Seis Anos Antes
Preciso do dinheiro. Preciso do dinheiro. Preciso do dinheiro.
Natalie repetiu incessantemente a frase em sua cabeça enquanto preparava a máquina para fazer mais café. Era para ser sua semana de folga, mas sua amiga Erin queria ir a algum show e implorou para que Natalie pegasse o voo não planejado. Por mais que Natalie quisesse passar a semana com a mãe no hospital, precisava do dinheiro para cobrir as despesas médicas.
Embora, para ser honesta, trabalhar no voo privado do Príncipe Iman Karawi não fosse fazer muita diferença na dívida, e o homem fosse um osso duro de roer. Natalie estava trabalhando com a Kaylana Voos Privados há alguns meses, e o dinheiro era melhor, mas a clientela rica deixava muito a desejar.
O avião passou por uma pequena área de turbulência e Natalie se equilibrou, apoiando a mão no balcão. Há cinco anos como comissária de bordo, não seria incomodada por um sacolejo. Quando o café finalmente ficou pronto, ela suspirou aliviada e pegou as xícaras. Sua Alteza tinha reclamado das duas primeiras vezes que ela serviu o café; não gostou do sabor e achou que estava muito fraco.
Se não gostasse desta vez, ela ia escorregar sem querer e derrubar no colo dele.
O telefone tocou.
- Sim? - ela perguntou ao atender.
- Estamos nos aproximando do Egito - Zane Maroun, o piloto, informou. - Devemos chegar ao reinado de Haamas em pouco mais de duas horas. A turbulência provavelmente vai continuar.
Tudo bem aí atrás?
- Acho que sim. Só tentando fazer uma xícara de café que seja do agrado de Sua Alteza - Natalie resmungou.
O piloto riu.
- Seja gentil.
- Vou tentar.
Ela desligou, encheu o número necessário de xícaras e pegou o carrinho de bebidas. O príncipe estava viajando com seu embaixador e três agentes de segurança.
- Até que enfim - exclamou um dos seguranças quando ela apareceu. - O Príncipe está esperando.
- Mil desculpas - ela disse com doçura. - Não percebi que o Príncipe estava com tanta pressa, já que ele rejeitou as duas primeiras xícaras que eu ofereci. Tenho um pouco de café instantâneo lá atrás que posso usar da próxima vez.
Ela ganhou uma cara feia, mas o homem não disse mais nada enquanto pegava sua xícara.
Era óbvio que a declaração dela tinha sido notada. O príncipe fixou seus maravilhosos olhos escuros nela e, a despeito da opinião que tinha sobre ele, ela não conseguiu evitar e se derreteu um pouco. Ela odiava pensar que estava sendo afetada pela aparência indecorosamente atraente dele, mas seu coração parava cada vez que ele olhava para ela.
Se apenas conseguisse ficar de boca fechada, seria quase perfeito.
Ele nunca falava diretamente com ela, preferindo expressar suas críticas mordazes por meio dos seguranças. E ela não sabia o que irritava mais: o fato de ele ser um babaca completo ou o fato de achar que ela não merecia ouvir, dele próprio, suas exigências ridículas.
Ele nem mesmo aceitou a xícara diretamente da mão dela. Ela teve que colocar na mesinha que ficava perto do assento grande de couro. Ele correu os olhos pelo corpo dela, demorando-se em certos lugares inapropriados, e ela estreitou os olhos e retribuiu o olhar, furiosa.
A sombra de um sorriso brincou nos lábios dele, fazendo-a corar enquanto desviava o olhar. Droga. Ela estava agindo como uma garota de quinze anos que ainda se apaixonava pelo garoto sexy e rebelde. Depois de terminar de servir o café, ela se virou para voltar à cozinha.
- Bem melhor - disse o príncipe repentinamente. A voz dele estava carregada de desdém.
As costas dela se retesaram; ela congelou e fechou os olhos, dizendo a si mesma para continuar andando.
Perdeu a batalha e deu meia volta. Fazendo uma pequena cortesia, ela ofereceu a ele o seu maior e mais falso sorriso.
