A Carta
Carta encontrada décadas depois por membros da família de Eleonora Torne, a qual fizeram questão de nos informar o momento em que a jovem se apaixonou nos anos 50.
Aqui vos conto um pouco de momentos marcantes da linda, mas também trágica história de Eleonora.
Eleonora Torne nasceu no ano de 1927, em uma família bem sucedida, na qual nunca lhe deixou faltar nada. Sua mãe, que assim como ela, também veio de uma família rica e sempre permitiu que Eleonora tivesse de tudo, menos a liberdade que moças daquela época não podiam ter, pois nem mesmo podiam ir ao portão de suas residências sem suas damas de companhia. No entanto, Eleonora e seus pais já estavam se acostumando com as modernizações que chegavam ao mundo, e continuaram a criá-la com os mesmos limites que eles foram criados. Ao longo dos anos, Eleonora teve o privilégio de, junto aos seus pais, se modernizar e se adaptar às mudanças que aconteciam rapidamente ao seu redor. Mas, no ano de 1945, seu mundo mágico e perfeito começou a desmoronar tão rapidamente que Eleonora não teve a chance de se preparar para tamanha transformações, e, apesar de ser tão jovem, enfrentou com denodo as turbulências em sua vida.
AQUI COMEÇA A HISTÓRIA DE ELEONORA TORNE.
TRÊS ANOS ANTES
No funeral...
Em meio à dor, Eleonora e seu pai receberam em sua residência os amigos e vizinhos que compareceram para expressar seus sentimentos pela perda da família.
Enquanto o pai estava sentado em uma cadeira próximo totalmente catatônico, Eleonora permanecia debruçada sobre o caixão com o rosto colado à face fria da mãe, molhando-o com suas lágrimas.
- Mamãe... - gritava desesperada.
- Não me deixe sozinha! Eu não quero ficar sem você, mamãe... não se vá, não me deixe sozinha... eu ainda não estou pronta, preciso de você. - Seu grito de dor, cortava a alma.
- Como vai ser sem você aqui comigo e o papai, mamãe?
Eleonora estava desesperada e não queria se distanciar e deixar que o corpo fosse sepultado. Amparada pela amiga Iolanda, que tentava afastá-la, pois estava perto da hora de o caixão, que estava sobre a mesa no centro da sala, ser retirado. Alguns homens que ajudariam a carregá-lo já estavam posicionados próximos, mas Eleonora se recusava a sair, como se, permanecendo ali, ainda teria sua mãe consigo.
No canto da sala, um lindo rapaz observava toda aquela triste e emocionante cena, com os olhos lacrimejantes e o coração apertado ao vê-la daquele jeito. Ele desejava se aproximar e abraçá-la para confortá-la, contudo, sabia que não era o certo a se fazer e temia que Eleonora o rejeitasse.
Diante disso, preferiu se esconder novamente em sua covardia e medo de ser ignorado por Eleonora, que, desde o colégio, não o olhava, apesar dele demonstrar interesse com olhares afetuosos, seguindo-a de longe na esperança dela olhar em sua direção.
No entanto, isso nunca ocorreu. Eleonora sempre estava rodeada por seus amigos da alta sociedade, que se divertiam em fazer pouco caso de pessoas que se dedicavam de verdade aos estudos, diferentes deles e, também, costumavam tirar sarro de pessoas como ele, que sempre foi extremamente concentrado e tímido.
Aquela turma, assim como Eleonora, viviam sem preocupações, pois tinham tudo à sua disposição. Eleonora era uma boa moça, dedicada aos estudos, mas passava o tempo livre com aqueles que não eram dignos de sua amizade. Ela não se importava tanto com a vida, pois tinha pais que vieram de famílias bem sucedidas e lhe dava tudo o que desejasse. Mal sabia ela que, com o falecimento da mãe, a ruína estava bem mais próxima do que imaginava, pois aquilo era apenas um terço do que estava por vir. Logo, toda aquela pompa de riquinha acabaria e ela passaria por muitos outros momentos dolorosos, que a faria ver quem realmente eram seus verdadeiros amigos.
A Eleonora vaidosa, descontraída e extrovertida seria substituída por uma Eleonora humilde, que enfrentaria humilhações como nunca havia enfrentado, que sentiria o sofrimento em sua pele, apesar de, particularmente, nunca ter humilhado ninguém. No entanto, ela também nunca impediu que os seus amigos fizessem algo em sua frente e não os recriminava com receio de perdê-los, tendo em vista que, dessa forma, seria bem vista por todos.
