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Sedas e Pérolas

Sedas e Pérolas

Autor:: Quezy
Gênero: Aventura
Aisha sabia que havia herdado o nome árabe do pai que nunca conheceu. Sabia também que sua mãe escolheu esconder a gravidez de toda sua família no Líbano para se refugiar no Brasil a fim de "proteger" a filha de toda opressão que as melhores árabes sofrem. Marina se sentiu aliviada em retornar a sua terra e dar a luz a sua filha em solo brasileiro. Acreditava fielmente que havia feito o melhor para sua filha. Porém, o destino de Aisha já estava decretado e de alguma forma ainda que estranha a atrairia para o Líbano para conhecer um mundo totalmente diferente do qual conhecia. Em meio a tanto sofrimento e medo seria possível encontrar amor? Poderia ser amada por um poderoso homem libanês? Ou seria o tipo de mulher escravizada como sua mãe temia?

Capítulo 1 Véu de estrelas

véu de estrelas

Aisha olhava para o céu negro coberto por cintilantes estrelas que em sua imaginação observava uma majestosa cascata de estrelas que a qualquer momento poderia cobri-la de brilho. As estrelas sempre a fascinou e imaginava infinitas histórias de fantasia com a presença delas em sua vida.

O que Aisha não imaginava era que a noite em que ela nasceu, há 18 anos atrás era uma noite completamente escura, sem a presença de suas encantadoras estrelas. Uma tempestade se formava no céu, com trovões assustadores e raios que atingiam lugares vulneráveis. E essa noite tempestuosa foi o cenário do nascimento de Aisha, a amante das estrelas. Talvez seu amor pela constelação se tornou mais ardente quando sua mãe há dois meses atrás lhe revelou parte de sua vida que ela desconhecia.

Marina sempre tentou de todas as formas ocultar da filha os detalhes de seu relacionamento com seu pai. Tudo que Aisha conhecia de seu pai era uma fotografia cortada pela metade que sua mãe lhe entregou quando ela fez 15 anos. Sempre que ela perguntava coisas sobre seu pai, Marina perdia o controle emocional e se perdia no passado e se expressava por abundantes lágrimas.

Com o passar dos anos e a menina se tornando uma mulher, Marina se viu obrigada a encarar os olhos da filha e revelar toda a verdade. E foi exatamente naquela noite de verão em que encontrou Aisha deitada no gramado que resolveu de uma vez por todas contar a filha seus segredos.

A presença da mãe fez com que ela se levantasse do chão e observasse Marina se aproximar. Marina estava nervosa, mas se esforçou para se mostrar tranquila diante dos olhos curiosos da filha.

Ainda que tivesse uma única filha para dedicar seu papel de mãe, Marina não tinha esse tempo que sonhava viver ao lado dela. Era uma médica cardiologista e estava sempre viajando para conferências e com muitas consultas agendadas todos os dias. Nas férias podiam se aproximar mais e Marina veio a meses se preparando psicologicamente e fisicamente para aquele momento.

Marina era uma excelente médica, pessoas de outros estados do Brasil a procuravam na capital Mineira para consulta-la. Porém mesmo entendendo muito do coração humano, ela não compreendia as razões para que o seu próprio coração se curasse das feridas de seu passado.

Escondia da família seu vício com o álcool, bebia as escondidas na calada da noite e passava a manhã trancada no quarto aos finais de semana para não demonstrar sua ressaca. Aos 45 anos teve uma crise de pânico tão grande que teve consciência de que precisava de ajuda urgentemente. Foi nessa época que buscou por terapia e a cada consulta com o psicólogo conseguiu amenizar sua angustia para finalmente abrir seu coração a sua filha e contar-lhe toda a verdade.

Marina forçou um sorriso e se sentou ao lado de Aisha que correspondeu o sorriso da mãe devolvendo o seu sorriso cheio de alegria em ter a mãe ali do seu lado. Marina não sentia merecer a filha que tinha. Imaginava que a filha se tornasse uma pessoa difícil e revoltada por ter uma mãe tão problemática e que escondia a verdadeira história de seu pai. Mas Aisha era completamente o contrário do que ela temia. Sua filha era compreensiva, obediente e muito amorosa. Sabia que sua mãe sofria muito ao falar de seu passado e por mais que tivesse curiosidade para saber mais sobre seu pai, não queria ver sua mãe sofrer por sua causa.

Em uma época onde a tecnologia conspira a favor do ser humano, não era muito difícil buscar sanar a curiosidade de uma menina que tinha ânsia por conhecer seu pai. Portanto o que Marina ocultava da filha sobre seu passado, ela mesmo buscava por essas informações na internet.

Desde seus 14 anos Aisha buscava saciar sua curiosidade nas redes sociais e em sites específicos, informações sobre seu pai e sua família. Era uma aventura descobrir os rostos de pessoas que ela nunca viu e saber que eram seu sangue. Durante esses quatro anos acompanhando seu pai e sua família pela internet criou um vínculo afetivo por cada rosto que descobria ser um integrante de sua família. Talvez esse fosse o maior defeito de Aisha: desvendar o desconhecido. Ela era destemida e determinada, o que seria uma notável qualidade para uma adolescente do século XXI que muitas vezes se mostravam inseguras para seguir padrões da sociedade contemporânea. Mas Aisha não se importava com padrões, tinha o espirito livre e desde muito pequena aprendera ter sua própria opinião para tudo, para se vestir para ela mesmo e não para impressionar a sociedade. Dessa forma Aisha se desligava das vaidades externas e se preocupava com o intelectual, se dedicando ao máximo nos estudos, pois sonhava ser tornar uma médica conceituada e respeitada como sua mãe.

