"Algumas coisas na vida acontecem e te fazem sentir imunda. Eu me sinto suja. Parece que toda minha vida até agora não teve nenhum propósito. A relação com meus pais, minha profissão e esse casamento, todos foram para outras pessoas. Quero rasgar tudo, toda essa pele nojenta que cobre meu corpo. Só assim, talvez eu consiga me penalizar o suficiente por deixar que minha vida estivesse assim."
Glub... Glub...
Clarice respirou sufocadamente quando tirou a cabeça imersa da banheira, seus brações estavam cheios de marcas de arranhões autoinfligidos, seus olhos estavam cheios de raiva, mas se acalmaram em seguida quando se lembrou onde estava.
Ela se vestiu inconscientemente da maneira como foi ensinada, aparência limpa, cabelo bem arrumado, maquiagem leve, terninho listrado preto e um salto baixo. Antes de sair ela deu uma última olhada no quarto, que como sempre pareceria um quarto de hóspedes se não fossem as roupas no armário. Nada ali tinha personalidade, eram itens comuns que pertenciam a outra pessoa, independente do fato dela morar ali há cinco anos.
No andar de baixo Clary encontrou a companhia de sempre, o nada. Na casa enorme, ela preferiu estar sozinha, não queria empregados fixos andando por aí e vendo o quão humilhante era seu dia a dia.
Quando chegou ao trabalho ela foi recebida como sempre, sorrisos e gentileza por parte dos seguranças, recepcionistas e demais empregados. No começo ela sorria de volta e conversava alegremente com todos, mas hoje ela apenas acenava discretamente em resposta, já que aprendeu a reconhecer os olhares de pena por trás das máscaras. Ela não podia culpar ninguém por isso, afinal eles estavam certos, Clary dava pena.
Chegando em seu escritório ela pegou um café na cafeteira e se sentou suspirando. Ela encarou por um tempo a placa com seu nome onde dizia "Gerente de Finanças" e em seguida ligou o computador.
De manhã tudo havia sido rápido e quando Clary voltou do almoço ela encarou os papeis em cima da mesa. Era um orçamento vindo da secretaria da presidência, o que significava que ele precisava ser aprovado pelo CEO. Clary não queria ir, mesmo assim se levantou e foi encontrar seu carrasco.
Duas batidas na porta até ouvir o resmungo que foi identificado como uma autorização para entrar.
- Bom dia.
Como sempre, Alexsandro apenas olhou rapidamente para Clary e não respondeu.
- Sua equipe formulou um pedido de reforma para sua secretaria, imagino que você já saiba disso, então por favor assine.
Ele tomou os papeis entregues por ela, folheou rapidamente e assinou.
- Obrigada.
Quando Clary estava quase saindo Alexsandro finalmente abriu a boca.
- Não voltarei para casa essa noite.
"Esse aviso só faria sentido se em algum momento ele estivesse em casa, ou tivesse uma casa."
- Não é como se alguém estivesse te esperando. – Ela virou as costas e continuou andando, quando então a vós grave fez ela parar novamente.
- Sua linda secretária pensa diferente.
- É um pouco tarde para pensar que eu me importo com quem você fode.
- Haha... – Essa risada fria fez Clary estremecer. – Você não é boa em fingir querida, nem há cinco anos e nem agora. Mas tudo tem seu lado bom não é mesmo? Esse perfil baixo e seu comportamento de cadela obediente são exatamente o que eu preciso. Pena que não é o suficiente para que eu pare de sentir nojo de você.
- Acho que você está confundindo nossas posições. A única coisa nojenta aqui é você. – "Não é bem isso que você anda dizendo a si mesma."
- Olha você saindo da linha de novo. Não me faça ter que te colocar no seu lugar, ainda tem muito que eu possa tirar de você.
- Sou obrigada a discordar.
Clarice fechou a porta atrás de si e soltou um longo suspiro. Ela estava cansada de tudo, soltou um riso nervoso enquanto pensava que estava certa. Já não existia mais nada que Alexsandro Otto possa tirar dela.
Eles se conheceram quando Clary tinha 10 anos, ela lembrava bem do garoto idiota que tropeçou nos próprios pés durante a festa de aniversário de seu pai. Apesar de ser dois anos mais velho do que ela, Alexsandro era desajeitado e mimado, ele chorava vergonhosamente porque suas mãos estavam raladas. O nariz dele escorria enquanto seus dois irmãos riam dele, mas o que Clary lembrava mesmo era de como o choro foi cortado de imediato após o pai de Alexsandro aparecer.
