Prólogo
Úrsula Juliana dos Santos
Como vim parar aqui? Ninando um bebê num Moisés, no alto da tão maravilhosa favela do Adeus.
Senta que lá vem história. E ela começou exatamente há três anos, quando minha mãe morreu de um infarto me deixando órfã aos 13.
Sem pai, ela me criou fazendo faxina na casa dos granfinos na zona sul do Rio de Janeiro.Bom, quando ela morreu as coisas não mudaram muito para mim.
Ela ia trabalhar e eu ia estudar no colégio daqui da quebrada mesmo, e depois vinha para a casa da minha tia para esperar ela chegar.
Quando ela chegava, íamos para nosso barraco que era aqui pertinho. Era legal, porque só era eu e ela. Eu tinha meu canto, agora quando fui morar com minha tia, era apertado. Tinha que dividir um barraco com quatro crianças, ela e o marido, então era complicado. Não havia privacidade.
Eu passava mais tempo na rua, do que em casa.
Conheci Brian, um menino da minha idade que até os quatorze, era um bom garoto. Ajudava a mãe em casa e jogava bola na quadra debaixo de nossa casa. De havaiana no pé emendada, junto com os outros moleques.
Neste tempo, ele era alguém que você gostaria de ter por perto.Era amigo, um menino engraçado que gostava de jogar futebol e dançar funk fazendo passinhos.
Ele foi meu grande esteio quando minha mãe morreu e eu me vi sozinha, tendo que trabalhar como babá aos treze para ajudar a minha tia nas contas da casa.
Ele me fazia rir, quando eu só queria chorar. E assim começamos a ser amigos, e aos quatorze nos apaixonamos.
Aos quinze, Brian começou a mudar. Já não passava tempo com os moleques jogando bola, nem conversando comigo no portão de casa. Ele passava mais tempo no alto do morro com o irmão do que conosco. Nós ainda namorávamos, mas ele já não se dedicava a mim como antes.
Se eu disser que não reparei na sua mudança vou estar mentindo. Reparei sim, mas fingi que não estava acontecendo nada, afinal quando precisei ele estava comigo. Porque eu não podia fazer o mesmo por ele? Achei que fosse só uma fase, mas depois descobri que não era.
Nós trepamos igual Coelho no começo. Sabe como é...Adolescentes, cheios de saúde com os hormônios nas alturas. Na maioria das vezes usávamos camisinha, mas aconteceu de eu engravidar aos quinze numa das vezes que não deu tempo e ele disse que ia tirar quando chegasse a hora. Se você está lendo este relato, não acredite nisso, falha na maioria das vezes.
Então se você não quer terminar a sua vida como eu terminei, grávida aos quinze de um projeto de homem, não faça.
E o meu projeto de homem ainda tinha algo muito grave: ele era um traficante!
Como descobri isso? Quando ele começou a aparecer com presentes caros, daqueles que levaríamos uma vida inteira para conseguir dinheiro para comprar.
O que eu podia fazer?
Estava grávida, sozinha, trabalhando de babá e ganhando uma merreca, porque eu era uma menor. E ainda aguentei a minha tia falando no meu ouvido, reclamando que eu ia por mais uma boca no mundo para ela sustentar.
O que vocês fariam no meu lugar?
Aguentariam isso? Ou se mudariam para a casa do seu namorado, que era responsável pelas as enfiadas sem camisinha e deixaria ele se virar para me ajudar a criar uma criança?
Eu só sei que na época me pareceu uma boa opção. Nessa época ele já não morava com a família e sim sozinho no alto do morro.
Ele me amava... Eu sei que me amava... E não achei ruim quando ele se enveredou mais ainda pelo caminho do tráfico para me dar um conforto, que ele dizia, que a mãe de seu filho merecia.
Eu parei de trabalhar como babá, porque minha barriga começou a aparecer. E passei a ser a mulher exclusiva de um traficante. Durante a gravidez não tenho nada que falar do Brian, que agora era conhecido no morro como Fubá, devido ao cabelo sempre tingido de amarelo.
Ele era lindo! Alto, magro mas estava malhando por causa do boxe que passou a praticar constantemente, então não demoraria para pegar corpo. Era moreno de olhos azuis. Eu adorava seus olhos!
As coisas começaram a ficar estranhas depois que dei a luz ao nosso filho, Adriano Miguel.
Ele vivia com raiva porque eu estava de resguardo e recusei seus carinhos.
A partir daí as coisas ficaram estranhas. Eu sempre estava cansada, porque cuidar de um recém nascido não é mole. Eu tinha ajuda de uma amiga da mãe dele, mas não era sempre. Ele só parecia em casa para me cobrar as coisas. Porque o jantar não estava pronto, porque eu não tinha lavado a roupa. Com essas cobranças vieram as violências psicológicas, como me xingar de relaxada e porca por estar sempre fedendo a leite. Eu já não deixava ele me tocar.
