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Segredos da fazenda (Proibida para eles)

Segredos da fazenda (Proibida para eles)

Autor: Diene Médicci
Gênero: Romance
Cayenne nasceu e foi criada como uma escrava na Fazenda das Pétalas. Privada de estudar, conhecer o mundo ou ter qualquer liberdade, cresceu acreditando em tudo o que sua patroa dizia, sem imaginar que existia uma vida além das cercas da fazenda. Mas tudo começa a mudar quando os herdeiros da família retornam para passar uma temporada no lugar. Renzo, impulsivo e inconsequente, se sente imediatamente atraído pela beleza e pela ingenuidade de Cayenne. Já Alessio, mais maduro e responsável, desperta um interesse diferente - genuíno, cuidadoso e perigoso. No meio de descobertas, sentimentos proibidos e o despertar de uma nova realidade, Cayenne começa a entender que foi enganada durante toda a vida. Porém, quanto mais próxima dos irmãos ela fica, maior se torna o risco, porque a família deles jamais aceitará que uma simples "escrava" ocupe qualquer espaço entre eles.
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Capítulo 1

A fazenda Recanto das rosas, sempre foi uma referência, quando se falavam no cultivo de flores, desde a época da escravidão, até os anos dois mil, quando tudo começou a desandar.

A família Massaro que veio da Itália a décadas, sempre foi bastante elitista e preconceituosa, pelo menos alguns integrantes, eles tinham certos modos de viver e costumes, que desde o passado, eram muito inapropriados, isso foi passando de geração em geração.

Depois de um rompimento na família e uma briga entre irmãos, por herança, tudo foi incendiado, todas as plantações morreram, com pragas ou vandalismos, assim os deixando a beira da falência.

Francesco era o patriarca do pedaço dele, e nunca mais, falou com o irmão Giuseppe ou qualquer descendente, que nasceu do outro lado da cerca, com o passar dos anos, os filhos de Francesco e Egilda, foram se afastando das raízes, indo morar na cidade grande e os deixaram na fazenda.

Egilda era uma mulher de temperamento muito difícil, mesmo sem ter tantas condições financeiras, como na juventude, se mantinha como alguém que estava sempre, a cima de todos ao redor.

Sua vida foi sofrida, com um marido agressivo, que a traia muito, especialmente com as empregadas, que sofriam mais ainda, nas mãos dela, eram impedidas de sair da fazenda, até de casar, estudar, verdadeiras escravas e isso, lá pelos anos dois mil até atualmente.

Como as condições só pioraram, as últimas a trabalharem lá, foram mulheres da mesma família, teve até uma que fugiu de lá com um peão, diziam que ela era filha do patrão, algo que ninguém provou.

Já com os filhos adultos e sempre distantes, Egilda teve uma "funcionária" que era muito humilde, sem estudos, uma moça que apareceu lá, para trabalhar no pomar, e acabou ficando para servi-la e limpar a casa, em poucos meses morando lá, tentou esconder a gravidez o máximo possível, mas foi descoberta, ao dar a luz a uma menina.

Quando Egilda viu que era uma menina, gostou da idéia de a criar, para lhe servir, e seu marido já de idade avançada, não aguentava nem o próprio corpo direito, então na cabeça dela, não seria traída e nem teria que lavar um copo ou as próprias calçolas, e isso, sem pagar nem um salário.

A mãe de Cayenne, trabalhava muito e em troca, tinha um teto e comida, também um lar para sua filha, que crescia achando tudo de ruim, normal.

Cayenne foi o nome que Francesco escolheu para a menina, era um tipo de rosa, que mais cultivavam lá, no passado.

Poucas vezes no ano, Francesco e Egilda, iam visitar os filhos, que a mais de dez anos, não pisavam na fazenda, todos eles odiavam lá, na verdade. E nunca nem souberam da existência de uma menina, crescendo lá.

Quando Cayenne tinha seis anos, sua mãe quis mandá-la para a escola, mas Egilda insistiu em não deixar, dizendo que a polícia, ia tomar a menina dela, sempre inventava histórias para coagir e conseguia sem dificuldades.

