Abro os olhos e vejo um teto branco. Movo a cabeça lentamente para o lado e observo várias máquinas, percebendo que estou em um quarto de hospital. Mas o que aconteceu? Tento me sentar, mas não consigo. Meu corpo está pesado, como se algo estivesse me segurando na cama, e essa sensação é horrível. Minha garganta está seca, e não consigo engolir. Sinto uma vontade imensa de chorar. O que houve? Onde está minha filha? Meu marido? Uma lágrima escorre pelo meu rosto.
Mexo a cabeça lentamente e olho para frente, onde vejo a porta do quarto. Quero gritar, levantar, quero entender o que está acontecendo. Então olho para minha barriga e o desespero me atinge. Não vejo minha barriga de grávida. Tento me levantar de novo, mas é inútil. Meu corpo é como chumbo. Começo a chorar, desesperada.
Não sei por quanto tempo fico ali sozinha, chorando em silêncio, sem ninguém ao meu lado.
- Olha quem acordou! - A voz surge de repente, e percebo uma enfermeira bem na minha frente. Eu estava tão distraída que nem a vi entrar. - Você sente alguma coisa? Por que está chorando? - ela pergunta enquanto verifica meus sinais vitais.
Mas nenhuma palavra sai da minha boca. Eu nem consigo me mexer.
- Quero que você tente se acalmar, ok? Sei que está confusa e quer saber o que aconteceu, mas sua pressão está muito alta. Por favor, tente ficar calma, ou terei que lhe dar um tranquilizante. Não queremos que isso piore, não é? - A maneira como ela fala comigo não me conforta. Sei que algo grave aconteceu, mas apesar de tudo, tento conter a agonia. Minha vontade é gritar.
Algum tempo depois, a Sr.ᵃ Haile entra no quarto. Assim que percebe que estou acordada, começa a chorar.
- Gracias a Dios, mi hija... (Graças a Deus, minha filha) - Ela se aproxima com cuidado, me abraça e continua chorando. Meu próprio choro recomeça.
Ficamos muito tempo assim, abraçadas e chorando. Parecia que ela precisava disso, como se estivesse segurando tudo por um longo tempo. Quero perguntar o que aconteceu, mas minha voz não sai. Algo parece bloqueá-la.
- Senhora Martinez. - A enfermeira chama sua atenção. Minha sogra me solta e se senta em uma cadeira ao lado da cama. A enfermeira olha para mim com gentileza. - Quero que fique tranquila, não queremos mais um episódio de hipertensão, certo? Ela diz com um sorriso acolhedor e troca um olhar com minha sogra, que acena com a cabeça.
Ela segura minha mão e dá um leve aperto.
- Como está se sentindo, minha filha? - Seus olhos estão cheios de tristeza, e isso me apavora. Quero responder, mas nenhum som sai dos meus lábios.
- É normal ela não falar nada, senhora, considerando o que passou - responde à enfermeira. - Não se preocupe, essa guerreira vai falar logo. Ela me oferece um sorriso reconfortante antes de completar: - Vou chamar o médico.
Quando a enfermeira sai, o silêncio entre nós é sufocante. Tento chamar a atenção da minha sogra, mas ela apenas me devolve um sorriso triste e não diz nada. Para ser sincera, estou com medo de saber o que aconteceu.
Não sei quanto tempo se passou depois disso, mas um médico chamado Henrique Vales - vi o nome escrito em seu jaleco assim que entrou - começou a fazer exames em mim. Ele não fala muito enquanto trabalha, mas, quando chega às minhas pernas, não sinto suas mãos nelas.
- Senhora Rivera, sei que é difícil sair um som dos seus lábios, mas percebo que consegue mexer bem a cabeça. Farei alguns testes nas suas pernas, ok? Não quero que fique agitada, só preciso confirmar o que os exames já mostraram. Depois disso, explicarei o que aconteceu com a senhora. Tudo bem?
Aceno com a cabeça, incapaz de responder de outra forma.
Ele pega uma espécie de caneta, mas não descobre totalmente minhas pernas. Do jeito que estou na cama, não consigo ver direito o que ele faz.
