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Seja Minha - Agora e para sempre

Seja Minha - Agora e para sempre

Autor:: RLSouza
Gênero: Romance
Rosemary ou Rose, como prefere ser chamada, mora em um convento desde seus onze anos de idade. Com uma mãe extremamente religiosa a menina não vê uma saída daquele lugar ou daquela vida extremamente chata e tediosa. Até que em uma brincadeira entre amigas, acidentalmente acabam chamando a atenção de um demônio. Agora a garota descrente se vê completamente perdida ao ficar cara a cara com um demônio e esperar que ele entre sorrateiramente em seu quarto.

Capítulo 1 Isso realmente não foi uma boa ideia.

- Vamos Rose! Precisamos fazer alguma coisa divertida ou vamos morrer de tédio! - olhei para a menina de olhos azuis que estava na minha frente e rolei os olhos. Brenda tinha os lindos olhos azuis arregalados de excitação, enquanto sorria de lado e apertava minha mão, dando leves puxadas para irmos em direção a porta.

- Brenda... - olhei ansiosa para a porta e depois para as quinze camas no quarto. Seis camas estavam desocupadas, quatro de suas respectivas donas se encontravam no porão nesse exato momento, e tinha nós duas, discutindo aos sussurros a minha ida para participar dessa estupidez. Não que eu estivesse com medo... Okay, talvez eu estivesse um pouco receosa, mas o que me segurava realmente dentro do quarto era a possibilidade de ser pega pela irmã Maria. Eu realmente não era fã de ficar ajoelhada no milho enquanto rezava incontáveis "Ave Maria's". - Eu realmente não acho uma boa...

- Você não vai me deixar ir sozinha vai? Sabe que eu sou curiosa, mas tenho medo e além do mais... - ela parou nesse momento e ambas olhamos para o canto esquerdo do quarto, onde Melissa deu um enorme ronco. Prendi meus lábios entre os dentes para não deixar o riso histérico escapar. Foi um puta de um susto! - Além do mais, precisa de seis pessoas para jogar. E não confiamos em mais ninguém para chamarmos. - ela abaixou a voz até que não passasse de um sussurro quase inaudível. Eu suspirei exageradamente alto e vi um sorriso vitorioso nascer nos lábios da minha louca amiga. Ela sabia que eu tinha concordado com essa ideia absurda, sem nem que eu precisasse abrir minha boca. - Eba! - Brenda comemorou baixinho e eu rolei os olhos deixando-me ser arrastada.

Os corredores daquele convento, onde fui obrigada a chamar de casa, desde os meus onze anos de idade, estavam escuros feito breu. Meu corpo se arrepiou involuntariamente, conforme Brenda me arrastava em direção a porta do porão. Assim que ela abriu a porta, meus olhos se arregalaram para a luz fraca que mal iluminava o topo das escadas. Putz, aquilo era uma péssima ideia!

- Brenda...

-Shi! - ela me calou apressadamente, enquanto se lançava na frente e me puxava consigo. - Você já concordou. Estamos aqui, não dá para dar para trás agora. - sua voz não passava de um sussurro ansioso. Eu estava quase dizendo para ela que se eu quisesse "dar para trás" eu daria, quando ouvi vozes femininas sendo murmuradas lá embaixo.

- Brenda? Rose? São vocês? - a voz inconfundível de Ágatha ecoou e eu franzi os lábios ao notar que ela estava com medo.

- Quem vocês chamaram para essa loucura? - perguntei a Brenda conforme íamos descendo as escadas. Poxa, Ágatha só tinha treze anos coitada. Dois anos mais velha do que eu era quando fui forçada por minha mãe a vir para cá. Obviamente aprendi a aceitar essa decisão, era aceitar ou enlouquecer com esses montes de regras, afinal, eu não sairia daqui tão cedo segundo minha mãe. O que me confortava as vezes era o fato de que à um ano atras a irmã Izobel começou a me ajudar a lançar currículos pela internet. Ela era uma das poucas irmãs, senão a única, em quem confiávamos. E ela sabia que eu estava aqui contra minha vontade. Embora eu fosse legalmente adulta, eu não tinha para onde ir. Minha querida mãe não me acolheria em sua casa se eu saísse do convento.

- Só algumas pessoas... - Brenda murmurou apreensiva me tirando dos meus devaneios. - Alicia me ouviu comentando com outras garotas e se convidou à vir, e você sabe que ela não faz nada sem sua fiel escudeira, Ágatha. - ela murmurou rolando os olhos e eu segurei o suspiro de irritação. Enquanto nos aproximávamos do pequeno circulo de garotas sentadas ao chão percebi que a luz que iluminava o local eram velas que elas dispuseram no chão. O cenário perfeito para uma tragedia.

- Isso vai dá uma merda gigantesca. - murmurei baixinho e vi Brenda rolar os olhos e rir baixinho.

- Somos nós Ágatha, quem mais seriam? Os demônios só vão aparecer mais tarde, quando começarmos. - a voz de Brenda era um murmúrio baixo, mas foi o suficiente para que todas escutássemos. Vi as garotas encararem-nas assustadas e depois cochicharem entre si. Eu somente prendi os lábios entre os dentes, afinal, estava acostumada com esse humor de Brenda. E assim como eu, ela não acreditava em demônios ou anjos, o que era uma completa ironia do destino conosco. - Brincadeirinha. - sua voz estava risonha quando ela se sentou no espaço vazio no circulo e me puxou junto.

- Um tabuleiro Ouija, muito original. - murmurei ao me sentar e encarar o tabuleiro que estava no meio do circulo.

- Ok, ok. Vamos começar isso ou não? - encarei a dona da voz e segurei a vontade de rolar os olhos. Por um momento eu pensei que aquela ideia estupida tinha partido de Brenda, mas é claro que eu estava enganada. Ali estava Linda, a típica patricinha estudantil que mandava e desmandava em toda a escola. A diferença era que aqui no convento ela era a que adorava aprontar com as outras garotas. Me perguntava como Brenda tinha se deixado cair no papinho dela e me arrastado junto. - Ok, primeiro vamos às regras...

Nunca jogue sozinho

Nunca jogue se estiver doente ou sentindo algum mal estar

Se o ponteiro se mover para os quatro cantos do tabuleiro, significa que o espirito é mau

Não mencione a bíblia.

E por ultimo, mas não menos importante, nunca saia do jogo sem dizer "Adeus", ou coisas terríveis vão te acontecer.

Eu estava completamente ciente de que ela estava inventando aquelas regras, mas não consegui evitar o arrepio que subiu pela minha espinha. Trinquei os dentes me forçando a ficar ali e não soltar qualquer comentário sarcástico com aquela palhaçada toda. E evitei olhar para Linda, que tinha um sorriso extremamente sarcástico em seus lábios.

- Ok, todas com o dedo indicador do ponteiro. - Brenda foi a única a quebrar o silencio, que embora eu não queira admitir, era assustador. Ela e Linda pareciam ser as únicas excitadas com aquela ideia. Observei todas as cinco garotas colocarem seus dedos indicadores no ponteiro e imitei o movimento, enquanto prendia a respiração e encarava o marcador em derrota. Não tinha mais volta.

Ninguém falou absolutamente nada quando o ponteiro fez um circulo cinco vezes. Olhei para Linda e ela me olhou com um sorrisinho de lado. Claro que era ela que estava o controlando.