Uma menina inocente como Eleonora, agora precisaria enfrentar o mundo sem sua fortaleza ao seu lado; sua mãe. A senhora Torne sempre foi uma mulher muito forte, mesmo durante a doença, tentou fazer com que a filha se tornasse uma mulher capaz de lidar com tudo. Sua mãe queria ter tido mais tempo para prepará-la antes de deixá-la, apesar de nunca ter imaginado que sua filha enfrentaria qualquer dificuldade, pois teria o pai ao seu lado.
Após a morte da senhora Torne, ninguém poderia imaginar que o futuro de Eleonora seria trágico e que ela enfrentaria tudo sozinha, pois logo não teria nem o pai para ampará-la, diferente do que sua mãe imaginou. Eleonora teria que aprender a se defender da dura vida, que o chamado "destino" preparou com diversas armadilhas, a fazendo sofrer bastante, mas também a ensinando a ser mais forte e, então, prosseguir com mais maturidade.
Depois da morte da mãe que faleceu devido a uma pneumonia, Eleonora e seu pai ficaram sozinhos, seu pai nunca mais foi o mesmo nem na vida pessoal e nem nos negócios, sem a mínima vontade de viver, relaxou com tudo, e por conta de sua distração, entrou em um mau negócio o levando a ruína. Um ano e meio depois o pai de Eleonora não aguentando a perda de sua companheira e a falência, entrou em depressão e se suicidou, deixando-a completamente sozinha. Sem nenhuma experiência na vida tanto profissional como pessoal, já que a mãe faleceu quando ela ainda era uma adolescente cursando o colégio.
Eleonora, também sem o pai, teve que deixar de ser a moça rica e filhinha do papai e viver do que lhe restava que não era muito, mesmo assim como aprendeu a ser econômica e era só ela, deu para se manter até sentir-se pronta a ir em busca de um meio de se sustentar, e para isso acontecer, Eleonora tinha que procurar uma remuneração mensal, já que não queria nem tão cedo casar-se com um homem sem que realmente o amasse, o que ela nem pensava em tal coisa.
Sentada com sua amiga em uma cafeteria, Eleonora desabafava suas preocupações.
- Amiga, eu preciso arrumar urgentemente um meio de me sustentar de agora em diante, pois as economias que minha mãe me deixou já acabaram, mas pelo menos deu para eu terminar os meus estudos tranquilamente, mas está sendo muito difícil pois não tenho de onde tirar dinheiro, eu não tenho nenhuma experiência. - falava com o semblante em tristeza.
- Eleonora, eu posso te ajudar com isso, se você não se importar em trabalhar em uma escola de boas maneiras para meninas, afinal você foi educada para se casar com um bom pretendente da alta sociedade, sua mãe lhe ensinou tudo que uma moça precisa saber! Então por que você não faz o mesmo com outras moças? Se você quiser eu falo com a minha prima, ela tem uma amiga que é dona de uma escola de boas maneiras, você pode passar tudo que sua mãe lhe ensinou, o que você me diz?
- Nossa Iolanda, eu quero sim, e se lá tiver alojamento no qual eu possa ficar, será perfeito, pois assim eu posso colocar alguém para morar na minha casa e que me pague por isso, essa casa foi a única coisa que me restou de tudo que tínhamos, e meu pai não a perdeu porque pertencia a família da minha mãe, e ela deixou para mim, ainda bem que meu pai não pode vendê-la como ele queria fazer. Eu posso alugar e morar no alojamento da escola. - falou entusiasmada com os pensamentos positivos.
- Tá me dá até amanhã, eu falarei hoje mesmo com minha prima.
No mesmo instante, Eleonora consentiu com a cabeça, e as duas terminaram seus cafés, saíram e se despediram do lado de fora da cafeteria onde cada uma seguiu seus caminhos.
***
A noite, Eleonora estava sentada em seu sofá na sala de sua casa lendo um livro de romance como gostava de passar seu tempo, quando a campainha tocou, levantou-se e ainda com o livro em mãos, seguiu para atender, ao abrir se deparou com a amiga Iolanda que já entrou falando:
- Eleonora, falei com a minha prima que falou com a amiga dela. - falava em euforia.
