Meu pai armou para que eu me casasse com Pedro Costa, o herdeiro da fazenda vizinha.
Eu o amava, um amor ingênuo de adolescente, e a tola em mim acreditava que, um dia, ele me amaria também.
Mas Pedro, um homem frio e calculista, aceitou o casamento arranjado apenas para evitar um escândalo, e logo depois, partiu para a Europa, vivendo sua vida como se eu e nossa fazenda não existíssemos.
Três anos de espera solitária, três anos criando sozinha nossa filha, Clara, alimentando a ilusão de que o retorno dele mudaria tudo.
Até que, um dia, recebi o vídeo.
Pedro, o "marido ausente", na Europa, não estava sozinho; o sorriso charmoso que nunca me dedicou era todo para Beatriz, sua ex-namorada, e para Ana, a filha dela.
Ele não tinha aversão a germes; ele tinha aversão a mim, à nossa filha.
A farsa desmoronou, e a dor me sufocou.
Mas o que seria do meu coração ao ver meu marido trazer sua amante e a filha dela para a minha casa, a casa da nossa filha?
Como se não bastasse, Pedro a tratava como sua própria filha, enquanto Clara, nossa Clara, era completamente ignorada, invisível aos olhos dele.
A crueldade atingiu o ápice quando Ana, mimada, destruiu um desenho de Clara e Pedro, em vez de repreendê-la, se virou para mim e disse: "Ana é só uma criança. Não seja tão dramática, Sofia."
A raiva me consumiu, e eu o confrontei, minha voz tremendo: "Pedro, quem é a sua filha? É a Clara ou a Ana?"
Com um sorriso desdenhoso, ele respondeu: "Você realmente precisa perguntar?"
Aquela insinuação, a negação de nossa filha na frente de todos, pulverizou o que restava do meu coração.
Eu era uma tola por ter acreditado em contos de fadas.
Peguei Clara nos braços, e, com os olhos secos e a voz firme, declarei: "Eu quero o divórcio."
Mas ele riu, zombando da minha dor, acreditando que eu era fraca demais para deixá-lo.
Ele não fazia ideia da mulher que ele acabara de criar.
Naquela noite, a mesma Beatriz que provocava meu marido em vídeo, me mandou uma mensagem: "Ele me disse ontem à noite que o casamento de vocês foi o maior erro da vida dele. Ele só está esperando o momento certo para se livrar de você."
A dúvida se dissipou.
Finalmente, eu estava livre.
Livre para cortar meus laços, mudar minha aparência, e, com a ajuda de meu pai, sumir do mapa, levando a única pessoa que importava de sua vida, para sempre.
Meu pai armou para que eu me casasse com Pedro Costa, o herdeiro da fazenda de café vizinha.
Eu tinha uma paixão platônica por ele desde a adolescência.
Meu pai, na sua tentativa de me proteger e garantir minha felicidade, encontrou uma maneira de nos unir.
Pedro foi encontrado em minha cama, uma armadilha que meu pai planejou nos mínimos detalhes.
Ele, um homem frio e calculista, aceitou se casar comigo no dia seguinte para evitar um escândalo que mancharia o nome de sua família.
O casamento foi uma formalidade fria, sem amor, sem calor.
Logo depois, Pedro começou a viajar.
Suas viagens para a Europa se tornaram frequentes, depois constantes, até que ele simplesmente ficou por lá.
Três anos se passaram.
Nesses três anos, eu vivi sozinha na imensa fazenda.
Dei à luz nossa filha, Clara, sozinha.
Cuidei dela, administrei os negócios da nossa fazenda, e esperei.
Todo dia eu esperava pelo retorno dele, acreditando que a presença de uma filha poderia amolecer seu coração.
Três anos depois, recebi a notícia.
O assistente dele, João, me ligou para avisar que Pedro estava voltando ao Brasil.
Naquele dia, eu tinha um compromisso de negócios inadiável, uma reunião que poderia definir o futuro da nossa safra de café.
Cancelei tudo.
Peguei Clara, que agora tinha quase três anos, e dirigi até o aeroporto.
Meu coração batia descontrolado.
A espera no portão de desembarque pareceu uma eternidade.
Clara, em meus braços, olhava para as fotos de Pedro no meu celular e apontava.
"Papai."
Quando ele finalmente apareceu, alto, bonito, vestindo um terno caro, meu fôlego sumiu.
Ele parecia ainda mais charmoso do que nas minhas memórias.
Clara se agitou no meu colo, esticando os bracinhos na direção dele.
"Papai! Papai!"
Eu me aproximei, com um sorriso nervoso nos lábios.
"Pedro, bem-vindo de volta."
Ele me olhou, um olhar que atravessou meu corpo como um vento gelado.
Seus olhos não demonstraram nenhuma emoção.
Nenhuma alegria. Nenhum reconhecimento.
Ele olhou para a pequena Clara, que ainda se contorcia para alcançá-lo, e deu um passo para trás.
Sua voz foi baixa, mas cortante.
"Desculpe, tenho aversão a germes."
Fiquei paralisada.
Aquelas palavras ecoaram no barulho do aeroporto, mas para mim, soaram como um grito em meio ao silêncio.
Clara parou de se mexer, seus bracinhos caíram.
Ela olhou para ele, depois para mim, com seus grandes olhos castanhos cheios de confusão.
A partir daquele dia, minha vida se transformou em uma tentativa desesperada de agradá-lo.
Clara e eu lavávamos as mãos mais de três vezes antes de cada refeição.
A fazenda estava impecável, brilhando de tão limpa.
Demiti uma das cozinheiras porque Pedro reclamou que sentiu cheiro de alho em suas roupas.
