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Sangue e Trevas: a paixão proibida da vampira herdeira

Sangue e Trevas: a paixão proibida da vampira herdeira

Autor: Victoriasouza
Gênero: Romance
Em meio às florestas sombrias e castelos decadentes de Noctravis, a princesa vampira Leonore governa como uma promessa de poder e ruína. Sedutora, cruel e irresistivelmente perigosa, ela cresceu cercada por sangue, jogos políticos e pela certeza de que ninguém ousaria desafiá-la. Até Lucien surgir. Enviado pelo reino inimigo para assassiná-la e tomar o trono vampírico, o cavaleiro carrega a reputação de ser tão frio quanto mortal. Silencioso, brutal e absolutamente leal à própria missão, Lucien deveria enxergar Leonore apenas como mais uma inimiga a ser eliminada. Mas o ódio rapidamente se transforma em algo muito pior. Enquanto a guerra entre os reinos se aproxima e a corte vampira ameaça ruir sob traições e ambições violentas, Leonore e Lucien se veem presos em uma relação marcada por ameaças sussurradas, desejo reprimido e uma obsessão capaz de destruir tudo ao redor. Porque em um mundo alimentado por sangue, amar o inimigo pode ser mais mortal do que qualquer espada.
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Capítulo 1 O cavaleiro da Lua Negra

A Lua Rubra observava Noctravis do alto do céu como um olho aberto.

Gigantesca. Vermelha. Silenciosa.

Seu brilho sangrento cobria as torres do castelo vampírico e mergulhava a floresta ao redor em uma penumbra sufocante. As árvores negras pareciam cadáveres retorcidos emergindo da névoa, imóveis sob o frio cortante da madrugada.

Noctravis nunca dormia completamente.

Mesmo à distância, Lucien conseguia ouvir. Música. Taças. Risos baixos. Correntes.

O reino vampírico respirava luxo e decadência como uma criatura viva.

Do alto da colina, ele observava as muralhas escuras enquanto o vento atravessava sua capa negra. A armadura refletia fragmentos vermelhos da lua, tingindo o metal de sangue.

Atrás dele, dezenas de soldados aguardavam em silêncio absoluto.

Ninguém ousava falar.

Lucien inspirava o tipo de medo que fazia homens evitarem contato visual.

Frio. Imóvel. Predatório.

O cavaleiro da Lua Negra.

Seu nome atravessava reinos como uma maldição.

Diziam que jamais hesitava. Jamais falhava. Jamais poupava.

E naquela noite, sua missão era simples.

Matar Leonore.

A herdeira de Noctravis.

A princesa vampira que mantinha os reinos inimigos presos em décadas de guerra silenciosa.

Lucien observou uma das torres mais altas do castelo.

Uma janela permanecia aberta.

Cortinas negras ondulavam ao vento.

Luz dourada escapava do quarto como um convite.

Ou uma armadilha.

- Ainda podemos atacar agora. - murmurou um dos guerreiros atrás dele. - A guarda está distraída.

Lucien não desviou os olhos do castelo.

- Não.

Sua voz baixa foi suficiente para silenciar todos novamente.

Ele desmontou do cavalo sem pressa.

As botas afundaram na terra úmida da floresta.

- Esperem meu sinal.

Nenhum deles questionou.

Lucien puxou o capuz escuro sobre os cabelos negros e começou a caminhar sozinho entre as árvores.

A floresta de Noctravis parecia viva.

Galhos secos se contorciam sob o vento. Raízes emergiam da terra como dedos. A névoa rastejava pelo chão até seus joelhos.

O cheiro de sangue impregnava o ar.

Não sangue fresco.

Velho.

Antigo.

Como se aquelas terras tivessem absorvido séculos de violência.

Lucien atravessou a mata em silêncio absoluto.

Sua mente permanecia fixa na missão.

Entrar. Encontrar Leonore. Matar. Partir.

Simples.

