O amor pode te salvar ou te destruir.
Mas ele pode ao mesmo tempo fazer os dois?
Capítulo 1
Perdendo-me
Quatorze anos antes.
- Olha pra mim! - ele gritou - eu sei que você tá me ouvindo... por
favor, não chora.
Eu estava chorando? Do jeito que ele falou parece que está
também. Não entendia o que estava acontecendo, minha cabeça
doía demais e tudo parecia girar, só queria que ele fizesse isso
parar. Desde que o conheci queria que fossemos amigos, nunca me
deixava sozinha, por que estava fazendo isso agora? Ele está indo
embora, eu sei. Sua voz parece cada vez mais longe.
Quero pedir para ele ficar, estou com tanto medo.
- Não importa onde eu vá ou onde você estiver... Você sempre será
a minha Luce. Nunca, nunca se esqueça disso! – fala triste.
- Por favor, diz que não vai esquecer... – pede tocando meu rosto. –
Eu sinto muito, muito mesmo. Não tive escolha, eu-eu...
Porque você não me ajuda, pensei. Estou assustada e quero ir
embora, você não consegue ver?
- ...você está me ouvindo? – chama – Luce!? Luce!
Meu nome foi a última coisa que ouvi antes de mergulhar para o
escuro.
Capítulo 2
Lar da decepção
Hoje.
Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiin! Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiin! Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiin!
Eu definitivamente odeio esse maldito barulho!
É o despertador do lugar onde eu moro, o "Nosso Lar da
Esperança", nome um tanto antagônico já que de lar e esperança
não tem nada. Estava mais para "comunidade onde jovens órfãos
dividem seus apartamentos (se é que dava para chamar esse
cubículo disso), convivem miseravelmente entre si e que,
ocasionalmente, evitam se matar". Só para constar o tamanho da
minha "sorte" meu dormitório fica no 15º andar, o último do prédio.
E não, o lar não tem elevador.
Levanto-me assustada como sempre.
Vivia neste "paraíso" já há um bom tempo. Vim para cá aos
dezesseis anos e ainda não me acostumei com esse barulho
insuportável do despertador, que está mais para sirene
desesperadora. Serve para acordar todos os órfãos mais velhos, ou
se você preferir, os veteranos do lar.
O que era muito ridículo já que quase acordava o Bronx todo.
Sinceramente não sei para que colocar esse negócio tão alto e por
que esse barulho? Sei lá, colocava uma música tipo Maroon 5 ou
Coldplay, assim eu acordava dançando ou feliz pelos menos.
Aceitaria até uma música do Justin Bieber, aquela Sorry até que é
boa. Mas não, acordava todos os dias assustada/irritada, odiando a
minha vida e querendo matar pessoas.
Ou só a Nina mesmo.
- Mas que droga, Emma. Cacete! Por que deixa essa merda toda
espalhada aqui? Tá querendo me matar?! – minha colega de quarto,
sempre me amando muito aos berros logo de manhã.
- Aí Nina, não dá pra ignorar a bagunça não? Essa é a minha parte!
Não tenho culpa se você caiu no meu lado do quarto. Além do mais
não é merda, são as minhas coisas. Agora para de gritar! - digo me
remexendo na cama, tentando dormir de novo.
- Que droga! Não sei como consegue, tá tudo junto jogado. Como
você encontra suas coisas, sua idiota? – nem preciso olhar para
saber que está me fulminando com os olhos.
- Arg! Encontrando. – Escondo-me debaixo do travesseiro, tentando
abafar os berros de Nina – Pelo amor de Deus. Vai logo tomar
banho antes que o lar todo acorde com essa sua voz de taquara,
não quero chegar atrasada hoje de novo. Só me avisa quando você
sair.
Nina é a garota irritante/insuportável que divide o dormitório comigo.
Tinha também a Andie e a Julia, mas elas já se mudaram. Sorte
delas. Quando as duas saíram (ou se libertaram) nós fizemos um
acordo para dividir o dormitório. Eu ficava com o lado direito, onde
estava a minha cama e a de Andie, e ela com o lado esquerdo, onde
ficava a cama da Julia e a sua. Óbvio que isso não deu certo porque
Nina não consegue agir como um ser humano normal.
Todo dia é a mesma coisa. Acordo cedo, às 05h00 da manhã por aí,
porque assim eu consigo tomar banho em paz e sem muitas filas.
No meu setor, o 15º andar, são seis dormitórios e cada um deles
tem quatro pessoas. Tirando o meu que só tem uma pessoa, já que
a Nina não pode ser um ser humano, é preciso ter sentimentos para
isso. Todos os dormitórios são compartilhados e ao cento temos
uma cozinha comunitária, dois banheiros (um feminino e um
masculino) e uma sala. Esse é o chamado "Nosso Lar da
Esperança", um centro de apoio aos jovens órfãos de Nova York. É
o nosso destino quando temos idade suficiente para sair do
orfanato, o que seria aproximadamente aos dezesseis anos.
Aqui não é moleza como lá no orfanato, temos nossos dormitórios e
no fim do mês pagamos pela estadia e pelos gastos do lar. Se não
pagar está na rua, já que não somos mais consideradas pobres
crianças órfãs e sim adultos independentes que podem se cuidar
muito bem sozinhos e que, só por acaso, são órfãos.
Enfim, voltando ao meu "maravilhoso e sensacional" dia-a-dia, eu
acordo cedo porque trabalho na Crawford Reaserch Enterprise, uma
multinacional que começou como banco, mas hoje em dia é uma
das maiores e mais completas empresas do mundo. Lá sou
secretária da ala comercial, o que não paga muito, mas dá para
arcar com as contas do lar, cuidador do meu irmão e sobreviver.
- Bom dia, minha Flooor! - grita Jason, tirando minhas cobertas -
Assim você não vai chegar cedo hoje, parece que todo mundo
decidiu tomar banho agora.
Esse é Jason, ou JayJay, meu amável não tão delicado irmão. Nos
conhecemos quando crianças, no primeiro orfanato em que
moramos. Não me lembro muitas coisas, tenho péssima memória
para falar a verdade e minha infância é quase um borrão, porém,
Jason ama se gabar com isso e vive dizendo que eu posso não me
lembrar, mas que desde o primeiro dia não larguei do seu pé e
assim nos tornamos inseparáveis.
Hoje ele é minha família.
- Meu Deus! – levanto assustada - Que horas são?! Acabei
dormindo de novo, droga. A Nina já saiu? Aquela vaca nem me
avisou que já tomou banho, eu disse que queria chegar cedo!
- Calma Flor, - se aproxima sentando todo folgado na minha cama -
eu te levo hoje. Voltei para casa com o carro da empresa e tenho
uma entrega lá do lado da Cruelford. – diz deitando-se – E fica
calma, você sempre tá atrasada mesmo. – ri. – Calma que ainda dá
tempo pra chegar hoje.
Isso porque não é ele que vai ter que aguentar de novo o sermão do
Senhor Maxon, dizendo como eu sou irresponsável e que não me
demite por saber que sou uma sofrida "garota esperança".
Além de viver pessimamente ainda era conhecida por esse apelido
ridículo de garota esperança. Isso significa de onde eu vim, como se
eu fosse uma pobre coitada com problemas que foi abandonada
pelos pais em um orfanato. Pelo menos dessa vez eu gostava da
piedade que recebia, assim continuava com meu emprego. A gente
usa o que tem, né?
