Naquela tarde de outono tudo parecia estar do mesmo jeito, o bairro continuava deserto. Já faziam alguns dias que não se escutava um bombardeio, nem sequer um estrondo ao longe ou barulho de metralhadoras ou tanques passando pelos arredores. Estava sendo uma semana até certo ponto proveitosa para o doutor Baumann e sua equipe, mesmo que as esperanças já tenho quase todas ido embora.
Eles sabiam que não seria um projeto fácil de terminar, que os desafios seriam enormes e as chances de falhar eram muito grandes, sem contar que tudo era quase uma utopia. Estar no subterrâneo de um prédio abandonado, nos confins de um lugar que eles mal sabem onde fica, e estar longe de tudo e de todos. Sempre foi algo impensável. A única coisa que às vezes era bom para o doutor Baumann era poder dar um passeio no início da noite.
Isso era uma coisa que só acontecia uma vez por semana, subir aquelas escadas enferrujadas, caminhar por uma sala cheia de destroços e por fim sair daquele prédio abandonado era mesmo uma coisa formidável. Estar quase que preso no subterrâneo de um prédio em prol de algo que nem você mesmo acredita é uma coisa às vezes insuportável. Conviver literalmente vinte e quatro horas por dia com pessoas que são estranhas a você, sem sequer ver a luz do sol, pode ser muito desgastante.
Mas pelo menos aqueles poucos vinte ou trinta minutos eram maravilhosos, para Baumann poder respirar um pouco de ar puro fazia o cérebro funcionar melhor, tudo parecia funcionar melhor. E isso tinha que ser feito na hora certa, sair do prédio sorrateiramente e esperar no lugar combinado e torcer para que ninguém percebesse que existia vida naquele bairro. Depois que alguns minutos um jipe chegava, eram sempre as mesmas duas pessoas, o doutor Baumann nunca soube muita coisa sobre eles. Depois de uma freada brusca e olhares nada amigáveis, jogavam no chão uma caixa de comida, até que era uma comida muito boa, e era mais que suficiente para o doutor e sua equipe.
Ou seja, todas as terças feiras entre sete e sete e meia da noite, ele deveria esperar o jipe nos fundos do prédio, dois soldados iriam levar comida e as vezes traziam um envelope com novas ordens. Pelas contas do doutor já era agosto ou setembro de 1945, e eles sabiam disso porque em uma dessas saídas para receber a comida ele viu um rádio quebrado entre as latas de lixo, e na presença dos soldados não deu importância. Calmamente esperou que eles fossem embora, e tarde da noite subiu novamente as escadas e pegou o rádio. Não foi difícil fazê-lo funcionar, todos ali eram doutores em mecânica, eletrônica ou física, consertar um rádio velho não era uma tarefa das mais difíceis, na verdade era uma brincadeira de criança. Não levou nem vinte minutos. Mas nem sempre ele funcionava, não tinha sinal de rádio naquele lugar, todos foram embora. As vezes nos domingos a noite, por uma ou duas horas ele funcionava, mas era um programa de música, escutar notícias era muito difícil, passavam semanas sem se saber de nada.
Aqueles soldados falaram uma ou duas palavras em todos esses meses, e foi mesmo uma ou duas, nem sequer davam bom noite, jogavam a caixa no chão e saiam em disparada. Mas eles estavam certos, não se sabia se alguém estava nos vigiando, e ser metralhado de surpresa era algo bem normal quando se está na Segunda Guerra Mundial. E era por isso que eles não falavam muito e queriam logo ir embora.
A cidade habitada mais próxima ficava há mais de oitenta quilômetros de distância, realmente o doutor Baumann e sua equipe estavam mesmo no meio do nada. O exército aliado havia passado ali uns dois anos antes e dizimado aquela pequena cidade, os poucos que sobraram foram embora, o restante foi assassinado a sangue frio. Em poucas semanas a cidade tinha virado uma cidade-fantasma, o doutor sequer sabe direito onde ele está, na época ele foi colocado em um caminhão e depois de andar por dias, foi deixado ali naquele prédio.
Um pouco antes chegou a sua equipe, mais três especialistas, três outros doutores, que também não sabem direito onde estão, pelas poucas placas que podem ver na rua, devem estar na fronteira da Alemanha com a França. Muitas placas estão escritas nos idiomas desses dois países, e é por isso que eles supõem que estão na fronteira. Eles já fizeram uma lista das cidades que lembravam que estavam na divisa, mas como não sabem de que lado estão, tudo ficou mais difícil.
