Eugênia e sua mãe moram em uma casa humilde, acamada e impedida de trabalhar por um grave câncer Nádia sofre por ver a dura rotina de sua filha para manter a casa, apesar de jovem, trabalha vendendo doces caseiros pela cidade. Desde cedo a bela moça precisou ajudar a mãe nas tarefas de casa e abandonou o sonho de seguir seus estudos e cursar uma faculdade. Apesar de árabe sua mãe nunca havia imposto tão severamente as tradições justamente por estar criando sua filha longe de seu país.
Nádia educou como pode a moça adorava a dança os enfeites e tudo que tinha relação com o país de origem de sua mãe rezava o Alcorão, o pai da moça trouxe Nádia de Fez quando sua família se opôs ao casamento dos dois por ele não ser da mesma religião. O pai de Eugênia morrera pouco depois de seu nascimento em um acidente de trânsito e ela ocupava esta lembrança com as poucas fotos que tinha dele.
- Mamãe como está se sentindo hoje?
- Bom dia minha filha, me sinto a cada dia mais fraca. E só de imaginar que posso deixá-la sozinha... - Os olhos tomados por olheiras profundas de Nádia se enchem de lágrimas.
Eugênia pega a mão de sua mãe e a beija: - Não pense em mim mamãe a senhora precisa ser forte e assim vai conseguir melhorar, por Alá!. Já passamos por tantas dificuldades mas sempre juntas.
- Filha, quero que pegue aquela caixa que está sobre o guarda-roupas e traga para mim...por favor.
Eugênia coloca uma cadeira próxima ao guarda-roupas e sobe para pegar a caixa que sua mãe havia pedido e leva até ela.
- Abra e pegue um caderno de anotações, nele você encontrará o número do telefone de meu irmão, seu tio Jonas.
- A senhora quase nunca fala dele! - Disse Eugênia que estranhou a atitude da mãe, pois ela quase nunca se referia a sua família em Fez.
- Quero que fique com este número e quando...quando eu não estiver mais aqui...!
Neste momento Eugênia sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, só de pensar que poderia ficar sem sua mãe. Não queria pensar, não queria imaginar algo assim. Mas por dentro, sentia que a doença de sua mãe chegara a um ponto crítico e que os remédios já não aliavam as dores. Porém não cogitava procurar aquela família que praticamente expulsou sua mãe por causa de um amor que eles não aprovaram.
- Não se preocupe comigo, fique bem. Eu guardarei este caderno e a Lúcia virá ficar com a senhora enquanto eu trabalho. - Deu um beijo na testa de sua mãe e disse eu te amo.
Seguiu para o centro da cidade carregando os doces que vendia, passou todo o dia vendendo em diferentes pontos. Se sentia invadida pelos olhares dos homens em sua direção, ela era muito bonita isso atraia e as vezes alguns até saiam um pouco dos limites. Mas não podia deixar de sair para vender era a única renda que tinham naquele momento junto da pouca aposentadoria que o pai havia deixado e que mal dava para o aluguel. Quando o pôr do sol já apontava no céu, pegou o ônibus para voltar para casa chegando na esquina, avistou uma ambulância na porta de sua casa. Suas mãos esfriaram e seu coração disparou.
- O que aconteceu? E minha mãe? - Disse Eugênia aflita. Algo em seu coração já dizia
Lúcia se aproximou e disse: - Infelizmente sua mãe passou mal e não deu tempo de pedir ajuda, quando os médicos chegaram, ela já estava morta.
Ajoelhada Eugênia chorava a perda de sua mãe a única pessoa que tinha na vida, enquanto a vizinha Lúcia tentava confortá-la.
Eugênia vai até seu quarto e busca o caderno que sua mãe lhe pediu que guardasse. Mostra à Lúcia a anotação que continha o número de telefone de seu tio. – O que eu faço? Eu acho que devo avisar ao meu tio sobre a morte de minha mãe.
-Sim minha filha, ligue para ele e avise. Independente das mágoas do passado ele é sua única família agora.
