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SILÊNCIO COMPRADO

SILÊNCIO COMPRADO

Autor:: Kell Velloso
Gênero: Romance
Às vezes, o silêncio é a arma mais perigosa. Dante Lobo, um homem forte que comanda um império farmacêutico, mas não consegue ouvir a voz da própria filha Melissa, uma menina doce de sete anos, que parou de falar no dia em que sua adorada mãe morreu, e em seu silêncio carrega um segredo que pode destruir tudo. Clara Silva precisa de um milagre em forma de dinheiro para salvar a irmã de uma doença rara. E quando o cargo de secretária executiva de Dante aparece, com um salário obsceno, ela assina o contrato sem exitar. Sua alma, afinal, tem preço. O que ela não sabe: Dante não contratou sua eficiência, mas sim seu desespero. Ele precisa de alguém absolutamente leal para expor seu sócio que está transformando remédios em veneno. Mas o cálculo de Dante falhou em dois pontos. Primeiro, nos desenhos macabros de sua filha Melissa, que revelam pistas sobre a morte da própria mãe. Segundo, em Clara, que descobre que o tratamento experimental para salvar sua irmã é a mesma fraude mortal que Dante investiga. Agora, unidos para uma aliança tóxica, eles precisam confiar no único estranho que pode destruí-los. Enquanto tentam expor a verdade, precisam decidir: até onde vão para proteger quem amam? Onde a linha entre salvador e cúmplice desaparece.

Capítulo 1 PRÓLOGO

ECO DO SILÊNCIO

O som veio primeiro. Um barulho que nunca mais saiu da minha cabeça.

Não foi o choque, a batida em si. Isso veio depois, como um tremor distante. Foi o ruído que veio antes. Um gemido gutural, profundo, de metal se retorcendo, de vidro estilhaçando em câmera lenta dentro da minha própria mente. Um rangido longo, agonizante, que se fundiu para sempre com a última palavra que a Beatriz disse. Eu sinto esse som até hoje, latejando nos meus ouvidos nos momentos mais quietos.

Não a ouvi direito naquele momento. Minha cabeça estava longe, presa no fechamento trimestral, naqueles números teimosos que não fechavam, naquela pressão silenciosa e constante que o Viktor exercia sobre o conselho. O telefone no meu ouvido era só um canal para a minha própria frustração, que transbordava e respingava nela.

- Isso não é justo, Beatriz - minha voz soou cansada, irritada. - Não posso simplesmente sair agora. A reunião é crucial.

A voz dela, que normalmente era um riacho calmo, um alívio, veio afiada e cortante. - Crucial? Mais crucial do que a sua filha chorando porque o pai esqueceu de novo da peça da escola? Ela era uma árvore, Dante! Uma maldita árvore de papelão e glitter! Você tinha prometido.

- E eu vou estar na próxima. - A frase saiu oca, sem ar. Um clichê desgastado que eu mesmo não acreditava. - Manda uma mensagem para a professora, explica que houve um imprevisto. Eles entendem.

- O imprevisto é você! - A voz dela quebrou, mas não era choro. Era raiva pura, cristalina, a raiva de anos de ausência. - O imprevisto é a sua falta constante. A Melissa precisa de você. Eu preciso de você. Não do seu dinheiro, não do seu título de CEO. De você.

Fechei os olhos com força, esfregando a ponte do nariz. Sentia a dor de cabeça começando a latejar, uma pressão familiar atrás dos olhos. - Não comece com isso, Beatriz. Por favor, não hoje. Você sabe a pressão que estou sob. Meu pai construiu essa empresa do nada, e eu...

- E você está deixando que ela te consuma. Está deixando que eles te consumam. - O 'eles' era óbvio, dolorosamente claro: Viktor e o séquito de puxa-sacos dele. - Você está diferente, Dante. Algo está muito errado. Eu li aquele relatório... aquele que você deixou cair na sala de estar... sobre os lotes do Lúmen.

Um frio súbito, um choque de gelo, percorreu minha espinha inteira. - Você leu o quê? Beatriz, isso... isso não é assunto para... você não deveria ter...