- Obrigada, Vossa Majestade.
O embaixador arregalou tanto os olhos que eles quase pularam para fora. Mas Natalie não estava nem aí. Não seria feita de capacho. Ela se virou novamente e seguiu em direção à pequena cozinha.
Ao chegar, puxou a cortina, suspirou e foi esvaziar o filtro da máquina de café. Este voo de Chicago para algum reino do Oriente Médio, do qual ela nunca tinha ouvido falar, estava se tornando o mais longo da sua vida.
E ela esteve em alguns voos particularmente ruins. Passageiros desrespeitosos. Crianças chorando sem parar. Animais de serviço enjoados e vomitando. Colegas de trabalho achando indigno limpar o banheiro imundo da aeronave durante o voo. Honestamente, algumas vezes esse trabalho era péssimo.
Ela pensou que os voos privados seriam melhores e, em alguns aspectos, eram mesmo. Pelo menos a quantidade de gente era menor.
O lado bom era poder viajar. Ela teria dois dias inteiros em Haamas para explorar e conhecer os pontos turísticos, antes que o avião estivesse abastecido e pronto para o voo de retorno. Neste ponto em sua carreira, ela já tinha ficado embasbacada com a incrível arquitetura da Rússia. Havia visitado lindos castelos na Alemanha, Irlanda e Escócia. Tinha experimentado a deliciosa gastronomia da Ásia e atravessado templos antigos e jardins serenos. Apreciou as deslumbrantes obras de arte do Louvre e nadou no Mar Egeu, na costa da Grécia. Fugia da realidade colecionando memórias, e não teria feito nada disso sem esse trabalho.
Valia cada uma das indignidades que ela sofreu. Quase sempre.
Duas horas até o pouso. Nenhuma refeição mais para servir. Talvez café. Seus pés doíam e ela estava exausta. Durante o voo de treze horas, não tinha conseguido fechar os olhos por mais de uma hora. A mudança de última hora permitiu que ela dormisse apenas algumas horas antes da viagem e ela estava um bagaço. Se não saísse logo daquele avião, seu sarcasmo se tornaria tão ácido que provavelmente faria com que fosse demitida.
Ela desabou no banquinho da cozinha e começou a massagear os pés. Mas seu alívio durou pouco, pois um dos seguranças escancarou a cortina.
- O Príncipe requisita que você mude o vento que sai pelas passagens de ar. Ele está com frio.
- Os controles estão bem em cima dele - ela disse. - Ele pode ajustar do jeito que quiser.
O segurança só olhou para ela, que suspirou, colocou de volta o sapato de salto alto e se levantou.
- Chego lá em um minuto.
Depois de lavar rapidamente as mãos, ela respirou profundamente para acalmar os nervos e saiu.
- Príncipe Iman - ela disse gentilmente quando se aproximou dele. - Gostaria que eu desligasse o ar ou apenas diminuísse?
Novamente, ele a encarou com aquele sorriso estranho em seus lábios sensuais.
- Certo. Bom, vou diminuir. - Inclinando-se sobre o assento dele, ela girou o botão totalmente para a direita. - Se quiser ligar de novo, gire o botão pra direita.
Ela olhou para baixo, para se certificar de que ele tinha entendido, e percebeu que estava exatamente entre as pernas dele.
Seu olhar era voraz.
Um pânico inesperado e descabido a atingiu. Espantada, ela deu um passo para trás. Os homens ao redor dela riram, e ela balançou a cabeça.
Chega. Era demais. Ela não era a diversão deles. Mas, quando abriu a boca para repreendê-los, foi interrompida por um barulho alto de explosão e o avião inteiro se inclinou para a esquerda.
Com um arquejo, ela perdeu o equilíbrio e caiu bem no colo real.
- O que foi isso? - Um dos guardas exigiu saber, enquanto deslizava em seu assento em direção à janela para olhar para fora. - O que foi isso? - ele repetiu, com o corpo tenso e a concentração fixa na janela.