A primeira surra foi bem branda. Ele só me empurrou com força na porta do banheiro e eu machuquei meu ombro.Depois disso as coisas começaram a ficar mais violentas.
Então eu chego nos dia de hoje, aos dezessete anos com um moleque de um ano para criar, e um marido violento. Que acabou de sair daqui me deixando um olho roxo de lembrança, porque eu não tive tempo de passar a camisa que ele ia usar para ir ao baile funk.
Sabe aqueles olhos azuis que eu amava? Se tornaram o meu pior pesadelo. Agora sentia medo quando eles me olhavam.
Mas eu sou guerreira. Minha mãe me criou para ser ... Para não depender de ninguém... E eu já tinha um plano todo orquestrado na minha cabeça. Hoje seria o tão sonhado dia. Eu já havia ido ao banco e aberto uma poupança. Nela estava o meu futuro. Aquele futuro que roubei do fundo falso do armário que descobri inocentemente certo dia. Ele nem fazia ideia que eu sabia daquele esconderijo.
A primeira vez que descobri, fiquei espantada com a quantidade de dinheiro que encontrei ali.
Ele nem ia sentir falta. Eu só peguei o suficiente para iniciar uma nova vida com meu filho.
Depois que eu conseguisse fugir dele, compraria uma nova identidade, procuraria um emprego, botaria Adriano numa creche e viveria a minha vida.
Minha mãe me ensinou a não ter medo de trabalhar. Então eu não tinha!
Eu só levaria o necessário, que estava separado dentro de uma mochila debaixo da cama.
Na madrugada, enquanto ele estaria no baile funk, eu desceria o morro, entraria num táxi até a rodoviária e iria embora para sempre.
Enxugo meus olhos, ponho gelo exatamente onde ele me bateu. Meu filho começa a chorar, pego ele no colo e digo.
-Não se preocupe com nada meu amor, nós vamos ser muito felizes, eu tenho certeza.
Boto ele no meu peito e limpo mais uma vez meus olhos. Vendo aquela carinha linda sugando o meu leite. Como o amo! Eu seria capaz de fazer de tudo para ele ser feliz!
Eu tenho que sair daqui antes que ele vire um saco de pancadas. Eu não vou permitir.
Capítulo 1
Seis anos depois
Juliana dos Santos
Saio do banho e escuto Eleonor me chamar.
-Ju, estou indo...
Vou até a porta do banheiro e ponho a cabeça para fora.
-Vai dar aula?
-Sim... Já estou atrasada para pegar o ônibus.
-Ok! Boa tarde amiga!
-Boa tarde!
Ela já grita saindo de casa, eu sorrio balançando a cabeça.
Saio do banheiro embrulhada na toalha e vou para meu quarto me vestir.
Pego minha calça jeans de sempre. Meu All Star e uma blusa de malha. Faço um rabo de cavalo rápido no cabelo. Hoje meus patrões disseram que querem conversar comigo. Acho que consegui a tão sonhada vaga de babá.Eles estão se mudando para os Estados Unidos, e vão levar uma das babás com eles.
É uma grande oportunidade de recomeçar, bem longe do Brasil. Apesar de não ter motivos para me desesperar em todos esses anos que moro em São Paulo, quanto maior for a distância do Rio de Janeiro, será melhor para mim.Tenho me mantido distante de holofotes, tendo uma vida tranquila e bem escondida. Não tenho redes sociais e me mantive como babá.
Não que eu precise trabalhar como uma.
Me formei a pouco tempo em Direito. Poderia fazer estágio na minha área. Mas vivo uma vida simples, porque tenho medo de ser descoberta.
Me mudar para os Estados Unidos com um visto permanente seria um sonho que tenho há bastante tempo. Lá sim, eu conseguiria viver tranquila, sem me sobressaltar, toda vez que vejo alguém parecido com ele na rua.
Me estremeço toda só em pensar nele. Eu já perdi tanta coisa na minha vida por causa deste homem, que eu não gosto nem de pensar nele.
Foco Juliana!
Eu sei que eu só preciso de um pouco de foco para seguir em frente.
Pego minha bolsa, boto ela transversal ao meu corpo e me preparo para seguir até o meu emprego.
Se Deus quiser essa vaga é minha! Eu creio!
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-Desculpe Juliana, mas achamos que Andreia tem mais condições de se adaptar à vida nos Estados Unidos do que você.
-Posso saber porque a senhora acha isso?
-Ela fala Inglês melhor, e é mais despachada. Queremos algo definitivo. E acredito que você não vá se adaptar lá.
