Victória Alexia, uma jovem determinada, viu sua vida desmoronar após a perda de sua avó Lizarda, sua única família e companhia no modesto subúrbio de São Paulo. Enquanto trabalhava como manicure para sobreviver, nutria um sonho distante: ser uma bailarina renomada e espalhar sua arte pelo mundo. As lembranças dolorosas da partida da avó pareciam prendê-la um passado sombrio, marcado por tragédias. Seu pai, um traficante, faleceu em um assalto violento, e a mãe, Lea, tirou a própria vida quando Victória era apenas uma criança de dez anos.
Mesmo diante de tanto sofrimento, a jovem tinha a esperança de um futuro mais brilhante através de sua paixão pela dança.
Naquela tarde, Victória reuniu as últimas peças de roupa que restavam na casa de sua avó e decidiu doá-las, deixando para trás as lembranças que elas traziam de volta. Determinada a buscar novas oportunidades, seguiu para o centro da cidade para distribuir currículos. No caminho, sempre fazia uma parada em frente à mesma academia, onde o balé atraía sua atenção como um ímã. Ela já tinha frequentado aulas por alguns meses, mas precisou desistir por causa das dificuldades financeiras e da distância.
Enquanto contemplava as aulas através do amplo espelho da academia, Victória foi notada pela professora, que prontamente a reconheceu e acenou em sua direção. Um sorriso surgiu no rosto de ambas e a professora saiu para cumprimentá-la, ansiosa para saber sobre seus planos e sonhos.
- Por que nunca mais voltou para as aulas? Ainda tenho esperança de que a minha melhor aluna retorne...
- Sinto muito professora Ângela, mas as coisas se complicaram ainda mais... - respondeu constrangida e demonstrando tristeza.
- Não me diga que sua avó piorou de saúde?
- Ela faleceu há pouco tempo!
- Sinto muito...
Após sair de lá, preparou seus currículos e seguiu seu rumo entregando o currículo por algumas lojas... Um homem bem-vestido se aproximou dela, questionou se ela já havia trabalhado antes:
- Sou manicure, nunca cheguei a ter um trabalho fora de casa... - respondeu ela, percebendo que sua fala poderia desestimular uma oportunidade, Victória completou - Mas eu tenho disposição para aprender!
- Entendo, dê-me seu contato e veremos uma oportunidade para você.
Sem muitas esperanças, Victória passou seu contato para aquele homem, seguiu seu caminho o final do dia e regressou para casa. Alguns convites para sair, mas ela não os respondeu e tentou adormecer o mais cedo que conseguiu.
No dia seguinte, havia algumas mensagens em seu celular, mas nada relacionado a uma oportunidade de trabalho... Apenas uma semana depois, uma ligação e uma entrevista a levou novamente a ter esperança.
Victória chegou a um lugar bonito, era uma sala comercial e um homem sorridente a recebeu.
- É um grande prazer conhecê-la! - disse ele, ambos se cumprimentaram com um aperto de mão. - Nossa empresa é nova no mercado, buscamos jovens que queiram ingressar no mundo da moda...
- Perdoe-me senhor, sou manicure apenas...
- Sim, entendo... Achamos que você tem potencial para ser uma modelo fotográfica em nossa agência, talvez pareça repentino, mas acredite, eu trabalho nesse ramo há muitos anos e reconheço uma bela modelo quando vejo uma!
Tudo aquilo parecia tão longe de sua realidade e planos de vida, mas os valores eram atraentes e Victória queria aquele salário incrível para, quem sabe, chegar a dançar fora do país.
Ela tinha medo de viajar sozinha, mas conheceu outras meninas que iriam para o mesmo destino. Pesquisou sobre a agência e seriedade dos homens que trataram as negociações com ela e tudo parecia estar de acordo. Em dois meses seu passaporte estava pronto, havia feito um Book fotográfico e recebido um adiantamento pequeno que foi usado para custear algumas roupas e coisas de uso pessoal.
Victória avisou para algumas amigas e vizinhas que iria para Dubai a trabalho, o voo era pela classe econômica. O medo de voar pela primeira vez era um turbilhão de emoções para ela. Sentada na poltrona do avião, segurava firmemente os braços da cadeira, observando ansiosamente cada movimento dos comissários de bordo. As mãos suavam, o coração batia acelerado e ela tentava disfarçar o nervosismo.