- Ah, valeu Jason, só vou tomar banho rapidinho e já estou indo. Me
espere lá embaixo, ok? – corro pegando minha toalha.
- Claro, mas vai logo que a fila do banheiro já está imensa. –
Levanta e me dá um beijo na testa antes de sair.
Honestamente não sei como é que Jason consegue entrar no meu
dormitório. Tudo bem que a segurança daqui é horrível, nem trava
na porta tem direito, mas nunca escuto quando ele está entrando.
Quando vejo, ele já está do meu lado falando comigo ou está
roubando meu estoque de salgadinhos. O que me irrita é que ele
sempre pega os melhores ou come e os devolve como se não
estivessem abertos, aí quando eu vou comer o salgadinho está todo
fofo com gosto de nada.
Tomei um banho super-rápido e corri para ir me trocar. Coloquei um
conjuntinho social que ganhei de Jason no Natal e até que dessa
vez ele acertou, tudo bem que eu tenho quase certeza de que foi a
vendedora que escolheu para ele. Deve ter sido uma de suas
peguetes, nesta época acho que era a Sheila ou Keila vendedora de
uma boutique chic. Então está explicado. É um conjuntinho social da
cor azul marinho composto por uma saia, um tanto justa, e um
blazer que contornava perfeitamente minha cintura e ia até o início
do meu quadril. O tecido é diferente, muito macio e leve, ficou
perfeito em mim. O único problema era achar uma blusa que
combinasse com essa roupa.
Acabei roubando de volta uma blusa minha que Nina "jurava que
era dela". É uma blusinha branca bem simples com pequenos
pedaços de renda preta que enfeitam aparte do busto. Coloquei
minha lingerie com uma cinta-liga e meia 7/8. Ao contrário do que
muitos pensam cinta-liga não é só uma peça sensual, é muito
confortável além de serem práticas de se tirar. Elas também não
ficam curtas, como no meu caso que tenho 1.70 de altura, as meias
normais nem vão até o meu quadril. Está vendo, te deixar sexy é só
um bônus.
Depois que terminei de me trocar decidi que minha roupa pedia por
um salto então peguei meu peep toe bege que apertava um pouco
meu pé, que já era um número menor que o meu. Ganhei de
aniversário aos quatorze anos de Dona Marlee, ela era a
responsável pelo orfanato, a nossa "mãezona". Me lembro que na
época tinha pedido um livro, no entanto, ela disse que não era
possível porque na nossa cidade não tinha livrarias e os únicos
livros que tinham na nossa biblioteca eu já tinha lidos mil vezes.
Assim pedi um par de saltos que vi na caixa de doações.
- Dona Marlee, por favor, você me disse que me dava qualquer
coisa! - peço.
- Minha querida, tem certeza? – pergunta receosa, ela pensava de
seriamos crianças para sempre e pedir um salto era adulto demais,
nas suas concepções – Brooke pediu para usar o telefone, ela vai
ligar para as meninas que saíram do lar esse mês. Você não quer
um tempinho também? – Pergunta esperançosa.
- Aí, para quê? Não tenho ninguém para ligar! As meninas nunca
gostaram de mim e outra, qual é o problema em me dar um salto? -
questiono aborrecida.
- Um salto é algo tão bobo, para que você quer um afinal?
- Ouvi Jason dizer que os meninos gostam de meninas que usam
salto. Eu já sou quase adulta, quando sair daqui vou conseguir um
emprego e um namorado, a senhora vai ver. Mas preciso do salto
pra isso Dona Marlee, por favor! – imploro unindo as mãos e
tentando olhar com a cara mais sofrida que posso.
- Mas...– Dona Marlee tentou me convencer, mas até ela sabia que
quando eu coloco algo na cabeça nem eu mesma se quiser consigo
tirar.
- Por favor, por favor, por favor. Eu quero um salto, é o que eu mais
quero! Deixa a Brooke, depois de um tempo as meninas nem vão
mais falar com ela mesmo. – Dei de ombros e sai batendo o pé.
Brooke, a menina do telefone, adorava me irritar desde sempre. Eu
nem sequer sei o porquê ela não gostava de mim, só que esse ódio
ficou muito pior depois que ganhei meu tão desejado salto e fui com
ele na festa de Natal da Igreja. Ela jurava que eu roubei Mike, o
menino novo do bairro que era de quem ela gostava, por conta dos
meus novos saltos. Um tempo depois, quando eles começaram a
apertar meus dedos pensei como essa escolha de presente foi
idiota. Mas agora sei que eles são sagrados, já sobreviveram seis
anos, roubaram Mike de Brooke e ainda me faziam lembrar da Dona
Marlee.
Quando desço Jason estava me esperando conversando com Kate,
que morava no 5º andar, conhecida como a "garota dá esperança",
mas não no sentido que você já conhece e sim por já ter dormido
com quase todos os caras e mulheres do lar, literalmente. E Jason
era um deles. Kate gostava de brincar com as pessoas e jogá-las
fora como se não valessem nada, todo mundo sabia disso, mas
mesmo assim ela ainda conseguia sempre o que queria.
- Pronto, podemos ir. – disse para Jason, ignorando a presença de
Kate. Ela ignorava a minha então ficávamos numa boa. Quase
sempre.
- Ah, ta eu já vou... Vai indo na frente, o carro é aquele
amarelo ali do outro lado da rua. – disse sem sequer mesmo me
olhar. Estava ocupado demais olhando para o decote de Kate ou
pedaço de pano que ela estava usando. Aquilo não podia nem ser
considerado um top.
Jason ainda continuava nessas de pegar às vezes Kate. Ela era um
alvo fácil, era só ele olhar para ela que suas pernas já se abriam.
Tudo bem que Jason é simplesmente lindo, tem cabelos cor mel
escuro e olhos de mesma coloração, além de ser alto e bem forte.
Mas essa força toda aí era fruto de sua teimosia de sempre estar
saindo com Jack e a sua gangue. Eles eram conhecidos como os
Snake's e ganhavam grana com lutas de vale tudo. Cada luta era
em um local diferente e você só ficava sabendo onde seria uns vinte
minutos antes, assim eles mantinham os tiras longe. Eu já perdi as
contas de quantas vezes briguei com Jason por conta dessas
disputas, uma vez tive que buscá-lo de uma delas porque apanhou
tanto que acabou inconsciente.
Depois de olhar para o outro lado da rua a procura do tal carro
amarelo voltei a olhar para ele. Kate chegou bem perto e começou a
sussurrar algo em seu ouvido. Jason, nada bobo, apalpou quase
que o corpo todo da garota e repousou uma de suas mãos em sua
bunda dando alguns beliscões. Enjoada com essa cena eu disse
meio que alto demais.
- Tá! Só não demora muito.
- Por que você não se vira garota? Não percebeu que ele está
ocupado? – diz Kate e depois de dizer isso começou a tocar Jason
naquele lugar. Sim, nesse mesmo que você está pensando.
Nojento.
Não era obrigada a ficar ali presenciando essa cena, então ignorei o
comentário idiota e sai andando. Melhor chegar atrasada do que
ficar traumatizada vendo Kate enfiar a língua na orelha do meu
irmão.
