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Só com um beijo

Só com um beijo

Autor:: Anabella Brianes
Gênero: Romance
Owen é um homem de 43 anos que conseguiu construir um império no mundo dos serviços digitais, mas seu sucesso não tem sido suficiente para preencher o vazio em seu coração. Desde que sua esposa o traiu com um de seus sócios e o abandonou, deixando-o sozinho com a filha de 5 anos, Owen vive preso em um mundo de desconfiança e dor. Incapaz de se abrir novamente ao amor, tenta afogar sua tristeza em relações passageiras com suas secretárias, buscando nesses encontros um alívio temporário para suas feridas. Anna é uma jovem cheia de paixão e determinação, que luta todos os dias para superar as dificuldades econômicas enquanto estuda para se tornar professora. Trabalha sem descanso para pagar a universidade e se agarra aos seus sonhos, apesar de estar presa a um namorado que vive às suas custas, tocando violino no metrô sem outra ambição além de passar o tempo. Às vezes, Anna se pergunta se sua vida poderia ser algo mais, algo que fosse além de simplesmente sobreviver. Quando os caminhos de Owen e Anna se cruzam, o choque de seus mundos tão distintos provoca uma centelha que nenhum dos dois esperava. Ele, com o coração endurecido pelas traições do passado e o cinismo de suas relações fugazes; ela, com uma luz de esperança apesar de suas próprias lutas. Juntos, descobrirão que o amor pode surgir dos lugares mais inesperados e que, quando almas quebradas se encontram, podem se curar de maneiras surpreendentes.

Capítulo 1 (-1-)

Ela ainda não entendia. Como podia ter aceitado uma proposta daquelas?

Anna parou em um canto para observar. Não dizia nada, não se movia, apenas o observava. Queria poder parar de pensar naquilo, queria que nunca tivesse acontecido; assim não se sentiria tão pequena, tão insignificante. Era uma iludida. Mas quase tudo já tinha terminado; só precisava aguentar mais um pouco.

Aquele dia... aquele beijo... Não, não podia pensar nisso. Sacudiu a cabeça como se quisesse expulsar a lembrança, mas as sensações continuavam grudadas na pele.

Desviou o olhar e acompanhou a linha branca das mesas. Um hotel tão elegante, tão distinto, com toda aquela decoração cara. Quadros colocados milimetricamente na distância exata uns dos outros; luminárias enormes brilhando intensamente no teto; móveis antigos espalhados por pequenos cantos e esquinas. E, ao fundo do salão, uma orquestra muito bem afinada que oferecia aos convidados melodias suaves e íntimas de jazz.

Mesmo com seu lindo vestido, os sapatos e os diamantes pendurados no pescoço, Anna sabia que não pertencia àquele ambiente. A atmosfera estava pesada, lembrando-a o tempo todo de que aquele não era o seu lugar. O ritmo da música mudou um pouco.

Seu olhar parou diretamente em Owen, que dançava com Elena no meio da pista. Estavam quase sozinhos; a maioria dos convidados apenas observava, com sorrisos de canto, olhares baixos e murmúrios. Estavam muito entretidos com o espetáculo principal.

- É um idiota condenado -disse Bob.

Anna virou só um pouco e olhou para ele.

- Desculpa... aquela mulher -disse ele mais baixo, quase envergonhado.

- Não se preocupe, eu entendo -disse Anna. - Ele ainda sente algo por ela, não é?

- Não sei... sinceramente, não sei, Anna. Às vezes acho que sim, mas depois ele tem aqueles momentos de fúria... ah! Até eu fico confuso.

Bob conhecia Owen desde pequenos; sempre foram amigos inseparáveis. Sentia-o mais como um irmão do que como um amigo de alma. Tinha visto Owen se casar com Elena, tinha visto no que ele tinha se transformado. Suspirou, vencido. Amava o amigo, mas às vezes tinha muita vontade de quebrar alguma coisa na cabeça dele.

- Talvez, se eu quebrar uma garrafa na cabeça dele, eu descubra se ainda lhe sobra matéria cinzenta - disse meio baixo, como se falasse consigo mesmo.

Anna esboçou um leve sorriso. Tinha um nó no estômago; conhecía a história por trás e sabia o que Elena estava tentando fazer - o que não entendía era o que ela mesma fazia ali, no meio de tudo aquilo.

