A noite cai sobre Londres com um véu denso de neblina. As luzes dos postes se espalham como estrelas trêmulas pelo asfalto molhado. Chloe Martin ajusta o sobretudo sobre os ombros e aperta o passo, sentindo o frio perfurar suas botas. A noite na galeria foi longa; o evento de inauguração da nova exposição atraiu uma multidão insaciável por arte e champanhe barato.
Sebastian D'Arganville observa de longe. Sentado no banco traseiro de seu SUV preto, o vidro escuro o mantém invisível enquanto seus olhos afiados seguem cada movimento de Chloe. Seus dedos, envoltos em luvas de couro, apertam a bengala de ébano que descansa entre os joelhos. Ele prometeu a si mesmo que esta seria a última vez que a seguiria, que se manteria afastado. Mas a promessa se dissolve toda vez que a vê.
Chloe caminha pela rua quase deserta, seus saltos ecoando contra os prédios silenciosos. Ela está absorta em pensamentos sobre os convidados, sobre as críticas positivas, sobre o diretor da galeria que mal reconheceu seu esforço. Porém, uma sensação estranha serpenteia por sua espinha, como um sussurro abafado dizendo que não está sozinha.
Sebastian percebe antes dela. Três vultos emergem de um beco escuro, movimentos rápidos e certeiros. Ele conhece aquele tipo de espreita: predadores que farejam presas vulneráveis. Seu coração acelera, e algo começa a se agitar sob sua pele. Ele fecha os olhos por um segundo, respirando fundo.
"Não", murmura para si mesmo.
Mas é tarde demais.
- Ei, mocinha! - Uma voz rouca e agressiva corta o silêncio.
Chloe congela. Os três homens a cercam rapidamente, seus rostos escondidos sob capuzes e sombras.
- Só queremos sua bolsa - diz outro, um sorriso torto reluzindo sob a luz fraca.
Ela engole em seco, dando um passo para trás.
- Eu... eu não tenho muito dinheiro...
Sebastian sai do carro. Seus sapatos de couro ecoam contra o concreto enquanto ele atravessa a rua. A transformação pulsa em suas veias, faminta. Seus olhos começam a arder, um brilho amarelado ameaçando romper sua máscara humana.
Um dos homens agarra o braço de Chloe com força. Ela solta um grito abafado.
- Solte ela. - A voz de Sebastian ressoa grave, quase um rosnado.
Os homens se viram, confusos. Sebastian está parado na entrada do beco, a luz das lâmpadas iluminando apenas metade de seu rosto, frio, esculpido em pedra.
- Quem diabos é você? - rosna o líder do grupo.
Sebastian não responde. Ele dá mais um passo à frente, e então algo nele... quebra.
Seu terno e sua camisa se rasgam, quando os músculos se expandem e a fera termina de arrancar o que sobrou das roupas agora inúteis. O som de ossos estalando ecoa como tiros abafados. A pele se estica, os pelos escuros surgem como sombras líquidas sobre sua carne. Seus olhos se abrem, amarelos, ferozes, brilhantes. A imagem é imponente com traços intensos e selvagens. Ele possui feições marcantes: sobrancelhas grossas e franzidas, olhos penetrantes de cor amarela fosforescente, nariz forte e bem definido, e lábios cerrados em uma expressão séria e feroz. Seu rosto é coberto por barba densa, que se estende pelas laterais do rosto e queixo, conferindo um ar mais bruto e animalesco. As orelhas têm formato pontiagudo, lembrando características de um lobo ou outra criatura selvagem.
Seu cabelo é volumoso, desgrenhado e selvagem, com fios espetados para cima, reforçando sua aparência bestial. A pele é bronzeada e marcada por músculos extremamente definidos no peitoral, ombros e braços, destacando sua força física impressionante.
Chloe cai para trás, os olhos arregalados. Ela mal consegue respirar.
O monstro avança.
Os homens gritam, mas não têm chance. Um deles é lançado contra a parede com um movimento da pata de Arthur. Outro tenta correr, mas é agarrado pelo colarinho e arremessado no chão. O terceiro cai de joelhos, implorando, mas os dentes afiados se aproximam de seu rosto antes que ele possa dizer qualquer coisa.
A batalha termina tão rápido quanto começou. Apenas o som da respiração pesada de Chloe e os grunhidos da besta permanecem no ar.
A criatura se vira lentamente, seu peito arfando, os olhos dourados brilhando no escuro. Chloe permanece encostada na parede, os dedos trêmulos apertando o casaco contra o corpo. Ela sabe que deveria correr, gritar... mas não consegue.
A criatura dá um passo para trás. A transformação começa a regredir: os músculos diminuem, o corpo se retrai, os pelos desaparecem sob a pele humana. Sebastian recupera sua forma, embora sua respiração ainda esteja pesada, animalesca.