- Vamos lá, consegue sentir isso? - balanço a cabeça em negação.
- E agora? - Nego novamente.
- A senhora pode sentir alguma coisa?
Mais uma vez, faço um gesto negativo. Lágrimas grossas começam a escorrer pelo meu rosto, molhando ainda mais minha pele.
- Quero que me ouça com atenção. Por mais difícil que seja, tente manter a calma. Sei que será complicado, mas é importante. Caso contrário, terei que administrar um tranquilizante, e acredito que a senhora também não queira isso.
Respiro fundo, fecho os olhos e confirmo com a cabeça.
- Quando chegou ao hospital, a senhora estava inconsciente. De acordo com o que nos foi relatado, caiu da escada. Consegue se lembrar de algo?
Balanço a cabeça em negação, incapaz de recordar qualquer coisa.
- É normal não lembrar agora, mas acredito que, com o tempo, as memórias possam voltar. Voltando ao início: a senhora chegou aqui inconsciente devido a uma queda, que causou um traumatismo craniano. Isso levou a um coma de três semanas. Uma das vértebras rompeu, resultando na perda de sensibilidade e movimentos abaixo do quadril.
Enquanto ele falava, sinto uma dor incomum no peito.
- Houve também um deslocamento da placenta, o que causou a morte do bebê que a senhora esperava. Ele ficou muito tempo sem oxigênio. Sinto muito pela sua perda.
Olho para ele, incrédula, e me viro para encarar minha sogra, que está tão devastada quanto eu. As lágrimas escorrem pelo rosto dela. Volto a atenção para o médico.
- A dor de perder um filho é, sem dúvida, uma das mais avassaladoras e terríveis. Um sofrimento inimaginável, porque, na perda de um filho, perde-se um pedaço de si mesmo - diz ele, com compaixão. - Sinto muito e gostaria de poder ter feito mais. Infelizmente, nada pôde ser feito. Quero que saiba que sua filha, ainda pequena, é mais uma estrelinha que agora brilha no céu.
As palavras dele me deixam com apenas um desejo: gritar e arrancar a dor do meu peito. Mas tudo o que consigo fazer é chorar. Tento me acalmar o suficiente para falar, lutando contra as lágrimas que ameaçam me sufocar.
- Meu... meu... - respiro fundo, buscando força. - Ma... rido - consigo dizer, embora a dor torne cada sílaba um desafio.
O médico troca um olhar significativo com minha sogra antes de suspirar. Ela pega minha mão, apertando-a com força. Seus olhos, cheios de lágrimas, encontram os meus.
- Houve um acidente, minha filha - diz ela, com a voz embargada. - No mesmo dia em que tudo aconteceu, meu filho perdeu o controle em uma curva, bateu o carro e... não resistiu.
Um soluço escapa dos meus lábios. Não consigo respirar. Meu peito dói... Tudo dói! Minha cabeça fica pesada e logo tudo escurece.
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Foi difícil ouvir que perdi minha bebê, que meu marido estava morto e que minha linda filhinha estava sofrendo.
Fico me perguntando por que toda essa dor? Ah, meu caro Ariano! Como posso dizer ao meu coração que você se foi? Eu não posso acreditar que você partiu. Eu me sinto triste e sozinha. Todo mundo me diz que preciso ser forte. Preciso libertá-lo para que você possa encontrar a paz. Sei que meu sofrimento não é bom para mim, mas ninguém entende o que estou sentindo. Recentemente, eu estava feliz e, de repente, meu mundo se partiu ao meio. Preciso conviver com essa dor e devo fazer do meu jeito!
Necessito ficar sozinha, chorar e pensar em você. Agora, posso sentir o seu amor apenas estando sozinha e em silêncio, ouvindo as batidas do meu coração. Quando penso em você, sei que sofrerei por não te ter aqui e que haverá dias difíceis, que sofrerei por muito tempo, e sempre que me lembrar de você, sentirei novamente meu coração chorar e sangrar por sua perda.