- Ela o enganou descaradamente! Ele a encontrou dentro da própria casa com o amante! Você acha que ela se preocupou com Eva? Que se importou com a filha? Quando Owen a expulsou como a um cachorro e lhe deu todo o dinheiro do acordo de divórcio, ela entrou num avião com aquele sujeito e sumiu. Owen me contou que ela nem sequer mencionou a menina, nem perguntou por ela! E agora isto?! Aquela mulher é uma bruxa!

Foi mais ou menos isso que sua amiga Lali, prima de Owen, lhe havia contado. Anna só podia imaginar toda aquela dor, toda aquela mágoa. E, embora ela própria também convivesse com a dor todos os dias, não alcançava a dimensão do que Owen devia ter sentido; sozinho com sua filha pequena, abandonado e traído.

- Me tira pra dançar - disse ela de repente a Bob.

- O quê?

- Me tira pra dançar, eu vou tirá-lo dali - respondeu convicta.

- Você não precisa fazer nada disso, Anna.

- Eu sei, mas não posso deixar que ela faça isso com ele... É muito triste.

Bob pensou por alguns instantes. A garota tinha coragem. De onde Owen a tinha tirado? Pelo visto, ela conhecia a história do amigo e estava genuinamente preocupada com ele. Talvez... não, Owen não se permitiria algo assim; não deixaria ninguém se aproximar. Mas, ao ver a determinação nos olhos de Anna, ofereceu-lhe o braço com um sorriso e começaram a caminhar em direção à pista.

Os olhos de Owen se cravaram nela enquanto ela se aproximava de braço dado com seu amigo; não esperava vê-la daquele jeito, tão bonita. Mas... o que ela estava fazendo? O acordo era simples: ele precisava de alguém que o acompanhasse, um acessório que entrasse com ele naquele hotel, sorrisse um pouco, se comportasse com decoro e, em troca, a dama receberia uma transferência de cinco dígitos em sua conta bancária. Um trato mais que justo por algumas horas de "presença".

Bob segurou Anna pela cintura e eles começaram a se mover no compasso da música. De vez em quando, ele cruzava olhares desesperados com o amigo, como se quisesse incitá-lo a parar com aquele espetáculo que estava dando. Sacudia a cabeça, apontando para Anna. Mas ela tinha os próprios planos.

Ela parou muito perto de Owen e Elena. Bob a olhou, expectante, e Owen a encarou com um toque de desdém.

- Owen... - disse Anna.

Elena a examinou dos pés à cabeça. Sim, era bonita, jovem e usava um bom vestido, mas nem chegava perto do tipo de mulher que ela era. A sofisticação e a elegância naturais, a beleza quase sobrenatural, a boca vermelha e o cabelo preto.

- O quê? - respondeu ele, irritado.

Anna se desprendeu de seu par de dança e pousou a mão no ombro dele, mesmo enquanto Owen ainda segurava Elena pela cintura. Ele pôde sentir o calor daquela mão pequena atravessando o tecido do terno.

- Desculpa? - indignou-se Elena diante de tanta ousadia daquela pirralha.

- Perdão, sou Anna, muito prazer. Sinto interromper vocês, mas... eu queria beber alguma coisa, Owen.

O quê? A confusão se desenhou no rosto daquele homem alto, de fios grisalhos. Ele arregalou os olhos, e Anna cravou os seus nele com uma intensidade que o desequilibrou.

Bob não podia acreditar; estava quase soltando um grito de empolgação. Olha só! Se ela desgrudasse Owen de Elena, se o tirasse dali, deixando aquela vadia sozinha na pista de dança, ele mesmo ergueria uma estátua dela em uma praça pública.

Mas Owen estava tendo dificuldade para reagir. Tinha todas as emoções de cabeça para baixo: em suas mãos, a mulher que ele havia amado com loucura, com desespero, com devoção; a mesma que o traiu com seu sócio, se enrolando com ele dentro de sua casa e em sua cama, a poucos metros do quarto da filha. Em seu ombro, a mão quente e pequena daquela garota tão franca e simples, que só existia ali porque sim, a quem ele tinha roubado um beijo fugaz...

Os olhos enormes e límpidos de Anna pareciam perfurar-lhe a alma. Por um momento, ele se sentiu exposto, vulnerável.

Diante da hesitação do seu amigo idiota, Bob decidiu dar um passo à frente.

- Elena! Elena, querida! Muito obrigado por ter me convidado! Queria cumprimentá-la antes, mas você está sempre cercada de gente. Olha como você está linda depois de tanto tempo! Uma loucura! - cumprimentou-a de forma exagerada, elevando um pouco a voz, tentando se meter entre eles.

