O dia amanheceu perfeito, Lara amava aquele clima frio, o vento balançando as folhas e o cheiro de terra molhada, já era quase 8 horas da manhã, mas as nuvens estavam cobrindo o sol.
Sol e chuva travavam uma batalha, no fim o sol foi derrotado dando-se por vencido recolheu-se dando lugar para que a gotas de chuva caíssem, Lara acreditava que a chuva era uma forma de limpar toda a maldade que o homem causava a natureza. O dia ainda estava com uma leve penumbra o que demostrava que cairia um pouco mais de chuva, o cheiro de terra molhada que na verdade para ela era apenas cheiro de chuva, a fascinava, sua mãe dizia que ela tinha uma aura triste, porque esses dias demonstrava tristeza, mas a Lara não, ela simplesmente amava.
Lara cursava jornalismo estava no final do primeiro ano da faculdade, estava feliz, sempre sonhou em estudar jornalismo, mas não se imaginava fazendo entrevista, queria ser editora, amava ler e escrever, gostava de ouvir histórias e transcreve-las, acreditava que assim nada se perderia, o fato de colocar no papel todos os detalhes fazia com que os personagens da história se tornassem eternos.
Lara tinha a pele clara, não era muito alta tinha enormes olhos azuis como o oceano, cabelos pretos e liso de uma forma que ela não gostava muito mas Lara sempre acreditou que deveríamos amar cada detalhe de nosso corpo, ela tinha uma cicatriz da parte lateral da barriga de quando era criança, e estava comendo goiaba diretamente do pé, caiu e se arranhou em um arame, sua mãe vivia lhe dizendo para ela usar cremes para disfarça a cicatriz mas ela se negava veemente, dizia que aquela marca a lembrava da infância feliz que tivera, toda vez que olhava para a cicatriz podia afirmar que ainda se lembrava do gosto da goiaba se misturando ao amargo da dor. Seu corpo era magro, mas com curvas na medida certa, nunca foi muito de fazer exercícios gostava mesmo de correr, mas corria apenas em dias frescos não gostava muito do calor e por ter a pele muito clara todas as vezes que exagerava no sol ficava parecendo um pimentão.
Nesse dia especifico, vestiu uma calça jeans sem detalhes uma camiseta cinza com o desenho da deusa tríplice, que representava todos os ciclos da natureza, a Virgem, a Mãe e a Anciã.
Para Lara, todas as energias viam da natureza, onde tudo nascia, morria e novamente nascia, tornando assim o ciclo perfeito, ela acreditava em deuses e suas mitologias. Calçou seu allstar preto e partiu rumo a cozinha.
- Bom dia - Lara deu um beijo em cada um a mesa.
- Bom dia minha menina- pai de Lara sempre era extremamente amoroso com ela.
- Come logo ou vai chegar atrasada na aula- já a mãe de Lara era uma senhora mais rígida, não a tratava mal, mas era extremamente rígida com a sua criação, Lara acredita que sua mãe era assim pelo fato de ser mulher já que com seu irmão as coisas eram mais leves.
- Vamos pirralha come logo, hoje vou te levar- o irmão de Lara é um jovem de 25 anos extremamente bonito, sua pele bronzeada, era como ima para os olhares femininos, ao contrário de Lara, Henrique amava sol, calor e praia. Seus olhos verdes, tão grandes e chamativos como de Lara e ela podia jurar que de acordo com a luz do ambiente ou a alteração de humor, seus olhos adquiriam um tom mais escuro, as amigas de Lara ficavam babado em Henrique, o que as vezes era terrível, porque várias meninas se aproximavam dela apenas para chamar a atenção de Henrique.
- O que houve com Carlos? – Questionou Lara. Carlos era o motorista seu motorista a anos, ela se lembra dele desde de que era criança e adorava aquele senhor, Carlos a chamava de Blue por conta de seus olhos azuis e ela amava esse apelido carinhoso.
- Carlos está resolvendo alguns assuntos da empresa- disse seu pai
- Não quer minha companhia maninha? – Henrique a questionou rindo, pois sabia que Lara odiava chegar na faculdade com ele. Ele fazia questão de espantar todos os caras que se arriscavam perto dela, além que todas as vezes que ele a levava suas amigas ficavam em cima dele, exceto uma e Lara tinha quase certeza que isso abalava o grande e excessivo ego de Henrique.
