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Scorpions

Scorpions

Autor:: AlinePoirot
Gênero: Máfia
Hugo nasceu em uma família tradicional católica de classe média alta. Era um menino alegre e inteligente, muito apegado ao pai que, sempre que podia, lhe fazia companhia. Mal sabia aquele menino que a felicidade duraria pouco. Após o pai ser morto de maneira misteriosa, sua vida mudou bruscamente. A mãe se entregou ao vício em álcool e depois de alguns meses, casou com um homem que destruiria suas vidas. Hugo conheceu o inferno na mão daquele a quem se referia apenas como monstro, até ser resgatado por Roberto, que junto a Aquiles, se tornou seu melhor amigo. Foi através de Roberto que ele voltou a ter uma família por quem mataria e morreria. Não se engane, aquela não era uma família tradicional, era uma família formada por jovens que tinham conhecido o que há de pior na raça humana. Eles eram os Scorpions. Depois de um passado sombrio, haviam duas coisas o que mantinham de pé: Seus amigos e seu desejo de vingança contra o monstro que havia destruído sua alma. Até que uma pequena criatura irritante reaparece em sua vida, desviando seu foco. Ele não poderia permitir que algo tão "pequeno" o distraísse, mas ela se mostrará cada vez mais uma tentação em seu caminho. Perdido em um paradoxo de sentimentos que se acreditava incapaz de ter, Hugo percebe que na busca por vingança, há o risco de nos tornarmos o monstro contra o qual lutamos. "O que você vê quando se olha no espelho?"

Capítulo 1 Pesadelo

"Escolha!"

A voz ecoava no meio da escuridão daquele porão úmido e sombrio, seguida por gargalhadas tenebrosas. Era impossível enxergar qualquer coisa naquele lugar, não apenas pela falta de luz no cômodo frio e sem janelas, mas por quase não conseguir abrir os olhos de tão inchados.

"Escolha!"

A ordem se repetiu, como um mantra diabólico.

"Escolher o que?" Se perguntava, confuso e amedrontado. Todo o corpo estava dolorido, mal podia se mover.

Aquilo não era real, não podia ser real. Aquele tipo de coisa só acontecia em histórias de terror e pesadelos...

"Escolha!"

O choro começou baixinho, como um murmúrio na noite, mas logo se tornou um cântico fúnebre, com soluços de dor e medo.

"Por favor, por favor..."

Gemeu a voz chorosa e aflita.

Ele podia vê-la agora claramente, apesar da escuridão. O rosto, antes bonito e delicado, estava sujo e machucado, encharcado pelas lágrimas.

Ela não tinha mais do que quinze anos...

" Por favor, me ajude!"

Ela implorava, e ele sentia a dor dela arder em seu peito. Queria ajudá-la, se debatia de aflição para salvá-la, contudo, não tinha forças.

"Escolha, moleque, será você ou ela?"

As risadas voltaram a ecoar, gargalhadas de vários homens cujos rostos não podia ver, mas sabia quem eram.

Eram os monstros que o visitavam quase todas as noites desde que foi jogado naquele porão.

Sentiu um soco no rosto e um chute na boca do estômago. Gemeu de dor e cuspiu saliva com sangue no chão.

Mais gargalhadas.

Gritos.

Seriam dele ou dela?

A dor era tanta que mal conseguia se manter desperto, além da fome e sede. Meses naquele lugar escuro, frio e úmido, ou seriam anos?

Olhou para ela uma última vez e ela reconheceu nos olhos dele a decisão. Ele abaixou a cabeça, envergonhado de sua fraqueza e covardia.

O choro dela se transformou em gritos desesperados, pois antes que ele abrisse a boca, ela já sabia qual seria a resposta.

Ele gritou para que parassem, ao mesmo tempo em que se debatia tentando escapar das correntes, em vão.

Os monstros levaram a sua alma e ele nada pôde fazer...

" A escolha foi sua, garoto, olha o que fez! Por sua causa estão fazendo isso com ela, a culpa é sua!"