E realmente nenhum deles quis sair e procurar onde estavam, o medo de ser encontrado era maior, e isso porque muitas vezes eles escutavam tanques passando na rua e exércitos marchando. Se fossem pegos por algum exército aliado seriam com certeza mortos.
Uma vez eles conseguiram sintonizar uma estação de rádio, e conseguiram por quase quinze minutos ouvir as notícias, foi surreal, eles vibraram e se abraçavam quando escutaram a voz saindo pelo autofalante. Mas não durou muito, logo saiu do ar. O que puderam escutar era que a guerra ainda continuava da mesma forma, sangrenta e impiedosa. Mas isso foi a mais de um ano.
E se contentar com um programa de música aos domingos a noite não era o que eles queriam, tá certo que relaxava um pouco, mas eles queriam saber as notícias sobre a guerra. Duas vezes eles se aventuraram fora do subsolo do prédio, uma foi quando escutaram o chão trepidando por causa de um exército que marchava pela rua. E naquele dia depois de mais de duas horas de espera, o doutor Baumann teve coragem de subir e olhar a rua. Ele achou duas páginas de jornal e uma caixa de biscoitos, e foi só.
No jornal, notícias sobre as batalhas e ofensivas realizadas pelos exércitos, e isso os deixou na época bem empolgados, pois parecia que estavam ganhando a guerra. Pelo menos era o que dizia a notícia naquela única página. Na outra vez acharam uma revista com mulheres seminuas, isso era uma coisa que os soldados sempre tinham com eles, mas a revista estava em francês, e não tinha nenhuma notícia.
Depois que alguns meses eles entenderão que onde estavam não era bem uma cidade, ou pelo menos não era do jeito que conheciam, eles estavam em uma cidade muito pequena, quase que uma vila. E isso era mesmo a coisa certa em se fazer com eles quando se tratava da pesquisa que estavam fazendo.
E então tudo estava explicado, não passar quase ninguém e não ter sinal de rádio. Quem os colocou ali foi muito astuto, porque sabia que Baumann e os outros estariam totalmente isolados e sem chance de fugirem. Estavam em uma prisão sem grades. Algumas coisas para eles não eram ruins, tinha sempre água quente e a comida era mesmo muito boa, e chegava todas as semanas sem nunca faltar.
Eles não sabiam ao certo como ainda podia ter água quente naquele prédio, o que sempre acharam é que o fornecimento de gás vinha de alguma cidade grande, de uma forma bem misteriosa. Mas o que achavam que era o sensato a se acreditar é que estavam no meio de uma tubulação que levava o gás para outra cidade tão grande quanta a cidade de onde o gás saiu. Ou se não for nenhuma dessas coisas, mais um ponto para a pessoa que os colocou ali, pois sabia que tudo estava garantido para que eles tivessem tudo que precisassem.
Além disso nunca faltou eletricidade, nem um dia sequer. As camas eram boas e confortáveis, e tinham tudo que precisavam. A cada duas semanas os soldados traziam roupas e toalhas limpas e levavam a roupa suja para lavar. Talvez fosse por isso que sempre estavam de meu humor. Essa era uma piada que fazia o doutor e sua equipe rirem muito nas horas vagas. E aqueles soldados pareciam ser bem obedientes, pois nem os cigarros que eram solicitados vinham errado. Sempre que o doutor Baumann pedia, ele e sua equipe recebiam exatamente a quantidade certa, sem mais nem menos.
As instalações também eram muito boas, na época tudo foi arrumado previamente, e bem arrumado. Antes mesmo deles chegarem. Os móveis eram novos e tudo era da melhor qualidade, os equipamentos para a pesquisa eram os mais modernos. E aos poucos o doutor Baumann e sua equipe ficaram de certa forma amigos, apesar de que não tinham outra opção, já eram quatro anos convivendo juntos. Do nascer ao pôr-do-sol tinham apenas a companhia uns dos outros. O doutor Vogt era o mais jovem, e o mais calado, mas era divertido quando não estavam trabalhando, ele sempre contava as piadas mais engraçadas. Os outros dois, Falkenberg e Altman eram mais abertos e falavam com mais frequência, mas todos eram exímios cientistas.