Lara apenas deu língua a ele, fazendo sua mãe a recriminar e seu pai rir, afirmando que ainda tinha dois adolescentes em casa. O café da manhã sempre era feito os quatro juntos, era uma das poucas refeições que os homens estavam em casa, e depois que Lara começou a fazer faculdade almoçava pelo campos mesmo.
Lara e Henrique seguiram para a faculdade, iam conversando sobre assuntos aleatórios, Henrique além de um ótimo irmão era um grande amigo, seu defeito era ser possessivo demais quando se tratava de rapazes, mas como isso era um assunto que não estava muito nos planos de Lara ela e o irmão não tinham grandes problemas.
Assim que chegaram na faculdade, Lara viu Jessica conversando com um dos colegas de turma, Jessica era uma mulher muito linda, pele morena, olhos negros cabelo cacheado que chegava até a baixo da cintura e um corpo escultural, devido as várias horas de exercício na academia.
- Quem é esse rapaz conversando com a Jessica, Lara? – Henrique a questionou fazendo Lara ter certeza que o irmão tinha uma quedinha pela amiga.
- É um garoto da nossa sala, ele vivi atrás da Jessica tentando convence-la a sair com ele - Lara confessou tirando um suspiro de Henrique, Lara ria internamente da cara que o irmão fazia. Desceram os dois do carro, Lara tentou fazer com que Henrique a deixasse seguir sozinha mais foi impossível.
- Bom dia Jéssica, algum problema por aqui? - Henrique questionou dirigindo um olhar mortal ao rapaz ao lado de Jessica.
- Bom dia, claro que não- Jessica disse seria, abraçando a amiga.
-Vamos então meninas a aula já vai começar- Lara deu um beijo no irmão e seguiu os dois até a sala.
O dia passou rápido, quando se deram conta já estavam na última aula, Lara e Jessica faziam todas as matérias juntas eram inseparáveis.
- Jessica, acho que meu irmão está a fim de você. - Jessica se engasgou com a agua que bebia.
- De onde tirou essa ideia? Esta doida? – Questionou Lara com os olhos arregalados e Lara gargalhou da sua reação.
- Amiga olha a forma que ele olha para você, e hoje mais cedo ele parecia querer bater no Danilo.
- Para, ele só age assim, porque não fico correndo atrás dele, como todas as outras. – Lara acreditava nisso também, mas sabia que Jessica mexia de uma forma diferente com o irmão, mas resolveu deixar esse assunto pra lá, Jessica era extremamente reservada, ela havia tido um namorado quando ainda tinha 17 anos e ele foi um canalha com ela, Lara não sabia o que de fato havia acontecido, mas sabia que sua amiga tinha um trauma grande quando o assunto era rapazes e namoro.
As duas foram para saída e Henrique já estava esperando Lara, na porta do carro com toda sua posse de playboy, ele conversa com três garotas, quando viu as duas indo em direção ao estacionamento fixou seu olhar em Jessica, mas Jessica nem ao menos lhe cumprimentou se despediu de Lara e seguiu para seu carro.
- Vamos ou está muito ocupado? – Lara o questionou seria, ignorando a presença das garotas, entrou no carro e ficou esperando Henrique. O caminho foi feito em silencio Henrique estava sério, Lara o questionou mais ele disse que estava com problemas na empresa, como Lara se mantinha longe dos negócios da família resolveu deixar pra lá, já que não saberia como ajuda-los.
Chegando em casa, seus pais estavam em uma discussão bem seria, sua mãe estava com os olhos vermelho, provavelmente de tanto chorar e seu pai com uma feição nada boa, Lara não se lembrava de ver os pais brigando, assim que eles a viram pararam a discussão, sua mãe foi para o quarto e Henrique se trancou no escritório com o pai.
Na hora do jantar, sua mãe não estava presente, mas Lara achou de bom tom não questionar, sabia a hora certa de falar e com certeza aquele não era o momento.
No dia seguinte, o clima estava no mesmo jeito que do dia anterior, exceto pela ausência da chuva, Lara então resolveu que iria correr um pouco, havia alguns dias que não fazia isso, e como hoje haveria aula somente no período da tarde, poderia correr à vontade. Vestiu um conjunto de moletom preto, tênis, fez um rabo de cavalo em seus cabelos e colocou seus fones, gostava de ouvir música na companhia da natureza.