***

Hugo acordou com o coração batendo acelerado. A dor no peito era tão real quanto a que sentiu quando apanhava no sonho.

Um pesadelo... ou melhor, uma lembrança de um passado que não conseguiria esquecer nem mesmo se tentasse. Um passado que guiava seu presente na busca por vingança.

Eles pagariam por tudo que fizeram, sofreriam cada ação em dobro!

Quando escapou, não era mais do que um jovem traumatizado e enfraquecido pelo medo. O tempo passou e ele se tornou forte, maduro, destemido e não estava mais sozinho.

Ele era parte de algo muito maior do que seus monstros poderiam imaginar.

Agora Hugo era o líder dos:

SCORPIONS

Capítulo 2 Rosália

Semi-Internato Feminino de Ametista

- Rosa, julga que se saiu bem na prova final?

Rosália parou no meio do corredor do colégio ao ouvir a pergunta da sua colega de classe que vinha correndo na sua direção. Quando se virou para responder, a jovem ajeitou os óculos no rosto, intimidada pelo olhar hostil.

- Óbvio que sim! Eu nem mesmo precisava fazer essa porcaria de prova, já tenho nota para me formar desde o terceiro bimestre. A professora obrigou-me a fazer a prova por pura implicância comigo!

- Hum... Ela te deu zero no último trabalho...

- Essa filha da mãe acusou-me de plágio, sendo que fui a primeira a entregar! Mas a queridinha, maravilha do planeta, entregou praticamente uma cópia do meu trabalho duas semanas depois, e a acusada de plágio fui eu!

Rosália bufou e voltou a caminhar com a colega a seguindo como uma sombra.

- Eu não sabia disso, pensei que casos de plágio causavam expulsão.

- Eles causam, mas no meu caso, tudo foi obviamente armado. Como aquela vaca teve acesso ao meu trabalho?

Mara arregalou os pequenos olhos que herdou do pai coreano e ajeitou os óculos mais uma vez com o dedo médio.

- Oh, pensa que a Diana roubou o trabalho no armário dos professores?

- Não sei, mas se tivessem chamado o conselho do colégio para investigar o caso, a culpa dela seria evidente e a consequência seria Diana ser expulsa. A professora se fingiu de boazinha e anulou a nota do trabalho.

- Que tanto protegem essa garota, né?- Comentou com uma careta.

- Nem me fale! A professora ainda me obrigou a fazer essa porcaria de prova de recuperação de retardado! - Rosália desabafou e revirou os olhos.

- Não fala assim, eu também tive que fazer a prova! - Com o cenho franzido e os lábios formando um pequeno bico de contrariedade. - Acho a matéria de números imaginários muito difícil... Sem falar em geometria, não dá para imaginar figuras em terceira dimensão nem a pau, e não consigo decorar as fórmulas.

Rosália deu de ombros e as duas viraram no corredor na direção do dormitório.

- Como você consegue fazer contas de cabeça? - Mara perguntou com um suspiro.

- Sei lá! Eu lembro das coisas, sabe? Números e fórmulas ficam na minha cabeça como se fosse a casa deles.

- Nossa! Eu queria ter esse dom! Passei a semana estudando para essa prova e não sei se vou conseguir tirar os seis pontos que preciso...

- Você reclama de barriga cheia! Como consegue entender e lembrar de tudo das aulas de Filosofia e História? Fora que fala inglês e espanhol como se tivesse nascido nesses países. Se não fosse a sua ajudinha em História eu teria me dado mal...

- Talvez os nossos cérebros tenham gostos diferentes. - Disse Mara, sorridente. - Ah, e obrigado por deixar a prova no canto, consegui copiar algumas respostas.

- "Uma mão lava a outra" e blá blá blá... Não foi nada.

- Rosa! - A voz melodiosa de Diana ressoou pelo corredor quando elas estavam na porta do dormitório. - Que bom que te encontrei aqui, preciso muito falar contigo.