Ninguém nem sabia, da existência da menina, ela foi proibida de brincar livremente, porque as vezes, passavam pessoas por lá, trabalhadores, vizinhos, então todos os dias, Cayenne ficava fechada em um quartinho, quando anoitecia, ela podia sair e era ensinada a fazer muitas tarefas, limpando a casa.

Quando ela tinha dez anos, sua mãe adoeceu, sangrou muito com hemorragia e foi para o hospital inconsciente, nunca mais voltou e quando Cayenne soube, que tinha perdido a mãe, logo foi alertada, de que cuidar da casa, era obrigação dela, ou não teria a onde morar e seria presa, torturada por policiais.

Os anos se passaram e nada mudou, a não ser o desabrochar de Cayenne, que era muito bonita, esforçada e obediente, por sorte bastante saudável, ela nunca adoecia e nem foi para lugar algum, nem a escola, médicos ou simplesmente passear, ela não conhecia o mundo real, fora daquelas cercas e muros.

Ela sabia falar muito bem, corretamente, porque era corrigida sempre, mais ler e escrever, não sabia, e claro, Egilda fazia isso, de propósito, para mantê-la com rédeas curtas, sempre incomunicável, bastante inocente e boba.

Quando Francesco caiu de cama, uma enfermeira foi contratada, Cayenne teve que mudar a rotina, ela passava o dia todo presa, trancada em um quartinho nos fundos, desenhando e dormindo, e a noite, tinha que limpar a casa, lavar roupas, cozinhar, quando o sol sumia, era a melhor hora do dia, ela podia ouvir músicas, dos discos de vinil, e ocupar sua cabeça, mesmo tão limitada. Andava pelo escuro sem medo de nada.

Todos os dias eram exatamente iguais, ela ia ao galinheiro, no pomar, andava pela fazenda como um fantasma, quando o sol nascia, a mesa do café estava sempre pronta, Egilda a acompanhava e colocava um cadeado na porta.

Cayenne nunca nem pensou em fugir ou desobedecer, as únicas coisas que ela fazia de errado, era espiar o quintal, por uma fresta na madeira da janela quando chegavam visitas e as vezes ir até uma cachoeira, que ficava na propriedade mesmo.

Quando Francesco foi internado a beira da morte, Egilda deixou instruções bem claras, de que Cayenne não poderia nunca, fazer qualquer barulho, porque os familiares iriam vir e ninguém podia saber que ela morava lá.

A chave do cadeado, ficava no pescoço de Egilda, todo o tempo. Na janela foi colocado por Cayenne mesma, seguindo ordens, uma ripa de madeira, para impedir que abrissem.

Depois que Francesco morreu, seus filhos e netos vieram passar dois dias, com a intenção de venderem tudo e dividirem, mas Egilda não aceitou, nem quis ir ficar com eles na cidade.

Deixou Cayenne trancada por dois dias, fazendo as necessidades em um balde, comendo com economia, pães, frutas e tomando água, foi quase impossível dormir durante aqueles dias, ela queria ver as visitas, ficou ouvindo muitas conversas atrás da porta, a maioria nem fazia sentido (pelo menos para ela) e os nomes, nem todos ela já tinha ouvido falar.

Além disso, Cayenne estava muito triste, porque tinha um amor fraternal por Francesco, e nem pode se despedir, todos já pareciam ter ido dormir, ela estava chorando baixinho, deitada na rede, que era sua cama, levou um susto com a janela se mexendo, ouviu uma voz masculina jovial

"Devem ter armas aqui, tenho direito de ficar com elas"

"Me ajuda abrir, vai logo mano"

Capítulo 2

Outra voz muito semelhante, disse que não deviam mexer nas coisas dos avós, começaram a conversar, falando que lá era horrível e cheirava a esterco o tempo todo, se afastaram falando que iam beber pinga, escondidos, não pareciam nem tristes pelo luto.

