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Série Sheik's Dominados

Série Sheik's Dominados

Autor:: AutoraAngelinna
Gênero: Romance
Nos Braços do Sheik Volume 01 Sinopse: Um verdadeiro príncipe a tinha resgatado do deserto... Lucy Forrester tinha escapado de uma morte segura no deserto de Ramal Hamrah e de repente se encontrou no mundo de luxo ao que pertencia seu salvador, o sheik Hanif. Os ternos cuidados do príncipe eram muito mais do que Lucy tinha recebido em toda uma vida carente de amor, assim logo se sentiu atraída por ele. Mas o orgulhoso Hanif tinha uma alma torturada... Enquanto ele a ajudava a recuperar-se, Lucy começou a perguntar-se se ela poderia ajudá-lo a curar suas próprias feridas e ganhar seu coração.

Capítulo 1 1

Nos Braços do Sheik

Volume 01

Sinopse:

Um verdadeiro príncipe a tinha resgatado do deserto...

Lucy Forrester tinha escapado de uma morte segura no deserto de Ramal Hamrah e de repente se encontrou no mundo de luxo ao que pertencia seu salvador, o sheik Hanif.

Os ternos cuidados do príncipe eram muito mais do que Lucy tinha recebido em toda uma vida carente de amor, assim logo se sentiu atraída por ele.

Mas o orgulhoso Hanif tinha uma alma torturada...

Enquanto ele a ajudava a recuperar-se, Lucy começou a perguntar-se se ela poderia ajudá-lo a curar suas próprias feridas e ganhar seu coração.

Capítulo 1

Nem por um segundo Lucy se deixou enganar pelo vago resplendor verde que via diante de seus olhos. Era só uma miragem. Tinha lido tudo o que tinha alcançado em suas mãos sobre o deserto de Ramal Hamrah e as miragens.

Tal como pensava, em uns minutos a visão se desvaneceu diante dela. Mas nem sequer uma miragem era suficiente para distrair a sua precipitada carreira através das areias do deserto, decidida a enfrentar o homem que a tinha traído.

Depois de lançar um olhar ao sistema de navegação por satélite, ajustou a direção e logo se obrigou a relaxar as mãos obstinadas ao volante.

Aparte das montanhas, mais altas e claras nesse lugar longe da costa, não havia nada mais que ver. Não havia vegetação, exceto uns arbustos ocasionais talheres de pó, bolinhas de cor na imensa paisagem seca e vazia. Inclusive protegida pelos óculos de sol, sentia os olhos secos e ardentes como se estivessem cheios de areia.

Lucy os fechou só um breve instante, mas foi um tremendo engano. Sem aviso, o jipe se inclinou bruscamente para frente jogando-a com tal violência contra o cinto de segurança que soltou o volante. Antes que pudesse reagir, uma das rodas dianteiras se chocou algo tão duro que o veículo se inclinou para um lado e logo uma roda traseira também golpeou contra o que parecia uma rocha invisível. Depois de oscilar uns segundos, o veículo terminou por tombar.

Depois de uns minutos que lhe pareceram uma eternidade, aturdida e confusa, Lucy abriu os olhos para ouvir uma lenta destilação. «Pode ser o líquido de freios», pensou. Mas muito em breve o aroma de gasolina chegou até suas narinas.

Nesse instante ficou consciente de que se encontrava em um veículo derrubado e lutou por desprender do cinto. O aroma de gasolina era cada vez mais intenso. Presa do pânico tentou girar o corpo para abrir a fivela do cinto, mas seus dedos suados não conseguiam alcançá-la.

- Fique quieta, já alcancei o cinto.

Lucy conseguiu escutar as palavras que logo que penetraram em seu cérebro porque, atordoada como estava, debatia-se freneticamente, consciente do aroma que apenas lhe permitia respirar.

- Não se mova!

Não foram as feições de falcão do homem nem a severidade de seu tom que a deixou imobilizada. Foi à brilhante lâmina de uma faca tão perto de sua garganta que quase conseguiu senti-la na pele.

O terror foi mais intenso do que pôde suportar e Lucy perdeu os sentidos.

Hanif Al-Khatib amaldiçoou a mulher que estava presa no jipe enquanto cortava o cinto com a faca. Quando conseguiu, com grande esforço a tirou pela janela do carro, tomou-a em seus braços e correu com toda pressa para o cavalo que o esperava não tão longe do veículo. Depois de colocá-la no cavalo, montou na sela sem deixar de sentir o intenso aroma que se apoderava do ar quente. Não havia tempo para gentilezas, assim com um braço a rodeou sem olhar para o seu corpo e, com as rédeas em uma mão, animou seu cavalo a correr rapidamente. Quando se produziu a explosão, ainda estava o suficientemente perto para sentir no rosto a onda de calor produzido pelas chamas. Era tão intensa que o próprio calor do deserto lhe pareceu bastante mais suave.

Finalmente quando Lucy voltou a si, pôde sentir que alguém a sustentava e lhe falava brandamente. A zona de seu cérebro que ainda funcionava lhe assegurou que estava a salvo.

Nada a não ser uma emergência poderia ter induzido Hanif a pôr um pé em um hospital. Odiava-os.

O hospital era um recinto onde se alojava a morte. Repentinamente, o velho sentimento de culpa voltou a martelar em seu cérebro.

Zahir, seu ajudante, fez todo o possível por mantê-lo afastado da sala de emergências, inclusive tentou persuadir que ficasse no deserto, assegurando que ele poderia dar conta da situação.

Hanif não duvidava de sua eficiência, mas queria estar seguro de que a mulher receberia a melhor atenção médica. Além disso, inquietava-lhe o fato de que uma estrangeira se aventurar a dirigir sozinha e a toda velocidade pelo deserto e suspeitava de que se tratou de algo mais que um acidente. No hospital ninguém reparou nele porque não trocou a roupa coberta de pó depois de um dia de caçada nem o keffiyeh que lhe cobria a metade do rosto.

A última coisa que desejava era chamar a atenção dos meios de comunicação.

Hanif valorava muito sua intimidade e, se a imprensa se inteirava de que o filho do emir tinha levado uma estrangeira no hospital, desencadeariam os comentários. Então optou por delegar a Zahir os trâmites da hospitalização e o contato direto com o pessoal médico. Como se tinha mantido à margem, todos pensaram que era um homem anônimo que tinha conseguido salvar a uma jovem acidentada.

Estava ansioso para partir quanto antes porque a chegada ao hospital de um helicóptero com o emblema do emirado muito em breve daria o que falar.

Hanif se retirou da janela quando Zahir entrou na sala de espera.

- Como está?

- Sofreu um leve traumatismo, mas estão fazendo outros exames para tirar as dúvidas. Felizmente, as feridas da cabeça são superficiais.

- É um alívio, porque no helicóptero não conseguiu voltar a si.

- O mais sério é uma entorse no tornozelo e muitas contusões por causa dos golpes que recebeu ao derrubar o jipe. Acredito que para você pôde ter sido pior, excelência.

- Simplesmente fui o primeiro a chegar porque me encontrava mais perto.

- Ninguém teria arriscado tanto, excelência. Essa mulher deve a vida a você.

- Vão deixá-la internada?

- Dizem que não será necessário. Só precisa descansar alguns dias. Já disse ao piloto que estamos preparados para partir.

Hanif tinha completado com seu dever e, já que a mulher não corria perigo e que se recuperaria totalmente, já não tinha nada mais a fazer ali. Entretanto, não deixava de pensar em sua fragilidade enquanto lutava desesperadamente por livrar do cinto de segurança, presa no jipe derrubado.

- Comunicou-se com a agência Bouheira Tours? Entraram em contato com sua família? Sabe se tiver alguém que cuide dela e logo se encarregue de levá-la para casa?

Zahir clareou a garganta.