- Ela mandou você ir amanhã na escola de boas maneiras bem cedo, então amiga, agora é com você, aqui está o endereço, beijo, boa noite, eu tenho que ir, minha mãe está me esperando no automóvel e disse que está com pressa, tchau amiga. - despediu-se Iolanda descendo apressada uns degraus na frente da casa de Eleonora.
- Tchau e obrigada amiga, depois nós nos falamos. - disse Eleonora vendo a amiga correndo até o veículo no qual a senhora Cardoso a esperava sentada no banco de trás e o chofer já do lado de fora com a porta aberta esperando sua amiga.
Depois de fechar a porta, olhando para o papel em sua mão, Eleonora pulou de alegria, pois estava vendo uma luz no fundo do túnel, e felizmente estava vendo uma chance de recomeçar sua vida mesmo que sozinha. Logo que se viu pulando, Eleonora parou como se tivesse ouvindo a mãe falar-lhe: "olha a compostura Eleonora". Pois não ser uma moça espalhafatosa, fazia parte de ser uma moça com boas maneiras, Eleonora então, se aprumou passou as mãos no vestido godê midi com mangas regata e decote redondo, a qual era um modelo que ela e a mãe gostavam muito de usarem, pois ao mesmo tempo que eram simples e confortáveis, também eram sofisticados.
Na manhã seguinte, Eleonora acordou bem cedo e bem disposta já que tinha um bom motivo para estar sentindo-se daquele jeito, ela estava decidida deixar o desânimo para trás. Depois de se arrumar e tomar seu café com leite com uma fatia de bolo, saiu de casa, seguiu para a estrada para pegar uma charrete, pois precisava chegar cedo e rápido na escola de boas maneiras.
Em pouco tempo, Eleonora chegou até mesmo antes da escola abrir, sentou-se em um degrau para esperar. Vinte minutos depois, uma moça chegou e antes de começar a subir os degraus da pequena escada avistou Eleonora sentada, surpresa, a moça a cumprimentou.
- Oi, Bom dia, senhorita! Posso ajudá-la?
- Bom dia! Sim, eu estou esperando... - Eleonora olhou o papel em sua mão para ver o nome da senhora na qual estava ali para se encontrar.
- Estou aqui para encontrar-me com a Senhora Carmen Filin, ela pediu que eu viesse hoje bem cedo.
- Ah, sim, então a senhorita pode entrar e aguardá-lá, a senhora Filin só chegará às oito horas. - disse a jovem moça terminando de subir os degraus e colocando a chave na porta. Eleonora olhou no relógio em seu pulso e viu que eram sete e quarenta, em seguida seguiu a moça que logo abriu a grande e pesada porta, entrando, a moça que seguia à frente de Eleonora, disse:
- Me chamo Carlota, sou a recepcionista! Mas também faço alguns trabalhos para a senhora Filin, e não me lembro de ter marcado nenhuma reunião com ninguém para essa manhã.
- Sim, ela é amiga da prima de uma grande amiga, então...
- Ah, tá, entendi, amizade é tudo, né? - disse a moça com um sorriso tímido.
- Sim, em alguns momentos como agora ajuda muito.
- Sim, eu quem diga. - disse a moça começando abrir as grandes janelas de madeira, Eleonora se ofereceu para ajudá-la, Carlota mais que depressa aceitou, pois o lugar era bem grande e tinha muitas janelas, quando Eleonora abriu a primeira, viu que dava para uma rua com muitas árvores bem altas, reconheceu de imediato o lugar, pois já havia passado muitas vezes por ali. Surpresa falou:
- Eu já passei várias vezes aqui em frente! Eu sempre tive curiosidade de ver como era esse lugar por dentro.
- E mesmo, aqui é bem grande, o primeiro andar onde estamos, ficam as salas das burocracia, como, recepção, salas para recebermos os pais das moças e fazermos as matrículas. No segundo andar estão localizados os escritórios da diretora Filin e dos administradores. Já no terceiro e último, são as salas de estudos de comportamento, nos fundos tem dois prédios que são os dormitórios das alunas, e do lado, o refeitório e os dormitórios das professoras e seguranças noturno que é a área de descanso deles.
- Hum, entendi. - disse Eleonora seguindo para abrir mais uma janela.
Enquanto elas abriam as janelas alguns funcionários começaram a chegarem.
- Bom dia! - cumprimentavam todos que passavam por elas, sendo respondidos no mesmo instante pelas duas que também os cumprimentavam com bom dia.