- Por favor, permaneçam calmos - ela disse em sua melhor voz profissional, ao mesmo tempo em que, desajeitada, tentava sair do colo do príncipe. Evitando contato visual com todos eles, ela olhou pela janela e viu, horrorizada, que a asa do avião estava em chamas.
Pelo menos não tinham despencado feito uma pedra, mas o voo permanecia instável, sacolejando e perdendo altitude. Foi difícil chegar até a porta da cabine de comando. Pegando o telefone, ela apertou o botão para falar com a tripulação.
- O que está acontecendo?
- Perdemos controle do estabilizador. - A voz de Zane estalou, fatídica, nos ouvidos dela. - Prepare todos para um pouso forçado.
Tremendo, ela apertou outro botão no telefone e disse na voz monótona, "de gravação", que tinha aprendido a fazer:
- Por favor, permaneçam calmos. Estamos experimentando uma falha mecânica e faremos um pouso de emergência. - Ela colocou o telefone no gancho e andou no sentido do seu assento, mas precisou se agarrar aos encostos das poltronas quando uma queda súbita da aeronave fez com que, dolorosamente, sua mandíbula se fechasse com violência. Inspirou com força, expirou e levantou a voz para ser ouvida acima do tumulto. - Por favor, afivelem seus cintos e verifiquem se seus assentos e bandejas estão na posição vertical. Permaneçam calmos até que o piloto forneça outras instruções.
Ela se encolheu mentalmente. O discurso tinha sido automático, impresso dentro dela para eventuais emergências nos voos comerciais em que comumente trabalhava. Mas este avião não tinha bandejas.
O pânico tomou conta da cabine de passageiros; dois seguranças que estavam em pé mergulharam em seus assentos e todos lutavam para colocar os cintos de segurança. Somente o príncipe parecia manter a calma.
Natalie se sentou e afivelou o cinto. Comprimindo com as mãos as alças cruzadas do assento dos tripulantes, ela fechou os olhos.
Tinha apenas vinte e três anos. Era muito jovem para morrer. E o que seria da sua mãe?
Se ela morresse hoje, sua mãe desistiria de lutar contra o câncer.
Não teria mais razão para viver.
mulher estava completamente fora do seu campo de visão.
Iman se moveu para desafivelar o cinto e se certificar de que ela estava segura, mas Nabih agarrou seu braço e balançou a cabeça solenemente. Iman praguejou por entre os dentes.
- Nós vamos morrer! - o embaixador choramingou. - Nós todos vamos morrer!
- Dá pra você ficar quieto? - Iman grunhiu. - O seu pânico não vai mudar as coisas.
Eles estavam perdendo altitude e as máscaras de oxigênio caíram. Iman pegou o equipamento que balançava na sua frente, puxou o tubo plástico para iniciar o fluxo libertador de ar e, ao puxar a máscara para o seu rosto, lançou um olhar ansioso para a parte de trás do avião.
Os guardas não permitiriam que ele se levantasse; muita coisa dependia da segurança dele. O palácio já estava em alvoroço porque ele tinha decidido fazer essa viagem, especialmente considerando a gravidade da doença de seu pai... mas alguém tinha que tomar uma atitude. Ainda havia um reino a ser governado e seu pai não tinha condições de viajar.
Ouviu-se o clique do interfone sendo ligado, a voz do piloto parecendo mais distorcida do que de costume:
- Estamos com sorte, pessoal. Há uma pista de pouso abandonada que eu acredito que conseguimos alcançar. A aterrissagem vai ser um pouco difícil, então se segurem.
A tensão na voz do piloto era evidente, mesmo através do chiado do interfone. Iman olhou pela janela e viu, lá fora, o chão que rapidamente se aproximava.
Logo, a voz do piloto reverberou novamente:
- Preparem-se par-
O avião inteiro chacoalhou. Iman foi jogado para frente, o cinto de segurança cortando fundo seu tronco. Ele ouviu gritos e uma grande batida foi ouvida na traseira do avião, seguida por um berro estridente.
O coração de Iman quase saiu pela boca.
A mulher!
