Chegar a Buenos Aires foi como cair num sonho esquisito, tudo era enorme, rápido e barulhento, nada a ver com Mendoza, onde a vida parecia mais calma, como se o tempo tirasse um fôlego entre uma coisa e outra.
Me mudei com um único propósito: construir minha própria independência, começar do zero numa cidade que não conheço, mas que me chama como se tivesse algo grande guardado pra mim.
Meu primeiro passo importante foi o emprego que consegui na Duvall & Associados, uma agência de publicidade top, daquelas que todo mundo menciona com respeito. Eu ainda não acreditava direito, e, embora estivesse animada, também carregava um nó no estômago que não saía por mais que eu tentasse me acalmar.
Moro com Sebastião Mendes, meu melhor amigo desde que éramos pequenos. Ele é modelo, daquele tipo que com um sorriso te convence de qualquer coisa, sempre foi como um irmão mais velho, alguém que me cuida não importa o quanto eu erre.
Quando cheguei ao apartamento que agora dividimos, ele me recebeu de braços abertos e com uma garrafa de vinho tinto, pronto pra comemorar minha chegada como se fosse o evento do ano.
O apê é pequeno, mas bonito, com paredes brancas e uma janela grande na sala que deixa ver as luzes da cidade. Amo essa vista, ela me faz sentir que estou no lugar certo.
-Ei, a gente deveria sair pra um bar hoje à noite - disse Sebas enquanto desempacotávamos umas caixas no chão da sala. Ele estava sentado no meio de um monte de coisas minhas: livros, roupas, até uma luminária velha.
-Não acho que seja uma boa ideia sair logo antes do meu primeiro dia - respondi, arrumando uns livros numa prateleira que a gente mal tinha montado. - Não quero chegar toda de ressaca ou com cara de zumbi.
- Anda, Valéria - insistiu, se apoiando numa caixa com aquele sorriso dele que sempre me faz hesitar - não tô dizendo pra gente se acabar de beber, só umas duas doses, algo tranquilo, tem um lugar aqui pertinho, a gente volta cedo e pronto.
Eu o olhei de canto de olho. Sebastião era impossível de ignorar: alto, magro, corpo bem definido, com o cabelo escuro que sempre fica um pouco bagunçado e uns olhos verdes que parecem saídos de um filme. Mas, pra mim, ele é só o Sebas, o amigo que me viu chorar como louca quando terminei com meu ex e que ainda está aqui, do meu lado, como se nada tivesse acontecido.
- Não sei, Sebas - falei, ainda em dúvida - acabei de chegar nessa cidade, e quero estar cem por cento amanhã.
- Tá bom, você venceu - respondeu, levantando as mãos como se estivesse se rendendo - mas amanhã, depois do trabalho, a gente vai comemorar, hein? Se tudo der certo, claro.
- Beleza, isso me agrada mais - falei, sorrindo - se eu conseguir sobreviver ao dia, aí sim a gente comemora.
- Perfeito. Amanhã faço algo especial pro jantar - disse ele, me dando uma piscadela enquanto se levantava do chão.
- Você cozinhando? - perguntei, erguendo uma sobrancelha. Sebas tinha muitas qualidades, mas cozinhar não era uma delas. Uma vez, ele tentou fazer uns tacos em Mendoza e acabamos pedindo pizza porque ele queimou a carne.
- Claro, vou estrear essa belezura de cozinha - respondeu, apontando pra cozinha do apê, que é pequena mas moderna, com uma bancada de granito que parece saída de uma revista - ali não tem como dar errado.
- Humm... - falei, não muito convencida, mas sorri e não quis discutir mais. A gente veria como ele se sairia com esse plano.
Naquela noite, depois de desempacotar o básico, me sentei na minha cama com minha agenda nas mãos, querendo revisar tudo uma última vez antes de dormir. Tinha anotado o nome do meu novo chefe, Martín Gallardo, o diretor criativo da agência. Chequei minha roupa - uma calça preta e uma blusa branca simples, mas elegante -, minha bolsa com os papéis que precisava e até o mapa do metrô, por via das dúvidas.