- Vamos Rose, faça as honras. - meus olhos que tinham voltado a observar o ponteiro, se voltaram para Linda assim que ela disse aquelas palavras. - A não ser que esteja com medo. - essa ultima parte foi murmurada baixinho, mas todas nós escutamos. Estava claro que o intuito de Linda era mexer conosco. Rolei os olhos ignorando o sorriso de zombaria dela e respirei fundo voltando a encarar o ponteiro que agora descansava embaixo da palavra "Sim" e "Não"

- Tem alguém ai? - deixei a voz completamente monótona e rolei os olhos, deixando transparecer toda a credibilidade que eu dava para aquele jogo idiota. O sorriso de Linda morreu com a minha atitude e a risada baixinha de Brenda ecoou. Porém ela parou de rir assim que o ponteiro deslizou para o "Sim". Algumas meninas, ou melhor dizendo, a Àgatha deixou escapar um gritinho agudo. - Shi! Quer calar a boca Àgatha? É só a Linda.

- Não fui eu. - Linda apressou-se para se defender, mas eu pude ver o mínimo sorriso que ela teimava em segurar. - Vamos, pergunte mais alguma coisa.

- Só eu vou perguntar? Por que você não pergunta? Essa ideia estupida foi sua, afinal. - tentei ao máximo controlar a voz para não sair tão estridente. Eu me conhecia o suficiente para saber que minha voz levantava algumas oitavas quando eu ficava nervosa.

- Tudo bem Rose, se esta com medo eu pergun...

- Argh. - trinquei os dentes e evitei olhar para ela. - Ok, qual seu nome Sr. Demônio? - deixei uma risadinha escapar no final e olhei sarcasticamente para Linda. Abaixei o olhar brevemente quando o ponteiro começou a se mover formando o nome "Nathaniel". - Sério Linda? Não tinha um nome menos... "bíblico". - fiz aspas com a mão livre e deixei a risada fluir, enquanto observava-a com as sobrancelhas franzidas.

- Idiota! Não se pode falar da bíblia! - me admirei com o tom histérico de sua voz, ela estava realmente se empenhando nisso. - E não fui eu quem mexeu o ponteiro... - a voz dela morreu aos poucos nessa ultima frase e ela deu uma olhada sugestiva para Laura que estava sentada ao seu lado. Laura encarou-a com os olhos arregalados e somente balançou a cabeça negando. Espera ai...

- Vocês estão de sacanagem com a nossa cara! - explodi me levantando, eu não iria deixar aquelas duas idiotas ficarem brincando com a minha cara. E não queria admitir que no fundo estava ficando com medo. Prova disso era meu coração extremamente acelerado.

- Senta ai! Não se pode ir embora sem dizer "Adeus". - a única coisa que me fez voltar a sentar foi o tom histérico da sua voz. Coloquei o dedo novamente no ponteiro, enquanto olhava para Brenda que moveu os lábios silenciosamente me pedindo calma. - Juro por De... Eu juro que não foi eu quem mexeu isso. - ela respirou fundo olhando mais uma vez para sua amiga, que encarava o ponteiro. Podia ver claramente que ela tremia no lugar. - Vamos terminar com isso! Adeus. - ela murmurou. Mais uma vez o ponteiro se moveu, e dessa vez parou no "Não". Ágatha gritou novamente, e dessa vez algumas meninas acompanharam-na. - Por favor... O que você quer?

Observei completamente em transe o ponteiro se movimentar até que se formasse a palavra "diversão". Olhei para o rosto das meninas com as expressões amedrontadas e me perguntei qual delas estava fazendo isso. Não deu tempo de concluir alguma coisa, pois assim que o ponteiro voltou para seu lugar habitual embaixo das palavras "Sim e Não" as velas se apagaram nos deixando no mais profundo breu.

O primeiro grito ecoou, me dando um tremendo susto. Minhas pernas se moveram por conta própria, e eu agarrei a mão de Brenda que estava à minha esquerda e nos arrastei em direção as escadas, enquanto tinha certeza de que ouvia uma gargalhada baixinha vindo do centro do tabuleiro. Não me preocupei em pedir desculpas em quem estava batendo, ou se quer me preocupei com o barulho que fazíamos enquanto corríamos em direção ao quarto. Só parei de correr quando encarei a porta vermelha com a pintura descascada. Coloquei a mão na maçaneta, olhando sob o ombro ao ver os vultos se aproximando. Antes que eu gritasse o rosto amedrontado de Agatha apareceu, juntamente com Linda, Alicia e Laura.

- Abre logo essa porta! - Ágatha teve a inteligência de deixar o tom de voz baixo, mas sua expressão assustada deixava claro que ela estava prestes a gritar à qualquer momento.

- Espere! Nenhum pio sobre o que aconteceu! - Linda olhava para todas nós com a sobrancelha franzida. - Eu comecei mexendo aquilo, mas está claro que alguma de vocês conseguiu pregar uma peça melhor e me pegar. Há! Foi ótimo, e eu não quero saber nem quem foi. - abri a boca para contestar, mas ela levantou o dedo. - Nem um pio, ou todas nós estaremos encrencadas. Vamos logo e em silencio, por favor, para não acordar as outras meninas. - fui obrigada a fechar minha boca e girei a maçaneta da porta torcendo para que ninguém tivesse acordado com nossos gritos.

O quarto continuava escuro e silencioso, exatamente como estava quando sai com Brenda. Ao me lembrar de Brenda, soltei sua mão e me encaminhei com cuidado para minha cama, cobrindo-me até a altura do nariz. Não me movi quando ouvi o barulho da cama ao lado indicando que Brenda tinha se deitado também.

- Rose. - minha voz foi sussurrada no escuro e meu coração acelerou dentro do meu peito, até eu ouvi mais uma vez e perceber que era somente Brenda tentando chamar minha atenção. - Rose, foi uma péssima ideia. Eu sinto muito ter te arrastado para isso. - por um momento eu fiquei tentada a manda-la a merda, porém desisti ao perceber o medo em seu tom de voz. Virei meu corpo de lado para encarar suas orbes azuis naquele quarto escuro e respirei fundo tentando acalmar meu coração que ainda estava acelerado.

- Não é culpa sua. Eu também estava curiosa e no final quis ir. - Murmurei baixinho para que somente ela escutasse. - Vai dormir! Vamos esquecer isso, ainda não estou convencida de que não foi a Linda e a sua amiguinha. - no mesmo momento em que terminei de falar isso, minha mente me lembrou da parte em que as velas se apagavam sozinhas. Não tinha como elas terem feito aquilo, e aquela voz que eu escutei? - Eu acho que até escutei elas rindo...

- A última coisa que escutei foi o grito da Ágatha e os nossos passos ao sair correndo. - ela murmurou e eu voltei a focar meu olhar em sua íris azul. - Você escutou elas...

- Eu falei que achava ter escutado... pode ter sido minha mente me pregando uma peça. Sabe, quando estamos com medo nossa mente nos prega peças, - murmurei tentando ao máximo acreditar naquilo, mas ao mesmo tempo me questionando sobre as velas.

- Verdade! Não digo nada se uma delas não deu um jeito de soprar as velas sem que nós percebêssemos. - a voz dela ecoou e eu percebi que Brenda estava com menos medo do que à alguns minutos atras. Ela realmente estava acreditando naquilo. E eu me perguntei se realmente tinha como uma delas terem apagado as velas sem que percebêssemos.