Por outro lado, o medo do novo trabalho em um país onde não falava o idioma local a assombrava igualmente. A incerteza de não conseguir se comunicar em inglês, a língua predominante no novo ambiente de trabalho, a deixava insegura. Pensamentos ansiosos invadiam sua mente, fazendo-a questionar sua capacidade de viver naquele país...
Victória deixou sua casa, abandonou tudo o que conhecia, mergulhando completamente em um sonho. Esta, sem dúvida, seria a maior aventura de todas. Assim que aterrissaram, algumas meninas seguiram em um carro preto, enquanto Victória e as outras foram em outro veículo. A separação das demais deixou uma apreensão dentro dela. Um dos homens que as acompanhava falava árabe o tempo inteiro; raramente dialogavam em inglês. Entre conversas incompreensíveis, eles as olhavam constantemente. O trajeto foi longo e se estendeu até anoitecer; algumas meninas dormiam, mas ela definitivamente não conseguia fechar os olhos. Finalmente, pararam em um local próximo ao mar. Ela observou atentamente ao redor, notando um navio ancorado, quase na escuridão em comparação aos demais. A cena parecia estranha, e ela se acomodou melhor no banco do carro para observar tudo com mais clareza.
- Saiam! - disse um dos homens que as conduziam.
- Para onde estamos indo, senhor? - questionou uma das meninas, e Victória ficou apenas observando.
- Vamos fazer um novo passeio... - surpreendentemente respondeu ele, em português.
Foram guiadas para embarcar naquele navio e o homem que as conduzia tirou um maço de dinheiro, parecendo ser dólares. O medo tomou conta dela... toda a segurança que sentira ao ser contratada por aquela agência parecia ter sido um mero disfarce, pois estavam sendo vendidas!
Antes que pudessem correr, seu nariz foi coberto por um pano embebido em algo forte, e ela desmaiou. Seus olhos pareciam pesados, e mal conseguia mantê-los abertos. Dois homens estavam à sua frente, e ela foi levada por um corredor escuro...
Victória é colocada em um quarto isolado das outras garotas, eles sabiam que juntas, elas poderiam tramar uma fuga. A agência que as contratou era usada por um dos traficantes, algumas garotas chegavam ao seu destino inicial e outras... As escolhidas, não!
Ao despertar assustada, ela percebe que não parece estar mais em um navio. Era um quarto branco com paredes, adornadas com tecidos finos e ornamentos dourados, de uma elegância que ela jamais havia visto, a não ser em filmes e novelas. O piso de mármore polido, complementado por tapetes que pareciam macios...
A cama, majestosamente ampla e repleta de almofadas de seda ricamente decoradas, se destacava no centro do quarto. Os lençóis são de uma seda exuberante e macia, enquanto cortinas vermelhas pendiam dos quatro postes, criando uma aura de privacidade.
Toda aquela beleza foi interrompida ao, Victória perceber que estava presa por uma corrente em seu calcanhar, desesperada ela chorou e buscou uma forma de sair daquele lugar. Até que a porta foi aberta e um homem com aparentemente entre cinquenta a sessenta anos e um porte físico imponente, além de traços bem característicos árabes. Seus olhos eram penetrantes e não perdiam Victória de vista sequer por um momento...
Adornado com diversos acessórios dourados, ele sorriu ao vê-la e se aproximou da cama lentamente... Enquanto ela, se afastou.
- A beleza é um presente de Alá, mas também um veneno para quem se perder em sua miragem! - disse ele, encerrando o sorriso que ostentava.
A jovem sentiu horror naquele momento, quando percebeu que aquele homem era o líder de toda aquela facção. Pelo modo como os demais se referiam e faziam reverências, ela havia visto seu rosto e nunca mais seria livre ou sairia viva daquele lugar.
Victória estava certa, todos o chamavam de Qa'id al-Hayat" (قائد الحياة), que significa "O Comandante da Vida. Ele determinava todas as regras daquele jogo mortal... As visitas daquele homem estranho, passaram a se tornar cada vez mais frequentes e a aproximação dele com Victória a fazer temer o desfecho de tudo.