Falkenberg na verdade era o mais brilhante dos quatro, e também o mais velho, já tinha mais de cinquenta anos. Com exceção de Vogt que tinha um pouco mais de trinta, Baumann e Altman tinham cerca de quarenta. Estavam todos enfurnados naquele subsolo, e lhes foi dito que se não cooperassem suas famílias seriam mortas, suas mulheres e seus filhos teriam suas cabeças cortadas se eles não fizessem o que Baumann mandasse.
Mas nunca foi preciso que Baumann fosse ríspido e autoritário, nenhuma vez, pois todos sabiam que estavam no mesmo barco. Eles sabiam que só sairiam dali juntos e para isso precisavam colaborar uns com os outros da melhor forma possível. Altman não acreditava muito no propósito daquela guerra, achava aquilo tudo uma tremenda estupidez, mas não entrava muito no assunto. Os outros de certa forma acreditavam e queriam acabar com aquilo o mais rápido possível, se bem que quando se está preso no meio do nada, qualquer coisa que os fizessem sair dali era compreensível.
Eles queriam apenas voltar a ver suas famílias e ter sua velha vida de volta, todos eram cientistas renomados tanto no seu país quanto em toda a Europa. Tinham uma vida boa e eram bem remunerados, até que um dia um coronel os chamou para conversar. Sequer fez um pedido, apenas comunicou o que iria acontecer, jogou na mesa os projetos e disse que imediatamente iriam iniciar. Naquele momento, soldados entraram na sala e eles foram colocados em um caminhão.
Primeiro foi o doutor Falkenberg e depois o doutor Vogt. Depois de alguns dias chegou o doutor Altman e por último o chefe da pesquisa, o doutor Baumann. E foram nesses dias as últimas vezes que eles viram outras pessoas, com exceção de Baumann que todas as terças a noite ele encontrava os soldados por alguns minutos. Na verdade, aquilo tudo era uma grande porcaria do ponto de vista de como as coisas foram feitas, mas tinha que ser feito daquela forma, no exato dia que aquele projeto ficasse pronto, a guerra seria vencida pela Alemanha.
Sem sombra de dúvida aquele era o projeto mais audacioso que a humanidade teria visto. Era algo inimaginável até mesmo para aqueles quatro cientistas que ali estavam, mas eles precisam terminar aquilo de uma forma ou de outra, ou suas vidas iriam acabar ali mesmo, naquele subsolo. E que forma mais estupida de morrer, esquecidos no meio do nada em um projeto que parece que ninguém se importa. Todos os quatro sabiam que a postura daqueles dois soldados que levavam comida e tudo que eles precisavam refletia a postura de todos os seus superiores, a postura de indiferença. Com certeza mandavam os dois irem entregar as coisas sem sequer falar o que estava acontecendo, mas isso parecia ser normal, soldados de baixo escalão quase nunca sabiam de nada, apenas cumpriam ordens e pronto.
O projeto caminhou de uma forma bem considerável nos primeiros dois anos, mas depois as coisas ficaram mais complicadas, era preciso algo que eles não tinham, ou pelo menos não tinham ali naquele lugar. E foi preciso pedir ajuda, na verdade foi preciso pedir uma tecnologia mais avançada. O doutor Baumann fez um relatório extenso sobre todos os avanços que tinham conseguido, e do que precisavam e porque precisavam de mais tecnologia para terminar o projeto.
Naquela terça feira o doutor subiu as escadas, exatamente as sete da noite, já estava escuro, provavelmente era inverno. Se nenhum deles esqueceu de riscar o dia no calendário já eram meados de janeiro, e o frio era rigoroso naquele ano, ficar ali parado esperando os soldados chegarem era algo torturante. os fundos do prédio as vezes era maçante e sempre solitário. Eram minutos agoniantes de solidão ali sozinho, pelo menos era assim no inverno. E saber que a pessoas mais próximas estava a muitos quilômetros de distância. Apenas ele era autorizado a pegar a comida, se os soldados encontrassem outra pessoa ali, qualquer um dos outros três cientistas, suas ordens eram de fuzilar a pessoa. E na verdade eles nunca viram os outros três, apenas conheciam o doutor Baumann, tudo era mesmo um mistério para aqueles dois soldados.