- Não deveria o quê? Não deveria me preocupar? Não deveria achar estranho sumiços de medicamentos de alto custo dos registros? Não deveria desconfiar que o novo 'produto milagroso' de vocês tem dados bons demais, perfeitos demais para ser verdade?

- Pare. - A ordem saiu mais áspera, mais dura do que eu pretendia. - Pare com isso agora. Você não entende. É complexo. É perigoso ficar especulando sobre essas coisas.

Houve um silêncio do outro lado da linha. Um silêncio pesado, denso, carregado de algo terrível que ela havia descoberto. Quando ela falou de novo, a voz era um sussurro gelado, uma revelação fatal.

- Não é especulação, Dante. Eu encontrei... encontrei umas correspondências. No seu laptop antigo, aquele que você deixou no escritório em casa. O Viktor... ele não é só ambicioso. Ele é perigoso. De verdade. Eu... eu estou com medo.

Meu coração parou. Simplesmente parou de bater por um instante eterno, e então disparou, descontrolado, batendo contra minhas costelas. O escritório ao meu redor, o sofá de couro frio, a vista panorâmica de Nova York, tudo sumiu. Desapareceu. Só existia aquele fio de voz, carregando um perigo real, tangível, para dentro da minha vida. - O que foi que você encontrou? Beatriz, fala comigo. Me diz o que você viu!

- Não pelo telefone. - A decisão na voz dela era de aço, inflexível. - Estou indo aí. Agora mesmo. Precisamos conversar. Precisamos decidir o que fazer com isso. Pelo bem da empresa. Pelo bem da nossa família.

- Não, espera! Fica aí! Eu vou pra casa, eu... - Mas o medo que me apertou não era só por ela. Era por mim, pelo escândalo monumental, pela empresa, por tudo que desabaria. A hesitação durou um segundo. Um segundo fatal.

- Já estou no carro. - O som do motor de partida ecoou pelo viva-voz, um ruído comum que soou como uma sentença. - Chego em vinte minutos. Fica aí. E, Dante?

- O quê? - minha voz saiu rouca.

A voz dela suavizou, por um breve instante, voltando a ser a mulher que eu amara, a voz que cantarolava na cozinha. - Desta vez, escuta o que eu tenho a dizer. Por favor.

A ligação caiu.

Fiquei paralisado. O telefone, agora mudo, um peso morto pressionado contra o meu rosto. O relatório do Lúmen. Os desaparecimentos. As suspeitas que eu sempre abafei, em nome de uma lealdade doente, de um legado envenenado. A Beatriz tinha furado a bolha. Ela sabia. Sabia de tudo. E estava vindo me confrontar, trazendo as provas nas mãos.

O pânico subiu pela minha garganta, um gosto amargo e nauseante. Eu devia ir ao encontro dela. Devia impedi-la de vir, acalmá-la, explicar... explicar o quê? Mas meus pés pareciam pregados no carpete caro. O peso de uma decisão colossal – proteger minha esposa ou proteger o mundo frágil, podre e corrupto que eu ajudava a sustentar – me esmagava, me deixava sem ar.

Os minutos se arrastaram. Cada minuto foi uma pequena eternidade de culpa e indecisão, um martírio em câmera lenta.

Então, meu celular pessoal tocou. Um número desconhecido. Meu estômago se contraiu num nó de terror.

- Senhor Lobo? - Uma voz masculina, profissional, mas com um tremor subjacente, uma faísca de pena.

- Sim? Sou eu.

- Aqui é o oficial Ramos, do 12º DP. Houve um... um incidente. Na avenida Marginal. Um Chevrolet Prata, placa... o veículo pertence a uma Beatriz Lobo. Ela consta como sua esposa no registro.

O mundo desabou. Simplesmente desabou. O som do telefone caindo no chão foi completamente abafado pelo zumbido ensurdecedor, alto, estridente, que explodiu dentro dos meus ouvidos. Não ouvi os detalhes que vieram depois. "Colisão frontal"... "caminhão"... "no instante"... "não sofreu"... Foram só palavras vazias, sem significado.