Sua mãe acariciou seu rosto e segurou em sua mão com carinho. Respirou fundo e olhou com admiração para a filha:

__ Você se tornou uma mulher linda Aisha! Eu tenho muito orgulho de ser sua mãe! (As palavras de Marina soaram com o tom de emoção tão forte que difícil foi para ela reter as lágrimas aquele momento)

Aisha sorriu novamente e abraçou sua mãe, permaneceram abraçadas olhando o céu. As infinitas estrelas cintilantes sob seus olhos. E o silêncio também se fez entre elas. Naquele silêncio Marina buscava forças de sua fraqueza para contar a filha tudo que machucava seu coração e sua alma. Não poderia mais adiar, havia passado dezoito anos e era direito de Aisha saber sobre sua chegada ao mundo.

Aisha sabia que a mãe estava aflita e tentou de forma ingênua acalma-la:

__ Mãe, você acha que um véu coberto de estrelas me deixaria bonita? (A voz da filha a trouxe para a realidade)

__ Um véu? (Perguntou Marina não compreendendo)

__ Eu andei pesquisando sobre meu pai... (Revelou Aisha)

Nesse momento o rosto de Marina se empalideceu, olhava para a filha com pânico. Seu psicólogo havia lhe alertado sobre a possibilidade de Aisha já ter descoberto muito mais coisas a respeito de seu pai e sua família através da facilidade das redes sociais e sites de busca, mas uma mãe erra muito ao subestimar seus filhos. E foi exatamente isso que Marina fez. Ela via Aisha como uma menina ingênua demais para desejar desvendar os mistérios de sua vida que ela ocultava. Não via ou não queria ver os sinais que a filha dava lhe mostrando que já sabia da existência de seu pai e seus familiares. Marina escondia tanto sua dor, que não enxergou sua filha buscando meios de descobrir o que ela omitia.

__ Na cultura de meu pai as mulheres usam véu, o hijab! (Disse Aisha encarando os olhos de sua mãe)

_ Na cultura de seu pai as mulheres vivem oprimidas, apanham, muitas até morrem por resistir as regras. Não se engane pela sedutora aparência... è tudo fachada para encobrir a crueldade que elas passam! (A voz de Marina soava em alto tom e encarava a filha com os olhos marejados de lágrimas)

Tudo que ela havia planejado contar com harmonia e tranquilidade havia se transformado em um contexto de raiva e ódio. O passado chegava com mais força em sua mente e lhe tirava a razão para pensar pacificamente.

__ Eu entendo que a senhora tenha muita mágoa do que deve ter vivido ao lado de meu pai... Não quero que sofra por minha curiosidade... me desculpa... (Aisha disse tentando acalmá-la)

__ É seu direito saber toda a verdade. Hoje eu decidi te contar tudo e é isso que vou fazer! Mas uma coisa eu te peço minha filha, não queira conhecer de perto o que eu passei, não se coloque em minha pele nem por um segundo, porque eu não permitirei que coloque os pés naquela maldita terra de seu pai!

Naquela noite linda e estrelada, Aisha conheceu a história de sua mãe com o libanês Ahmad Al-Sabbah. Um homem muito rico que vivia em uma cidade libanesa por nome Trípoli (em árabe: Ṭarābulus) é a maior cidade do norte do país e a segunda maior do Líbano, situada a 85 kilometros da capital, Beirute. Marina viajou ao Líbano para realizar um intercâmbio com alguns amigos da faculdade e acabou conhecendo Ahmad Al-Sabbah em uma festa de casamento que um de seus amigos fora convidado.

Marina foi obrigada a engolir seu orgulho e confessar a filha que desde a primeira vez que viu seu pai naquela festa, se encantou por ele. Marina usou a palavra encanto para esconder a palavra "Paixão", pois não estava disposta a se mostrar fraca diante da filha expondo seu passado.

Ahmad Al-Sabbah era um homem árabe muito bonito. Era alto, forte e tinha olhos esverdeados que possuía um forte poder de sedução. Marina na idade de 20 anos se viu completamente apaixonada pelo libanês que a tratava como se fosse uma rainha do oriente. Lhe presenteou com ouro, lhe entregou véus de seda coberto por pérolas raras do mar mediterrâneo e lhe prometeu o mundo se se casasse com ele.

Durante os seis meses que estudavam ali naquele pais, Marina se relacionou com Ahmad Al-Sabbah. E nesse relacionamento Marina vivenciou de perto a cultura e tradições daquele povo. Ela frequentava a mansão de Ahmad, conheceu sua família e logo passou a odiar tudo que pertencia ao mundo árabe.

Capítulo 2 Véu negro

No início tudo era parte do romantismo que vivia, as cores, os aromas, as músicas e até a dança lhe fascinavam. Mas aos poucos tudo foi perdendo o encanto. Primeiro ela presenciou uma prima de Ahmad ser obrigada a se casar com um homem três vezes mais velho. O choro da jovem era como uma faca afiada a cortar seu coração. Depois ela presenciou uma tia de Hamad ser espancada pelo marido por apenas receber um homem na sua casa sem usar o véu (hijab). E a gota da água foi ao ouvir a mãe de Hamad dizer que mulher libanesa não precisava estudar e muito menos trabalhar fora.

Tudo aquilo e suas pesquisas sobre o universo árabe serviram para despertar em Marina o ódio por sua cultura e forma de viver. Tudo que ela queria era fugir dali e sufocar o amor que tinha por aquele homem.

__ Seu pai tentou me convencer a ficar no pais e se casar com ele, prometeu que nossa vida seria diferente, que não seria como eu imaginava, com agressões e privações. Mas eu não queria promessas, queria viver minha vida com a liberdade que tenho. E quando descobri que estava grávida peguei o próximo voou para o brasil e deixei tudo para trás. Os estudos, os amigos e meu único amor, seu pai! (Disse Marina sem perceber que as lágrimas rolavam por seu rosto)

Aisha ouvia sua mãe com atenção, sentia muita pena dela e não se sentia bem em presenciar seu sofrimento. Tentou consolá-la com seu abraço:

__ Mamãe, mas e se as promessas de meu pai fossem verdadeiras?

Marina enxugou a face, encarou o rosto da filha:

__ Eu fugi por você! Para te proporcionar uma vida tranquila, se fosse criada na família de seu pai talvez nem estudar no ensino médio você iria!