Fiquei ali acordada, enquanto aos poucos eu percebia que Brenda caia em um sono profundo. O quarto continuava silencioso à não ser o som baixinho das meninas dormindo. Tentei esvaziar minha mente e focar no ronco baixinho de Rebecca, tentando respirar conforme ela roncava. Aos poucos senti meus olhos se fecharem e ao longe, quase inconscientemente, me lembrei da regra número cinco. Nunca sair sem dizer "Adeus".

Abri meus olhos enquanto ofegava e sentia meu coração disparar dentro do peito à medida que meus braços se arrepiavam. Por mais que não tenha parecido, eu tinha cochilado, e as regras daquele jogo estupido enchiam minha mente. Puxei o cobertor até o nariz e varri o quarto escuro com os olhos. A medida em que eu ia vendo as camas com as garotas adormecidas, eu sentia meu coração ir se acalmando. Passei os olhos sob a cama de Rebecca, que tinha sua cama à frente da minha, e automaticamente meu olhar foi vagando para o canto do quarto. Minha respiração ficou travada em minha garganta e meu coração voltou a acelerar dolorosamente dentro do meu peito, quando meus olhos se cravaram no vulto extremamente alto no canto do quarto.

Capítulo 2 Merda! Invoquei mesmo um demônio

Eu não entendia ainda como não conseguia gritar. O susto foi tão grande que o meio do meu peito estava doendo, mas por que eu ainda estava parada com a boca aberta olhando para aquilo que com toda certeza era um vulto preto no canto da parede? Por que o que quer que aquilo fosse não nos matou ainda? Ou me matou? Ou possuiu, sei lá... Conforme eu divagava eu sentia meu pânico crescer. Seja o que quer que aquilo fosse, estava claro que estava brincando comigo.

- Rose, tudo bem? - meu corpo pulou automaticamente ao ouvir a voz de Rebecca. Não tinha percebido seus suaves roncos pararem e pior ainda, seu tronco se erguer da cama e sua mão acender a luz. Queria gritar para que ela não acendesse aquela luz, porém minha voz ainda estava presa na garganta e eu ainda tinha os olhos fixos naquela sombra que não parecia querer se mover tão cedo. Por um momento me perguntei se a sua aparência em um ambiente totalmente claro seria o suficiente para me dá um ataque do coração. - Rose? - a voz de Rebecca ecoou novamente e eu escutei o som do interruptor de luz antes mesmo da claridade da lâmpada machucar meus olhos. O grito ficou estrangulado em minha garganta e de meus lábios saiu somente um miado rouco. - Meu Deus! Você está engasgando?! - a voz de Rebecca subiu algumas oitavas e no momento seguinte tudo que eu senti foi ela esmurrando minhas costas. Queria pedir para que ela parasse, mas a minha voz ainda não saia. Tudo que eu fazia era vasculhar cada canto daquele quarto em busca de um rosto horrendo para minha sombra perturbadora. Não era isso que eles falavam? Que demônios, fantasmas, ou o que quer que tenha vindo nos – me – perturbar, vinha em sua pior forma?

- Rose, Rebecca? O que está acontecendo aí? - a voz sonolenta de Brenda ecoou rouca e baixa, quase eu não escutava devido aos murros que ainda levava nas costas. Seria melhor eu tossir para que Rebecca parasse de tentar colocar meus pulmões para fora pela minha boca. Eu conseguiria tossir ou se quer fazer alguma coisa? Pois estava claro para mim que eu estava em completo pânico.

- Estou bem... - consegui murmurar baixinho e ensaiar uma tossida depois de varrer o quarto com o olhar angustiado umas duas vezes. Quando eu não vi absolutamente nada meu coração foi capaz de voltar ao normal.

- Eu vou buscar um pouco de água para ela. - Rebecca falou baixinho e a sua mão que antes socava minhas costas, agora passava pela mesma como um carinho. Quase como um pedido de desculpas pela tentativa de me matar aos murros. Olhei para ela alarmada querendo pedir que ela não fosse. Eu tinha medo que aquilo que nos observava, ou me observava, estivesse lá fora somente esperando para nos pegar. Mas já era tarde. Rebecca deveria estar realmente preocupada comigo, pois praticamente correu do quarto.

- Rose, aconteceu alguma coisa? Você está bem? - o rosto de Brenda apareceu em meu campo de visão e eu pude perceber em seus ansiosos olhos azuis que ela estava se perguntando se isso tinha haver com o acontecido no porão. - Você teve um pesadelo? - a voz dela saiu sussurrada, pois já conseguíamos escutar o barulho dos corpos se mexendo nas camas, o que indicava que algumas meninas tinham acordado e estavam de olho na gente.

- Eu... eu acho que sim. - sussurrei de volta tão baixo que me perguntei se ela tinha escutado. Seus lábios se comprimiram em uma linha reta e seu olhar preocupado se tornou carregado de culpa. Eu sabia que ela estava se culpando pelo que tinha acontecido lá embaixo. - Bren, está tudo bem. - forcei minha voz a sair o mais tranquilo possível. Não era justo que ela se culpasse, ou que eu a deixasse ficar preocupada. Pelo que eu sabia eu poderia muito bem ter imaginado coisas. Não iria revelar meus medos e deixar todas essas meninas assustadas. - Foi só um pesadelo. - murmurei ainda com a voz baixa para que só ela me escutasse.

- Aqui sua água. - eu não tinha percebido que Rebecca estava de volta até ela aparecer na minha frente estendendo um copo logo cheio de água. - Bebe devagar. - ordenou ainda olhando para mim com seus olhos castanhos repletos de preocupação. Eu gostava de Rebecca, era uma garota legal e na dela, e se ela conseguiu ir e voltar da cozinha intacta pode ser que eu tenha imaginado coisas mesmo.

- Obrigada, Becca. - murmurei seu apelido que raramente usava. Não éramos tão chegadas assim para viver grudada como eu vivia com Brenda, mas éramos próximas o suficiente para que eu a chamasse carinhosamente. E ela parecia não se importar. - Estou bem, é sério. Foi só um pesadelo. - falei torcendo para que minha voz soasse convincente ao ponto de até eu mesma acreditar.

Depois de umas olhadelas significante de Brenda e do resto das meninas que participaram do fiasco da sessão de Ouija, Rebecca se deu por vencida e concordou que todas podíamos voltar a dormir em paz. Conforme ela ia andando até a cama dela, e consequentemente até o interruptor de luz, senti vontade de pedir para que ela deixasse a luz acesa. Mas, o olhar curioso de Linda me fez travar na cama. Eu ainda não estava cem por cento certa de que aquilo não tenha sido uma armação dela, e eu não iria mesmo dar o gostinho de pedir para dormir com a luz acesa igual uma criança. Mesmo temendo ver coisas no escuro novamente. Eu estava começando a crer que aquilo realmente era coisa da minha cabeça fértil.

O barulho do interruptor ecoou, deixando o quarto no mais profundo breu. O primeiro arrepio tomou meu corpo inteiro, desde o dedo do pé até o ultimo fio de cabelo. O segundo arrepio fez meu corpo estremecer e meus braços formigarem. Eu podia sentir meu coração acelerar junto com a minha respiração. Queria fechar meus olhos, mas eu não conseguia e sem que eu permitisse minha cabeça virou diretamente para o canto em que eu tinha visto ele. E lá estava o contorno do enorme vulto preto que quase tinha me matado de susto a primeira vez que eu vi, não que dessa vez fosse diferente.