Só consegui formar uma pergunta, com uma voz rouca, rasgada, que parecia vir das profundezas da minha garganta: - Ela... ela falou alguma coisa?

Uma pausa do outro lado. Longa, torturante. - Os paramédicos relataram que a senhora estava consciente por breves instantes no local. Ela repetia uma palavra, senhor.

- Qual palavra? - a pergunta saiu um sopro, quase inaudível.

- Dizia 'Lúmen'. 'Cuidado com o Lúmen'. Não fez sentido para a equipe. Faz algum sentido para o senhor?

Não respondi. Desliguei o telefone. O nome do medicamento-fantasma, a fonte de toda a podridão que eu temia, ecoou na sala silenciosa e vazia, agora misturado para sempre, inseparável, do último suspiro da minha esposa. Eu não a tinha ouvido em vida. Só tinha ouvido o eco da raiva dela, o ruído vazio da discussão. E agora, o silêncio que veio depois era o mais alto, o mais ensurdecedor de todos, carregado de uma verdade que meu cérebro ainda se recusava a compreender totalmente: A Beatriz não morreu por causa de uma discussão.

Morreu por causa de um segredo. Um segredo que eu sabia, que ela descobriu, e que alguém matou para proteger.

E o último aviso dela, sussurrado no meio da dor e do desespero, era a única coisa que eu ouviria com clareza absoluta dali em diante. Era a única palavra que importava.

O barulho da discussão sumiu. No lugar dele, instalou-se um silêncio culpado, pesado como uma lápide, frio como uma cova. E no centro absoluto daquele silêncio, plantada como uma semente venenosa que nunca mais pararia de crescer, estava a palavra que ia mudar tudo, que já estava mudando tudo dentro de mim: Lúmen.

Capítulo 2 LINHAS QUEBRADAS

O silêncio aqui dentro tem peso. É uma coisa grossa, pesada, que enche o ar e faz a respiração ficar curta, difícil. Meus olhos não param. Eles correm, desesperados, pela linha onde a parede bege encontra o chão cinza. É uma linha perfeita. Reta, limpa, inquestionável. Prefiro mil vezes focar nela do que olhar para os rostos ao meu redor – a mulher com os olhos inchados e vermelhos, o homem balançando o joelho num ritmo louco, a garota jovem mordendo as unhas até sangrar, sem nem perceber. A linha não sofre. A linha não sente dor. Ela simplesmente está ali, firme, enquanto tudo desmorona.

Minha irmã Lara está atrás da porta dupla, com aquele símbolo de raio azul estilizado. "Eletroencefalograma de Longa Duração", diz a placa. Um nome bonito, técnico, para um procedimento que vai mapear as tempestades elétricas que acontecem dentro do seu cérebro. "Crises de ausência", é o que o médico diz. Momentos em que ela simplesmente... apaga. Some. E volta alguns segundos depois, confusa, perdida, como se tivesse caído em um buraco escuro no meio do tempo.

O Dr. Elias sai há quinze minutos. Dá um aperto de ombro que deveria ser reconfortante, mas que só me faz sentir o peso dos ossos dele sob o jaleco branco, a fragilidade de tudo. - Vamos ter um panorama melhor, Clara - ele diz, com uma voz suave demais. - E então podemos sentar e discutir as opções.

Opções. A palavra fica ecoando na minha cabeça, batendo como um sino de bronze, pesado. As opções, no fundo, se resumem a uma só, só uma: o tratamento com o Neurovax, da Cortex Farmacêutica. Experimental. A eficácia ainda não é certa. E o custo... o custo mensal é o mesmo que o aluguel, a comida e todas as contas de uma família inteira. Por doze meses. No mínimo.

Meu telefone vibra no bolso do casaco. Um tremor sujo, familiar. É mais uma notificação do aplicativo do banco. Um lembrete educado, silencioso, de que o limite do meu empréstimo consignado - aquele que eu consigo quando ainda era assistente jurídica, quando ainda tinha um salário digno - está se esgotando. Está acabando. E com ele, se vão todas as minhas... opções.