Mas ele nunca mais voltou para casa.
Ele se instalou em um apartamento de luxo na cidade e nunca mais pisou na fazenda.
Nunca abraçou Clara.
Nunca sequer tocou nela.
A esperança que eu alimentei por três anos começou a morrer, lentamente, dolorosamente.
Até que, em uma noite fria, eu vi o vídeo.
Um amigo me mandou o link, sem nenhum comentário. Era uma entrevista de uma revista de celebridades, gravada na Europa.
O repórter perguntou a ele, em meio a um evento sofisticado.
"Pedro, qual a coisa mais feliz que você fez recentemente?"
Pedro sorriu, um sorriso charmoso e despreocupado que eu não via há anos.
Ele respondeu, com a voz leve.
"Na semana passada, na Europa, coloquei a Ana para dormir e depois levei a Beatriz para a despensa."
A plateia riu, cúmplice.
Eu senti um frio percorrer minha espinha.
Beatriz era sua ex-namorada, uma socialite com quem ele ainda mantinha contato.
E Ana. Ana era a filha dela.
Os rumores que eu ignorei por três anos, os sussurros de que eles viviam juntos na Europa, eram verdadeiros.
Ele não tinha aversão a germes.
Ele tinha aversão a mim.
Ele não tinha medo de pegar uma criança no colo.
Ele só não queria pegar a nossa filha.
Naquela noite, a ilusão se quebrou em mil pedaços.
A dor foi tão intensa que me deixou sem ar.
Eu olhei para o quarto ao lado, onde Clara dormia abraçada a um ursinho de pelúcia.
A única coisa que importava no mundo.
Completamente desiludida, peguei uma folha de papel.
Comecei a escrever.
Os papéis do divórcio.
Eu iria embora. Para longe dele, para longe daquela fazenda que se tornou minha prisão.
Eu iria para a Europa com minha filha, e nós começaríamos de novo.
Sem ele.
No dia seguinte, Clara acordou chorando.
Ela se sentou na cama, com os olhinhos inchados, e chamou por um nome que partia meu coração.
"Papai."
Eu me aproximei e a abracei com força.
O cheiro do seu cabelo de criança, a forma como seu corpinho se encaixava no meu, era a única coisa que me mantinha de pé.
"Ele não está aqui, meu amor. O papai está viajando."
Ela soluçou no meu ombro.
"Ele não gosta de mim, mamãe?"
A pergunta, tão simples e direta, me atingiu com a força de um soco.
Eu a segurei mais forte, tentando esconder minhas próprias lágrimas.
"Claro que ele gosta, filha. Ele só... está muito ocupado."
Era uma mentira. Uma mentira que eu contava para ela e para mim mesma.
Naquele momento, uma onda de culpa e arrependimento me invadiu.
Eu era a culpada por trazer Clara a este mundo, um mundo onde seu próprio pai a rejeitava.
A culpa era minha por ter sido tão cega, tão ingênua.
Minha mente voltou no tempo, para a noite que selou meu destino.
Eu estava no meu quarto, lendo, quando meu pai entrou.
Ele era um homem do campo, de poucas palavras, mas com um amor por mim que beirava a superproteção.
Ele se sentou na beirada da minha cama.
"Sofia, eu sei que você gosta do rapaz dos Costa."
Eu corei, sem saber o que dizer.
Minha paixão por Pedro era um segredo que eu guardava a sete chaves.
"Pai, eu..."
Ele me interrompeu, sua voz firme.
"Eu conversei com o pai dele. Eles têm interesse em unir as fazendas. E eu quero ver você feliz."
Ele então me contou seu plano.
Um plano absurdo, saído de um romance antigo.
Eles iriam criar uma situação, um mal-entendido, que forçaria Pedro a se casar comigo para salvar as aparências.
Eu protestei, disse que era loucura, que não se podia forçar alguém a amar.
Mas no fundo, uma parte tola e sonhadora de mim pensou: e se desse certo?
E se, com o tempo, ele aprendesse a me amar?
A lembrança daquela noite me enojava.
Lembrei-me do casamento.
Da cerimônia rápida e impessoal.
Lembrei-me da nossa primeira noite juntos, no quarto principal da fazenda.
Eu estava nervosa, usando a melhor camisola que encontrei.
Ele entrou no quarto, tirou o paletó e o jogou sobre uma cadeira.
Nem olhou para mim.
"Você e seu pai conseguiram o que queriam", ele disse, a voz cheia de desprezo. "Parabéns. Agora cada um cuida da sua vida."
Ele se virou e foi para o quarto de hóspedes.
Dormimos em quartos separados desde o primeiro dia.
Uma semana depois, ele anunciou sua primeira viagem para a "Europa, a negócios".
Eu fiquei na fazenda. Grávida.
Descobri a gravidez duas semanas depois que ele partiu.
Liguei para contar, excitada, pensando que a notícia de um filho mudaria tudo.
Houve um longo silêncio do outro lado da linha.
Então, a voz dele, fria como gelo.
"Faça o que quiser. O filho é seu."
E desligou.
Mesmo assim, eu continuei esperando.
Durante os nove meses de gravidez, durante o parto doloroso, durante as noites em claro com um bebê nos braços, uma pequena chama de esperança teimava em não se apagar.
Eu mandava fotos de Clara.
Ele nunca respondia.
Eu contava sobre os primeiros passos dela, as primeiras palavras.
Ele nunca retornava as ligações.
Agora, olhando para o rosto triste da minha filha, eu finalmente entendi.
A esperança não era uma chama.
Era um veneno.
E eu tinha me envenenado por três longos anos.