Rosália fez um muxoxo antes de se virar na direção da voz com um grande sorriso falso no rosto. Mara, que era alguns centímetros mais alta que Rosa, teve que levantar a cabeça para encarar Diana, que além de mais alta, ainda estava a calçar uma bota de saltos altos da última moda.

- Oi, Diana, já terminou a prova, "querida"? - Se cumprimentaram com dois beijos estalados no rosto.

- Ah, sim, terminei. - Diana abraçou-a sorridente. - Eu tinha o gabarito, acredita? Ai, já pensou se eu tirar dez? O meu pai vai ficar tão orgulhoso da minha nota!

- Vai contar-lhe que você colou a prova inteira?

- Claro que não, não sou idiota! - Diana respondeu horrorizada com a possibilidade do seu pai, tão austero e rígido, descobrir as suas peripécias no colégio.

Rosália esticou o pescoço e a encarou como quem encara um animal estranho. Será que a natureza compensou a beleza de Diana tornando-a obtusa? Porque, tinha definitivamente o cérebro preguiçoso. Não que fosse burra, pois era esperta e ardilosa, mas era tão imersa na sua bolha de fantasia, que não sobrava para outros assuntos que não fossem do seu interesse imediato. Sabia tudo sobre artistas de cinema, produtos de beleza, maquiagem, última moda, exercícios para manter a forma...

No que se tratava de disciplinas escolares, era uma negação. Não conseguia manter a atenção em nada por mais que cinco minutos e detestava ficar sentada muito tempo. Ao não prestar atenção nas aulas e sofrer uma crise de espirros sempre que tentava abrir um livro da biblioteca, como poderia aprender?

Já beleza... Ao lado de Diana, Rosália sentia-se um patinho feio, aliás, qualquer outra garota ao lado de Diana era um patinho feio.

Diana tinha longos cabelos negros como a noite, tão sedosos e brilhantes que dava vontade de tocar, ou raspar a careca dela e fazer um cobertor... Eh... Rosália tinha pensado em fazer isso no ano anterior quando tiveram uma briga. Por sorte de ambas, mudou de ideia.

Além dos cabelos de sonho, Diana tinha um sorriso cativante, dentes perfeitos e o mais belo e expressivo par de olhos azuis, que, para dar mais inveja a nós, meros mortais, escureciam ou clareavam dependendo do tempo.

Não era ridículo algo assim?

Se o céu estava escuro ou era noite, os olhos pareciam quase violetas, mas no verão, com sol a pico e céu claro, os olhos dela ficavam da cor do céu. Não era apenas isso, os lábios eram rosados, rosto ovalado, nariz pequeno e arrebitado, sobrancelhas perfeitas e um corpo escultural de modelo de capa de revista.

Ok, Rosália admitia para si mesma que, algumas vezes, a sua falta de paciência com Diana era causada por uma pontinha de inveja. Se, pelo menos, Diana fosse uma pessoa má, mesquinha ou cretina, poderia transferir os seus sentimentos para o desprezo, mas não... Apesar de uma pitada de egocentrismo, Diana era uma pessoa divertida, alegre, simpática, extrovertida, tinha um projeto de ajuda às crianças carentes, até mesmo visitava um orfanato uma vez por mês!

Como não amar?

Ou seria melhor perguntar: como não odiar?

Rosália suspirou. Fazer o quê, se nem todos eram favorecidos pelos deuses?

- O que você queria falar comigo, Diana?

- Ah, é! No próximo fim de semana vou fazer uma festa na piscina de casa para arrecadar fundos para ajudar um pequeno asilo que descobri num bairro não longe daqui. Você acredita que os velhinhos estão sem roupa de cama e urinol? Sem falar nos produtos de limpeza, que a diretora falou que sempre acabam.... Não podemos deixá-los na mão, não é mesmo? Afinal, pode acontecer com qualquer um de nós!

Rosália pensou em corrigi-la e afirmar que isso jamais aconteceria com Diana. Ela era rica e linda, provavelmente ficaria ainda mais rica casando com algum magnata do petróleo, ou um príncipe árabe... vai saber?