No caminho acabei parando no Joe's, uma cafeteria pequena que
tem no bairro. Não é só porque fica aqui pertinho porque Joe faz o
melhor café da cidade! Gosto de vier aqui, me sentar e tomar café
tranquila, enquanto lia alguns livros que Joe deixava no balcão para
os clientes. Esse é um dos meus lugares preciosos, aqui eu não
preciso pensar nem me lembrar de nada. Joe já está tão habituado
comigo que não deixa ninguém se sentar na minha mesa e até
mesmo comprava alguns livros velhos no sebo para mim.
- Bom dia Ems, hoje eu vi que você se atrasou um pouco, está tudo
bem? – pergunta quando chego ao balcão.
- Nem me fale Joe, está tudo bem sim eu só me atrasei mesmo.
Sabe como é complicado lá no lar né, um banheiro só para gente
demais. – ri.
- Claro, - sorri de lado, quase me fazendo desmaiar - já deixei tudo
prontinho para você. O de sempre, não é mesmo!?
Joe é uma das pessoas que embelezavam o bairro, o lugar podia
não ser lá essas coisas, mas foi aqui que eu cresci e conheci as
melhores pessoas da minha vida, incluindo ele. Joe é negro de
olhos castanho escuros, forte (deliciosamente forte) e tem quase a
minha idade, uns 22 anos. Ele é lindo, tanto por dentro como por
fora (principalmente por fora) e nunca o vi sem um sorriso no rosto.
- Hmm... Como sempre o cheiro está ótimo Joe, você é um máximo!
– digo pegando meu pedido. Entrego o dinheiro a ele, pego um dos
seus livros em cima do balcão e quando estou saindo o ouço me
chamar.
- Oh.. Espera – diz passando os dedos rapidamente naqueles seus
lindos cachos, os bagunçando ainda mais – Emma.. Er.. Você vai
fazer algo hoje à noite? Sabe, quando sair do trabalho? – depois de
dizer isso me encarou com aqueles olhos escuros, que nem
jaboticaba, de um jeito pidão, mas muito, muito sexy.
- Acho. Acho que não, por quê? – digo fingindo não ligar e surtando
por dentro.
Para tudo! Joe vai ENFIM, ALELUIA, me convidar para sair?! Já
estava desistindo, sério! Sabe quantos brownies eu tive que comer
para que isso acontecesse? Muitos, milhares! Estou perto de virar
um bolinho ambulante e minha bunda super concorda com isso.
- Ótimo, eu tenho um par de convites para uma festa no Granni's.
Queria saber se você gostaria de ir comigo.
Ai Deus, com esses olhos aí meu querido vou onde você quiser
principalmente se esse lugar for o Granni's, que é simplesmente a
melhor balada da cidade. As melhores festas acontecem somente
uma vez no mês e só entra quem é convidado.
Mas é claro que eu respondi diferente.
- Ah... Pode ser. Me manda o endereço e o horário, ok?
- Ok, então está marcado! – responde com uma piscadinha.
Dei um sorriso tímido e fui saindo rindo internamente dessa situação
(uma risada interna bem histérica, diga-se de passagem). Esperava
por um convite dele há uns três meses, acho. No início fui lá não
porque o café era ótimo, mas porque o cara que o fazia era lindo.
Meu último quase namorado deve ter sido há uns dois anos, sem
brincadeira. Precisava de uma mudança na minha vida e como já
disse, conseguir essa proeza foi um grande sacrifício que se
consistia em muitos, muitos bolinhos.
- Calma.. Emma, espera! – disse Joe, tirando o avental e correndo
para me alcançar, já estava virando a esquina quando me
encontrou.
- O-oi, o que foi? – Nossa dessa vez foi bem rápido, já vai me
dispensar? Desistiu? Será? Ah.. mas eu nem estava querendo tanto
assim. Vou ao Joe's todo dia pelo café, claro que não tem nada a
ver com aqueles braços fortes que ele tem, ou aqueles olhos
penetrantes e extremamente sexys. Eu não preciso disso! Se eu
estiver carente é só chamar o Jason para sair comigo, claro que ele
vai me deixar sozinha nos primeiros instantes que encontrar uma
que se esfregue nele e...
- Ems, primeiro, como vou te avisar se não tenho o seu número?
Segundo, posso estar com avental e cheirar a muffins, mas sou um
cavalheiro. Te busco lá no lar às 20h00, pode ser? – Acho que ele
era o único homem que conseguia cheirar a muffin e ainda ser
gostoso demais.
- Ah S-sim... Cla-claro. Pode ser... Está ótimo... Perfeito... Tá bem
bom assim... Muito bom...
Ok, agora para de falar que nem uma retardada Emma, só sai
andando antes que o cara desista de verdade. Joe deu mais um
daqueles sorrisos esplêndidos, que me fazem pensar em coisinhas
(bem safadas) e voltou para a cafeteria.
Ai, preciso mudar.
Não a minha rotina, estou falando do meu jeito. Preciso ser mais
legal, mais solta, se não vou morrer seca, sozinha com 27 gatos,
todos com roupinhas e nomes estranhos como Jeremiah, ou Sir
Joseff. Essa ideia de como será meu futuro é fruto da exagerada e
irritante imaginação de Jason. Ele sempre me diz isso quando eu
recuso ir para casa com alguém do bar. Porque perder a virgindade
com um estranho bêbado de um bar do subúrbio é o sonho de
qualquer garota.
Claro.
Todo esse drama começou quando eu contei a ele que era virgem,
por mais incrível ou deprimente que pareça. Ele ficou rindo da minha
cara por uns dez minutos e depois que percebeu que era verdade
ficou abobado. O pior disso é que eu não sou uma virgem qualquer,
eu sou totalmente virgem. Acho que nem cheguei ao fim da primeira
base. Eu nem sequer sei o que se faz na primeira base.
Eu sei, eu sei... Decadente! Mas para ser sincera, eu nunca tive
vontade de entregar a minha estrelinha a ninguém ou qualquer outra
coisa. Pode ser que Joe mude essa realidade hoje à noite. Não me
julgue, não sou fácil! Apenas quero parar de ser a única virgem
patética no lar. Isso não é algo tão simples assim? Pelo menos todo
mundo fala como se fosse.
Enfim, já estou bem atrasada para o trabalho agora. Ao menos Joe
me deu uma boa notícia hoje, vou pensar nela quando eu quiser
socar a cara do meu chefe quando chegar à empresa. Ele vai
começar outro discurso da esperança lá e eu não estou nem um
pouco a fim de ouvir. Tudo bem, eu estou errada de chegar assim
tão atrasada, mas todos os dias, sem nenhuma exceção, eu faço
meu trabalho com extremo êxito e ainda continuo fazendo após o
horário. E você acha que ele paga minhas horas extras? Aham, se
eu fosse esperar por isso já estaria morta em decomposição. "Então
porque você fica após o horário Emma?" Você deve estar se
perguntando. Porque este era um jeito de evitar voltar para o lar,
porque no fim do dia eu não tinha nenhuma casa para voltar. Lar era
o nome do local, mas eu sabia que lá não era o meu verdadeiro
lugar. Esse era meu último ano lá, pelo menos esse é o meu
objetivo. Nem que eu alugue um lugar do tamanho de uma azeitona,
eu saio daqui! Preciso ter pela primeira vez a minha casa, o meu lar.
