Lyane estava parada em frente ao espelho enquanto Theo, seu melhor amigo, arrumava os ultimos detalhes de seu vestido. Estavam em um quarto na imensa casa onde ela se casaria dali uma hora. Tudo estava pronto, os convidados estavam chegando e Lya não poderia estar mais feliz.
- To tão nervosa - ela disse sorrindo enquanto se olhava no espelho.
Theo riu - Claro que ta, vai se casar - ele se aproximou arrumando seu cabelo - Mas ta linda Ly, vai dar tudo certo.
Lya abriu um grande sorriso, não via a hora de se casar. De ser oficialmente a senhora Lyane. Ela sentia um frio na barriga só de imaginar.
Faltavam poucos minutos agora, ia dar tudo certo. Tinha que dar. Theo tagarelava com a namorada Julia que tinha chegado no quarto, do jeito que só eles sabiam se comunicar. Se sentia sortuda por ter encontrado o mesmo tipo de amor que os amigos encontraram, cumplice, parceiro, confiavel. Ela suspirou, sentindo uma emoção que nunca sentiu antes.
Ate duas batidas serem ouvidas da porta e ela se entreabrir, revelando seu noivo ali. Ele estava vestido normalmente, calça jeans e camisa azul, tinha um olhar sem graça no rosto - Paulo! Ja era pra você ta vestido! - Lya veio sorrindo ate ele.
- Theo, Julia, podem nos dar licença por alguns minutos? - ele disse serio.
Os amigos se entreolharam, olhando para Lya que assentiu sorridente e então saíram no quarto. - Você precisa se vestir, vai se atrasar!
- Lya, me escuta - a voz de Paulo parecia sombria, tensa, baixa e intensa demais. Ela não gostou.
- Aconteceu alguma coisa? - ela disse olhando nos olhos do noivo.
Paulo suspirou - Vou ser direto. Não posso me casar com você.
Lya soltou uma risada nervosa - Que brincadeira sem graça, vai logo vestir seu terno...
- Lya eu não to brincando, eu realmente não posso, eu... achei que podia mas não posso...
- Do que você ta falando ? - disse séria.
- Eu tenho... muitas coisas pra resolver, eu tentei, nesses três anos que ficamos juntos, eu tentei, achei que poderia, mas não posso eu... - ele pegou o rosto de Lya com as mãos - Eu sinto muito mesmo, jamais quis te magoar...
Lya soltou outra risada nervosa, sentindo seus olhos embaçarem - E esperou minutos antes da cerimonia pra me dizer Paulo? Diz que ta brincando comigo, por favor....
- Eu tentei, eu achei que poderia, mas não consegui... eu vou arcar com tudo, vou pagar tudo, e .... sinto muito, de verdade, mas não posso, eu vou embora...
- Você vai embora? - ela disse mais alarmada.
- Vai ser melhor assim, eu nao mereço você Lya, sinto muito por tudo isso...
Lya fechou os olhos, não conseguindo acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Sentiu o momento em que Paulo se afastou, saindo do quarto.
Ela respirou fundo, ainda anestesiada, paralisada no lugar, sentindo seu coração bater em todas as terminações nervosas. Foi quando se mexeu, olhando pela janela, vendo o noivo entrar em seu carro caro. Lya saiu correndo do quarto, descendo as escadas rapidamente, chegando ao quintal, passando pelo meio das cadeiras arrumadas para a cerimonia. Vendo o carro ir embora em alta velocidade. Paulo tinha ido embora.
Lya colocou a mão no coração, puxando a corrente do pescoço ao mesmo momento em que Theo chegou correndo e a abraçou. - Ele foi embora, foi embora mesmo, ele foi...
Theo passava a mão pelas costas de Lya, que agora chorava copiosamente em seu ombro, dando um olhar preocupado a Julia.
Lya tinha sido abandonada no altar, horas antes do casamento.
E depois daquele dia, não teve mais noticias de Paulo.