Anna lhe deu um leve sorriso e apertou um pouco mais a mão sobre o ombro de Owen, e ele finalmente soltou a cintura de Elena. Virou-se e a seguiu para fora da pista. Elena tentou dar alguns passos em direção a ele, mas Bob se plantou à sua frente.

- Nem pense nisso, querida - disse, fingindo um enorme sorriso e sussurrando.

- Bob, Bob... - ela balançou a cabeça. - Você realmente acha que uma mulher assim é concorrência para mim? Vamos!

- Não sei, não me importa. Volte para o seu buraco, vá embora e não volte. Deixe-o em paz.

Ir embora? Agora que tinha comprovado, em primeira mão, que ainda exercia poder sobre ele? Agora que ele era o Diretor-Geral? Só podia ser brincadeira. Claro que não iria embora - estava apenas começando.

Anna passou o resto da noite tentando impedir Owen sempre que parecia querer voltar a se aproximar da órbita da ex-esposa. Falava com ele, fazia perguntas, pedia bebidas e até ajeitava o lenço do paletó. Tinha certeza de que aqueles olhos mortos daquela mulher continuariam procurando por ele. Owen apenas a observava, sem dizer nada. Respondia seco, com poucas palavras e, ainda assim... da mesma forma que Elena o atraía, Anna o afastava.

Por fim, ele decidiu ir embora, e Bob soltou todo o ar que vinha prendendo. Saíram os três e Owen abriu a porta do carro para Anna.

- Não sei de onde você tirou essa menina, Owen, mas ela salvou sua pele hoje - disse Bob, aproximando-se um pouco.

- É a garota que faz a limpeza na empresa, à noite - respondeu ele, distante.

- O quê!?

- É amiga da Lali...

- Preciso pedir para a Lali me apresentar as amigas dela!

- Não seja ridículo.

- Bom, pelo menos dê um aumento para a Anna - brincou o amigo.

- Aumento? Acha que ela veio por amizade? Veio por dinheiro, como todas - sua voz soou como sempre, cínica.

Bob parou bem na frente dele e colocou a mão em seu ombro.

- Olha, Owen, eu sei como você se sente e como pensa. Mas o que aquela garota fez por você esta noite... ninguém faz por dinheiro. Só... não se engane de novo.

Deu dois tapinhas no ombro de Owen e foi embora. Ele entrou no carro - ainda precisava levar Anna ao apartamento dela para que trocasse de roupa e depois deixá-la de volta no próprio prédio.

Capítulo 2 (-2-)

O cinismo de Owen tinha fundamento - ou pelo menos, era isso que ele acreditava.

Sexy...

De olhos cinzentos...

De cabelo castanho salpicado de gris...

Assim era Owen Walker. Aos quarenta e três anos, já ocupava a cadeira da Direção-Geral da Plaza & Milne I.T., uma das maiores empresas de serviços tecnológicos do país. Um homem bem-sucedido nos negócios, um guerreiro incansável para ideias revolucionárias e para gerar dinheiro. Seu tio o colocou à frente daquele monstro mercantil sem hesitar - e não se enganou: na parede de seu escritório penduravam-se todas as capas de revistas especializadas que o apresentavam como "o artífice da próxima era digital".

Brilhante, combativo, de temperamento volátil e extremamente ambicioso, sempre dava a impressão de estar irritado. Seu rosto impassível e o olhar frio, quase morto, geravam respeito e medo entre todos ao seu redor. Mas por trás daquela fachada dura e cheia de conquistas, escondia-se um homem profundamente ferido.

Uma ferida que o marcou e destruiu todos os seus sonhos. Owen nem sempre fora assim. Não, ele tinha se apaixonado até os ossos por uma mulher linda; tinha enlouquecido por ela. Prometera a ela o mundo inteiro e um futuro juntos. Não quis ouvir ninguém - nem seus amigos, que a conheciam e o alertaram, nem sua própria mente, que disparava sinais de perigo sem parar.

Casou-se com ela, com Elena, completamente cego de amor. E quando ela lhe contou que estava esperando um filho, Owen se tornou o homem mais feliz e orgulhoso. Sonhava acordado com como seria seu bebê e com tudo o que lhe ensinaria. A vida estava lhe dando tudo o que alguém pode desejar. Depois veio a notícia de que seu filho seria, na verdade, uma filha; seu peito mal conseguia conter tanta ternura. Uma menina! Uma menina linda e doce! Uma menina com dois lacinhos e vestidos cor-de-rosa, que o olharia chamando: "Papai".