Mas sei que um dia essa dor passará, e não quero me agarrar a essa dor para sempre. Quando eu sentir que é hora de viver de novo, deixarei a dor e a tristeza irem embora, ficando apenas a saudade. Essa é minha forma de viver meu luto e reaprender a viver sem você aqui. E não importa o que os outros veem por fora; o que importa é o que sinto em meu peito... o meu amor por você.
A pior dor que alguém pode sentir é ver um ente querido partir. A impotência diante da morte é o que nos faz lembrar que somos humanos e perceber como a vida é frágil.
Apesar do sofrimento, é preciso enfrentar a morte com força e coragem. Devemos saber que, mesmo que aquela pessoa querida não esteja mais conosco, o amor nunca vai embora. Ele fica lá para sempre, em nossas lembranças felizes, que trazem às vezes um gosto amargo pela certeza da despedida.
Amor e boas lembranças sempre ficam após a morte.
Viver a dor, chorar e sofrer, mas saber que nunca estarei sozinha em minha dor, é um tanto reconfortante. Olho para o céu e tenho certeza de que tem uma estrela lá em cima brilhando e iluminando cada um dos meus passos. Quando essa dor passar e só ficar a saudade... ela sempre fará meu peito apertar, mas as lembranças ficarão vivas em meu coração e vão me dar forças para sorrir de novo.
Seguir em frente e viver a vida em paz, a felicidade pode ser difícil e dolorosa. Todos temos uma missão na vida e precisamos seguir nosso próprio caminho para nos tornarmos uma estrela também na grandeza do céu e no infinito da eternidade.
Pelo menos, a justiça foi feita para a minha menina. Depois de todos os infortúnios que aconteceram em nossas vidas, uma boa notícia surgiu para nos trazer um pouco de alento.
Minha vida não é fácil. Sinceramente, estou pensando em desistir dos meus sonhos. Não quero deixar mamãe e vovó sozinhas. Naquela noite terrível, perdi minha irmãzinha e meu pai. Sei que ele estava apavorado com tudo o que estava acontecendo, e foi muito difícil, mas a vovó está conosco, nos ajudando em tudo. Ela tem sido a nossa base.
O homem que era meu agressor foi preso meses depois e condenado à prisão perpétua. Outros abusos foram descobertos, e até que ele matou algumas pessoas. Também contabilizaram como tentativa de homicídio o que ele fez com minha mãe e como assassinato o que fez com Milena, além de nos causar danos psicológicos. Após um tempo, a vovó descobriu que ele foi queimado vivo na cadeia.
Depois disso, saímos de Cuba e agora moramos em Granada, na Nicarágua.
Olho mais uma vez para o papel em minhas mãos e sinto minhas pernas bambas. Se eu não estivesse sentada agora, estaria de cara no chão.
- E aí, Luna? Você não abriu ainda? - pergunta a Sr.ᵃ Salinas enquanto limpa o balcão.
Olho para ela quando se aproxima e puxa a cadeira, sentando-se ao meu lado. Dou uma olhada ao redor da pequena confeitaria, que está vazia. É quase hora de fechar, e o ambiente está tranquilo.
- Sou incapaz de abrir! - coloco o envelope sobre a mesa. - Não sei se fiz bem ao me candidatar a uma faculdade tão distante. Como minha avó e minha mãe vão ficar? Preciso estar aqui para ajudá-las - digo, olhando em seus olhos.
Ela pega minha mão e me dá um sorriso tranquilizador.
- Você sabe que sou responsável pela sua candidatura à bolsa e também sabe que tenho grande estima por você. Quando você se mudou para o outro lado da rua, eu havia acabado de perder minha Loren, você sabe disso. Por isso me apeguei tanto a você e à sua família... muito mais a você! Sei que minha Loren estaria fazendo isso agora. Por isso te encorajei. E se eles não te aceitarem na faculdade este ano, você tenta de novo no próximo ano e, ao invés de se candidatar a duas faculdades, tente em quatro! Sei do seu potencial, e nós acreditamos em você, Luna - diz ela enquanto enxuga a lágrima que escorre pelo meu rosto.