A jovem decide entrar em contato com seu tio Jonas, mesmo sentindo um certo receio pelo seu passado. Pelo que Lúcia relatou seu tio parecia ter uma natureza dominadora, mas seu dever como família era deixa-lo informado sobre o que havia acontecido. Nádia apesar de estar longe de seu país ensinou a língua e os costumes à Eugênia...do outro lado da linha telefônica uma criada atende e chama Jonas.
Eugênia com a voz trêmula relata a ele tudo o que havia acontecido, o coração do homem aperta no peito ao saber que sua irmã mesmo afastada da família, havia falecido.
- Nádia...que Alá a tenha. Iremos organizar sua vinda, mandarei dinheiro para sua passagem e meu advogado cuidará de sua viagem. Não se preocupe filha cuidarei de você e te darei um destino. - Disse Jonas em meio a lágrimas, mas de maneira firme.
Ao ouvir estas palavras Eugênia sentiu um frio na barriga, como se algo à avisasse que tudo mudaria em seu destino de agora em diante.
Passam uns dias, e seu tio Jonas como prometido solicitou uma permissão com seu advogado do México para que a jovem embarcasse para o Iraque, fez suas malas com um aperto no peito por deixar sua morada de toda uma vida. Despedindo-se de Lúcia com um forte abraço a moça entra no carro com o advogado e ao chegar no aeroporto, se dirigem até o embarque. Agradecendo o advogado a jovem entra sozinha no avião, sentindo um misto de sentimentos...tristeza por perder sua mãe e sair de seu país de nascimento e ao mesmo tempo medo profundo de tudo o que encontraria pela frente. Sentou-se próximo a janela e suspirou fundo, um jovem alto e de aparência robusta e atraente confere o número de seu assento e se senta ao lado de Eugênia.
- Bom dia, você parece meio tensa. É seu primeiro voo? – pergunta o belo rapaz portando um sorriso encantador.
- Bom dia, sim. Estou um pouco ansiosa. - Disse Eugênia passando suavemente as mãos pelos cabelos negros.
- Uma jovem tão bela assim não deve ficar tão tensa, me chamo Bruno. – Disse sorrindo e estendendo a mão direita. Não podia deixar de apreciar aquele perfume doce, que vinha dos cabelos volumosos daquela garota.
- Muito prazer Bruno, me chamo Eugênia. – Disse apertando a mão do rapaz.
- Vai passar umas férias no Iraque? – Disse ele conferindo de maneira sutil a beleza da jovem e percorrendo seus olhos por todo o corpo da moça até parar em seus belos e convidativos lábios.
- Eu perdi minha mãe a uns dias atrás e estou indo morar com meu tio na cidade de Fez. – Disse a moça com os olhos marejados.
- Por favor me perdoe por esta pergunta. Não queria que você ficasse triste. – Passou suavemente as mãos no belo rosto de Eugênia, limpando uma de suas lágrimas.
Enquanto a viagem seguia o jovem rapaz relatou que estava voltando para casa, havia feito uma viajem de negócios no México. Pois trabalhava na empresa de seu irmão mais velho, seguiram conversando sobre suas expectativas e enquanto descobriam afinidades nascia ali um grande sentimento. Uma conexão que Eugênia jamais havia sentido, talvez aquilo fosse amor...ou não! O fato é que estar ao lado dele e compartilhar aquela viajem trazia o alento que seu coração precisava naquele momento.
Após horas de voo, Bruno com muita delicadeza desperta Eugênia, que percebe que havia dormido sobre um dos ombros fortes do rapaz.
- Já chegamos bela adormecida!- Disse ele tocando suavemente seu rosto.
A moça e o rapaz desembarcam e Bruno pega uma das mãos da menina e diz:
- Nos veremos novamente. Você disse que seu tio se chama Jonas e assim como eu mora em Fez. Eu irei procura-la...posso?
- Sim. Claro que pode.
- Vou te dar meu cartão, por favor não deixe de me ligar Eugênia.
Chegando em sua residência...
Bruno vai até a sala e encontra seu irmão mais velho Tony tomando um vinho. – Como está meu irmão? Diz Bruno dando-lhe um abraço fraterno.