Fiquei estremecendo no lugar, congelada, esperando que ele me matasse ou me assustasse de um jeito que a minha alma saísse correndo do meu corpo. Mas não. Ele só ficou lá, parado, esperando. Mal se mexia e se eu fosse realmente esperta iria aceitar que aquilo tudo não passava de fruto da minha imaginação, pois embora eu tivesse passado minha vida toda em um convento, ainda não acreditava em céu, inferno e consequentemente em demônios.

- Eu não tenho medo de você. - sussurrei pausadamente depois de ter percebido que eu era a única acordada ali. Meu coração já não estava tão acelerado assim e eu forcei meu corpo a se acalmar na marra, embora os malditos arrepios continuassem de tempos em tempos.

Encarei em choque quando um sorriso branco se destacou na sombra e cobri meu corpo dos pés à cabeça com o grosso cobertor. Se ele for fazer algo eu não quero ver. Se for real eu não tenho chances de escapar mesmo e se não for real eu que não vou gritar como uma garotinha medrosa. Me peguei murmurando baixinho todas as orações que eu tinha aprendido nesses sete anos de convento e ouvi um riso baixo. Meu corpo paralisou sofrendo o espasmo mais violento que já senti, de fato, parecia que eu convulsionava de medo, pois o riso estava ali dentro, comigo embaixo dos lençóis.

- Por favor... - minha voz saiu baixa, um choramingo, pedindo pelo o que eu não sei. Que ele fosse rápido? Que me deixasse em paz? Que poupasse pelo menos as outras cinco idiotas que não teve culpa por eu tê-lo invocado? Automaticamente me lembrei da regra número cinco "Nunca saia do jogo sem dizer Adeus". E me peguei murmurando sem parar a palavra "Adeus" torcendo para que de algum jeito aquilo me deixasse em paz. Talvez tenha dado certo, talvez ele só tenha se cansado, ou talvez minha mente insana tenha dado uma trégua já que eu adormeci pelo cansaço com a sombra do seu riso em meus ouvidos.

Na manhã seguinte mais do mesmo. Eu não conseguia vê-lo conforme ia fazendo minhas tarefas do dia, mas eu conseguia sentir sua presença. E parecia que eu era a única, pois esperei que alguma das meninas deixasse escapar alguma coisa sobre estarem vendo algo, ou sendo atormentadas, porém nada aconteceu a elas.

Fiquei apreensiva o dia todo esperando que a nossa escapulida ao porão tivesse sido descoberta, mas aparentemente por mais ensurdecedor que tenha sido o barulho que fizemos, absolutamente ninguém tinha acordado. Nenhuma de nós se quer tocou no assunto e eu andava inquieta pelos cantos, tentando captar qualquer indicio de que alguma das garotas tenham visto algo, mas aparentemente está tudo normal.

A noite assim que as luzes se apagaram, voltei meus olhos ansiosos para o canto onde o vi a primeira vez, e lá estava sua sombra. Meu coração deu o costumeiro salto e acelerou, mas eu me mantive em silencio, esperando, esperando... Porém, ele só ficou olhando. Fui vencida pelo cansaço, enquanto observava a sombra e esperava que ela fizesse o mínimo movimento.

...

Andei cautelosamente ao lado de Brenda enquanto íamos tomar o café da manhã, e depois todas nós limparíamos o refeitório. Quatro dias tinham se passado desde o dia em que fomos ao porão. Quatro dias em que eu tinha um visitante oculto em meu quarto, que eu tentava inutilmente me forçar a acreditar que era coisa da minha cabeça. Afinal, ele não fez nada com nenhuma de nós. E o fato de somente eu conseguir vê-lo, me fazia insistir nessa ideia de que eu o inventei.

- Você está muito estranha! Por que exatamente está seguindo a Linda e a Laura? - a voz curiosa de Brenda ecoou e eu olhei para ela com a sobrancelha franzida.

- O que? Eu não...

- Rose, você ficou se esgueirando perto delas quase a manha toda... Sempre uns passos atras, sempre de olho... - eu não tinha percebido se quer que estava fazendo isso. - Está querendo se vingar? Por que se for isso, eu topo! - àquela altura Brenda já estava completamente convencida de que tinham sido Linda e Laura que armaram aquilo para cima da gente. Eu escutei calada enquanto ela confidenciava suas conclusões para Ághata e Alicia. Aparentemente o medo já estava esquecido e agora tudo que ela pensava era em se vingar.

- Eu não estou seguindo ninguém, mas irei pensar na ideia de uma vingança. - murmurei esperando que aquilo fosse o suficiente para que ela esquecesse essa história e observei a cabeleira loira de Linda virar à esquerda no corredor que dava para a biblioteca. Virei para o outro lado, em direção a pequena igreja improvisada que tínhamos no convento.

Passei o resto daquela manhã adiantando as orações diárias. Tanto que quando terminei era quase a hora do almoço. Não esperei por Brenda, queria ficar sozinha, então me levantei e caminhei a passos rápidos pelos corredores até chegar ao banheiro.

Era um banheiro coletivo, embora graças aos céus, os boxes fossem individuais. Eu odiava tomar banho com aquele monte de garotas. Suspirei agradecia quando vi que estava sozinha no local. As pequenas cabines azuis estavam fracamente iluminadas pela luz do sol, que entrava das quatro janelas no alto da parede. Entrei no ultimo boxe e puxei a cortina de plástico para esconder meu corpo ali dentro. A água demorou a esquentar, tanto que quando finalmente atingiu uma temperatura morna, meu corpo estava totalmente arrepiado. Tomei estremo cuidado para não molhar os cabelos, e fechei os olhos ao sentir a água morna cair no meu rosto.

- Quem está aí? - murmurei virando-me e abrindo os olhos automaticamente. O arrepio subiu pela minha espinha ao notar a cortina balançar, como se alguém tivesse passado a mão nela. - Quem está aí? Eu juro por... - calei-me ao sentir a cortina movimentar-se como se um vento forte tivesse passado por ela. Nessa altura a água do chuveiro já caia extremamente fria, mas não era a água fria que me fazia estremecer. Era a presença dele. De algum jeito eu, ou o meu corpo, estava consciente da proximidade dele mesmo sem conseguir vê-lo. Eu podia senti-lo... - Deus... - murmurei baixinho, implorando... Se quer pensando no fato de que o que quer que fosse aquilo, não iria gostar de ouvir se quer uma menção a Deus.

- Shi... - foi a primeira vez que escutei algo vindo dele. Não era exatamente o som de sua voz, parecia como um sopro de mormaço diretamente em meu ouvido. Era quente... quente como o inferno deveria ser. Estremeci ao pensar isso.

E acabou tão rapidamente, como começou. Notei vozes se aproximando e consegui soltar a respiração que nem sabia que estava segurando. Meu coração começou a bombar dolorosamente dentro do meu peito, na certa tentando compensar as batidas que eu tinha perdido ao sentir aquele sopro. Procurei respirar algumas vezes, enquanto fechava o registro do chuveiro e pensava em o que quer que fosse aquilo, queria perturbar somente a mim, pois assim que outras garotas se aproximaram ele foi embora. Procurei me acalmar tendo em mente que se aquela presença quisesse me machucar, já teria o feito com ou sem testemunhas.

