(Ponto de vista de Elara)
Finalmente vou me livrar de dividir a cama com o diabo.
Essa era a única frase que passava pela minha cabeça quando o táxi parou em frente ao edifício de vidro e aço que carregava o sobrenome dele em letras douradas. Martinelli Corporate.
O sol da manhã refletia nas janelas como se o próprio prédio quisesse me cegar de propósito, ou talvez fosse só uma metáfora barata para o inferno que eu estava prestes a deixar para trás.
Peguei a pasta de couro no banco ao lado. Dentro dela, a salvação.
Três anos. Três anos de contratos assinados à meia-noite, de sorrisos ensaiados para fotografias de festas beneficentes, de noites em que eu dormia na ponta extrema do colchão king size para não encostar no diabo que dividia o mesmo edredom.
Hoje isso acabava.
O segurança me reconheceu e abriu a porta com um aceno tímido. Eu nem lembrava o nome dele. Fazia questão de não lembrar de nada que pertencesse àquele universo. O elevador privativo cheirava a dinheiro velho – aquele perfume amadeirado que Ian Martinelli usava e que eu aprendi a odiar antes mesmo de saber o nome dele.
No 27º andar, a porta se abriu e a secretária Mercedes levantou os olhos com um sorriso profissional que não escondia o brilho de curiosidade.
- Bom dia, Elara. Ele está esperando.
Claro que está.
O corredor para a sala de Ian era longo e silencioso, como uma passarela para o paredão. A cada passo, meu salto fazia um clique metálico no piso de mármore. Eu apertei a pasta contra o peito e respirei fundo.
Você consegue, Elara. Você já sobreviveu a três anos. Sobrevive a mais cinco minutos.
A porta de madeira escura estava entreaberta. Não bati. Ele nunca gostou que eu batesse – e hoje era o último dia em que eu precisava me importar com o que Ian Martinelli gostava.
Empurrei a porta.
Ele estava atrás da mesa, como sempre. Impecável. O terno cinza-escuro, a gravata bordô, os cabelos pretos perfeitamente penteados para trás. Os olhos cor de mel me avaliaram do mesmo jeito que um jogador de xadrez avalia o tabuleiro antes de derrubar a rainha adversária.
- Elara.
A voz dele era baixa, sem calor. Um simples cumprimento de guerra.
- Ian. - Respondi com o mesmo tom congelante. Coloquei a pasta na borda da mesa e abri o zíper. - Vamos resolver isso rápido. Tenho reunião com pedreiros às duas.
Ele arqueou uma sobrancelha, divertido.
- Pedreiros. É mesmo. A arquiteta agora trabalha com as mãos.
- Alguém aqui precisa trabalhar de verdade. - Puxei a minuta do divórcio e deslizei o papel polido até o centro da mesa. - Assina. Eu assino. Cada um segue seu caminho.
Ian não tocou no papel. Cruzou os braços e inclinou a cabeça.
- Você está nervosa.
- Eu estou livre, Ian. São coisas diferentes. Você devia tentar algum dia.
Ele se levantou. Lentamente. Como um predador que tem tempo de sobra. Contornou a mesa com as mãos nos bolsos e parou a menos de um metro de mim. O cheiro amadeirado invadiu minhas narinas e eu recuei meio passo.
- Três anos não apagam com uma assinatura, Elara.
- Três anos de inferno não, mesmo. - Ergui o queixo. - Por isso eu quero ver esse papel assinado hoje. Comemoro com champanhe ainda esta noite.
Os olhos dele brilharam. Não sei se era raiva ou... alguma outra coisa que eu me recusava a nomear.
- Inferno. É assim que você chama uma cobertura de trezentos metros com vista para o parque?
- É assim que eu chamo qualquer lugar onde eu precise dividir a cama com você.
Agora o brilho sumiu. O rosto de Ian endureceu. A mandíbula contraiu daquele jeito que eu aprendi a reconhecer – um segundo antes da explosão.
- Você nunca reclamou da cama.
- Porque eu nunca falei com você, Ian. Só o necessário. Como dizia o contrato.
- Ah, o contrato. O contrato sagrado. - Ele deu um passo à frente. Eu não recuei dessa vez. - Você adorou os cheques que aquele contrato depositou na sua conta todos os meses.
Meu sangue ferveu.
- Meu pai estava morrendo. Você sabia disso. Usou isso.
- Usei? - A voz dele subiu meio tom. - Eu ofereci uma solução. Você aceitou. Assinou. Dormiu na mesma cama. Fingiu sorrir em todos os eventos. E agora quer me chamar de demônio?
- Porque é o que você é.