- Mas me fales, senhorita Eleonora, o que realmente estás a fazer aqui? - quis saber Carlota com curiosidade.
- Bom, eu estou procurando um meio de ganhar uma remuneração mensal urgentemente, e uma amiga disse-me que eu tenho capacidade de ensinar o que aprendi a minha vida toda com a minha mãe, tipo, boas maneiras, sei tocar piano, comportar-me à mesa como também à frente das altas sociedades, essas coisas que uma moça precisa aprender para ser capaz de encontrar um marido adequado ao gosto dos seus pais.
- Hum, então a senhorita teve sua própria professora particular que foi vossa mãe?
- Sim, eu tive! - falou Eleonora com pesar.
- Que privilégio, hein!
- Sim! Ela foi bem criada pela mãe e avó e passou-me tudo que aprendeu a vida toda.
- Mas, senhorita Eleonora, por que a senhorita ainda não casou-se?
- Eu não quero casar-me!
- NÃO?! Como assim? - falou Carlota olhando para Eleonora com espanto.
- Eu não sei, só não quero! - disse Eleonora dando de ombro.
- Ou a senhorita ainda não encontrou a pessoa certa, ou ninguém que mexesse de verdade com a senhorita?.
- E pode ser, e a senhorita é casada? - perguntou Eleonora.
- Sim, mas me afastei do meu esposo, por não aguentar mais os maus tratos dele, eu fugi de casa no meio da noite o casamento não deu certo para mim. - disse torcendo os lábios.
- Nossa, eu sinto muito! A senhorita parece ser tão nova para já ter passado por um casamento que não deu certo.
- Não sinta, ele era um verdadeiro carrasco, um filhinho da mamãe mimado, além de me espancar, também deixava a vossa mãe judiar-me, até que tomei coragem e fugir, logo em seguida conheci a senhora Filin que visitava a cidade, a senhora me viu perambulando pela rua suja, fraca e com fome, e parou para oferecer-me ajuda, e logo que contei o porquê do meu sofrimento, ela perguntou se eu queria vir com ela para sua cidade, claro que concordei de imediato, durante a viagem ela conversou muito comigo, abriu meus olhos, aconselhou-me não ser submissa a homens como meu esposo que depois do casados acham-se nossos donos e que podem fazerem o que bem entendem com as esposas.
E assim um tempo depois que já estava aqui e me sentia forte, a senhora Filin me deu um cargo de ajudante na cozinha, mas quando ela descobriu que eu sabia ler e escrever e como estavam precisando de uma pessoas na recepção, ela colocou-me, então eu comecei a exercer a função, no entanto, evito sair por aí com medo de algum conhecido da família do meu esposo me ver e reconhecer-me. Que graça a Deus já tem três anos que estou aqui vivendo praticamente escondida deles, mas vamos esquecer isso, pois não vale a pena falarmos daquelas pessoas que quero esquecer para sempre.
- E a senhorita, não pensa em casar-se de novo? - perguntou Eleonora.
- Se eu encontrar uma pessoa boa que me mereça, eu darei-me mais uma chance, mas nem sei como vou fazer para faze-lo entender minha situação. - disse Carlota cabisbaixa.
- Bom dia, senhorita Carlota. - disse uma senhora parando diante delas.
- Oi, bom dia senhora Filin, essa senhorita está lhe esperando.
- Sim, você é a...
- Bom dia, senhora, sou Eleonora Torne.
- Ah, sim, venha comigo. - disse a senhora seguindo para a escada.
Antes de Eleonora subir os primeiros degraus, olhou para Carlota e piscou - Carlota piscou de volta e falou sem som:
"Boa sorte!"
Eleonora também falou sem som:
"Obrigada!"
Já na sala da senhora Filin, depois que entraram a senhora logo mandou que Eleonora sentasse, enquanto seguiu na direção de uma grande janela abrindo-a deixando o Sol adentrar, clareando e arejando todo o cômodo, em seguida a senhora sentou-se em sua confortável cadeira atrás de uma grande mesa de madeira maciça escura, olhando para Eleonora, falou:
- Então, senhorita Torne, em que posso lhe ajudar? - perguntou a senhora observando cada detalhe nos gestos da jovem sentada à sua frente. Aprumando-se melhor no assento, Eleonora começou a falar fluentemente com a voz firme pois queria passar uma boa impressão à senhora.