Ele se vira para ir embora.
- Hey... - A voz de Chloe sai trêmula, quase inaudível.
Sebastian congela. Seu coração martela no peito, cada batida ecoando como um trovão nos tímpanos. Ele não ousa olhar para trás.
- Obrigada... - sussurra ela.
Por um instante que parece uma eternidade, Sebastian permanece imóvel. O vento frio carrega o perfume suave de Chloe até ele, deixando-o excitado, torturado, e isso o faz cerrar os olhos com força.
Então, ele desaparece.
Chloe fica ali, sozinha, tentando convencer a si mesma de que aquilo não aconteceu. Que não viu olhos amarelos. Que não sentiu o cheiro de sangue e pólvora misturados à noite úmida.
Sebastian corre pelas ruas vazias até chegar ao SUV. Ele se joga no banco traseiro, o peito ainda subindo e descendo de forma frenética. Seu motorista não diz nada, apenas acelera.
- Ela... - Sebastian sussurra, passando a mão pelo rosto, os olhos fechados. - Ela me viu.
Do outro lado da cidade, Chloe volta para seu pequeno apartamento, trancando todas as portas e janelas. Mas nada pode protegê-la do que agora reside em sua mente: o brilho daqueles olhos, o som dos rosnados, e a inexplicável sensação de que, de alguma forma, ela conhecia aquele estranho.
Na escuridão de seu quarto, Sebastian encara seu reflexo no espelho. Seus olhos, ainda ligeiramente dourados, brilham sob a penumbra.
- Não posso mais protegê-la à distância... - murmura ele. - Mas também não deveria me aproximar.
A lua cheia desaparece por trás das nuvens, e Sebastian sabe que o destino que tentou evitar por séculos está finalmente se aproximando dele e de Chloe. Mais uma vez.
A noite cai outra vez sobre Londres, cobrindo a cidade com um véu de névoa prateada. A galeria de arte está silenciosa, vazia, exceto por Chloe, que permanece sentada atrás do balcão principal, imersa em catálogos e planilhas. As luzes foram reduzidas para um brilho suave, criando sombras alongadas nas paredes cobertas de quadros valiosos.
Ela esfrega as têmporas, tentando afastar a dor de cabeça que pulsa na base de seu crânio. Desde o ataque na noite anterior, Chloe não conseguiu dormir direito. Os olhos amarelos daquela criatura, ou daquele homem, continuam a persegui-la. Ela se pergunta, mais uma vez, se tudo não passou de uma alucinação causada pelo medo extremo.
O silêncio da galeria é interrompido pelo som suave de uma porta se abrindo. Chloe ergue a cabeça, franzindo o cenho. A entrada já deveria estar trancada. Seus dedos deslizam instintivamente para seu celular, mas então ela vê uma figura alta e imponente entrando pelo corredor central.
Ele está impecavelmente vestido: um terno sob medida de tom escuro, gravata perfeitamente alinhada e um sobretudo longo que roça seus tornozelos. Seus cabelos estão levemente desalinhados, mas isso apenas contribui para seu charme enigmático. Seus olhos, tão intensos, tão profundos, a encaram como se ele pudesse ver através dela.
Chloe sente o ar escapar dos pulmões. Há algo nele que a deixa paralisada, como se uma presença antiga e poderosa tivesse acabado de atravessar as portas da galeria. Ela sente medo, mas também um fascínio incontrolável. Seus olhos não conseguem desviar dos dele.
- Senhor...? - Ela hesita, sua voz quase falhando.
Sebastian avança lentamente, com passos calculados, suas mãos enluvadas descansando atrás das costas.
- D'Arganville. Sebastian D'Arganville. - Sua voz é baixa, grave, como o ronronar de um felino prestes a atacar. - Espero não estar interrompendo algo importante.
Chloe engole em seco, sentindo seu coração bater mais rápido.
- Não... não estava fazendo nada demais. - Ela tenta sorrir, mas a tensão no ar é quase palpável. - O senhor veio verificar alguma peça específica?
Sebastian para a poucos metros dela. Seus olhos claros vagam lentamente pelo rosto de Chloe, analisando cada detalhe, cada microexpressão.
- Na verdade, vim ver uma peça que já adquiri. Mas, mais do que isso, queria... parabenizá-la pelo excelente trabalho que você fez na exposição de ontem.
- Oh... obrigada. - Chloe desvia o olhar por um momento, surpresa pelo elogio. - Eu só estava fazendo meu trabalho.
Sebastian inclina levemente a cabeça, como se estudasse a reação dela. Há algo nos olhos dele, uma sombra, uma intensidade, que faz Chloe sentir como se estivesse sendo puxada para um abismo desconhecido.
