O Ceifador
O templo diante de mim não era feito apenas de pedra, pois carregava em cada coluna antiga o peso de séculos de silêncio, de sangue e de segredos que jamais seriam ditos em voz alta, enquanto o céu cinzento pairava sobre nós como um presságio inevitável de que nada do que começasse ali sairia ileso.
Kenshi Takayama e Hanna Takayama.
Os nomes ecoavam dentro de mim com a precisão fria de uma lâmina sendo puxada lentamente da bainha, despertando não apenas lembranças, mas tudo aquilo que eu havia me tornado por causa deles.
Meu mestre e minha quase mãe.
As duas pessoas que encontraram um garoto quebrado, vazio e sem propósito, e decidiram moldá-lo, não em um homem, mas em algo útil, algo funcional, algo que pudesse servir.
Agora, tudo o que restava deles eram urnas.
Cinzas repousando sobre seda vermelha, como se a honra pudesse ser preservada mesmo depois de reduzida a pó, e ainda assim, apesar do cenário que exigia luto, meu peito permanecia rígido, incapaz de ceder ao que seria esperado de qualquer outro.
Eu deveria chorar, porque um homem comum choraria, um filho se permitiria desabar diante da perda, mas eu havia deixado de ser qualquer uma dessas coisas no dia em que encontrei os corpos dos meus pais abandonados em uma viela escura, mutilados de uma forma que o mundo nunca deveria permitir, enquanto o cheiro metálico do sangue se impregnava na minha garganta e o medo se tornava algo físico, quase palpável.
E foi naquele mesmo dia que deixei de ser filho, porque quando Kenshi me encontrou, ele não enxergou uma criança ferida, nem um menino que precisava ser salvo, mas sim uma ferramenta em potencial, algo que poderia ser lapidado, endurecido e, acima de tudo, utilizado.
Ele me deu abrigo, alimento, disciplina e propósito, mas em troca, arrancou de mim qualquer traço de fragilidade que pudesse comprometer aquilo que ele estava construindo.
E, inevitavelmente, o coração entrou nessa conta.
A voz do general ecoou pelo pátio com uma firmeza que não permitia interrupções, cortando o ar como uma sentença irrevogável, enquanto ele proclamava que aqueles nomes deveriam ser lembrados com honra, e suas palavras atravessavam o espaço não como consolo, mas como decretos que precisavam ser aceitos sem questionamento.
Ao redor, os anciãos permaneciam ajoelhados, os jovens guerreiros alinhados em silêncio absoluto, com os punhos cerrados e os olhos baixos, porque naquele lugar a dor não era demonstrada, ela era contida, transformada em disciplina, convertida em juramento.
Ninguém chorava, ninguém tremia, ninguém ousava perder o controle, porque naquela família a fraqueza não era tolerada, e quem desabava não era acolhido, era enterrado junto.
Eu permaneci imóvel entre eles, com a yukata negra absorvendo a pouca luz que insistia em atravessar aquele ambiente pesado, sem qualquer símbolo bordado no tecido, sem brasão que me identificasse, porque eu não precisava disso.
Meu reconhecimento não vinha de insígnias, mas do silêncio que me cercava, da ausência de necessidade de afirmação, porque quando alguém não precisa exibir poder, geralmente é porque já aprendeu a dominar tudo ao redor.
E, ainda assim, havia uma ironia silenciosa nisso, pois eu não dominava absolutamente nada, apenas havia aprendido a parecer como alguém que dominava.
Meus cabelos loiros, destoando completamente daquele mundo, estavam presos com precisão em um coque firme, lembrando-me constantemente de que eu não pertencia àquele lugar, nem pelo sangue, nem pela cultura, nem pela história, e mesmo assim, de alguma forma cruel, minhas raízes ali se tornaram mais profundas do que as de muitos que nasceram dentro daquele clã.
O som do sino de bronze rompeu o silêncio com uma lentidão quase ritualística, pesado e definitivo, reverberando nas pedras, nos corpos e, principalmente, na mente, como se cada badalada estivesse selando mais um fragmento do destino que eu jamais escolhi.