No outro dia todos foram embora, Egilda foi abrir a porta do quartinho, disse que queria tudo limpo e rápido. Enquanto organizava todos os quartos, que ninguém se quer estendeu uma única cama, Cayenne encontrou um colar simples preto, com tiras de couro e um pingente de vidro, com um arroz dentro, ela não sabia ler, mas viu que tinha algo escrito, achou muito legal e guardou escondido.

Se passaram alguns dias e ela percebeu que Egilda parecia triste, diferente, em uma manhã chuvosa, após deixar tudo impecável, Cayenne se aproximou apreensiva de Egilda na sala, a olhou desconcertada e disse.

- Dona Gilda, quer que eu te faça companhia?

- Não estou com sono.

- Se a senhora quiser, eu...

Egilda interrompeu, falou ríspida.

- Não! O seu lugar é lá no seu quarto.

- Nada vai mudar, enquanto eu estiver viva.

- Se você pensar, em me desobedecer, vou chamar a polícia.

- Te colocar na rua, sozinha.

- As pessoas lá fora, não gostam de gente da sua cor, você tem sorte, de poder morar aqui.

Cayenne morria de medo, nem na sala podia ficar, se a televisão estivesse ligada. Egilda trancava tudo, a dispensa com os mantimentos mais diferenciados, como doces, chocolates, balas, tudo o que era industrializado, Cayenne não conhecia o sabor, ela via as embalagens no lixo, pelo chão do quarto, até cheirava as vezes, imaginando como eram.

A sala onde ficava a televisão e o telefone, ela não podia nem limpar sozinha, Cayenne nunca nem encostava no telefone, às vezes se pegava pensando, em como ele funcionava, só ouvia Egilda conversando.

Chateada ela foi para o seu quarto, estava um pouco agitada, com os lápis de cor quase no fim, de tanto olhar o colar, conseguiu desenhar o nome, que estava no arroz "Renzo", ficou refazendo várias vezes, foi melhorando a caligrafia, deixou o desenho escondido. Alguns dias depois, Egilda entrou no quartinho, para ver se estava organizado, enquanto Cayenne tomava banho.

Sem querer ela derrubou um punhado de folhas, quando viu a inicial "R" pegou a folha, olhou uma por uma, ficou possessa de raiva, de ver o nome do neto, foi até o quintal, pegou um chicote velho de couro, quando encontrou Cayenne indo para o quarto, a mandou se ajoelhar.

Ela estava enrolada na toalha, Egilda começou a bater nela, pelo corpo todo, a onde alcançava, Cayenne não entendeu porque estava sendo punida, perguntou o que tinha feito de errado.

Egilda esfregou o papel no rosto dela, perguntando como ela conseguiu escrever aquilo, quis saber de onde, ela tirou o nome do neto dela, Cayenne falou que encontrou um colar, implorou para Egilda parar.

Entrou pegar e mostrou, pediu perdão, apanhou mais, por ter roubado o colar, ficou cheia de vergões sangrando, Egilda a ameaçou, dizendo que ia chamar a polícia no dia seguinte.

A trancou e acabou nem pegando o colar de volta, Cayenne ficou com muito medo, fez uma trouxa de lençol, com as poucas roupas que tinha, pulou a janela e fugiu de madrugada, sem saber para onde ir, ficou andando dentro da propriedade, beirando a fazenda de Giuseppe o irmão de Francesco, que já era falecido também.

Passou o dia na cachoeira, comeu mangas que colheu lá perto, quando anoiteceu, se arrependeu e foi espiar a casa, tudo estava aparentemente normal, passou a noite dormindo no quintal, quando amanheceu voltou para a cachoeira, foi deixando as cascas e caroços das mangas, em cima de uma pedra, entrou na água, para se limpar, de vestido mesmo.

