A dor na minha cabeça era a primeira coisa que eu sentia, um eco fantasma do impacto.
Eu deveria estar morta. Eu me lembrava do som do metal se contorcendo e do riso de Camila, o para-brisa estilhaçando e o rosto dela, distorcido em um sorriso de triunfo.
Na vida passada, Camila, minha suposta melhor amiga, tramou contra mim. Ela plantou sementes venenosas de mentiras e falsas acusações sobre Pedro, meu noivo, me manipulando para terminar com ele.
Acreditei nela, a idiota, e joguei fora o homem que eu amava por causa de sua inveja doentia.
A culminação de sua obsessão foi quando ela me atropelou e fugiu, me deixando para morrer no asfalto, seu sorriso maligno sendo a última coisa que vi antes da escuridão.
Por que eu estava viva? Por que voltei para o dia em que anunciei meu noivado com Pedro? Era uma segunda chance... ou um pesadelo se repetindo?
Não desta vez. Eu não seria a vítima. Eu não seria a Sofia ingênua e manipulável. A dor da traição e a fúria do que ela fez me deram um novo propósito.
Peguei o celular e disquei o número de Pedro.
"Pedro, onde você está?"
Minha voz saiu firme, surpreendendo a mim mesma. Me encontre no cartório central. Em vinte minutos."
Houve um silêncio do outro lado.
"No cartório? Sofia, o que... o que vamos fazer no cartório?"
"Vamos nos casar."
Desta vez, o jogo seria jogado sob minhas regras.
A dor aguda na minha cabeça foi a primeira coisa que senti, um eco fantasma do impacto. Abri os olhos e a luz do sol da tarde entrava pela janela, iluminando as partículas de poeira no ar. Meu quarto. Eu estava no meu quarto.
Meu corpo inteiro gelou.
Isso não era possível. O último som que eu ouvi foi o de metal se contorcendo e o riso de Camila, um som que me assombraria para sempre. O último que eu vi foi o para-brisa se estilhaçando e o rosto dela, distorcido em um sorriso de triunfo.
Eu deveria estar morta.
Minha mão tremeu quando peguei o celular na mesa de cabeceira. A tela se acendeu. A data era 23 de outubro. O dia em que anunciei meu noivado com Pedro no Instagram. O dia em que minha vida começou a desmoronar.
Um nó se formou na minha garganta. Eu estava viva. Eu tinha voltado.
As memórias da minha vida passada vieram como uma avalanche. O telefonema de Camila. As mentiras dela. As lágrimas falsas. "Sofia, amiga, eu preciso te contar uma coisa sobre o Pedro. Ele não te ama. Ele só está te usando para chegar até mim."
E eu, a idiota, acreditei. Acreditei em cada palavra da mulher que eu chamava de melhor amiga.
Terminei com Pedro por telefone. Ele ficou arrasado, confuso. "Sofia, o que está acontecendo? Do que você está falando? Eu nem conheço essa sua amiga direito."
Mas a semente da dúvida que Camila plantou era venenosa. Eu não ouvi.
Depois, vi Camila tentando se aproximar de Pedro. Ele a rejeitou, com nojo. E a raiva dela, a raiva de ser rejeitada, se voltou toda para mim. A perseguição, as ameaças veladas, e finalmente, o carro. Ela me atropelou e fugiu, me deixando para morrer na rua.
Respirei fundo, o ar enchendo meus pulmões com uma urgência que eu nunca tinha sentido antes. Desta vez, seria diferente. Eu não seria a vítima.
Não perdi um segundo. Procurei o contato de Pedro e disquei. Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca.
"Sofia? Oi, meu amor. Aconteceu alguma coisa?"
A voz dele. A voz quente e familiar que eu pensei que nunca mais ouviria. Lágrimas encheram meus olhos, mas eu as forcei a recuar. Não era hora para chorar. Era hora de agir.
"Pedro, onde você está?" minha voz saiu firme, surpreendendo a mim mesma.
"Estou saindo do escritório. Estava indo para a sua casa. Por quê? Você está bem?"
"Estou ótima. Me encontre no cartório central. Em vinte minutos."
Houve um silêncio do outro lado da linha.
"No cartório? Sofia, o que... o que vamos fazer no cartório?"
"Vamos nos casar."
"O quê? Casar? Assim? Agora? Mas e o nosso noivado? E a festa? Nossos pais?"
"Pedro, confia em mim," eu disse, e minha voz não vacilou. "Eu te explico tudo depois. Só vem. Por favor."
Outra pausa. Eu podia quase sentir a confusão dele através do telefone. Mas Pedro, meu leal e maravilhoso Pedro, sempre confiou em mim.
"Ok," ele disse finalmente, a voz ainda cheia de incerteza. "Estou a caminho. Te vejo lá."
Desliguei e pulei da cama. Troquei de roupa em um minuto, peguei meus documentos e a chave do carro. Não havia tempo para hesitar. Cada segundo era precioso.
Vinte minutos depois, eu estava na frente do cartório. Pedro chegou logo em seguida, seu carro de luxo parando bruscamente. Ele saiu, o terno perfeitamente alinhado, mas o rosto era uma máscara de confusão.
"Sofia, pelo amor de Deus, o que está acontecendo?"