O general ergueu os olhos em direção às urnas e declarou, com a mesma autoridade imutável, que aquela linhagem jamais deveria ser apagada, e que a herdeira deveria ser protegida, custasse o que custasse.
A escolha de palavras não passou despercebida.
Porque enquanto todos ao redor assentiam em aceitação silenciosa, curvando a cabeça em respeito e submissão àquela ordem, eu permanecia imóvel, não por discordar, mas porque compreendia algo que não precisava ser dito.
Eu já era o custo.
Se Kenshi exigisse sangue, era o meu que corria.
Se precisasse de silêncio, era em mim que os segredos eram enterrados.
Se quisesse vingança, era o meu nome que surgia nos sussurros.
O Ceifador.
Um título que não me foi dado gratuitamente, mas conquistado a cada corpo deixado para trás, a cada missão cumprida sem hesitação, a cada parte de mim que precisei abandonar para me tornar aquilo que esperavam.
Por isso, quando se falou em proteger a herdeira, ninguém precisou olhar na minha direção, porque todos sabiam exatamente qual seria o preço daquela promessa.
Foi então que algo mudou.
Não de forma brusca, mas sutil o suficiente para ser percebido apenas por quem estava acostumado a sobreviver em silêncio, como se o próprio ar tivesse se deslocado, como se uma linha invisível tivesse sido puxada dentro daquele espaço.
E então vieram os passos. Leves, controlados, determinados de uma forma que não combinava com alguém tão pequeno.
Eu não precisei olhar.
Eu já sabia.
Yuna.
A última Takayama.
Ela surgiu do fundo do templo, onde antes permanecia ajoelhada sobre um tatame branco, e caminhava agora com uma calma que não era natural para uma criança, vestida em um quimono branco que parecia grande demais para seu corpo, com as mangas longas quase tocando o chão, criando a imagem de algo puro demais atravessando um ambiente que jamais permitiria pureza.
Seus cabelos negros caíam pelos ombros como tinta viva, adornados com pequenas flores delicadas, e seus olhos - azuis - carregavam uma estranheza que não pertencia àquele clã, uma herança silenciosa de escolhas que nunca deveriam ter sido feitas.
Ainda assim, havia algo mais profundo ali.
Algo antigo.
Algo consciente demais.
Ela caminhou pelo corredor de pedras sem hesitar, ignorando os olhares que a seguiam, sem buscar aprovação, sem demonstrar medo, como se já tivesse aceitado tudo aquilo que ninguém deveria aceitar.
Eu permaneci imóvel.
Um Ceifador não recua. Mas quando seus dedos tocaram o tecido escuro da minha roupa, algo dentro de mim se quebrou de uma forma inesperada.
Não foi dor.
Não foi medo.
Foi algo muito pior.
Foi vida.
Ela ergueu uma pequena flor branca em minha direção, e quando nossos olhares se encontraram, senti pela primeira vez em muito tempo algo que não sabia nomear.
- Para quando o silêncio ficar pesado - disse ela, com uma voz suave que contrastava de forma quase cruel com o peso que carregava.
Na outra mão, ela revelou um doce de arroz.
- E isso... para quando o coração doer.
Por um breve instante, minha estrutura interna falhou, porque eu deveria permanecer distante, intocável, inabalável, mas aquela pequena rachadura que surgiu foi suficiente para se tornar perigosa.
E então, contra tudo o que eu havia sido treinado para ser, eu me ajoelhei.
Os murmúrios ao redor foram contidos, não por respeito, mas por incredulidade, porque aquela não era uma cena que deveria existir.
O Ceifador não se curva.
Mas ali estava eu diante dela. Não como guarda, nem como subordinado. Mas como algo que ainda não tinha nome.
Peguei a flor primeiro, depois o doce, com um cuidado que jamais tive ao empunhar uma arma, enquanto ela me observava com uma serenidade que não era inocência, mas aceitação.