A casa de Lara ficava bem próxima a um grande parque repleto de arvores nessa época do ano elas estavam perdendo das folhas o que as deixavam ainda mais charmosa, as poucas arvores que tinham folhagem era em tons amarelo e alaranjados, aquilo tudo era realmente magníficos, algumas pessoas caminhavam outras corriam, mas por ser cedo haviam poucas pessoas o que deixava Lara ainda mais a vontade, ela primeiro começou se alongando depois fez uma pequena caminhada até seu corpo se acostumar em estar em movimento, logo já estava correndo, mas o que a deixou desconfortável foi sentir que estava sendo seguida, mas olhou tudo em volta e não via ninguém que parecesse estar a observando, deixou esse pensamento de lado e se concentrou na sua corrida e na música que embalava seus passos rápidos. Quando finalmente se deu por cansada já estava encharcada de suor, e resolveu voltar para casa. Chegando em casa novamente seus pais discutiam, mas dessa vez Henrique estava presente com a cabeça baixa, dessa vez Lara não deixaria passar.
- Bom dia, posso saber o que está acontecendo - os três a olharam com surpresa, até então não haviam notado sua presença – sei que está acontecendo algo e vocês estão me escondendo.
- Pai, ela tem o direito de saber, a final ela será a maior prejudicada - Henrique falou com os olhos fixo no chão como se estivesse com vergonha de encarar sua própria irmã.
- Sente minha filha, temos que... – mas antes que seu pai finalizasse sua mãe a abraçou o que a desconcertou, porque teve certeza que algo sério acontecia.
Lara se sentou e viu seu pai puxar o folego buscando uma força e coragem para lhe contar algo.
- Lara minha filha, primeiro vou te explicar de onde todo nosso dinheiro vem – Lara ficou confusa, pois sabia muito bem no que seu pai trabalhava. – Minha pequena, temos a nossa empresa de distribuição como você sabe, porém não é só isso que eu e seu irmão fazemos, antes mesmo de me casar com sua mãe, eu entrei para a máfia – Lara deu uma gargalhada, não podia acreditar no que estava ouvindo, seu pai um homem sempre tão calmo, amoroso e correto não poderia ter negócios fora da lei.
- Lara seu pai fala a verdade - sua mãe interviu e Lara pode ver lagrimas escorrer pelo rosto da mulher que sempre mascarou muito bem seus sentimentos.
- Eu iniciei na organização, apenas para auxiliar na distribuição das mercadorias, e com o tempo fui pegando gosto pelo dinheiro fácil, nesse período conheci sua mãe, ela era filha de um dos chefes de segurança me apaixonei por ela desde a primeira vez que a vi, nos casamos e eu prometi a ela que nunca me envolveria com o grande escalão, ficaria apenas na distribuição, mas infelizmente não consegui cumprir minha promessa, cada vez me envolvia mais e mais, a cada serviço bem finalizado o dinheiro que entrava aumentava ainda mais, nossa empresa que até então era totalmente legalizada passou a fazer serviços fora da lei, usava a empresa apenas para lavagem de dinheiro. Quando Henrique fez 15 anos eu tive a péssima ideia de o colocar no treinamento, na verdade não acho que teria outra saída, filhos nascido na máfia permanecem na máfia – essa frase fez todo corpo de Lara tremer- e conforme ele foi crescendo foi pegando gosto pelo trabalho, e cada dia ficava melhor no que fazia e hoje é um dos mais requisitados pelo grande escalão. – Não consiga mais segurar as lagrimas, não falava nada apenas olhava para meu pai que a cada palavra despedaçava mais meu coração e a imagem de bom pai que tinha em minha mente ia sumindo a cada revelação dita por ele. – Foi, então que tive a péssima ideia de desviar mercadoria, Henrique não sabia o destino da carga, então nem a ele contei o que iria fazer, fui idiota e ingênuo acreditei que não notaria e falta de apenas algumas caixas, a ganancia tomou conta da minha mente, só pensava em ganhar mais. Mas então eles descobriram o que eu tinha feito, e me deram corta para ver se o ocorrido iria se repetir, e como achei que nunca seria pego, cada vez aumentava mais os desvios – Henrique estava ainda na mesma posição de antes, cabeça baixa olhos e mãos fechados, como se quisesse se controlar.
- Pai você estava roubando da própria máfia? - falei a ele incrédula, porque até mesmo eu que não entendo como essas coisas funcionam não me atreveria a fazer isso.
- Nosso Pai é um idiota, e agora colocou todos nós em perigo, principalmente você. – Pela primeira vez desde de que essa conversa começou vejo os olhos de Henrique, eles estavam um verde tão escuro que mais parecia negros.
- Não entendi onde me encaixo nessa história, desde de que vocês começaram a contar estão falando que eu sou quem mais vai sofrer e não vejo onde estou ligada a isso a não ser pelo meu parentesco com vocês. – Falo cuspindo todas as palavras.