Eu não respondi com palavras. Apenas peguei a mão dele e o puxei para dentro. O processo foi um borrão. Assinaturas, testemunhas que arranjamos no local, as palavras da juíza de paz. Em menos de uma hora, a certidão de casamento estava em minhas mãos. O papel era real, sólido. Uma âncora na minha nova realidade.
Pedro ainda parecia estar em choque.
"Nós... nós estamos casados?"
Eu me virei para ele e sorri, o primeiro sorriso genuíno do meu novo começo.
"Sim, meu amor. Nós estamos casados."
Peguei meu celular, abri o Instagram e tirei uma foto das nossas mãos, com as alianças improvisadas que compramos ali perto, e a certidão de casamento bem visível ao fundo.
A legenda foi simples: "Noivado? Pulamos essa parte. Felizes para sempre começa agora. Sra. Sofia Martins."
Postei.
O choque no rosto de Pedro era impagável, uma mistura de pânico e uma diversão que começava a surgir. Ele balançou a cabeça, um sorriso lento se espalhando por seus lábios.
"Você é completamente louca."
"Eu sei," respondi, sentindo um peso enorme sair dos meus ombros. "Você vai me agradecer depois."
Mal o celular voltou para o meu bolso, ele começou a vibrar. O nome na tela fez meu sangue gelar, mas desta vez, não era de medo. Era de antecipação.
Camila.
Atendi a ligação no primeiro toque.
"Alô?"
"Sofia? Que porra de postagem é essa no Instagram? Casada? Você ficou maluca?"
A voz de Camila era estridente, cheia de uma raiva mal contida. Era exatamente como eu me lembrava da ligação na minha vida passada, a mesma falsa preocupação cobrindo um veneno puro.
"Oi, Camila. Sim, é verdade. Pedro e eu nos casamos."
Respondi com a maior calma que consegui reunir. Pedro, ao meu lado, me olhava com os olhos arregalados, tentando entender a situação.
"Como assim se casaram? E o noivado? E a festa que estávamos planejando? E os nossos amigos, nossas famílias? Você simplesmente ignora tudo e todos?"
"Foi uma decisão nossa, Camila. Uma coisa de momento."
"De momento? Sofia, isso não faz sentido! Tem alguma coisa errada. É o Pedro, não é? Ele te forçou a fazer isso?"
As memórias da vida passada surgiram com uma clareza dolorosa. Lembrei-me de estar sentada no sofá do meu antigo apartamento, o telefone na orelha, enquanto Camila tecia sua teia de mentiras.
"Amiga, eu não queria te contar isso, mas não posso deixar você cometer um erro," ela tinha dito, a voz embargada por um choro falso. "O Pedro... ele me procurou. Ele disse que estava com você, mas que a pessoa que ele realmente queria era eu. Ele achou que ficando noivo de você, eu sentiria ciúmes e correria para ele."
Lembrei-me da foto que ela me mandou. Uma foto borrada de Pedro em um bar, com uma mulher de costas que tinha o cabelo parecido com o de Camila. Na época, pareceu uma prova irrefutável. Hoje, eu sabia que era uma montagem barata, uma mentira descarada.
"Ele é um monstro, Sofia. Termina com ele. Você merece coisa melhor. Você me tem," ela concluiu, a víbora.
E a dor daquela traição me atingiu de novo, fresca como se tivesse acontecido há minutos. A dor de ter acreditado nela. A dor de ter jogado fora meu amor por causa de uma inveja doentia.
E então, a memória final. O carro acelerando. Eu caída no asfalto, o sangue se espalhando ao meu redor. Camila saindo do carro, não para me ajudar, mas para se certificar de que o serviço estava feito.
Ela se inclinou sobre mim, o sorriso dela era a coisa mais feia que eu já tinha visto.
"Sabe, Sofia, se eu não posso ter o Pedro, ninguém mais pode. Especialmente você. Você sempre teve tudo. A família perfeita, o cara perfeito. Agora você não tem nada."
Aquela revelação, o veneno puro em suas palavras, foi a última coisa que processei antes de tudo ficar escuro.
A raiva ferveu dentro de mim, uma fúria fria e calculada. Ela não apenas mentiu e manipulou. Ela tentou me assassinar. Por inveja.
"Sofia? Você está aí? Está me ouvindo?" a voz de Camila me trouxe de volta ao presente.
Meu aperto no celular se intensificou. Uma nova determinação tomou conta de mim. Eu não ia apenas me proteger desta vez. Eu ia fazê-la pagar. Por tudo.
"Estou ouvindo, Camila," eu disse, minha voz agora sem qualquer traço de hesitação. "Na verdade, estou feliz que você ligou. Eu queria mesmo falar com você."
Discretamente, com a outra mão, ativei a gravação de chamadas no meu celular. Era um aplicativo que eu tinha instalado por segurança no trabalho e nunca usado. Até agora.
"Falar comigo? Sobre o quê? Sobre como você jogou sua vida no lixo por um cara que não vale nada?"
"Não, Camila. Sobre você."
Um pequeno sorriso se formou nos meus lábios. O jogo tinha começado. Mas desta vez, eu conhecia todas as regras. E todas as jogadas sujas dela.
"Quero entender essa sua... preocupação toda. Você parece mais chateada do que eu com o meu próprio casamento."
Deixei a isca no ar. E, como o peixe faminto que era, ela mordeu.