Me troquei o mais rápido que pude, sem dar atenção às garotas que conversavam entre si ao se prepararem para tomar banho. Fui em direção a lavanderia e depois diretamente para o refeitório. Tínhamos horário para tudo e com as refeições não seria diferente, caso alguma de nós se atrasasse ou não comparecesse, teria que aguardar até a próxima refeição ou ficar com fome. Logicamente tinha a irmã Izobel, que era praticamente uma santa e nunca nos deixava com fome, ou nos castigava como a irmã Maria.

- Está tudo bem? - Brenda me olhou assim que eu me sentei. Seus olhos azuis estavam confusos ao me encarar.

- Sim, por que? - olhei brevemente para ela e depois voltei a atenção para minha comida. Não queria que ela visse a apreensão em meus olhos ao esperar por sua resposta, eu temia que ela começasse a dizer que também estava vendo coisas ou sendo perturbada.

- Olha, vou ser a mais clara possível. Não fica irritada e nem faz besteira, só toma cuidado. Porque L1 e L2 estão tentando armar alguma coisa para cima de você. - ela murmurou tudo tão rápido que demorei um tempo para processar que ela estava falando de Linda e Laura.

- O que? - eu ainda estava com a boca cheia quando perguntei e isso fez ela respirar aliviada e depois fazer uma careta.

-Eu as ouvi cochichando com Ágatha e Alicia, sobre alguma coisa entrando em você. - eu olhei para ela com uma interrogação estampada em meu rosto, e estava pronta para abrir a boca e protestar, quando ela levantou a mão me silenciando. - É sobre aquilo que aconteceu no porão. Elas estão insinuando que alguma coisa... alguma coisa te possuiu, sabe? - a voz dela estava com um som descrente no final. E ela bufou para complementar o quanto de credito ela dava à essa história. - Confesso que fiquei com medo no começo, e você me deu um baita de um susto naquele dia, mas isso não existe! Acredito que se realmente tivesse algo conosco, não nos deixaria em paz. Aquilo do porão foram aquelas duas mocreias e agora estão tentando fazer a cabeça de Agatha e Alicia, e além do mais... - olhei-a no momento em que ela voltava sua atenção para seu prato e o canto de seus lábios se levantavam em um sorrisinho. - Nenhum demônio que se preste iria possuir uma pessoa e deixar ela falar com a boca cheia na hora do almoço. - brincou rindo baixinho e eu rolei os olhos sabendo que ela odiava que eu falasse de boca cheia e não iria deixar o momento passar sem me dá uma alfinetada.

- Ridícula! - murmurei fazendo questão de enfiar o máximo de comida na boca e mastigar fazendo barulho. Ela fez uma careta, mas sorriu depois.

- Só toma cuidado com essas vacas, ok? Se precisar grita que eu vou atras delas com minha faquinha de serra. - ela levantou a mão onde segurava a faca de cortar carnes somente para enfatizar o que tinha dito. Eu ri baixinho sendo acompanhada por ela, mas no fundo minha mente me lembro que Linda e Laura não estavam completamente erradas. Eu não estava necessariamente possuída, mas alguma coisa estava atras de mim. Eu estava quase convencida de que não poderia ser somente fruto da minha imaginação, as sensações eram vividas demais.

Passamos o resto da tarde entre a sala de leitura e as obrigações estudantis. Eu estava com a cabeça tão cheia que quando deu a hora de jantar eu preferi me manter na biblioteca para terminar a enxurrada de lições que irmã Maria tinha passado. Não iria correr o risco de acabar ajoelhada no milho por não ter entregado a maldita lição. Eu não fui a única a ficar na biblioteca. Duas adolescentes estavam cochichando entre si, sem nenhum livro aberto entre elas, e eu me perguntei se eu estava atrapalhando algum tipo de pegação.

Procurei ignorar e voltei a atenção para o meu caderno e o grosso livro que eu tinha ao meu lado, de qualquer forma ali não era lugar de namorar. Esperei que elas se tocassem que eu não sairia e saíssem elas mesmo, mas aparentemente elas estavam ignorando minha presença e não pareciam tão incomodadas comigo. Continuei ignorando-as até perceber a luz do candelabro no fundo da biblioteca piscar e se apagar. Olhei para lá curiosamente, sentindo o costumeiro arrepio pelo meu corpo. Encarei nervosamente as garotas risonhas e os seus olhos divertidos se cruzaram com os meus.

- Essas lampas velhas... - uma delas murmurou divertida e a outra somente deu de ombros, como quem dissesse "deixa para lá", mas eu sabia, eu sentia, que não era isso.

Juntando todo o requisito de coragem que tinha em meu corpo, eu me levantei arrastando a cadeira em um barulho absurdamente alto e fui em direção aos fundos da biblioteca. Eu queria que alguém estivesse prestando atenção, pois em minha mente insana, o que quer que fosse que estava ali não me faria mal. Loucura? Talvez, mas continuei seguindo mesmo assim.

Eu podia sentir sua presença, mas mais do que isso, eu podia ver uma sombra perfeita de um corpo masculino e alto.

- Quem é você? O que quer? - murmurei corajosamente e esperei por uma resposta. Olhei ansiosa para trás e peguei as duas meninas me encarando com curiosidade. Xinguei-me mentalmente por não ter falado mais baixinho. Um punhado de livros caíram da estante com violência, me fazendo dá um pulo assustado para trás. Ouvi as cadeiras serem arrastadas as minhas costas. - Desculpe, derrubei sem querer. - me forcei a sorrir, mesmo que nervosamente. As expressões das meninas ainda eram de confusão.

- O que estão fazendo? Já para cama! O jantar acabou a quinze minutos! - a voz de Izobel ecoou de repente e nos fez levar um susto. Peguei os livros do chão apressadamente e enfiei-os em seus respectivos lugares, prendendo a respiração ao perceber um par de olhos vermelhos me observando sob a escuridão entre os livros. Enfiei o último livro apressadamente e sai correndo dali o quanto antes.

- Meu deus, Rose! Onde estava? A irmã Maria vai chegar a qualquer momento. - Brenda foi jogando a camisola em minha direção, enquanto eu me apressava em retirar a roupa que éramos obrigadas a usar aqui no convento, um vestido cinza com cumprimento de um palmo abaixo dos joelhos e uma blusa de mangas cumpridas branca e com botões, que usavamos por debaixo do vestido. Esse era nosso uniforme, como ainda não éramos formadas não usávamos as roupas próprias para freiras.

- Perdi a hora estudando na biblioteca. - murmurei passando a camisola por minha cabeça e alisando a roupa e os cabelos no momento em que via a maçaneta da porta ser aberta. Chutei as roupas que estava usando momento antes para debaixo da cama.

-Estão prontas? - a voz autoritária da irmã Maria ecoou e todas respondemos um sonoro "sim" em coro e nos ajoelhamos. Assim que meus joelhos tocaram o chão eu me perguntei o que a minha visita iria pensar ao nos ouvir rezando. - Então vamos! Pai Nosso que estais no céu... - a voz dela ecoou rouca e forte em toda a oração, cinco vezes, e logo depois ela começou a fazer sua oração de praxe, enquanto murmurávamos nossa própria prece baixinho, até que ela terminasse a sua. Eu me mantive calada, enquanto sentia aquela mesma quentura que senti ao banheiro, mas dessa vez estava em meus joelhos, embaixo da cama. Meus olhos se arregalaram com o horror. - Amem! - a voz dela encerrou o ciclo de orações e eu fui obrigada a forçar meu corpo a se levantar, apoiei minhas mãos na cama, não confiando totalmente em minhas pernas. A irmã Maria e irmã Izobel ficaram ali até que todas nós estivéssemos deitadas, e quando nos cobrimos irmã Maria apagou a luz e se retirou do quarto.