- Quer me convidar para a festa?

- Claro! Vai ser meu pedido de desculpas pela encrenca com o trabalho e você ainda terá a oportunidade de ajudar os velhinhos fofos do asilo, o que acha? Ah, e pode levar a sua amiguinha Marta também.

- Mara, eh... meu nome é Mara. - Mara finalmente se pronunciou, surpresa por Diana se referir a ela e incluí-la no convite, visto que desde que tinha se aproximado, parecia não tê-la notado.

- Ah, tá, - Diana a olhou confusa ao ser corrigida. - Marta, Mara, tanto faz. Você vai ser muito bem-vinda também, claro, exceto se pretendem passar o fim de semana com a família de vocês. - Disse o final da frase em tom de pergunta, mordendo o lábio na esperança de que aceitassem o convite.

- Para falar a verdade, a minha avó vem me buscar...- Murmurou Mara decepcionada por não poder ir a uma das famosas festas de Diana. - Muito obrigada pelo convite!

- Pôxa! - Diana fez beicinho, genuinamente chateada. - Que pena, na próxima não aceitarei recusas, hein! Você vem, né, Rosa, a sua família nunca vem te buscar mesmo. Não tem desculpas!

Quem ainda não tinha entendido a razão de Rosália amar e odiar Diana, já conseguiu entender agora? Ela não fazia aquelas coisas por mal, de verdade. Nos anos que estudaram juntas, Rosália teve tempo para aprender muito sobre os colegas de classe. Diana não tinha muita noção do peso das suas palavras e tentava resolver tudo com o seu belo e majestoso sorriso. O que irritava Rosália era que muitas vezes funcionava, inclusive com ela mesma, que apesar de estar pronta para xingar Diana, suspirou mais uma vez e respondeu com educação e um pouquinho de deboche:

- Pôxa... Que pena, mas justamente esse fim de semana o meu irmão virá me buscar!

Diana levou as duas mãos à boca para conter um gritinho, seus olhos azuis arregalados.

- Quando? Seu irmão vem? Por que não me avisou? Que horas que ele vem?

Diana tinha uma queda enorme por Aquiles. Todo rapaz que ela queria, arrastava um bonde por ela, mas bastava Aquiles aparecer que Diana se comportava como uma barata tonta e insegura, fazendo de tudo para impressioná-lo a cada visita.

E Aquiles, que não era nada bobo, adorava a atenção recebida.

- Ele não tem hora certa para vir, muito ocupado, sabe como é, negócios...

Mara olhou de soslaio para Rosália, sabia perfeitamente que a amiga estava mentindo e sentou na beirada da sua cama, prendendo o riso.

- Ai... Você diz a ele que mandei lembranças? Ah! Entregue esse bilhetinho com o número do telefone lá de casa para ele, caso já tenha instalado uma linha na casa de vocês, sabe como é...

Empolgada, Diana tirou um lápis e um bloquinho do bolso da mochila, anotou o número do telefone da sua casa, seu nome completo, beijou o papel para deixar a marquinha de batom e desenhou um coração ao lado.

- Farei isso, pode ter certeza! - Respondeu ao receber o bilhete.

Mentiu mais uma vez. Nunca entregou bilhetes nem número de garotas para o irmão, e nunca entregaria.

- Obrigada, amiga! Você é um amor! Bom, vou deixar vocês agora, sinto muito, mas tenho que convidar outras pessoas, beijos!

Quando Diana se afastou, Mara e Rosália se entreolharam.

- Por que mentiu para ela?

- Não aguento mais a cara de pena que ela faz quando ouve que ninguém virá buscar-me. Não sei porque ainda se importa, nunca passei nenhum dia fora desse lugar desde que cheguei...

- Pelo menos, pode ir à festa dela.

- Ah, não mesmo! Ela tende a querer fazer parzinho comigo e algum dos amigos estranhos dela nas conversas, imagine cara a cara.

- Até que são bonitinhos, pelo menos os que aparecem aqui...