- Você será a garantia que não vão matar seu pai e seu irmão – minha mãe fala com pesar em sua voz.
- Como assim? Que garantia é essa? – Não estou entendendo nada
- Minha filha, para que não matam a mim e a seu irmão, você será dada como esposa ao filho do chefe, terá que se casar com ele como forma de pagamento da minha dívida. – Gargalho mais uma vez, uma risada histérica, não pode ser verdade o que estou ouvindo, isso deve ser uma brincadeira de muito mau gosto.
- O senhor só pode estar ficando doido. – Nesse momento um homem alto, forte com uma cicatriz enorme em seu rosto entra em casa, acompanhado de Carlos que me olha com pesar em seus olhos.
- Daqui a uma semana será o seu casamento com meu filho, e pelo que estou vendo seu pai não lhe deu educação, não sabe respeitar a autoridade de um homem, se bem que seu pai não pode ser considerado como homem.
- Padrinho - Henrique o cumprimenta beijando suas mãos, o que me deixa confusa, como Henrique pode ser afilhado desse homem horrível.
- Se não te matei ainda Paulo, foi em consideração a Henrique, esse menino é mais homem que você. Henrique, preciso de você no galpão ainda pela manhã para finalizar um serviço e pegue suas coisas, a partir de hoje você não mora mais aqui com esse verme. – Fico imóvel não consigo responder nada, meu pai fica apavorado, minha mãe olha pra Henrique como se nunca mais fosse vê-lo novamente e Henrique vai para seu quarto sem dizer nenhuma palavra.
- Uma semana é pouco tempo para organizarmos um casamento. – Minha mãe diz com a voz falha e o homem a encara.
- Não Joana, é tempo suficiente, lembro-me muito bem que na sua vez de casar não se preocupou com o curto prazo, e além do mais, vocês devem apenas se preocupar com o vestido de noiva, o restante será feito em minha casa. – Minha mãe conhece esse homem antes mesmo de se casar com meu pai, e mais uma vez eu não consigo dizer nada sinto como se estivesse navegando em um mar calmo e em uma fração de segundos, ondas veem ao meu encontro me afogando cada vez mais.
- Tudo bem, daqui a uma semana nos encontramos na cerimônia. – Meu pai confirma.
- Na sexta Carlos levara as coisas da Lara para minha casa, leve apenas o necessário Lara, meu filho não quer nada comprado com o dinheiro de um traidor. – O homem que veio como a anunciação do mau em minha vida vai embora da mesma forma que entrou, acompanhado de Henrique que deixa um beijo da cabeça da minha mãe e vem até mim.
- Fique calma pirralha, vou estar com você sempre. – Não consigo me segurar mais, me agarro a ele com lagrimas inundando meu rosto e me despeço do meu irmão sem dizer nada, porque palavras nenhuma nesse momento consegue descrever a dor que tenho em meu coração e sei que ele compartilha desse mesmo sentimento, porque o homem que deveria nos proteger acaba de nos entregar a morte. Henrique sai de casa com uma pequena mala, não olha em direção ao meu pai e acompanha o homem e Carlos.
Fico em pé repassando tudo que ouvir, tudo que estava prestes a acontecer com a minha vida, por um momento queria que tudo fosse apenas um sonho terrível, não queria acreditar que meu pai tinha nos colocado nessa situação apenas por ganancia. Respiro fundo e olho em direção ao meu pai e minha mãe.
- Tem certeza que se eu me casar, o senhor e Henrique não sofreram nenhum tipo de agressão ou serão mortos? – Questiono meu pai.
- Tenho certeza, Hugo é o chefe da organização, ele é um homem de palavra, acredito que seu desejo nunca fosse machucar Henrique ele realmente gosta dele, e desde que Henrique entrou na organização ele tem o ensinado tudo que sabe e Henrique sempre lhe foi fiel.
- Ao menos Henrique tem a cabeça no lugar – minha mãe fala com tanta magoa de meu pai que acredito que o casamento deles também tenha chegado ao fim.
- Eu serei abusada e espancada por meu marido quando me casar?
- Não sei te dizer minha filha, mas nunca ouvir dizer que Conrado fosse violento com mulheres, na verdade nunca o vi com mulher nenhuma. – Pela primeira vez ouço o nome do meu futuro marido. Não consigo acreditar no que meu pai fala, mas sinto um pouco de conforto em saber que ele não tem fama de ser violento com mulheres.