Então por que aquela sensação incômoda permanecia dentro dele desde que cruzara as fronteiras de Noctravis?

Ele ignorou o pensamento imediatamente.

Fraqueza.

Apenas isso.

Quando as muralhas finalmente surgiram entre a névoa, enormes e negras como um mausoléu colossal, Lucien ergueu os olhos lentamente.

O castelo era monstruoso.

Torres pontiagudas cortavam o céu vermelho enquanto vitrais escuros refletiam a luz da Lua Rubra. Estátuas antigas observavam os arredores com expressões severas, e símbolos vampíricos cobriam as pedras envelhecidas.

Aquilo não parecia um lar.

Parecia um túmulo construído para reis.

Lucien escalou a muralha sem dificuldade.

Os dedos encontravam pequenas fissuras na pedra enquanto ele avançava como uma sombra viva. O vento balançava sua capa, mas nenhum guarda percebeu sua presença.

Eram fracos.

Distraídos.

Confiantes demais.

Ele ultrapassou o topo da muralha e caiu silenciosamente no interior do castelo.

O cheiro o atingiu imediatamente.

Perfume caro. Velas queimando. Vinho. Sangue humano.

Os corredores de Noctravis eram absurdamente luxuosos.

Tapetes vermelhos percorriam o chão de mármore escuro enquanto lustres dourados iluminavam pinturas gigantescas de antigos monarcas vampiros. Nobres retratados em óleo observavam cada visitante com olhos arrogantes e vazios.

Lucien caminhou pelos corredores sem pressa.

Nenhum servo percebeu a figura escura atravessando as sombras.

Música ecoava ao longe.

Havia algum tipo de celebração acontecendo nos andares inferiores.

Isso facilitava as coisas.

Ele subiu a escadaria principal lentamente.

Um guarda surgiu no corredor.

Lucien o matou antes que pudesse reagir.

Rápido.

Silencioso.

A mão cobriu a boca do homem enquanto a lâmina atravessava sua garganta. Sangue quente escorreu sobre os dedos do cavaleiro antes do corpo cair pesadamente contra a parede.

Lucien limpou a espada sem emoção.

Continuou andando.

No final do corredor mais alto do castelo, enormes portas negras permaneciam fechadas.

Os aposentos reais.

A presença dela estava ali.

Forte.

Hipnótica.

Estranhamente intensa.

Lucien aproximou-se devagar.

Pela primeira vez naquela noite, algo dentro dele pareceu hesitar.

Não medo.

Algo pior.

Curiosidade.

Ele empurrou as portas.

O quarto era imenso.

Velas iluminavam o ambiente em tons dourados e vermelhos enquanto longas cortinas negras dançavam diante das janelas abertas. O vento frio carregava o cheiro da chuva distante e fazia as chamas vacilarem suavemente.

Taças de cristal repousavam sobre uma mesa dourada. Joias espalhavam-se entre livros antigos. Um vestido vermelho estava abandonado próximo da cama.

E sentada diante da enorme janela arqueada...

estava Leonore.

Ela parecia saída de uma pintura proibida.

Os cabelos negros caíam em ondas desordenadas pelas costas pálidas. O vestido escuro moldava seu corpo como sombra líquida, deixando os ombros descobertos sob o brilho avermelhado da lua.

Uma taça cheia de sangue repousava entre seus dedos delicados.

Os olhos vermelhos ergueram-se lentamente até encontrarem os dele.

Nenhum medo.

Nenhum choque.

Apenas interesse.

- Então é verdade. - disse ela suavemente. - O reino rival realmente enviou seu monstro mais bonito.

Lucien fechou as portas atrás de si.

O som ecoou pelo quarto.

Leonore sorriu devagar.

Um sorriso perigoso.

- Eu esperava alguém mais velho. - comentou ela. - Ou mais decepcionante.

Silêncio.

Lucien permaneceu imóvel.