Respiro fundo. Quando estou aqui com ela, é como se todos os meus problemas não existissem. Quando fiz quinze anos, vim trabalhar aqui e consegui terminar o ensino médio antes do esperado, graças a ela. Ela me incentiva diariamente a ter um futuro melhor.
Pego o envelope novamente e o abro. Tiro o papel de dentro e parece que meu coração vai explodir ou parar.
- Não posso, senhora! - digo, entregando o papel para ela.
Ela sorri e termina de abrir. Os segundos parecem virar horas, e os minutos, uma eternidade. Ela olha para mim e, depois, para o papel novamente.
- Por favor, não me deixe ansiosa assim! - digo.
A Sr.ᵃ Salinas dobra o papel, coloca-o sobre a mesa e pega minhas mãos logo em seguida.
- Lembre-se sempre que o fracasso não é o fim! É apenas um desvio no caminho, de onde você sairá com maior aprendizado e sempre acreditando em você! - diz ela.
Eu a encaro, tentando absorver suas palavras. Meus olhos se enchem de lágrimas ao pensar que não consegui.
- Parabéns, querida, você foi aceita em Harvard - ela finalmente diz.
Eu não consigo dizer nada, apenas olho para ela, piscando várias vezes, sem acreditar.
A Sr.ᵃ Salinas me entrega o papel, e eu o olho sem saber o que fazer. As aulas de inglês com ela me ajudaram tanto, e os cursos intensivos também. De repente, me levanto da cadeira, derrubando-a. O sorriso em seus lábios é de uma pessoa orgulhosa. Ela se levanta, abre os braços e eu me jogo neles. Ela me aperta e diz com a voz embargada:
- Estou orgulhosa, princesa. Parabéns pelo seu esforço. E sempre me mande uma mensagem, me ligue! Não se esqueça de mim, ok?
Ela se afasta e pega minhas mãos.
- Sempre vou lembrar da senhora aqui... - digo, apontando para o meu coração.
Ela me puxa de volta para outro abraço.
- Agora vá contar a novidade, tenho certeza de que elas ficarão felizes por você!
Sorrio e a abraço novamente. Assim que a solto, arrumo a cadeira que havia caído e saio correndo da confeitaria. Atravesso a rua e paro no portão de casa.
Meu coração está acelerado, e o desespero me toma. Tenho certeza de que o sorriso que estava em meu rosto desapareceu. Nunca contei a elas que queria fazer faculdade, nem que faria a prova online para ganhar a bolsa. Quando terminei a escola, comecei a trabalhar em tempo integral com a Sr.ᵃ Salinas para ajudar nas despesas da casa e não causar problemas para minha mãe com questões de gastos. Mas agora, ao pensar nisso, sinto que fui egoísta e fiz algo errado ao esconder delas algo tão importante para mim.
Me assusto quando sinto braços envolvendo meus ombros. Estava tão perdida em meus pensamentos que nem percebi a Sr.ᵃ Salinas se aproximando.
- O que você está esperando para entrar? - Ela olha para mim e, ao perceber minha expressão, o sorriso desaparece de seus lábios. - O que aconteceu?
- Não contei nada a elas. Fui egoísta, pensando só em mim, no meu futuro...
- Para! Você realmente precisa pensar em você, no seu futuro!
- Mas eu não quero deixá-las aqui.
- Prometo que vou cuidar delas para você! Não se preocupe, princesa - ela diz, enxugando uma lágrima que escorre pelo meu rosto. - Você não as terá para sempre, e sabe que tem que seguir seu próprio caminho. Pense que pode retribuir os cuidados delas indo para a faculdade, se formando, trabalhando e ajudando-as. Sei que você se preocupa com elas, e tenho certeza de que eu, sua mãe e sua avó vamos apoiá-la. Ficaremos felizes em vê-la crescer.
Eu apenas aceno.
- Agora vamos entrar, estarei aí com você!
Ela pega minha mão e eu sorrio para ela. Então, abro o portão e entro na casa.