- Eu sei quem você é - ela disse.
Minha resposta saiu baixa, áspera, carregada de tudo o que eu era.
- Sabe?
Ela sorriu de forma triste, como alguém que já havia entendido demais.
- Mamãe dizia que quando o mundo ficasse escuro... o Ceifador viria nos proteger.
Naquele momento, compreendi que Hanna sempre soube o que Kenshi havia criado em mim, e ainda assim, decidiu confiar.
E antes que qualquer pensamento pudesse me impedir, Yuna deu um passo à frente e me abraçou.
Pequena, frágil, viva.
E eu, que fui treinado para destruir, simplesmente aceitei.
Minhas mãos repousaram nas costas dela de um jeito que nunca haviam repousado em ninguém, firmes, protetoras, quase gentis, como se algo dentro de mim tivesse sido despertado sem permissão.
- Eu não quero ficar sozinha... - ela sussurrou.
Aquelas palavras não foram um pedido.
Foram uma marca.
Eu fechei os olhos, plenamente consciente de que promessas naquele lugar não eram feitas com palavras, mas com sangue.
E, ainda assim, respondi:
- Você não vai ficar.
Não era consolo.
Era um vínculo.
Ela se afastou devagar, e antes de dar mais alguns passos, voltou a me olhar.
- Posso te chamar de anjo?
Por um instante, quase me permiti sentir algo que não cabia em mim. Mas apenas respondi:
- Pode... princesa.
Ela sorriu e se afastou, enquanto eu permanecia de joelhos, segurando uma flor em uma mão e algo muito mais perigoso na outra.
Foi naquele instante que compreendi, com uma clareza brutal, que eu havia sido criado para servir, para matar e para obedecer sem questionar, moldado para ser lâmina quando necessário e sombra quando conveniente.
Mas, a partir daquele momento... viver passou a ter um nome.
Yuna.
E junto com essa verdade veio outra, ainda mais cruel.
O amor que nasce em um funeral não é uma bênção. É uma sentença.
Porque um dia, para cumprir a promessa feita ali, eu teria que quebrar tudo o que fui ensinado a proteger, tudo o que me construiu, tudo o que me define.
E quando esse dia chegasse... eu não estaria em guerra com o mundo.
Estaria em guerra comigo mesmo.
"
Yuna Takayama
Eu não gosto de silêncio.
Silêncio faz o peito doer, faz a cabeça parecer grande demais e o corpo pequeno demais. Faz parecer que, se eu falar, o mundo desaba. Se eu não falar, quem desaba sou eu.
Hoje, o templo era silêncio.
Silêncio nas paredes antigas, nos olhos dos homens, até no vento, que, em vez de brincar com as bandeiras brancas, só as empurrava devagar, como se também estivesse de luto.
Mamãe teria odiado esse silêncio. Papai teria mandado servir mais chá, só para ter um pretexto para falar. Mas eles não estavam ali.
Estavam... ali na frente. Em duas urnas brilhando sobre seda vermelha.
Eu olhei para as cinzas e tentei entender como duas pessoas tão grandes cabiam em recipientes tão pequenos. Não fazia sentido, nada fazia.
Quis chorar. Mas aprendi cedo demais que um Takayama não chorava.
Os anciãos estavam de cabeça baixa. Os guerreiros olhavam para frente com os rostos duros. Ninguém fazia perguntas. Ninguém dizia "por quê?". Ninguém perguntava "quem fez isso?". Parecia que todo mundo sabia, e eu era a única sem o mapa.
"Na nossa família, a dor não se mostra, ela se jura."
Talvez fosse verdade, mas eu ainda era pequena demais pra jurar. Tudo o que eu sabia fazer era sentir.
Foi então que eu o vi.
Ele estava um pouco afastado, mas perto o bastante do altar para que fosse importante. Não usava símbolos, não tinha emblemas, não tinha nada que dissesse quem ele era, mas não precisava. Porque o silêncio em volta dele era diferente.