Capítulo 3
Cruelford
Acabei indo de ônibus. Era "tarde" demais e peguei um trânsito
enorme no caminho, mas essa era a melhor alternativa. O metrô é
vazio e bem mais limpo, mas demorava demais e fica a uns quatro
quarteirões de distância do meu trabalho.
Para melhorar furei minha meia calça quando entrei correndo no
edifício Crawford. Ele é um dos maiores e mais altos da rua, todo
espelhado, com um quê de superioridade comparado aos outros ao
seu redor. No primeiro andar está a sua recepção toda em mármore
claro, uma cor próxima ao bege, e com muito vidro. Para entrar você
deve ter uma carteira de identificação com nome e cargo, mas só os
funcionários da plebe, eu como exemplo, precisam disso. Para os
chefes e empresários isso nem é necessário, só é preciso olhar para
o grande Rolex em seu pulso ou seu terninho impecável de marca.
Não sei nenhuma marca de terno cara, mas nem preciso, o que sei
é que qualquer que seja sua marca, só a gravata deve valer a minha
vida e mais um pouco, ainda ficaria devendo.
Entrei na recepção e passei correndo por Gabe, o recepcionista,
para conseguir pegar o elevador. Trabalho no 9º andar, o que é bom
porque a cozinha fica no 7º, e a maravilhosa e melhor máquina de
café do mundo fica no 12º, então nem preciso de elevador. Quando
cheguei ao meu andar já sabia que o senhor Maxon estava me
esperando, como sempre.
- Minha sala, agora! – Ele ama gritar comigo. Deve ter uns 45 anos,
loiro alto, sempre está de terno tons de cinza e até que dava um
caldo. Mas ele é tão irritante que consegue ficar feio.
Fui correndo para sua sala, no fim do corredor do departamento.
Quando entrei ele logo fechou a porta com tudo atrás de mim, dessa
vez eu até que senti um pouquinho de medo. Só um pouquinho.
- Senhorita Smith, estou cansado de tanto chamar sua atenção por
conta dos seus atrasos. A Senhorita trabalha para mim há um ano e
nesse tempo todo acho que nunca a vi chegar na hora, você sabe
qual é o horário que deve estar aqui na empresa? Às vezes penso
que não!
- Desculpa senhor Maxon, é que eu acabei me atrasando – ele era
tão irritante, não acredito que já o aguento há um ano.
– Isso eu já percebi senhorita! – disse ele, gritando. Não te disse,
ele ama gritar comigo.
- Sim, mas ontem fiquei até as 22h00 aqui na empresa, repassei
todos os relatórios da semana inteira. Fiz também suas planilhas de
custos e investimentos, está tudo com o departamento de
atendimento e pronto para entregar ao cliente. Sei que não justifica
o meu atraso senhor, mas não estou prejudicando o meu trabalho
aqui na empresa por chegar atrasada, eu sempre compenso em
horas extras. – Isso sem nenhuma bonificação, é claro.
- Disso eu estou ciente, sei muito bem o que cada funcionário em
meu departamento faz – não parece – Porém, como a senhorita
mesmo disse, isso não justifica os seus atrasos. Estou sempre
tentando te ajudar, sei que o seu passado não foi fácil, estou a par
dos problemas e dificuldades... – Blá, blá, blá como você é sofrida e
sua vida é uma droga, era só o que eu escutava. Sabia que como
sempre ele iria entrar com esse discurso da garota esperança,
estava até demorando – Enfim, vou te dar mais uma chance como
sempre, mas desta vez não desperdice! Vou ficar de olho em seu
serviço, qualquer deslize seu já sabe, RUA! – gritou ele, mas uma
vez.
- Sim senhor, pode deixar comigo e me desculpe novamente pelo
atraso, não vai mais acontecer. – Eu espero.
- Acho ótimo. Agora pode ir para a sua mesa, temos muito trabalho
a fazer.
Sai da sala do senhor Maxon com um sorriso bem falso no rosto. No
fundo ele está certo, tenho que parar de chegar atrasada, mesmo
fazendo todo o meu trabalho sem erros e até mesmo
antecipadamente, eu precisava deste emprego. Precisava demais.
Tinha que sair do lar o mais breve possível, logo iria completar 21
anos e devo ter meu próprio cantinho. Mais alguns meses
poderíamos, eu e Jason, estava economizando a mais de um ano
para que isso fosse possível.
Assim que cheguei a minha mesa comecei a adiantar o meu
trabalho, hoje não poderia ficar trabalhando até mais tarde como
sempre, porque ia sair com o cara mais gato do meu bairro, Joe
Davys. Quando estava quase encerrando o meu expediente o
senhor Maxon jogou uma pilha de pastas em minha mesa, fazendo
com que eu desse um pulo de susto.
- Bom, senhorita Smith, percebi que gosta de ficar após seu horário
então não terá problemas em recolher dados sobre novos
investidores e criar estratégias de como podemos conseguir mais
contas, não é mesmo? Preciso delas para amanhã às 07h00 na
minha mesa juntamente com uma apresentação, faça um trabalho
completo pesquisando sobre os nossos maiores concorrentes e
também mande uma cópia para o Senhor Dickens, em meu nome.
Quando você acha que não pode odiar ainda mais uma pessoa,
aparece o senhor Maxon mostrando que isso é extremamente
possível. Era realmente uma pena eu já ter idade para ser presa por
assassinato.
- Mas Senhor eu... – não consegui nem argumentar porque ele já
estava a caminho do elevador.
O ódio e raiva me fizeram terminar o trabalho em menos de duas
horas. Cataloguei todos os novos clientes, focando no motivo da sua
escolha por nosso sistema e quais benefícios se encaixam melhor a
cada um, montei sua apresentação, transformei em dashboards e
fiquei com uma cópia de tudo só por precaução.
O ponteiro do relógio que ficava em cima da minha mesa tocou,
marcando 19h00. Comecei a me apressar. Marquei com Joe às
20h00 lá no lar, eu precisava chegar cedo e ainda me arrumar, ou
tentar ficar apresentável pelo menos. Até que meu celular tocou
mostrando que eu tinha uma nova mensagem. Número
desconhecido avisava o visor. Mas eu já sabia a quem aquele
número pertencia.
Capítulo 4
Emma Smith versus A melhor cafeteira do mundo
Eram duas mensagens de texto de um número desconhecido.
Comecei a ler a primeira e com isso me sentei de novo em minha
cadeira. Estava pronta para ir embora, era quase a hora do meu
encontro. Já tinha arrumado todos os documentos, colocado na
mesa do senhor Maxon e do senhor Dickens e consegui tempo de
até adiantar o trabalho do dia seguinte. Mas o que estava escrito
nas mensagens fez com que minha pressa fosse embora.
Desconhecido: Esqueça nossos planos pra hoje à noite, isso foi um
erro.
Desconhecido: Vou sair com a Kate.
Fui do céu ao inferno em cinco segundos. Maldito Joe Davys.
Sabia que era ele, passamos a tarde toda trocando algumas
mensagens bobas que me esqueci de adicionar seu número na
agenda do celular. Sua primeira mensagem chegou às 16h00.