Vi que a empresa se chamava Duvall & Associados, e pensei que "Duvall" seria o dono ou algo assim, mas não dei muita importância, estava tão focada no que vinha pela frente que não prestei atenção em mais nada.
Me deitei na cama, olhando o teto do quarto, o barulho da cidade entrava pela janela, era um zumbido constante de carros e vozes que nunca parava. Fechei os olhos e respirei fundo, amanhã seria meu primeiro dia, meu grande começo, eu não sabia o que esperar, mas estava pronta pro que viesse.
Na manhã seguinte, acordei antes do despertador tocar, não sei se foi pelos nervos ou porque o colchão novo ainda parecia estranho, mas não consegui ficar na cama nem mais um minuto. Me levantei, vesti um jeans, um moletom e meus tênis favoritos, e decidi sair pra caminhar um pouco antes de me arrumar pro trabalho, queria conhecer um pouco a cidade, senti-la com calma antes que tudo ficasse louco.
Buenos Aires me acertou em cheio desde o primeiro passo, os prédios eram tão altos que parecia que tocavam o céu, e as ruas estavam cheias de gente que ia e vinha como se tivesse pressa pra viver.
Comprei um café numa cafeteria perto do apê, depois comecei a caminhar sem rumo certo, só pra ver como esse lugar pulsava.
Enquanto andava pelas calçadas, me perdi nos meus pensamentos, lembrei de Mendoza, das tardes tranquilas no quintal de casa, tomando mate, pensei nos meus irmãos, que com certeza estavam ocupados com suas coisas, e nos meus amigos, que tinham se despedido de mim com abraços e promessas de virem me visitar.
Deixar tudo isso tinha sido difícil, mas também me animava estar aqui, numa cidade tão viva, tão diferente. Sim, eu trazia nervos, mas também uma esperança que me aquecia o peito.
Passei por uma pracinha pequena com uma fonte no centro, havia pombas por todos lados, e um senhor jogava migalhas de pão desde um banco. Parei um segundo pra olhar, era um dia bonito, daqueles que te fazem pensar que tudo vai dar certo.
De repente, enquanto andava por uma rua, ouvi uma freada forte, levantei a vista e vi um carro de luxo, preto e brilhante, parar de uma vez bem na minha frente.
Fiquei parada como estátua, sem saber se atravessava ou esperava. Antes que eu pudesse decidir, uma mulher desceu do carro com pressa, tinha o cabelo loiro bagunçado, gritava alguma coisa, mas eu não conseguia entender o quê, porque o barulho da rua engolia as palavras dela.
Tentei me afastar, não queria me meter em confusão alheia, mas aí a porta do carona abriu de supetão e um homem desceu com uma expressão que me gelou o sangue.
Ele era alto, com um terno preto que caía perfeito, o cabelo escuro penteado pra trás, e os olhos... aqueles olhos azuis, juro, eram tão frios quanto gelo. Ele parecia dominante, como alguém que manda e pronto, sem ninguém dizer o que fazer.
Fiquei pasma, com o café ainda na mão, olhando pra ele sem querer. A mulher se aproximou furiosa e levantou a mão pra dar um tapa, mas ele segurou o pulso dela antes que ela o tocasse.
Não parecia bravo, mais controlado, como se estivesse acostumado a lidar com essas coisas, mas tinha algo no rosto dele, uma intensidade que me deixava arrepiada.
Quis me mexer, sair dali, mas meus pés não obedeceram. Estava tão vidrada na cena que não percebi que pisei numa garrafa de vidro vazia que alguém tinha deixado na calçada. O "crac" ecoou, e o homem virou pra mim de uma vez. Nossos olhares se cruzaram, e senti como se ele tivesse me prendido com aqueles olhos gelados.
Fiquei com uma vergonha danada por ter visto algo tão pessoal, tentei desviar o olhar, fingir que não era nada, mas antes que eu pudesse escapar, ele começou a caminhar na minha direção. Meu coração disparou, e o café na minha mão tremeu um pouco. Eu não fazia ideia do que ia acontecer, mas não gostava nem um pouco da ideia de um cara tão intimidador vir direto pra cima de mim.