Até que um dia, ela foi levada para uma tenda onde havia mulheres que cuidaram de sua beleza ao longo de um dia inteiro e ela foi coberta por ouro e um lindo vestido. Mandada de volta para o seu cativeiro de luxo e acorrentada em volta de seu tornozelo novamente, Victória sabia que aquele não era um dia convencional... Qa'id al-Havat entrou no quarto, dessa vez não com a intenção de contar-lhe histórias sobre o Alcorão.
Victória passou a ser violentada por ele, dia após dia... Ele a chamava de esposa, sempre se referia a jovem como a única dona de seu coração. Apesar de ostentar uma aliança de casamento em seu dedo, ele lamentava precisar retornar a sua vida era algo que era forçado a fazer.
Dois meses passaram...
Qa'id al-Havat estava diante de um dilema, manter uma de suas escravas sexuais vivas, era brincar com o perigo... Ele precisava se desfazer dela o mais rápido possível e seus comparsas o cobravam uma atitude dia a noite, como poderia dormir em paz? Estava arriscando muito a cada dia que ela respirasse nessa terra.
As areias do tempo iam contra seu destino, Victória despertou naquela segunda-feira... Estava cansada de buscar uma saída para seu sofrimento e nunca aceitaria ser amante de um homem como aquele... Lutaria com as armas que conseguisse, para ter sua vida de volta.
Victória estava cansada de implorar, sabia que suas palavras não faziam diferença para Qa'id al-Havat. Passou a fingir aceitar sua vida aprisionada, buscando conseguir regalias dele. Quando Qa'id veio pela manhã, seu olhar parecia perdido, observando-a de forma diferente.
- Sei que meu tempo acaba aqui, não compreendo tudo que o senhor e seus homens dizem... Mas eu sempre soube que não me deixariam viver, após ver o seu rosto! - Suas palavras deixaram Qa'id em silêncio, e ela acariciou sua barba farta. - Quero que Alá me veja linda quando eu chegar...
Ele virou-se de costas, dando a entender que sua última oportunidade estava prestes a terminar. Surpreendentemente, chamou por Mohamed e deu a ele algumas instruções. Victória recebeu um beijo na testa, e Qa'id saiu sem olhar para trás. Se tudo acontecesse como ela planejava, nunca mais se veriam. Seu tornozelo foi solto, e ela foi levada novamente para a tenda das mulheres, onde cuidariam de sua beleza.
Seu coração disparava enquanto aguardava naquele lugar, cercada por outras mulheres que ajeitavam seu cabelo e vestiam um traje de seda ornamentado como da primeira vez. Cada movimento aumentava sua ansiedade, suas mãos tremiam imperceptivelmente. Mohamed, o vigia do lado de fora, observava atentamente, sua expressão severa e vigilante. Ele representava o maior obstáculo entre Victória e a liberdade, incumbido de tirar sua vida ao anoitecer daquele dia.
Mantendo sua mente alerta, ela esperava o momento certo. Cada segundo era crucial, e, em um breve instante de distração, agarrou um frasco de vidro pesado próximo a ela. Com a agilidade de um felino, deslizou silenciosamente para fora da cadeira, desviando-se das mãos das arrumadoras. Os olhos de Mohamed, momentaneamente distraídos, permitiram que ela se movesse. Aproveitando a fração de segundo, acertou a parte de trás da cabeça dele com o frasco.
Um som abafado ecoou na tenda, e Mohamed caiu sem fazer barulho, desacordado. O coração de Victória batia tão forte que ela conseguia ouvi-lo nos ouvidos. Sem perder tempo, empurrou a lona da tenda e saiu correndo, ignorando a sensação de liberdade misturada com o medo que a inundava como um rio.
Seus pés descalços corriam pela areia quente do deserto em direção à vila dos mercadores próxima. No horizonte, avistou os contornos dos labirintos da vila, uma rede complicada de vielas e vielas que se entrelaçavam, criando um emaranhado.
- Esse labirinto me ajudará a desaparecer! - Não sabia para onde o destino a estava levando, apenas foi.