- Não se preocupe excelência. Já fez tudo o que estava em sua mão. Temos que partir quanto antes porque já começaram a correr rumores no hospital.

- Tenta calar as suas bocas, Zahir. Limite-se a declarar que um dos participantes de uma partida de caça encontrou a jovem, que um membro de meu pessoal ordenou que lhe emprestasse ajuda e que eu não participava da caçada.

- Farei o que ordena.

- Quem é ela? Trabalha para a empresa de viagens? Ou é outra surfista da areia que acredita que o deserto é seu pátio de jogos pessoal?

Hanif decidiu que se esqueceria da estrangeira se sua suspeita estivesse certa.

Zahir, seu jovem e inexperiente primo, vacilou por um instante antes de falar. Hanif se sentou em uma cadeira e, com um gesto imperceptível embora tão imperioso que nem sequer um familiar tão próximo como ele poderia ignorar, convidou-lhe a informar sobre a verdadeira situação.

Zahir engoliu a saliva.

- Bouheira Tours não sabe quem é a estrangeira. Não trabalha para eles e negaram categoricamente que fosse uma cliente. Pelo resto, não aparece nenhuma mulher nos grupos que reservaram lugar para esta semana. Entretanto, quis deixar claro de que conduzia um veículo da empresa porque o logotipo aparecia em um dos lados: «Surfe nas dunas do deserto».

- Com quem falou?

- Com a senhorita Sanderson, diretora comercial. Neste momento, Steve Mason, o dono da empresa, encontra-se na zona leste do país como guia de um grupo de arqueólogos que vieram a estudar os antigos sistemas de irrigação.

- Se a jovem tentava unir-se a eles, está claro que se afastou muito para o norte.

- Pode que se perdeu - sugeriu Zahir.

- Mas esses veículos têm sistema de navegação por satélite.

- O caso é que a senhorita Sanderson me assegurou que não falta nenhum veículo e acrescentou que também há outras empresas que organizam viagens pelo deserto.

- Quando assegura que a paciente está protegida, quer dizer que o hospital informará a sua embaixada para que se faça cargo dos gastos de hospitalização e de sua posterior repatriação? Está claro que se e quando ela possa provar sua identidade. E isso levará um tempo porque quase todos seus pertences se incendiaram com o veículo. Enquanto isso, quem se responsabilizará por ela?

- Salvaste-lhe a vida, não? Fez tudo o que pôde.

- Ao contrário, Zahir. Precisamente porque lhe salvei a vida sou responsável por ela. Quem é? Como se chama?

- É cidadã britânica e se chama Lucy Forrester.

- Disse para onde se dirigia?

- Não, estava confusa e desorientada.

- E o médico diz que pode lhe dar alta nesse estado? Falarei com ele pessoalmente.

- Senhor! É meu dever insistir...

Hanif se afastou pelo corredor sem ouvir o rogo de Zahir, que se apressou a segui-lo.

- Onde está o médico?

- Chamaram-no para atender outra emergência.

- E ela?

- Encontra-se na sala de recuperação. A última porta à esquerda.

O aspecto do Lucy era pior do que Hanif tinha imaginado.

Ainda recordava o instante em que se acidentou, os longos cabelos sobre os ombros, o viço de seu rosto, a brancura de sua pele e seus imensos olhos cinza.

Nos braços tinha vários cortes pequenos já suturados, feias contusões, abrasões e sangue seco entre os cabelos. O tornozelo direito estava engessado até o joelho. Não havia dúvida de que os médicos só tinham tido tempo de limpar e curar as feridas, nada mais.

A jovem parecia exausta e nesse momento repousava com os olhos fechados. Mas de repente os abriu e outra vez ele percebeu o medo em seu olhar. Sem pensar duas vezes, tomou a mão.

- Fique calma, Lucy. Está tudo bem, está a salvo.

Então o medo se converteu em insegurança e logo em algo mais complexo que comoveu a Hanif.

- Salvou-me a vida - balbuciou entre os lábios inchados ao mesmo tempo em que tentava levantar-se.

- Não, não. Fique quieta e descanse.

- Eu pensei que... eu pensei...

Estava muito claro o que Lucy Forrester tinha pensado. Hanif lhe inspirava temor, embora não a culpou por isso. Tinha sofrido uma crise histérica e não houve tempo para explicações, só para tirá-la de um veículo a ponto de explodir em chamas.

Hanif lhe soltou a mão e se inclinou ligeiramente; uma cortesia que não estava destinada a outras mulheres mais que a sua mãe e a sua avó.

- Sou Hanif Al-Khatib. Tem amigos em Ramal Hamrah? Há alguém a quem pode chamar?

Ela vacilou um instante.

- Eu... Não, ninguém.

«Minta, mas não importa», pensou Hanif.

- Então minha casa está ao seu dispor até que se recupere e possa continuar sua viagem.

Um dos olhos estava muito inflamado para mantê-lo aberto, mas o outro refletiu suas dúvidas.

- Por que faz isso?

- Porque um viajante em apuros sempre encontrará ajuda e refúgio em meu país-declarou. A verdade era que ele mesmo não tinha sabor de ciência certa. A única coisa que sabia era que não a tinha salvado de uma morte segura para deixá-la abandonada a incerta compaixão de sua embaixada. Com ele estaria mais cômoda e segura. Então se voltou para Zahir -. Está arrumado. Se encarregue dos trâmites.

- Mas excelência...

Hanif o silenciou com o olhar.

- Consiga roupa adequada para a senhorita Forrester e que uma enfermeira venha a limpá-la.

- Todos estão atendendo a emergência, assim demorarão um momento em voltar.

Lucy viu que seu samaritano se despedia do outro homem com impaciência antes de voltar-se para um pequeno armário de que tirou uma bacia de aço inoxidável que encheu de água e um pacote de algodão.

- Não sou enfermeiro, mas tentarei fazer com que se sinta mais confortável.

- Não, não precisa.

- Sim, precisa sim. Zahir demorará um pouco em tramitar os papéis da alta - disse ao mesmo tempo em que tomava uma mão tremente.

- Dói?

- Não.

Então empapou uma parte de algodão e com muita suavidade começou a lhe tirar o sangue seco dos dedos como se fosse uma criatura muito frágil. Um tremor e indefinível inquietação invadiram Lucy, que deixou escapar uma exclamação abafada. Hanif levantou os olhos.

- Não é nada - murmurou com dificuldade enquanto limpava a outra mão e começava com os braços. Fez lentamente, como se o tempo não contasse para nada. Logo trocou a água da bacia.

- Água limpa para o rosto. Está muito quente? - Perguntou ao ver que estremecia quando tocou a bochecha com o algodão empapado.

- Não, está tudo bem - murmurou com um nó na garganta -. É só que...

Era só que a lavagem de cérebro de sua avó lhe tinha deixado sequelas indeléveis. Só as garotas más permitiam que os homens as tocassem. Embora soubesse que era um engano, inclusive com Steve a mais leve intimidade tinha sido um desafio para ela. Mas ele nunca a tinha pressionado, mas tinha assegurado que sua inocência lhe parecia encantadora, que o fazia sentir-se semelhante ao primeiro homem do mundo.

Sim, era inocente, porque ninguém tão idiota poderia haver-se conformado com essa explicação. Entretanto, estava segura do que sentia nesse momento era diferente, que nada tinha que ver com as admoestações de sua avó, embora esse raciocínio não lhe fizesse sentir melhor e lutou contra as lágrimas de raiva, remorso e desamparo; uma mescla de emoções difícil de definir.

- Me diga se dói - disse Hanif ao mesmo tempo em que retirava com suavidade uma mecha de cabelos que estava em seu rosto -. Agora vou tirar o sangue seco desta zona do crânio. Advirto-lhe que doerá um pouco - acrescentou enquanto esfregava quase com ternura a zona danificada.