Mas depois do nascimento de Eva, sua filha, tudo desmoronou. Sua esposa não demonstrava interesse pela pequena, e Owen se desesperou. Os médicos informaram que aquilo que Elena estava sofrendo era depressão pós-parto, e ele fez tudo o que recomendaram para encontrar uma solução. Os primeiros meses foram uma tortura: via-se sobrecarregado pela situação - o choro incontrolável da filha chamando pela mãe e a indiferença de Elena diante dela. Mesmo assim, Owen não desistiu.

Ele se levantava várias vezes durante a noite para atender o bebê e deixava que Elena dormisse; não a pressionava com questionamentos nem reprovações, porque sabia que ela também estava passando por um momento difícil. De repente, já não era apenas o Diretor de uma empresa, um marido e um pai; tinha se tornado o único sustento da família, o único apoio. Muitas vezes, colocava a filha numa cadeirinha e a levava com ele para o escritório. Outras vezes, deixava a pequena aos cuidados de sua mãe enquanto trabalhava.

A vida tinha se complicado. Eva passou os primeiros seis meses entre os escritórios da Plaza & Milne, entre secretárias e amigos de Owen que trabalhavam com ele. Sua prima Lali costumava aparecer de repente para levar Eva por algumas horas. E ele era grato a todos pelo amor que davam à menina - o amor que ela não recebia da própria mãe.

À noite, ele chegava e encontrava Elena ainda na cama; ela quase não falava, mal o olhava. E quando ele aproximava o bebê dela, Elena cobria a cabeça com o lençol ou virava de lado.

- Não me sinto bem - justificava-se.

A cada vez, o coração daquele pai perdia um pedaço. O que iria fazer? Seguir. Continuar sem parar até que o amor da sua vida conseguisse se erguer novamente, até recuperá-la e, finalmente, ter a família que sempre sonhara.

Mas, às vezes, ele desabava. Às vezes, observava Eva dormir, depois descia à cozinha e se trancava lá para chorar como uma criança. O choro que nasce da dor na alma, do medo e do desespero. Cobria o rosto com as mãos e se sentava no chão para liberar toda a frustração. Sua mente lhe devolvia, sem cessar, o rostinho vermelho e choroso do bebê e o olhar distante de Elena.

Ele era forte, mas não o suficiente.

Não se resignava ao destino que se colocava diante dele; não faria isso jamais. Então enxugava os olhos, respirava fundo e voltava para o quarto. Deitava ao lado de uma mulher que já não o procurava, não o olhava com desejo, nem sequer o abraçava. Mas Owen a abraçava - só para que Elena não se sentisse abandonada. Aproximava-se um pouco e envolvia sua cintura com o braço. E era isso. Fechava os olhos e começava de novo a luta na manhã seguinte.

No entanto, o destino jogou sujo. Se ele não se curvava aos seus desígnios, o destino o destruiria - porque o destino não gosta de perder. Como Owen não se rendia nem aceitava a vida como ela era, o destino colocou diante dele a prova de que estava errado, de que ele não merecia a possibilidade da felicidade completa. Em um único dia, tirou dele tudo o que Owen vinha defendendo incansavelmente, deixando-o sozinho, ferido e cheio de raiva.

Owen Walker, o Diretor-Geral da Plaza & Milne, o pai de Eva, estava prestes a se transformar no que era agora. Ele não sabia disso e, mesmo que soubesse, dificilmente poderia ter mudado alguma coisa. Fez com que sua alma congelasse no tempo, que perdesse a confiança, que se escondesse dentro de uma casca e se afastasse da vida comum e mundana. Tudo o que lhe restaria seria um sabor amargo permanente na boca e um coração que mal voltaria a bater de verdade.

- São todas iguais, Bob - começou naquela noite, entre goles. - Tudo o que querem é que você vire um idiota, dê todo o dinheiro e as joias que desejam e depois fujam com algum sujeito asqueroso.

Estava muito bêbado, e Bob quase também. Mas o ouvia e apenas concordava, dando-lhe razão mesmo que ele não a tivesse.

- Eu te disse que ela era uma bruxa! Mas você me ouviu? Claro que não! Você não ouve ninguém! Você é um idiota!

- Não vão me enganar de novo... Não vão.

- Pelo menos você tem sua filha. Eva é tão linda... - disse o amigo com voz sonhadora. Era sua sobrinha postiça e, claro, era a menina mais bonita do mundo.

- A mais linda! Minha menina - disse ele, com a voz quebrada. - Não sei como vou conseguir sozinho com a Eva, tenho medo - confessou.