Levanto-me. Minhas pernas estão um pouco trêmulas, bambas. A linha perfeita da parede me guia, é meu fio condutor até o corredor. Preciso de ar. Mesmo que seja só o ar condicionado, estéril, reciclado e frio deste hospital. Caminho sem rumo, passando por quartos com portas entreabertas - de onde saem gemidos baixos, suspiros -, desviando de carrinhos de medicamentos que tilintam, ouvindo o zumbido baixo e constante dos intercomunicadores. É um som de desespero disfarçado de rotina.

Minha mão, lá no fundo do bolso, esfrega a borda lisa de um cartão de visita. Dante Lobo. Lobo Holding Farmacêutica. O nome surge numa conversa de corredor, ouvida por acaso, quando eu ainda estou no escritório de advocacia. Um colega, falando baixinho, comenta sobre a "caça" por uma nova secretária executiva. - O cara é um ermitão, viúvo, tem uma filha muda... mas paga em ouro, Lucas. Em ouro puro. E exige confidencialidade de agência de espionagem. É um cara fechado.

Na época, ouço e ignoro. É só mais uma fofoca de escritório. Agora, o cartão é um ímã no meu bolso. Queima. Paga em ouro. As quatro palavras brilham na minha mente ofuscada, são a única luz fraca e distante no fim de um túnel que está desmoronando, pedra por pedra, atrás de mim.

Encontro uma pequena área de convívio, vazia, com algumas poltronas de tecido azul, gastas. Sento-me. Meu corpo afunda. Tiro o cartão. O papel é espesso, pesado, de alta gramatura. A fonte do nome é sóbria, imponente, sem firulas, sem adornos. Como deve ser o homem. Como imagino que ele seja.

Antes que eu possa pensar melhor, antes que o medo racional tome conta, minhas mãos, movidas por um impulso que nasce das minhas vísceras, do meu instinto de sobrevivência, e não do meu cérebro, já estão digitando um e-mail no meu celular. O rascunho do meu currículo, atualizado às pressas, está anexado. A carta de apresentação é curta, direta, seca. Não falo das minhas habilidades organizacionais, do meu conhecimento jurídico. Falo de discrição. De lealdade inabalável. De eficiência sob pressão extrema. E, no final, deixo escapar a verdade nua, crua, como uma isca que espero que ele morda: - Estou disponível para comprometer-me integralmente com as necessidades da sua empresa e da sua esfera pessoal. Flexibilidade total de horários. Dedicação exclusiva.

Comprometer-me integralmente. A frase soa no meu peito. Soa como uma venda da minha alma, do meu tempo, do que resta de mim. Talvez seja exatamente isso. Talvez não haja outra saída.

Envio o e-mail. Aperto o botão antes que o medo me paralise, antes que eu apague tudo. A mensagem some da tela com um whoosh silencioso, um suspiro digital. Sinto um vazio imediato no estômago, seguido por uma pontada aguda, afiada, de ansiedade pura. Meu Deus. O que foi que eu fiz?

Minha atenção é atraída, arrancada do meu caos interno, por um movimento do outro lado do corredor de vidro. Um homem alto, de terno cinza-escuro impecável, entra na ala pediátrica. Ele carrega uma aura de severidade, de fronte fechada para o mundo, mas... seus movimentos são cuidadosos. Delicados, até. Não é um médico. A postura é de poder, de comando, não de ciência. Ele segura a mão de uma menina pequena, de cabelos escuros como a noite e olhos enormes, profundos. A menina não olha para os lados. Ela olha fixamente para o chão, seus passos pequenos e arrastados tentando, em vão, acompanhar a passada larga e determinada do homem.

É ele. Dante Lobo. Tenho uma certeza absoluta, visceral. A coincidência é grande demais, pesada demais, para não ser um sinal. Um sinal perverso do universo, me mostrando justo agora a quem eu acabo de me vender.

Eles param diante da sala de fisioterapia. O homem, Dante, se abaixa. Seus ombros, largos e fortes sob o tecido caro do terno, ficam tensos, rígidos. Ele fala algo para a menina, baixinho. Ela não responde. Não olha para ele. Apenas balança a cabeça, negando, negando, negando. Ele insiste. Não consigo ouvir a voz dele através do vidro, mas a postura dele grita: é uma frustração contida, amarga, quase dolorosa de se ver. Ele coloca uma mão grande no ombro minúsculo dela, e a menina se encolhe, um movimento quase imperceptível, mas de uma rejeição tão clara, tão profunda, que dói só de observar.