- Senhora, eu estou precisando muito de uma remuneração mensal, e não sei se a senhora já foi informada sobre minhas capacidades, mas minha amiga que incentivou-me vir até aqui disse-me que sou capaz de passar tudo que aprendi minha vida toda com a minha mãe que assim como eu, também aprendeu com minha avó e bisavó, mas a senhora pode ficar a vontade em fazer uma avaliação para certificar-se se sou mesmo capacitada.
- Certo. - disse a senhora observando-a com atenção.
- Senhorita Torne, desde que pousei meus olhos na senhorita, já estou fazendo essas avaliações, o seu comportamento, o jeito de como andar, falar, se expressar e cumprimentar. O momento que a senhorita sentou-se, a sua postura, o tom de voz, sim, nesses pequenos gestos eu já lhes dou uma boa nota, claro que quero fazer uma avaliação melhor, e para isso, a senhorita terá que ficar um período em experiência no qual a senhorita vai estar expondo tudo que sabe acompanhada de uma pessoa altamente preparada para lhes avaliar, tudo bem para a senhorita? - disse a senhora sem tirar os olhos dos de Eleonora.
- Sim, sim senhora, pra mim está perfeito, e com certeza vou procurar dar o meu melhor e se a senhora tiver que me ensinar alguma coisa que eu não sei pode ficar a vontade, eu aprendo rápido e serei muito grata.
- Tá, certo, então quando a senhorita pode começar?
- Hoje mesmo se assim a senhora concordar. - disse Eleonora tentando manter-se calma e não expressar tamanha felicidade na frente da senhora.
- Certo, então, vou pedir que lhes mostrem tudo por aqui, assim a senhorita já fica conhecendo as salas, os dormitórios, os das alunas e uma área que os professores são proibidos de circularem, para preservar a privacidade delas.
- Senhora, eu gostaria de lhe perguntar uma coisa, mas estou envergonhada.
- Então não fique e pergunte-me.
- Bom, e... e que... eu gostaria de saber se a senhora teria um lugar para eu dormir, assim facilitará-me, muito.
- Sim, sem problema, mandarei que vejam um dormitório para a senhorita? E a senhorita pretende ficar direto?
- Sim, isso mesmo, se não tiver nenhum problema. - falou Eleonora já sentindo-se eufórica.
- Olha senhorita Turner, nós temos, mas e sua família, vai permitir isso? - vejo que a senhorita é tão jovem. - disse a senhora olhando-a com apreço.
- Eu não tenho família! - falou abaixando o olhar para as mãos entrelaçadas sobre o colo. - meus pais já são falecidos, eu sou sozinha. - disse Eleonora baixando os olhos se entristecendo ao lembrar-se dos pais.
- Eu sinto muito, quantos anos tens?
- Vinte um, senhora, minha mãe já tem três anos de falecida e meu pai pouco mais de um ano e meio, de lá pra cá, sou sozinha.
- Certo, então, a senhorita pode ocupar um dos dormitórios na área dos funcionários! No entanto, não permitimos visitas e nem arruaças.
- Por mim tudo bem, não sou de bagunça e nem tenho amigos, só tenho uma amiga que é a prima de sua amiga que me indicou.
- Ok, então, está tudo acertado entre nós. - disse a senhora levantando-se e esticando o braço para apertar a mão de Eleonora já de pé a sua frente.
***
Naquele mesmo dia, Eleonora começou como assistente nas aulas de uma pequena turma acompanhada de uma supervisora, que observava cada um de seus gestos, mas que no final tudo deu certo, a supervisora ficou bastante impressionada com tudo que viu Eleonora aplicar nas aulas naquele dia assim como nos seguintes.
O mês passou e a supervisora terminou de avaliar Eleonora ficando bem satisfeita com tudo que presenciou, passando um relatório satisfatório para a senhora Filin, que com o que já tinha visto, foi o suficiente para contratá-la oficialmente Eleonora na escola. Como já estava instalada em um alojamento, Eleonora permitiu que uma família de quatro pessoas morassem em sua casa, a qual lhe davam uma quantia não muito alta, mas que servia para guardar para uma emergência.
Dois anos passaram.
Eleonora estava se dando muito bem na escola, tanto ensinava como também aprendia muito, diante daquelas moças mimadas e rebeldes, ela pode ver, como ela era antigamente quando junto a sua antiga turma se comportavam do mesmo jeito no colégio onde frequentou.