Os olhos dela deslizaram lentamente pela armadura negra, pela espada em sua cintura, pelas manchas de sangue recente em suas luvas.

Ela percebeu imediatamente.

- Já começou a matar meus guardas? - perguntou, quase divertida. - Que falta de educação.

Lucien finalmente falou:

- Leonore.

O modo como ele pronunciou seu nome fez algo estranho atravessar o olhar dela.

Curiosidade.

Ela levantou-se devagar.

Elegante. Lenta. Predatória.

Cada movimento parecia cuidadosamente calculado.

Leonore aproximou-se sem qualquer receio, os saltos ecoando suavemente pelo mármore escuro.

Lucien não desviou os olhos.

Ela parou diante dele.

Perto demais.

O perfume era doce e viciante, misturado ao cheiro metálico de sangue fresco.

- Então... - murmurou ela. - Você veio me matar.

Não era uma pergunta.

Lucien pousou a mão sobre o cabo da espada.

- Sim.

Leonore inclinou levemente a cabeça.

Como se estivesse decepcionada com a simplicidade da resposta.

- Esperava algo mais dramático.

Ela ergueu a taça lentamente e bebeu um pequeno gole de sangue sem desviar os olhos dele.

Provocação.

Tudo nela parecia provocação.

- Dizem que você nunca hesita. - comentou. - Nunca falha. Nunca sente.

Lucien permaneceu imóvel.

Ela sorriu novamente.

- Isso é verdade?

Silêncio.

Leonore aproximou-se mais um passo.

Agora estavam tão próximos que Lucien conseguia sentir o frio da pele dela.

- Ou será que existe alguma coisa viva por trás desses olhos?

A princesa ergueu lentamente a mão pálida... e tocou a armadura dele.

Lucien segurou seu pulso imediatamente.

Rápido.

Forte.

Os dedos apertaram a pele delicada com violência suficiente para fazê-la perder o sorriso por um breve segundo.

Só um segundo.

Então ela sorriu outra vez.

Mais lentamente.

Mais perigosamente.

- Interessante... - sussurrou Leonore. - Você é o primeiro homem em anos que não tenta me agradar.

O aperto dele aumentou.

- Não brinque comigo.

Ela aproximou o rosto do dele até que seus lábios quase se tocassem.

Lucien sentiu o cheiro de sangue em sua respiração.

- E o que vai fazer? - perguntou ela em voz baixa. - Me matar agora?

O vento atravessou violentamente o quarto.

As velas vacilaram.

A Lua Rubra iluminou os dois em tons carmesim.

E pela primeira vez em muitos anos...

Lucien hesitou.

Capítulo 2 A Princesa de Noctravis

O silêncio entre eles durou apenas alguns segundos.

Mas pareceu muito mais.

Leonore permaneceu imóvel diante de Lucien, sentindo os dedos frios apertarem seu pulso enquanto a Lua Rubra tingia o quarto em vermelho escuro. O cavaleiro não desviava os olhos. Não vacilava. Não demonstrava desejo, medo ou fascínio.

Aquilo a irritava.

E a intrigava.

Todos os homens olhavam para ela da mesma forma.

Desejo. Admiração. Submissão.

Lucien não.

Ele a encarava como uma ameaça.

Talvez até como algo pior.

A princesa inclinou levemente a cabeça, observando-o de perto. As sombras destacavam os traços rígidos do rosto masculino, a mandíbula marcada, os olhos escuros e frios demais para alguém tão jovem.

Bonito.

Perigosamente bonito.

E completamente diferente dos nobres decadentes de Noctravis.

- Você hesitou. - murmurou ela.

Lucien soltou o pulso dela imediatamente, como se o toque o incomodasse.

- Não imagine coisas.

Leonore sorriu lentamente enquanto massageava a pele marcada pelos dedos dele.

- Tem razão. Talvez eu só esteja decepcionada. Esperava um assassino mais emocionante.