O avião deu uma guinada e se inclinou perigosamente enquanto a paisagem passava acelerada pelas janelas, mas Iman já estava removendo a máscara de oxigênio e desafivelando o cinto. Usando os bancos como apoio, ele foi se agarrando até a parte de trás, ignorando os gritos irritados dos guardas.
Tudo estava parado quando ele chegou à cauda da aeronave. Balcões e prateleiras, arrancados das paredes, bloqueavam a passagem.
- Mulher! - ele gritou. - Responda!
Desesperado, ele ouviu somente o silêncio... até que escutou a voz dela, e seu coração deu um pulo.
- É sério? - respondeu ela, com a voz muito baixa. - Você não consegue nem lembrar do meu nome?
Fechando os olhos, Iman segurou o riso. A danada ainda respondia com atitude, mesmo à beira da morte. Ele gostou disso.
- Me diga seu nome e talvez eu tire você daí.
- É Natalie.
- Tudo bem, Natalie. Você está sangrando?
- Terrivelmente.
A voz dela estava surpreendentemente forte e ele esperava que não fosse nada sério, mas não queria perguntar e piorar as coisas.
Tentou levantar o armário que estava no caminho, mas não conseguiu nada.
Olhou para trás e encarou seus homens, ainda congelados nos assentos.
- Ajudem-na. Agora.
Eles ainda estavam visivelmente abalados ao removerem seus próprios cintos de segurança e caminharem vacilantes em sua direção. Mas não adiantou. O espaço era tão pequeno que não cabia mais de uma pessoa por vez, e uma só pessoa não era suficiente para mover nada do lugar.
- Parece que vai demorar um pouco - ele disse a ela.
- Típico! Homens não conseguem mesmo manter promessas. - Ele a ouviu responder.
A porta da cabine abriu e os dois pilotos apareceram cambaleando.
O piloto, amparando o copiloto, perguntou:
- Está todo mundo bem?
- A aeromoça está presa, mas todos os outros estão bem - disse Nabih, com a voz trêmula.
- Ótimo. Nosso sistema de comunicação foi danificado na batida - disse o piloto. - Não há vazamento de combustível, mas acho melhor que todos deixem a aeronave.
Ele abriu a porta e se afastou. O embaixador se adiantou para ser o primeiro a sair.
Um dos homens de Iman o puxou.
Iman se desvencilhou dele.
- Não vou deixá-la aqui - ele rugiu. - Você faz o que eu mandar, e não vamos deixá-la aqui pra morrer.
- Vossa Alteza, sinto muito, mas não vamos deixá-lo aqui. Não podemos fazer nada por ela agora, mas vamos buscar ajuda.
A tensão aumentava e o piloto interveio.
- Há uma saída de emergência na cauda. Temos mais chance de chegar até ela por lá.
Ele sinalizou para que o acompanhassem.
Compreendendo que não havia nada que pudesse fazer por ela dentro do avião, o príncipe saiu rapidamente. A aeronave tinha parado em ângulo, com parte do trem de pouso amassada, então foi fácil pular para fora. Depois dele, todos saíram.
Ele olhou em volta e apontou para o segurança mais próximo.
- Haydar. Vá com um dos pilotos, e com o Embaixador Cham, e consiga algum transporte para nos tirar daqui. Ou pelo menos encontre uma maneira de se comunicar.
O copiloto, que agora conseguia permanecer em pé sem ajuda, aquiesceu, arrumou a postura e começou a andar na direção do hangar mais próximo. O segurança o seguiu e o embaixador correu para não ficar para trás.
A voz de Iman estava mais forte quando ele se virou para os dois outros seguranças e ordenou:
- Vocês dois! Não sairemos daqui enquanto aquela mulher estiver presa, entenderam?
O piloto já estava trabalhando na porta de emergência.
- Está torta. Vamos precisar de alguma coisa pra forçar mais a abertura, se quisermos mesmo entrar lá atrás dela. Deve ter alguma coisa que possamos usar no hangar.
Iman balançou a cabeça em concordância.
- Vá. Leve os homens com você. Vai ser mais rápido assim.