Eram quase oito horas da manhã do outro dia quando Lya estava deitada em sua cama olhando as malas prontas no canto do quarto do apartamento que ia continuar dividindo com Theo.
Ela tinha passado o outro dia ate aquele momento em estado catatonico, não quis falar com ninguem, ou receber ninguem, o unico que podia entrar ali era o amigo, que fazia aquilo naquele exato momento, com um sorriso sem graça no rosto. - Posso desfazer as malas se não quiser mexer com isso... - Lya deu de ombros. - Uma pena, você queria tanto conhecer Paris...
- Conseguiu cancelar tudo?
Theo assentiu - Menos a lua de mel, ta no seu nome... o que estava no nome dele eu consegui...
Lya fechou os olhos. "Dele". Nem o nome de Paulo arriscavam dizer.
Ela respirou fundo - Ta no meu nome não é? Ele pagou tudo?
- Pagou.
- Que horas sai o voo?
Theo olhou no relogio - Daqui uma hora e meia.
- Certo. Vou me arrumar. - disse saindo da cama.
- Pra ir onde? - Theo a olhou, confuso.
- Paris - ela disse em tom cansado entrando no banheiro.
- Quer que eu va junto?
- Não, preciso fazer isso sozinha, quando voltar eu resolvo tudo que ficou pendente.
T olhou tudo aquilo de boca aberta. A amiga se arrumou, pegou seus documentos, suas malas e foi mesmo ate o aeroporto, entrou no avião e foi ate Paris. Sozinha.
Tinha medo daquela atitude de Lya, de pensar em como ela voltaria, sabia que ela era sensivel para algumas coisas, e com certeza estava mascarando tudo, mas torcia, torcia internamente para que Lya ficasse bem, que a viagem a mostrasse que tinha um mundo pra ela conhecer, pessoas novas, novas experiencias. Torcia pra dar certo.
~
Cerca de um dia depois Lya estava parada no meio de uma praça em Paris. Claro que a primeira coisa que fez foi ir a torre Eiffel, mas agora estava completamente perdida. Ninguem falava sua lingua, e ela não falava ingles muito bem, coisa que Paulo era fluente. Ela viu um café com algumas mesas pra fora e resolveu arriscar, a barriga roncando de fome. Sentou em uma mesinha e tirou o oculos escuro do rosto. Logo uma garçonete simpatica apareceu, falando coisas que ela não conseguia entender. Ela olhava para o cardapio, olhava para a moça a sua frente, e nem dizer "cafe" estava conseguindo. Respirou fundo, frustrada. Seriam dias dificeis em Paris.
- Quer ajuda? - Lya ouviu, e poderia dizer que tava sonhando porque ouviu português, alguem falar em português ao seu lado.
Ela virou o rosto, na mesa ao lado um homem estava sentado, uma perna cruzada, um cafe em uma mão e um jornal na outra. Vestia uma camisa de linho branca sofisticada e tinha um oculos escuros no rosto e os cabelos ligeiramente jogados para o lado de um vermelho intenso ao ser tocado pelo sol. Era extremamente branco e tinha um sorriso caloroso no rosto, claramente vendo a dificuldade que Lya tinha ao se comunicar.
- Por favor - ela soltou em um baixo sussurro.
O homem se levantou, elegante, indo ate sua mesa e puxando uma cadeira - Posso? - Lya assentiu. - O que quer comer?
- Hmmm um cafe? E talvez algo salgado? Não sei o que pedir - disse com um sorriso sem graça.
O homem sorriu - Cafe é esse aqui, eles trazem sem açucar e você adoça na mesa. Eu te aconselho a comer um croissant.
- Croissant - Lya repetiu.
- Isso - o homem sorriu mais aberto e ela pode ver que o sorriso era doce e gengival.
- Eu vou pedir e você observa pra fazer depois ok? - ela assentiu e o homem chamou a garçonete outra vez, começou a fazer o pedido, falando em um francês fluente que chegava a ser sexy, Lya tinha que confessar. Aquele homem tinha uma peculiaridade unica. Ela estava hipnotizada em cada trejeito dele. Era bem a cara dela sair do Brasil pra encontrar um em Paris. Mas Lya não estava em posição de recusar ajuda então apenas aceitou.