- Faz com muita suavidade.

Levantou os longos cabelos e emaranhados para limpar a nuca e Lucy desejou ter podido lavar o cabelo.

- Mais tarde. Amanhã o lavarei - disse como se lhe tivesse adivinhado o pensamento.

- Shukran. Obrigado.

Lucy tinha comprado um curso audiovisual com o propósito de aprender algo de árabe antes de reunir-se com Steve. Não queria ser uma carga para ele, uma companheira sempre silenciosa e inútil.

Hanif Al-Khatib lhe sorriu pela primeira vez e Lucy pensou que era um homem muito sério.

- Afwan, Lucy.

«Significa «de nada» e o diz com sinceridade», disse para si mesma a jovem pensando que em toda sua vida ninguém a tinha tratado com tanta consideração. E de repente sentiu que lhe seria impossível reter as lágrimas, mas não chorou a pesar do nó que sentia na garganta. Fazia muito tempo que tinha aprendido que as lágrimas eram inúteis. Entretanto, apesar de seus esforços, a bondade daquele homem conseguiu romper as barreiras e, envergonhada, piscou com força para evitar o pranto.

- Dói, Lucy?

- Não.

Hanif lhe enxugou uma lágrima que escorria pelo rosto.

- Não há necessidade de sofrer. Avise-me se doer.

- Não, é só que me deram uma injeção. Estou sonolenta.

- Então durma, assim a viagem será mais fácil para você. Já acabamos. Voltarei em um momento.

- Muito bem.

- Espero que não se importe em ficar com isto - disse Hanif quando voltou para o quarto minutos mais tarde.

Depois de ajudá-la a se levantar, passou-lhe pelos braços as mangas de uma vestimenta folgada e suave. Lucy não tinha nada que objetar ao que esse homem fizesse, embora carecesse da energia suficiente para dizê-lo em voz alta.

- Como ela está? - Perguntou Zahir.

Hanif o tinha deixado em Rumaillah com o encargo de investigar algo mais a respeito de Lucy. Nesse momento se encontravam na sala de estar da suíte onde descansava sua convidada.

- A senhorita Forrester ainda dorme - respondeu Hanif.

- É o melhor.

- Talvez. Ainda está sob o efeito dos sedativos que lhe administraram no hospital. O que descobriu em Rumaillah? Conseguiu alguma informação na embaixada?

- Decidi que antes de ir à embaixada seria melhor investigar por minha conta quais foram seus movimentos. Se quer saber minha opinião, há algo escuro em tudo isto.

- Não tenho dúvida de que essa foi à razão pela que tentou me dissuadir de trazê-la aqui.

- É meu dever.

- Seu dever é me tirar de minhas reflexões Zahir, me levar a expedições de caça e informar a meu pai quando encontrar em disposição de reassumir meus deveres públicos.

- Me preocupo com você.

- Por isso permito que fique comigo. Bom, me fale de Lucy Forrester.

- Chegou ontem pela manhã em um voo de Londres. O funcionário do escritório de imigração se lembra perfeitamente porque seu cabelo chamava muito a atenção.

Hanif não duvidou. Seus cabelos eram de um tom loiro cinza e lhe caíam até a cintura.

- Continua.

- No formulário de entrada aparecia sua direção na Inglaterra e um número de telefone. Chamei a esse número e ninguém respondeu. Sua direção em Ramal Hamrah é o hotel Gerdimah, mas embora tivesse reservado um quarto, nunca se registrou.

- Alguém foi procurá-la no aeroporto ou tomou um táxi?

- Estou esperando informação dos agentes de segurança do aeroporto.

- E o que me diz do veículo que conduzia? Teve oportunidade de se aproximar do lugar do acidente?

- Enviei um rebocador, mas quando chegou ao lugar o carro tinha desaparecido.

- Não pode ter desaparecido no ar, Zahir.

- Não, senhor.

- Ninguém mais que a diretora da Bouheira Tours estava a par do ocorrido. Pode me repetir o que disse quando falou com ela?

- Só disse que um dos veículos da empresa tinha sofrido um acidente e se calcinou no deserto. Ficou muito impressionada. Logo me pediu que o descrevesse e lhe desse sua localização exata. Quando o fiz, insistiu em que estava enganado, que o veículo não pertencia à empresa. Logo lhe perguntei se a senhorita Forrester pertencia ao pessoal da agência ou se era uma turista que tinha reservado um lugar com eles. Respondeu que nunca tinha ouvido falar dela.

- Disse-lhe que a senhorita Forrester tinha ficado ferida?

- Não me perguntou isso e considerei oportuno não dar detalhes.

- Muito bem, não o faça. Enquanto isso, tenta averiguar algo mais sobre essa agencia de viagens e quem a dirige. E acima de tudo, Zahir, seja discreto.

Capítulo 2 2

O quarto era fresco e confortável. A luz se filtrava através de cristais brilhantes como joias em tons lápis-lazúli, vermelho e esmeralda. A Lucy pareceu que se encontrava em uma gruta no fundo do mar, em uma cama muito confortável.

Voltou a dormir e, quando despertou de novo, a luz era mais brilhante e as cores ainda estavam ali. Embora logo que podia abrir os olhos, distinguiu as lentejoulas de faiscantes cores sobre o lençol branco.

Embora formoso, era estranho, e Lucy tentou sentar-se na cama para olhar a seu redor. Mas um golpe de dor em todo o corpo, embora mais intenso em uma mão e no ombro, deixou-a imobilizada. E foi então quando ouviu a voz que já lhe era familiar.

- Não se mova, Lucy Forrester. Aqui está a salvo.

A salvo? O que tinha ocorrido? Onde estava?

Lucy se esforçou por levantar a cabeça e olhar a alta figura inclinada sobre ela, mas um olho se negou a abrir de todo e o colarinho que levava em torno do pescoço lhe impediu de fazer o menor movimento. Entretanto, embora não podia vê-lo completamente, recordou ao homem com a faca na mão que lhe ordenava que não se movesse. Então sentiu a boca seca, como se tivesse tragado areia.

- Lembra-se do acidente?

- Lembro de você.

- Muito bem.

A pesar do keffiyeh que lhe cobria a metade do rosto, Lucy soube que esse rosto de ferozes olhos escuros, maçãs do rosto altas e nariz aquilino era o do homem que aparecia tão vividamente em seus sonhos. Também observou que levava os abundantes cabelos escuros atados na nuca e que só sua voz era suave. Seu instinto de mulher vulnerável lhe advertiu que o homem que se encarregou de limpá-la quando jazia suja e ensanguentada no leito do hospital podia ser bastante perigoso.

- Você é Hanif Al-Khatib. Salvou-me a vida e me tirou do hospital.

- Isso mesmo, vejo que começa a recordar. Sente-se melhor?

- A verdade é que não me sinto bem. Onde estou? - Perguntou com a voz enrouquecida por causa da secura na garganta.

Hanif encheu um copo de água e, pondo um braço nas costas da jovem, ajudou-a a levantar-se lentamente; logo aproximou o copo aos lábios inchados. Lucy bebeu um pequeno gole, mas o resto se derramou pelo queixo e caiu dentro do colarinho.

Hanif secou seu rosto e o pescoço com uma pequena toalha.

- É necessário o colarinho? - Perguntou nervosa ao tempo que se tocava a garganta.

- Por experiência posso lhe dizer que não, não ajuda muito, mas o médico recomendou que ficasse com ele até que estivesse totalmente acordada.

- Experiência? É que também se acidentou com seu carro?

- Não, mas alguns cavalos me atiraram ao chão enquanto jogava pólio.

- Onde estou? Quem é você?

- Quando vivia na Inglaterra meus amigos me chamavam Hanif.

- E seus inimigos? - Disparou com uma aspereza produzida pela ansiedade. E se arrependeu imediatamente.