Estava distraída quando ouviu um barulho de cavalo relinchando, parecia estar perto, desesperada saiu da água correndo, pegou a trouxa e correu descalça mesmo, machucou o pé o cortando, ficou escondida no mato chorando, viu um homem maduro, forte, chegando na cachoeira, usando calça jeans, camiseta pólo, botas e chapéu, ele desceu do cavalo, olhando tudo, viu as sujeiras das mangas, se abaixou e viu que algumas estavam frescas, recém chupadas, viu sangue no chão.

Ele se levantou de imediato, olhando para os lados, como quem procurava algo, falou curioso.

- Olaaaa? Quem está aí?

- Aqui é propriedade particular.

- Se eu te pegar, invadindo aqui de novo, não terá conversa.

Ela pode vê-lo melhor, estava armado, parecia ser mais velho, era grisalho, ele subiu no cavalo, ela saiu correndo desesperada, voltando para a fazenda mancando com muito medo, quando chegou, viu que tinha um carro diferente lá, ficou espiando de longe e por isso, não voltou para dentro, teve que dormir no relento, sentada, com frio e dor.

Queria ter coragem de sair da fazenda, mas não tinha noção, de como tudo era lá fora, como o carro continuou lá, ela voltou para a cachoeira, com um corte grande no pé, estava o molhando chorando de dor, quando aquele homem retornou, a surpreendendo, ele deixou o cavalo mais longe, se aproximou confuso a olhando fixamente reparando em tudo, a achou muito nova, vulnerável.

- O que está fazendo aqui? - Ele perguntou sério.

Ela o olhou desesperada, se levantou com dificuldade mancando, chorando, dava para ver, que tinha levado uma surra, ele se manteve distante, notando que ela estava muito nervosa, falou calmo.

- Qual o seu nome, menina?

- Está machucada?

- Não vá, calma.

- Precisa de ajuda!

Ela estava juntando a trouxa, tentando colocar os chinelos, ficou cabisbaixa, ele se aproximou mais, falou com pena dela.

- Sou o Fabrizio Massaro, dono dessas terras.

- Não vou te machucar.

- Você parece estar precisando de ajuda.

- Está muito machucada.

Ela o olhou séria, quando ele disse que era o dono das terras, ficou parada apreensiva e desconfiada, sem dizer uma única palavra. Ele se abaixou, falou tentando tranquilizar ela.

- Posso te levar ao hospital, vai precisar levar pontos, fazer curativo.

- Eu nunca te vi, por aqui. Quantos anos você tem?

- Como se chama?

- Só quero te ajudar, pode falar comigo.

- Ou você é muda? Não consegue falar?

Ela balançou a cabeça que sim, ele já tinha percebido, que ela estava com medo, sorriu sutilmente, falou olhando a hora no relógio.

- Você tem uma casa? Família?

Ela balançou a cabeça que sim, ele se afastou, indo para a mesma direção de onde veio. Falou a chamando com a mão.

- Vou te levar embora, venha, a minha fazenda é logo ali.

- Vai poder comer, cuidar do seu pé.

Parou a olhando intrigado

- Você quer ir ao hospital?

- Quem fez isso, com você?

- Te bateram, não foi?

Capítulo 3

Ela balançou a cabeça que não, ele estendeu a mão, falou oferecendo ajuda.

- Vem comigo, vou te ajudar.

Ainda que com medo, ela sabia que daquele jeito, não poderia continuar, e ir para casa parecia pior, apreensiva envergonhada, ela se aproximou mancando, aceitou a ajuda, estava se sentindo indisposta, ele a olhou reparando na aparência simplória, unhas sujas, roupas rasgadas surradas, cabelo ressecado em uma trança mal feita, ele parou de andar, falou preocupado.

- Posso te carregar, tudo bem?

Foi se aproximando para pegá-la no colo.

- Deve estar cansada.

- Não vou te machucar.

Ela ficou nitidamente desconfortável, nervosa, pela proximidade, mesmo que ingênua, sem ter a noção de que um homem, poderia lhe ferir, muito mais do que uma mulher.