__ A senhora disse "Talvez", portanto não tinha certeza de que tudo seria tão ruim como imaginava. Eu compreendo que tenha sofrido e sempre pensou no meu futuro. Mas ele tinha o direito de viver a paternidade que você escolheu tira-la dele...

Pela primeira vez na vida Aisha julgava sua mãe com palavras, pela primeira vez Marina sentia o peso do seu passado através da boca de sua filha. E foi muito desagradável encarar os olhos de Aisha e encontrar ali julgamento. Mais uma vez Marina subestima a filha, lhe concedendo apenas a passividade para compreender as coisas. Espera apenas compreensão e gratidão por suas decisões, mas para sua surpresa a filha lhe surpreendia o contrário:

__ O direito a paternidade é algo que nas terras árabes não se conhece como aqui no Brasil! Se você pesquisou tanto sobre a família de seu pai deveria saber que a mulher que se separa do marido não tem direito de ficar com a guarda dos filhos! Você acha que eu seria capaz de entregar você a seu pai, lhe condenando a um futuro longe de mim e infeliz? Se eu escolhesse dar a luz no Líbano, seu pai teria todo o direito sobre você e a tomaria de mim...

Aisha se mostrou tensa com o rumo que aquela conversa tomava. Uma coisa sua mãe tinha razão, ela já sabia basicamente quase tudo a respeito da cultura de seu pai e todas as coisas que sua mãe tentava justificar era parte do que Aisha já havia pesquisado. Porém Aisha não estava tão apavorada quanto sua mãe em ter consciência da realidade daquele povo. Marina esperava que a filha tivesse a mesma repulsa e revolta ao descobrir como viviam seus parentes no oriente médio e não que a filha se mostrasse insensível.

Marina se levantou do gramado, sentia uma tensão muscular muito grande próximo a nuca. Respirou fundo e voltou a olhar Aisha, que parecia tranquila mesmo diante de revelações sobre sua chegada ao mundo.

__ Eu não espero que me perdoe pelas escolhas que fiz, mas que entenda que tudo que fiz foi para protege-la! Eu amava seu pai Aisha, amei tanto que até coloquei em você o nome de uma irmã dele que morreu de anemia aos dois anos de idade e ele era muito ligado a ela. Mas, não poderia escolher entre amar um homem e sacrificar a vida da minha filha sob as regras rígidas de uma cultura que oprime mulheres. Escolhi abandonar esse amor, por sua felicidade... não me arrependo nem um dia se quer dessa escolha. Hoje você é como eu sonhei! Uma moça linda, cheia de vida, de sonhos e o mais importante: Você é livre!

Aisha não estava disposta a magoar mais sua mãe com sua forma de compreender aquilo. Para ela sua mãe errou mesmo achando que estava fazendo algo correto. Aisha não achava justo em esconder de seu pai que eles tiveram uma filha e que vivia há dezoito anos no Brasil.

Por essa razão depois dessa noite Aisha passou a intensificar sua pesquisa a respeito de sua família. Buscou meios de se conectar a seus parentes, descobriu uma família grande e numerosa que vivia em um vilarejo no Líbano Karaoun (também chamada de Araon ou Al Karaon) é um vilarejo localizado no Vale do Beqaa, no Sudoeste do Líbano. O vilarejo se destaca por ser banhado pela represa do rio Litani. Por longos períodos do dia e da noite em suas horas vagas Aisha desvendava os segredos da sua história que sua mãe se empenhou a ocultar por anos. Descobriu que seu pai tinha duas esposas Fatma e Karima. E com as esposas tinha no total de seis filhos. O mais velho Ali era apenas um ano mais novo que Aisha e os demais todos crianças.

Aisha era muito sozinha, sentia falta de irmãos e ao descobrir que tinha seis irmãos ficou encantada e admirava todos os dias os rostos de seus irmãos nas redes sociais. Enquanto sua mãe lhe passava uma imagem negativa dos árabes devido a sua experiência, Aisha buscava sua própria forma de interpretação de uma cultura tão diversificada. Aisha era uma moça muito inteligente e sabia que a maldade humana não estava impregnada em uma nação ou povo, a maldade para Aisha estava no ser humano independente de etnia ou religião.

Naquela noite antes de se deitar ela foi desejar boa noite a sua mãe e a flagrou bebendo uma taça de vinho. Para sua mãe se mostrar tão fraca perante o álcool era porque realmente não estava bem e o motivo disso era a conversa que elas tiveram aquela noite no gramado.

Marina bebeu um volumoso gole do vinho e sentiu satisfeita com a presença da filha aquele momento:

__ A senhora está bem? (Disse Aisha se aproximando da cama)

Marina sorriu, fez que sim com a cabeça e deixou que o choro saísse sem constrangimento na frente da filha. Aisha retirou a taça de vinho de suas mãos e a depositou sob o criado mudo.

__ Ahmad Al-Sabbah, ficaria tão orgulhoso de saber que tem uma filha tão perfeita como você! (Disse Marina acariciando o longo cabelo castanho da filha)

__ A senhora precisa deixar o passado para trás! Esse dia chegaria para nós duas. Agora o inevitável vai acontecer mamãe! Eu quero conhecer meu pai, quero tocar o rosto dele, abraçar meus irmãos... Mas isso não significa que abandonarei a senhora. Você irá comigo e estará o tempo todo ao meu lado para evitar que a família do meu pai me sequestre.