O homem terminou de pedir e o olhou - Pedro - disse estendo a mão, que engoliu a de Lya no aperto. Ela era grande, morna e macia, e levou um arrepio involuntário em seu corpo.
- Lyane. - ela disse de volta.
- Primeira vez em Paris? - Lya assentiu - Qual o motivo da vinda?
Ela engoliu em seco - Só passeio mesmo...
- Chegou faz pouco tempo? Me mataria saber que você ta passando fome porque não consegue pedir...
Lya riu, um riso livre e solto - Cheguei hoje bem cedo.
- Sorte sua me encontrar então - Pedro disse bebendo o cafe da xicara que tinha trazido de sua mesa.
- Você mora aqui?
- No momento sim - tirou o oculos dos olhos colocando em cima da mesa, seus olhos eram de um escuro intenso que fez Lya se sentir sem graça instantaneamente - Eu sou arquiteto, vim estudar a arquitetura do local.
- Uau, isso é impressionante.- ela disse no momento em que os pedidos chegaram na mesa.
- Mais quelque chose?-a garçonete disse.
- Non, merci- Pedro respondeu e Lya piscou, voltando a atenção ao cafe a sua frente.- Merci quer dizer obrigado, acho que isso você precisa saber.
Lya rolou os olhos - Isso eu sei.
Pedro sorriu - E o que você faz da vida?
- Sou fotografa - disse dando uma mordida no croissant - Nossa isso é muito bom!
Eles continuaram conversando, Lya contou algumas coisas aleatorias sobre si,e Pedro se mostrou bem simpatico e paciente, contando sobre a cidade, os pontos turisticos, os melhores restaurantes. Ele pagou a conta do cafe e ela nem percebeu - Boas vindas a cidade. - disse se levantando e colocando o oculos de sol no rosto de novo - Eu preciso ir, mas aqui esta o meu numero - ele disse entregando um cartão - me liga se tiver em duvida de alguma coisa, ou se quiser sair pra jantar hoje a noite. - ele chegou mais perto - eu realmente espero que ligue. - sorriu e se afastou. - bienvenue a Paris, Lyane - ele disse saindo e Lya riu,vendo a silhueta elegante de Pedro se afastar. Ele era lindo, extremamente educado, a ajudou em seu momento de panico e tinha jogado um flerte nela? Era isso?
Lya só sabia que seu coração batia rapido ao mesmo tempo que apertava o papel com o numero de Pedro no peito.
- Ele pode ser um psicopata Lya! - Theo gritava com a amiga ao telefone.
- Não é, Theo, calma...
- Você não vai ligar pra esse cara! Você não é nem louca de fazer isso! Me fala o nome dele, vou pesquisar tudo sobre ele aqui...
Lyane rolou os olhos - Theo, vou desligar, depois a gente conversa.
-LYANE!
- Tchau! - ela desligou e então suspirou sentada na cama. Péssima ideia contar a Theo sobre seu encontro com o tal Pedro Tavares.
Ja estava escurecendo dentro do seu quarto de hotel, e Lya queria conhecer a cidade a noite. Nada melhor que ter um guia certo? O que de pior poderia acontecer a ela afinal? Sempre foi certinha demais e mesmo assim sofreu, porque não ser um pouquinho inconsequente? Pedro nem ninguem ali sabiam sobre ela, ou sobre seu passado, ou sobre o que tinha recem acontecido, ou sobre sua personalidade. Ela estava protegida pela ignorancia, então pegou seu celular e o cartão que ele tinha lhe dado. Mandou um simples "ola" em português. Sentindo o estomago gelar. Alguns minutos depois a resposta chegou.
"Ah, Lyane Sousa"
Lya sorriu. Digitando uma resposta: "Quer ser meu guia hoje a noite?"
*localização*
"Me encontra nesse lugar daqui uma hora"
Ela riu soprado - Mandão.