O silêncio entre nós dois era pesado como concreto. Nossos olhos se encaravam num duelo silencioso. Eu sentia meu coração batendo rápido demais – não de medo, juro. De ódio. Ódio puro e velho.
Foi então que eu disse as palavras que ensaiei no banho, no trânsito, no elevador:
- Não vejo a hora de me livrar de você.
Ian soltou um riso seco. Amargo. Ele estendeu a mão e pegou a caneta preta em cima da mesa. Girou entre os dedos. Por um momento, achei que ele fosse assinar.
Em vez disso, ele me encarou e respondeu:
- Finalmente hoje é o último dia que verei você.
Ele ia colocar a caneta no papel.
Ia assinar.
Minha garganta apertou. Alívio. Só podia ser alívio.
Foi quando a porta se abriu e Mercedes entrou com os olhos arregalados – algo que eu nunca tinha visto na secretária impecável.
- Desculpe interromper. - A voz dela tremia levemente. - O Dr. Rocha está na linha. Ele disse que é urgente. Muito urgente. Ele precisa falar com os dois. Agora.
Ian franziu a testa. Sua mão ainda segurava a caneta.
- O que ele quer?
Mercedes engoliu em seco.
- Ele disse para não assinarem nada. Que a cláusula 14... que ela ainda está valendo.
Ponto de vista: Elara
Cláusula 14?
Que diabos de cláusula 14? Eu nunca ouvi falar nada disso.
Meu coração ainda martelava contra as costelas quando olhei para Ian, buscando algum sinal no rosto dele. Pela expressão dele – a testa franzida, os olhos estreitados, a mandíbula contraída – ele também não fazia a menor ideia do que a Mercedes estava falando.
O alívio que eu senti segundos atrás virou cinza na minha boca.
- Obrigado, Mercedes. - A voz de Ian voltou ao tom controlado, mas eu já aprendi a perceber quando ele está fingindo calma. Agora era uma dessas vezes. - Pode mandar o Dr. Rocha vir. Nós esperamos.
A secretária assentiu e fechou a porta atrás de si com um clique suave.
Silêncio.
Ian largou a caneta em cima da mesa. O barulho minúsculo ecoou pelo escritório como um tiro. Ele não sentou de volta na cadeira. Ficou de pé, de costas para mim, olhando pela janela de vidro do chão ao teto. A silhueta dele recortada contra o céu azul parecia uma estátua de mármore – bonita, fria e vazia.
Fui eu que quebrei o silêncio.
- Você sabia?
Ele virou a cabeça lentamente. O perfil afiado, a luz do sol pegando em cheio no rosto.
- Se eu soubesse, Elara, você acha que eu estaria aqui com a caneta na mão?
- Não sei do que você é capaz. - Cruzei os braços. - Você já me enganou uma vez.
- Eu nunca te enganei. - Ele se virou de frente para mim. - O contrato foi lido por você e pelo seu advogado. Linha por linha. Palavra por palavra. Eu não escondi nada.
- Então por que está aparecendo uma cláusula agora? No momento exato em que a gente ia assinar o divórcio? - Dei um passo à frente. Apontei o dedo na direção dele. - Conveniente, não acha?
Ian deu um passo à frente também. Agora estávamos a menos de meio metro um do outro. Eu podia ver uma veia pulsando na têmpora dele.
- Você está me acusando de arquitetar isso? - A voz dele estava baixa, perigosa. - Eu passei três anos esperando esse maldito divórcio. Três anos preso num casamento que nenhum dos dois quis. E agora você acha que eu inventei uma cláusula secreta para adiar minha liberdade?
- Talvez você queira me atormentar por mais tempo.
Ele soltou um riso curto, sem humor nenhum.
- Você não é tão interessante assim, Elara.
- E você não é tão bom ator assim, Ian. - Minha voz saiu mais alta do que eu queria. - Eu sei o que você fez. Eu sei o tipo de homem que você é.
- Ah, sim. O demônio, não é? - Ele arqueou as sobrancelhas. - Já estamos de volta ao demônio.
- Você nunca saiu dessa categoria.
Nós nos encarávamos como dois boxeadores no fim do round. Os punhos fechados, os músculos tensos, a respiração pesada. Qualquer pessoa que entrasse agora pensaria que estávamos prestes a nos matar.
E talvez estivéssemos.
- Sabe o que eu acho? - Ian falou primeiro, a voz carregada de veneno. - Eu acho que você está com medo.
- Medo de quê?
- De descobrir do que se trata essa cláusula. E que você vai ter que aturar minha presença por mais tempo. - Ele sorriu. Um sorriso feio. Cruel. - Porque aí o dinheiro do seu pai vai continuar preso nas minhas contas. A sua liberdade financeira vai demorar mais tempo. E você vai ter que continuar fingindo que me odeia o suficiente para não perceber...