Se não fosse pelo rosto molhado e o muco embaixo do nariz seria difícil dizer que um rosto com aquela expressão estava fazendo pirraça dois segundos atrás.
A próxima vez que ela o viu foi dez anos depois. E surpreendentemente não havia rastro do menino bobo que viu. Eles estavam em uma reunião de compromisso. Seus pais eram parceiros de negócios há anos e o pai de Clary estava querendo fazer um investimento de risco que precisava do dinheiro das Indústrias Otto, então, casar sua única filha com o filho mais velho dos Otto era uma ótima maneira para conseguir o favor. Clary estava assustada, não queria ver sua vida vinculada com alguém que ela não conhecia, mas após a morte de sua mãe era difícil se negar diante de seu pai. Ele passou a esquecer da existência de Clary e só estava com a filha diante de eventos públicos que precisavam de uma boa imagem. Clarice se lembrava do dia do velório, o pai só esteve presente enquanto os repórteres estiveram lá. Clarice estava sozinha quando o corpo foi levado para o fundo da terra. No decorrer dos anos ela tentou ser tudo o que o pai queria, se formou com louvor no ensino médio, entrou na melhor universidade do país e até a carreira na contabilidade foi escolhida por ele. Clary tinha esperança de que um dia o pai voltasse a olhar para ela da mesma maneira como olhava antes do falecimento da mãe. Mas isso nunca aconteceu.
Aos 20 anos Clary ainda acreditava em seu pai, então mesmo com medo decidiu comparecer à reunião de compromisso. Ela estava agradecida pela mudança de Alexsandro, pelo menos ela não estaria casada com um tolo, que por sinal estava bem longe de parecer assim. Alexsandro cresceu muito, devia ter aproximadamente 1,90m, o cabelo preto penteado para trás e os olhos igualmente negros tinham um formato diagonal que deixava rosto sensual, sem falar de um corpo bem definido, que Clary descreve como "definido nos lugares certos, não há musculo demais e nem ossos marcados".
Durante a reunião Alexsandro me convidou para um passeio pela casa de sua família. Enquanto andávamos percebi que ele não deixava de me olhar e quando me dei conta ele abriu um sorriso.
- Parece assustador, certo?
- O casamento?
- Sim. Sei que não nos conhecemos e não tenho uma boa base de confiança, mas acho que podíamos nos entender. Você está saindo com alguém?
- N-não. Não tenho me envolvido com ninguém recentemente. E você?
- Eu também não. Achei melhor confirmar que ambos estávamos bem, não quero ser o cara que te tira do grande amor da sua vida, já que os homens conversando lá na sala não dão a mínima para o que quer que aconteça na nossa vida pessoal. – Clary percebeu quando Alexsandro endureceu a expressão quando falou do pai, mas em seguida ele voltou a sorrir. – O que acha de marcarmos alguns encontros até a data do noivado? Acho que podemos ficar mais tranquilos com a presença um do outro.
- Parece sensato.
- Sensato? Hahaha eu não devo ser muito bom em flertar. Convido uma garota para sair e a reação dela é dizer que sou sensato.
Alexsandro disse enquanto ria e Clary não pode deixar de rir também.
- Perdão, não pensei que fosse um flerte, achei que você estava só tentando ser gentil.
- Estou sim tentando ser gentil Clarice, mas não pelos motivos que você acredita. Eu de verdade achei você linda e parece incrível te conhecer e proporcionar a nós dois alguns momentos mais reais do que os nossos pais pretendem.
Nesse momento Clary relaxou um pouco e sentiu seus medos diminuírem um pouco. Ela percebeu que Alexsandro podia ser um bom amigo antes de ser seu marido.
Os dois saíram todas as vezes que Alexsandro prometeu. Fizeram coisas normais como ir ao cinema, jantar em um bom restaurante, fizeram um piquenique e eles até se introduziram um pouco na vida um do outro. Clary o levou para um bar com seus melhores amigos da faculdade e para sua felicidade ele se deu muito bem com todos. Já Alexsandro a levou para conhecer sua mãe. Os pais de Alexsandro se divorciaram quando ele tinha 8 anos e depois disso ela passou por um período de depressão complicado e passou a viver em um centro psiquiátrico. Clary o observou conversar com a mãe de maneira calma e pausada e quando explicou quem Clary era ele usou a voz mais doce possível fazendo com que ela percebesse que seus próprios batimentos estavam acelerados.