A entrada da vila se mostrava diante dela, uma chance de escapar da morte. A adrenalina percorria suas veias, pensando no quanto ainda desejava viver. Mergulhou entre as passagens estreitas, contornando becos e desviando de comerciantes ocupados e compradores.
Sua mente estava focada na fuga, mas cada esquina parecia apresentar um novo medo. As vozes dos mercadores misturavam-se aos sons dos camelos e ao odor de especiarias exóticas. O labirinto vivo e pulsante exigia rapidez e destreza para passar por entre suas vielas.
Sem tempo para hesitar, seus pés batiam na terra batida enquanto ela se desviava dos negociantes, sua respiração ofegante abafada pelo alvoroço do mercado. A liberdade parecia tão próxima e, ao mesmo tempo, tão inatingível. Não sabia para onde seus passos a levariam, mas a certeza de que estava longe daquele cativeiro era sua única esperança.
Atrás dela, a vila murmurava com a atividade cotidiana, mas para ela, era o caminho de volta ao Brasil. Olhava para trás com muito medo, sabendo que deviam ter saído à sua procura. Em um momento, avistou um dos homens que trabalhavam para Qa'id al-Havat, o mesmo verme que a havia levado para esse destino. Ele perguntava para as pessoas e parecia descrevê-la.
Seu coração quase parou, então entrou em um beco, ouviu algumas vozes e seguiu em direção a esse lugar. Um homem alto de costas falando ao celular. Sua alma gritou para que tentasse...
Enquanto isso, Qa'id al-Havat foi informado sobre a fuga de Victória, prometendo que o erro amador que resultou em sua escapada seria punido com total rigor. Ele estava se preparando para regressar, prestes a viajar para Cuba para conduzir seus negócios naquele local.
Victória tinha conquistado seu coração de uma maneira que nenhuma de suas escravas havia feito antes. Sentir que ela havia escapado da morte foi um misto de alívio por saber que ela estava viva, porém, acompanhado de um medo intenso do que poderia acontecer ao seu império, tanto moral quanto financeiro, se suas atividades criminosas fossem descobertas.
Deu a seus comparsas apenas três horas para trazê-la de volta ao cativeiro ou todos eles seriam eliminados com as balas que seriam para ela. Seus planos de viajar foram comprometidos, ele telefonou para a esposa e disse que permaneceria mais uns dias em Al Awir e só depois pensaria em seguir para sua viagem.
Qa'id al-Havat entrou em um de seus carros de luxo, seguiu de volta ao cativeiro... Constatou o quarto vazio e parecia não acreditar que poderia não ver novamente sua princesa brasileira. Xingou, quebrou coisas e amaldiçoou todos os envolvidos naquele desastre e por último, deu um tiro na cabeça de Mohamed.
O vento sopra impiedosamente sobre o deserto, agitando as partículas de areia em caos. O ar quente e seco se intensifica à medida que as rajadas varrem a paisagem árida, criando redemoinhos de poeira que dançam pelo chão. As partículas de areia são levantadas ao ar, criando um véu turbulento que obscurece parcialmente a vista da vila distante.
A sensação é de uma força invisível que varre a paisagem, como se o próprio deserto estivesse traduzindo a fúria contida de Qa'id al-Havat. Enquanto Qa'id observa ao longe, mergulhado em sua própria tempestade interior, o vento agita a areia quente...
- أريدها مرة أخرى! (Eu a quero de volta!) - murmurou aos seus subordinados, Victória era naquele momento a mulher mais procurada daquele país.
Adrian, herdeiro de uma grande fortuna, é reconhecido como o solteiro mais desejado do país. Apesar de sua coragem, ele se vê diante do momento crucial de assumir as finanças da família. No entanto, seu espírito aventureiro o impede de aceitar essa responsabilidade imediata. Movido por uma ânsia insaciável por novas experiências, ele adia seu papel nos negócios familiares em busca de mulheres e emoções intensas.
Num momento de tensão durante uma discussão com seu pai sobre seu futuro, Adrian é surpreendido por uma bela jovem que parece angustiada e fala de forma desconexa, demonstrando preocupação. Sua presença enigmática interrompe a atmosfera carregada da conversa, despertando a curiosidade e ele desliga a ligação, enfurecendo ainda mais seu pai... Ao fazê-lo desligar a ligação.