- Perceber o quê?
Ele inclinou a cabeça. Os olhos de mel brilharam.
- Que você nunca me odiou de verdade.
O sangue subiu para meu rosto. Foi tão rápido que me queimou as bochechas.
- Você é doente.
- E você é uma mentirosa.
Eu ia responder. Ia dizer alguma coisa realmente cruel, realmente certeira. Mas a porta se abriu de novo antes que eu pudesse formar as palavras.
- Dr. Rocha chegou. - Mercedes anunciou, e um homem de cabelos grisalhos entrou atrás dela, carregando uma pasta grossa debaixo do braço.
O advogado.
O homem que escreveu o contrato.
O responsável por aquele pesadelo.
Dr. Rocha nos encarou – primeiro a mim, depois a Ian – com uma expressão de desculpas que não me convenceu nem por um segundo.
- Sinto muito pela situação. - Ele fechou a porta e se aproximou da mesa. - Vou ser direto, porque sei que os dois estão ansiosos para resolver isso.
- Direto, então. - Ian voltou para trás da mesa, mas não sentou. Apoiou as mãos no mármore frio. - O que é a cláusula 14?
O advogado abriu a pasta. Folheou alguns papéis com cuidado de ourives até encontrar a página que procurava. Virou o documento na nossa direção e apontou para um parágrafo minúsculo no meio da página.
- Cláusula décima quarta. "Reintegração temporária pré-divórcio". - Ele leu em voz alta, como se estivesse anunciando uma sentença de morte. - "Caso o divórcio seja solicitado antes do período de três anos, as partes deverão cumprir um período de coabitação assistida de seis meses, no mesmo domicílio, mantendo as aparências de casal perante a sociedade. Durante este período, não haverá obrigação de relações íntimas, mas os compromissos sociais como casal deverão ser mantidos."
O escritório ficou em silêncio.
Um silêncio tão absoluto que eu ouvi o relógio de parede fazer tique-taque. Cada segundo era uma facada.
Ian ficou pálido.
Não é uma metáfora. Ele realmente empalideceu. A pele bronzeada dele ganhou um tom acinzentado. O rosto que segundos atrás era pura arrogância agora parecia uma máscara de cera. Ele puxou o contrato para perto de si, leu com os próprios olhos, leu de novo, como se o texto fosse magicamente mudar.
Não mudou.
Eu, por outro lado, senti o ódio subir pela espinha como um choque elétrico. Minha mão voou até a mesa, agarrou a primeira coisa que encontrou – a caneta preta que ele tinha largado – e joguei com toda a força que eu tinha.
A caneta bateu no peito do Dr. Rocha e caiu no chão com um barulho patético.
- Você está brincando com a minha vida! - Minha voz ecoou pelas paredes de vidro. Eu nem me reconhecia. Tinha fogo saindo pelos meus olhos, pela minha boca, pelos meus poros. - SEIS MESES? Eu já dei três anos para esse casamento falso. Três anos da minha vida que eu não vou recuperar. E agora vocês querem mais seis?
- Senhora Martinelli, eu entendo a frustração, mas...
- Não me chama de "Senhora Martinelli"! - Eu avancei na direção dele. Ian segurou meu braço no último segundo. - Meu sobrenome não é Martinelli. Nunca foi. Nunca será.
- Elara. - A voz de Ian era estranha. Baixa. Controlada demais. Ele ainda estava pálido. - Não adianta gritar com ele. Ele só cumpriu o contrato que nós assinamos.
- Nós não assinamos cláusula nenhuma! - Tirei o braço do seu alcance com um puxão brusco. - Isso não existia quando eu li.
- Existia. - Dr. Rocha ajeitou os óculos com mãos trêmulas. - A cláusula estava na página 47. Era a letra pequena, mas... existia.
Página 47.
Eu li até a página 30. Meu advogado na época disse que o resto era juridiquês padrão.
Eu confiei.
Nunca mais confiaria em ninguém.
Caí na cadeira de couro preta em frente à mesa. Minhas pernas simplesmente desistiram de me sustentar. A pasta com a minuta do divórcio ainda estava aberta ali, tão perto e tão longe.
- Eu não vou fazer isso. - Minha voz saiu falhada. - Não vou morar com ele. Não vou fingir mais nada.
- Se não cumprir a cláusula - Dr. Rocha pigarreou - o divórcio pode ser anulado. E o contrato original continua valendo por tempo indeterminado.
Indeterminado.
A palavra ecoou no meu crânio como um sino fúnebre.