-Não se preocupe, você não ficará desempregada. Temos um casal de amigos que está precisando de uma babá no turno da noite. Eu já marquei até a entrevista para você.- o marido dela, me entrega um papel com um endereço, um telefone com data da entrevista e o horário. -Lamentamos Juliana.
-Tudo bem Senhor! Obrigada pela oportunidade por todos esses anos. Posso me despedir das crianças?
-Claro que sim querida! Vai gostar dos seus novos patrões. Eles são muito amigos nossos. Eu não me sentiria bem em viajar e te deixar aqui desamparada.
Se ela soubesse...
Se ela soubesse que está tirando de mim uma grande oportunidade de ser feliz pela primeira vez em cinco anos, ela não faria isso.
Eu concordo com a cabeça e me encaminho até as crianças.
Enfim, a vaga não era pra mim. Mas eu vou continuar tentando. Eu nunca desisto!
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Boto mais uma garfada de macarrão com carne moída na boca e escuto a chave na porta, olho em direção a entrada e vejo Eleonor chegando.
-Boa noite amiga!
-Boa noite...
-Chegou cedo?
-Sim, sou a mais nova desempregada do pedaço...
-Ahhh não... Você não conseguiu a vaga?
-Não. Parece que Andreia fala melhor inglês que eu e é mais despachada.
Faço uma careta. Eu não engoli essa, mas tudo bem, faz parte. Talvez seja porque Andréia é branca de cabelo liso e eu preta de cabelo ruim. Mas não vou pensar muito nisso, porque não vai fazer diferença. Eu vou continuar aqui, lutando pela minha sobrevivência.
-Sinto muito amiga! Se existia uma pessoa que merecia essa vaga, era você.
-Amanhã eu tenho uma entrevista.
Parece que o casal é legal.
-Você poderia aproveitar esta oportunidade e procurar algo na sua área. Dependendo do lugar dá pra você manter a descrição, sem nenhum problema.
-Não... Eu gosto de ser babá. Estudei apenas porque precisei ocupar minha cabeça. Você sabe... E como foi a prova?
-Foi boa...
Ela fala retirando o sapato e se sentando no sofá.
Eleonor faz pós graduação em Literatura. É formada em pedagogia, e dá aula em uma escola particular na parte da tarde.
Ela também tem uma história sofrida como eu. Eu a conheci assim que comprei este apartamento. Ela era uma das inquilinas antigas e estava fazendo a sua mudança quando me mudei. Gostei dela na hora. Nos tornamos muito amigas e a convidei para dividir as despesas comigo.
É um apartamento simples, na periferia, mas é meu. E coincide bem com a minha vida tranquila e simples, que procuro manter.
-O que você está jantando?
-Macarrão com carne moída.
-Carboidrato à noite, amiga?
-Eu precisava, para aplacar um pouco a minha decepção.
-Esse casal que vai fazer a entrevista, já é certo?
-Eles disseram que sim. Vamos ver se o santo vai bater. Sabe como é né? Trabalhar como babá não é algo que dê para empregar alguém sem confiança. Se eles não forem com a minha cara, aí com certeza, eu estarei desempregada.
-Vai dar tudo certo... Não tem como não ir com sua cara... Você é uma fofa!
Ela beija a minha bochecha e vai se servir do meu macarrão com carne moída que tanto reclamou. Se sentou ao meu lado da mesa com um copo de suco na mão. Eu aponto para o macarrão e digo.
-Carboidrato a noite, Léo?
Ela revira os olhos...
-O que posso fazer? O buraco no estômago é menor do que a preguiça que estou sentindo para fazer algo.
Eu solto uma gargalhada.
Conversamos mais um pouco e depois vou para meu quarto ler um pouco. Amanhã é um novo dia!
E se Deus quis assim, quem sou eu para não aceitar seus desígnios.
*******************
Chegando no endereço, o ônibus pára na esquina, e eu assobio. Que casarão!
Ela pega quase um quarteirão inteiro da rua e está localizada num dos bairros mais chiques da cidade.
Eu estou acostumada a trabalhar com a classe alta, mas ainda me surpreendo com o tamanho das casas. E essa é enorme. Chego no portão e toco a campainha.
Vejo logo um cara de terno abrir o portão e se pôr a minha frente.
Eu levei um susto, porque o rapaz deve ter uns dois metros de altura. Senhor!
-Pois não?
-Eu tenho uma entrevista com o Senhor Pedro e a Senhora Amanda, hoje às nove horas.
-Qual seu nome?
-Ursula Juliana dos Santos. Mas pode me chamar de Juliana, não gosto muito de Úrsula.
Falo sem graça. Eu não consegui uma nova identidade quando me mudei para São Paulo, então comecei a usar meu nome do meio. Eu praticamente eliminei o Úrsula da minha vida. Só o usava quando me pediam o nome todo. Por ser um nome diferente, se Brian quisesse me achar, me acharia mais facilmente.