- São todos tão bobos e infantis... Só sabem falar de futebol, quadrinhos, carros e festas...

- Ué, você adora festas sempre reclama de não poder ir nas que acontecem fora do colégio!

- Sim, mas é diferente... Essa eu não quero ir, e só faço o que me dá na telha!

Mara gostava muito de Rosália, a tinha como uma amiga muito querida e se interessava por tudo o que lhe acontecia. Ao notar a amiga se fechando, tentou continuar a conversa de uma perspectiva diferente.

- E o Félix? Vocês se encontraram ontem escondido e você me contou nada até agora!

- Ah...- Rosa tocou as bochechas que se tornaram rubras ao ouvir aquele nome. - Ai, amiga! A gente se beijou de novo ontem, e várias vezes! Aquele beijão, sabe?

- De língua?

Rosa se jogou na cama antes de responder:

- Sim! E foi tão estranho e tão incrível ao mesmo tempo. Eu não queria parar de beijar ele nunca, ainda mais que estava com gostinho de bala de menta! Vou encontrar com ele na sexta-feira de novo!

- Você é doida? E se te pegarem escapando?

- Não vão pegar e vai ser rapidinho, só um beijo de boa noite, foi o que ele prometeu.

- Ai, que inveja! - Mara deitou ao lado de Rosália, ambas olhando para o teto. - Tenho dezessete anos e nunca beijei ninguém e acredito que vou morrer virgem, nenhum garoto me quer! Só pode ter algo errado comigo!

- Não seja boba, não tem nada de errado com você! Só que, sempre que um garoto se aproxima de nós, você trava, parece que tem medo deles!

- Eu sei... não consigo controlar isso. Queria tanto ser como você- não, espera, queria ser como Diana. Ela consegue o garoto que quer tão fácil...

- É... - Rosália suspirou. - Eu também queria ser como ela...

- Ei, Rosália, acha que ela já fez "aquilo"? - Mara mudou o tom de voz ao pronunciar a última palavra e balançou as sobrancelhas.

- Sei lá... Se fez, deve ter sido com aquele rapaz da marinha ano passado. Lembra como ela estava apaixonadinha por ele?

- E ele era um super pão, né? Uma vez, ele veio de farda, lindo como um príncipe. - Mara suspirou. - Nossa... Nunca vi ninguém tão bonito!

- Se ela não fez com ele, foi boba, pois deveria ter feito!

Rosália virou-se, ficando com a barriga para baixo e os pés erguidos.

- Rosália! Como pode falar assim? - Mara virou-se também, imitando a posição da amiga. - Somos garotas direitas, de família!

- Ah, vá, como se não soubesse quem é minha família, Mara! Fora que, por acaso garotas direitas não sentem cócegas?

Mara era a única pessoa para quem Rosália havia contado sobre a sua vida privada e quem eram os Scorpions.

- Cócegas? - Perguntou Mara intrigada.

- Sim, aquelas cócegas que a gente sente na barriga, que vai até a pontinha do pé quando está beijando um garoto...

- Acho que isso não se chama cócegas...- Mara riu da palavra escolhida pela amiga.

- Tanto faz. Diana é uma garota direita mesmo que tenha feito "aquilo" com o marinheiro. Eu teria feito!

- Ah, eu não! Só vou fazer quando casar, ou quando me apaixonar perdidamente por um rapaz.

- E se você casar virgem e o seu marido for horrível na hora de fazer?

- Aí, a gente aprende um com o outro, ué. Vamos nos amar, podemos aprender juntos.

- Ai, que preguiça, Mara! - Rosália virou de lado e apoiou-se com o cotovelo, segurando a cabeça com olhar sonhador. - Os garotos podem fazer com quem querem e ninguém fala mal deles, custa saberem fazer "Aquilo" direito? Eu quero fazer com um rapaz que saiba o que fazer, que tenha experiência e que me faça sentir como uma deusa, como naquele livro! Nossa... As coisas descritas no livro, hum... me fazem sentir muitas cócegas!