__ Está ficando louca Aisha? Eu jurei nunca mais pisar naquela terra. Esse segredo sobre você seu pai nunca saberá, eu carregarei para o túmulo e a proíbo de ir para lá entendeu?

O que Aisha digitou foi em Português, ela estava muito emocionada por estar conversando com sua irmã que se esqueceu de ir no google tradutor para converter seu dialogo em Árabe e acabou digitando tudo na sua língua. E o que ela escreveu foi assim:

__ Sou sua meia irmã! Moro no Brasil há 19 anos. Minha mãe se relacionou com seu pai no passado. Minha mãe escondeu de meu pai e de seus familiares a gravidez e fugiu para o Brasil. Faz quatro anos que acompanho vocês pelas redes sociais. Tenho muita vontade de conhecer meu pai e todos da minha família que moram ai.

Samira visualizou o texto que Aisha lhe enviou e enviou alguns emojis que se mostravam confusos. No mesmo instante Aisha retornou a realidade e tentou apagar sua mensagem, o que foi impossível já que Samira tinha visualizado segundos antes. O desespero tomou Aisha, ela se arrependera de ter feito tamanha loucura e nem poderia contar a sua mãe. Depois se acalmou ao imaginar que sua irmã não fosse inteligente o bastante para traduzir o texto que ela enviara. Pensar sobre aquilo lhe proporcionou um momento de paz, pelo menos se tranquilizou por aquela noite e adormeceu.

Durante o café da manhã Aisha chegou ao refeitório da pousada com o véu que a cigana havia perdido. Sua mãe observou a filha enquanto tomava seu café:

__ Que véu é esse? (Disse Marina ao notar o véu negro em suas mãos)

Aisha sorriu e colocou o véu sob seus cabelos e depois o prendeu no rosto deixando apenas a mostra seus olhos para fora:

__ O que a senhora acha? Fico bonita com um hijab? (Disse sorrindo para a mãe)

__ Nunca achei bonito esse véu tampando a beleza da mulher, acho uma opressão... (Disse Marina ignorando a filha que brincava com o véu)

__ Nem tudo é opressão mamãe! Algumas mulheres vêem beleza na forma como se vestem! Eu acho muito elegante, se eu usasse gostaria de ter véus de todas as cores...

Marina olha para Aisha com olhar cheio de repreensão. Tomaram seu café em silêncio e foram explorar as montanhas a cavalo. Sua mãe lhe contou que tinha uma importante conferência no Canada e não poderia leva-la, mas a deixaria na casa de sua irmã para não ficar dois meses sozinha. Aisha concordou e enquanto sua mãe lhe ditava regras de como se comportar na casa de sua tia Dália, Aisha apreciava a natureza a sua volta.

Quando retornaram do passeio e o sinal de internet da pousada se conectou ao seu celular as mensagens começaram a dar sinais. Aisha foi para a varanda e se sentou em umas das confortáveis cadeiras de balanço que havia ali. Marina lhe disse que iria tomar um banho e depois se deitar.

O coração de Aisha quase saiu para fora quando ela viu mensagens de Samira e de um outro perfil de um homem árabe que ela não conhecia. Eram muitas mensagens e o nervosismo que ela sentia não lhe possibilitou fazer a tradução com coerência. Sua alternativa era enviar as mensagens para seu professor e aguardar que ele fizesse o favor de traduzi-las.

Aisha aguardou quase uma hora a resposta de seu professor e devorou o texto traduzido de todas as mensagens. Primeiro ele traduziu as mensagens de sua irmã Samira:

Que absurdo é esse que está me dizendo?

Como pode ser minha meia irmã?

Você é brasileira?

Como achou meu perfil?

È alguma espiã?

Enviarei sua mensagem ao meu pai.

Não brinque com minha família garota!

E depois as mensagens do desconhecido árabe:

Sou o advogado da família de Ahmad Al-Sabbah, precisamos conversar!

Ahmad Al-Sabbah nunca teve conhecimento de uma filha que mora no Brasil, você poderia vir ao Líbano para realizar o exame de dna? Qual é o contato de sua mãe? O nome dela é Marina Resende?

Ahmad Al-Sabbah não tem redes sociais, mas reconheceu sua mãe em uma de suas fotos. Ele quer uma resposta com urgência. Vai assumir a paternidade. Podemos pagar sua viagem até o Líbano. Aguardamos sua resposta o mais breve possível.

Após ler e reler por muitas vezes essas mensagens Aisha estava em completo pânico. Ela havia prometido a sua mãe que não buscaria por seu pai enquanto ela vivesse. Estava tremendo e mal podia ficar com o celular em suas mãos. Uma ligação a assustou ainda mais, mas para seu alívio era seu professor Hajji:

__ Aisha que história é essa?

__ Não sei o que te dizer, mas é a pura verdade... sou filha de Ahmad Al-Sabbah. Acabei enviando mensagens a minha meia irmã e o resultado foi isso que você traduziu para mim.

__ E você está planejando ir para o Líbano? As escondidas de sua mãe, como as suas aulas de Árabe? (Perguntou Hajji)

__ Sim! Preciso conhecer meu pai, meus irmãos e sem minha mãe saber. Você é a única pessoa que poderá me ajudar...

Capítulo 3 Pérolas de ouro

E tudo saiu exatamente como planejado, Aisha inventou uma história de que iria visitar um amigo e passaria o resto das férias na sua casa. O tal amigo fictício era o professor Hajji, que foi o halib de todo o plano de fuga de Aisha. Ele se comprometeu a ajuda-la pois Aisha era uma aluna muito dedicada e divulgou em suas redes sócias seu curso de idiomas, o que o contribuiu para que ganhasse muitos alunos. Antes de pegar o voo para o Líbano, combinou de tirar muitas fotos juntos, gravaram vídeos aleatórios para confirmar a sua mãe e a sua tia que realmente estava visitando esse amigo.