- Hanif bin Jamal bin Khatib Al-Khatib - respondeu em tom inexpressivo -. E se meus inimigos forem prudentes, nunca o esquecerão.

Steve lhe tinha explicado aquilo da longa cadeia de nomes.

- Bin significa «filho de»? - Perguntou, e Hanif assentiu -. Assim que você é filho de Jamal, que a sua vez é filho de Khatib...

- Da casa de Khatib.

- E esta é sua casa? - Perguntou. Consciente da deliciosa decoração da estadia.

- Você é minha convidada, senhorita Forrester. Estará mais confortável aqui que no hospital. A menos que tenha amigos em Ramal Hamrah e prefira estar com eles. Posso me comunicar com alguém? Tentamos fazê-lo com sua casa da Inglaterra.

- Chamaram?

- Sim, mas infelizmente ninguém atendeu ao telefone. Pode ligar você mesma, se assim o desejar - sugeriu ao tempo que indicava o aparelho posto na mesinha de noite.

- Não - se apressou a responder em um tom muito abrupto -. Ali não há ninguém. Não há ninguém em nenhuma parte. Agora vivo sozinha. Sinto muito lhe causar tantos problemas - disse antes de examinar as contusões dos braços e os pequenos cortes.

- Não se alarme, em uma ou duas semanas a mais tudo isso terá desaparecido. Gostaria de comer algo?

- Não quero lhe causar mais problemas. Vou me vestir e se a gentileza de chamar um táxi...

- Um táxi? - Perguntou com o cenho franzido.

- Sim, para ir ao aeroporto.

- Não o aconselho. Deveria repousar mais alguns dias.

- Não posso ficar aqui.

- Advirto-lhe que demorarão um tempo em lhe entregar um passaporte novo e trocar sua passagem. Lamento lhe dizer que quase todos seus pertences ficaram destruídos junto com o veículo. Por favor, peço-lhe que o deixe nas mãos de meu ajudante. Ele se encarregará de tudo. Quando seus documentos estiverem preparados, você já se recuperou dos ferimentos, Insha'Allah.

- A que devo tanta amabilidade?

Hanif a olhou surpreso.

- É estrangeira. Precisa de ajuda e eu fui o eleito para providenciar essa ajuda.

- Eleito? Você me resgatou de um veículo a ponto de explodir. Para muitas pessoas isso teria sido o suficiente - replicou e imediatamente se deu conta de que podia parecer ingrata -. Sei que lhe devo a vida.

Suas palavras provocaram outra inclinação de cabeça.

- Está em boas mãos.

- Não estou em mãos de ninguém - rebateu imediatamente.

Possivelmente lhe devia a vida, mas tinha aprendido com muita dor a não confiar em ninguém. Nem sequer nos que tivesse tido direito a confiar. Quanto ao conceito religioso...

- Todos estamos nas mãos de Deus - replicou Hanif, sem se mostrar ofendido.

- Sinto muito. Você é muito amável e minhas palavras podem lhe haver parecido ingratas.

- Ninguém está em seu melhor momento quando sofreu uma experiência como a sua - repôs com gravidade -. Precisa comer algo para recuperar as forças. Aconselho que não tente se mover até uns dias a mais - acrescentou ao ver que se esforçava por negar com a cabeça -. O que posso lhe oferecer?

O que Lucy desejava era mais água, mas não queria voltar a derramá-la como uma idiota.

Como se lhe tivesse lido o pensamento, Hanif se sentou na beirada da cama, ofereceu-lhe o braço para que se elevasse e com a outra mão lhe aproximou o copo aos lábios.

- Posso levantar sozinha - disse Lucy enquanto se levantava apoiada em um cotovelo, mas a pontada de dor foi tão intensa que desabou.

O ombro e o peito do Hanif a impediram de cair sobre os travesseiros e sustentou com o braço todo o peso de seu corpo.

-Tudo a seu tempo - lhe rogou enquanto lhe aproximava o copo aos lábios.

Ela se concentrou no copo, evitando seu olhar. Não estava acostumada a essa proximidade física, muito íntima.

- É o suficiente? - Perguntou ao ver que o copo ficava vazio.

Ela elevou a vista e seus olhares se encontraram. Lucy experimentou a incômoda sensação de que os olhos de Hanif bin Jamal bin Khatib Al-Khatib podiam ler até o mais profundo de sua alma. Hanif voltou a acomodá-la nos travesseiros e o ligeiro peso da jovem lhe fez recordar a fragilidade de outra mulher cujos olhos escuros lhe imploravam que a deixasse partir. Eram lembranças que ele tinha tentado inutilmente sepultar em sua memória.

Sob o aroma de hospital e a pó do deserto, do corpo da jovem se desprendia um suave e quente aroma feminino.

«Esta mulher é diferente», pensou Hanif com certo assombro.

E era certo. Noor tinha os olhos escuros, uma pele dourada e era suave e doce como o mel. Lucy Forrester não se parecia em nada com ela. Sua esposa tinha sido forte, estável, uma rocha em um mundo que se desintegrava. Em troca a estrangeira se mostrava nervosa, inquieta, preocupada e sempre à defensiva, e ele intuía que necessitava dele como Noor nunca o tinha feito.

- Tenho certeza de que gostaria de tomar chá, e talvez alguma comida ligeira.

- Na realidade neste momento a única coisa que preciso é tomar banho e lavar o cabelo.

- Parece-me muito excessivo agora. Talvez se trouxer uma bacia com água....

- Não estou inválida. Só tenho uns machucados. Você verá, sei que tenta me ajudar, me mostre onde está o banheiro que poderei arrumar isso sozinha.

- Aqui não há mulheres que possam ajudá-la. Se acreditar que pode fazê-lo sozinha... - comentou ligeiramente irritado diante a obstinação da jovem.

- É obvio que posso. Estou segura de que não permitiria que um homem estranho se encarregasse de lavar a sua mulher. Talvez nem sequer um enfermeiro.

- Sim, eu teria permitido que inclusive um marciano se ocupasse de cuidar de minha mulher se isso a tivesse ajudado em algo.

Lucy se perguntou por que ele falava no passado.

- Olhe, agradeço a sua ajuda, mas acredite que me sentirei bem assim que levante da cama - declarou, mas ao notar a dúvida no rosto do homem, acrescentou -: Falo sério. Além disso, não só preciso me lavar, você compreende.

- É uma mulher muito decidida, Lucy Forrester. Se cair e se machucar mais pode ser tenha que voltar para hospital outra vez.

- Se isso acontecer, dou-lhe permissão para me dizer que me advertiu sobre isso.

- Muito bem. Espere um pouco - disse antes de sair do quarto.

Lucy jogou o lençol para trás e teve que admitir que talvez se precipitou.

Uma ironia. Toda sua vida mordeu a língua para manter a paz e evitar problemas, mas assim que se havia visto livre fez o que sua avó lhe advertia constantemente: tornou-se como sua mãe. Impulsiva, impetuosa, sempre envolta em dificuldades.

Sim, sempre em dificuldades.

Se Hanif e todos seus sobrenomes não tivessem estado perto, teria se queimado dentro desse veículo.

O dinheiro.

Sempre tinha estado na ruína; mas quando o teve não soube o que fazer com ele. Durante umas semanas Steve tinha feito acreditar que era uma mulher amada e desejada. Tinha sido uma fraude, um embusteiro, um estelionatário, mas lhe tinha ensinado o valor do dinheiro. Tudo foi bem até que conseguiu mover as pernas até a beirada da cama e logo tentou ficar de pé. E foi então quando descobriu o que era uma dor insuportável. Mas não gritou quando se viu no chão.

Minutos depois, de volta ao quarto, Hanif deixou cair o que trazia nas mãos, correu para ela e a elevou murmurando suaves palavras que Lucy não compreendeu.