- Tudo bem, não vou fugir, vou me casar, mas tenha em mente que não quero ter nenhum tipo de contato com o senhor, depois do meu casamento não desejo ter que olhar nunca mais para sua cara. – Nunca falei assim com meu pai, sempre fui uma filha obediente e amo o contato que tinha com minha família, sinto muita magoa, mas não sei se conseguirei ficar sem ver meu pai.
Subo para meu quarto, me jogo na cama derramo todas as lagrimas que estava segurando, choro pensando na vida que levarei daqui para a frente, nunca me imaginei envolvida com a máfia e muito menos sendo esposa do filho do chefe, desejava uma vida calma e normal como imaginava ser a vida dos meus pais, e agora nesse momento não sei o que me espera, o que o futuro me aguarda. Adormeço sentindo cada pedaço do meu coração se quebrar ainda mais, acordo com batidas insistente na porta.
- Filha, você precisa se alimentar, já esta tarde e não comeu nada durante todo dia.- abro a porta e vejo a imagem da minha, que não está tão melhor que a minha, afinal ela perdeu hoje os dois filhos e o casamento de anos - vamos você precisa comer alguma coisa.
- Mamãe não quero ver o Papai agora.
- Não se preocupe ele não está em casa, acredito que não volte tão cedo. – Déssemos e comemos uma sopa, sempre amei sopas e todos os tipos, principalmente as cheias de legumes como essa, mas não consigo comer, parece que tenho um nó na garganta.
- Filha você precisa comer, tem que ser forte. Não queria que passasse por isso, queria que tivesse uma vida diferente da que eu tive.
- Como assim diferente? – A questiono sem entender, porque até onde sabia meus pais casaram apaixonados.
- Eu não me casei com seu pai por vontade própria, amava outro homem, e acreditava que viveria com ele para sempre, mas na máfia mulheres não tem voz, somos criadas para gerar filhos, principalmente homens e satisfazer nossos maridos, ser submissa e sempre obedecer. - Minha mãe tem lagrimas nos olhos, posso sentir dor e triste em sua voz.
- Mamãe não sei se consigo- falo em um murmuro com os olhos já lacrimando e sentindo novamente um nó se formar na garganta.
- Lara, você consegue, tenho certeza disso. Não me casei com seu pai por vontade própria mais hoje não o trocaria por nada, pelo simples fato de ter vocês. Seu irmão e você, são minha vida, os amo incondicionalmente, sei que pareço rígida e não sei demonstrar meus sentimentos, mas não tive uma mãe amorosa e muito menos um pai, os ensinamentos que tive foi abaixo de surras e restrição alimentar, cheguei a ficar dias sem comer como castigo, meu pai não era uma boa pessoa e minha mãe não tinha forças para me amar porque também sofria tanto ou mais que eu nas mãos de meu pai. – Minha mãe teve uma infância tão sofrida e nem ao menos imaginava isso, agora entendo o motivo dela ser dessa forma, e sabendo da sua história tenho certeza que ainda tive dela muito mais do que ela tinha a oferecer, minha mãe realmente se esforçou e se esforça para ser uma boa mãe.
Fiquei extremamente surpresa ao saber da infância sofrida da mamãe e mais ainda em saber que ela já foi apaixonada por outro homem, com a sua declaração de que vive bem e é feliz a sua maneira, mesmo estando em um casamento arranjado me deixa um pouco mais tranquila. Não me considero uma mulher romântica, na verdade acredito que não tive muito tempo para pensar nisso, mas imaginava que quando a hora chegasse seria com um homem da minha escolha, que teria ao menos alguns sentimentos por ele, e me casar com Conrado não esteve em nenhum dos meus delírios.
- Mamãe eu posso contar a Jessica sobre meu casamento? – Questiono minha mãe sobre contar a minha amiga sobre isso, não queria ter que mentir ou omitir isso dela e muito menos me separa de Jessica, ela é a minha melhor amiga e única, nunca fui de muitas amizades e devido a criação rígida que tive minha mãe geralmente não aprovava minhas amizades. Jessica sempre foi muito na dela, tanto quando eu, meus pais sempre gostaram muito dela também.
- Lara se você confia nela pode contar sim, peço só que não entre nos detalhes com ela – confirmo com a cabeça pois isso é melhor do que ficar longe dela.
Terminamos nosso jantar, e fomos para o quarto, esperava poder ter uma noite de sono tranquila. Mas Conrado e seu pai estavam visitando até meus sonhos o que não me permitiu dormir muito bem.