Fiquei ali deitada na cama, naquele quarto escuro, escutando cada uma das meninas caírem no sono. Primeiro os cochichos foram silenciando-se aos poucos, depois o som dos corpos se remexendo inquietos foram acabando e por fim, o quarto caiu no mais profundo silencio, enquanto o leve ronco de Rebecca era o que me chamava atenção. Eu ainda estava congelada, com medo de me mexer e ver ele sair debaixo da minha cama. Por mais que estivesse acostumada a ver a sombra sempre parada no canto do quarto, eu não saberia a minha reação ao vê-lo sair debaixo da minha cama. E parecia que ele pensava o mesmo, pois foi um segundo só de distração para que eu percebesse que ele já tinha saído e voltado ao seu local habitual.

Olhei atentamente em direção ao seu rosto, esperando ver os orbes vermelhas, mas não tinha nada ali. Somente escuridão. Uma sombra negra, que poderia facilmente ser considerado coisa da minha cabeça. Mas não era, prova disso foi eu vê-lo mexer-se brevemente e coçar o seu nariz. Sim, coçar o nariz!

- Oh, por favor! - rosnei baixinho em um ímpeto de fúria e joguei os lençóis no chão. Eu não sabia o que pretendia fazer, mas eu iria fazer alguma coisa.

Eu não pensei muito no que estava fazendo, e isso não foi inconscientemente. Eu sabia que se pensasse muito eu não teria coragem o suficiente para tentar alguma coisa. Deixei que aquele impulso corajoso me comandasse e não deixei espaço para me arrepender quando me vi parada em frente a porta do porão.

O costumeiro arrepio percorreu meu corpo e dessa vez eu não soube dizer se era a presença dele ou se era porque eu sabia que aquilo era uma péssima ideia. Antes que eu me acovardasse abri a porta, tomando o devido cuidado de fecha-la novamente atras de mim, e desci em direção a completa escuridão, enquanto segurava no corrimão das escadas para firmar meu corpo. Estendi minha mão à frente do meu corpo, tateando em busca de algo para me segurar. Sozinha naquele porão escuro eu podia pensar facilmente em mil motivos que justificasse como aquela ideia era ruim. Me assustei quando trombei com algo e o barulho ensurdecedor ecoou naquele cômodo, reverberando em minha mente e fazendo meu coração pular dentro do meu peito dolorosamente.

- Por que não para de tentar andar por aí as cegas? Não quer acordar todo mundo, quer? - eu não estava pronta para escuta-lo. Eu não sabia nem o que eu iria falar ou fazer para fazê-lo falar alguma coisa. Mas ali estávamos, sozinhos, no mais completo escuro, enquanto eu tremia e tentava a todo custo enxerga-lo naquele breu. Era completamente impossível.

- Onde você está? - me forcei a falar, tentando ao máximo colocar convicção na minha voz. Eu queria aquilo não era? Eu queria vê-lo e acabar logo com aquele misterio, pois uma coisa era certa, invocamos alguma coisa com aquele jogo estupido, e parecia que a coisa só tinha aparecido para mim. Ofeguei quando percebi seu olhar avermelhado aparecer sob a escuridão. - Quem é você? - sussurrei encarando o ponto onde ele estava. Eu estava começando a ficar apavorada, e aquele cenário não era dos melhores. Esperava que ele se revelasse algum espírito brincalhão ou qualquer coisa do tipo ao invés de algo mau. Eu precisava crer nisso, ou então eu tinha me posto em uma baita enrascada. Mas o fato dele se manter na sombra me fazia teimar comigo mesma em dizer que se ele quisesse me machucar já teria feito.

- Você não sabe? - sua voz era baixa, murmurada roucamente em uma falsa surpresa. - Mas foram vocês mesmo que me chamaram! Meu nome é Nathaniel, ou devo me apresentar como Sr. Demônio?

Puta merda!

Capítulo 3 Sr. Demônio ou Sr. Sarcástico 

- Você vai me matar? - minha voz saiu em um sussurro. Incrivelmente eu não estava tão assustada quanto eu deveria estar. Meu coração ainda batia tão acelerado quanto as asas de um beija flor, mas eu acreditava profundamente que aquilo era uma reação a presença dele. Alguma coisa haver com o nosso corpo detectar o perigo, antes mesmo dos nossos olhos ou cérebro. Porque de uma coisa eu tinha a completa certeza, eu não estava tão assustada assim. E isso só confirmava o que Brenda me dizia sempre: Que eu não era uma pessoa normal.

- O jure ainda não se decidiu quanto a isso. - embora eu não pudesse vê-lo, eu podia ouvir o toque de divertimento em sua voz. Ele estava querendo mexer comigo.

- O que você quer comigo? Pretende possuir meu corpo e me fazer matar minhas amigas como forma de punição por termos lhe incomodado? - tentei colocar o mesmo tom de divertimento que ele tinha posto em sua resposta, mas não consegui. Pois no fundo, bem no fundo da minha cabeça completamente louca, eu sabia que ele poderia fazer isso mesmo e a ideia era simplesmente apavorante.

- Por enquanto eu me contentarei em saber seu nome. Depois podemos pensar nessa sua ideia aí. - a voz dele mais uma vez revelava um divertimento interno. Abri a boca prestes a lhe dá uma resposta afiada, mas segurei a tempo. O que eu estava pensando?! Ele ainda é um ser que pode me fazer de picadinhos em um estalar de dedos, não posso simplesmente soltar uma das minhas respostas sarcásticas.

- Acredito que já saiba, eu consigo sentir você no mesmo ambiente que eu estou as vezes. Olhando... - murmurei encarando seus olhos vermelhos na escuridão. Aquilo era tudo que ele me mostrava, e eu me perguntei se tinha haver com o fato de todos falarem que demônios tinham a aparência horrível. Eu estava começando a ficar curiosa e sabia que isso era um perigo, pois eu sabia que se ele fosse assustador, a imagem iria me apavorar em sonhos para sempre. - Por que fica sempre me olhando? Por que só aparece para mim?

- Primeiro: Você faz muitas perguntas, para alguém que acabou de escutar que invocou um demônio. Você é uma garota bem estranha! Não deveria estar gritando com medo ou algo assim? - aquilo tinha soado como uma pergunta retorica, mas eu dei de ombros mesmo assim. Decidi ignorar a parte em que ele me chamava de estranha, afinal o simples fato de eu estar aqui conversando com ele tão naturalmente assim, provava que era verdade. - Segundo: Eu não fico te olhando. - um barulho de escarnio escapou sem minha permissão. - Garota eu estava pronto para dar em vocês o maior susto de suas vidas. Um demônio precisa se divertir. - eu ainda não conseguia me acostumar ao ouvir aquela palavra. Demônio. Era surreal. Ainda mais por escutar coisas terríveis vinculadas à eles, e estar aqui conversando tão naturalmente com um. Não encaixava. - Eu iria começar por você, a espertinha debochada. Mas confesso que fiquei curioso quando deixei você sentir minha presença e não escutei seus gritos. Você realmente é muito estranha...

- Para de me chamar de...

- Terceiro. Eu ouvi o seu apelido, quero saber o seu nome. Afinal, você já sabe o meu. Uma troca justa, não acha? - a curiosidade estava implícita em sua voz e eu me peguei imaginando-o com a cabeça inclinada para o lado, enquanto esperava que eu respondesse.

