellano

Meu coração batia tão forte que eu podia ouvir o som no fundo dos ouvidos enquanto corria para o hospital.

A visão que me esperava fez meu estômago revirar.

O prédio estava parcialmente destruído, e uma parte havia desabado. Bombeiros e paramédicos corriam de um lado para o outro, tentando resgatar sobreviventes.

- Minha irmã! - gritei, procurando alguém que soubesse de Sofia. - Alguém viu a Dra. Castellano?!

Um paramédico olhou para mim, ofegante.

- Ela estava lá dentro quando a recepção caiu.

Minha visão escureceu por um momento.

Ela estava presa.

Sem pensar duas vezes, peguei meu capacete e corri para os escombros.

- Rafael! - alguém segurou meu braço.

Era meu chefe.

- Não posso deixar você entrar. Está instável.

- É a minha irmã!

Ele me encarou por um longo momento antes de suspirar pesadamente.

- Então vá. Mas tome cuidado.

Não esperei outra palavra.

Peguei uma lanterna e comecei a me enfiar pelos escombros.

O cheiro de poeira e sangue impregnava o ar. Cada passo era perigoso, cada movimento podia causar um novo desabamento.

Até que ouvi.

Um gemido fraco.

- Sofia?!

Um silêncio aterrorizante.

Mas então, uma resposta.

- Rafael...

Minha garganta se apertou.

- Aguenta firme! Eu vou tirar você daí!

Comecei a mover os destroços com toda a força que tinha. Cada segundo parecia uma eternidade.

Quando finalmente consegui abrir um espaço, vi o rosto dela.

Sujo de poeira, cortado, mas vivo.

Seus olhos encontraram os meus, e por um instante, fui o irmão mais novo outra vez, apenas querendo protegê-la de tudo.

- Você demorou. - ela sussurrou, com um sorriso cansado.

Eu ri, apesar das lágrimas ardendo nos meus olhos.

- Vamos sair daqui, doutora.

Peguei sua mão e a puxei para fora.

Quando finalmente emergimos dos escombros, o mundo ao redor ainda estava em ruínas. Mas, por um momento, só o que importava era que nós dois estávamos vivos.

E juntos.

{...}

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