- Não pôde ter esperado uns minutos, Lucy?

- Acreditei que podia me dirigir sozinha ao banheiro. O que está acontecendo? -Perguntou com a cabeça apoiada no ombro de Hanif.

- Uma entorse no tornozelo. Isso é tudo.

- Tudo?

- Sei que é muito doloroso - disse em tom compassivo.

Quando tentava levantá-la, Lucy sofreu um acesso de vômitos, embora não tinha nada no estômago para colocar para fora salva água. Quando o estômago se acalmou, Lucy transpirava tremendo de debilidade. Sem deixar de sustentá-la, Hanif lhe ofereceu água e logo brandamente lhe enxugou a frente e lhe limpou a boca.

- Fez muito bem - murmurou ela quando pôde falar -. Tem certeza de que não é enfermeiro?

- Tenho certeza, embora tivesse que cuidar de minha esposa quando estava morrendo - disse inexpressivamente.

Mas Lucy não se enganou. Ela também tinha aprendido a ocultar seus sentimentos durante anos até que Steve apareceu em sua vida.

- Sinto muito... Hanif.

- Não me surpreende que tenha sofrido náuseas. Nestes casos é normal - comentou com frieza -. No hospital não disseram o que tinha?

- Tentaram explicar isso, mas entendi muito pouco.

- Fizeram-lhe uns exames para descartar uma lesão cerebral. Felizmente não havia nada. O mais sério é o do tornozelo.

- Sério? Não haverá mais surpresas desagradáveis? Alguma costela quebrada?

- Só contundida, pequenos cortes e lacerações que sararão muito em breve. Mas terá que apoiar-se em umas muletas ao menos umas duas semanas. Tive que deixá-la só para ir buscá-las.

- Não sabia.

- É obvio que não. Devia ter dito. O que acontece é que estou acostumado que me obedeçam sem fazer perguntas - disse com um sorriso.

- Verdade? Odeio lhe dizer isto, Hanif, mas as mulheres ocidentais já não estão a acostumadas a obedecer.

- Não? Queria tomar banho, verdade?

- Por favor.

- Então tem que fazer o que ordeno.

- O que? - Exclamou entre risadas -. Sim, senhor!

- Apoie-se em mim.

Lucy se apoiou em seus ombros e ele a deixou sentada na beirada da cama. Suas mãos eram fortes, feitas para a segurança de uma mulher. Então ela pensou que Hanif era tudo o que Steve não era. Uma rocha. Em troca o homem com o que se casou tão precipitadamente era como as areias movediças.

Hanif lhe entregou as muletas e Lucy ficou de pé.

- Não vou cair. Posso fazê-lo sozinha - protestou tremendo pelo esforço de sentir suas mãos nas costas.

Mas ele não se moveu. Estúpido. Essa mulher não significava nada para ele. Era um homem insensível. Entretanto, desde que tinha descoberto o veículo derrubado no deserto, seu mundo se converteu em uma corrente de emoções. Irritação, ira, preocupação. E se negava a reconhecer algo mais profundo.

- Faremos à minha maneira ou não se fará - replicou em tom cortante.

Sem dizer uma palavra, Lucy deu um passo adiante encostada ao corpo de Hanif; suas coxas roçavam o tecido escuro e suave da roupagem daquele homem.

- Acreditei que isto ia ser mais fácil - comentou com a frente apoiada no rosto dele.

- Porque não está acostumada às muletas - respondeu ao mesmo tempo em que lhe colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha.

- Obrigado - disse Lucy -. Normalmente o tenho recolhido na nuca. Quando chegar a casa o cortarei.

- Por quê? - Perguntou horrorizado -. Seus cabelos são muito bonitos.

- Meu cabelo é um estorvo. Quis cortá-lo antes de...

- Antes de?

Lucy se encolheu de ombros.

- Antes de vir a Ramal Hamrah. Bom, agora já posso sozinha.

Contra sua vontade, Haniz deu um passo atrás, embora sem soltá-la de todo.

Passo a passo cruzaram o quarto até que chegaram ao banheiro.

- Aqui está a banheira, já pode deixar as muletas. Eu a sustento, não cairá.

Lucy sentiu todo o corpo em agonia. Seus dedos estavam tão agarrados às muletas que era incapaz do soltar.

- Não posso.

Hanif murmurou algo com impaciência, rodeou-lhe a cintura, encostou-a em seu corpo e lhe tirou as muletas das mãos.

- Já tem feito bastante por hoje.

- Não sairei daqui sem haver tomado banho.

- Você é uma mulher muito tenaz - comentou sorrindo a seu pesar.

- Nunca me acusaram que ter deixado algo sem terminar. Olhe, a banheira tem um assento. Se abrir as torneiras e me passar as muletas, poderei me dirigir sozinha.

Depois de comprovar a temperatura da água e certificar-se de que tinha tudo ao alcance da mão, Hanif saiu do banheiro.

- Se precisar gritarei. De acordo?

- De acordo.

Com a perna entalada fora da água, Lucy conseguiu tomar banho com grande esforço e força de vontade, mas teve que renunciar a lavar o cabelo porque era mais do que podia fazer. Quando ao fim colocou o penhoar que Hanif lhe tinha deixado, estava ao limite de suas forças.

- Hanif?

Hanif abriu a porta em um segundo.

- Obrigado, não podia abri-la com as mãos ocupadas - disse desfalecida.

- É incorrigível, Lucy Forrester. Agora tomará uma xícara de chá, comerá algo e logo poderá descansar.

Hanif saiu para passear pelos atalhos do jardim ao redor do pavilhão onde repousava Lucy Forrester.

Estava rodeado por altos e grossos muros que o protegiam da invasão da areia do deserto e dos animais selvagens. Um manancial natural regava a terra das hortas e do jardim, que tinha sido desenhado fazia séculos como um reflexo terrestre do paraíso.

Hanif estava acostumado a passear entre as sebes de flores com a esperança de encontrar certa paz para seu espírito. Uma paz que procurava fazia três anos, sem êxito. Entretanto, esse dia o sentimento de culpa por seu egoísmo não era a causa de sua perturbação.

Quando se encontrava contemplando a água cristalina de um lago, Zahir se aproximou muito agitado.

- Senhor! O escritório do emir anunciou uma visita.

Durante meses ninguém se aproximou dali, assim não era uma coincidência. Algo tinha que ver com Lucy Forrester.

- Quem vem?

- A princesa Ameerah, senhor.

- Ao que parece acreditam que devo ter uma dama de companhia para não estar a sós com a estrangeira. Faltou tempo para informar a meu pai do ocorrido, verdade, Zahir?

- Senhor, eu não... - protestou imediatamente, logo acrescentou -: Para falar a verdade, seu pai está preocupado com você. Compreende sua dor, mas precisa de você, Hanif.

- Tem outros dois filhos. Pode passar sem mim.

- Poderia jurar que não lhe reconheceram no hospital, mas o fato de que seu pessoal tenha tirado dali à senhorita Forrester provocou muitos comentários. Estava claro que as notícias não demorariam em chegar aos ouvidos de seu pai.

Hanif concluiu que o emir pensava que se podia levar a sua casa a uma desconhecida e cuidar dela, bem podia lhe dedicar um tempo a sua própria filha. - Se encarregue de que tenham tudo preparado para receber à princesa - disse antes de se afastar.

- Já o fiz, senhor - respondeu Zahir elevando a voz para fazer-se ouvir sobre o ruído do helicóptero que se aproximava-. Irá recebê-la?

- Agora não. A viagem a terá fatigado. Talvez amanhã.

«Talvez amanhã», frase que se repetia desde fazia três anos. Portanto, um dia mais não teria muita importância.

Capítulo 3 3

Lucy rejeitou os calmantes que lhe ofereceu. Apesar da negativa, Hanif pôs na mesinha duas cápsulas junto a um copo de água se por acaso mudasse de ideia. Antes de retirar-se do quarto deixou uma campainha para que chamasse em caso de necessidade.