E foi tomar banho e se arrumar.
A localização dava para um restaurante muito bonito e arrumado no centro de Paris, e claro que ela pesquisou antes de ir. Saiu do taxi - que pelo menos conseguia pegar - e Pedro estava na porta, vestido com uma camisa branca embaixo de um paleto azul marinho, calças coladas e um leve sorriso no rosto - Ravi de vous revoir, Lyane Sousa. - ela corou, mesmo sem saber o que significava. Aceitando o braço que Pedro o oferecia - Bom te ver novamente Lyane - ele disse em seu ouvido, fazendo-a corar mais ainda. Ele falou com o garçom, que os levou ate a mesa reservada, e fez os pedidos, ensinando a Lyane o nome das melhores coisas.- Este macarrão que vamos comer é o melhor da cidade. Eu venho aqui sempre. - Pedro disse se arrumando na cadeira - Nâo vendem churrasco aqui, mas tem um restaurante brasileiro que posso te mostrar onde fica, se ficar com saudade da comida, alias, quanto tempo vai ficar aqui mesmo?
- Só mais seis dias na verdade, é uma viagem rapida, eu tenho alguns ensaios marcados pra fazer quando eu voltar.
- E de onde você é? La no Brasil?
- Curitiba, e você?
- São Paulo - ele disse tomando um gole do vinho que foi trazido a mesa - Tenho amigos la, minha prima Juli.. ah! Maravilha - ele disse vendo o macarrão chegando a mesa.
O garçom serviu os dois pratos apetitosos e Lyane lambeu os labios, a culinária francesa estava se saindo melhor do que esperava.
Eles comeram conversando sobre os mais diversos assuntos. era envolvente, falava com maestria sobre tudo, e Lyane ficava cada vez mais hipnotizada com tudo sobre ele. Eles sairam do resturante cerca de uma hora depois, andando nas ruas iluminadas, vendo as pessoas irem e virem, ate pararem em uma praça onde um homem tocava um acordeon, e varias pessoas dançavam ao redor dele.
Pedro estendeu a mão com uma reverencia e Lya, rindo, aceitou. Uma das mãos do desconhecido a sua frente contornaram a sua cintura e a outra pegou sua mão direta, balançando os pés ritmamente ao som do homem que tocava. Parecia a classica cena de filme onde a estrangeira se apaixona em sua viagem. A unica diferença era que Lyane sabia que nunca mais ia se apaixonar, então, só entrou na brincadeira.
Pedro a conduzia no meio da praça, arrancando sorrisos de Lyane que se entregava a dança, se sentindo leve. - Como foi o primeiro dia em Paris, Lyane Sousa?
-Melhor do que eu esperava - ela respondeu sorrindo.
- Tem o museu do louvre, podemos ver a monalisa amanhã, se você quiser.
Ela ainda sorria - Eu quero.
- Certo, vou reprogramar minha agenda pra fazer sua semana ser incrivel Lyane Sousa.
- Eu não quero atrapalhar seu trabalho Pedro...
- Ta tudo bem, eu trabalho pra mim mesmo, consigo organizar tudo, fica tranquilo Lyane Sousa - ele disse sorrindo.
- Porque fica dizendo meu nome inteiro?
- Porque é lindo, assim como você. - Pedro disse serio e Lyane abaixou a cabeça - Cedo demais? Desculpe, só quis constatar os fatos.
Ela sorriu, ainda de cabeça abaixada - Preciso ir embora, ta ficando tarde.
Ele suspirou, parando de dançar- Vem, eu chamo um taxi pra você.
Lya esperou e então entrou no taxi que Pedro chamou, depois foi embora para o hotel, meio triste pelo modo como tinha respondido ao flerte dele. Mas a verdade era que ela não queria pensar nisso, não queria pensar em alguem romanticamente tão cedo de novo. Suspirou pesado quando seu celular vibrou em sua mão. "Amigos?"
Lya sorriu, Pedro era um anjo.
"Amigos."