Uma tarde, Eleonora foi chamada pela a senhora Filin, para comparecer a secretária, quando chegou, bateu na porta, logo ouviu a voz da senhora mandando-a que entrasse, ela adentrou deparando-se com uma das suas alunas que tinha aprontado em sua aula no dia anterior, fazendo arruaças, e instigando outras alunas também a desafiar Eleonora.
- Boa tarde, senhora Filin, a senhora deseja falar comigo? - perguntou Eleonora assim que adentrou na sala. Olhando para a jovem sentada à frente da senhora, Eleonora faz um leve gesto com a cabeça em cumprimento.
A senhora Filin logo respondeu seu cumprimento, já a moça não falou nada nem tão pouco a saudou, simplesmente desviou seu olhar. A senhora então olhando para Eleonora, começou a falar.
- Senhorita Torne, essa e a senhorita Buarque, ela está aqui fazendo uma acusação muito séria a seu respeito.
- E mesmo senhora, me desculpe por não trazer o assunto para senhora, eu conversei com elas e algumas até prometeram que não iria se repetir, então não vi necessidade de lhe trazer um problema tão pequeno.
- Do que a senhorita está falando? Há outros problemas no qual a senhorita Buarque esteja envolvida? - perguntou a senhora olhando surpresa de uma para outra.
- Senhora Filin, por qual motivo a senhora chamou-me? Perguntou Eleonora vendo que a senhora não estava ciente do acontecido no dia anterior em sua sala.
- Senhorita Torne, a senhorita Buarque, está lhe acusando de ter entrado no seu aposento e furtado um colar de pérolas.
- O que?! Como assim, eu jamais faria isso! E além do mais nesses dois anos trabalhando aqui eu nunca ultrapassei os limites estipulados no meu contrato, jamais fui a ala dos aposentos das alunas! A senhora pode confirmar com as zeladoras. - afirmou Eleonora, confiante.
- Sim, senhorita Torne, eu já fiz isso, e nesse exato momento eu ordenei uma busca ao seu aposento para ver se encontram o colar da senhorita Buarque.
- O que?! Então, a senhora acreditou que eu realmente peguei o colar?
- Senhorita Torne, eu prefiro aguardar o andamento da busca. - falou a senhora olhando-a séria. - Pois mesmo que ela não quisesse acreditar naquela possibilidade, tinha que levar aquele assunto até o fim para assim saber o que estava acontecendo ali em sua escola.
De pé com as mão suando de nervosa, Eleonora sentiu-se muito triste pelo que estava passando, pois em toda sua vida nunca colocou as mãos no que não lhe pertencia, mas não tinha outro jeito a não ser esperar se iriam ou não encontrarem o tal color em seu aposento, pois mesmo que tivesse certeza de não ter pego, algo lhe dizia que aquela moça astuta, não iria procurar a diretora sem ter arquitetado algo contra ela. Ser acusado por uma coisa que realmente não fez, era algo ilógico. E ainda por cima por uma aluna mau caráter como aquela garota, que desde que chegou estava empenhada em virar a paz daquele lugar em um desassossego, tanto nas salas de aulas como nos dormitórios das outras alunas.
Uns minutos depois, elas ouviram batidas na porta.
- Entre! - disse a senhora Filin, as duas zeladoras uma senhora já de idade que todas as alunas achavam severa e intransigente e uma mais nova, recém contratada que era o posto da primeira, entraram, a mais velha carregava um embrulho nas mãos que logo ao se aproximar em passos largos entregou a senhora Filin, que depois de assentir com a cabeça em agradecimento, olhou para Eleonora e a senhorita Buarque. Em seguida abriu o lenço de rosto, azul celeste de cetim, no qual Eleonora logo que colocou os olhos no embrulho reconheceu o lenço como seu.
A senhora Filin, abriu o lenço na palma de sua mão, onde todos presentes se depararam com o colar de pérolas no qual a senhorita Buarque havia descrito antes. Eleonora ficou olhando para o objeto atordoada, pois ela nunca tinha visto aquele colar em sua vida. A senhora Filin esticou a mão que estava segurando o colar na direção da senhorita Buarque e perguntou-lhe.
- É esse o colar que sumiu do seu aposento? - ela sabia que a jovem iria afirmar é claro, mas era preciso dar-lhes corda, para dar continuidade em seu raciocínio.