- Rose... Mary. - murmurei a contra gosto sentindo meu rosto esquentar.

- Rosemary?! - eu sabia o que vinha a seguir somente em escutar seu tom de voz. - Como "O bebe de Rosemary"? - rosnei baixinho e ouvi sua risada vindo do escuro. Valeu mãe por esse maravilhoso nome!

- Nathaniel também não é isso tudo não! Nada demoníaco e para falar a verdade, parece até um pouco bíblico. - me arrependi do que tinha dito assim que as palavras saíram da minha boca. Merda, o que eu tinha na cabeça em discutir com um demônio? Que ele risse o quanto quisesse do meu nome ridículo!

- Verdade! Seu nome consegue ser pior que o meu. - deixei a respiração sair em um suspiro de alivio ao perceber que ele não tinha ficado com raiva. - Nossos pais parecem ter o mesmo senso de humor ridículo. - sua voz não passou de um murmúrio.

- Quem são seus pais? Quem é você?

- Eu... - antes que ele tivesse a chance de me responder, nossa atenção foi atraída para o canto daquele porão. Por mais escuro que tivesse eu podia ver uma fumaça densa começar a se acumular em uma forma humana. - Saia! - a voz que ele usou para ordenar que o que quer que fosse que estava prestes a aparecer, fez com que cada pedacinho do meu corpo estremecesse. Não parecia em nada com a voz que ele estava usando para conversarmos, e isso me assustou para um caralho. Ali eu percebi que se ele quisesse me matar somente de susto ele conseguiria. - Você está bem? Parece que vai vomitar. - eu não percebi que ele estava me olhando, até que a voz dele ecoou. O som estridente de um balde sendo arrastado ecoou e eu olhei para o chão vendo a forma do balde metálico parar aos meus pés. Olhei para o canto novamente e não consegui ver mais o que quer que estivesse querendo aparecer ali.

- Quem é você? - sussurrei depois de um tempo. Meu corpo ainda estremecia do susto, mas eu sabia que não iria vomitar. A curiosidade já tinha se instalado em cada pedacinho do meu corpo, e eu não conseguia ouvir a voz da razão me dizendo para ir embora. Para aproveitar que esse ser à minha frente não queria me matar, e pedir para que me deixasse livre de suas vistas, livre dele. Mas eu não conseguia. Eu queria saber, queria conhecer mais sobre coisas que até então eu não acreditava que existisse.

- Sou um demônio.

- Que tipo de demônio você é no inferno? - forcei minha voz sair firme ao pronunciar a palavra "demônio" e esperei que ele me respondesse. - Todos vocês conseguem fazer isso que você fez?

- Não. - sua voz foi firme ao me responder. Eu esperei que ele fosse me dizer algo mais, mas o cômodo continuava no mais profundo silencio. Deixei que minha mente processasse o fato de que além de eu estar conversando com um demônio, ele era um dos poderosos. - Você parece estranhamente calma. Isso me deixa um pouco desconfortável.

- O que me deixa desconfortável é você usar muitas vezes a palavra estranha quando se refere a mim. - murmurei sem pensar e ouvi um riso baixo vindo do escuro onde ele estava. - Chega a ser insultante até. - me abaixei virando o balde de cabeça para baixo e me sentando no mesmo. - Você está esperando que eu saia correndo?

- Talvez.

- O júri já se decidiu se vai me matar ou não? - tentei colocar uma pitada de ironia na pergunta, mas eu ainda estava meio nervosa. O som da sua voz grossa ainda enchia minha cabeça, me deixando com um pouco de medo.

- Se eu disser que irei, você vai sair correndo?

- Talvez. - ouvi um suspiro profundo vindo dele e esperei. Um rangido de mesa ecoou, indicando que ele encostava seu corpo na mesma e isso atiçou ainda mais minha curiosidade em vê-lo. - O que estamos fazendo aqui? Por que veio especificamente para cá? Eu sei que você está, ou pelo menos estava, assustada.

- Eu precisava ter certeza de que não estava ficando louca. - murmurei encarando diretamente sua íris vermelha. - Precisava ter certeza de que você não era fruto da minha imaginação, e quando eu te vi cocar o nariz eu confesso que achei que só estivesse imaginando coisas. Não pensei que poderia escutar sua voz e... Você arrastou um balde! Eu estou sentada nele! Isso não é coisa da minha cabeça. Eu estou meio feliz por não estar ficando louca, afinal. Mas...

- Mas por contra partida eu sou um demônio. E você se enfiou em um porão, sozinha com um demônio. - eu consegui enxergar um sorriso nascer em seus lábios. - Isso não é muito inteligente. Tem lá seu certo tipo de coragem, mas...

- Você não vai me machucar...

- Está afirmando isso, ou está tentando convencer a si mesma? - aquele tom de voz manso e despreocupado estava me irritando.

- Talvez você não seja tão assustador quanto acha que é. - murmurei azeda e baixinho. Esperava que ele não tivesse escutado, mas o som estridente do balde sendo arrastado pelo chão e levando meu corpo junto, me provava que ele tinha escutado sim. Meu corpo se levantou sem minha permissão e minhas pernas, embora tremulas, sustentavam meu corpo deixando-me na altura de seus olhos. Prendi a respiração desviando meu olhar de seus olhos vermelhos, o que foi uma péssima ideia, pois assim eu mirava o que seria sua boca. E estávamos perto o suficiente para que eu pudesse sentir seu hálito quente em meu rosto.

- Estou assustador o suficiente para você? - seu hálito quente batia em meu rosto a cada palavra murmurada. Senti seus dedos se fecharem em meu braço e segurei a respiração. Seus dedos eram tão quentes, que deixavam um certo desconforto em meu braço conforme ele me apertava.

- Não. - respondi com o pouco folego que me restava. Eu estava com medo sim, mas eu também me sentia estranhamente compelida a continuar conhecendo-o. A única coisa que me vinha a cabeça era que meu sexto sentido ou meu senso de autopreservação, se é que eu tinha um, me diziam para ir embora, sair correndo sem olhar para trás. Mas alguma parte da minha mente, me dizia que ele não iria me fazer mau. Que ele teve todas as oportunidades do mundo, mas não o fez, então não seria agora que o faria.

Antes que eu pudesse pensar em falar ou fazer algo, o som do interruptor de luz ecoou. Arregalei meus olhos olhando para trás automaticamente, mas depois voltei minha atenção para frente quando a claridade revelou as bagunças daquele porão. Eu estava em pé, diante da mesa e de Nathaniel, eu podia sentir sua mão apertando meu braço, mas eu não conseguia vê-lo mais.

- Quem está aí? - a voz grossa de irmã Maria ecoou e eu senti meu coração falhar uma batida. Que flagra desgraçado! Eu podia sentir cada cédula do meu corpo travar.

- Dela você tem medo?! - a voz de Nathaniel sendo sussurrada em meu ouvido me tirou do meu torpor e me lembrou que eu ainda tremia próximo a ele. - Inacreditável. - seu sussurro foi a única coisa que eu ouvi antes de olhar para trás e me deparar com irmã Maria segurando uma lanterna acesa e me olhando com fúria.