Ele a levou para o cavalo, subiu primeiro e a levou sentada de lado, ela continuou quieta, olhando para todos os lados curiosa, quando avistou a fazenda dele, manteve os olhos colados na casa, era grande, muito bonita, com chafariz, um jardim enorme bem verde, com grama e flores muito bem cuidadas.

Tudo lá parecia ser muito bem cuidado, ao se aproximarem da casa, ele disse que ia chamar alguém, para ajudá-la, uma mulher.

Foram descendo do cavalo e entrando, ela não soltou a trouxa de lençol por nenhum momento, ficou nitidamente entretida reparando na casa, quando entraram na sala, tinha uma televisão ligada, ela parou de andar, ficou olhando fixamente, curiosa.

Fabrizio disse que já voltava, saiu andando chamando pela Glória, estava passando jornal, notícias sobre acidentes, Cayenne até deu alguns passos, para mais perto da televisão, adorou ver imagens das rodovias, tudo o que passou, a deixou muito curiosa, parecia um outro mundo.

Glória entrou na sala apreensiva surpresa, reparando na simplicidade e sujeira dela. Falou gentilmente.

- Vem menina. Vamos entrar!

- Se machucou foi?

Fabrizio ficou olhando, falou intrigado.

- A Glória vai te ajudar. Vai com ela!

Cayenne foi andando, mais aliviada por ter uma mulher junto, Glória era uma senhora, de idade mais avançada, deu para notar que era uma funcionária, também era neggra, mas de pele bem mais clara, do que a de Cayenne. Foram para um corredor grande, onde tinham vários quartos, Glória entrou em um e foi direto ao banheiro, falou olhando para trás.

- Vou te dar um banho, depois nóis passa um remédio nesses seus machucados tudo.

Cayenne ficou parada na porta do banheiro, olhando como era lindo, até com banheira, ao se ver no espelho, teve vergonha de si mesma, por estar suja, Glória a olhou gentil esperando, falou.

- Entra aqui menina, tira essa roupa.

- Vou lavar pra você.

Cayenne não queria ficar sem roupas, na frente dela, teve que abrir a boca, falou baixinho apreensiva.

- Posso tomar banho, sozinha dona Glória?

Glória sorriu, respondeu surpresa.

- Pode, mas eu num sou dona de nada aqui não.

- Vou cozinhar um arroz com frango, refogar uma verdura e volto, pra te ajudar.

- Está com fome?

- Gosta de frango?

Cayenne concordou envergonhada, apenas balançou a cabeça que sim, ficou achando que teve muita sorte, porque pessoas muito boas, estavam lhe ajudando. Trancou a porta do banheiro, entrou no chuveiro achando a água muito quente, pois estava acostumada a só tomar banho gelado, desde criança.

Tinham alguns cosméticos no box, mas ela só se lavou com água, teve medo de mexer em qualquer coisa e deixá-los bravos.

Glória e Fabrizio estavam indignados, achando que ela tinha entre quatorze a vinte anos, ele não achou possível, que ela morasse ao lado, porque nenhum vizinho a trataria daquela forma, deduziu que ela estava fugindo de algum outro lugar e acabou indo parar lá.

Quando o almoço ficou pronto, Glória foi chamá-la, levou um kit de primeiros socorros, Cayenne estava vestida com um vestido mais limpo, sentada na beirada da cama, esperando. Glória fez o curativo, colocou uma faixa protegendo o ferimento, perguntou como quem não queria nada, de onde ela estava vindo, disse que o patrão era muito bom e até poderia empregar ela, perguntou sua idade, Cayenne simplesmente não respondeu, só agradeceu o curativo.

Quando foram sair do quarto, ela pegou a trouxa de lençol, Glória com um tom de brincadeira, a mandou deixar e ficar a vontade, quando chegaram na cozinha, Fabrizio estava sentado à mesa, comendo uma pratada de arroz, com frango, ao lado tinha um pratinho com pé de frango, Cayenne gostava e logo reparou.