Não era o silêncio triste dos outros, nem o respeitoso do general. Era um silêncio que parecia observar tudo e esperar o momento certo para atacar.
Usava uma Yukata preta. Os cabelos claros presos para trás. O rosto calmo demais, mas o que e chamou atenção, foram os olhos azuis.
Azuis como os meus.
Eu nunca tinha visto alguém como ele.
Mamãe tinha olhos escuros.
Papai, também.
Eu era a estranha.
Mas ele...
Ele tinha a mesma cor de céu nos olhos. Só que o céu dele não era de dia.
Era céu de tempestade.
Lembrei das histórias que mamãe contava quando eu tinha medo de dormir sozinha.
"Se um dia o mundo ficar escuro demais, Yuna, o Ceifador virá te guardar. Ele é o monstro que escolheu ficar do nosso lado."
Eu olhei de novo para o homem vestido de preto e senti que era ele. Eu não sabia como, mas sabia.
Meu coração apertou, não só de tristeza, mas de alguma coisa que eu ainda não sabia identificar. Era como... reconhecer alguém que eu ainda não tinha encontrado.
Antes que eu pensasse duas vezes, meu corpo se moveu.
Meus joelhos doeram quando saí do tatame. O quimono branco arrastou pelo chão, pesado. Cada passo parecia errado e certo ao mesmo tempo. Eu não tinha permissão, mas eu era uma Takayama.
E Takayama não pede permissão.
Peguei uma flor branca de um dos arranjos próximos. Era pequena, frágil. Vivia apesar do frio. Peguei também um doce de arroz que estava guardado na manga da minha roupa, eu tinha escondido antes da cerimônia. Mamãe dizia que coisas doces ajudavam quando o coração apertava.
O corredor de pedra parecia crescer à medida que eu andava. Senti olhares em mim. Alguns assustados, outros duros. Mas ninguém se aproximou, nem ousou me impedir.
Ele só me viu quando eu já estava perto o suficiente para tocar o tecido preto da roupa. Minha mão tremeu quando meus dedos seguraram a ponta da Yukata, ele desviou o olhar das urnas e me olhou.
Os olhos dele não pareciam surpresos, nem irritados, nem gentis.
Pareciam... atentos. Perigosamente atentos.
Por um segundo, eu poderia ter tido medo. Mas não tive.
Porque, por mais que ele se parecesse com a noite, havia algo nele que não assustava. Algo que cansava. Como se ele carregasse peso demais há muito tempo.
Ergui a flor.
- Pra quando o silêncio ficar pesado... - falei, com a voz que saiu menor do que eu gostaria.
Abri a outra mão, mostrando o doce.
- E o doce... pra quando o coração doer.
Ele me olhou como se eu tivesse dito alguma coisa que ninguém jamais tinha dito a ele.
Então, o impossível aconteceu:
O Ceifador se ajoelhou diante de mim. Não por causa da minha idade, nem por causa da tradição, mas por causa da dor.
Pegou a flor primeiro, depois o doce. Os dedos dele eram grandes, fortes, mas seguravam as coisas pequenas com um cuidado que eu só tinha visto em papai, quando ele segurava meus brinquedos favoritos para consertar.
- Eu sei quem você é - eu disse.
Ele perguntou:
- Sabe?
Assenti.
- Mamãe dizia que, quando o mundo ficasse escuro demais... o Ceifador viria nos guardar.
Os olhos dele mudaram um pouco. Só um pouco. Como se alguém tivesse acendido uma vela lá dentro por um segundo e apagado rápido demais.
Então, antes que eu ficasse com medo de ter dito algo errado, eu fiz o que meu coração mandou:
Eu o abracei.
Senti o corpo dele ficar rígido por um instante, como se não estivesse acostumado a contato que não fosse golpe. A yukata tinha cheiro de tecido limpo, fumaça distante e qualquer coisa quase imperceptível que me lembrava casa.
Ele não me afastou.