- Rosemary! O que pensa que está fazendo fora de sua cama? - mesmo sua voz subindo algumas oitavas, irmã Maria ainda tinha a voz grossa como a de um fumante. Ela desceu as escadas tão rápido que eu me admirei que uma senhora velha tivesse tal agilidade. A irmã parecia que esperava uma explicação vinda de minha parte e quando eu abri a boca para falar algo eu vi seu olhar recair no tabuleiro Ouija largado ao chão. - Como ousa! - o rugido ultrajado saiu de seus lábios e eu vi sua mão vir em minha direção. Irmã Maria era conhecida por todas nós ao impor sua disciplina arcaica com violência, e meu corpo automaticamente encolheu esperando pelo tapa, mas ao contrário disso eu senti seus dedos ossudos se fecharem em meu braço com uma força impressionante e me puxarem para si. A quentura da mão de Nathaniel me abandonou e meu corpo foi arrastado em direção ao meio do porão.

- Irmã Maria eu...

- Calada! Como ousa sair de sua cama essa hora?! E ainda trazer esse tipo de coisa para dentro do convento! - rosnou pegando o tabuleiro e nos direcionando para fora do porão. Subimos as escadas rapidamente e sua mão livre foi para o interruptor, deixando o porão no breu em que estava antes. Olhei para trás uma última vez e consegui vislumbrar o que seria os olhos vermelhos de Nathaniel brilharem no escuro antes que irmã Maria fechasse a porta.

Andamos pelo extenso corredor cheio de portas que indicavam quartos, e salas de aula. Eu sabia para onde estávamos indo, antes mesmo dela virar o corredor. Observei a madeira envernizada assim que viramos o corredor menor e suspirei. Eu pude sentir a presença de Nathaniel, antes de sentir o roçar dos seus dedos em minha mão me avisando. Prendi meu lábio inferior entre os dentes, até que o gosto do sangue preenchesse minha boca. Eu estava nervosa, estava com medo e acima de tudo estava envergonhada, pois não iria conseguir fazer com que Nathaniel não visse a humilhação que eu estava prestes a passar.

Cedo demais chegamos a sua sala. A claridade do lugar fez meus olhos arderem. Irma Maria apagou sua lanterna e se encaminhou para sua mesa, logo depois de soltar meu braço.

- Irei escrever para sua mãe, avisando do seu delito e da sua punição. - esse era o jeito dela falar que não tinha para onde corrermos. Todos os pais que colocavam suas filhas nesse inferno sabiam das atrocidades que acontecia aqui, ou não sabiam, mas ficavam cientes quando suas filhas recebiam algum castigo. Acredito, ou melhor, preferia acreditar que irmã Maria omitia em suas cartas como era o castigo imposto para nós. Me custava acreditar que existisse pais que concordassem com esse método sádico. - Já sabe o que fazer! - a voz autoritária dela ecoou me fazendo dar um pequeno pulo. Andei a passos rápidos até seu armário e peguei o saco de milho que ela guardava ali. Não tinha o porquê de ficar adiando o que eu sabia que iria acontecer. Despejei uma boa quantidade no chão e levantei um pouco a camisola me preparando para ajoelhar. - Não, tire-a! - meu coração acelerou dentro do peito e eu senti meus olhos se enxerem de lágrimas.

- Irmã, por favor... - eu sabia o que viria a seguir, e a vergonha em ser punida na frente de Nathaniel, ficou de lado ao imaginar a dor que eu iria sentir. Eu já tinha ouvido falar desse tipo de punição que irmã Maria aplicava em alguns casos, mas nunca tinha sentido na pele. No máximo ficava ajoelhada no milho por uma hora. Observei em choque ela abrir a gaveta de sua escrivaninha e tirar de lá uma vara de madeira.

- Comece! - a ordem não dava margem para ser contestada. Sua voz não tinha um pingo de compaixão e ali eu soube que nada do que eu lhe dissesse seria capaz de anular meu castigo. Passei minha camisola por minha cabeça, sentindo as lágrimas embaçarem minha visão e ajoelhei sob o milho. - Olhe para cristo! - a primeira pancada veio em meu braço esquerdo, acompanhada de mais uma ordem. Levantei meus olhos em direção a pequena cruz que tinha na parede e comecei a murmurar minha prece. - Mais uma vez! - outra ordem e outra pancada, dessa vez no lado direito.

Conforme o tempo ia passando, irmã Maria ia alternando os lados em que desferia seus golpes em meus braços. Não tinha uma sequência, ela só batia e sempre em cima do mesmo lugar que tinha batido antes. Em certo momento virei meu rosto ao perceber uma sombra preta próximo a ela. Eu consegui ver seus olhos vermelhos brilharem, conforme a sombra de um corpo humano aparecia atras de irmã Maria.

- Não! - supliquei baixo sabendo que ele me escutaria. Deixei que as lágrimas que eu tanto segurava escapassem de meus olhos.

- O que disse? - não sei como era possível, mas a voz dela parecia mais raivosa ainda. - Cale-se e continue sua prece! - a vara desceu perigosamente próxima ao meu rosto dessa vez. Voltei minha atenção a cruz e comecei a murmurar minha prece.

Eu queria que aquilo acabasse, mas mais do que isso eu queria que Nathaniel não visse aquilo. Porém eu sabia que ele continuava ali, eu sentia sua presença. Depois de incontáveis surras e incontáveis preces, irmã Maria se deu por satisfeita. Naquela altura o milho já estava coberto de sangue, assim como meu braço, que tinha aberto um corte onde ela bateu incontáveis vezes.

- Levante! - obedeci a ordem em silencio, sentindo meu corpo protestar quando me movi. Eu podia ver por sua janela que estava prestes a clarear e já já as meninas acordariam. Observei enquanto ela ia até o armário e tirava de lá uma garrafinha, trinquei os dentes ao sentir o cheiro de álcool quando ela destampou. A dor foi insuportável quando eu senti o liquido sendo despejado em meus joelhos e braços, mas eu me forcei a não gritar. - Me siga. - sua voz já não tinha aquele traço raivoso, somente a habitual rouquidão de sempre. Irmã Maria esperou que eu passe a camisola por minha cabeça e depois abriu a porta. Sua lanterna já estava em sua mão, iluminando o caminho que logo eu percebi ser o do banheiro. Ela se enfiou em um boxe qualquer e ligou o chuveiro ao máximo. - Entre! - mecanicamente eu tirei minha camisola e calcinha. Por mais que eu estivesse com dor naquele momento, eu me senti ruborizar ao saber que Nathaniel estaria me vendo nua. Cobri meu corpo com os braços e me enfiei embaixo da água, me esfregando rapidamente e ignorando meus braços e joelhos doloridos.

Irma Maria desligou a água e com um aceno de cabeça ordenou que eu a seguisse. Vesti minha peça de roupa rapidamente, sentindo o tecido da camisola se grudar em meu corpo molhado e a segui. Percebi que não estávamos indo para o quarto assim que passamos pela porta vermelha. Olhei para irmã Maria em confusão quando paramos em frente ao porão. Ela abriu a porta e eu olhei para a escuridão.

- Você ficara aí, durante três dias para purificar sua alma. Espero que use esse tempo para pensar no que você fez. - arregalei os olhos processando a informação de que passarei três dias sem comer. Ela não esperou uma resposta minha. Pegou em meu braço dolorido e me empurrou para dentro. Coloquei minha mão no corrimão da escada, assim que ouvi a porta se fechar. O barulho do trinco sendo passado na porta e o clique, do que seria o enorme cadeado vermelho que quase nunca víamos na porta, ecoou me fazendo ter a conclusão de que ela me deixaria ali trancada.

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