O homem parou na minha frente, a poucos passos, e me olhou de cima a baixo como se estivesse me estudando. Foi como se o ar ficasse mais pesado com ele por perto.
- Gostou do show? - perguntou com uma voz fria, quase debochada, como se eu fosse uma criança que ficou olhando uma piada ruim.
Fiquei vermelha, mas não de vergonha, e sim de raiva. Quem esse cara pensava que era pra falar comigo assim? Levantei o rosto e, sem pensar muito, respondi:
- Bom, se eu soubesse que ia ter espetáculo, tinha trazido pipoca.
Por um segundo, pensei que ele ia ficar bravo, os olhos dele se estreitaram um pouco, como se estivesse processando o que eu disse, mas aí, contra tudo o que eu esperava, ele soltou uma risada, daquelas que você não sabe se é de deboche ou por outra coisa.
Não disse mais nada, me lançou um olhar intenso, e depois se virou, entrou no carro e foi embora. A mulher, que ainda estava na calçada, gritou mais alguma coisa, mas ele nem olhou pra trás.
Eu fiquei ali parada, com o coração na garganta, sem saber nem o que pensar. Quem era aquele cara? Balancei a cabeça pra me livrar disso, não tinha tempo pra isso, precisava me focar no meu primeiro dia de trabalho, não num encontro esquisito com um desconhecido na rua.
Depois daquele encontro estranho na rua, fiquei ali parada, com o coração na garganta, sem saber nem o que pensar. Quem era aquele cara? Balancei a cabeça pra me livrar disso; não tinha tempo pra isso.
Olhei o relógio e o coração quase parou: estava atrasada! Não tinha percebido o quanto tinha andado, perdida nos meus pensamentos, e agora estava contra o tempo pro meu primeiro dia de trabalho.
Corri pro apartamento como se minha vida dependesse disso, desviando das pessoas e xingando baixinho cada semáforo que me parava. Como diabos eu tinha andado tanto?
Subi as escadas do prédio de dois em dois, com o suor grudando a roupa no corpo. Quando abri a porta, encontrei Sebastião jogado no sofá, olhando algo no celular com aquela cara de relaxado que às vezes me tira do sério.
- O que aconteceu com você? - perguntou, erguendo uma sobrancelha enquanto me via entrar como um furacão.
- Não tenho tempo pra explicar - falei, ofegante, enquanto revirava o armário atrás de algo decente pra vestir - me distraí andando e agora tô atrasada.
Ele soltou uma gargalhada, mas não se mexeu do sofá. Eu, por outro lado, entrei no banheiro correndo, tomei um banho rápido, rezando pra conseguir me arrumar depressa, mas quando tentei ligar o secador de cabelo, ele não funcionou. Sacudi, mas nada.
Aí vi o cabo desconectado e todo descascado na bancada, e lembrei que Sebastião tinha usado ele na noite anterior pra secar o cabelo depois de um banho eterno.
"Sebastião, eu te mato!" pensei, enquanto passava as mãos pelo cabelo molhado, me conformando que ia secar ao vento. Vesti a primeira coisa que encontrei: uma saia preta justa e uma blusa branca que, com sorte, me faria parecer profissional. Me olhei no espelho e saí correndo pra porta.
- Boa sorte, louca! - gritou Sebastião da sala, mas eu já estava descendo as escadas de novo.
Desci correndo até a estação de metrô em Callao, desviando dos portenhos que andavam como se o mundo não tivesse pressa, e bem quando cheguei na entrada, senti um estalo embaixo do meu pé.
Olhei pra baixo e vi o salto do meu sapato direito quebrado ao meio, pendurado como uma bandeira de rendição. Fiquei ali, com o salto quebrado na mão, enquanto as pessoas passavam por mim me olhando como se eu fosse uma turista perdida.
- Não acredito que isso tá acontecendo comigo! - falei entre dentes, mas não tinha tempo pra me lamentar. Tirei os sapatos, joguei dentro da bolsa e continuei andando descalça pela calçada, sentindo o asfalto quente e sujo sob meus pés.
Cada passo era humilhante, mas eu não ia deixar isso me parar. Tinha que chegar na Duvall & Associados, meu novo trabalho, e não podia me dar ao luxo de chegar atrasada no primeiro dia.