Lucy teve que admitir que estava exausta e não só por causa de seu estado físico.

Sofria de insônia desde que lhe tinha chegado as contas do segundo cartão de crédito. Quando lhe chegou o do primeiro cartão imaginou que se tratava de um engano, enviou um correio eletrônico para Steve e lhe assegurou que se encarregaria de esclarecer o problema. Mas o segundo cartão, dois dias mais tarde, terminou por convencer de que o engano só tinha sido dele.

Precisava pensar, decidir o que ia fazer e quanto devia contar a Hanif Al-Khatib. Não queria lhe causar problemas, mas tampouco gostava de comparecer perante as autoridades, porque o teria que fazer quando ele se inteirasse da verdade.

Através de Internet se informou que Ramal Hamrah era um estado moderno que respeitava os direitos humanos, embora ignorasse até que ponto respeitaria os seus quando a acusasse do roubo de um veículo. Nesse momento lhe custava convencer-se a si mesmo de que o que tinha feito tinha justificativa.

A única certeza com que contava em sua vida atual era que se comportou como uma idiota. Se tivesse ido à polícia em lugar de ir atrás de Steve como uma cobra vingativa, não se veria envolta em tantos problemas.

Talvez um bom advogado pudesse alegar que tinha atuado impulsionada por um desequilíbrio mental transitivo e culpar a Steve de todo o ocorrido. Mas o que tiraria com isso? Inclusive se pudesse contratar um advogado Steve não poderia lhe devolver o dinheiro no caso de que o enviassem para a prisão. Pelo resto, já não se tratava do dinheiro. Quando partiu no jipe em busca de seu marido não pensava em si mesma. Tudo o que queria era que ele arrumasse as coisas.

Incapaz de pensar com claridade e com o corpo dolorido, decidiu tomar um calmante. Quando levantava a mão para alcançar as cápsulas se deu conta de que não estava sozinha.

- Olá - Lucy tentou sorrir apesar de seu rosto inchado.

A garotinha, envolta em brilhantes e exóticas sedas, não se moveu nem falou, meio escondida atrás da porta.

- Como se chama? - Perguntou-lhe Lucy.

Assustada, a pequena deixou escapar um grito e fugiu com toda pressa fazendo soar os pequenos braceletes de ouro.

Imediatamente apareceu uma figura coberta com um amplo e ligeiro abbeyah negro sobre o vestido e fez uma breve pausa junto à porta.

- Sinto muito. - Quase sem fôlego antes de desaparecer rapidamente.

«É que tão mau meu aspecto? », pensou Lucy com ansiedade.

No banheiro tinha que haver um espelho. Sempre havia um sobre o lavabo, inclusive na casa de sua avó onde a vaidade se considerava um pecado.

Depois de comprovar com os dedos que a cara estava muito inflamada, decidiu enfrentar-se no espelho.

Hanif tinha deixado as muletas no outro extremo do quarto, mas não importava; tinha que inteirar-se do pior por si mesma.

Lucy se sentou na beirada da cama e tentou ficar de pé apoiando-se na mesinha. Todo seu corpo se queixou de dor e instintivamente se agarrou à mesinha com todo seu peso. O pequeno móvel se cambaleou e os calmantes, o copo de água, a campainha e o telefone foram parar no chão.

Lucy ficou olhando a ofensa e tudo o que pôde fazer foi sujeitar-se à cama com força e rezar. Quando se acalmou, foi até a porta do banheiro saltando penosamente com a perna boa e apoiando-se nas paredes com os dentes apertados.

Finalmente abriu a porta e se deu conta da inutilidade de seus esforços. A julgar pelas manchas ainda sujeitas à parede que havia sobre o lavabo, o espelho tinha sido retirado.

Tão mau era seu aspecto como para que tivessem tido que tirá-lo?

De repente e sem aviso, as pernas lhe falharam e se viu no chão sem forças para mover-se. Ainda tentava ajoelhar-se quando Hanif irrompeu junto a ela.

- Não posso deixá-la só nem um minuto, Lucy Forrester?

Ela fez uma careta que tentava ser um sorriso.

- A força da gravidade pôde comigo.

- Acreditei que tínhamos combinado que se precisasse de algo usaria a campainha.

- Disse que tinha que fazê-lo, mas não recordo ter aceitado a ordem - disse sem explicar que, como ex-escrava de sua avó, tinha tomado aversão às campainhas-. Olha, uma garotinha apareceu por aqui e se assustou comigo, assim quis me olhar no espelho. Quando falei com escapou correndo.

- Ameerah? Esteve aqui?

- Esse é seu nome? A pobrezinha parecia verdadeiramente assustada.

- De pobrezinha não tem nada. Escapou porque a surpreenderam onde não devia estar. Vamos, a levarei para a cama - disse ao tempo que lhe estendia as mãos.

- Quero ver minha aparência. Devo estar tão feia que você decidiu tirar o espelho.

- Não! Não tem nada que ver com você. Esse espelho se rompeu faz muito tempo. Seu aspecto...

- É muito mau?

Hanif negou com a cabeça.

- Têm alguns hematomas, isso é tudo. Em geral seu aspecto não é bom, mas é só a aparência, porque os danos não foram graves.

- Tenho um olho arroxeado?

- Não exatamente - repôs depois de um instante de vacilação.

- Não exatamente arroxeado?

- Não exatamente - admitiu com um sorriso irônico -. Há uns cortes pequenos que não deixarão cicatrizes. O lábio inferior está inflamado e tem um ponto aqui - disse ao tempo que lhe tocava uma maçã do rosto com o dedo -. Lucy, espero havê-la convencido de que em seu corpo não ficarão rastros do acidente, mas farei que voltem a colocar o espelho.

- Não há pressa - repôs ela ao mesmo tempo em que se agarrava à mão que Hanif lhe estendia.

Ele a levantou colocando um braço em torno da cintura.

Quando a deixou acomodada na cama, Lucy notou que alguém tinha recolhido as coisas do chão, limpado o fino tapete e que tudo tinha voltado para seu lugar.

- Hanif - murmurou. Tinha que lhe contar sobre o jipe. Tinha que saber que tinha dado asilo a uma delinquente -. Há algo que devo lhe dizer.

- Tome os calmantes, Lucy - disse ao tempo que, inclinado sobre ela, acomodando-a nos almofadões. Seu rosto estava tão próximo do seu, que ela pôde sentir o calor de sua pele -. Precisa repousar, dê a seu corpo a oportunidade de recuperar-se. Não há nada que tenha que me dizer que não possa esperar até manhã.

Talvez tivesse razão. Hanif teria querido saber por que tinha roubado o jipe e por que viajava sozinha através do deserto. Contar significaria trair Steve, talvez com consequências que não poderia controlar. Não, primeiro precisava pensar com claridade. Então tomou os calmantes.

- Tem razão.

- Se precisar de algo, por favor, use a campainha. Sempre há alguém por perto. Ao que parece, as cápsulas eram algo mais que um calmante porque, em uns minutos, começou a afundar-se no sonho. Entretanto, em sua mente ainda rondavam umas perguntas. Quem era essa garotinha? Por que Hanif havia dito que não havia mulheres na casa?

Hanif a viu perder-se em um profundo sonho. Sabia que algo a afligia, mas fosse o que fosse, podia esperar até o dia seguinte. Logo abriu as portas que davam para o terraço e se sentou a fim de contemplar o entardecer. Logo que o céu começou a escurecer, apareceram as primeiras estrelas e Hanif aspirou ao doce aroma do jasmim que impregnava o ar. Uma magra lua crescente o acompanhou durante horas até que desapareceu na abóbada do céu. Lentamente a escuridão da noite deu passo aos delicados matizes de cor cinza e malva que anunciavam o amanhecer.