- Seu trabalho... e sua coragem. - Sebastian fala mais baixo agora, quase um sussurro.
Chloe franze o cenho.
- Como assim, coragem?
Sebastian hesita. Ele percebe que foi longe demais, que deixou escapar mais do que deveria. Por um instante, seus olhos brilham com algo que Chloe não consegue definir, culpa, talvez? Arrependimento? Ele desvia o olhar e foca em uma pintura próxima, uma paisagem nebulosa com árvores retorcidas.
- Londres pode ser perigosa à noite, senhorita Martin. Você deveria ser mais cuidadosa.
Chloe sente um calafrio percorrer sua espinha.
- O senhor... sabe o que aconteceu comigo ontem à noite?
O silêncio que se segue parece preencher cada canto vazio da galeria. Sebastian mantém os olhos fixos na pintura, sua mandíbula travada.
- Eu... ouvi falar - ele responde finalmente, cada palavra escolhida com cuidado. - Essas ruas nem sempre são seguras.
Chloe dá um passo à frente, sua voz levemente trêmula.
- Mas como alguém ouviria falar de algo assim tão rápido? Não houve polícia, não houve testemunhas... - Ela para, hesitando.
Sebastian finalmente se vira para encará-la novamente. Por um momento, Chloe tem certeza de que seus olhos brilharam em um tom amarelado, mas o momento passa rápido demais para que ela possa ter certeza.
- Está tarde, senhorita Martin. - Sebastian dá um passo para trás, sua voz recuperando a firmeza habitual. - Deveria ir para casa.
- Espere - Chloe diz, mais firme agora. - Por que o senhor realmente veio aqui?
Sebastian para no meio do corredor. Suas costas largas são uma silhueta escura contra a luz difusa que vem das janelas laterais. Ele não se vira.
- Às vezes, senhorita Martin, é mais seguro não fazer certas perguntas.
Chloe aperta os lábios, sentindo uma mistura de frustração e medo se misturar dentro dela.
- Eu vi você - ela murmura, quase sem querer.
Sebastian congela.
- Ontem à noite... eu não vi seu rosto, mas vi seus olhos. Eram... - Chloe hesita, mas finalmente sussurra - ...amarelos.
O silêncio cai pesado entre eles. Sebastian fecha os olhos por um breve segundo, sua expressão ficando sombria.
- Vá para casa, Chloe. - Sua voz é mais suave desta vez, quase suplicante. - Por favor.
Antes que ela possa responder, Sebastian desaparece na penumbra do corredor, deixando apenas o eco de seus passos e um perfume amadeirado no ar.
Chloe fica ali, sozinha novamente, seu coração martelando no peito. Ela olha para o corredor vazio, esperando que ele reapareça. Mas não acontece.
- Quem é você, Sebastian D'Arganville? - Chloe murmura para si mesma.
No lado de fora da galeria, Sebastian caminha rapidamente em direção ao seu carro. Seus punhos estão cerrados, os nós dos dedos brancos sob as luvas de couro. Ele respira fundo, tentando conter a fera que ainda pulsa sob sua pele.
Dentro do carro, Sebastian encara seu reflexo no espelho retrovisor. Seus olhos brilham em um tom dourado sob a luz fraca do poste.
- Ela está perto demais - ele sussurra.
A lua cheia se esconde por trás das nuvens mais uma vez, mas Sebastian sabe que não poderá manter Chloe afastada por muito mais tempo. O destino, como sempre, já começava a traçar suas linhas entrelaçadas.
A cidade adormece, mas o perigo desperta, tanto para Chloe quanto para o homem que luta para manter seu coração de lobo sob controle.
A manhã é fria e cinzenta quando Chloe chega à galeria. O café em suas mãos já perdeu parte do calor, e suas olheiras denunciam mais uma noite mal dormida. Enquanto atravessa os corredores silenciosos, ela sente um peso no peito, a lembrança dos olhos dourados de Sebastian D'Arganville ainda está fresca em sua mente.
Seu chefe, o senhor Alden Hayes, um homem baixo e robusto com uma voz grave e autoritária, está parado junto ao balcão central quando ela chega.
- Chloe, preciso que leve pessoalmente uma peça até a mansão D'Arganville esta noite.
Ela pisca, surpresa.
- A mansão D'Arganville? Para Sebastian D'Arganville?
Alden acena com um sorriso satisfeito.
- Exato. Ele adquiriu uma pintura rara, e confia apenas em alguém com sua atenção aos detalhes para transportá-la. Não me decepcione.
Chloe engole em seco e assente. Ela quer protestar, mas algo dentro dela, talvez curiosidade, talvez aquele inexplicável fascínio, a impede.