Ele se ergueu para espiar pela pequena abertura, talvez grande o suficiente para passar seu braço até o ombro, no máximo. Não seria possível entrar ou sair por ali. Ele conseguiu ver, no corredor, uma parte das pernas nuas dela.
Tinha sangue pingando.
- Você consegue me ouvir? - ele gritou.
Sem resposta.
Ele tentou pensar em algo para dizer que a tirasse do sério.
- Você não serve para ser aeromoça - comentou. - Vou reclamar quando voltar.
Funcionou.
- É comissária. - ela disse com rispidez. - E eu tenho algumas palavras interessantes pra dizer sobre você também!
- Podemos comparar notas quando você estiver aqui fora - ele respondeu, com uma risadinha de alívio, antes de pensar mais um pouco. - De onde você está sangrando?
- Eu... eu não tenho certeza. Não consigo ver, e não estou sentindo nenhuma dor. Choque, talvez. Acho que se eu conseguir cortar o cinto de segurança, consigo sair daqui. Tem alguma coisa fazendo pressão nele e eu não consigo alcançar a fivela.
Imediatamente, Iman pegou o canivete que guardava no bolso.
- Você consegue esticar o braço? Colocar a mão para baixo, perto do joelho? - Ele viu a mão dela aparecer e tocar o chão. - Isso. Vou deslizar um canivete na sua direção.
Balançando o braço pela abertura, ele ganhou impulso suficiente e jogou o canivete pelo piso inclinado.
- Mova a mão para trás, só um pouco. - Ele a guiou. - Está bem entre os seus dedos.
Quando ela pegou o canivete, ele respirou aliviado.
- Obrigada - ele a ouviu murmurar. - Quase consegui.
Ela resmungou um pouco, mas logo em seguida soltou um gemido suave de vitória.
Iman segurou a respiração enquanto a via mexer as pernas. A estante grande que estava em cima dela oscilou e alguma outra coisa caiu, abrindo espaço na frente dele.
- Natalie!
- Cuidado, Vossa Majestade - ela grunhiu. - Ou vou achar que se importa.
Ela serpenteou para fora do assento e ele a enxergou de corpo inteiro enquanto se espremia pela abertura que agora era ligeiramente maior.
- É Vossa Alteza Real, na verdade - ele a corrigiu, ao mesmo tempo em que percebeu que o sangue que manchava o uniforme dela parecia vir do braço. - Serei Vossa Majestade apenas quando usar a coroa.
Ela se apoiou na parede e respirou profundamente.
- Me perdoe. Vou tentar lembrar disso - disse, secamente. Tirando o blazer, ergueu o braço para inspecioná-lo.
- Como está?
- Precisa de uns pontos. A dor na cabeça é pior.
Impaciente, Iman olhou em volta.
- Que demora! Pedi uma alavanca pra arrombar a porta. Vou verificar, já volto.
- Se eu morrer nesse avião, vou assombrar você pro resto da vida. Vou ficar grudada em você, reclamando de todo o café que você desperdiça - ela brincou.
- Ei, a culpa não é minha. Você que não sabe fazer uma xícara decente de café. - Sério, ele a encarou. - Não tenha medo. Volto em um minuto.
- Não estou com medo. Estou emocionada. Meu Príncipe, meu herói.
Ela colocou uma das mãos sobre o coração; ele riu e balançou a cabeça. Sob outras circunstâncias, ele estaria irritado com a atitude dela, mas se o sarcasmo a ajudava a lidar com o medo, ele podia suportar.
Ele desvestiu o paletó do terno, colocou-o no chão e saiu correndo até o hangar. Ao chegar, viu os pilotos vasculhando o lugar e encontrou o embaixador e dois seguranças reunidos em volta de um jipe, enquanto o terceiro segurança, murmurando entre dentes, tentava dar a partida.
Quando o motor ligou, todos comemoraram.
- Cabem seis pessoas. Vá buscar o príncipe - disse um dos guardas, mal-humorado.