Eu levantei os olhos e encontrei os de Ian. Ele ainda estava pálido. Mas agora, no fundo daqueles olhos cor de mel, eu vi alguma coisa que nunca tinha visto antes.
Desespero.
Ele também queria se livrar de mim.
E nenhum dos dois conseguiu.
Ponto de vista de Elara
Uma armadilha.
Tudo tinha sido uma armadilha desde o começo.
Respirei fundo. Não ia desmoronar na frente deles. Nunca. Antes morta do que dar esse gosto para Ian Martinelli.
- Dr. Rocha. - Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Boa. - Eu quero saber tudo. Todas as opções. Se eu quiser anular o contrato agora, quais são as consequências?
O advogado trocou um olhar rápido com Ian. Depois abriu a pasta de novo. Tirou um documento amarelado, que parecia mais velho do que os outros.
- A cláusula de rescisão antecipada está na página 52. - Ele passou os olhos pelo texto. - Se qualquer uma das partes solicitar a anulação do contrato antes do cumprimento integral das obrigações, incluindo o período de coabitação assistida... - Ele hesitou. - A parte solicitante deverá restituir integralmente todos os valores recebidos durante a vigência do contrato.
Minha testa franziu.
- Todos os valores?
- Todas as parcelas mensais. Os bônus. Os benefícios. - Dr. Rocha fechou o documento com um suspiro. - Tudo o que foi pago a você ao longo dos três anos, senhora... Elara.
- Quanto?
Ele hesitou de novo.
Por que ele está hesitando?
- Dr. Rocha. - Apertei os dedos no braço da cadeira. - Quanto?
- Um milhão, duzentos e quarenta mil reais.
O número bateu no meu peito como um caminhão.
- Mais os juros de correção monetária - ele continuou, impassível - e as multas contratuais por quebra de cláusula. O valor total corrigido hoje está em aproximadamente... um milhão e oitocentos mil reais.
Um milhão e oitocentos mil reais.
Eu não tinha nem oitenta mil na poupança.
O tratamento do meu pai tinha custado caro. Muito caro. Cada quimioterapia, cada cirurgia, cada noite na UTI. O dinheiro de Ian pagou tudo. Salas particulares. Os melhores médicos. Remédios importados que o plano de saúde negava.
Meu pai viveu dois anos a mais do que os médicos previam.
Por causa daquele dinheiro.
Por causa do contrato.
Por causa do demônio sentado atrás da mesa.
- Eu não tenho esse dinheiro. - Minha voz falhou. Eu odiei ter falhado. - Você sabe que eu não tenho.
Dr. Rocha baixou os olhos.
- Eu sei.
- Então não tem como anular.
- Não. - Ele tirou os óculos e limpou as lentes com um lenço de pano. - Não sem que você devolva o valor total. E, pelo que entendi, sua empresa de arquitetura ainda está no primeiro ano. Os rendimentos...
- Meu rendimento não é da sua conta. - Levantei a cabeça. O orgulho era a única coisa que ninguém podia tirar de mim. - Mas você tem razão. Eu não tenho um milhão e oitocentos mil reais. Nem perto disso.
- Então a única saída juridicamente viável é cumprir a cláusula 14. - Dr. Rocha colocou os óculos de volta. - Os seis meses de coabitação. Depois disso, o divórcio é concedido automaticamente, sem multas, sem devolução de valores. Cada um segue seu caminho.
Seis meses.
Cento e oitenta dias.
Quatro mil, trezentas e vinte horas.
Dividindo a cama com o diabo de novo.
Ian, que tinha ficado em silêncio o tempo todo, finalmente falou. A voz dele estava estranha. Menos afiada. Como se a fúria tivesse dado lugar a algo que eu não sabia nomear.
- Dr. Rocha, eu quero entender uma coisa. - Ele cruzou os braços. - Meu avô. Por que ele colocou essa cláusula? Ele sabia que o contrato era temporário. Ele mesmo disse que depois de três anos a gente podia seguir cada um pro seu lado.
O advogado demorou a responder. Quando respondeu, a voz estava mais baixa.
- Seu avô, Waldemar Martinelli, era um homem que não acreditava em acaso. - Dr. Rocha olhou para a moldura de madeira na parede. A foto de um velho de olhos claros e expressão severa. O fundador do império. - Ele me disse uma vez, quando redigiu a cláusula em segredo: "Roberto, casamento por contrato é igual a jogo de pôquer. As melhores mãos às vezes só aparecem depois que você já ia desistir."
Ian apertou os olhos.
- Ele estava jogando com a minha vida.