Assim que abro a porta, vejo minha mãe descascando umas batatas e minha avó no fogão. Quando percebem nossa presença, elas sorriem. A Sr.ᵃ Salinas solta minha mão, vai até minha avó e a abraça, depois vai até minha mãe, fazendo o mesmo.
- Como vão vocês?
- Estamos bem, e você, minha querida?
- Estou muito bem, principalmente pelas notícias que Lunna tem para contar a vocês.
- Que novidades, filha? - minha mãe pergunta.
Ela continua descascando as batatas, mas, quando percebe que não falo nada, olha para mim.
- O que aconteceu? Está tudo bem? - Ela puxa sua cadeira de rodas para longe da mesa e vem em minha direção.
- Tudo bem, mãe, eu... - Mostro o papel para ela, e ela me encara sem entender.
Mamãe pega o papel, abre e, ao ler, seus olhos se arregalam. Ela olha para mim, depois para o papel e fica em silêncio por alguns minutos, que parecem uma eternidade. Observo uma lágrima escorrer por sua bochecha e meu coração dispara.
- Não acredito, isso é sério?
- O que aconteceu? - Vovó diz, chegando mais perto. Mamãe se vira para olhar para ela.
- Nossa garota foi aceita na faculdade!
- Sério? - Vovó sorri. Mamãe passa o papel para ela, que lê e me olha com lágrimas nos olhos. - Parabéns, minha pequena, estou tão orgulhosa de você.
Ela me abraça e sinto uma onda de alívio tomar conta de mim.
Logo depois, minha mãe se aproxima, e eu me ajoelho para ficar na altura dela.
- Parabéns, filha. Fico muito feliz e orgulhosa de ver que você está seguindo um belo caminho.
Me afasto um pouco e ela olha para mim, enxugando minhas lágrimas.
- A senhora não está com raiva de mim?
- E por que eu estaria?
- Eu não disse nada!
- Filha, se você queria me surpreender, conseguiu! Fico feliz em ver que você está crescendo e trilhando seu próprio caminho.
Sorrio e olho para a Sr.ᵃ Salinas, que levanta o polegar em aprovação.
Vou ajudar minha mãe a descascar as batatas, enquanto a vovó volta para as panelas e a Sr.ᵃ Salinas lava a louça na pia. A conversa da noite foi sobre mim, todas ficaram orgulhosas, e aquele sentimento de egoísmo que eu achava que mamãe e vovó pensariam desapareceu. Fiquei feliz e faria qualquer coisa para ajudar ambas e retribuir tudo o que fizeram por mim!
Alguns dias se passaram e faltava pouco para embarcar rumo ao desconhecido. Olho meu reflexo no espelho mais uma vez e me sinto diferente, não só porque estou completando dezoito anos, mas porque sei que finalmente sairei do meu casulo. Sorrio para minha imagem e saio do banheiro, indo em direção à porta do quarto. Desço as escadas e me assusto quando ouço gritos.
- Surpresa! - sorrio ao ver a vovó, a mamãe, a senhora Salinas e seu marido, alguns vizinhos e até os clientes da confeitaria.
Vovó e mamãe se aproximam, a abuela segurando um bolo com algumas velas acesas em cima.
- Faça um pedido - mamãe diz, com os olhos brilhando.
- Eu já tenho tudo que preciso, mãe, eu só... - fecho os olhos e sopro, vendo as chamas se apagarem. - Só tenho a agradecer.
Sorrio e caminhamos até a mesa.
Mamãe corta o bolo e distribui os pedaços. Ela sabe que não gosto dessa parte, porque não tenho uma "preferida" ou "pessoa especial." Claro que amo minha mãe, mas todos me ajudaram tanto que seria egoísmo dar o primeiro pedaço para apenas uma pessoa.
•••••♥•••••
Aquela noite foi incrível. Nos divertimos muito, com conversas alegres e muitas risadas. Foi o melhor aniversário de todos! Mesmo que mamãe insistisse em me dar uma festa glamorosa, com vestido de babados e valsa, eu não ficaria feliz. Gosto de coisas simples, onde se pode aproveitar ao máximo a vida e tudo o que ela pode nos oferecer.