Pisco o olho para sair dos meus pensamentos.
-Identidade Senhorita.
Pego meu documento e entrego a ele.
-Um momento.
Ele entra pelo portão com a minha identidade e eu fico na porta.
Que merda é essa? Será que não é uma casa? Será que é uma empresa? Onde eu vim me meter?
Cinco minutos depois ele volta acompanhado por uma moça, me devolvendo a identidade.
-Seja bem vinda Senhorita. Vou te acompanhar até os patrões. Eu me chamo Mariana.
-Prazer Mariana.
Sorrio para a moça com um vestido reto preto e sapatilha. Seus cabelos são escuros e muito bem presos num coque. Deve ser empregada da casa.
Eu entro num jardim imenso, com piscina. Dois golden retriever vêm em minha direção e começam a me cheirar toda.
-Romeu e Julieta parem com isso. Desculpe Senhorita, eles não mordem mas adoram receber visitas.
-Tudo bem. -falo afagando os dois. -eu adoro cachorros.
-Que bom! -Ela sorri pra mim.
A casa tem a parte da frente toda de blindex escuro. Cercada de portas imensas. O chão é de madeira maciça. Um ambiente muito moderno e charmoso.
Vejo algumas pessoas trabalhando e alguns com terno e gravata andando de lá pra cá com pontos no ouvido. Parecem seguranças. Pelo jeito essas pessoas são famosas.
Merda! Eu não posso trabalhar com gente famosa!
Entramos num ambiente aberto cheio de sofás espalhados e uma tv enorme numa parede de tijolinhos. Acho que é a única parede do cômodo.
Uma cozinha enorme separada apenas da sala por uma parede de vidros. Tudo muito moderno e de cores sóbrias.
Uma escada no canto da casa onde nos leva para o andar superior.
-Pode se sentar aqui. -ela me indica um sofá e eu me sento. -Os patrões já estão descendo. Deseja beber algo?
-Não Mariana, obrigada!
Me sento e observo tudo.
Vejo Mariana se encaminhando para a cozinha, e da onde estou sentada dá pra ver ela pondo o avental e lavando a louça. Gostei de tudo, pelo jeito este casal não se importa com os empregados. Pelo ambiente ser aberto, parece que todos convivem em harmonia. De repente vejo uma mulher elegante descer as escadas, com um terninho cinza e saltos altíssimos. Cabelos castanhos soltos.
Ela é linda, parece uma miragem. Vem acompanhada de uma menina toda vestida de branco com um bebê de no máximo, um ano no colo.
Eu me levanto do sofá e espero ela chegar até mim. Ela vem carregando um notebook e sorri para mim quando me vê.
-Olá Juliana, seja bem vinda a minha casa. Me chamo Amanda.
Ela estende a mão para mim e eu aperto, sentindo um certo arrepio ao tocar sua pele. Que sensação estranha!
Além dela ser linda é uma mulher que exala elegância. Eu fico encantada olhando para seus olhos. Eles parecem enxergar coisas que eu quero esconder. Automaticamente olho para baixo.
É melhor não encarar esta mulher.
-Prazer em conhecê-la Senhora.
-Só Amanda, Juliana. Não gosto de formalidades, já tenho que lidar com elas o dia todo no meu trabalho.Esta é Luísa, se tudo der certo é ela que tomará conta e está é Vitória, a pessoa que fica com ela até às 16 horas. Luiza tem um pouco mais de 1 aninho. Ainda não frequenta a escola, então precisa de vigilância o tempo todo. Como eu e meu marido trabalhamos com plantões, precisamos de duas pessoas de confiança.
Eu mexo com sua mãozinha, ela olha pra mim e abre um sorriso. Que bebê lindo, parece a branca de neve do conto da Disney. Cabelos cheios de cachinhos pretos, pele muito branca e óleos meio esverdeados ou azuis. Parece que eles mudam de cor de acordo com o ambiente em que estão. Ela é linda e simpática. A babá do horário do dia também parece ser simpática. Ela é baixinha, de pele bem morena e cabelos lisos pretos.
-Desculpem o atraso.
Vejo um Deus grego se aproximando, com um short de corrida e regata. Todo molhado de suor e bebendo água de uma garrafinha.
-Este é meu marido Juliana, o atleta da casa. Não dá pra competir com as corridas. Ele sempre chega atrasado.
Ele revira os olhos e eu sorrio.Que clima gostoso. Não que o marido dela não seja gostoso... Meu Deus, que homem é esse! Alto, musculoso, moreno, cabelo castanho e os olhos, são iguais aos olhos da filha. Não dá para decifrar a cor direito. Eu fico meio chocada, porque um casal como os dois, deve parar uma festa para serem observados quando chegam.