Quando o casamento aconteceu Clarice já se sentia muito atraída por Alexsandro, fazendo ela pensar que o amor era só uma questão de tempo.
A lua de mel foi mágica. Alexsandro a deixou o mais confortável possível. Eles se divertiram nos passeios pelas praias do Havaí e focaram principalmente em falarem seus segredos um para o outro. Os dois só dormiram juntos na última noite da viagem, quando Clary sentiu que o relacionamento deles era mais que um acordo.
Os seis meses seguintes foram uma sequência de comportamentos estranhos. O pai de Clary começou a ligar para ela uma vez por semana, que depois de dois meses passaram a ser três vezes. De início Clary pensou que o pai se preocupava com ela, já que ele sempre perguntava como ia o casamento, porém com o tempo ele deixou de fazer isso e passou a questioná-la sobre o dinheiro dos Otto. No quarto mês após o casamento o pai havia dito que tanto Alexsandro quanto seu pai não estavam mais atendendo suas ligações. Em contrapartida o casamento de Clary estava tranquilo, eles viviam em uma casa herdada pela mãe de Clarice e nela tinham uma vida prazerosa. Ela entendia que Alexsandro tinha uma vida atarefada e não podia estar ao lado dela o tempo todo, mas ao mesmo tempo em que o desespero de seu pai se tornou mais grave Clary percebeu que Alexsandro chegava em casa cada vez mais tarde, então ela se preocupou um pouco com o acordo entre as duas famílias e perguntou se estava tudo bem com as Indústrias Otto.
- Na verdade estamos passando por um período apertado querida, diga ao seu pai que não estamos fazendo por mal. Está tudo uma bagunça e prometo a você que dentro de um mês tudo vai ser como deve ser.
E assim foi. Dentro de um mês tudo aconteceu de acordo com o que os Otto queriam.
Exatamente seis meses após o casamento Helmer Santini sofreu um acidente de carro. O carro caiu por um desfiladeiro e apesar da carcaça do carro não ter sofrido tanto dano o pai de Clary morreu com a queda. Ela descobriu a morte através da secretária do pai e em poucas horas a notícia estava em todos os noticiários, seguido pelo resultado de uma investigação vazada que sugeria que o carro foi sabotado. Meses depois o caso foi arquivado por falta de provas.
Durante o mês em que Clary absorvia a notícia, organizava o velório e lidava com todos os repórteres em sua porta, ela não viu Alexsandro nenhuma vez. Inclusive no velório, o único da família Otto que estava presente foi seu sogro. Ele respondeu as entrevistas dizendo que o filho estava de cama, mas que sentia muito pela morte do homem que em pouco tempo ele considerou como um pai.
Clarice tentou ligar para Alexsandro diversas vezes sem resultado. Eles só se encontraram novamente quando o conselho de acionistas da empresa convocou uma reunião para eleger um novo CEO.
Com a morte do pai, Clary passou a ser dona de 45% da empresa, enquanto os outros 55% eram distribuídos entre outros 10 acionistas. Ela como acionista majoritária estava certa de que seria escolhida como CEO. Porém ela ainda lutava para superar a perda e pensou que seria sensato nomear o vice-presidente de seu pai para o cargo, ele era um homem de confiança e Clary se sentiria melhor até que terminasse a faculdade. Porém, para sua surpresa, quando Clary entrou na sala ela encontrou Alexsandro, ainda que sem entender o motivo da presença dele ela se sentou ao redor da mesa em silêncio.
Com o início da reunião Clary não teve tempo de indicar o braço direito de seu pai, ela percebeu que os demais acionistas estavam impedindo que ela falasse e quando finalmente chegou sua vez de fazer uma nomeação os outros 10 acionistas já haviam escolhido Alexsandro para ocupar o cargo. Eles disseram que era o mais sensato, que seria a melhor escolha visto que ele era meu marido e que eu sequer havia terminado a graduação.
Clarice não ficou quieta, disse aos acionistas que ainda que ela e Alexsandro estivessem casados ele era alheio a empresa. Os acionistas foram questionados do motivo pela decisão absurda e ficaram calados. No fim, Clary ainda sabendo que com seu voto nada mudaria os 55% de apoio a Alexsandro ela ainda assim decidiu votar no vice-presidente vigente.
Com o fim da reunião Clary correu em direção a Alexsandro.
- O que é tudo isso? O que você estava fazendo aqui? Eu sequer sabia que você pretendia se candidatar ao cargo. E ainda mais importante, onde você esteve no último mês?