Desconhecido: Ansiosa para hoje à noite?
Nem precisei pensar para respondê-lo.
Emma Smith: Claro que estou, nunca fui em uma festa no Granni's.
Óbvio que isso não era verdade, o que mais me deixava excitada
ansiosa era sair com Joe. Ficaria feliz até se ele me convidasse
para ir ao lixão, mas não ia deixar isso na cara. Depois de alguns
minutos ele responde.
Desconhecido: Aí, essa doeu. Então você só está me usando,
senhorita Smith?
Ri discretamente de sua resposta, olhei para os lados para ter
certeza de que meu chefe não estava por perto e o respondi.
Emma Smith: Bem, se isso significar café e muffins de graça por
toda vida acho que estou sim, senhor Davys.
Imediatamente ele me respondeu.
Desconhecido: hmm... mas você só quer isso de mim, muffins e
cafés ilimitados?
Claro que não, estava querendo outras coisas meio indevidas para
se escrever por mensagem de texto. Então me fiz de inocente e
respondi.
Emma Smith: Não tenho culpa se o seu café e seus bolinhos são os
melhores da região! Tenho que me aproveitar disso.
Desconhecido: Sim, mas eu possuo outras coisas que são as
melhores da região. Você pode se aproveitar delas também se
quiser...
Ai ai, Joe, Joe.
Pode ter certeza de que eu sei. Ele era bem simpático e discreto,
mas já "corriam" boatos pelo bairro sobre seus relacionamentos e
paqueras. Diziam que na adolescência era mais agitado, mas que
Joe nunca foi um canalha com suas parceiras, sempre era muito
carinhoso e cavalheiro. Também tinham outros boatos por aí que
falavam de sua GRANDE pessoa, se é que você me entende.
Emma Smith: está tentando me seduzir, Davys?
Desconhecido: com certeza! então me diz, está funcionando?
Essa tinha sido sua última mensagem, antes é claro de eu receber
esta agora. Ele não só me deu um bolo como me trocou pela Kate?!
QUAL É O PROBLEMA DOS HOMENS?
O que mais me irrita não é nem não poder sair com Joe, ter a
chance de usar pela primeira vez minha perseguida (que até então
nunca foi devidamente "perseguida"), ser abraçada por aqueles
braços fortes, arranhar aquelas costas firmes e largas, aí e aquele
cabelo.
TUDO BEM, ESSA PARTE ME DEIXA MUITO, MUITO PUTA! Mas
Kate? Sério?! Esperava mais de você Joe Davys.
Depois disso acho que vou ficar mais um tempo aqui na empresa.
Ainda não quero voltar para o lar e José, o porteiro, sempre me
avisa quando vai fechar tudo. Algumas vezes ele até me
acompanha até o ponto, diz que é perigoso uma moça como eu
andar por aí a noite.
Já que não iria sair com Joe e estava cedo para ir embora decidir ir
ao 12º andar, onde fica a melhor máquina de café do mundo que
falei. Deixei minhas coisas em minha mesa e subi. Quando o
elevador abriu me surpreendi com o que vi. O andar inteiro estava
aceso como se todos os funcionários estivessem trabalhando ainda.
Fui direto na cozinha, peguei um copo e apertei o botão cappuccino.
Sem sucesso.
A máquina parecia estática, não mexia e nem fazia nenhum
qualquer barulho. Nada.
Juntei toda a minha raiva acumulada do dia como ter me atrasado
(de novo) para o trabalho, ter rasgado minha meia preferida no
caminho, receber o esporro do Senhor Maxon, o toco que recebi do
Joe sendo trocada por Kate, tudo isso e comecei a dar tapas na
máquina.
Dar tapas é eufemismo comparado ao que eu estava fazendo,
depois de uns segundos comecei a espancá-la mesmo. Estava
dando uma boa lição naquela maldita, escrota e estupida máquina
de café quando ouvi alguém parar atrás de mim.
- O que ela lhe fez para tratá-la tão mal assim? - Disse um homem
com voz grave atrás de mim.
E como se estivesse sido pega em flagrante fazendo algo estúpido,
o que eu estava fazendo mesmo, gelei.
Capítulo 5
O estranho do 12º andar
Fiquei parada, imóvel por um instante, com as mãos apertando a
parte de cima da máquina. Passei por um misto de sensações.
Primeiro foi o medo. Quem estaria a essa hora ainda aqui na
empresa e por quê? Ninguém nunca ficava até esse horário, pelo
menos até agora. Segundo foi a curiosidade. A voz era de homem
com certeza. Era uma mistura de firmeza, repreensão, mas também
comicidade. Ele deveria estar rindo ou achando engraçada a minha
discussão com a máquina de café.
Ou achar que sou uma louca mesmo.
- Acho melhor você dar um tempo a ela antes do 2º round, linda. -
disse o estranho.
Tomei coragem e me virei para olhá-lo. Acho que até senti uma
glória divina na minha cara, sem exageros. Se Deus mandasse
alguém para representar o sexo na terra era esse homem. Devia ter
uns 30 anos, não sei bem. Pele um pouco bronzeada, cabelos
negros ondulados estavam bagunçados e emolduravam seu rosto.
De início seu corpo foi o que chamou a minha atenção, todo grande
e forte, emanava certa segurança, conforto. Seu sorriso era de um
perfeito conquistador que faziam companhia a sua postura. Estava
debruçado no vão da porta, com as mãos apoiadas no batente, seu
corpo ocupava todo o vão.
Porém o que me enfeitiçou foram seus olhos.
Foi muito estranho. Sabia que nunca havia visto aquele homem em
minha vida, mas algo em seus olhos teimava me dizer o contrário.
Enquanto isso, minha mente e meu coração travavam sua própria
batalha. Não conseguia parar de olhá-los, eram como faróis me
chamando, cada vez mais. Tinham uma cor escura, tal qual carvão,
onde quase não se distinguia de sua pupila. Cílios e sobrancelhas
negras e grossas contornavam e aperfeiçoavam seu olhar, os
tornando cada vez mais enigmáticos.
Para muitos, até mesmo para mim, a beleza dos olhos estava em
sua cor como azul, verde ou amendoada, mas pela primeira vez
percebi o quão errado era esse pensamento. No momento não
conseguia pensar em um par de olhos azuis ou verdes mais bonitos
que os negros do estranho em minha frente.
Não reparei que minhas mãos estavam suadas até que as esfreguei
em minha saia plissada, fingindo tirar dobras que não existiam. Ele
também me encarava. Seu sorriso logo se desmanchou e agora
estava sério. Seus olhos estavam fixos nos meus e seu olhar era
incrédulo, como se estivesse com dúvida ou preocupado com
alguma coisa.
- O-o que – eu disse tentando voltar à realidade – O que você
disse?
- Oh, eu...– parecia que também estava perdido em seus
pensamentos. Limpou a garganta e continuou –...Perguntei o que a
máquina lhe fez, linda.
Sai do meu momento de êxtase e comecei a ficar irritada de novo.
Quem esse cara pensa que é? Odeio quando homens colocam
apelidos em mim sem motivo ou se quer me conhecer. Por que fica
me chamando de linda? Até aqui na empresa não fico em paz.