Eu estendo minha mão para ele. Ele tira a toalhinha do ombro, enxuga a palma da mão e aperta a minha. Eu sinto minha pele arrepiar da mesma forma que senti quando apertei a mão de sua esposa.
Que coisa estranha!
-Vocês me esperam tomar uma ducha. É dez minutos.
-Não Pedro... Eu preciso ir para o fórum daqui a pouco. A Juliana não se importa se ficar desse jeito na entrevista... Não é Juliana?
Eu fico envergonhada com o questionamento. Porque? Não sei...
-Não Se... Desculpe, Amanda... Está tudo bem...
-Ok, então vamos nos sentar.
Eles se sentam e a Vitória põe Duda no chão num tapetinho que tem perto da onde estamos, se retirando em seguida. O tapetinho está cheio de brinquedos e logo a menina se distrai ali.
-Então Juliana, o que achou do horário. Seria das 16h até meia noite. Sendo que você pernoitaria aqui. Infelizmente não teria como ir para casa, por largar tarde. Mais nós vamos pagar o adicional por ser obrigada a pernoitar e também pra quando precisarmos que você cuide dela na madrugada.
-Por mim tudo bem, meu horário na casa dos meus antigos chefes era parecido. A única diferença é que o motorista me levava em casa quando dava a hora de ir embora.
-Você prefere assim? Eu tenho como te mandar embora também.
-Não. Eu até prefiro pernoitar. Pegar estrada a esta hora da noite é sempre perigoso, principalmente onde moro. Eu posso ir embora de manhã.
-Podemos fazer assim, quando preferir voltar para casa, é só dizer... -ele diz me analisando.
-Ok!
-Sua adaptação com ela acho que não vai haver problemas, já que ela gostou de você num primeiro contato. Mas na primeira semana vamos tentar ficar por perto para se houver algum problema, contornamos.
-Sim Senhora.
-Alguma pergunta que queira fazer? Os horários dela, Vitória pode te passar. Eu gostaria que ficasse com ela aqui até o horário de almoço, para que ela passasse o serviço para você. E queria saber se já pode começar na segunda. A outra menina nos deixou na mão de repente... E estamos atolados de trabalho. Mariana que tem ajudado a Vitória nesses dias.
Eu fico atordoada olhando para ela. A entrevista não está sendo nada do que imaginei. Achei que fossem fazer um interrogatório sobre a minha vida, onde moro, se tenho família, como lido com pirraças, se eu gosto de animais. Qual o método de educação que eu acho adequado e qual eles usam. Mais nada disso. Até agora ela só me passou a rotina da casa, como se o emprego já fosse certo.
-Amor, acho que está assustando a menina.
Ela pisca duas vezes, olha para o marido e depois para mim...
-Eu estou te assustando? Desculpe Juliana, eu sou muito direta...
-É porque eu achei que fosse uma entrevista não que eu já estava contratada.
-Não temos tempo para isso. Precisamos de uma babá, e você foi muito bem recomendada, queremos fazer uma experiência ... então não vejo porque não te contratar.
- É que geralmente as pessoas fazem um interrogatório num primeiro contato e a Senhora não falou nada.
-Eu confio na energia da pessoa Juliana. E eu fui com a sua cara. Em relação às perguntas, você poderia mentir todas as respostas e eu não saberia. Prefiro conhecer as pessoas no seu dia a dia. E com você não vai ser diferente. Em relação a ser perigoso para minha filha eu contratar alguém que não conheço. Não vai ser, porque não estará sozinha e quando estará terá câmeras. Então, não se preocupe com o meu jeito direto. Eu até gostaria que nos tratasse da mesma forma.
-Claro, Senhora...
-Amanda...
-Desculpe... Amanda... Posso começar na segunda sim e posso ficar até o horário de almoço.
-O uniforme é roupa branca. Depois você passa para Mariana suas medidas que ela vai providenciar seu uniforme. E precisamos conversar algumas coisas, pode nos acompanhar até o andar superior, quero te mostrar o quarto da Luísa.
-Ok.
Ela se levanta e ele também. Fazem sinal para que eu vá na frente e os dois sobem atrás de mim.
Vejo várias portas e ela abre a primeira.
-Este é nosso quarto.
Ela continua andando e abre outra porta.
-Um escritório. -Ela vai para a outra porta. -E este é o quarto de Luísa. Aqui tem espaço para você dormir se tiver, de serviço. Mas quando não estiver de serviço, nós temos uma casa nos fundos em que os empregados pernoitam. Depois Mariana te mostrará seu quarto. As outras portas daqui de cima são quartos de hóspedes.