O cavaleiro puxou a espada parcialmente da bainha.

O som metálico atravessou o quarto.

Leonore observou a lâmina reluzir sob a luz vermelha da lua.

Linda.

Ela adorava armas.

Principalmente quando apontadas para si.

- Agora estamos conversando. - sussurrou.

Lucien aproximou-se devagar.

Cada passo parecia calculado.

- Seu reino acabou, Leonore.

A voz dele era baixa. Fria. Sem emoção.

- Quando o amanhecer chegar, Noctravis cairá.

Ela arqueou uma sobrancelha.

- E você acredita mesmo nisso?

- Sim.

- Que fofo.

Os olhos dele escureceram perigosamente.

Leonore quase riu.

Aquilo era novo.

Conseguir irritá-lo era absurdamente divertido.

Ela afastou-se lentamente, caminhando pelo quarto enquanto segurava a taça de sangue entre os dedos delicados. O vestido negro arrastava-se pelo chão de mármore como fumaça viva.

Lucien acompanhou cada movimento.

Atento.

Sempre atento.

Predador reconhecendo predador.

- Você sabe qual é o problema dos homens que tentam conquistar Noctravis? - perguntou ela.

Silêncio.

Ela parou diante da enorme janela arqueada.

A vista do castelo dominava completamente o reino abaixo. Ruas iluminadas por lanternas vermelhas, pontes de pedra negra e torres góticas desapareciam entre névoa e fumaça.

Belíssimo.

Morto.

- Todos acreditam que força é suficiente. - continuou Leonore. - Espadas. Exércitos. Guerra... como se isso significasse alguma coisa.

Ela virou o rosto lentamente para ele.

- Mas este reino não sobreviveu por séculos apenas pela violência.

Lucien cruzou os braços.

- Sobreviveu porque humanos se ajoelham diante de monstros.

O sorriso dela aumentou.

- E ainda assim vocês continuam perdendo para nós.

Por um breve instante, o quarto mergulhou em silêncio novamente.

A tensão parecia respirar entre os dois.

Densa. Pesada. Estranha.

Leonore bebeu mais um gole da taça antes de caminhar até uma pequena mesa próxima da lareira. Frutas escuras, vinho e sangue fresco repousavam sobre bandejas douradas decoradas com rosas negras.

Ela apoiou a taça lentamente.

- Então... - murmurou. - O famoso Lucien finalmente entrou no meu quarto.

Ele estreitou os olhos.

- Como sabe meu nome?

Ela riu baixo.

- Você realmente acha que eu não saberia quem atravessou minhas fronteiras?

Leonore aproximou-se outra vez.

Mais devagar dessa vez.

Quase curiosa.

- Cavaleiro da Lua Negra. Executor do reino de Varkareth. O homem que matou três lordes vampiros em uma única noite durante a guerra do norte.

Ela observou o rosto dele cuidadosamente.

Nenhuma reação.

- Também ouvi dizer que arrancou o coração de um traidor com as próprias mãos.

- Ouve fofocas demais.

- E você fala pouco demais.

Ela parou diante dele novamente.

Perto.

Muito perto.

- Isso é charme ou problema emocional?

Lucien segurou o braço dela antes que Leonore pudesse tocá-lo novamente.

Dessa vez, com mais força.

A princesa sentiu as costas baterem contra a parede de pedra escura.

O impacto arrancou dela uma respiração curta.

Interessante.

Os olhos vermelhos encontraram os dele imediatamente.

Nenhum dos dois desviou.

- Você gosta de brincar com homens perigosos? - perguntou Lucien.

A voz grave atravessou o corpo dela como veneno lento.

Leonore sorriu.

- Só quando eles merecem.

O aperto dele aumentou.

Ela deveria sentir medo.

Qualquer pessoa sentiria.

Lucien era maior, mais forte, e existia algo profundamente violento escondido sob aquele controle quase desumano.