- Não te interessa! - respondi irritada - Quem é você?
- Calma, minha linda. Trabalho aqui como a senhorita, suponho.
Estava trabalhando até mais tarde em um novo projeto, sou... – sua
voz mansa e extremamente sedutora estava me tirando do sério.
- Não sou sua linda! Na verdade, não sou nada sua nem te
conhecer eu conheço! Se você me chamar de linda mais uma vez
juro que te dou um soco na cara!
Ele continuava a me olhar daquele jeito intenso, deixando-me cada
vez mais sem fôlego. Soltou o batente e começou a andar em minha
direção. Lentamente. Não conseguia pensar, falar, nem mesmo me
mover. Não sei por que estava tão irritada com aquele estranho,
mas ao mesmo tempo queria sentir suas mãos grandes e fortes em
mim, explorando meu corpo todo, saciando o meu desejo me
apertando contra o balcão. Não, não. O que está acontecendo
comigo? Preciso pegar alguém, a abstinência está me fazendo mal.
Ele continuou vindo devagar em minha direção até que começou a
abrir seu paletó. Depois foi a vez de gravata. Tudo isso sem nenhum
momento tirar os olhos de mim. Meu coração começou a disparar, a
respiração aumentou tanto que parecia que faltava ar no ambiente,
não conseguia entender o que estava acontecendo comigo. O
desejo estava tomando conta e aqueles olhos quase negros
estavam me levando à loucura. Ele parou a uns 30 centímetros de
distância. Ainda me encarando passou a mão por de trás de minha
cintura e...
Tec!
- Você tem que apertar mais forte. – Seu sorriso malicioso estava de
volta. Comecei a encarar seus lábios e sua barba por fazer. Pensei
como deve ser senti-la no rosto, esfregando em meu pescoço, qual
seria a sensação dele me apertando seus lábios contra os meus...
Oh céus, eu me transformei em uma tarada!
- O... O-oque? – minha voz saiu fraca, quase inaudível. A gagueira
estava me dominado hoje.
- Eu disse que você precisa apertar mais forte. – seu tom de voz era
grosso e profundo. Ai meu Deus, apertar o que mais forte? Como
assim? Será que ele estava pensando o mesmo que eu?
- Apertar o-o que mais forte?! – Fiquei um pouco com medo de
perguntar. Tudo o que passava na minha cabeça não era nada
inocente, queria apertar muitas coisas daquele homem ou que ele
apertasse muitas coisas minhas, aí não sei!
Foco, Emma, foco!
Então ele passou a mão pelas minhas costas de cima a baixo e
parou perto do topo da minha bunda. Comecei a ofegar. Respirar
estava se tornando uma tarefa cada vez mais difícil perto dele. Até
que me puxou para o lado devagar e foi se aproximando cada vez
mais. Ele me apertou ainda mais, puder sentir seu corpo prensando
o meu cada vez mais. Em um momento fechei os olhos, me
concentrando apenas em suas mãos e o caminho que as
percorriam.
- Apertar a alavanca da máquina mais forte, ela costuma travar às
vezes. Se a senhorita preferir... – sussurrou baixinho em meu
ouvido, com uma voz rouca muito – ...posso ajudá-la com isso.
Nesse momento soltei um grunhido vergonhoso, que me fez
despertar e ser jogada de volta a realidade. Encarei seus olhos mais
não por muito tempo, estava confusa demais e aí então desviei o
olhar e vislumbrei a máquina ligada. Estava tão enfeitiçada que não
reparei que ele abriu o compartimento de cápsulas para ligar o
equipamento. Que vergonha!
Precisava sair dali imediatamente. O estranho irresistível estava me
olhando profundamente com um sorriso tentador. Libertei-me de
seus braços e comecei a andar rapidamente em direção ao elevador
até que ele me puxou pelo braço.
- Espere! Qual é o seu nome? – questiona.
Puxei meu braço um pouco forte demais e continuei andando mais
rápido agora de encontro ao elevador olhando para o chão. As
escadas não eram uma boa opção nesse momento, ficar em um
lugar escuro com esse homem não ia ajudar.
Então ele disse com uma voz firme e séria quase gritando:
- Eu perguntei qual é o seu nome, senhorita. Responda. – Comanda
petulante.
Apertei o botão do elevador e só aí olhei para trás. Ele estava
parado no mesmo lugar onde tinha me puxado quando pediu para
que eu esperasse. O elevador chegou. Não consegui tirar os olhos
daquele estranho executivo que me encarava.
Seu rosto estava sério e impassível, pude ver que me olhava em
dúvida. Ainda olhando para ele comecei a entrar lentamente no
elevador de costas. Agora ele estava se aproximando rapidamente
com uma expressão de raiva em seu rosto. Não sei bem se era isso
direito. Ele escondia muito bem suas emoções, ao contrário de mim
é claro.
- Eu? – falo baixo, desviando o olhar – Não sou ninguém, senhor.
Boa noite.
E as portas do elevador se fecharam.
Capítulo 9
O idiota do meu chefe
- Não vai me falar mais sobre você? Estou esperando. – Pergunta.
- Falar o que de mim Sean? Acredite, não tenho nada de importante
a dizer.
- Eu Duvido.
- Tudo bem, por onde eu começo a falar sobre a minha
"extraordinária" vida. – Debocho sorrindo. Não queria falar sobre o
orfanato para ele, mas então sobre o que falaria? Realmente não
tinha tanta coisa assim para dizer...
- Você pode começar a me dizer no que você trabalha lá na
empresa. Sei que é no 9º andar, mas o que a senhora faz?
- Ah, sou secretária no setor comercial de novos clientes. Trabalho
para o Senhor Maxon, na realidade eu posso até dizer que trabalho
por ele na maior parte do tempo. – Dei uma risadinha porque isso
realmente era engraçado, eu trabalhava por ele quase todos os
dias, na realidade até hoje o que eu mais fiz foi trabalhar no lugar
daquele cara. Ele mais dorme do que trabalha.
- Como assim? – Sean parecia mesmo interessado no que eu
estava dizendo e pode até parecer loucura, mas olhando em seus
olhos pude sentir que podia confiar nele.
- Bom, - suspiro - que fique aqui entre nós, mas, por exemplo, você
sabe daquela conta milionária que pegamos com a Goldman
Sachs?
- Sim, eu ouvi falar – pude sentir que ficou um pouco nervoso,
agitado no momento. Não entendi sua reação - o que tem ela?
- Pois então, quem fechou e assinou todos os papeis foi o Senhor
Maxon, mas eu que fiz todo o planejamento. Vi que os clientes que
compravam seus empreendimentos eram de alto escalão e que
precisavam de uma empresa como a nossa para cuidar tanto das
transações quanto trabalhar na melhoria da divulgação, e ver os
reais lucros que esse investimento pode ter. Fiquei cuidando desse
contrato durante meses, mas no final quem assinava o trabalho todo
era ele.
Sean ficou sério e em silêncio por alguns minutos pensando no que
eu havia dito. Fiquei tentando analisá-lo para tentar saber no que
estava pensando, mas não conseguia ver nada. Quando queria
Sean conseguia se tornar indecifrável, seu rosto era impassível.
Estávamos quase chegando então paramos mais uma vez em um
farol.