Ela despejou várias perguntas em cima do homem e como resposta ele lançou um olhar frio em cima dela. Alexsandro não abriu a boca, apenas pegou Clary pelo braço e a levou para o carro.
- Devia ter me nomeado, seria bem mais fácil para você. – Ele sorriu com escárnio. – Vou te dizer o que vai acontecer a partir de agora. Eu vou assumir a empresa do seu pai, deveria ser mais tarde, mas ele facilitou as coisas para mim. Você vai terminar sua graduação e vai começar a trabalhar aqui, vai aparecer em todos os meios de comunicações possíveis e vai dizer o quanto está feliz pelo seu marido cuidar dos negócios. Agora comece a ser obediente.
Clary se assustou, seus membros pareciam todos paralisados. Era evidente que Alexsandro escondia alguma coisa, mas ela nunca pensou que tudo fosse mentira. Ela encarou o homem que tinha a sua frente e o corpo tremeu. Ainda sem acreditar ela soltou a pergunta.
- Tudo... Tudo até agora foi para isso? Todo o casamento, o acordo com meu pai. Vocês nunca pretenderam manter o acordo? – Clary o olhou sem esperar resposta. – Os acionistas. Você comprou os acionistas? Meu Deus. Em que mundo doentio você vive? Como pode acreditar que vou concordar com isso?
Alexsandro ficou em silêncio por um tempo antes de respirar fundo e responder.
- Não preciso que você concorde. A empresa é tudo que você tem. Mesmo com a herança da sua mãe e a renda passiva do seu pai eu duvido muito que você vá se afastar e deixar que eu assuma tudo. É uma questão de tempo até que as Confecções Santini estejam todas no nome da família Otto.
- Você é completamente surtado. Vocês mataram o meu pai. – Clary não aguentou e caiu nas lágrimas enquanto gritava. – Eu não preciso manter esse casamento.
- Não sou um assassino Clarice. Não matei seu pai. Mas não posso negar que foi um alívio. E não seja boba, nós vamos continuar casados. Eu já me certifiquei disso.
- Do que você está falando?
- Antes do casamento eu disse ao seu pai que achava prudente, como seu marido, que você tivesse posse das cinzas da sua mãe e dos bens que ela deixou na mansão e antes de nos casarmos seu pai transferiu tudo para o meu nome.
- ...
- Sendo assim querida, se você ainda quer prestar condolências à sua mãe, ver os álbuns de fotos e qualquer outra idiotice, você vai continuar casada comigo.
Depois disso ele a levou para casa. Clarice não falou mais nada pelos próximos dois dias. Mais do que traída, ela se sentiu perdida. Tudo que ela acreditou que eram as bases de sua vida foi tirado dela. O homem que ela pensou que poderia amar tinha total controle sobre ela.
Nos meses seguintes, ainda em choque, ela compareceu a todas as entrevistas ao lado de Alexsandro. Ele mostrava um sorriso gentil e dizia o quanto cuidaria da esposa no momento de luto, enquanto Clary apenas assentia a tudo que ele afirmava.
Enquanto Clary terminava de se formar ela só via Alexsandro durante eventos públicos e algumas vezes no mês quando ele queria dormir com ela. Quando a graduação terminou, ela fez como ele quis e assumiu o cargo de Gerente de Finanças, demonstrando que estava ali para apoiar o marido.
Alexsandro conseguiu controlá-la em tudo. Clary se recusou a aparecer com ele em eventos e como resultado um colega de turma, que a estava incentivando, foi denunciado por tráfico de drogas e depois disso eles não se falaram mais. Quando ela se recusou a continuarem transando sua melhor amiga ligou querendo entender o porquê das indústrias Otto estarem bloqueando todos os fornecedores da loja de roupas que ela abriu. Para cada decisão que Clary tomava Alexsandro tinha uma resposta, ele queimou o quadro que sua mãe havia pintado, tomou o restante das relíquias que estavam com ela, impediu que fizesse visitasse o túmulo de seu pai e durante alguns meses ele até a trancou em casa.
Lembrando de sua vida nos últimos 5 anos Clary sentou-se em sua mesa e desejou não ser uma completa inútil, mas já era tarde demais para isso.
Clary estava em uma situação automática, tudo era feito de acordo com o script que alguém planejou. Os poucos momentos que eram dela eram aqueles como o que aconteceu dentro da banheira naquele dia. Seus momentos eram os de autotortura.