Mas Leonore apenas inclinou o rosto levemente para cima.

Provocando.

- Vai me matar assim? - perguntou em voz baixa. - Contra a parede?

O maxilar dele tensionou.

Finalmente.

Alguma reação.

A princesa percebeu imediatamente.

E aquilo a deixou perigosamente satisfeita.

- Você fala demais. - murmurou Lucien.

- E você pensa demais.

Silêncio.

Os olhos dele desceram involuntariamente até os lábios vermelhos dela por um breve segundo.

Leonore percebeu.

Claro que percebeu.

O sorriso surgiu devagar.

Vitória pequena. Mas suficiente.

- Ah... então você sente alguma coisa.

Lucien afastou-se imediatamente.

Como se tivesse cometido um erro.

Leonore observou enquanto ele dava alguns passos para trás, recuperando a postura fria e rígida.

Aquilo quase a fez rir.

- Não me olhe desse jeito. - disse ele.

- Qual jeito?

- Como se já tivesse vencido.

Ela cruzou os braços lentamente.

- Talvez eu tenha.

Antes que Lucien pudesse responder, batidas fortes ecoaram na porta do quarto.

Os dois ficaram imóveis.

- Alteza? - a voz masculina surgiu do outro lado. - Está tudo bem?

Leonore não desviou os olhos de Lucien.

Interessante.

Ele não parecia preocupado.

Nem minimamente nervoso.

Como se pudesse matar todos do castelo sozinho, caso fosse necessário.

A princesa aproximou-se lentamente da porta.

- Entre.

As portas se abriram imediatamente.

Dois guardas vampiros surgiram armados, seguidos por um homem alto usando roupas aristocráticas vermelhas. O conselheiro real.

Valen.

Os olhos dele percorreram o quarto rapidamente.

Pararam em Lucien.

Depois na espada.

Depois na marca avermelhada ainda visível no braço de Leonore.

O rosto do conselheiro empalideceu.

- O que significa isso?

Lucien permaneceu imóvel.

Leonore, porém, sorriu calmamente.

- Relaxem. Nosso convidado ainda não decidiu me matar.

Os guardas imediatamente desembainharam as espadas.

O ar mudou.

Violência instantânea.

Lucien sequer olhou para eles.

Aquilo irritou os soldados imediatamente.

- Afastem-se da princesa! - um deles rosnou.

Leonore observou o cavaleiro atentamente.

Ainda calmo.

Ainda frio.

Como uma criatura esperando o momento exato para atacar.

Valen aproximou-se da princesa rapidamente.

- Alteza, precisamos-

- Silêncio.

A voz dela cortou o ambiente como lâmina.

Todos pararam imediatamente.

Leonore manteve os olhos presos em Lucien.

- Ninguém toca nele.

Os guardas trocaram olhares confusos.

Valen pareceu horrorizado.

- Alteza... este homem invadiu o castelo.

- Eu percebi.

- Ele matou nossos soldados.

Ela sorriu levemente.

- E mesmo assim ainda está vivo. Isso deveria preocupar vocês.

Lucien observava tudo em silêncio absoluto.

A princesa caminhou lentamente até ele outra vez.

O quarto inteiro parecia prender a respiração.

- Diga-me uma coisa, cavaleiro... - murmurou ela. - Você realmente acredita que consegue sair vivo de Noctravis?

Os olhos dele encontraram os dela sem hesitação.

- Sim.

Leonore sorriu.

Dessa vez, genuinamente.

Porque pela primeira vez em muito tempo...

ela finalmente havia encontrado alguém interessante.

Capítulo 3 O Banquete Carmesim

O grande salão de Noctravis parecia uma catedral construída para pecados.

Colunas negras erguiam-se até o teto abobadado enquanto lustres dourados lançavam luz avermelhada sobre dezenas de vampiros aristocráticos espalhados pelo ambiente. Taças de cristal refletiam a Lua Rubra através dos vitrais gigantes, e a música lenta dos violinos preenchia o ar como um sussurro hipnótico.