- Eu sei que o senhor não pode me entender, leve-me daqui! Por favor... - pedia ela, entre palavras quase incompreensíveis por sua dicção apavorada.
Ajoelhou-se diante dele, Adrian ficou constrangido e a segurou delicadamente nos braços, ajudando-a se levantar.
- Entre no carro! - disse ele, sua voz potente e a frase em um português perfeito a surpreendeu, tanto quanto seu gesto de bondade.
Sem pensar, ela entrou no carro e deitou-se no banco de trás para não ser vista. Adrian dirigiu para longe dali... Os olhos dele iam de encontro aquela jovem durante todo o percurso, queria perguntar quem ela era e muitas outras coisas.
- Meu nome é Adrian. Qual é o seu? - perguntou ele.
- Não posso dizer!
- Acabou de se ajoelhar pedindo socorro e acho que ao menos isso, eu mereço saber!
- Perdoe-me senhor... Eu... - Victória acabou deixando que as lágrimas a vencessem.
- Não chore, sinto muito. - Adrian retirou um lenço e entregou cuidadosamente a ela, enquanto dirigia. - Para onde quer que eu a leve?
- Qualquer lugar longe daqui!
Não havia palavra, ambos estavam perdidos em seus próprios pensamentos... Ele queria saber mais sobre aquela jovem enigmática e ela queria fugir dos horrores que passou. O cansaço venceu Victória e ela adormeceu deitada no banco de trás daquele carro, Adrian não a despertou. Seu compromisso de viajar estava comprometido por aquela mudança de planos. Decidiu levá-la para a casa de sua família, a alguns quilômetros dali, e adiar todos os demais compromissos. Ele sabia que a mansão ficaria vazia com a sua ida, apenas os fiéis funcionários de muitos anos...
Enquanto dormia no banco traseiro do carro, Victória teve um sonho angustiante. Nele, voltava ao Brasil em busca de segurança numa casa modesta, mas era capturada novamente por seus perseguidores. O sonho trouxe de volta os horrores do passado, misturando esperança e medo, enquanto seu corpo descansava.
Adrian percebeu que o sono tranquilo dela, havia mudado... Chegaram em sua enorme residência, ele era sempre muito cauteloso ao lidar com mulheres, mas como ela estava adormecida resolveu pegá-la em seus braços.
Victória se debateu, acabou desferindo um tapa no rosto dele... Para ela, a semelhança dele com os homens que tanto lhe fizeram mal, causaram aquele reflexo quase involuntário.
- Me desculpe, eu tive um pesadelo! - ela revelou constrangida, observando-o alisar o próprio rosto.
- Tudo bem, eu não deveria tentar tocá-la! Já chegamos...
Victória estava enfrentando uma verdeira mistura de emoções ao adentrar a luxuosa casa de Adrian. A palavra "confiar" há muito tempo não fazia parte de seus pensamentos. Naquele momento, ela se encontrava em uma linda casa, sugerindo a riqueza da família daquele jovem. Apesar do coração apertado, Victória saiu do carro, observando cada movimento de Adrian com atenção, pronta para fugir se necessário.
Ele, por sua vez, parecia temer mais Victória do que ela a ele. Uma tensão crescia entre eles, como se estivessem aprisionados pelos olhares um do outro, aguardando algum gesto simples para confiar.
- Adrian, esqueceu de alguma coisa? - indagou uma senhora ao se aproximar, sem véu, com a pele negra e um sorriso para o jovem.
Ele então a apresentou a nova hóspede.
- Essa é Dagmar, nossa melhor cozinheira! Ela é de Moçambique e trabalha para a família há muitos anos! - respondeu Adrian. - Eu não me esqueci de nada, apenas trouxe uma nova hóspede brasileira.
- Como sabe que sou brasileira? - perguntou Victória, ansiosa e assustada.
- Pelo seu jeito de falar, porque minha mãe é brasileira e me ensinou tanto o idioma quanto a amar seu país! - respondeu Adrian.
A empregada questionou se Victória ficaria em um dos quartos de hóspedes, e Adrian confirmou. A jovem seguiu Dagmar pelos corredores da bela mansão.
- Você é a noiva de Adrian?
- Não, não senhora! - respondeu Victória rapidamente e olhando tudo aquilo com deslumbre.