- Ele estava jogando com a sua vida, sim. - Dr. Rocha não negou. - Mas ele também estava jogando com a dela. - Apontou para mim. - Waldemar acreditava que vocês dois tinham algo que nenhum contrato podia criar ou destruir.
- E o que seria isso? - Minha voz saiu mais alta do que eu queria. - Ódio? Porque ódio é o que não falta.
Dr. Rocha me olhou por cima dos óculos. E pela primeira vez, um sorriso pequeno e triste apareceu no canto da boca dele.
- Química, senhora. Waldemar chamava de... faísca. Ele dizia que via faísca entre vocês dois no dia do casamento. E que se tivesse faísca, um dia virava fogo. Ele só queria dar mais seis meses de combustível.
Eu quase ri. Quase.
Não era engraçado. Era trágico.
Um velho bilionário, sentado no trono de uma fortuna construída com sangue e suor, brincando de Cupido com dois desconhecidos que ele empurrou para um casamento falso.
Ian passou a mão no rosto. O gesto cansado. Derrotado.
- E se a gente se recusar? Os dois juntos? - Ele olhou para o advogado. - E se Elarae eu dissermos "não" e simplesmente... ignorarmos a cláusula?
- Aí o divórcio não é concedido. - Dr. Rocha foi direto. - O contrato original continua valendo. Vocês continuam casados no papel. Nenhum dos dois pode se casar de novo. Qualquer herança ou bem adquirido individualmente pode ser questionado pelo outro. E a empresa... - Ele apontou para a foto do avô. - A holding volta para o espólio. Você perde o controle, Ian.
Ian fechou os olhos.
Ele sabia o que isso significava. Eu também.
A empresa era a vida dele. O império. O sangue. A única coisa que Ian Martinelli amava de verdade, além de si mesmo.
Ele não ia largar o osso.
E eu não tinha um milhão e oitocentos mil reais.
Dr. Rocha começou a guardar os papéis na pasta. O movimento lento, quase solene, como um médico que acaba de dar um diagnóstico terminal para o paciente.
- Sugiro que comecem a organizar a mudança amanhã. - Ele fechou o zíper da pasta e se levantou. - O período de seis meses começa a contar a partir da data em que a coabitação for estabelecida. Quanto mais cedo...
- Não precisa terminar a frase. - Ian abriu os olhos. O rosto dele era uma máscara de pedra. Sem emoção. Sem fraqueza. - Já entendi.
O advogado assentiu, fez um aceno para mim, e saiu sem olhar para trás.
Mercedes fechou a porta atrás dele.
Silêncio.
O mesmo silêncio ensurdecedor do começo. Mas agora era diferente. Antes eu tinha alívio pela frente. Agora eu tinha seis meses de prisão domiciliar com o pior ser humano que eu já conheci.
Ian girou a cadeira devagar. Ficou de frente para mim. O rosto ainda era uma máscara, mas os olhos... os olhos cor de mel estavam diferentes. Mais escuros. Mais fundos.
- Elara. - Ele disse meu nome como se fosse uma sentença. - Uma coisa eu te garanto.
- O quê?
- Você vai cumprir esses seis meses. E eu vou cumprir. - Ele se levantou, trouxe as mãos para trás do corpo, caminhou até a janela. As costas largas do terno cinza-escuro pareciam uma muralha. - Porque eu não vou perder minha empresa. E você não vai querer parar na cadeia. Fazer o quê, não é? Interesses alinhados.
- Pela primeira vez. - Minha voz saiu ácida. - Interesses alinhados.
Ele parou de falar. Eu esperei o próximo golpe verbal. Ele sempre tinha um próximo golpe verbal.
Mas não veio.
Em vez disso, Ian pegou o celular no bolso do paletó. Olhou para a tela. E a cor do rosto dele mudou de novo.
Não era palidez.
Era... alarme.
- O que foi? - perguntei, mesmo sem querer perguntar.
Ian levantou os olhos do telefone. Dentro daqueles olhos cor de mel, o desespero de antes tinha voltado. Mas agora era diferente. Agora o desespero tinha um alvo.
- Minha mãe. - Ele virou o celular na minha direção. - Ela acabou de postar.
No Instagram, em uma foto recém-publicada, Sônia Martinelli sorria ao lado de uma faixa colorida.
A faixa dizia: "Festa de 6 meses de renovação de votos de Ian e Elara. Venham comemorar o amor eterno do casal!"
A legenda: "O amor não acaba quando o contrato termina. Ele recomeça."
Meu estômago caiu no chão.
Ian desligou o celular e me encarou.
- Ela sabe da cláusula, Elara. - A voz dele estava rouca. - E acabou de contar para o país inteiro.