- Filha! - sinto um aperto na minha mão. Olho para o lado e mamãe me olha preocupada. - Está tudo bem?
- Sim, é... apenas nervosismo.
- Já falei isso várias vezes, mas não me canso de dizer: tenho muito orgulho de você, minha filha - diz mamãe, sorrindo com os olhos cheios de lágrimas. - Seu pai também estaria... estamos tão orgulhosas, né, mãe? - ela diz, olhando para minha avó. Admiro tanto o carinho que elas têm uma pela outra.
Mamãe perdeu os pais ainda muito jovens, então, quando conheceu meu pai, minha avó meio que a adotou como filha. Vendo ambas assim, admiro o amor, o companheirismo e a confiança que uma sente pela outra.
- Claro que estamos. Por favor, cuide-se, minha filha - diz minha avó, acariciando meu rosto.
- Não se preocupem, eu vou me cuidar - respondo, olhando para elas.
- Você colocou tudo o que precisa na bolsa? Não se esqueça de que, quando chegar lá, tem que me ligar e avisar que está tudo bem.
- Não se preocupe, mãe. Vai demorar cerca de uma semana para começar as aulas. Vou ter um tempo e até já conheci minhas colegas de quarto por videochamada! - digo animada.
- Eu sei, meu amor, é que...
- Mamãe! - me abaixo, ficando à sua altura. - Não se preocupe, não sou tão indefesa quanto costumava ser. Saberei me cuidar, fique calma! Ligo para a senhora todos os dias.
Assim que digo isso, ela sorri.
- Você promete? - ela levanta a palma da mão de frente para mim, da mesma forma que fazia quando eu era criança, para garantir que eu não quebrasse minha palavra.
- Eu prometo! - coloco a palma da minha mão contra a dela, e nós giramos até que nossos dedinhos estejam unidos.
- Não esqueça de sacar o dinheiro, caso precise. Deixei uma boa parte do dinheiro que o su padre (seu pai) deixou para a gente, na conta dele e...
- Mãe, relaxa! Levanto-me, separamos as mãos e me sento ao seu lado.
- Vamos tentar ir te ver, filha - diz ela, enxugando as lágrimas.
- Mãe, não quero que você se mate tentando ir até lá. É longe, e o tempo de viagem é cansativo. Além disso, você não pode ficar sentada por tanto tempo. Então, tome cuidado!
- Está bem, está bem! Mas...
- Atenção, passageiros. Caminhe até o portão AL 3679 com destino a Boston, com conexão em JFK, Nova York.
- Mãe, eu preciso ir - Levanto-me, pegando minha bolsa com meu livro de inglês, que será uma das minhas companhias neste longo voo.
Ela pega meu braço e me puxa para ela, quase me fazendo cair em cima dela e da cadeira de rodas. Mamãe me abraça forte, parecendo que vai me sufocar, mas aproveito os segundos ali, inalando profundamente o cheiro doce de morango que está em seus cabelos. Será um bom tempo longe dela, mas sei que sentirei muita falta.
Eu me afasto dela, e seu rosto está banhado em lágrimas. Vou para o lado de minha avó e a abraço, ela beija minha cabeça. Fico ali por alguns segundos em seus braços. Era nela que eu costumava correr quando estava com medo ou nos momentos em que mais precisava, nas noites de tempestade... Ela estava lá, segurando-me. Enxugo uma lágrima que escorre e ouço a última chamada de embarque sendo feita.
Me afasto delas, a vovó senta ao lado da mamãe, que está chorando muito. Ela pega a mão da minha mãe e a abraça com o outro braço.
- Te amo, abuela, e te amo, mamá - digo em nossa língua materna, fazendo com que ambas me olhem com espanto. Mas logo sorriem. Me afasto e caminho até o portão de embarque, respirando fundo, deixando para trás as pessoas mais importantes da minha vida e indo em busca de uma vida melhor para elas.