As duas riram com vontade.

- Cadê o livro? Vamos ler um pouco antes do jantar?

Rosália foi até a cômoda, na última gaveta, bem no fundo, enrolada num vestido velho estava um livro. Na capa, exibia um homem musculoso, sem camisa, segurando uma ruiva seminua pela cintura no meio da selva. Ele a olhava com o rosto sério e cheio de desejo, enquanto ela o olhava de modo suplicante e lábios tintos entreabertos. O título era: Paixão Selvagem.

As duas deitaram lado a lado na cama de Rosália e puseram-se a ler, entre suspiros e risadinhas, a história que já tinha quase decorado pelas repetidas leituras.

Capítulo 3 Conveniências

Hugo terminou a sua prece diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima e fez o sinal da cruz. Mais uma noite em que o seu sono foi invadido por imagens e cenas de um passado sombrio. Não importava quanto tempo havia passado, como alguém poderia se acostumar com pesadelos tão reais?

Pousou o terço com cuidado sobre um lenço cor de rosa, adornado com um bordado cheio de falhas, mas que para ele, tinha grande valor sentimental. Aquele foi o primeiro presente que ganhou desde a morte do pai. O segundo, na verdade, pois seu terceiro em comando, Aquiles, fez uma arte especialmente para ele, porém, alguém especial o havia alertado que um punhal dificilmente poderia ser considerado um bom presente...

"Esse é um bom presente, vê? Eu mesma bordei, e a cor combina comigo, para que seja para você uma lembrança de mim, quando eu não estiver por perto!"

Ela não fazia ideia do quão comovido ele ficara quando revelou que tinha bordado o lenço com as próprias mãos. Alguém perder tempo para fazer algo para ele, com tanto carinho e sem esperar nada em troca...

Passou o dedo suavemente sobre o bordado, como se temesse danificá-lo, antes de dobrá-lo em volta do terço e devolvê-lo à caixinha de madeira que ficava ao lado da imagem da sua santa de devoção.

Depois de anos, acorrentado num porão, não se sentia mais humano. Ele era apenas a "fera", um animal liberto em noites especiais para rinhas humanas, ou para eliminar um inimigo do "monstro"...

"Eles vão pagar, todos eles, um por um!"

Esse era seu mantra todas as manhãs, era o que o mantinha de pé nas suas noites escuras, antes de ser resgatado.

Foi para o banheiro da sua suíte tomar uma chuveirada matinal. Fria, gostava da dormência que a água fria causava no seu corpo pelas manhãs, embora naquele dia a água não estivesse tão fria, já que a primavera havia chegado.

Após o banho, parou diante da pia do banheiro para aparar a barba e o bigode, que mantinha bem curtos. Usar a pele escanhoada era algo impensável, pois carregava no rosto a marca da violência sofrida no passado, parte escondida pela tatuagem no lado esquerdo do rosto: o ferrão ao lado da sobrancelha e a figura de escorpião, artisticamente criada e confeccionada por Aquiles, se expandia até a boca, com as garras escondidas pela barba. Era como usar uma máscara que o permitia seguir como uma nova pessoa e se olhar no espelho sem odiar a si mesmo.

A tinta da tatuagem escondia uma grosseira e repelente cicatriz...

Após completar a sua rotina matinal, voltou para o quarto para se vestir, apenas com uma toalha em volta da cintura. A primeira coisa que viu foi uma calça de linho azul-marinho esticada sobre a cama e sapatos pretos bem engraxados no chão.

Estalou a língua contrariado e buscou com os olhos a pessoa responsável por aquilo.

O roupeiro estava com as portas abertas e Juanita, distraída, arrastava os cabides de um lado para o outro, indecisa sobre qual camisa escolher para ele.

Ela era afilhada da governanta da mansão, e tinha servido como válvula de escape na cama há alguns anos.

- O que está fazendo aqui, Juanita? - Perguntou contrariado.