As mãos grandes pousaram nas minhas costas. Não pesadas, mas firmes. Como se me segurassem de um jeito que o mundo já não conseguiria derrubar.
- Eu não quero ficar sozinha... - confessei, com a voz engolindo metade das palavras.
Ele respirou fundo. O peito dele se moveu devagar contra o meu.
- Você não estará... - respondeu.
Foi simples, mas eu acreditei.
Quando me afastei, ele ainda estava de joelhos, com a flor numa mão e o doce na outra. Um homem perigoso, com armas invisíveis e um futuro que eu não entendia.
Pensei numa pergunta e deixei escapar:
- Posso te chamar de anjo?
- Sim... princesa - respondeu.
A palavra "princesa" não parecia um apelido vazio. Parecia uma promessa sem forma.
Voltei para o tatame com as pernas menos firmes do que quando levantei. O sino tocou de novo e as palavras do general voltaram fazendo o mundo continuar.
Mas alguma coisa tinha mudado.
Eu não sabia ainda que tipo de homem o Ceifador era. Não sabia quantas vidas ele tinha tirado. Não sabia que, um dia, a mão que segurava a flor seria a mesma mão que poderia segurar uma espada contra mim.
Só sabia de uma coisa:
Eu não estava mais sozinha. E, anos depois, quando meus olhos encontrassem os dele de novo, não como criança, mas como mulher eu entenderia o peso daquele momento.
Entenderia que aquele abraço foi o começo de tudo:
Do amor que não deveria existir.
Da guerra que não poderia ser evitada.
Da promessa que arrastaria os dois para o limite entre lealdade e desejo.
O Ceifador foi criado para me servir.
Treinado para matar por mim.
Preparado para morrer pelo clã.
Mas ninguém o preparou para o pior:
Me amar.
E, quando esse amor finalmente explodir, não haverá templo, juramento ou destino capaz de segurar o que vem depois.
Yuna Takayama
Dizem que o silêncio protege.
Mentira.
O silêncio apenas dá espaço para que o perigo respire. Para que ele se arraste, se aproxime, se esconda atrás de tradições e paredes centenárias, que observe você antes que você o veja.
Já faz dez anos.
Dez anos desde o fogo, desde os sinos soando como luto, desde a fumaça tomando o céu como uma ferida aberta no destino da minha família.
Dez anos desde que eu deixei de ser filha para ser oficialmente herdeira, símbolo, promessa. Agora estou prestes a completar dezenove anos.
Me tornei uma mulher, ou pelo menos é assim que o mundo me vê.
O templo estava calmo naquela manhã, calmo demais. O cheiro de incenso antigo se misturava ao ar frio e cortante, criando aquela sensação estranha de que o tempo ali não passava, apenas observava. As lanternas filtravam a luz como se fossem guardiãs daquilo que não deveria ser exposto por completo.
Eu me ajoelhei diante do altar, como fiz todas as manhãs desde que aprendi a andar.
- Pai... mãe... - minha voz saiu baixa, íntima, quase uma confissão. - Continuem me guiando.
A madeira polida do altar refletia a chama das velas e minha própria imagem e por um instante, eu não soube se estava rezando ou tentando lembrar quem eu era antes de tudo.
Quando abri os olhos, Akio estava ali.
Meu primo, meu quase irmão. A única pessoa deste templo que me olha como se eu ainda fosse humana e não uma peça estratégica em um tabuleiro invisível. Desde que meus pais foram mortos, meu tio e ele voltaram do ocidente para cuidar de mim.
Logo depois do ocorrido, era Akio quem segurava minha mão para que eu não chorasse
Aiko parecia uma imagem viva de disciplina. A postura ereta, quimono impecável, expressão controlada, mas seus ombros traziam um peso. Algo que de alguma forma, eu sentia que tinha a ver comigo.
- Está tudo bem? - perguntei, tentando manter a voz neutra.