- O príncipe está aqui e está se perguntando por que vocês não estão ajudando a abrir a porta do avião - Iman estava quase rosnando.
Amyad curvou a cabeça.
- Perdão, Alteza, mas sua segurança é a nossa prioridade central. Temos um veículo que podemos usar para conseguir ajuda e vamos mandar alguém de volta pra pegar a mulher. Por favor, entre.
Estreitando os olhos, Iman encarou friamente o homem.
- Cabem seis pessoas no carro. Todos vocês podem ir. Avise o palácio e consiga uma equipe de emergência. Um médico também, se encontrar algum.
- Não podemos deixar Vossa Alteza!
- Podem sim, porque só assim posso ter certeza de que vocês vão retornar - ele disse, calmamente. Sustentou o olhar, duro como aço, forçando Amyad a erguer a cabeça. - Essa é uma ordem do seu príncipe. Desobedeça e vou decretar o seu exílio. Entendeu?
Ele sabia muito bem como a sua família reagiria. A notícia da doença do seu pai ainda não tinha alcançado a maioria da população de Haamas, então o fato de Iman ter voado a Chicago para uma reunião internacional tinha sido mantido em segredo. Iriam varrer o acidente aéreo para baixo do tapete, subornariam todos que estavam no avião e fingiriam que nada tinha acontecido. Se alguém morresse, seria uma pessoa a menos para se preocuparem.
Brutais. Impiedosos. Esperavam que Iman fosse assim também, mas hoje ele não deixaria aquela mulher morrer.
Os seis homens entraram no jipe, Nabih talvez com um pouco menos de pressa que os outros, e foram embora.
Iman observou o veículo tomar velocidade por um momento, e então concentrou-se no problema a ser resolvido. Procurando pelo hangar vazio, encontrou uma pilha de ferramentas num canto. Pegou um pé-de-cabra e, ao sair do hangar, parou, assombrado.
Uma nuvem negra pairava no horizonte, crescendo visivelmente à sua frente.
Tempestade de areia. E pela maneira como rapidamente cobria o céu, Iman soube que estaria ali em minutos.
Correndo para os destroços, ele encaixou a alavanca na abertura e começou a puxar.
- Temos que nos apressar - ele ordenou, a adrenalina correndo em suas veias. Conseguiu calçar a porta o suficiente para que ela passasse.
- Espere - ela resmungou, enquanto pegava algumas garrafas de água e um kit de primeiros socorros. Iman se inclinou para dentro e passou o braço em volta da cintura dela. - Eu posso andar!
- Pare de discutir comigo, mulher!
Segurando Natalie perto do peito, ele a arrastou para fora do avião e a pegou com facilidade em seus braços. Ela era pequena, com pouco mais de um metro e cinquenta sem o salto, e não devia pesar mais que cinquenta quilos. Alguns grãos de areia voaram ao redor deles, açoitando-o no rosto enquanto ele, protegendo-a, corria para o abrigo.
Quase não conseguiu fechar a porta do hangar, lutando contra o ataque do vento, antes que a visão do lado de fora das janelas escurecesse, engolfada pela areia. Atingindo o prédio, a tempestade gemia como mil feras, rondando furtivas.
- Uau - Natalie murmurou, levantando para olhar pela janela. - Nunca vi nada parecido com isso.
- Bem vinda ao deserto, Princesa. - Ele ergueu o braço dela, com gentileza, para examinar. - Você vai precisar de pontos, ou vai ficar com uma cicatriz.
- Não será a primeira - ela disse, dando de ombros. Abaixou-se e pegou uma caixinha. - Estou com o kit de primeiros socorros do avião. Também trouxe um pouco de água. Não sei quanto tempo a tempestade vai durar, mas tem comida e mais água ao nosso alcance. Onde está todo mundo?
Iman pegou-a nos braços novamente e a sentou na bancada.
- Me permita. Eles arranjaram um veículo e seguiram até a cidade mais próxima para buscar ajuda. Com sorte, não vão demorar mais do que algumas horas.