O dinheiro que tinha era o que seu pai havia lhe enviado por meio de seu advogado Ali. Aisha enviou sua conta bancaria e em poucos minutos sua conta estava com uma quantia considerável de dinheiro. A viagem foi tranquila, em que ela passou a maior parte do tempo olhando as fotos de sua família libanesa.

Por alguns momentos sentia-se uma péssima filha em ter inventado uma mentira tão grande para sua mãe. Imaginava o quão apavorada ela ficaria se descobrisse o verdadeiro destino de sua filha.

Hajji passou informações importantes para Aisha se comportar como turista em terras árabes. As palavras e frases árabes que ela já dominava já era o bastante para passar uma temporada no oriente médio.

Quando chegou na plataforma de desembarque se surpreendeu com a presença de vários homens de ternos pretos segurando cartazes com seu nome. Constrangida com aquilo ela acenou para eles, que se aproximaram como se a escoltasse. O advogado Ali se apresentou:

__ Fez uma boa viagem? (Disse Ali se mostrando gentil em carregar suas bagagens até o carro)

Aisha fez que sim, estava surpresa com o fato do advogado de seu pai falar perfeitamente o português. Ela estudou tanto palavras de cortesia em árabe e foi recepcionada por alguém que fala sua língua.

Ali abriu a porta de um carro que mais parecia uma van, era cinza prateado, vidros escuros e parecia ter saído da funilaria aquele momento. O coração de Aisha estava apertado, ainda não acreditava que estava pisando nas terras de seu pai.

No carro o motorista conversava em árabe com o advogado, ela se esforçou para entender o que falavam, mas não foi possível pela emoção e medo que ela passou a sentir. Olhando pelo vidro podia contemplar a paisagem exótica do Líbano, presenciara muitos coqueiros, arbustos e palmeiras. Seu coração ainda estava aflito, ela pensava se era mesmo uma boa ideia ter mentido de maneira absurda para sua mãe e ir ao encontro de seu pai. Aisha não pensou nos riscos dessa viagem e nem mesmo na possibilidade de se tornar prisioneira em uma terra desconhecida. Pensar aquele instante naquilo a apavorou e na frente do advogado começou a chorar. Ali gentilmente tentava acalmá-la. Lhe ofereceu uma garrafa com água. Aisha aceitou a água e tentava respirar.

Depois de 15 minutos na rodovia e mais meia hora na estrada de terra e cascalho chegaram por fim em um vilarejo. A paisagem daquele lugar era como se voltasse no tempo. Não havia casas com construções modernas e nem prédios. Havia muitas crianças brincando pelas ruas estreitas, mulheres varrendo as calçadas e idosos conversando em pequenos bancos de madeira de baixo da sombra de árvores.

O carro estacionou em frente uma clínica médica. Aisha imaginava que primeiro fosse a casa de seu pai para conhece-lo, mas estava surpresa de antes realizar o exame. Ela ainda não tinha esse conhecimento sobre os árabes, mas eles eram muito desconfiados e, portanto, era normal naquela situação antes de colocar uma estranha na mansão de Ahmad Al-Sabbah, verificar com provas concretas que ela era mesmo sua filha como havia dito nas mensagens.

Ali acompanhou Aisha até a sala de exames e ela não pode perceber a presença de seu pai e seu irmão mais velho que os observava em um carro estacionado do outro lado da rua da clinica.

__ E se ela for mesmo sua filha pai? (Perguntou Zayn ao pai)

Ahmad Al-Sabbah tinha os olhos fixos em Aisha, lembrava de Marina na sua juventude ao ver Aisha. Mesmo que os exames ainda não tinham revelado o resultado, seu coração sabia que aquela moça era sua filha, sua primogênita. Fruto do verdadeiro amor que sentia por Marina.

__ Se ela for minha filha... Serei seu pai e tentarei compensar todos esses anos que vivi sem saber de sua existência... (Disse Ahmad Al-Sabbah se mostrando emocionado)

Eles deixaram o carro e caminharam em direção a clínica. Ahmad Al-Sabbah ordenou que seus homens permanecessem vigiando a entrada da clínica para que saíssem em segurança. Ali os encontrou e os convidou para se sentarem na sala de espera para aguardarem o resultado que ficaria pronto em meia hora.

__ Como ela está? (Perguntou Ahmad Al-Sabbah)

__ Muito nervosa e ansiosa! Me confessou que queria muito conhecer você e sua família, mas que veio sem o consentimento de sua mãe, e que precisa voltar ao Brasil o quanto antes. (Disse Ali)

__ Essa mulher escondeu do meu pai a filha que era dele e ainda vai querer toma-la de nós? (Disse Zayn)

__ Meu filho tem razão! Se eu tiver uma filha que foi tirada de mim há mais de dezoito anos, não permitirei que ela deixe nossas terras. (Disse Ahmad Al-Sabbah ao advogado)

Em outra sala Aisha aguardava impaciente por respostas. Estava ainda mais tensa com aquela espera, se sentindo completamente sozinha em um mundo desconhecido, como se fosse apenas um sonho tudo aquilo. Olhava com atenção o curativo do lugar onde retirou o sangue de seu braço direito. Estava confusa, se sentindo culpada por ter feito tamanha loucura em procurar por seu pai. Pensava em sua mãe, no quanto ficaria decepcionada com ela ao descobrir toda a verdade.

Uma enfermeira interrompeu seus muitos pensamentos e entrou na sala lhe mostrando o caminho para segui-la. Aisha pegou sua bolsa e a seguiu por um longo corredor. A poucos metros estava Ali, seu pai e seu irmão. Reconhecer seus rostos lhe proporcionou uma grande emoção. Ali segurava o exame em suas mãos e pela cara de surpresa que estavam eles já sabiam o resultado do exame.