Algo dentro de mim se contrai, se aperta. Não é pena. É reconhecimento. Um espelho. Aquele homem, dentro daquela armadura reluzente de poder e dinheiro infinito, está tão desesperado quanto eu. Tão perdido. Só que o desespero dele tem um rosto: o rosto daquela criança silenciosa, daquela menina que vive num mundo só dela.

Ele se levanta, passando a mão pelo rosto, num gesto de cansaço infinito. Por um segundo, apenas um segundo, a máscara fria do executivo cai, se despedaça, e eu vejo apenas o cansaço. A impotência. A mesma impotência que me corrói por dentro todas as noites, diante das pilhas de contas e do prognóstico silencioso do Dr. Elias.

Foi nesse segundo que ele vira o rosto. E os olhos dele, escuros como poços e afiados como lâminas, encontram os meus através do vidro. Não há surpresa neles. Nenhuma. Há uma avaliação gelada, instantânea, total. Ele não desvia o olhar. É como ser escaneada por uma máquina, um dispositivo que não mede suas qualificações ou seu currículo, mas sua capacidade de suportar peso. Quanto fardo você aguenta carregar sem quebrar.

A menina Melissa - segundo lembro vagamente daquela conversa de corredor -, levanta a cabeça pela primeira vez. Ela não olha para o pai. Olha para mim. Direto para mim. Seus olhos são poços profundos, de uma lucidez perturbadora, assustadora para uma criança. Ela me observa. Por um, dois, três segundos intermináveis. Então, lentamente, com uma calma sobrenatural, ela solta a mão do pai, pega uma caneta e um bloco de anotações que uma enfermeira deixa em uma mesa próxima, e começa a desenhar. Com uma concentração feroz.

Dante segue o olhar dela, e depois volta os olhos para mim. A expressão dele agora é impenetrável de novo, uma fortaleza. Mas naquele breve instante de conexão - com a menina, com o desespero mudo dele -, eu entendo. Compreendo tudo.

Esta não será uma entrevista de emprego comum. Será um teste. Um teste para ver até onde eu estou disposta a ir. Que linhas eu estou disposta a cruzar. E aquele olhar, aquele silêncio pesado e compartilhado através do vidro frio, é a primeira pergunta. A única que importa.

A porta da sala de exames se abre com um clique seco. - Clara Silva? - A enfermeira me chama, com uma voz rouca de quem repete nomes o dia todo.

Dou um último olhar para o corredor. Dante já está se virando, voltando toda a sua atenção para a filha. Melissa entrega-lhe o desenho. De onde estou, só consigo ver um borrão de linhas verdes, um rabisco sem sentido.

Viro as costas. Caminho de volta em direção à minha irmã, ao meu próprio desespero que cheira a antisséptico e medo, com a sensação nítida, certeira, de que acabo de cruzar uma linha. A linha perfeita, reta e segura da parede fica para trás, no passado. Agora, estou pisando em um território sem mapa, sem geometria, onde as únicas linhas que existem são as tênues, as invisíveis, as que separam o que ainda é aceitável do que se torna simplesmente necessário.

E eu... eu já não sei mais onde traço a minha. Já não sei mais se consigo vê-la.

Capítulo 3 O PESO DA ASSINATURA

A sala não é nada do que eu espero. Nada daquele cubículo de vidro cheio de arrogância e vista panorâmica que eu imagino para um CEO. É uma sala de reuniões grande, sim, mas vazia. Austera. As paredes são de um cinza claro, frio, quase prateado. A mobília é toda em linhas retas, dura, madeira escura e fria. Não há um único objeto pessoal. Nenhuma foto, nenhum troféu, nenhum vaso de planta tentando trazer vida. Só uma mesa retangular enorme, um aparador com garrafas de água e copos de cristal, e uma tela preta e muda na parede.