- Mas que diabos?! Você vem fazendo tudo sozinho desde que ela nasceu! Essa bruxa estar ou não, não muda nada na vida da Eva... Só na sua. Você é um idiota, mas é o melhor pai que eu conheço. Vai se sair muito bem.

Ele deu algumas palmadas fortes nas costas de Owen, fazendo-o derramar a bebida sobre a mesa.

Assim começou sua transformação. O homem terno, sonhador e apaixonado que um dia fora foi mudando com o passar dos anos. A tristeza e a desconfiança tomaram conta dele, depois a frieza. O cinismo de ver todas as mulheres pelo mesmo vidro com que via Elena acabou o levando a desenvolver um modo bastante sórdido de canalizar sua raiva. Uma mancha que ninguém, exceto Bob, conhecia.

Capítulo 3 (-3-)

A "mancha" de Anna era bem visível: chamava-se Alex, tinha vinte e oito anos e nenhum desejo de progredir.

Anna conhecia a luta e o sacrifício desde muito cedo. Trabalhava incansavelmente, assumindo vários empregos para conseguir seguir em frente. Sua vida não fora fácil, mas sua força estava na capacidade de se manter alegre e dedicada apesar das adversidades.

Amável, compassiva, com uma ética de trabalho inabalável. Mas, apesar de seu bom coração, Anna havia cometido o erro de se manter numa relação com um homem que já não amava.

Não era apenas um peso emocional, mas também financeiro. Alex era sua carga, a mancha que ela não conseguia apagar. Ela o conhecera cinco anos antes, quando ele entrou com seu violino na cafeteria onde Anna trabalhava. Naquela época, ele tinha um emprego estável e só tocava quando sobrava tempo. Começou a aparecer todos os dias para esperá-la quando seu turno terminava e a acompanhava até a entrada do metrô.

Falava para ela sobre teorias maravilhosas do universo, do karma, das vidas passadas e de como tudo estava interligado. Ela se apaixonou por seu sorriso sonhador e pela força das suas palavras. Até que ele decidiu pedir demissão e se dedicar inteiramente à música. O problema era que sua mediocridade não o deixava enxergar além do próprio nariz.

Anna ofereceu que ele fosse morar com ela enquanto encontrava outro emprego. E já fazia quatro anos "sem procurar". Mas uma filosofia de vida baseada apenas em lançar desejos ao universo não colocava comida na mesa nem pagava dívidas.

Ele dizia que precisava de tempo, que estava num processo de busca pessoal. As utopias são isso: utopias; a realidade era agora.

- Preso num escritório oito horas por dia, eu não teria o tempo necessário para explorar meu eu interno, para encontrar minhas verdades, minha essência. A vida é mais do que só trabalhar, Anna - ele costumava dizer.

E ela sentia que não podia simplesmente colocá-lo para fora de casa, como se fosse descartável; sentia que tinha uma responsabilidade com ele. Mesmo que a intimidade já estivesse morta, mesmo que as noites de conversas e risadas tivessem ficado para trás, Anna não conseguia simplesmente se desfazer de Alex como se fosse uma coisa. Então respirava fundo e continuava.

O pequeno apartamento onde viviam um dia fora acolhedor e quente, mas agora era um espaço escuro que parecia frio. Ela lembrava dos primeiros tempos, quando recém havia se mudado sozinha. Com muito esforço e trabalho, tinha pintado, arrumado e decorado o lugar que chamava de "Meu refúgio feliz".

Já não era - nem refúgio, nem feliz. O apartamento estava desmoronando. Sempre havia uma conta para pagar, então sua lista de reparos ficava esquecida.

Isso a frustrava; com vinte e seis anos, sentia que tinha de enfrentar a vida com uma mão amarrada. De alguma forma, talvez mágica, ela não parava. Sacudia a cabeça quando a tristeza estava prestes a vencê-la e se levantava, ligava o pequeno aparelho de som e ouvia suas músicas favoritas enquanto arrumava ou limpava o apartamento. Recarregava-se de uma energia invisível e saía para a rua com a esperança renovada.

Talvez estivesse se fazendo de cega, surda e muda. Não queria ver as dificuldades, mesmo quando batiam em seu rosto. Não queria ouvir os conselhos da amiga, porque lhe diziam a verdade. E não queria expressar o que pensava, porque isso sairia de dentro dela como um grito que a rasgaria.