O quarto é lindo. Todo rosinha, com móveis planejados. Uma bicama no canto do quarto. Um closet enorme e um banheiro também enorme. Tudo aquilo apenas para uma criança de um ano, quando há crianças que não tem nem berço para dormir. Meu coração aperta mas logo empurro meus pensamentos para o fundo. Não vou entrar nessa vibe agora.
-É lindo! A cara dela...
Ela sorri e se senta numa poltrona que tem no canto do berço. Faz sinal para que eu me sente na cama e o esposo dela fica de pé com as mãos no berço me olhando.
-Preciso conversar sobre o porque a outra babá pediu demissão e também sobre nossas profissões. Nós resolvemos tocar neste assunto antes de contratar outra babá para evitar mal entendidos. -Senhor! Será que eles são bandidos? Ou será que ela viu algo que não devia?-Eu e meu marido temos profissões visadas. Deu para perceber por causa dos seguranças, né?
-Achei que vocês fossem famosos! -Eu falo sendo sincera.
Pedro solta uma gargalhada.
-Infelizmente não. -Ele diz ainda rindo.
Ela ri também.
-Eu sou juíza, e ele é delegado da polícia federal. Por isso os guardas costas. Somos obrigados por causa de nossa segurança e da segurança de nosso bebê. Então se você tem algum problema com isso, é o momento de nos dizer... É importante dizer que tudo que for feito fora desta casa deve ser falado e analisado. Então quase nunca nossa filha passeia no parquinho do condomínio, por exemplo... A casa foi construída para que pudéssemos viver sem precisar sair muito daqui. Depois Mariana vai te mostrar os outros cômodos.
-Tudo bem para mim... Mas foi por isso que a outra babá saiu?
Os dois se olham, mas não falam nada. Passa um tempo e é ele que diz.
-Não, o motivo que a outra babá saiu foi que testemunhou um momento íntimo meu e da minha esposa, com nossa namorada.
Eu abro a boca, franzo a sobrancelha... O que ele quis dizer?
Ele quis dizer o que estou pensando?
Ele, a esposa e a namorada?
Como assim?
Tipo um swing?
Senhor!!!!!
Capítulo 2
Pedro Cavalcante
A menina fica chocada. Acho que ela nem entendeu o que eu quis dizer.
Bom, eu já estou acostumado a ter essa reação quando descobrem. O que vem depois dessa reação, é que são outros quinhentos.
E que mulher! Pqp!
Me deu água na boca quando a vi em pé na minha sala.
Toda no lugar, um bundão da porra, cintura fininha. A típica passista das escolas de samba. Ter Juliana como babá da minha princesa, vai ser um verdadeiro martírio. E eu sei que Amanda também ficou interessada.
Aquela ansiedade de falar tudo ao mesmo tempo, não condiz com a mulher centrada que ela é. Ela quer a menina por perto, e não vai abrir mão disso.
Ela arranha a garganta e diz:
-Eu acho que não entendi direito.
-Entendeu sim querida... Eu e meu marido temos uma namorada, podemos dizer que formamos um trisal. As vezes ela dorme aqui, e uma dessas vezes, a babá nos flagrou na sala de nossa casa. Você já percebeu que nossa casa é toda aberta, não temos paredes, só aqui em cima. Então, ela um dia nos flagrou... Ficou se sentindo ofendida mesmo sabendo de tudo, pois não escondemos nada de nossos empregados e nem de ninguém. Todos sabem do nosso modo de vida.
-Por mim tudo bem, as pessoas vivem do jeito que elas quiserem. Não tenho preconceitos contra isso. Eu mesma sou bissexual, e demorei um pouco para me aceitar. Então eu entendo bem como essas coisas podem machucar. -Ela coça a sobrancelha e continua. - Eu prefiro não dar minha opinião sobre nada disso e respeitar. A minha surpresa é porque eu nunca imaginei conversar sobre isso com meus empregadores. Desculpe se o que disse, soou como um preconceito.
Dentre todas as coisas que ela falou, eu só ouvi bissexual, agora que meu pau deu um pulo dentro do short. Mais que porra!
Olho para Amanda e ela olha para ela com aquele olhar curioso, como se quisesse desvendar tudo sobre a menina.
Merda! Já não bastasse ela ser um pedaço de mau caminho, ainda é bissexual? É pra matar qualquer casal que gosta de variar na relação.
-Então, se nos ver com nossa namorada não ficará constrangida?- Eu pergunto porque isso vai acontecer, mais dia menos dia.
Ela molha os lábios com a língua e diz.
-Não ficarei ofendida. Quando estiver trabalhando, prometo não ficar circulando pela casa. Um bom empregado deve ser invisível para seus patrões.