Naquela noite de janeiro, que achavam se tratar do dia vinte e três, já faziam quase um mês que eles estavam praticamente parados em termos de avanço nas pesquisas. O natal e o ano novo tinham sido até mais tranquilos, pois tinham tido tempo para preparar o que puderam chamar de ceia, não porque não tinham o que comer, na verdade tinham muita coisa. Mas queriam o que todo mundo queria, apesar do fato de estarem em guerra, queriam estar com sua família.
Uma vez tentaram estabelecer uma linha telefônica para tentarem ligar para suas famílias, mesmo que escondido, até conseguiram, mas o número não era mais aquele. Eles não sabiam mais onde estavam suas famílias, tiveram vontade de construir uma bomba e mandar tudo aquilo pelos ares. Mas voltaram atrás, e trataram de destruir o telefone improvisado que construíram.
Até que enfim os soldados chegaram.
E como sempre foi tudo a mesma coisa, uma freada brusca, a caixa atirada no chão e depois outra e mais outra. Em silêncio eles apenas fizeram mais uma vez o que tinham feito todo aquele tempo. Nem desligavam o jipe, tamanha era a pressa, o único momento que o doutor Baumann tinha para falar alguma coisa era enquanto o soldado subia e descia da parte de trás do jipe. Pois quando ele voltasse para o banco do carona não daria mais tempo de falar, só na próxima semana. Era só o tempo de ele fazer o que precisava que o soldado que dirigia acelerava e saia em disparada. E como Baumann já tinha decorado como tudo acontecia foi até fácil entregar o relatório, quando ele jogou a última caixa no chão e pulou de cima do jipe, era a sua deixa. Apenas esticou o braço e colocou o envelope na sua frente, pois ele iria ter que passar pela frente do doutor para subir no jipe novamente.
- Entregue para o Coronel Krüger. São coisas que ele precisa saber imediatamente.
E se tinha uma coisa que aqueles cientistas sabiam era que sempre que um envelope era entregue para os soldados, na outra terça chegariam mais mantimentos e outro envelope com a resposta. Ou mais caixas com mais equipamentos, nunca chegava um comunicado ou uma carta do coronel Krüger, apenas o que foi pedido. E sempre uma resposta técnica.
E eles sabiam que os soldados deveriam ter ordens expressas de pegar qualquer envelope que fosse entregue pelo doutor, pois nunca se recusaram a receber e parecia que davam muita importância. Todas as vezes que foi entregue um envelope eles tratavam de na mesma hora colocá-lo em uma caixa de ferro, que provavelmente seria entregue diretamente ao coronel.
E assim os soldados foram embora, e na outra semana trouxeram muito mais mantimentos que as outras vezes, parecia que traziam comida para um batalhão inteiro. E dessa vez parece que o coronel ficou feliz, pois mandaram roupas novas, charutos, bebidas. Tudo teve que ser transportado de caminhão, pois tinham equipamentos novos a serem entregues, até desceram da caçamba quatro moças para divertir os cientistas.
- Vocês têm duas horas - disse rispidamente o soldado enquanto as moças desciam do caminhão - vamos esperar aqui.
É claro que as moças desceram até o subsolo, não era certo aquilo que eles fizeram, na verdade eles não queriam. Eram todos casados. Mas o que iria pensar o coronel Krüger se eles recusassem? E se elas dissessem que apenas desceram e os cientistas não fizeram nada? Aquilo soava como uma ordem silenciosa. "Aproveitem as moças, é uma ordem". O coronel Krüger pareceu ser uma pessoa muito rude e sádica, daquelas pessoas que não se pode esperar coisas boas quando ele escuta um "não". Nas poucas vezes que os cientistas o viram, e foram só duas ou três, ficava claro que era uma situação bem particular, o coronel fala e você escuta, depois obedece sem questionar o que ouviu.
E assim eles fizeram o que o coronel quis, se divertiram por duas horas com aquelas moças, talvez ele estivesse os agradecendo pelos avanços consideráveis. Apesar de ser um homem rude o coronel sempre demostrou ter um senso de justiça muito apurado e uma lei bem clara que era: "Faça o que eu mando e você será muito bem recompensado". Os que desobedeceram a suas ordens se arrependeram profundamente, disso todos sabiam, mesmo antes da guerra começar, nos jornais as vezes ele aparecia em alguma notícia. E nunca eram noticias boas, ia de soldados desaparecidos até tropas extintas.