- Seguranças de meia-tigela - ela resmungou. Ele derramou antisséptico em uma gaze e delicadamente limpou o ferimento. Ela se encolheu, e ele teve que se segurar para não assoprar. - Largaram seu precioso príncipe pra trás.
- Foi uma ordem.
Ele não contou que tinha ficado por causa dela.
Mas percebeu que ela já sabia, ao ver os olhos dela buscando os seus.
Um silêncio constrangedor caiu sobre eles. Ele continuou limpando o ferimento e, ao final, cobriu o mais perfeitamente que pôde. Inspecionou seu trabalho e abaixou o braço dela.
- Então - ela disse -, esse título é só decorativo ou você efetivamente governa o seu pequeno reino?
- Meu pai é o Sheik. E eu, como filho mais velho, sou o Príncipe Herdeiro. Tenho dois irmãos mais novos, mas o reino será meu quando meu pai morrer ou se aposentar. A família real ainda tem influência política, mas Haamas também tem um primeiro-ministro. - Ele deu uma risadinha sem graça. - Um velho amigo da família.
- Que agradável. - Natalie segurou a borda da mesa e lentamente escorregou para o chão. - Pra falar a verdade, nunca tinha ouvido falar no seu país.
- Somos parte de um grupo de pequenos reinos independentes. - Ele franziu a testa. - Como está a sua cabeça? Está tonta? Ouvindo algum tipo de zumbido?
Um pequeno sorriso surgiu no rosto dela.
- Não acho que tenha tido uma concussão. - Ela inclinou a cabeça para o lado e estudou o rosto dele. - Essa habilidade social que você demonstrou como enfermeiro é um lado interessante seu. Cuidando de ferimentos, diagnosticando concussões...
Iman estava encantado com o sorriso dela. Ela tinha uma estrutura pequena e, em uma multidão, dificilmente seria notada. O cabelo loiro estava preso em um coque que estava se soltando, e o pouco de maquiagem tinha desaparecido debaixo de uma mancha de fuligem que ele estava desesperado para limpar; mas, quando ela sorria, seus olhos azuis se iluminavam. E ele nunca tinha visto algo tão lindo.
- Meus irmãos e eu éramos uns brutamontes quando estávamos juntos - ele explicou. - Lutamos muito, e não estou falando de rolar no chão de brincadeira. Era pra valer, surra de verdade, mas sabíamos que se nossos pais soubessem seria um inferno, então sempre cuidamos uns dos outros no final de cada luta. Pra esconder as evidências.
O vento uivava e colidia contra o hangar, e Iman se perguntava se o prédio aguentaria. As janelas estavam cobertas de areia e apenas uma lâmpada fraca e bruxuleante que pendia de uma viga iluminava o lugar. Natalie andou devagar pelo lugar, explorando, e ele parou um momento para admirar o corpo dela. Fora daquele blazer volumoso de comissária de bordo, seu quadril curvilíneo e cintura fina estavam evidentes. Os três primeiros botões da camisa dela estavam abertos, mostrando o início do decote, e a necessidade que ele sentia dela se entranhou mais fundo. Ele ainda conseguia sentir a maciez da sua pele e o leve perfume que remanescia em suas roupas.
- Parece brutal - ela comentou. - Você realmente não se dava bem com seus irmãos?
- Não era que a gente não se dava bem, era o fato de estarmos sempre juntos. Nós estudamos em casa - ele disse, ironicamente. - Em alguns aspectos, somos muito parecidos, em outros, somos diferentes demais. Bahir e Riyad tiveram mais liberdade que eu, e sempre senti um pouco de inveja disso.
- Típicos garotos - ela disse, baixinho. Começou a dizer outra coisa, mas parou. Ele seguiu o olhar dela até as janelas. Um raio de luz atravessou a barreira de areia e ele ouviu o arquejo de alívio dela. - Parece que a tempestade acabou. Você acha que o pessoal vai voltar logo?
- Provavelmente não - Iman respondeu.
- Por quê?
O sorriso dele não conseguia aliviar a expressão carregada.
- O veículo deles era conversível e eles saíram apenas alguns minutos antes da tempestade.