-Juliana, não ficamos nos agarrando na sala para todos verem. Amanda não soube se expressar direito. O que aconteceu foi um evento isolado. Então não fique constrangida.
Tive que explicar, porque soou como se fizéssemos um bacanal todos os dias. Não era assim.
-E mesmo se ficassem. A casa é de vocês... Tem o direito de fazerem o que quiserem. Eu serei discreta.
Amanda confirma com a cabeça e eu sorrio para ela.
De repente o ar ficou pesado. Não costumamos ter essa conversa com os nossos empregados, mas o que aconteceu com a babá nos deixou muito chateados.
Sabemos que ninguém tem nada a ver com o nosso estilo de vida, mas as pessoas costumam se meter e opinar onde não são chamados, isso não admitimos. Principalmente de colaboradores que nos prestam serviço.
Somos felizes assim.
-Bom, eu preciso ir trabalhar agora. Ao descer, vou chamar Vitória para te mostrar as coisas. Pode esperar aqui mesmo. E na segunda nos vemos. Seja bem vinda a equipe, Juliana!
-Obrigada Amanda!
As duas apertam as mãos e Amanda sai do quarto.
-Também preciso ir me arrumar para o trabalho. Tomara que você goste de trabalhar aqui.
-Obrigada Senhor!
Aperto a mão dela e seguro por mais tempo, segurando com a outra mão.
-Pedro, Juliana... Só Pedro!
Ela sorri e tenta tirar a mão. Eu permito, sorrindo e saindo em seguida.
Estou ferrado!
******************
Juliana dos Santos
Eu estou meio chocada com esses dois. Eles são completamente diferentes do que eu poderia imaginar.
Primeiro eu achei que fosse ser entrevistada, e não contratada de supetão. Segundo que eu nunca imaginei que fosse ter uma conversa sobre sexo num primeiro contato.
Mas posso dizer que gostei da franqueza dos dois. Gostava de pessoas que falavam as coisas na lata, que não faziam cerimônias e que não se importavam se estavam sendo diplomáticas ou não.Meus antigos chefes eram assim: diplomáticos. O que fazia com que eu nunca soubesse o que realmente passava na cabeça deles.
Mas Amanda me pareceu bem sincera. E eu gostei dela!
Agora Pedro não pude saber muita coisa. Apenas que ele era um gato gostoso. E tinha cara de ser bem sacana, porque aquela segurada de mão que ele me deu ao sair, não me soou como gentileza.
Desde que cheguei em São Paulo não havia saído com muitos homens. Eu meio que cheguei traumatizada, e precisei fazer terapia para deixar de olhar com receio, para todos os homens que davam em cima de mim.
Foi nesta época que descobri minha bissexualidade.
Era sexualmente ativa, sentia falta de relações sexuais, mais não conseguia me envolver com nenhum homem. Então descobri que relações com mulheres são muito mais fáceis do que o sexo oposto. Mas até aceitar isso, levei um tempinho.
Desde então tenho preferido sair com mulheres. Não namorei ninguém durantes esses anos, porque não quero, mas já saí com muitas mulheres e apenas alguns homens. Encontrar um exemplar masculino que acenda o meu fogo de uma hora para outra nos últimos cinco anos, foi difícil por causa dos traumas que carrego. Por isso minha surpresa pela calcinha ter ficado molhada com aquele aperto de mão e aquela olhada que ele me deu ao se despedir.
Por este homem, eu fazia sacrifício!
Ô se fazia...
"Que isso Juliana? Está dando em cima de seus patrões? Que merda é essa?Eles são casados."
Bom , isso não é problema para eles.
"Mas eles tem uma namorada."
Bom, é namorada, não tem compromisso sério com ela. Ou tem?
Saio dos meus pensamentos e vejo Vitória se aproximando com Luísa no colo.
-Olá...
-Oi... Vim te passar o grosso do trabalho. Tudo bem, ou eles te assustaram?
Eu solto uma gargalhada.
-Deu pra perceber né?
-Sim, porque quando vim trabalhar aqui, eles me assustaram também. Mas depois eu me acostumei...
-Eu acho que vou me acostumar também ...
-Eles são ótimos patrões, e pagam muito bem seus funcionários. São meio maluquinhos, mas são pessoas boas...
-E eles nem acertaram o salário comigo...
-Eu acho que vai se surpreender com o valor... Mas depois eles vão conversar com mais calma. É que Amanda tinha que ir trabalhar.
-Todos chamam eles pelo primeiro nome mesmo? Outra coisa que vou demorar para me acostumar ...
-Eu tomei uma surra quando vim trabalhar aqui. Mas me acostumei...
Eu sorrio para ela. Pego Luísa no colo e começo a brincar com ela.