Peguei o metrô até a estação Pellegrini. Quando saí, corri as últimas quadras até a Duvall Tower. Entrei no saguão descalça, com a bolsa numa mão e a dignidade na outra, e ignorei os olhares dos seguranças enquanto entrava no elevador.
Subi até o vigésimo andar, rezando pra que ninguém notasse meu estado desastroso, e quando as portas se abriram, saí correndo pelo corredor como se estivesse sendo perseguida.
Dobrei uma esquina a toda velocidade, com a pasta do meu currículo e os documentos de admissão apertada contra o peito, e então... bum! Bati em alguém com tanta força que senti o impacto nos ossos.
A pasta escapou das minhas mãos e os papéis voaram pelo ar, se espalhando pelo corredor. Perdi o equilíbrio, certa de que ia parar no chão, mas antes de cair, uma mão forte me segurou pelo pulso e me segurou com firmeza.
Levantei a vista, ainda atordoada, e me deparei com aqueles olhos azuis que tinha visto na rua. Era ele, o desconhecido do encontro esquisito, o que tinha me olhado como se me conhecesse de uma vida passada. Agora ele me segurava, o aperto dele era quente, e por um segundo, eu não soube o que dizer. O corpo dele estava muito perto do meu, e eu podia sentir o calor que vinha através do terno impecável.
- Você de novo... - murmurou, com uma voz baixa que me fez estremecer. Tinha algo no tom dele, uma mistura de surpresa e diversão, que me deixou completamente desconcertada.
Eu, ainda tonta com o choque e furiosa pelo dia que estava tendo, me soltei da mão dele com um movimento brusco.
- Você podia olhar por onde anda! - exclamei, sem pensar no que dizia nem em quem ele era, só queria descarregar a raiva que vinha acumulando desde que me atrasara pro trabalho.
Ele me olhou fixamente, e por um instante, pensei que ia ficar bravo, mas não. Em vez disso, um sorriso quase imperceptível apareceu nos lábios dele, como se meu comentário tivesse achado graça. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, uma voz conhecida me tirou do transe.
- Senhor Duvall, estava procurando pelo senhor, aqui está nossa nova assistente.
Era Martín Gallardo, meu chefe direto, que tinha acabado de aparecer no corredor com uma cara de pânico que eu não entendi de início. Aí, as palavras dele caíram na minha cabeça como um balde de água fria.
Senhor Duvall? O cara com quem eu tinha esbarrado e com quem falei como se fosse um pedestre qualquer era Lisandro Duvall, o CEO da empresa? Senti o sangue sumir do meu corpo e se acumular nos meus pés.
Lisandro virou a cabeça pra Martín, mas os olhos dele voltaram pra mim quase na mesma hora. Tinha uma faísca no olhar dele, algo que eu não conseguia decifrar, como se estivesse me avaliando.
- Escolha interessante - disse com um tom tranquilo, quase calmo demais, enquanto me olhava de cima a baixo.
Eu não sabia se estava encrencada ou se ele estava brincando comigo. Martín, claramente nervoso, fez um gesto pra que eu o seguisse, mas antes que eu pudesse me mexer, Lisandro se inclinou na minha direção, chegando tão perto que senti o hálito quente dele contra minha orelha.
- Espero que você seja tão boa no seu trabalho quanto nos comentários sarcásticos - sussurrou, e a voz dele me atravessou como uma corrente elétrica.
Fiquei gelada, com um arrepio subindo pela espinha. Não soube o que responder, aliás, nem sabia se devia responder. Ele se endireitou, me lançou um último olhar que me deixou tremendo e se afastou pelo corredor, tranquilo, como se nada tivesse acontecido.
Martín me chamou de novo, com um tom que parecia uma súplica.
- Valéria, por favor, vem pro meu escritório.
Fui atrás dele, ainda tonta com o que tinha acabado de acontecer. Minha cabeça era um redemoinho: o que eu tinha feito? Como pude falar assim com o dono da empresa no meu primeiro dia? E, principalmente, o que tinha sido aquele sussurro? Sentia a voz dele ecoando na minha cabeça, e toda vez que lembrava, algo no meu estômago se revirava.