Humanos circulavam entre os nobres em silêncio absoluto.

Alguns serviam vinho.

Outros sangue.

Nenhum deles ousava erguer os olhos.

Lucien observava tudo do alto da escadaria principal enquanto dois guardas permaneciam atrás dele com as espadas desembainhadas.

Prisioneiro.

Tecnicamente.

Embora estivesse claro que metade do salão preferiria vê-lo morto imediatamente.

Os olhares o acompanhavam por todos os lados.

Desconfiança. Ódio. Curiosidade.

O cavaleiro ignorou todos.

Seu foco permaneceu fixo apenas em uma pessoa.

Leonore.

A princesa estava sentada no trono elevado ao fundo do salão, cercada por conselheiros e nobres vampiros vestidos em seda escura e joias vermelhas. A coroa negra repousava sobre seus cabelos como uma sombra viva, destacando ainda mais a pele absurdamente pálida.

Ela parecia pertencer ao castelo.

Como se Noctravis tivesse sido construído ao redor dela.

E aquilo irritava Lucien mais do que deveria.

Porque era fácil entender por que tantos se curvavam diante daquela mulher.

Leonore sustentava presença como uma arma.

Mesmo sentada.

Mesmo imóvel.

Os olhos vermelhos encontraram os dele do outro lado do salão.

E o sorriso lento surgiu imediatamente.

Provocadora.

Sempre provocando.

Lucien desviou o olhar primeiro.

A música cessou de repente.

O enorme salão mergulhou em silêncio.

Valen levantou-se ao lado do trono da princesa, apoiando as mãos sobre a mesa dourada diante da corte.

- Um invasor atravessou nossas muralhas esta noite. - anunciou ele. - Um assassino enviado por Varkareth.

Murmúrios percorreram o salão.

Lucien permaneceu imóvel.

- O cavaleiro conhecido como Lucien da Lua Negra foi capturado dentro dos aposentos reais de nossa princesa.

Os olhares ficaram ainda mais hostis.

Alguns vampiros já seguravam armas discretamente.

Outros apenas encaravam Lucien como animais famintos observando carne fresca.

- Matem-no. - disse uma voz feminina entre a multidão.

- Arranquem a cabeça dele. - murmurou outro.

- Varkareth precisa receber uma mensagem.

Leonore permaneceu em silêncio no trono enquanto observava a reação da corte.

Divertida.

Lucien percebeu imediatamente.

Ela estava gostando daquilo.

Gostando de vê-lo cercado.

Pressionado.

Talvez esperando finalmente vê-lo perder o controle.

Não aconteceria.

Valen voltou-se para a princesa.

- Alteza, a decisão é sua.

Todo o salão silenciou novamente.

Leonore apoiou o rosto sobre os dedos delicados, observando Lucien longamente antes de finalmente falar:

- Não.

Confusão imediata.

Valen franziu a testa.

- Alteza...

- Eu disse não.

A voz dela saiu suave. Elegante.

Mas mortal.

- O cavaleiro continuará vivo.

Indignação percorreu a corte.

Lucien observou os nobres começarem a discutir entre si em murmúrios furiosos.

Leonore levantou-se lentamente do trono.

O salão inteiro silenciou outra vez.

O vestido negro arrastou-se pelos degraus enquanto ela descia calmamente até o centro do salão.

Linda.

Cruel.

Intocável.

Lucien odiava perceber isso.

- Vocês estão assustados por causa de um homem sozinho? - perguntou ela.

Ninguém respondeu.

- Que vergonha para Noctravis.

Alguns vampiros desviaram os olhos imediatamente.

Leonore caminhou lentamente ao redor de Lucien.

Como uma predadora analisando outra criatura perigosa.

- Este homem entrou no coração do nosso reino sem dificuldade. Matou guardas. Atravessou muralhas. Invadiu meus aposentos.