-Luisa é muito boazinha, não dá trabalho nenhum... Ela se entretém com brinquedos, gosta de explorar as coisas porque começou a andar. Só temos que tomar cuidado com as coisas que ela põe na boca, mas quando chega a hora do seu soninho é na lata. Ela dorme de tarde às 14h, temos que acordá-la às 15 h. Às sete ela janta, e até às oito já está dormindo. Anotei tudo aqui neste papel. Amanda disse que vai ficar comigo até o horário do almoço, então vai ser bom que você vai observar a rotina dela.
-Ok!
E assim passamos o horário e eu já estou amando trabalhar aqui.
Só tenho que tomar cuidado com o meu fogo! Porque se envolver com patrão, não está nos meus planos.
**************************
Chego em casa às duas e deito no sofá. Vejo Léo já pronta para ir trabalhar.
-Você está saindo tarde hoje...
-Só dou aula no último tempo hoje. E aí, conta como foi?
-Consegui o emprego, mas te digo que o casal é estranho.
-Como assim?
-Você acredita que eles tem uma namorada? E que a outra babá saiu porque pegou eles transando na sala com a namorada?
Eleonor abre a boca e fecha...
-O que? Já escutou fofoca dos empregados?
-Não... Eles mesmo me contaram... Para saber se eu tinha algum preconceito por eles serem um trisal.
Ela continua me olhando espantada.
-Eu já transei com um casal... É bem legal... Mais conhecer um trisal que siga a vida junto. Nunca... Será que isso é possível? Quer dizer, se apaixonar por dois na mesma intensidade?
-Pelo jeito é, amiga!
-Já pensou? Você ama duas pessoas ao mesmo tempo? Seria uma ótima solução para os amantes espalhados no mundo...
Eu caio na gargalhada.
-Pensando por este lado...
-E fora isso? Como eles são?
-Estranhos... Não me perguntaram nada... Só me ofereceram o emprego. Disseram que gostaram da minha energia e isso basta.
-Eles são hippie?
Eu caio na gargalhada de novo.
-Eles não parecem ser hippie. A mulher é juíza e ele é um delegado. A casa é enorme, uma verdadeira mansão de filmes, cheia de seguranças.
-Amiga... Pelo menos vai estar super protegida.
-Foi o que pensei quando eles me disseram. Também terei que dormir no trabalho. Meu horário vai até meia noite.
-Isso é bom, eu sempre ficava preocupada com você na estrada voltando pra casa.
-Sim, também achei... Enfim, vamos ver no que vai dar...
-E eles são bonitos, novos ou velhos?
-Eles são novos, na faixa dos trinta. A menininha é linda e eles são gatos...
-Muito gatos?
-Muito... A mulher é um pedaço de mau caminho e o homem...
Suspiro...
- O que? Está suspirando por homem?
-Pois é... Esqueci até dos meus traumas perto dele...
-Eita amiga... São seus patrões... Não quero cortar seu barato, mas misturar prazer com trabalho nunca dá certo...
-Eles também são casados Leo...
Não é algo que vá acontecer...
-Mas você disse que não é empecilho, se os dois se interessarem...
Eu arregalo os olhos para ela.
-O que?
-Ué... Vai me dizer que você não ficou curiosa em saber como é?
-Claro que fiquei... Só pensei nisso desde que eles me disseram...
Acho até que se tornou um fetiche.Ela continua diante de meu silêncio.
- E te digo que é bem legal! Eu fico imaginando permanentemente, onde você passa a conhecer o corpo do outro e as suas particularidades.
Eu não tenho problemas com coisas diferentes durante o sexo. Eu gosto de foder, gosto de verdade... Já até realizei alguns fetiches, mas isso de transar com duas pessoas ao mesmo tempo, nunca rolou ...
-Eles tem uma namorada... Para de pôr coisas na minha cabeça, Léo...
Ela se levanta e põe a mochila nas costas.
-Não está mais aqui quem falou. Tenho que ir. Beijo!
-Beijo!
Ela pisca o olho e sai para o trabalho.
Às vezes acho que Léo tem a cabeça aberta demais. Devido ao seu passado, onde teve que se prostituir para manter um teto em sua cabeça, ela já viu muitas coisas. Fala de coisas até que nunca imaginei. Então eu não fiquei surpresa quando ela me disse que já transou com casais...
Sabe o que preciso? De uma balada... Daquelas bem pecaminosas.
Amanhã eu arrumo alguém para encher a minha cama e tiro esses dois da minha cabeça.
Afinal Léo tem razão, misturar prazer com trabalho, nunca dá certo.
Eu só preciso focar!
Sempre foi assim na minha vida.
Eu foco num objetivo e vou em direção a ele.
Meu objetivo agora é me manter empregada e é isso que vou fazer.
Me levanto do sofá e vou tomar um banho.
Seja o que Deus quiser!