Na escritório, Martín me fez sentar e começou a explicar minhas tarefas: arquivar documentos, responder e-mails, coordenar reuniões. Minhas funções começariam aos poucos, eu precisava aprender antes de poder assumir alguma campanha publicitária. Era melhor isso do que nada. Meu chefe falava rápido, como se quisesse apagar o que tinha acontecido no corredor, mas eu mal conseguia prestar atenção.
Minha cabeça ainda estava naqueles olhos azuis, naquela mão forte que me segurou, naquele comentário que eu não sabia se era uma ameaça ou uma provocação.
O resto do dia passou como num nevoeiro. Fiz o que pude pra seguir as instruções de Martín e não meter os pés pelas mãos mais do que já tinha feito, mas estava exausta. Não era só o cansaço físico de ter corrido por meia Buenos Aires descalça; era a tensão daquele encontro, a sensação de que algo tinha mudado e eu não sabia o que era.
Quando saí da Duvall Tower ao entardecer, o barulho dos ônibus enchia a rua. Peguei o metrô de volta pro apartamento, espremida entre as pessoas, e tentei organizar meus pensamentos. Tinha sobrevivido ao meu primeiro dia, mas a que custo, isso eu ainda não sabia.
Naquela noite, cheguei ao apartamento e joguei a bolsa na entrada com um suspiro que parecia tirar minha alma. Sebastião estava na cozinha, abrindo uma garrafa de vinho tinto e cantarolando uma música que eu não reconheci.
- E aí? Como foi sua grande estreia? - perguntou, me servindo uma taça sem que eu pedisse.
Me joguei no sofá e peguei a taça como se fosse minha salvação.
- Foi um desastre total - falei, e contei tudo: o secador morto por culpa dele, o salto quebrado no metrô, e o choque épico com Lisandro Duvall, o CEO que eu tinha insultado sem saber quem era.
Sebastião ouviu com os olhos bem abertos, e quando terminei, soltou uma gargalhada tão alta que quase engasgou com o vinho.
- Sabe o que isso significa, né? - disse, ainda rindo - esse cara não tá acostumado a levarem resposta assim, ele vai te notar, Valéria. Tô te dizendo.
Franzi a testa e dei um gole no vinho, que aqueceu minha garganta.
- Isso é exatamente o que eu não quero - respondi, seca, embora, enquanto falava, uma parte de mim se traísse sozinha, porque, no fundo, tinha algo naquele olhar de Lisandro, no jeito que ele falou comigo, que me fazia querer saber mais. Era como se ele tivesse me desafiado, e eu, embora não admitisse nem morta, estava começando a sentir a tentação de aceitar o desafio.
Mas não, disse a mim mesma, balançando a cabeça. Eu tinha que me concentrar no meu trabalho, em construir minha vida em Buenos Aires, em não estragar tudo por causa de um homem que provavelmente esqueceria de mim no dia seguinte. Definitivamente, Lisandro Duvall era um problema que eu não precisava.
Despertei naquela manhã com o estômago embrulhado, como se tivesse tomado três xícaras de café de uma vez sem respirar. Os nervos e a decisão de não desistir brigavam dentro de mim.
Depois do meu primeiro dia desastroso na Duvall & Asociados -onde conheci Lisandro Duvall, o CEO que impunha respeito e era atraente demais para a minha saúde mental-, jurei para mim mesma que não ia deixar aquele homem me derrubar. Eu tinha chegado a Buenos Aires para recomeçar, e aquela empresa era a minha chance de mostrar o que eu valia.
Não ia permitir que uns olhos azuis frios e um comentário sarcástico me fizessem duvidar, era isso que eu repetia enquanto me vestia.
Ao chegar no escritório, o lugar estava cheio de vida. A área criativa era uma bagunça: telas com desenhos pela metade, teclados batendo loucamente e o cheiro de café pairando por todo lado, como se fosse o combustível que mantinha todo mundo funcionando.
Sentei na minha mesa, pronta para provar que dava conta, quando apareceu o meu chefe, com um sorriso que parecia dizer "calma, vai dar tudo certo".