E sempre em letras garrafais, era estampado para todos verem o que acontecia com aquele que desobedecia ao poderoso coronel Krüger. Junto com tudo aquilo que eles puderam chamar de "agrados" concedidos pelo coronel veio um envelope bem grosso, que parecia ter bastante folhas ali dentro, mas naquela hora eles não tinham com ver. Tinham que "cuidar" do assunto mais urgente, as moças.
No fim daquela noite eles abriram o robusto envelope, e se depararam com novas coisas, folhas e mais folhas, projetos ilustrados com todas as instruções que pediram, e o mais inusitado era que tudo estava em japonês e traduzido. Todos aqueles ideogramas e as figuras detalhadas de tudo que precisavam estavam ali. E com sua folha correspondente grampeada e traduzida, era questão de apenas colocar em prática.
Pela primeira vez eles tinham mais de duas mil instruções complexas para cumprir, e aquilo parecia cada vez mais longe de acabar. E assim foram os dois anos depois daquela noite fria de janeiro de 1943, e chegaram aos quatro completados dentro daquele subsolo. Foram quatro anos longos e árduos, de uma pesquisa que parecia não ter fim, ou quando achavam que estava no fim sequer estavam na metade. Até para eles aquilo parecia uma incógnita, cada vez alguma coisa nova era adicionada aquela pesquisa, e a guerra parecia não ter data para acabar.
E assim chegaram ao final de agosto de 1945, ou alguma perto disso, pelo menos em suas contas estavam no máximo no início de setembro. As coisas estavam há meses um pouco mais estranhas, as visitas dos soldados eram adiadas, na verdade eles nem apareciam naquela semana, só na próxima. E as entregas passaram a ser a cada quinze dias, eles não falavam nada sobre isso, apenas uma vez disseram em tom bem impaciente que eram ordens do coronel.
E depois sem mais nem menos voltaram a entregar toda semana, sob o mesmo discurso de antes, apenas as poucas palavras de sempre, resumida em uma frase e nada mais que isso.
- São ordens do coronel.
E era isso e ponto final. As vezes o doutor Baumann sequer perguntava muito, apenas quando iria ser a próxima entrega e nada mais. Ele até achou estranho que os soldados estavam mais tensos do que o de costume, e tudo começou a ficar assim depois de maio de 1945. O doutor Baumann não sabia o porquê, e não tinha uma resposta para aquela pergunta. Na verdade, ele não se importava com aquilo, pois estavam finalmente chegando ao fim do projeto. Eles sabiam que era hora de concluir aquilo, mesmo que eles achassem extremamente repulsivo. Era hora de irem embora, ou pelo menos era o que achavam.
Depois que o doutor Baumann e sua equipe receberam a tecnologia japonesa as coisas andaram de vento em popa, tudo parecia estar mais fácil. O projeto ultrassecreto que estavam desenvolvendo estava tomando forma, e de um jeito que eles mesmo jamais imaginaram. Eram instruções concisas e diretas, a cada dia que se passava as conquistas foram imensas, sem a ajuda japonesa o mesmo projeto iria levar o dobro do tempo.
E os japoneses não implantaram o projeto porque não tinham o conhecimento prévio que a equipe de Baumann tinha, ou seja, sozinhos nenhuma das duas equipes conseguiria realizar tal façanha.
Conforme os novos relatórios eram enviados parecia que alguém lá nos escalões superiores estava gostando da ideia, os mantimentos e coisas variadas que Baumann e sua equipe precisavam estavam ficando mais abundantes. E isso fazia com que os soldados ficassem mais irritados, pois tinham que descarregar mais caixas que o de costume, as coisas estavam ficando mais complexas e de certo ponto mais arriscadas.
A rotina de entrega estava demorando mais, e conforme o verão ia chegando mais tropas aliadas começavam a passar pela cidade. Nos anos anteriores os cientistas escutavam uma ou duas a cada seis meses, mas em agosto de 1945 eram pelo menos uma por semana. O que mais os intrigava era como nunca tiveram a curiosidade de verificar se não tinha ninguém naquele prédio, mas até isso o coronel Krüger, tinha feito da maneira certa. Quem iria verificar um subsolo de um prédio em uma cidade arrasada e sem ninguém já nos primeiros anos da guerra?