Ela parou diante da corte.

- E isso diz mais sobre nossa fraqueza do que sobre a força dele.

O silêncio ficou pesado.

Valen parecia cada vez menos satisfeito.

- Mesmo assim, Alteza... ele veio para assassiná-la.

Leonore sorriu levemente.

- Sim. E falhou.

Os olhos dela encontraram os de Lucien novamente.

Algo estranho atravessou o ambiente naquele instante.

Tensão.

Quase elétrica.

Ela aproximou-se devagar.

Perto demais outra vez.

- Não foi? - murmurou.

Lucien encarou-a friamente.

- Ainda não terminei minha missão.

Alguns guardas imediatamente ergueram as armas.

Leonore, porém, soltou uma risada baixa.

- Finalmente. Um pouco de personalidade.

Valen deu um passo à frente.

- Isso não é brincadeira.

- Eu sei.

- Ele é um inimigo.

- E você é irritante.

O conselheiro cerrou o maxilar.

Lucien observava tudo em silêncio.

Aquilo era estranho.

Leonore claramente entendia o perigo que ele representava.

Então por que insistia em mantê-lo vivo?

A resposta surgiu rápido demais.

Porque ela estava curiosa.

E pessoas curiosas cometiam erros.

Leonore voltou-se novamente para a corte.

- Lucien permanecerá sob vigilância até segunda ordem.

Indignação imediata.

- Isso é loucura!

- Ele pode atacar novamente!

- Alteza, ele precisa morrer-

- Chega.

A voz dela ecoou pelo salão como gelo.

Silêncio instantâneo.

Leonore aproximou-se lentamente de um dos humanos ajoelhados próximo da mesa central.

Uma jovem.

Provavelmente não tinha mais de vinte anos.

Assustada.

Tremendo.

A princesa segurou delicadamente o rosto da humana enquanto observava a corte.

- Vocês estão tão desesperados por sangue esta noite...

Então afundou lentamente as presas no pescoço da garota.

O salão mergulhou em absoluto silêncio.

Lucien observou o sangue escorrer lentamente pela pele pálida da humana enquanto Leonore fechava os olhos por alguns segundos.

Ela não parecia feroz.

Parecia íntima.

Quase sensual.

Quando se afastou, a garota continuava viva, embora visivelmente fraca.

Leonore limpou o canto dos lábios com os dedos.

Os olhos vermelhos deslizaram lentamente até Lucien.

Como se estivesse testando sua reação.

Provocando novamente.

Sempre provocando.

- Algum problema, cavaleiro? - perguntou ela suavemente.

Lucien sustentou o olhar dela.

- Você gosta de transformar tudo em espetáculo?

O sorriso dela aumentou.

- E você gosta de fingir que não está olhando.

Aquilo arrancou alguns murmúrios discretos da corte.

Valen parecia horrorizado.

Lucien aproximou-se um passo dela.

Os guardas imediatamente tensionaram.

Leonore não se moveu.

- Cuidado. - murmurou ele.

- Com você?

Ela sorriu lentamente.

- Ou comigo?

O silêncio entre os dois ficou sufocante.

Era errado.

Todos no salão percebiam.

Aquela troca de olhares já parecia perigosa demais.

Como duas criaturas tentando decidir se iriam se matar... ou algo pior.

Leonore afastou-se primeiro.

- Levem o cavaleiro para os aposentos do leste.

Os guardas hesitaram.

- Vivo. - acrescentou ela.

Lucien arqueou levemente a sobrancelha.

A princesa aproximou-se mais uma vez antes que os guardas o levassem.

Perto o suficiente para apenas ele ouvir.

- Não tente fugir esta noite.

- Isso foi uma ameaça?

Ela sorriu.

- Não.

Os olhos vermelhos desceram lentamente até a boca dele antes de voltarem ao olhar frio.

- Foi um convite sensual.

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