Parece uma cela. A antessala de um julgamento. O lugar perfeito para se assinar a própria sentença.

Estou sentada numa das cadeiras de couro preto, a minha pasta - com aquele currículo mentiroso por omissão, escondendo todo o desespero que me traz até aqui - bem firme no meu colo. Minhas mãos estão geladas, os dedos dormentes. Respiro fundo lá fora, tento puxar do fundo a Clara que eu costumo ser: a assistente jurídica precisa, metódica, que não se intimida com advogado velho e gritão. Mas aqui, dentro desta sala fria, ela parece uma memória distante.

A porta se abre sem fazer um som.

Dante Lobo entra. Ele é maior pessoalmente. A altura, a largura dos ombros sob o terno azul-marinho impecável. Mas não é o tamanho. É a presença. Ele ocupa o espaço com uma quietude absoluta, um vazio que suga todo o barulho, toda a energia da sala. Os olhos dele, da cor de um carvão molhado, passam por mim num relance rápido, seco. Sem interesse. Sem calor. Ele não estende a mão. Nem sequer inclina a cabeça. Apenas caminha até a cabeceira da mesa e se senta, como um rei num trono vazio.

- Clara Silva. - A voz dele é grave, limpa, sem nenhuma emoção. Soa como um veredito, não um cumprimento.

- Senhor Lobo. Agradeço pela oportunidade. - Minha própria voz sai, estranhamente estável, do meu corpo. Soa como se fosse de outra pessoa.

Ele ignora a formalidade. Abre uma pasta fina de couro que traz consigo. - Seu currículo é adequado. Experiência em ambiente jurídico é útil. Discrição é obrigatória. - Ele levanta os olhos. Olhos que parecem furar o meu crânio e ler os pensamentos por dentro. - O que o escritório Tavares não me diz é o motivo da sua saída. E o que te traz para esta cadeira.

A pergunta é uma facada. Direta, sem aviso, sem rodeios. A verdade - que eu sou dispensada, cortada nos custos depois de pegar empréstimos e faltar trabalho para levar a Lara aos médicos - é um risco enorme. Mas uma mentira bem-feita é um risco maior ainda. Esse homem parece o tipo que cheira mentira no ar, como um predador fareja o medo.

- O escritório passa por uma reestruturação, - começo, escolhendo cada palavra como se estivesse pisando em cacos de vidro. - Minha posição é considerada... redundante. - É uma verdade pela metade, uma verdade covarde. - Busco esse posto porque entendo que ser secretária executiva na Lobo Holding é mais que organizar agenda. Exige um nível de compromisso e sigilo que... que combina com a minha ética de trabalho. - A frase soa oca na minha própria boca. Falsa. Ensaiada.

Ele nem pestaneja. - Compromisso. - Ele repete a palavra, deixando-a rolar na língua, examinando-a. - E o que te move, Clara? Ambição? Ou... necessidade?

Meu coração dá um salto violento contra as minhas costelas. Necessidade. A palavra certa. A palavra perigosíssima.

- A ambição de fazer um trabalho excepcional num ambiente desafiador, - digo, sentindo a mentira queimar como ácido na minha língua.

Ele emite um som baixo, quase um bufado de desdém. - Pouquíssima gente é motivada só pela tal da excelência. A maioria é movida por recompensas. Ou pelo medo. - Ele fecha a pasta com um clique seco. - Você não parece do tipo que se assusta. E seu último salário não condiz com alguém movido só por ganância. Tem uma coisa fora do lugar aqui. E eu detesto coisas fora do lugar.

Ele se levanta, vai até o aparador. Pega uma garrafa de água, enche um copo de cristal. Não me oferece nada. O gesto é pequeno, calculado, um teste de poder sutil. Uma demonstração clara de quem está no controle.

- Vou ser direto, Clara. A vaga não é por incompetência. É por uma necessidade específica. Minha filha, a Melissa, tem... dificuldades. Precisa de terapeutas, médicos, a escola tem que ser adaptada. Minha vida profissional é imprevisível. Pesada. Eu preciso de alguém que possa ser um ponto fixo. Que possa, em certos momentos, agir como se fosse uma extensão de mim na vida dela. Alguém em quem ela possa confiar, mesmo quando eu não puder estar lá.