Nem quando a cidade era habitava tinha gente, mesmo antes da guerra tudo não passava de um recanto bucólico, onde até o progresso esqueceu de passar. A única coisa que Baumann e sua equipe tinham que cuidar era na hora de fazerem um experimento que envolvesse um pouco mais de barulho. Mas isso não era problema, pois faziam na madrugada, aquela cidade nunca foi ponto de parada de nenhum exército, era mesmo apenas uma rota de passagem.
Até que um dia o projeto ganhou nome, na verdade era o nome que os japoneses tinham dado, e era algo bem complicado, ou extenso de se pronunciar. Sistema Autômato Bélico Universal de Resposta Ofensiva, pelo menos era o que foi traduzido para eles. Uma coisa que ficou na memória de Baumann por muito tempos era a cara que Falkenberg fez quando leu aquilo. Seus olhos se arregalaram e ele ficou mais de trinta segundos tentando entender. Uma coisa que lhes deu trabalho era encontrar uma forma de como iriam fazer dessa nomenclatura uma coisa que pudesse ser explicada para os generais.
Os oficiais dos altos escalões não queriam e não tinham tempo para ouvir o que chamavam de baboseiras de engomadinhos com jalecos, falar difícil não era uma coisa que eles tinham tempo e nem mesmo estômago. O que queriam era demonstrações do projeto funcionando, queiram exemplos práticos e objetivos de como aquilo tudo iria ajuda-los a vencer uma guerra. E assim eles olharam para aquele nome imenso que os japoneses tinham dado ao projeto e não sabiam como iriam chamar aquilo de verdade.
Até mesmo para os circuitos que haviam dentro dele era quase impossível grafar uma etiqueta e colar na lateral, precisam de uma abreviação, alguma coisa que fosse mesmo o seu nome. Alguma forma de batizar aquilo que estava diante os seus olhos. Então os quatro se sentaram lado a lado e ficaram admirando o projeto, ali na sua frente estava personificado o que eles levaram quatro anos de trabalho árduo. Foram anos de reclusão e privações para que aquilo estivesse ali na frente deles.
- Será mesmo que isso vai funcionar? - pergunta o incrédulo Vogt para os outros.
- Só mesmo se a tradução estiver errada - responde Baumann sem tirar os olhos de sua obra-prima.
Mas no fundo eles achavam que alguém em algum lugar tinha feito as coisas certas, seria muita estupidez darem a tradução de algo tão complexo para alguém tão despreparado a ponto de traduzir errado as instruções. Pelo menos era o que eles pensavam. Até que o brilhante doutor Friederich Altman fala alto e com o dedo levantado acima da cabeça.
- Acrônimo! Vamos usar um acrônimo!
Todos os outros olham para ele com cara de estranheza, Baumann até chega a pensar que ele passou muito tempo preso ali embaixo, mas logo descartou a possiblidade. Pois é claro que não era pelo fato de ele ser o único com permissão de ir pegar as caixas que os outros não viram a luz do dia. Sempre que dava, ou sempre que eles achavam que era oportuno, um de cada vez ia até o topo do prédio para tomar um banho de sol, é claro que precisavam ficar escondidos, mas era uma boa alternativa. De lá de cima podiam ver se alguma tropa estava chegando, aquele era o único prédio em quilômetros, apesar de não ser muito alto, tinha apenas cinco andares, mas podiam ver além das montanhas.
E se alguma coisa se aproximasse bastava se esconder em uma caixa de madeira com fundo falso que eles fizeram, e sempre deu certo, durante todos aqueles anos as tropas passaram por ali sem sequer desconfiaram. E eles eram tão cautelosos que apenas uma vez, quando foi a vez de Falkenberg ele avistou canhões vindo ao longe, há muitos quilômetros de distância, apenas desceu as escadas rapidamente e ainda deu tempo de se esconderem e ainda esperar muito tempo até aquelas montanhas de aço cruzarem a frente do prédio.
Então definitivamente Altman não estava sofrendo de nada relacionado a estar preso, na verdade ele estava muito certo do que estava falando.
- Claro! - responde Falkenberg - um acrônimo, que nada mais é que uma sigla para o projeto.