Quando Lucy Forrester chamou do quarto, Hanif se levantou do assento com os membros rígidos de frio.

- Como se sente? - Perguntou quando chegou junto a ela.

- Muito melhor, obrigado - disse ao mesmo tempo em que contemplava a delicada luz, precursora da alvorada -. Pensei que tinha dormido muito mais.

- E assim foi. Essa não é a luz do crepúsculo, Lucy; começa a amanhecer - comentou sem deixar de observar que as largas horas de sonho tinham melhorado bastante o aspecto da jovem. Parecia mais animada, movia-se com maior facilidade e inclusive o rosto tinha uma cor mais saudável.

- Quer me acompanhar a tomar o café da manhã no terraço? O convite surgiu espontaneamente de seu interior. Refeições compartilhadas com Noor nesse mesmo terraço tinham sido momentos preciosos e, por isso, inesquecíveis. Entretanto, fazia tempo que o café da manhã tinha perdido todo seu encanto para ele e, embora arrependido, já não podia retirar o convite. Por outro lado, o ar fresco faria bem a sua hóspede e, enquanto estivessem tomando o café da manhã, poderia lhe contar seus pesares.

- Trarei as muletas.

- De acordo - disse ela com um pequeno sorriso -. Obediência total, não é assim?

Hanif devia lhe devolver o sorriso. Tinha aprendido a arte de sorrir nos joelhos de seu pai. Mas quando foi a última vez que o tinha feito com sinceridade? Recordava o dia e o momento exato sem a menor dificuldade.

Entretanto, Lucy não merecia um sorriso diplomático.

- Ao contrário, Lucy Forrester. Eu é que estou as suas ordens. Diga-me o que gostaria de comer. Por favor, fale - acrescentou ao vê-la vacilar.

- Suco de laranja?

- De acordo. Chá? Café?

- Chá, por favor.

- E para comer?

- Algo - respondeu com acanhamento.

Lucy foi para o banheiro e mais tarde, envolta na bata de seda que lhe tinham deixado, reuniu-se a Hanif no amplo terraço, sombreado por um teto de fina madeira decorada. A seus pés se estendia um amplo jardim dividido a intervalos regulares por riachos sussurrantes que se convertiam em lagos rodeados de lilás. Também havia amendoeiras em flor e esbeltos ciprestes.

Quando Lucy olhou para o horizonte, tudo o que pôde distinguir além das árvores foram as escuras montanhas, que nesse momento luziam uma formosa cor dourada a causa do sol que nascia depois dos altos picos.

- Que bonito! - Exclamou enquanto Hanif lhe retirava as muletas para acomodá-la em uma poltrona de vime de respaldo alto -. Que lugar é este? Parece um paraíso.

- Você conhece como Rawdah Al-Arusah, que significa o jardim da noiva - explicou ao mesmo tempo em que lhe tendia um copo de suco de laranja e logo abrangia o edifício onde se encontravam com um amplo gesto -. Um de meus antepassados mandou construir o pavilhão original e desenhou este jardim para sua noiva persa, doente de nostalgia pelo jardim que tinha tido que abandonar.

- Tudo isto foi feito para uma mulher? Deve ter sido um grande amor.

- Está surpresa?

- Sim... bom, não - murmurou confusa -. Tinha entendido que os matrimônios entre os capitalistas eram simplesmente alianças arranjadas entre as famílias. Como acontecia na Inglaterra.

- É obvio. Normalmente os matrimônios se pactuam a fim de fortalecer os laços entre famílias aliadas e para unir os que uma vez foram inimigos.

- E ainda se mantém o costume?

- Assuntos de tanta importância não se devem deixar ao acaso - declarou. Ao ver que ela bebia uns goles do suco sem fazer comentários, acrescentou - Acredito que pensa que é algo frio, carente de paixão.

- Mas bem me parece uma transação comercial.

- Quando um homem e uma mulher fazem uma aliança com honra e sabendo de que seu futuro foi escrito para benefício da família e do Estado, o amor e o dever se convertem em uma só coisa.

O amor e o dever.

Lucy pensou que até algumas semanas atrás sua vida inteira se consagrou ao dever. Tinha posto muito pouco amor nela. E logo, tudo tinha se tornado em um instante. Olhou os dedos da mão esquerda. Fazia muito pouco tempo que um deles tinha uma banda brilhante de ouro.

- Assim tão fácil? - Perguntou ao dar-se conta de que ele a observava com o cenho ligeiramente franzido.

- Nada que tenha algum valor é fácil, Lucy. Para que o casal funcione se requer compreensão, esforço e compromisso.

- Não conta a atração inicial? Conheceu sua esposa antes da assinatura do contrato?

- Não, e, entretanto, a amava. Duvida que duas pessoas unidas desse modo possam alcançar a felicidade?

- Para ouvi-lo falar dessa maneira, acredito que teria sido melhor se tivesse havido um pacto claramente entendido por ambas as partes.

- Esteve casada? - Perguntou surpreso.

- Ainda estou - respondeu com pesar -. Casei faz seis semanas.

- Seis semanas? - Exclamou atônito -. E seu marido como pode suportar encontrar-se longe de você? Em tão pouco tempo?

Estava claro que a mentalidade de Hanif não concebia algo semelhante. O tom de sua voz tinha deixado entrever seu desdém por um homem que se preocupava tão pouco em cuidar do que era dele. Ou talvez para uma mulher incapaz de manter o marido junto a ela.

Lucy pensou que haveria se sentido mais afortunada do que tinha direito a esperar um casamento à moda antiga, apoiada em um contrato que tivesse outorgado a segurança do matrimônio e o encanto de ser a esposa de um homem como Steve Mason em troca de uma herança que nunca tinha esperado. Entretanto, Steve a tinha enganado. Tinha tomado tudo e não tinha dado nada em troca. Por essa razão tinha arrojado a uma boca-de-lobo de Ramal Hamrah o anel que lhe tinha posto no dedo. E nesse momento teve que apelar a seu orgulho, o único que tinha lhe restado.

- Meu marido teve que viajar para atender uns negócios urgentes.

Isso era o que lhe havia dito de recém-casados, talvez a única coisa certa em toda aquela história.

- Tão urgentes que você decidiu não o importunar com o acidente?

De repente Lucy pensou que Hanif poderia considerar que se aproveitava de sua generosidade quando tinha um marido cujo dever era velar por ela. Ou talvez o pusesse em um compromisso por ser a esposa de outro homem?

- Sinto muito. Devia ter dito antes. Minha presença pode ser um problema para você, assim partirei imediatamente - declarou com decisão. Hanif tomou a mão quando a estendia para alcançar as muletas -. Como pode ver, encontro-me muito melhor.

- Não, Lucy Forrester. Necessita de tempo para recuperar suas forças. Considere-se bem-vinda em minha casa durante todo o tempo que precise de um refúgio.

- Um refúgio? - Repetiu com o olhar fixo na mão de dedos largos e fortes que cobria a sua com suavidade, como teria feito com um pássaro ferido.

- Utilizei mal a palavra?

- Não, é só que o termo se usa normalmente para descrever um lugar seguro para alguém que foge de um perigo ou que inclusive teme por sua vida.

- Todos fugimos de algo, Lucy, inclusive se os demônios que nos perseguem não são nada mais que sombras.

- Em meu caso não são sombras exatamente - murmurou. Não podia enganar a Hanif. Merecia a verdade -. Tem direito de saber que o veículo que conduzia não era meu.

Hanif, que punha iogurte em um prato, deteve-se para olhá-la com fixamente.

- Tinha alugado? Ou tinha emprestado?

- Nem alugado nem emprestado. Steve me disse que era o dono da empresa Bouheira Tours, embora possa ser que tenha mentido, porque mentiu em tudo. Se o fez, então roubei esse veículo.

