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SANGUE ETERNO

SANGUE ETERNO

Autor:: Angel_M
Gênero: Romance
Ayla Morgan sempre foi diferente. Órfã desde os sete anos, ela carrega um mistério que nem ela mesma compreende: por que sua mente é um santuário impenetrável? Por que sua presença desperta tanto fascínio quanto perigo? Quando Dorian Valecliff chega a Ravenmoor com sua enigmática família, Ayla se vê presa entre dois mundos que não deveria conhecer. De um lado, Kai Blackwood, seu protetor de anos, esconde segredos sobre o passado dela que podem mudar tudo. Do outro, Dorian a observa com uma intensidade perturbadora, incapaz de ler seus pensamentos pela primeira vez em quase dois séculos. Mas há algo muito maior em jogo. Forças obscuras a espreitam nas sombras, sedentas pelo que corre em suas veias. Algo que ela nem sabe que possui. Algo pelo qual estão dispostos a matar. Em uma cidade onde vampiros e lobisomens coexistem em trégua frágil, Ayla descobrirá que sua origem não é apenas um mistério é uma maldição. E que o maior perigo pode não vir de fora, mas do próprio sangue que a mantém viva.

Capítulo 1 Prólogo

Há coisas que a gente não consegue explicar.

Sensações que chegam antes do acontecimento em si - um frio na nuca que aparece do nada, o cheiro de terra molhada quando o céu ainda está limpo, um aperto no peito exatamente dois segundos antes da primeira palavra de um adeus. Cresci achando que todo mundo sentia isso. Que era normal. Que o mundo inteiro caminhava com esse ruído baixo embaixo dos próprios pensamentos, essa frequência que vibrava nas extremidades das coisas e dizia: preste atenção, algo está prestes a mudar.

Demorei muito tempo para entender que não era assim. Que a maioria das pessoas simplesmente... não ouvia.

Eu ouvia.

Desde que me entendo por gente, Ravenmoor falava comigo de um jeito que não conseguia reproduzir em palavras. Era uma linguagem anterior à linguagem - uma conversa feita de névoa rastejando rente ao chão nas manhãs de outubro, do som específico que o vento fazia ao passar entre as árvores velhas no limite leste da cidade, do modo como as lamparinas das ruas antigas tremeluziam quando não havia vento algum. A cidade tinha pulso. Tinha humor. Tinha segredos com textura, que você podia quase tocar se ficasse quieta o suficiente.

As florestas ao redor não eram apenas árvores. Nunca foram. Eram sentinelas com raízes tão fundas que chegavam a lugares que mapas não alcançavam, guardiãs de algo que dormia sob a terra com a paciência de quem sabe que o tempo não é inimigo. Eu não sabia o que era esse algo. Mas sentia a presença dele toda vez que me aproximava demais da borda da mata, como o calor de uma chama antes de você ver a própria chama.

Cresci aprendendo a ignorar tudo isso.

Aprendi a não mencionar que conseguia sentir quando alguém estava mentindo - não o nervosismo de quem mente, mas o peso real da mentira, como uma nota errada dentro de uma melodia que parecia certa. Aprendi a fingir que minha cabeça era igual à de todo mundo: vazia das frequências erradas, cheia das preocupações certas. Notas. Provas. O aluguel que a Sra. Hargrove me cobrava com olhos calculistas toda primeira semana do mês, como se eu fosse uma despesa que ela lamentava ter assumido.

Eu era uma órfã de sete anos com um arquivo no cartório, um endereço que não existia mais e zero respostas sobre o incêndio que apagou tudo que veio antes. Ravenmoor foi o que restou. Os Hargrove foram o que restou. Kai foi o que restou - e talvez tenha sido a única coisa boa que o acaso me deu sem cobrar nada em troca.

Durante anos, achei que minha vida era isso. Pequena, estreita, previsível dentro dos limites de uma cidade que não crescia e não encolhia, que simplesmente existia no mesmo ritmo lento desde antes de eu nascer.

Então os Valecliff chegaram.

E tudo que eu havia construído com tanto cuidado - a normalidade, a distância segura, a ilusão de que era uma garota comum com problemas comuns - começou a rachar por baixo, feito gelo fino sobre água funda, silencioso e inevitável.

Havia dois homens nessa história. Dois homens que, cada um à sua maneira e pelos motivos mais opostos possíveis, mudaram completamente o que eu achava que sabia sobre mim mesma. Sobre o mundo. Sobre o tipo de criatura que pode existir nas sombras de uma cidade pequena quando ninguém está prestando atenção. Sobre o peso específico de descobrir que o sangue nas suas veias carrega algo que você nunca pediu e não pode devolver.