- Emma, isso é muito grave. Você deveria conversar com ele sobre
isso ou delatar esse caso. O que ele está fazendo com você é
extremamente errado, está te usando para obter lucros para si.
- E você acha que eu não sei? Mas ele é desse jeito mesmo, um
tremendo idiota, tem vezes que eu vou na sala dele e ele está
dormindo. Mas a coisa é mais complicada do que isso...
- Emma, responda-me sinceramente. O que você estava fazendo
até essa hora na empresa? Porque já está bem tarde e essa hora
ninguém mais deveria estar lá. – Sean agora me olhava sério e pelo
tom de sua voz pude sentir que ele não me pedia uma resposta.
Estava mandando mas de forma gentil, parecia realmente
preocupado ou somente curioso. Hesitei de início, mas acabei
cedendo,
- Eu estava fazendo uma pesquisa e criando a apresentação final de
lucros e estratégias para prospectar novos clientes, para a reunião
que Senhor Maxon fará amanhã.
- Emma, você ficou a noite toda fazendo a apresentação que ele
fará amanhã. Você não percebe o quão absurdo é isso? - ele
pergunta indignado.
- Se você acha isso absurdo espera eu te contar que ele nem me
paga por isso – comecei a rir, mas parei quando Sean parou o carro.
Havíamos chegado e eu nem percebi. Quando ele parou o carro
virou totalmente na minha direção exatamente igual como havia feito
quando começamos a nos beijar. No entanto, agora me olhava com
raiva, estava sério e parecia um pouco irritado.
- O que foi? - perguntei sem entender.
- Como assim? – disse cada palavra pausadamente.
Sua voz era tão séria e firme que nem consegui responder de
imediato. Ele não estava brincando. Seus olhos pareciam mais
escuros e frios, sua mão que estava no volante o segurava tão
firmemente que os gomos de seus dedos estavam esbranquiçados.
A outra estava novamente em minha coxa. Tive que me segurar
para não me derreter naquele instante, meu corpo todo se aqueceu
tão rapidamente que respirar normalmente, estava de novo, se
tornando meu maior desafio.
- Emma, responda-me. Agora.
- Você é bem mandão. - Tentei brincar para diminuir sua irritação,
todavia Sean estava impassível. Seu olhar ficou mais sério ainda e
suas sobrancelhas se união formando um "v" em sua testa.
- De qualquer forma você não entenderia, me desculpe, é mais
complicado do que você pensa.
- Experimente. - Sean disse me desafiando.
Respirei fundo. Mais uma vez. De novo só para garantir.
- O senhor Maxon não poderia me contratar, eu não sou apta ao
meu cargo – dei uma risada sarcástica – ou a qualquer cargo
daquela empresa, talvez para faxineira.
- Não acredito nisso.
O interrompi e continuei.
Se eu não falasse de uma vez talvez depois não fosse ter coragem
de fazê-lo.
- Eu não consegui terminar a faculdade. - Faço um movimento com
os ombros – Tranquei faltando alguns meses para me formar. Além
disso só fiz alguns cursos de secretariado e administração, nada
que me faça ser apta a trabalhar na Crawford. Ele já me conhecia
por uma amiga em comum, ficou sabendo que eu precisava de um
trabalho então confiou em mim. Por isso que faço tudo o que ele
pede, e fico feliz por fazê-lo, porque isso prova que mesmo sem
diploma eu consigo fazer um trabalho excelente como o que te falei,
que foi aceito pela presidência da empresa. - E estava dizendo a
verdade, me orgulhava muito disso.
Sean continuou em silêncio. Agora não olhava mais para mim e sim
para frente. Tirou a mão de minha coxa e voltou a sua posição de
motorista. Sofri em silêncio por isso e como ele não disse nada
continuei.
- Ele não paga minhas horas extras porque sabe que não vou
denunciá-lo ou algo assim. Preciso mesmo desse trabalho, não
posso perdê-lo Sean. Sei que se eu for ao RH a primeira coisa que
vão fazer é me demitir, além de que não posso provar minhas horas
extras, pois todo trabalho que faço é no computador pessoal dele, e
todas as planilhas, pesquisas e reuniões estão em seu nome, como
vou provar que fui eu que fiz tudo? Sou uma simples secretária
quem nem faculdade tem.
- Emma isso... isso é tão errado de tantas maneiras. Você não
pode...
- Sean o que eu não posso é perder o meu emprego - disse sendo
firme - Mas sabe de uma coisa? Eu até gosto de ficar na empresa
até tarde, faço isso desde sempre. Sério está tudo bem, só te disse
por que confio em você, não preciso que você faça nada e
principalmente não conte a ninguém! Preciso muito desse emprego.
Sean olhou para mim ainda com raiva e certa relutância em seus
olhos. Sei que não era direcionada a mim, mas a situação. Parecia
revoltado e derrotado ao mesmo tempo.
- Você promete? Promete não contar a ninguém? - perguntei.
Olhei diretamente em seus olhos, sei que era algo extremamente
difícil, porém era o que precisava fazer. Sean tinha que prometer
não dizer nem fazer nada, preciso demais daquele emprego. Mais
alguns meses e eu já posso me mudar do lar, ter meu próprio
cantinho. E para que isso seja possível eu aceitaria até engraxar os
sapatos do Senhor Maxon todo dia.
- Tudo bem, – disse a contragosto – não irei dizer nem farei nada.
Porém se esse tal de Maxon fizer algo mais absurdo que isso, não
me responsabilizo, Emma.
- Fechado? – perguntei.
Estendi a mão para um "high five" com soquinho, era assim que
fazia com Jason quando éramos pequenos. E aquele sorriso
esplêndido, que me fazia pensar em coisinhas e fazia minhas
pernas ficarem bambas, apareceu novamente. Sean mostrava certa
teimosia, mas quando sorri ele desistiu e bateu em minha mão.
- Fechado.
- Ótimo, sabia que podia confiar em você Sr. Riquinho que curte
comer lesma, - estendo o punho em sua direção - agora faltou dar
um soquinho, para fechar a promessa.
Seu sorriso se estendeu tanto que pude ver seus dentes. Seus
olhos agora estavam me encarando com carinho. Apertando minha
mão a levou até seus lábios e deu um beijo de leve no gomo dos
meus dedos.
- Sempre que precisar Senhorita Smith, - fechou o punho e deu o
"soquinho" - e não se sinta desvalorizada só porque não terminou a
faculdade, você é mais inteligente do que muitos engravatados
cheios de diplomas naquela empresa.
Capítulo 10
Eu, você e o dogburger
Senti borboletas no estômago. Ele não precisava me dizer, sentia
que podia confiar em Sean mesmo não sabendo o motivo. Sejamos
racionais, eu o conheci a menos de quatro horas isso é realmente
muito, muito estranho. Porém, quando eu olhava para ele parecia
ser algo normal. Natural, como se já o conhecesse.
- Chegamos, estamos no Bronx. Onde é que fica o tal do dogduder?
Estou ansioso para comer comida de verdade.
- Primeiro, é DogBURGER. - Ri de sua confusão - E segundo,
estamos bem perto. É só você continuar aqui nessa rua mesmo e
em frente virar na terceira à esquerda. É naquela rua ali com a
estátua engraçada da mulher nua.