Anna era ingênua demais; acreditava que os outros agiam e pensavam como ela, sempre dispostos a ajudar, quando, na realidade, aquele homem a estava usando. Não trabalhava, não estudava, não fazia nada além de tocar violino; não se importava com nada além do seu "sonho".

Quem poderia imaginar que seu caminho estava traçado em outra direção? Nem ela sabia, nem teria sonhado. Às vezes, quem não desiste recebe sua recompensa, mesmo quando não parece.

Mas um dia, ela deu de cara com aquelas dificuldades. Sentada numa cadeira diante da pequena mesa da cozinha, tinha sobre ela todas as contas que precisava pagar. Organizadas e acomodadas, ocupavam toda a superfície bege da tábua.

Era um desastre - a pilha crescia mais e mais a cada dia. Com seu trabalho na cafeteria, ela não podia pagar tudo aquilo. A maior parte do salário ia só para o aluguel - sem falar dos serviços e dos estudos na universidade.

Porque ela estudava; adorava estudar. Queria ser professora - esse era seu pequeno sonho, e lutava todos os dias para alcançá-lo. Mas a realidade da sua situação estava começando a balançá-la.

- Estou cansada de sofrer tanto, Lali - disse Anna, com uma voz tão triste que partiu o coração da amiga.

Anna levou as mãos à cabeça e se curvou; estava prestes a cair no choro. A cada dia que passava, sentia-se mais derrotada.

- Eu sei, Anna - murmurou Lali, tentando manter a voz firme, embora também sentisse que o mundo estava desmoronando -, mas você sozinha não consegue. Olha como você está. Não quero insistir sempre na mesma coisa, amiga, mas você precisa deixá-lo. Você não pode continuar sustentando esse homem - estava quase chorando também -. Ele já deveria ter deixado essa ideia de querer ser artista e procurado um emprego.

Anna colocou um sorriso melancólico no rosto e a encarou.

- Vou ter que largar a faculdade e conseguir um emprego em tempo integral - as lágrimas já escorriam por suas bochechas.

A derrota batia à sua porta todos os dias, quando nem sequer havia dinheiro suficiente para cobrir os gastos básicos. Lali via como ela estava perdendo peso com o passar dos meses e se desesperava. Quantas vezes já tinha oferecido ajuda financeira, mas Anna sempre recusava. Tinha aquela ideia enraizada de que precisava conseguir tudo sozinha. E então, quando abria o armário e percebia que teria de comer o mesmo que na noite anterior, entre lágrimas de impotência dizia a si mesma que havia pessoas que nem isso teriam para comer.

- Não! Você precisa dizer a ele que procure trabalho. Tocando violino no metrô ele não vai conseguir nada, e além disso está te arrastando junto com ele - Lali estava indignada; doía ver a teimosia da amiga e vê-la sempre contando moedas.

Mas Anna queria continuar acreditando nele. Não era um homem mau, só era frágil e sensível; tinha alma de artista e vivia para isso. Sacudiu a cabeça em negativa.

- Pelo amor de Deus, como você é teimosa! Não imagina quanto me dói te ver assim.

- Desculpa, sei que sempre te conto as piores coisas, mas você é a única que me escuta.

Anna estava se deteriorando rapidamente. Tinha sido uma jovem brilhante, inteligente e otimista, que chegara à cidade numa primavera cheia de esperanças e sonhos. E agora se via cada vez pior, cada vez mais encolhida. E tudo por ter se apaixonado por aquele caçador de ilusões.

- Não largue a faculdade. Deixe eu falar com meu primo. Vou pedir para ele te dar um trabalho na empresa dele, tenho certeza de que você consegue alguma coisa lá - era o último recurso que lhe ocorria para ajudar a amiga.

- O seu primo não vai me aceitar, já passamos por isso. Entreguei meu currículo duas vezes e nunca me chamaram. Não o incomode, mas obrigada mesmo assim - e foi só isso; o choro ficou ainda maior.

Uma angústia terrível a perseguia todos os dias, a mesma que sentem aqueles que querem e desejam, mas não conseguem. Os salários tinham estagnado e o custo de vida subido; mal dava para pagar o aluguel e, depois da segunda quinzena, viviam do que ele tirava tocando no metrô.

Muitas noites discutiam por isso, porque Anna sentia o corpo exausto e o coração apertado pelas dificuldades.

Mas sua amiga, cansada das negativas constantes, decidiu tomar uma atitude. Se depois Anna ficasse brava, paciência! O que Lali nem imaginava era que, além de ajudar a amiga a melhorar um pouco, acabaria colocando-a no caminho que mudaria sua vida.

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