Houve traições que não vi chegar. Perdas que me quebraram de modos que eu não sabia ser possível quebrar. Houve noites na floresta e sangue na terra e escolhas que não tinham resposta certa - só respostas que você aprendia a carregar.

Se eu pudesse voltar a esse ponto de antes - ao dia em que a caminhonete preta parou na frente da mansão Vael e algo em mim soou como alarme - e escolher ignorar tudo que veio depois?

Não voltaria.

Porque foi exatamente no centro daquele caos, naquelas mentiras empilhadas sobre verdades mais antigas ainda, naquele sangue e naquela dor e naqueles dois pares de olhos que me olhavam de maneiras tão diferentes e igualmente impossíveis de ignorar, que eu finalmente entendi quem eu era.

E isso - por mais que tenha custado cada cicatriz, cada lágrima, cada noite em que achei que não ia sobreviver à manhã - valeu cada segundo.

Capítulo 2 A Cidade dos Segredos

Ravenmoor tinha esse jeito de te engolir.

Não de repente, não com alardes. Mas devagar, como névoa entrando por baixo da porta enquanto você dormia. Você acordava e simplesmente estava envolta nela, e nem sabia mais quando tinha começado.

Eu vivia aqui desde que tinha memória. Antes disso, também. Mas os "antes" da minha vida começavam com um incêndio, uma cama de hospital e o rosto da Sra. Hargrove, que me acolheu sem muita cerimônia e menos ainda afeto. Sete anos de idade, sem família, sem explicações. Só um arquivo no cartório com o nome Ayla Morgan e um endereço que não existia mais.

Com o tempo aprendi que Ravenmoor era o tipo de cidade onde as perguntas custavam caro. Então eu parei de fazer.

- Você está encarando o nada de novo - disse Kai, jogando o mochilão no banco ao meu lado e deslizando para o assento em frente com a familiaridade de quem fazia aquilo há anos. Porque fazia. - Aconteceu alguma coisa ou você está só sendo você mesma?

- Sendo eu mesma - respondi, empurrando o copo de suco na direção dele. - Pode tomar, não estou com fome.

Ele aceitou sem protestar. Kai Blackwood era assim: nunca desperdiçava comida, nunca perdia uma oportunidade de te chamar de idiota com carinho, e nunca - em dezoito anos de amizade - tinha me deixado sozinha quando importava. Tinha cabelos escuros sempre levemente bagunçados, ombros largos demais para um cara de dezessete anos, e um sorriso que chegava antes de qualquer palavra.

Era meu melhor amigo. Meu único amigo de verdade, se eu fosse honesta comigo mesma.

- Os Hargrove estão te enchendo o saco de novo? - ele perguntou, com a boca já no copo.

- Os Hargrove vivem me enchendo o saco. Isso é o estado natural das coisas.

- Ayla.

- Kai.

Ele me olhou por um segundo a mais do que o necessário. Aquela olhada dele que eu nunca sabia bem como interpretar - séria demais para ser só amizade, leve demais pra ser outra coisa. No final, ele desistiu, como geralmente fazia.

- Tudo bem - cedeu, pousando o copo na mesa. - Mas se quiser dormir no sofá lá de casa essa semana, você sabe que pode.

A família Blackwood era um capítulo à parte. Numerosa, calorosa e barulhenta de um jeito que eu nunca tive em lugar nenhum. O pai de Kai, Reid, era o tipo de homem que preenchia qualquer cômodo onde entrava, não pela altura nem pelo volume, mas por alguma presença intangível que fazia as pessoas recuarem um passo sem perceber. Os irmãos de Kai eram parecidos. Todos eles eram parecidos.

Eu sempre achei curioso. Nunca perguntei por quê.

Saímos da lanchonete por volta das cinco. O sol baixava sobre os telhados de pedra de Ravenmoor com aquela luz dourada e preguiçosa que tornava tudo mais bonito do que realmente era, como maquiagem sobre um rosto cansado. As ruas do centro eram estreitas, calçadas irregulares, e as árvores que cresciam nas calçadas tinham raízes tão antigas que levantavam o asfalto em ondas. Ninguém consertava. As raízes faziam parte da paisagem, e a cidade parecia ter aceito isso há muito tempo.

Foi quando Kai parou.

Fiz dois passos além dele antes de perceber, e me virei para ver o que tinha chamado a atenção. Ele estava com os olhos fixos na rua paralela, a mandíbula levemente tensa, o corpo imóvel da forma que ficava quando estava em alerta. Eu reconhecia esse estado nele desde criança, mesmo sem nunca ter sabido nomear.

- O quê? - perguntei.

- Nada - ele disse. Mas não era nada.