Ele se vira, me encarando de frente. - Isso vai muito além de marcar consulta no calendário. Pode envolver buscá-la na escola, levá-la a sessões, ver se ela está bem. Exige paciência. Discrição. E uma... empatia resistente. É uma função híbrida. Metade secretária executiva, metade... suporte pessoal. É algo com o que você se compromete?

A pergunta vem carregada, pesada. Ele não está perguntando se eu consigo. Ele pergunta se eu topo. É um pacto. Um acordo de sangue que ele me propõe.

É a deixa. A abertura que o meu e-mail, desesperado, cria.

- Senhor Lobo, - falo, engolindo o último pedaço de orgulho que me resta. É um gosto amargo. - Meu compromisso é total. Entendo que uma função assim exige uma dedicação que não tem horário de entrada e saída. Estou disposta a dar essa dedicação. A minha vida pessoal é... simples. Consigo priorizar as necessidades da empresa e da sua família.

Ele me observa. Os olhos dele escaneando cada micro unidade do meu rosto, cada pequeno tremor. Ele procura o desespero. E ele está lá, eu sei. Eu só espero que ele leia aquilo não como fraqueza, mas como combustível. Como algo que me fará ser confiável, porque eu não terei para onde correr.

- Simples, - ele repete, com um tom que deixa claro que ele não acredita. - E o que você espera em troca por essa... dedicação total?

Aqui está. O momento da verdade. As minhas mãos suam frio dentro do meu colo. - Um salário compatível com a responsabilidade. E... estabilidade. A garantia de que isso é um compromisso de longo prazo.

- Estabilidade, - ele ecoa. E pela primeira vez, vejo um brilho de algo nos olhos dele. Não é simpatia. É reconhecimento. Ele viu a necessidade. Identificou a fome. - O salário será o dobro do que você recebia no Tavares. Bônus por desempenho. Plano de saúde premium. E um contrato de confidencialidade, que você vai assinar sem hesitar, cobrindo tudo dos negócios da Lobo Holding e da minha vida privada. Qualquer vazamento, por mínimo que seja, resulta em demissão imediata e processo judicial. Está claro?

O valor é um soco no meu estômago. Um alívio e um terror ao mesmo tempo. É mais do que eu ouso sonhar. É a porta do tratamento da Lara se abrindo de uma vez. O preço? A minha assinatura num papel que provavelmente me dá zero direitos e todas as obrigações do mundo.

- Perfeitamente claro, - ouço a minha voz dizer, como se fosse de longe.

- Tem mais uma coisa. - Ele vai de volta para a mesa. Pega um tablet, toca na tela e o desliza na minha direção, sobre a madeira lisa. - Isto é um teste de perfil. Avalia tomada de decisão sob pressão, ética... e lealdade. Você faz agora, aqui. Tem trinta minutos.

Olho para a tela. A primeira pergunta brilha, inocente e traiçoeira: "Você presencia um colega desviando pequenos valores para cobrir uma dívida médica da família. Você: a) Reporta imediatamente; b) Confronta o colega em particular; c) Ignora, pois não afeta a empresa; d) Oferece ajuda financeira para resolver o problema."

Um teste. Não de habilidade. De caráter. Ou melhor, de que pedaço do meu caráter eu estou disposta a vender agora.

Pego o tablet. Minhas mãos, agora, não tremem mais. Estão frias. Determinadas.

Se ele quer alguém que coloque a lealdade à empresa acima de tudo, acima até da própria compaixão, é isso que ele vai ter. Se ele quer alguém que veja tons de cinza onde os outros só veem preto e branco, é isso que ele vai ter.

Pela Lara, eu passo em qualquer teste. Pela Lara, eu me torno qualquer pessoa que ele precisar que eu seja.

Olho para Dante Lobo. Ele está de costas para mim, olhando para a parede vazia e cinza, como se esperasse que a resposta dele estivesse escrita ali.

Eu baixo os olhos. E começo a responder.

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