Aisha não podia mais caminhar, ficou imóvel perante seu pai. Ele por sua vez foi ao seu encontro e a abraçou forte, em meio a lágrimas beijava seu rosto:

__ Allah abençoou com mais uma filha! (Disse Ahmad Al-Sabbah)

E para a surpresa de Aisha ela conseguiu traduzir perfeitamente o que seu pai lhe dizia em meio a emoção. Porém ela não conseguia dizer uma palavra sequer, estava sem ação diante da realidade que vivia. Seu irmão a cumprimentou com um aperto de mão e lhe desejou boas-vindas. Ali então lhe entregou o exame lhe confirmando que era realmente filha de Ahmad Al-Sabbah.

Aisha estava desesperada, pensou que o encontro com seu pai colocaria paz em sua alma, mas muito pelo contrário, estava ainda mais aflita. Se recusou a entrar novamente naquele carro. Que destino a levariam novamente? Precisava ligar para sua mãe, contar a verdade e retornar ao Brasil. Tentou dizer isso a Ali, com muitas palavras soltas, o nervosismo a impedia de raciocinar enquanto tentava com dificuldade se comunicar.

Ali compreendeu que ela queria ir embora, não só ele, como também seu pai e seu irmão que a observavam:

__ Aisha (Disse Ali encarando seus olhos) você fez uma longa viagem até aqui, precisa de um tempo para descansar. Vamos até a casa de seu pai e amanhã conversaremos sobre o que quiser entendeu?

Aisha estava confusa, recordava das palavras de sua mãe dizendo do quão opressor era ser mulher no oriente médio. Na época ela achava ser exagero por parte de Marina, mas aquele instante cercada pelos homens que trabalhavam para seu pai, ela teve a certeza que estava sendo oprimida sem ter feito nada. Só queria que eles entendessem que ela não poderia ficar ali, que deveria partir.

Ali insistia para que ela entrasse no carro, mas Aisha sentia muito medo de tudo aquilo, ela se afastou ainda mais se mostrando assustada. Foi então que Ahmad Al-Sabbah resolveu agir. Pediu aos homens para deixarem o local, permanecendo apenas seu filho e o advogado. Ele via o pânico nos olhos de Aisha, assim como muitas vezes presenciara esse mesmo medo nos olhos de Marina.

Ahmad Al-Sabbah abriu a porta do carro e pediu que a filha lhe obedecesse. Aisha chorando muito entrou naquele automóvel e sentiu que pela primeira vez em sua vida não poderia fazer escolhas por si própria. Um nó na garganta se formara, como se arrependera de ter enviado aquela insensata mensagem a sua irmã.

Quando chegaram a mansão de seu pai um grupo de pessoas os esperavam na frente da casa. Uma senhora idosa foi a primeira a cumprimentar Aisha, Ali a apresentou como sua avó, mãe de seu pai. Seu nome era Azura. Ela lhe deu três beijos no rosto e pronunciou palavras árabes, lhe desejando prosperidade e vida longa.

Seus tios e tias, primos e parentes próximos da família estavam presentes para recebe-la. Seus irmãos e irmãs ao lado das esposas de seu pai a surpreendeu com abraços calorosos. Aisha estava atônita com tudo aquilo e era emoção demais para poder suportar e acabou desmaiando na frente de todos. Foi amparada por Ali que a levou às pressas para um quarto.

Quando voltou em si, muitas mulheres estavam cercando a cama, sua vista ainda estava embaçada, via nitidamente as cores dos véus, as joias realizaram contra a luz e segundos depois pode ver seus rostos. Sua irmã Samira as apresentou:

__ Essa é minha mãe Karima, essa minha tia Fatma que também é esposa de meu pai. E eu sou Samira. Você já me conhece. Quando me enviou as mensagens achei que fosse alguma brincadeira, mas agora sei o quanto tu és verdadeira. Fico feliz em ser abençoada com mais uma irmã! Minhas irmãs são muito pequenas e vai ser muito interessante ter uma irmã quase da minha idade...

Aisha ainda estava chocada com tudo e não conseguia responder a sua irmã nem mesmo um obrigada "shukran".

As mulheres que ali estavam presente usavam vestidos longos de cores fortes, muitas joias que realizaram, em cor dourada e com certeza era ouro puro _ Imaginou Aisha enquanto observava tudo com atenção e curiosidade. Todas estavam com seu hijab. Samira se destacava ao usar um véu muito bonito, deixando uma amostra considerável de mecha loira de cabelos na testa e caindo alguns fios pelo pescoço, o que lhe deixava ainda mais bela.

Fatma e Karima as esposas de seu pai eram belas mulheres ainda jovens, permaneceram ali conversando de forma sussurrada e observando Aisha com desconfiança. Até que uma empregada entrou com uma bandeja de comida e água. Elas deixaram o quarto para que Aisha se alimentasse mais à vontade. A empregada não era de conversar e tinha a cara "de poucos amigos" apenas deixou a bandeja sobre a mesa e deixou o quarto fechando a porta.

Aisha não sentia a mínima vontade de comer aquele momento. Precisava encontrar uma forma de escapar da mansão de seu pai e retornar o mais rápido possível para o Brasil. Pegou seu celular e tinha muitas mensagens de Hajji e de sua mãe. Ela precisava acalmá-los. Primeiro respondeu as mensagens de Marina dizendo que estava bem na casa de seu "amigo", enviou as fotos que tirara antes de ir para o aeroporto aquela manhã. Isso deixaria sua mãe tranquila por algum tempo. Depois respondeu as mensagens de seu professor:

__ Estou desesperada Hajji. Meu pai não me deixa voltar. O advogado Ali disse que no dia seguinte poderei conversar com eles sobre meu desejo de voltar ao Brasil, mas estou com pouquíssimas esperanças de que retornarei...