Os dois eram filhos de um humilde comerciante, porém com o trabalho e inteligência do irmão mais velho o negócio havia prosperado de maneira incrível durante os últimos anos e Tony havia formado sua fortuna pessoal às custas de muita dedicação. Bruno também tinha uma boa situação, mas nem se comparava com as cifras da conta bancária e as propriedades que tinha o outro.
- Estou bem, e hoje temos um jantar de negócios para ir. - Disse Tony sorrindo e tomando sua taça de vinho. Era um homem atraente, tanto ou mais que Bruno tinha um ar formal e costumava ser duro com seus funcionários, não chegava a ser rude mas era exigente.
- Ah, você sabe como estes jantares de negócios me estressam. - Resmungou Bruno.
- Mas este não podemos perder. É na casa daquele sid Jonas e você sabe que ele tem boas relações com os maiores comerciantes e ele é um dos maiores de Fez. - Disse o irmão mais velho.
- Você disse Jonas?
- Sim esse mesmo, por que? - Questiona Tony
Bruno sentiu uma mistura de ansiedade e desejo de rever aquela moça linda de olhos de olhos verdes, que com um simples beijo o marcou tão profundamente. Viu que aquela era sua oportunidade de se aproximar e conhecer mais sobre ela e sua família, tudo sobre ela o interessava.
O jantar era às 20:00 as jovens se arrumavam ansiosas, não pela reunião profissional já que a religião não as permitia participar destes assuntos. Mas sim, pela possibilidade de ver e conhecer novas pessoas já que seu tio quase nunca as deixava passear pela Medina. Os convidados começaram a chegar e tio Jonas como bom anfitrião os recepcionava e os levava para a sala de estar.
- Boa noite sid Jonas. – Disse respeitosamente Tony, dando-lhe dois beijos no rosto como mandam os costumes.
Bruno cumprimentou o anfitrião da mesma forma respeitosa e seguiram até a sala. Sentando-se no luxuoso sofá. Jonas faz um sinal para a criada disfarçadamente e pede que chame as suas sobrinhas para o recinto, ela segue até o quarto das jovens e passa o recado de seu tio.
Eugênia vestia um belo vestido na cor vinho, que iluminava seus olhos verdes e marcava de maneira elegante suas curvas. Sobre seus cabelos volumosos um véu na mesma cor do vestido e bordado com belos detalhes dourados, os olhos ainda mais destacados com um forte delineado preto. Mara usava um vestido azul com bordados prateados e um véu na mesma cor, desceram as escadas e foram até a sala de estar. Passeando os olhos por aquele recinto, logo seu coração dispara as mãos esfriam ao ver que seu amado Bruno estava lá.
- Estas são minhas sobrinhas, luz dos meus olhos. Eugênia e Mara. – Sorriu Jonas se referindo as duas jovens. - Ele sabia que os costumes não permitiriam que as jovens sentassem à mesa junto aos homens, mas queria apenas que elas fossem vistas e assim pudesse conseguir um bom matrimônio para uma delas. Ou quem sabe as duas, já que a religião permite até quatro esposas para cada homem.
Os presentes na sala se levantaram em reverência as moças. Os olhos de Bruno e Eugênia se encontram fazendo com que ambos vibrem por dentro a moça sorri. Tony ao contemplar aquela moça de olhos verdes fica extasiado com tamanha beleza, tanto que por um instante se esqueceu de onde estava e se perdeu olhando-a dos pés à cabeça. Aquele sorriso era perfeito, tudo nela era perfeito.
Mara percebe os olhares e sorrisos de Eugênia e Bruno e teme que alguém também possa notar.
-O jantar está servido. – Diz uma das criadas a todos.
Seguem até a sala de jantar e durante todo o tempo discutem sobre propostas de mercado e exportação. Tony parecia meio disperso, não conseguia esquecer aquela visão encantadora que teve a instantes atrás. Bruno buscava com o olhar encontrar sua bela nos cantos daquela sala de jantar, mas sabia que ali não a veria outra vez.
As jovens fazem sua refeição de maneira separada.