- Ah sim, Afrodite.
- Bom, se você quer chamá-la assim, por mim tudo bem. – Respondi
sem entender.
- Não Emma – Sean gargalhava. Toda vez que fazia isso olhava
para mim como se eu não estivesse falando sério. Sua risada tinha
um som tão gostoso de se ouvir, era firme e contagiante. Ele
realmente ria de verdade, não era para me agradar nem nada. Além
de que quando ria ficava mais atraente, como se fosse possível.
Seus dentes brancos apareciam e sua boca que fora lapidada por
deuses se abria gloriosamente. Ele era um sonho, só podia ser –
aquela estatua engraçada é Afrodite, uma deusa da mitologia grega.
- Acho que sei qual é. Aquela do amor, não é?
- Exatamente. Acho que chegamos.
Paramos em frente ao Dog&Burger's. É um foodtruck simples, todo
laranja e decorado com umas lâmpadas pisca-pisca de natal. Sean
parou o carro ao lado do furgão, saímos e logo fomos pedir.
- Hey Tuck! – eu digo ao homem alto dentro do furgão, que estava
picando alguns alimentos na bancada do fogão. Tuck tem uns 32
anos, é alto, magro, tem os cabelos da mesma cor que os meus,
marrom cor de terra, e olhos castanho escuros.
- Oi m&m's! Qual o pedido de hoje? Deixa eu
adivinhar...- Tuck disse, fazendo piada.
- O de sempre, é claro! – ri.
- Pode deixar comigo. Quem é o seu amigo? – disse levantando a
cabeça na direção de Sean.
- Esse é o Sean, ele trabalha lá na Cruelford também.
- Cruelford? – Sean me olhou não entendendo a referência. Fiz um
sinal com a cabeça dizendo "te explicou depois" e virei para Tuck
novamente.
- Faz dois DogBurgers do jeito da M&M's ok. Completos!
Tuck sorriu e disse - É pra já! Querem algo para beber?
- Não quero nada, e você Sean?
- Uma cerveja, por favor.
Sentamos em uma das mesas ao lado do furgão, nela haviam
algumas flores pequenas, pareciam margaridas. Sean puxou a
cadeira para mim, o que eu achei bem estranho. Que homem faz
isso atualmente? Mas me lembrei que Sean devia ser um Anjo
divino que deveria estar perdido na terra, ou algo assim. Era beleza
e simpatia demais para ser real.
- Cruelford? – perguntou quando finalmente nos sentamos.
- Pois é, mas não me dê todo crédito. Jason que inventou depois de
ter recebido um esporro do Senhor Maxon e dos seguranças de lá
na última vez que tentou me visitar. Ele seduziu umas das
recepcionistas e subiu escondido para me ver, coisas de Jason. –
não consigo evitar rolar os olhos – Porque pedir para que eu
descesse para vê-lo seria normal demais para ele.
- Claro que seria – Sean sorriu sem mostrar os dentes – Você mora
por aqui?
- Sim, dá para ir a pé. Meu apê fica perto daquele prédio ali na
esquina, o verde.
- Estou vendo, fica bem próximo mesmo. Você mora com seus pais
e com seu irmão?
- Moro só com Jason, meu irmão de criação. – E mais umas 200
pessoas, mas isso era só um pequeno detalhe não é mesmo?
- E seus familiares estão no Texas?
- Não tenho família, só Jason mesmo. Somos órfãos – não queria
parecer triste, porém foi inevitável. Não era pelo fato de não ter
família, já havia me acostumado com isso, mas porque chegaria um
momento em que teria que dizer a Sean quem eu realmente era.
Uma estúpida garota esperança.
- Sinto muito. – disse sendo sincero.
- Não, tudo bem. Eu cuido dele e ele... bem, vamos só dizer que ele
precisa de mais cuidados que eu. Jason pode ser um pouco
inconsequente às vezes – ou SEMPRE, TODA SANTA HORA – mas
o amo do mesmo jeito. E você? Tem irmãos?
- Tenho uma irmã, Kara. Ela mora em Londres... – Reparei que
quando começou a falar de sua irmã Sean pareceu triste por um
momento – Minha mãe mora em Hamptons, com o marido. – Agora
parecia com raiva, não pude identificar o porquê, mas parecia ter
algo a ver com marido de sua mãe – e eu em Manhattan.
- Nossa te trouxe para bem longe de casa então. Aposto que você
não vai se arrepender.
- É certo que não vou. – disse me encarando com aqueles olhos
negros como a noite e esbanjando um sorriso malicioso que fez com
que meu corpo todo se estremecesse.
Desse jeito não vou conseguir sobreviver. Quando chegar vou ter
que tomar um banho com pedras de gelo para ver se consigo
apagar um pouco desse fogo todo que sinto perto de Sean. Ótimo,
agora imaginei Sean nu. Se vestido já é desta forma, nu então...
Imagine ele todinho como veio ao mundo, molhado tomando banho,
cheio de sabão. Tocando meu corpo todo com suas mãos grandes.
Ele tem mãos bem grandes, realmente. Aqueles braços fortes me
apertando contra seu peitoral bem definido. Eu agarrando e
arranhando suas costas largas. Seu olhar negro e intenso sobre
mim. Seus cabelos ondulados, negros e molhados tocando meu
rosto. Aposto que Sean deve ter um grande e majestoso...
- Pronto! Dois DogBurger's estilo M&M's – disse Tuck deixando
nossos lanches em nossa mesa, me trazendo de volta para a
realidade – Aproveitem.
- Obrigada Tuck. – disse meio sem graça.
Ele fez um aceno com a cabeça e voltou para o furgão.
- Agora você pode me explicar o que estou prestes a comer, Emma?
Porque a aparência é ótima, mas tem tantas coisas...- disse
encarando o lanche confuso.
- Eu te disse que com Tuck não tem miséria. Tem de tudo um pouco.
Expliquei a Sean detalhadamente o que ele iria comer. Se fosse o
Jason nesta posição ele nem questionaria, aquele come até pedra.
Mas gostei de ter que explicar a Sean como era um simples
sanduíche. Ele me olhava com tanta atenção que pareceu até que
estava explicando qual era a cura do câncer. Sean realmente nunca
comeu um sanduíche decente. Essa era a mais estranha,
comovente e fofa situação em que eu já estive.
O lanche que iriamos comer é o mais vendido. Parece um
sanduíche normal, só que com tudo de gostoso possível. Muito de
tudo. No lugar do tradicional hambúrguer ia um salsichão. De
complemento vinha uma porção de batatas fritas e nuggets. Esse
sanduíche era uma explosão de enfarte cardíaco, diabetes e
colesterol. A morte em uma mordida. Pelo menos seria uma boa
forma de morrer, pois é delicioso.
- Nossa, pelo tamanho imaginei mesmo que teria muita coisa. É
gigantesco!
- Sim – eu disse – espere até você provar.
Fiquei observando Sean comer seu sanduíche. Ele pegou com tanto
cuidado que parecia que poderia quebrar. Levou o lanche até aboca,
mas hesitou. Antes de morder me olhou.
Seus olhos me perguntavam se estava fazendo certo, comecei a rir
e acenei com a cabeça o incentivando a continuar, então Sean deu
sua primeira mordida.