-Valeria, bem-vinda de verdade ao time -disse ele, apoiando-se na minha mesa com uma pasta na mão-. Hoje temos uma reunião importante com a Varela Spirits, uma marca de bebidas que o Lisandro cuida. Você vai me ajudar a preparar e depois vem comigo para anotar tudo. Tá pronta?
Assenti, embora por dentro sentisse o estômago apertar ainda mais. Lisandro de novo? Era o dono da empresa, claro, mas depois do que aconteceu no corredor -quando ele se aproximou tanto que a voz dele quase queimou a minha pele-, eu não sabia como ia reagir ao vê-lo. Engoli os nervos e respondi o mais calma que consegui:
-Claro, Martín. O que eu preciso fazer?
Ele explicou que a Varela Spirits estava lançando uma nova linha de produtos e que aquela reunião era decisiva para definir a campanha publicitária. Meu trabalho era simples, mas importante: organizar os papéis, preparar a sala e anotar tudo o que dissessem.
Enquanto ele falava, eu tentava me concentrar nas palavras e não na imagem de Lisandro sussurrando no meu ouvido, com aquela voz que me deixou tremendo. "Foca, Valeria", repeti em silêncio.
Passei a manhã correndo de um lado para o outro: revisando documentos, garantindo que a sala estivesse perfeita e pedindo ao pessoal da limpeza para deixar tudo impecável.
Estava tão concentrada no que fazia que quase não percebi aquela sensação estranha subindo pela nuca, como se alguém estivesse me encarando fixamente. Levantei a cabeça e, através das paredes de vidro que separavam os escritórios, o vi. Lisandro estava parado na porta do escritório dele, do outro lado do corredor, com as mãos nos bolsos. Não se mexeu, não sorriu, só me olhou com uns olhos que pareciam me prender sem esforço.
Baixei o olhar rápido, fingindo arrumar uns papéis, o coração batendo como se quisesse fugir do peito, e me xinguei por ser tão fraca. O que estava acontecendo comigo? Era só um homem.
Um homem com um rosto que parecia esculpido à mão e uma presença que ocupava todo o espaço, mas só isso. Respirei fundo e continuei trabalhando, embora não conseguisse tirar da cabeça aquela faísca no olhar dele, como se soubesse exatamente como me deixar nervosa sem nem tentar.
A hora da reunião chegou antes que eu estivesse preparada para encará-lo. Entrei na sala com meu notebook e um bloco de notas, tentando parecer profissional enquanto deixava minhas coisas numa cadeira no fundo.
O time criativo começou a chegar, conversando entre si, e Martín sentou perto da cabeceira, revisando os apontamentos. Então entrou Lisandro, e juro que o ar ficou mais pesado.
Não sei como ele conseguia, mas era como se tudo parasse por um segundo quando ele aparecia. Vestia uma camisa cinza-escura com as mangas dobradas até os cotovelos, e aquela roupa caía tão bem nele que era impossível não notar. Sentou na cabeceira da mesa, cruzou uma perna sobre a outra e me olhou por um instante antes de falar com Martín.
Tentei me concentrar em ligar o notebook, mas meus dedos tremeram ao digitar a senha. "Calma, Valeria", repeti na cabeça. Não ia deixar que ele me afetasse de novo. Mas então senti alguém se movendo atrás de mim. Virei, e lá estava ele, a poucos passos, com aquela calma que me tirava do sério.
-Já se acostumou com a empresa ou ainda tá procurando alguém pra perturbar? -disse ele, com a voz baixa e um toque sarcástico que me fez travar a mandíbula. Aquele meio sorriso dele estava lá, mal desenhado no rosto, como se adorasse me ver reagir.
O coração deu um pulo, mas levantei o queixo e respondi o mais serena que pude:
-Eu não costumo perturbar ninguém... a menos que peçam.
Os olhos dele brilharam com algo que não entendi direito. Estava se divertindo? Gostava do desafio? Deu um passo mais perto, e o cheiro do perfume dele -fresco e amadeirado- me atingiu como uma rajada. Meu corpo reagiu sem permissão, um calor subiu pelo peito que eu não consegui controlar.