Hanif lhe estendeu o prato de iogurte.

- Está muito bom. É feito com o leite de nossas cabras. Quer prová-lo com fruta ou com mel?

- Não entendeu o que acabo de lhe dizer?

- Sim, você levou o jipe da Bouheira Tours sem permissão.

- Uma diferença de termos muito sutil, embora imagine que não impressionaria em um tribunal.

- Provavelmente não - Ao mesmo tempo em que punha umas tâmaras em seu iogurte. - Vi o logotipo da empresa no veículo e entrei em contato com eles, pensando que você trabalhava na agência ou era uma cliente.

- Então sabia de tudo. E o que disseram? Acusaram-me de apropriação indevida?

- Talvez lhe interesse saber que Bouheira Tours não só negou conhecer alguém com o nome de Lucy Forrester, mas também negaram que faltasse um veículo.

- Mas eu o tirei do estacionamento da empresa. As chaves estavam postas. Você mesmo o viu, Hanif. O nome da agência estava escrito nas portas.

- Se insistirem em que não falta um veículo, duvido que armem um escândalo por seu desaparecimento. E se por acaso derem conta de seu engano, tenha certeza que nem suas sombras poderão penetrar através dos muros de minha casa.

- Estamos no deserto, não é isso? É aqui onde se derrubou o veículo? Minutos antes do acidente recordo ter visto vegetação. Pensei que era uma miragem. Tudo isto se encontra por trás dessas altas muralhas, em meio de um nada, não é assim? -Perguntou sem afastar o olhar dele.

- As muralhas são necessárias para proteger as fontes de irrigado e o jardim dos animais selvagens. Prefere estar na cidade de Rumaillah?

- Não, não.

- Porque posso solucioná-lo. Minha casa da cidade está fechada. Mas a minha mãe ou as minhas irmãs se agradariam em acolhê-la como convidada.

- Não, em alguns de dias estarei bem e uma vez que recupere meu passaporte e as passagens, partirei imediatamente. Não irei incomodar a ninguém mais.

- Tome todo o tempo que precisar para recuperar forças antes de enfrentar aquilo que a preocupa.

- Por que insiste em que estou preocupada?

- Ninguém que esteja em paz consigo mesmo rouba um veículo nem arrisca sua vida como você o tem feito. Prove os figos. Recolheram-nos especialmente para você.

Lucy deixou escapar uma exclamação abafada quando sentiu a doçura do fruto púrpura na boca.

- É surpreendente! Nunca tinha provado um fruto como este. É muito diferente dos outros - disse entre risadas ao mesmo tempo em que limpava o suco que escorria pelo queixo.

Ele também riu aparentemente deleitado.

E repentinamente, como se o som de sua própria risada o horrorizasse, levantou-se da cadeira e se afastou com passos largos para o outro extremo do terraço. Logo, com as mãos agarradas no corrimão de madeira, ficou ensimesmado contemplando a paisagem.

Parecia tão solitário que Lucy sentiu a arrasadora necessidade de segui-lo, abraçá-lo em um simples gesto de consolo e lhe assegurar que fazia bem em seguir vivendo, que sua risada não era uma traição.

Incapaz de fazer nada útil para ajudá-lo e convencida que ele preferiria que ignorasse a perda do controle sobre si mesmo, obrigou-se a emprestar atenção ao café da manhã.

Por educação, Lucy evitou olhar a figura de seu anfitrião que imóvel, contemplava as longínquas montanhas.

Enquanto tomava seu iogurte com mel, descobriu que era difícil ignorá-lo e levantou a vista para ele.

Não tinha se movido. O ar quente parecia vibrar com sua presença e compreendeu que uma mulher bem poderia se apaixonar por ele ao olhá-lo pela primeira vez. Cada linha de seu corpo estava carregada de poder, força e graça. Seus olhos eram ferozes e seu perfil esculpido em granito, embora não duvidava que quando tomou a mão de Noor pela primeira vez o tinha feito com suavidade e ternura. E que ela não tinha poderia evitar apaixonar-se por ele.

Com um nó na garganta se perguntou se Steve também teria sido tão terno. Se não tivesse tido que partir por uma emergência teria feito sentir-se como uma rainha? Uma recompensa por ter sido tão ingênua, tão crédula?

Lucy tentou levantar o pesado bule de prata.

- Deixe-me fazer isso - disse Hanif junto à mesa. Logo encheu duas taças e se sentou junto a ela -. Lamento ter deixado você sozinha. Às vezes me assaltam as lembranças e me sinto deprimido. Não sou boa companhia para ninguém, nem sequer para um animal.

O desconhecimento dessa cultura tão diferente à sua obrigava Lucy a atuar com prudência. Entretanto, Hanif passava por um momento de dor e talvez precisasse falar com alguém. E ela devia isso a ele.

- Faz quanto tempo perdeu a sua esposa? - Perguntou com muito tato.

Hanif se reclinou no assento de vime e fechou os olhos.

- Noor faleceu faz três anos - respondeu depois de uma longa pausa.

- Já ouvi antes esse nome.

- O puseram por causa da esposa americana do desaparecido rei da Jordânia. Mas quando nos casamos a conheciam como Umm Jamal. A mãe de Jamal.

- O nome do filho foi eleito antes das bodas? - Perguntou ela.

-Eu sou o filho de Jamal. E serei o pai de Jamal, Insha'Allah.

- Compreendo - disse ao tempo que bebia um gole de chá.

Produziu-se outro longo silêncio.

- Minha esposa morreu de leucemia - disse finalmente.

- Leucemia? Pensava que...

- Pensava que muitas pessoas se recuperam dessa enfermidade, não é assim? Tem razão, Lucy. Com um bom tratamento muitos se recuperam, mas Noor estava grávida quando a diagnosticaram. Negou-se a aceitar o tratamento que a salvaria para não machucar o seu bebê - murmurou com certa aspereza. Lucy sentiu um nó na garganta -. Disse-lhe que teríamos mais filhos, e que se não chegassem tampouco importava, que sempre seria Umm Jamal. Mas nada lhe fez mudar a decisão de não lutar por salvar sua vida. Nem sequer eu.

- E Jamal?

- Sua menina nasceu sã e forte.

Por fim Lucy compreendeu. Não tinha sido um filho, e sim uma filha. A pequena que se assustou ao ver seu rosto.

- Ameerah. A pequena deve ter sido um consolo para você.

Hanif franziu o cenho, como se não a tivesse entendido.

- Consolo?

- Foi o presente de Noor, uma parte dela mesma. Uma filha preciosa.

- Ela sabia. Não deixava de me dizer que se sacrificava por Jamal, embora sabia que seu bebê era uma menina.

- Era uma mãe que protegia a seu filho.

- Mentiu para mim!

Lucy se sobressaltou ante a violência de sua resposta e deixou escapar um grito involuntário ao sentir um intenso golpe de dor em todo o corpo.

- Lucy, sinto muito - disse Hanif ao tempo que se inclinava sobre ela.

- Estou bem - replicou imediatamente afastando o braço antes que ele pudesse tocá-la.

Como se atrevia a falar de amor e de honra?

A ira do Hanif não era dirigida à enfermidade que tinha matado a sua esposa, a não ser à mulher que o tinha desafiado para proteger ao filho que levava em seu ventre. Se tivesse sido um menino, teria celebrado e honrado à mãe. Mas sua ira era uma prova evidente de que uma menina não compensava a perda de sua esposa.

Lucy tinha acreditado que era um homem compassivo, alguém com quem se podia falar em termos de igualdade. Fora aquelas maneiras de grande senhor se escondia um cacique tribal para quem as mulheres não eram mais que uma matriz substituta, destinadas a prover à tribo de filhos varões.

Hanif não sofria pela esposa perdida, mas sim pelo filho que lhe tinha prometido.

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