Ela se sentou com a boca salivando, estava faminta desde que tinha fugido, Glória a ajudou fazer o prato, deu uma coxa de frango, Cayenne não sabia comer de garfo e faca, assim que foi tentar cortar a carne, derrubou comida na mesa, muito envergonhada foi pegando com o próprio garfo, o que derrubou e voltando para o prato, falou cabisbaixa.

- Me desculpem, perdão. Vou limpar!

Fabrizio não parava de se surpreender, sorriu simpático, foi pegando a coxa dele, do frango na mão. Falou tentando deixá-la calma.

- O importante é encher a barriga.

- Pode comer, como preferir.

- Eu gosto de coxa.

Glória disse que gostava do peito, percebeu que Cayenne estava observando o pedaço de frango, perguntou desconfiada.

- O que foi menina? Tem alguma coisa aí nesse pedaço?

Cayenne a olhou, falou desconcertada.

- Não, é que eu nunca comi a coxa, e nem o peito.

- Tem gosto diferente?

Fabrizio quase se engasgou ficando até nervoso, a olhou sério, falou confuso.

- Não, é bem macio. A carne é mais saborosa, do que o peito.

- Qual parte, você já comeu?

Cayenne pegou a coxa curiosa, respondeu ingenuamente.

- Pescoço, pé, miúdos.

- Gosto de temperar com alho, cebola, coentro.

Mordeu um pedaço, sorriu espontaneamente saboreando, começou a comer um pouco rápido demais, era nítido que não tinha bons modos, Glória perguntou tentando investigar mais sobre ela.

- Você gosta de cozinhar?

- Qual sua comida preferida?

Cayenne já tinha devorado a coxa, respondeu espontaneamente.

- Preferida de fazer ou de comer?

Fabrizio estava cada vez mais preocupado, perguntou curioso.

- Você não comia, o que cozinhava? A onde morava?

- De onde você veio?

Ela ficou séria, falou cabisbaixa.

- As vezes sim.

- Eu não sei, o nome.

Glória o olhou dando sinal que não, como quem dizia para parar, ele terminou de comer, foi saindo da mesa, dizendo que ia a cidade, resolver algumas coisas, saiu da cozinha alguns instantes e logo voltou, mexendo no celular, falou sério.

- Qual o seu nome?

- Você não quer mesmo, ir ao hospital?

Ele estava falando com um amigo da polícia por mensagens, foi instruído a saber a idade e nome dela, Cayenne ficou nitidamente nervosa com as perguntas, falou cabisbaixa.

- Não precisa. A dona Glória já cuidou de mim.

- Obrigada! Não precisa se preocupar.

Foi largando o prato

- Já vou embora. Estão me esperando!

Glória se levantou as pressas, falou pegando o prato.

- Não, pode comer, eu vou pegar suas coisas pra lavar, passar e depois, você vê o que vai fazer.

Glória saiu da cozinha, Fabrizio ficou, falou apreensivo.

- Vou comprar remédios, fique aqui hoje, é muito bem vinda.

- Come, termina seu prato, pode pegar mais.

Ela voltou a sentar cabisbaixa, ouviu ele se afastando, com o celular tocando, foi espiar curiosa e o ouviu falando:

"Tem alguma menina desaparecida com essas características?"

"Entendo, sim, acho pouco provável"

"Certo, obrigado. Vou até a delegacia, pra gente prosear melhor"

Ao ouvi-lo falando dela e de delegacia, o desespero bateu, sem saber o que iria acontecer e com muito medo, ela voltou para a mesa.

Glória logo voltou com a trouxa de lençol, foi indo para o quintal, Cayenne foi atrás observando tudo, disse que preferia, ela mesma lavar suas roupas, Glória a deixou na lavanderia, disse que ia achar um frasco de remédio caseiro com arnica, demorou cerca de dez minutos.

Quando voltou para fora, Cayenne já tinha partido, levando suas coisas, desesperada ela correu mancando de volta para casa, pelo mesmo trajeto que havia feito, quando chegou, o carro diferente não estava lá, achando que Egilda estava sozinha, ela entrou pelos fundos e foi direto para o seu quartinho...

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