__ Isso é muito grave Aisha e você está sozinha nessa confusão. Eu te avisei que as coisas poderiam sair do controle, mas você insistiu que queria ir até ai para conhece-los. Espera até o dia seguinte e tenta explicar a eles sobre sua necessidade de retornar ao Brasil. Tenha fé que tudo vai dar certo. Estou torcendo por você! Pode contar comigo!

Aisha respirou fundo e resolveu se levantar da cama. Apesar de zonza conseguiu caminhar até a janela. Olhou a impressionante vista daquele lugar. A mansão ficava afastada da cidade entre uma parte de floresta virgem e uma represa a poucos metros.

Por mais que estivesse assustada com o rumo que sua vida tomou diante de suas decisões, aquele lugar misteriosamente lhe fazia se sentir em casa. O medo era apenas um convite a conhecer ainda mais de perto o desconhecido. Faltava-lhe o ar ao ter consciência que poderia não ter a chance de escapar daquele lugar que mais parecia uma fortaleza. Pensar em sua mãe aumentava o seu desespero. Precisava manter a calma e pensar com sensatez sobre o que poderia fazer para amenizar a confusão que ela mesmo buscou com suas próprias mãos.

A primeira coisa que fez foi tirar sua jaqueta jeans, somente aquele momento perceberá o quanto aquele lugar era terrivelmente quente e abafado.

Havia uma majestosa penteadeira, com muitos perfumes, caixas de joias lotadas de colares de ouro, pedrarias que ela mesmo não conhecia os nomes de cada pedra que realizaram diante de seus olhos. Mas era encantador, fixou os olhos no espelho e viu-se refletida, estava pálida, com o semblante descaído. A luz do brilho daquelas joias iluminavam seu rosto sombrio e sem cor.

Um som de batidas na porta interrompeu sua observação na penteadeira de joias. Samira entrou e segurou em sua mão, sem nada dizer a levou para fora daquele quarto.

__ Há muita emoção nessa casa! Como nunca vi antes em toda nossa vida! (Disse Samira enquanto arrastava Aisha pelo longo corredor de quartos)

Quando finalmente chegaram ao salão principal, Aisha pode então se surpreender com uma festa improvisada por seu pai para lhe dar boas vindas. Em questão de minutos de sua chegada a mansão Al-Sabbah uma festa foi organizada. Os empregados em grande número espalhados pelo enorme salão serviam os convidados, que em sua maior parte eram pessoas da família e conhecidos do patriarca. Havia um grupo musical, composto por homens uniformizados de árabes tradicionais que tocavam seus instrumentos. O ritmo convidava todos para dançar e muitas pessoas já se aglomeravam perto do grupo de músicos para apreciar a melodia de perto. Algumas crianças dançavam e brincavam correndo por ambas as partes do salão. Era realmente um cenário impressionante, como se Aisha estivesse em um clube particular para uma festa. Ela estava desconfortável com a situação que nem sequer por um instante imaginou viver. Era totalmente diferente de tudo que pesquisou sobre sua nova família na internet, era ainda mais incrível viver aquela experiência nova e assustadora.

Seria essa a sensação que sua mãe sentiu quando chegou pela primeira vez no Líbano? Teria tanto medo que sua intensão fosse fugir diante dos olhos de todos? Como poderia dividir esse sentimento com ela? Ela teria seu coração machucado cheio de decepção por saber que a filha mentiu para arriscar sua vida em um lugar que ela tanto amaldiçoou.

Com os pensamentos acelerados, cheio de ressentimentos por ter mentido para sua mãe, Aisha não conseguia relaxar. Seu estômago se contorcia, lhe dava ânsia de vomito. E tentou se afastar daquela multidão que a olhavam com curiosidade.

Encontrou abrigo na parte externa da mansão, finalmente pode respirar fundo, por várias vezes, como se o ar não fosse suficiente para seu pulmão. Os olhos cheios de lágrimas embaçam sua visão, mas não deixou de ver os homens que trabalhavam para seu pai de vigília no portão principal da mansão. Precisava contar a verdade a sua mãe, sentia que algo ruim pudesse acontecer e ela se arrependeria amargamente por ter mentido daquela forma tão fria. Respirou fundo mais uma vez e pegou seu celular no bolso da calça jeans para mandar um áudio explicando tudo a Marina sobre o que ela fez, quando Ali e seu pai se aproximaram.

Aisha ficou tímida com o olhar de seu pai e do advogado sobre ela. Não saberia explicar a razão pela qual os homens árabes a intimidavam tanto e lhe deixavam vulnerável. Seria talvez por conviver com uma pessoa que os odiava tanto como sua mãe? Marina fazia os homens árabes serem os únicos vilões do universo, as histórias que ela sempre contava não deixava nenhum papel de bondade para os personagens homens. Em todas as situações Marina os colocava como opressores, agressivos, abusadores e ditadores. Na interpretação fragilizada de Aisha que cresceu ouvindo as horrendas histórias de sua mãe sobre o mundo árabe ela associou a imagem masculina como o "causador de dores". Por isso todos os adjetivos pejorativos que sua mãe lhes dava terminava com as letras "ores", opressores, ditadores...

E com essa mesma interpretação Aisha olhava com repulsa para o homem que era seu pai. Aisha se afastou a medida que eles se aproximavam e logo perceberam o pavor em seus olhos. Ahmad Al-Sabbah recuou e pediu que Ali os deixasse a sós. Ali obedeceu ao pedido de seu patrão e saiu a passos largos, retornando para o salão.