Ela deu um gritinho assustada e virou-se com as mãos no peito. Forçou um sorriso e ajeitou o vestido leve de algodão, que deixava suas belas e torneadas pernas á mostra.

- Nossa, Hugo, você me assustou!

- O que disse?

O tom de voz dele era baixo e sombrio. Ela arregalou os olhos ao se dar conta de que tinha cometido um deslize. A intimidade que tinham era puramente sexual e Hugo exigia respeito de todos debaixo de "suas asas"

- Desculpa, senhor Hugo, quer dizer, mestre. Me perdoa, mestre!

- Pelo que exatamente quer que eu te perdoe, Juanita?

Ele deu dois passos em sua direção e foi o suficiente para que parasse bem na frente dela, barrando o caminho, seus olhos cintilavam com um prazer sinistro ao vê-la desconcertada.

- Eu faltei com o respeito ao te chamar pelo primeiro nome, mestre.

Ele deu mais um passo, lento e deliberado, dando a ela a chance de reagir ao seu movimento e recuar, de costas tocando a porta do roupeiro.

Juanita estava encurralada, mal podia respirar sem que o cheiro do pós-barba dele invadisse suas narinas. Seu rosto estava na altura de seu peito desnudo, forte e musculoso, adornado por pequenos pelos pretos como os que tinha no rosto e cabeça, A pele, brilhando devido às gotas residuais do banho.

Moveu os dedos da mão inconscientemente, desejando ter permissão para tocar.

- Fez algo pior do que dizer meu nome, você está no meu quarto! - Ele vociferou em um tom monótono.

- Eu- eu... - Ela gaguejou. Não havia cometido apenas um deslize ao dizer o seu nome tão casualmente, estava no seu quarto sem permissão. - Eu... Eu só queria te ver, é... Senti sua falta!

- Hum...- Ele ergueu a mão e tocou o seio direito usando o dedo indicador e médio e deslizou os dedos até que o bico dos seios se eriçassem. - Você sabe muito bem que não gosto que entre no meu quarto. - Aprisionou o mamilo entre os dedos e beliscou.

Juanita gemeu de dor, mas não se afastou. O encarou, fechou as pernas e pressionou as coxas, desejando o toque dele em outro lugar. Ele abriu a mão e espalmou o seio dela, iniciando uma massagem.

- Mestre, por favor...

Hugo prosseguiu massageando o seio dela e levantou um pouco o vestido, mas fingiu não ouvir sua súplica.

- É nova? - Perguntou se referindo a calcinha branca de renda que ela estava vestindo.

- Sim, senhor... Comprei dois, um branco e um preto com o dinheiro que me deu, especialmente para o senhor tirar de mim quando quiser!

- Hm... Gostei dela.

Hugo arriou a alça do seu vestido e passou a língua no outro seio, por cima do sutiã.

Ela fechou os olhos, boca semiaberta, concentrada na sensação que a língua dele causava nos seus mamilos.

- Isso, mestre, não pare, por favor!

No mesmo instante, ele se afastou e a deixou trêmula e decepcionada. Juanita era uma visão deliciosa, isso ele não tinha como negar. Morena, esguia, de curvas suaves sob um vestido simples, era uma visão tentadora com os olhos marejados, seios pequenos e empinados.

- Pensa que merece minha atenção depois de me desobedecer?

Ela levantou o olhar e deparou-se com os olhos frios e sem emoção de Hugo.

- Mas.. Mestre, o senhor ficou fora quase uma semana, amanhã vai viajar de novo...

- Foi uma boa menina, esperando o seu mestre voltar?

- Sim, senhor, eu juro! Eu só me deito contigo!

- Boa garota! - Ele ajeitou as alças do vestido dela, cobrindo o corpo que não estava interessado em usar naquele momento. - Essa é a razão pela qual trouxe um presente para você.

- Presente para mim? - Ela olhou em volta animada como uma criança, na esperança de encontrar algum embrulho.

- Lá em baixo, deixei o pacote com a Daniela para dividir entre vocês. - Ele afastou-se e largou a toalha no chão para se vestir.