E então escreveram no quadro do laboratório a imensa frase que os japoneses deram como título do projeto. Sistema Autômato Bélico Universal de Resposta Ofensiva. E juntaram as primeiras letras desse imenso nome.
- Saburo! - responde Baumann com um sorriso no rosto.
- Até que não soa tão mal assim - diz Altman com a mão apoiada no queixo.
Então eles fizeram uma placa e colaram na lateral da caixa onde iriam embalar tudo e levar para os generais verem, e assim nasceu o nome do maior projeto que a humanidade pôde conceber, ali na frente daqueles quatro cientistas. Os responsáveis por construir e agora testar o projeto Saburo, e então decidiram que assim iriam chama-lo, esse seria acima de tudo o seu nome.
Ele atenderia por Saburo quando alguém perguntasse a ele qual o seu nome.
- Senhores, vamos colocar a camada dérmica, e fazer os testes - convida Baumann demostrando empolgação.
E assim eles retiraram os cabos de energia que o prendiam as estruturas mecânicas e o colocaram amarrado na cama vertical.
- Mas e se algo der errado e ele não fizer o que queremos? - pergunta Falkenberg.
- Vamos usar o código secreto - responde Baumann.
E eles tinham um código secreto, uma frase que era dita e Saburo desligava automaticamente, era algo que apenas os quatro sabiam, foi o único jeito de poderem liga-lo sem colocar suas vidas em risco. Então colocaram a camada dérmica, e assim Saburo tinha uma pele, igual à dos seres humanos.
Então os quatro se colocam em suas mesas, diante os monitores, cada um sabe que tem uma tarefa distinta em relação aos outros, medir frequências, analisar os reflexos e monitorar voltagens, entre outras coisas era o que cada um deveria fazer. E quando ligaram a chave no compartimento interno, não funcionou. Nada correu como o planejado.
Naquela noite todos eles se sentiram profundamente arrasados, era como um balde de água fria, o que parecia ser algo promissor se transformou em nada. Nada vezes nada é o que tinham a sua frente, tinham apenas um monte de aço e circuitos que nem sequer acendia uma lâmpada. Não tinham nem coragem de se olhar no espelho, mas o principal medo de todos era o que iriam fazer daquele momento em diante, a principal arma que estavam incumbidos de construir não funcionava. Nada mais do que a pior coisa que pode acontecer a um cientista estava acontecendo ali, na frente de todos, o famoso e temido: "Nada funciona".
- Senhores, não vamos desistir. Não chegamos tão perto assim para agora sucumbir a um problema tão pequeno - diz Baumann.
- Baumann, não seja tolo. Essa porcaria não funciona! - esbraveja Vogt.
Mas Baumann sabia que poderia e tinha que funcionar, não tinha outra alternativa. Tinha de haver um jeito, pelo menos era a única coisa que passava em sua cabeça, e ali parado na frente daquilo tudo, ele apenas o encara com os braços cruzados. Todos os companheiros de Baumann apenas ficaram calados, estavam esperando que ele se desse conta que tudo estava perdido.
- Baumann, com todo o respeito, desista. Isso tudo era mesmo muito bom para ser verdade.
- Não posso Falkenberg. Preciso termina-lo, foi com isso que em comprometi todo esse tempo e não vou desistir - responde o chefe da pesquisa ainda se recusando a tirar os olhos de Saburo.
Escutar aquilo soou como um banho de água fria para Falkenberg, pois para ele tudo estava acabado, aquele projeto tinha ido por água abaixo. Parecia ser um consenso para eles que a única coisa que tinham a fazer era aceitar a morte ou a prisão por desacato ou qualquer que fosse o veredito que os generais iriam fazer. Cabisbaixos eles tentam se recompor apenas movidos por um sentimento de coleguismo a Baumann, por um lado eles admiravam o fato de o chefe da pesquisa não desistir nunca.
Eles respiram fundo e olham para suas pranchetas tentando encontrar onde erraram ou onde está o problema, mas sabiam que abandonar Baumann não seria a coisa certa a se fazer. Por mais que eles odiassem a ideia todos estavam presos ali e de uma forma ou de outra iriam sair de dentro daquele laboratório da mesma forma, ou dentro de caixões ou com o dever cumprido. Mesmo que isso custasse o último pingo de sanidade de cada um deles.