-Vou ficar de olho em como você trabalha hoje -disse ele, se aproximando um pouco mais-. Espero que não me faça passar vergonha.
Quis responder algo rápido, mas Martín entrou de novo na sala e o momento se desfez. Lisandro se afastou com aquela facilidade que tinha, como se não tivesse acabado de me deixar com o pulso acelerado. Sentei de uma vez, abrindo o bloco com força demais, e tentei ignorar como as palavras dele continuavam girando na minha cabeça.
A reunião começou com Martín explicando as primeiras ideias para a campanha da Varela Spirits. Eu anotava tudo o que podia, mantendo a cabeça baixa para não cruzar com os olhos de Lisandro, que conduzia a conversa com segurança. Tudo ia bem até que chegou Leonardo Varela, o dono da marca de bebidas.
Era um homem atraente, por volta dos quarenta anos, com o cabelo tingido de um preto que não enganava ninguém e um sorriso que me deu má impressão desde o primeiro segundo. Quando me apresentaram, ele me olhou de cima a baixo como se eu fosse mercadoria.
-Valeria, que prazer te conhecer -disse, apertando minha mão mais do que o necessário-. Uma cara bonita sempre deixa essas reuniões mais suportáveis.
Senti um arrepio desconfortável, mas sorri por educação e tirei a mão rápido.
-Obrigada -respondi, com a voz mais seca do que pretendia, e voltei para o meu lugar.
Notei que Lisandro, do outro lado da mesa, franziu a testa levemente. Os dedos dele, que antes tamborilavam na madeira, pararam. O corpo dele ficou mais rígido, como se estivesse prestes a se levantar. Não disse nada, mas aquela reação chamou minha atenção. Será que o comentário de Varela o incomodou? Ou eu estava vendo coisas onde não tinha?
A reunião continuou, com Varela jogando comentários ou perguntas fora de hora toda hora. Em um momento, enquanto eu anotava, ele se inclinou para mim e sussurrou:
-Você tem um pescoço muito bonito, já te falaram isso?
O comentário me pegou desprevenida, e por um segundo fiquei paralisada. Senti o hálito dele perto demais, e uma mistura de desconforto e raiva subiu por dentro. Mas eu não ia deixar que ele me vencesse. Respirei fundo, virei a cabeça só um pouco e disse, com a voz mais calma que consegui:
-Obrigada, mas acho que é melhor falarmos do orçamento da campanha, não é?
Minha resposta foi tranquila, mas firme, e consegui trazer a conversa de volta ao que importava. Martín me olhou, e Lisandro levantou uma sobrancelha, como se não esperasse que eu lidasse tão bem com aquilo. Varela deu uma risadinha esquisita e se recostou na cadeira, mas não tentou mais nada.
Quando a reunião acabou, fiquei recolhendo minhas coisas enquanto os outros saíam. Estava cansada, mas também satisfeita: tinha sobrevivido a Varela e mostrado que conseguia me manter firme. Fechei o notebook e me preparei para ir embora, mas então ouvi a voz dele atrás de mim.
-Valeria, vem na minha sala.
Era Lisandro, parado na porta com os braços cruzados. O tom dele soava como uma ordem. Assenti e o segui pelo corredor, sentindo o coração acelerar a cada passo.
O escritório dele era impressionante: paredes de vidro com vista para a cidade, uma mesa enorme e uma poltrona de couro. Ele se sentou atrás da mesa e apontou a cadeira à frente.
-Não se aproxime de Leonardo Varela fora do trabalho -disse ele, direto, me olhando fixo nos olhos.
Cruzei os braços, irritada com o jeito que ele falou.
-Não preciso que me cuidem -respondi, erguendo o queixo-. Sei me defender sozinha.
Lisandro se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa. O espaço entre nós pareceu encolher, e o olhar dele aqueceu minha pele como se pudesse me tocar.
-Não tô te cuidando, não sou seu guardião -disse ele, com a voz tão grave que me arrepiou inteira-. Só não suporto quem não sabe respeitar.
O silêncio que veio depois foi intenso, como se o ar estivesse carregado de eletricidade, seus olhos baixaram para os meus lábios por um segundo, e minha respiração pareceu parar.