Juanita nem aproveitou a visão do corpo nu de Hugo, pois estava terrivelmente decepcionada com as palavras dele.

- "Entre vocês"? De quem está falando?

- Ora, dê você e das outras protegidas que ainda moram aqui! Trouxe"kits"de perfumaria para cada uma de vocês, é o mesmo que escolhi para as suítes vips do hotel.

- Kits? - Ela perguntou com a voz falha, parecendo estar ofendida.

Hugo, que estava sentado na cama já de cuecas e calçando as meias e sapatos, suspirou contrariado. Não queria conversar e detestava ter que repetir o que já dissera. Imaginou que, contando haver um presente para ela, conseguiria se livrar da sua presença, pois estava com pouco tempo para se arrumar antes de uma reunião com fornecedores.

Achou melhor descrever o presente, para que ela se animasse em ir buscá-lo.

- Sim, essas coisas que vocês gostam: xampu, creme rinse, sabonete, desodorante, hidratante, talco... As outras garotas adoraram, então, decidimos trazer para todas vocês.

- Mas... É isso o presente?

- Não gostou do que eu trouxe? - Ele ergueu uma sobrancelha. - Você vive me pedindo essas coisas, o fornecedor disse que é um kit completo!

- Um kit igual para todas? - Finalmente verbalizou a razão de sua frustração

Ele levantou e vestiu a camisa.

- Óbvio, Juanita, sabe que trato todas como iguais aqui, ninguém é melhor que ninguém!

- Mas eu pensei que era um presente só para mim... Por que elas também têm que ganhar, se eu que sou sua garota?

As mãos dele que estavam ocupadas abotoando a camisa pararam e ele encarou-a com o rosto sério.

- Você não é minha garota, Juanita, sabe disso! A gente fode, enquanto for bom para os dois. É livre para cair fora e arrumar outro homem que queira brincar de casinha contigo.

- Mas... Nós saímos há anos, eu pensei que ia acabar me assumindo e a gente ia ficar juntos...

Hugo passou a mão pelo rosto e suspirou mais uma vez ruidosamente. O dia já tinha começado ruim, mais um pesadelo e agora essa conversa detestável.

- Juanita, não fantasie sobre mim, não sou do tipo que vai "assumir" uma garota.

- Mas... Somos bons juntos! - Ela tentou argumentar, sua expressão facial evidenciava a decepção.

- O sexo é razoável, gosto de te foder, isso é tudo o que tenho a te oferecer. Se quer compromisso, você é livre para tentar com outros caras.

- Outros caras? - Perguntgou ultrajada..

- Outros, outros, foda-se, faz o que quiser! A gente para por aqui, sem ressentimentos. Pode continuar a morar aqui, e se quiser trabalhar como a sua madrinha, lhe pagarei um salário razoável.

- Eu não vim para a cidade grande para ser empregada doméstica!

- Tanto faz, o problema é seu! Nós paramos por aqui, agora sai que tenho mais o que fazer!

- Não, espera! - Ela segurou o braço dele, mas logo afastou a mão ao ver a fúria nos olhos dele por ser tocado por ela. - Eu não quero parar, eu gosto do que a gente tem, eu entendi, sem compromisso.

- Tem certeza? - Ele encarou-a.

- Sim! Mas, mestre... já faz um tempo que a gente não... você sabe... e amanhã o senhor vai viajar de novo a trabalho!

Olhou-a de cima a baixo. Tinha razão, fazia um tempo que não se deitava com ela, aliás, fazia um tempo que não se deitava com ninguém. Estava precisando se aliviar um pouco, especialmente antes do encontro que teria no final de semana.

- Está certa, seja boazinha e me aguarde no seu quarto hoje à noite, vou chegar por volta das nove.

Juanita sorriu aliviada por ele não terminar com o que tinham e seguiu para porta do quarto.

- Juanita?

- Sim, senhor? - Ela parou a um passo do corredor e o olhou esperançosa.

- Vista o conjunto preto essa noite!

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