Ao abrir a porta de um dos quartos bem organizados:
- Espero que fique bem à vontade, os patrões quase não ficam nessa casa. Eles têm intenção de alugá-la em breve. Pelo que vejo não trouxe nenhuma bagagem... - revelou a empregada olhando para a moça.
- Só tenho a roupa do corpo, mas não se preocupe, minha estadia será momentânea.
Ela precisava dormir, descansar de verdade e recuperar as forças perdidas naquele quarto apavorante durante todo aquele tempo. Antes que Dagmar saísse:
- Pode me dizer que dia é hoje?
- Claro, seis de dezembro! - respondeu Dagmar ao fechar a porta.
Victória havia perdido pouco mais de dois meses naquele lugar. Sabia que os homens eram muito poderosos, e ela não poderia fazer nada para impedir que outras garotas sofressem o mesmo destino. Sair do país não seria suficiente para evitar que a procurassem; reconheceriam aquele homem maldito em qualquer lugar do mundo.
Tentou limpar a mente, mas sua cabeça não queria parar. A cada segundo, era forçada pelas lembranças a reviver aquela fuga alucinante. Seu corpo cansado acabou vencendo, e ela adormeceu naquela cama de lençóis brancos.
Adrian permaneceu com pensamentos enquanto caminhava pela sacada da casa, sua mente inquieta revisitava os momentos angustiantes. Recordava vividamente a expressão de desespero nos olhos de Victória, o tom de súplica em sua voz ao clamar pela própria vida.
Como um homem de poderoso e rico, ele sabia que aquela jovem era perseguida por algo implacável, algo que logo descobriria. Era claro para ele que, com sua influência e recursos, talvez fosse o único no mundo capaz de oferecer-lhe proteção.
Seu celular não parava de tocar um só momento, vários recados de voz aguardavam para serem ouvidos por ele. Passou pelo corredor de quartos, tudo estava em silêncio no quarto de hóspedes...
Tocou o próprio rosto, fora o mais próximo daquela linda mulher enigmática que ele havia conseguido chegar. Aquele golpe, por incrível que pareça, havia sido estranhamente prazeroso.
- Amanhã terá que me dizer o seu nome!
Jogou o keffiyeh (acessório de cabeça "lenço") sobre a cama, abriu seu notebook e olhou alguns e-mails de trabalho. Retirou as roupas e começou a ouvir os recados enquanto tomava um banho relaxante em sua banheira.
"O piloto acaba de telefonar para dizer que você não chegou a Ajman, o que está pensando em fazer da sua vida?"
Adrian sabia que o pai daria um jeito de acalmar os ânimos da matriarca da família, ele desistiu de ouvir as demais mensagens... Ele sempre dava um jeito de fazer o que queria, mesmo que isso custasse muitas broncas depois.
Ele adorou ter algo que o impedisse de ir até Ajman, sua noiva em potencial teria que esperar um pouco mais para conhecê-lo. Nunca esteve em conformidade com essa decisão, seu espírito livre pretendia seguir assim por muito tempo... Unir-se a uma desconhecida de família rica, apenas para beneficiar os negócios da família, era fora de cogitação.
Após relaxar na banheira, ignorar várias mensagens e pensar em Victória. Adrian saiu do quarto horas mais tarde para jantar, nunca gostava de fazer as refeições em casa e muito menos, quando estava sozinho por lá, mas aquele dia era diferente e havia alguém mais na casa.
Dagmar preparou um jantar especial para os dois, mas Victória ainda permanecia no quarto. Eles não queriam incomodá-la...
- Dagmar, quero que peça para que Khalil venha aqui amanhã! Preciso que ele faça um trabalho para mim...
- Claro! E a moça? Devo chamá-la?
- Não, ela está cansada e devemos deixá-la recuperar as forças! - respondeu ele, arrumando o guardanapo.
- E qual é o nome dela?
- Não sei... E antes que pergunte, não sei porque eu a trouxe para cá!
- E se ela for uma criminosa? - Dagmar olhou para os lados.
- Nunca vi tanta doçura e pavor no mesmo olhar. Se ela for uma criminosa, saberemos em breve! - respondeu ele, pensativo.