Seu pai tinha os olhos ainda mais belos pessoalmente, observou Aisha. Era um homem alto, a barba grisalha e volumosa escondia um sorriso que ele poderia ter ao contemplar emocionado a filha. Era um homem muitos poderoso, tanto de posses como de respeito em sua comunidade, porém para a filha queria parecer inofensivo, para não a assustar mais do que já se mostrava diante de si:

__ Eu guardo há dezoito anos... (Disse Ahmad Al-Sabbah)

Ele lhe entregou um envelope de cor parda, Aisha estava paralisada diante de seus olhos, mas segurou o envelope que ele lhe entregava. Aisha abriu o envelope e ficou alarmada com a fotografia que seus olhos contemplavam. Era sua mãe quando jovem, abraçada a Ahmad Al-Sabbah. Ambos jovens e apaixonados, dava para sentir o amor que tinham um pelo o outro apenas pelos olhos e pelo sincero sorriso. Aisha se deu conta então do quanto era parecida com sua mãe, o mesmo olhar meigo, o formato do rosto delicado, a cor do cabelo, até mesmo o corte que escolhera aquela época era um corte parecido com o que seu cabelo dourado estava.

__ Você é muito parecida com Marina... Eu já sabia que era minha filha, quando Samira me mostrou sua foto no celular... Pode me entender? (Disse Ahmad Al-Sabbah)

Aisha estava surpresa em ver seu pai tão fragilizado diante dela. Não combinava com um homem de aparência viril e forte como ele aquele estado precário de emoção em que se encontrava. Fraqueza era um adjetivo negativo que não poderia dar a nenhum homem árabe.

Apesar do medo, das palavras de apelo de sua mãe maldizendo a cultura árabe e os homens em geral, Aisha sentiu pena de seu pai e teve uma nítida vontade de abraça-lo aquele momento, só não o fez por estar ainda insegura diante de um completo desconhecido.

Ahmad Al-Sabbah lhe mostrou uma poltrona e pediu para que ela se acomodasse ali. Aisha caminhou devagar e sentou-se na confortável poltrona cor de carmim, sentiu seu tênis afundar no tapete de pelos. A mansão de seu pai era um verdadeiro palácio de conto de fadas, por sentia que estava sonhando ao viver tudo aquilo. Seu pai também se sentou em outra poltrona de frente a ela e ficou a observando em silêncio. Ali retornou com dois empregados que os serviram com chá.

__ Queremos que passe o contato de sua mãe, lhe contaremos a verdade sobre sua presença na mansão de Ahmad Al-Sabbah. Poderemos enviar dinheiro para que ela venha até você! (Ali dizia pausadamente em português para que Aisha compreendesse a gravidade da situação)

__ Espere! (Disse Aisha interrompendo a fala de Ali) Não quero que conte nada a minha mãe! Eu decidi por livre e espontânea vontade vir conhecer meu pai e estarei de partida na manhã seguinte.

__ Ahmad Al-Sabbah não permitirá que retorne ao Brasil. Ele assumiu a paternidade sobre você! Os documentos serão emitidos, ele pode decidir se você parte ou não de nossas terras! (Disse Ali não poupando dessa vez as palavras em português com o sotaque puramente árabe)

Aisha sorriu de nervoso e se levantou da poltrona. Encarou os olhos passivos de seu pai, que parecia já esperar por sua reação.

__ Vocês não tem direito de me prender aqui! Não sou uma criança, no meu pais dezenove anos já nos torna maior de idade para decidir por nos mesmos! Traduza em alto e bom tom ao meu pai. Não ficarei aqui! (Disse Aisha alterada pela raiva que sentia)

__ No seu pais as leis são diferentes da nossa! Aqui em nossa terra um filho é responsabilidade dos pais até o casamento. Deveria ser grata por ser filha de Ahmad Al-Sabbah. Vai te proporcionar uma vida luxuosa e confortável, muitas jovens da sua idade gostariam de ter essa sorte. (Completou Ali encarando os olhos assustados de Aisha)

Aisha não suportava mais olhar para aqueles dois homens com ar imponente a sua frente. Ela deixou aquele cômodo às pressas, buscando um lugar calmo para pensar no que poderia fazer. Estava ansiosa com o que acabara de ouvir do advogado de seu pai. Literalmente ela estava presa naquela mansão e não haveria quem pudesse salvá-la. O choro chegava com força, encostada a parede, tremendo, tentava ligar para sua mãe. "Ela me avisou sobre tudo isso... Eu fingi que a escutava, eu achava que era exagero, que era tudo da cabeça dela. Mas agora eu estou aqui, no mesmo lugar que ela esteve antes do meu nascimento... Estou sozinha e desesperada... O que eu fiz? E se eu nunca mais ver minha mãe? O que eu faço?

Sua mente estava confusa para pensar com cautela em uma solução para o problema que enfrentava. O pânico lhe dominava aquele momento e tudo que foi capaz de pensar em fazer foi fugir.

Enquanto espiava por de traz da parede para observar se enxergava seu pai ou o advogado, tentava ligar para sua mãe, mas para seu desespero o celular de Marina só dava sinal de caixa postal. Não seria correto mandar uma mensagem revelando tudo que ela estava vivendo. Marina não compreenderia. Aisha tentaria realizar a ligação com esperança de que ela pudesse atender.

Chegando devagar a saída da mansão respirou aliviada de encontrar o majestoso portão aberto. Dois homens conversavam distraidamente e não viram que ela passava por ali. O coração chegava a bater em desespero, Aisha sentia que a qualquer momento perderia as forças e fosse desmaiar. Mas se manteve firme, mesmo apavorada de medo continuou em sua fuga.

A estrada de terra a sua frente estava vazia, a poeira do chão se levantava formando pequenos redemoinhos. Aisha olhou para trás e viu a mansão de seu pai ir ficando para trás. Ele começou a correr, precisava se manter o mais longe possível das terras de seu pai e buscar ajuda na cidade. Encontrar alguma embaixada brasileira para conseguir voltar ao Brasil.

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