Segui a direção do olhar dele. Uma caminhonete preta e alta estava estacionada na frente da mansão Vael, aquela construção grande e escura que ficava vazia há pelo menos três anos no limite da rua mais antiga da cidade. Homens descarregavam caixas em silêncio enquanto a luz do fim de tarde batia nas janelas da casa como uma espécie de advertência.

- Alguém comprou a mansão? - perguntei.

- Aparentemente.

Havia algo no tom dele que me fez olhar de volta para o rosto de Kai. Não era surpresa. Era reconhecimento.

- Você sabe quem é?

Ele virou para mim e esboçou um sorriso que não chegou aos olhos.

- Não faço ideia - disse. - Vamos embora, está ficando frio.

Era mentira. Eu sabia que era mentira.

Segui assim mesmo.

Capítulo 3 Os Valecliff

A notícia se espalharia pela escola antes mesmo do sino das oito.

Os Valecliff.

Até eu - que raramente prestava atenção em fofoca - ouvi o nome três vezes antes de chegar à sala de aula. Uma família inteira. Irmãos. Pai e mãe adotivos, comentou alguém. Vindos de... onde? Ninguém sabia ao certo. Europeus, talvez. Ricos, com certeza. O tipo de riqueza que não precisava se anunciar.

- Alguém disse que são uns cinco - começou Priya Mehta, encostada na minha carteira antes da aula começar, visivelmente animada. - Dois irmãos, uma irmã e os pais. E que são absurdamente bonitos.

- Que relevante - murmurei, abrindo o caderno.

- Ayla. Você é incapaz de se empolgar com qualquer coisa.

- Estou empolgada com a prova de literatura.

Ela fez uma careta e voltou para o lugar dela.

Não sabia dizer o que era exatamente, mas desde que vi a caminhonete preta na noite anterior, alguma coisa dentro de mim estava inquieta. Não era curiosidade. Era aquele senso aguçado que aprendi a ignorar, fazendo barulho de novo.

Eles chegaram perto do intervalo.

Eu estava saindo da biblioteca quando os vi atravessando o corredor principal, e entendi de imediato o que Priya quis dizer. Havia neles algo que escapava ao ordinário. Não era só a beleza, embora fossem perturbadoramente belos. Era o modo como se moviam, como ocupavam o espaço - uma graciosidade calma e precisa que parecia calculada, mas que fluía natural demais para ser ensaiada.

A irmã era alta, de cabelos cor de trigo, com um olhar que varria um cômodo inteiro antes de pousar em qualquer ponto específico. Um dos irmãos ria de alguma coisa, com um sorriso fácil que sugeria que achava tudo levemente entediante. A mulher ao fundo observava os dois com a paciência de quem já viu muito.

E o terceiro.

Ele estava um passo atrás dos outros, e foi o único que não estava olhando para nada em específico - até que olhou para mim.

Parei no meio do corredor sem querer.

Era alto, com ombros que preenchiam o casaco escuro de um jeito que fazia o tecido parecer intencional. Cabelo quase preto, olhos que eu não consegui definir à distância - claros demais, escuros demais, alguma coisa entre os dois que não tinha nome certo. Tinha um rosto que poderia ter sido esculpido por alguém que conhecia muito bem geometria e queria fazer o restante do mundo se sentir mal.

O problema era a expressão.

Não havia nada nela, à primeira vista. Mas enquanto o olhar dele me encontrava e ficava - não varria, não deslizava, ficava - algo mudou naqueles traços. Uma fresta de algo que não consegui nomear. Como se tivesse encontrado alguma coisa que não esperava.

Desviei o olhar primeiro. Por instinto, mais do que por escolha.

Quando levantei os olhos de volta, ele ainda estava me olhando.

- Ayla.

A voz de Kai veio de trás. Ele apareceu ao meu lado em dois passos, e a presença dele era tão familiar e sólida que soltei um ar que nem percebi que estava prendendo.

- Você viu? - perguntei baixinho.

- Vi - disse. Tinha algo na voz dele - quieto, apertado - que fez a inquietação no meu peito dobrar de tamanho. - Fica longe deles, Ayla.

Olhei para o lado.

- O quê?

- Só fica - ele repetiu, e o tom não era pedido. Tinha ali algo que se aproximava de urgência, uma seriedade que raramente aparecia no rosto dele. - Por favor.

Eu não entendi naquele momento. Não perguntei, porque o sino bateu e o corredor se encheu de gente e o momento passou.

Mas na hora do almoço, quando cruzei com o de olhos impossíveis no corredor e ele inclinou levemente a cabeça para o lado - como se eu fosse um enigma que ele já tivesse encontrado antes e ainda não tivesse conseguido resolver - eu soube que era tarde demais para ficar longe de qualquer coisa.

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