Horas depois, já escurecendo, Chloe está no banco traseiro de um carro preto fornecido pela galeria, com a pintura cuidadosamente embalada ao seu lado. A estrada sinuosa que leva à mansão D'Arganville é envolta por árvores altas, que parecem segredos sussurrados na escuridão.
Quando o carro finalmente para diante dos portões de ferro ornamentado, Chloe sente seu coração disparar. A mansão se ergue diante dela como um gigante adormecido, majestosa, mas envolta em sombras.
Um mordomo de expressão séria a recebe e a conduz pelo extenso corredor de mármore negro e colunas imponentes. O ar é frio, carregado por um perfume amadeirado que Chloe imediatamente associa a Kael.
Ele a espera no salão principal, ao pé de uma lareira imensa. Sebastian veste um suéter escuro sob um blazer elegante, e a luz do fogo projeta sombras afiadas em suas feições. Quando seus olhos se encontram, Chloe sente um arrepio percorrer sua espinha.
- Senhorita Martin - ele diz, sua voz grave ecoando pelo salão.
- Senhor D'Arganville - Chloe responde, tentando parecer firme, mas sua voz falha levemente.
Sebastian se aproxima com passos lentos, e ela percebe mais uma vez como ele ocupa o espaço, como se cada centímetro da mansão lhe pertencesse.
- A pintura está intacta? - ele pergunta.
- Sim - Chloe assente. - Cuidamos dela com o máximo cuidado.
Sebastian faz um gesto para que o mordomo leve a pintura. Chloe se prepara para ir embora, mas Sebastian fala antes que ela possa se virar.
- Fique para jantar.
A proposta paira no ar entre eles. Chloe hesita.
- Não quero incomodar, senhor D'Arganville.
Os lábios de Sebastian se curvam em a um meio sorriso, mas seus olhos permanecem intensos.
- Não é incômodo. Considere isso um agradecimento pela sua dedicação.
Chloe não consegue recusar.
O jantar é servido em uma mesa longa, iluminada por candelabros prateados. O ambiente é elegante e silencioso, exceto pelo estalar ocasional da lenha na lareira próxima. Chloe está consciente de cada movimento de Sebastian, cada olhar furtivo que ele lança em sua direção.
Eles conversam, mas há uma tensão invisível no ar, uma linha tênue que parece prestes a se romper. Sebastian faz perguntas sutis sobre a vida de Chloe, mas evita falar muito sobre si mesmo.
- E você, senhor D'Arganville? - Chloe finalmente pergunta. - Por que escolheu se isolar aqui?
Sebastian olha para ela por um longo momento antes de responder.
- Às vezes, solidão é uma escolha mais segura... para todos os envolvidos.
Chloe sente que há muito mais por trás daquela frase, mas decide não pressioná-lo.
Quando terminam o jantar, Sebastian a acompanha até a porta principal. O ar frio da noite faz Chloe estremecer, e Sebastian percebe.
- A noite está gelada. Deixe-me acompanhá-la até o carro.
Eles caminham juntos pela escadaria de pedra, o silêncio entre eles é preenchido apenas pelo som dos sapatos tocando o mármore. Chloe sente o calor da presença de Sebastian ao seu lado, mesmo sem tocá-la.
Antes de entrar no carro, Chloe olha para ele uma última vez. A luz suave do portal da mansão ilumina seu rosto, destacando as sombras que dançam em suas feições.
- Obrigada pelo jantar, senhor D'Arganville - ela diz.
- Sebastian - ele corrige suavemente.
Chloe sorri timidamente antes de entrar no carro.
Enquanto o veículo se afasta pela estrada escura, Sebastian permanece parado, observando até que as luzes vermelhas desapareçam por completo.
Um vento forte sopra de repente, fazendo as árvores ao redor sussurrarem em protesto. Um uivo distante corta o silêncio, e os olhos de Sebastian se estreitam e se tornam amarelos, colocando-o em guarda.
Algo está errado. Algo mudou.
Ele olha para o céu nublado, sentindo um peso no peito. A fera dentro dele rosna, inquieta.
- Isso foi um aviso - ele murmura para si mesmo.
Sebastian aperta os punhos, os olhos dourados cintilando sob a luz fraca.
No carro, Chloe olha pela janela, observando as árvores retorcidas passarem como borrões. Ela toca os lábios com os dedos, como se tentasse capturar algo intangível.
Ela sabe que algo naquela noite mudou. Algo que ela não consegue explicar, mas que, de alguma forma, a conecta a Sebastian D'Arganville.
Na mansão, Sebastian permanece imóvel diante da entrada, encarando o horizonte como se esperasse que a noite respondesse suas perguntas. O destino está agindo, e ele sabe que não deveria ter se aproximado ela, mas agora não poderá mais se afastar.
A lua surge por entre as nuvens, iluminando a silhueta solitária de Sebastian, que já não consegue mais ignorar o chamado do inevitável.