Olho para trás uma última vez e ambas acenam em despedida. Ando até onde preciso fazer o check-in e começo os procedimentos para entrar no avião. Passo pela inspeção e segurança, me dirijo ao portão de embarque. Com o cartão de embarque em mãos e a mochila dentro das normas da companhia aérea, concluo a vistoria e já tenho acesso imediato à área de embarque. Verifico mais uma vez o horário e o portão de embarque nos monitores espalhados pelo aeroporto, pois sei que tanto o horário quanto o portão podem mudar a qualquer momento. Isso seria trágico, pois é a primeira vez que viajo sozinha.
- Atenção, senhores passageiros! Esta é a última chamada para o voo para Boston. Caminhe até o portão de embarque AL 3679, com conexão em JFK, Nova York.
Ouço a chamada novamente e acelero o passo. Assim que chego à sala de embarque, verifico o portão do meu voo para garantir que estou no lugar certo. Agentes de terra explicam como será o embarque e os grupos prioritários. Olho para o meu cartão de embarque, conferindo a identificação do meu grupo e o horário de embarque, além de verificar o tempo de voo. Mamãe disse que a separação por grupos facilita o embarque, ajudando a formar filas menores, então aguardo meu grupo ser chamado.
Não demora muito. Entrego o cartão de embarque e o documento de identificação a uma jovem que sorri gentilmente após analisá-los.
- Tenha um ótimo voo! - ela me entrega os papéis novamente.
- Muito obrigada! - sorrio e sigo pelo corredor de vidro, vendo vários aviões estacionados. Eles são enormes.
- Uau! - olho para o lado e vejo um garotinho de mãos dadas com sua mãe. - Eles são enormes, mãe! Os aviões são tão grandões!
Ela sorri com a empolgação dele.
- Eles são, sim, Mattheu. Agora vamos, senão vamos perder o voo. - Ela diz, e ele sorri animado.
Volto minha atenção para o corredor e, ao chegar à porta do avião, apresento novamente os papéis em minhas mãos e sou liberada para entrar. Estou um pouco perdida, então me aproximo de uma comissária de bordo.
- Olá, tudo bem? Bom dia! Poderia me ajudar a encontrar meu lugar? - pergunto.
- Olá, claro! - ela diz, entregando o papel a mim. - Venha comigo, por favor! - A sigo e caminhamos até o fundo do avião. - Os assentos são identificados por número e letras que ficam na base do porta-malas - ela indica com a mão. O número marca a fileira em que você está sentada, e a letra representa a posição do assento: janela, meio ou corredor, dos dois lados. Acima de cada fileira, há uma identificação da localização do assento. Basta seguir o desenho e sentar. Se tiver alguém no seu lugar, fale com a pessoa ou avise o comissário de bordo. - Chegamos ao meu assento e não havia ninguém lá. - Após localizar seu lugar, use o bagageiro acima para colocar sua bagagem de mão. Sua bolsa ou item pessoal deve ficar embaixo do assento à sua frente, perto dos seus pés.
- Muito obrigada pela ajuda! - sorrio para ela, que retribui o sorriso.
- De nada, e se precisar de algo, me avise novamente. Sei que será um longo voo! - concordo com a cabeça, e ela se afasta. Coloco minha mochila ao lado dos meus pés.
- Bom dia, queridos passageiros, aqui quem fala é o comandante, e serei responsável por este voo. Sejam bem-vindos! Este voo tem como destino Boston. Apertem os cintos e, em alguns minutos, o comissário começará a dar as instruções de segurança.
Assim que ouço o aviso, sinto um friozinho na barriga e faço o que me mandam. As instruções são passadas de forma bem simples.
Após as instruções, levanto a cortina da janela e me preparo para a decolagem. Sentir o avião saindo do solo é indescritível. Tento aproveitar cada segundo, mas acabo fechando os olhos e me segurando firme no assento. Quando finalmente os abro, olho pela janela e vejo a cidade ficando pequenininha lá embaixo. É realmente emocionante! A cidade que me acolheu está ficando para trás. Agora, estou indo para longe, deixando meu coração aqui com minha mãe e minha avó. Abro minha bolsa, pego meu livro e começo a estudar.