Ele deveria sorrir, fazer uma piada, ou simplesmente responder que sim. Apesar de sua postura séria diante de todos do conselho, sempre quando estávamos sozinhos, ele era normal. Mas ele não disse nada e o seu olhar, aquele olhar que sempre foi certeza, estava dividido entre dever e preocupação.
Akio tocou meu rosto com cuidado. Como se eu fosse algo precioso demais, ou prestes a quebrar.
- Nada demais - respondeu. - Apenas... cansaço.
Cansaço não fazia veias saltarem no pescoço, nem sua mandíbula travar como uma porta sendo fechada por dentro. Cansaço não colocava tempestades no olhar.
Mas eu me permiti acreditar na mentira. Porque às vezes verdades ditas cedo demais destroem antes de proteger.
O templo continuou vivo no ritmo lento e constante que me criou.
Portas deslizando, os monges recitando sutras, o som distante do bambu tocando o vento.
Mas naquele dia... havia algo diferente. Como se o ar estivesse segurando a respiração.
Enquanto caminhava pelos corredores, vi uma porta entreaberta ao final do salão cerimonial. Uma brecha pequena, mas suficiente para a luz escapar e, com ela, a sensação de que alguma decisão estava sendo feita ali dentro.
Me aproximei com passos lentos, não porque eu tivesse medo, mas porque o próprio destino parecia pedir silêncio.
No interior da sala estavam três homens.
Meu tio sentado no centro, com a postura de quem carrega um país inteiro nas costas. À frente dele, o General Hayato, rígido como aço, com mãos firmes atrás do corpo e olhos que já viram coisas que o mundo prefere esquecer.
E Akio estava diante dos dois com o corpo tenso como uma lâmina prestes a se quebrar ou atacar.
Eu não ouvi o que diziam, a porta abafava as palavras, mas o silêncio entre eles era ainda mais revelador.
O general falava, meu tio escutava e Akio reagia.
Ele deu um passo à frente de repente, rápido, impulsivo. Sua expressão era furiosa e impotente. Foi quando meu tio levantou apenas uma mão e ele parou. Como se aquele gesto fosse uma autoridade maior do que qualquer argumento.
O general continuou falando algo, meu tio assentiu uma única vez como quem confirma um destino e foi então que percebi o quarto homem.
Eu não o vi entrar.
Não ouvi seu movimento.
Não senti sua presença até aquele instante.
Ele estava parado nas sombras, imóvel, impecável, invisível para qualquer um que não soubesse procurá-lo. Mas eu vi. E algo dentro de mim estremeceu.
E quando o olhar dele cruzou o de meu tio, percebi o ar ficar mais denso, pesado e frio. Meu tio falou alguma coisa, e aquele homem apenas assentiu, como quem aceita uma missão antiga, ou como quem esperava por isso há muito tempo. Akio desviou o olhar, não em discordância mas em resignação. E a decisão, fosse ela qual fosse, estava selada.
A porta foi fechada logo depois e o templo permaneceu tão silencioso quanto antes, mas o silencio carregava uma sombra. Uma que tinha forma, propósito e destino.
E de alguma maneira eu sentia que tinha algo a ver comigo.
Naquela noite, voltei ao altar.
Não por disciplina, mas porque algo dentro de mim tremia e buscava respostas.
- Pai... mãe... - sussurrei, com a respiração falhando. - O que está acontecendo?
O vento entrou pela janela frio, preciso, quase consciente. E naquele instante, eu soube que não estava sozinha. Que desde a morte dos meus pais, desde aquela promessa, nunca estive. Apenas não tinha percebido... até agora.
Algumas horas depois, quando voltei ao meu quarto, encontrei algo sobre minha cama.
Não havia selo, nem dobradura cerimonial.
Apenas um pedaço de papel colocado com precisão cirúrgica sob meu travesseiro.
Uma única linha.
"Durma. Nada pode alcançá-la enquanto eu vigio."
Meu coração acelerou, minha pele arrepiou.
Apaguei a luz, deitei na cama, fechei os olhos e adormeci sabendo que em algum lugar nas sombras... meu anjo estava ali. Me protegendo.