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Sequestrada Pelo Hacker

Sequestrada Pelo Hacker

Autor: Evelyn.C.C
Gênero: Romance
Ela foi sequestrada por engano. Ele deveria libertá-la. Mas Zian Matias nunca foi capaz de abrir mão do que lhe despertava interesse. Dulce Maite, uma estudante de Artes Cênicas de vinte e um anos, levava uma vida simples em Sevilha. Órfã desde criança, aprendeu a encontrar beleza nas pequenas coisas e a sonhar com um futuro construído por seu próprio esforço. Tudo muda quando ela é confundida com outra mulher e sequestrada por uma organização criminosa que atua nas sombras. No centro dessa organização está Zian Matias. Brilhante, frio e obcecado por controle, Zian construiu um império invisível. Dono de uma mente excepcional, ele é capaz de destruir carreiras, expor segredos e arruinar vidas sem precisar derramar uma única gota de sangue. Pessoas influentes o temem. Seus inimigos evitam pronunciar seu nome. E aqueles que ousam traí-lo raramente conseguem se reerguer. Quando descobre que Dulce não era o alvo do sequestro, libertá-la deveria ser a decisão mais lógica. Mas ela desperta algo que nunca existiu em seu mundo perfeitamente organizado. Quanto mais Dulce tenta recuperar sua liberdade, mais Zian se vê fascinado pela jovem que desafia todas as suas regras. E quanto mais ele se aproxima, mais perigosa se torna a linha entre proteção e possessão. Agora, presa em um jogo de poder do qual nunca quis fazer parte, Dulce precisará decidir se foge do homem que pode destruir sua vida... ou se confia naquele que parece disposto a destruir o mundo para mantê-la ao seu lado. Porque Zian Matias controla informações, dinheiro e pessoas. Mas Dulce Maite é a única coisa que ele jamais conseguiu controlar.
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Capítulo 1 Capitulo 1

Dulce Maite - Sevilha, Espanha

Paro em frente ao espelho do quarto, encarando meu reflexo. Eu vestia um vestido preto florido, os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo desajeitado e, para variar, eu estava vinte minutos atrasada.

- Vamos lá, Candy... Se você se atrasar mais um pouco, o professor Léo te mata - digo para mim mesma, em voz alta, enquanto caminho apressada em direção à cozinha

.

O tempo está correndo. Pego a caixa de leite e o achocolatado no armário, misturo ambos rapidamente em um copo e tomo em grandes goles. Antes de sair, agarro uma maçã em cima da mesa e dou uma mordida generosa.

- Onde deixei meu cartão? - murmuro, olhando ao redor e tentando achar o bendito cartão de ônibus.

Olho nos bolsos, na mesa, no sofá... Nada. Depois de alguns minutos de puro desespero, consigo encontrá-lo dentro da geladeira. Não me perguntem como ele foi parar lá, porque nem eu mesma sei como aquilo aconteceu. Coisas de mente de artista.

Com o cartão de ônibus em uma das mãos, a mochila pesada nas costas, a maçã mordida e a chave do apartamento na outra, finalmente deixo meu pequeno porto seguro.

Assim que piso na rua, começo a correr para alcançar o ponto de ônibus. Por pura sorte, o motorista ainda estava parado, esperando os últimos passageiros.

Aquela manhã era crucial. Hoje seria a apresentação da cena que eu havia ensaiado exaustivamente durante duas semanas. Se eu me saísse bem, poderia finalmente conseguir uma recomendação do corpo docente para uma audição importante no teatro local. Era a minha chance.

Consigo alcançar a porta do transporte a tempo e entro com o coração na boca, passando o cartão para pagar a passagem.

- Bom dia - digo ao motorista, tentando recuperar o fôlego. Ele apenas responde com um aceno de cabeça econômico.

Ocupo o primeiro lugar vago na janela. Por sorte, o ônibus está quase vazio. Desfaço o nó dos meus fones de ouvido - daqueles velhinhos, com fio mesmo - e os conecto no celular.

- Funciona, coisa... - resmungo, irritada, quando percebo que um dos lados parou de pegar de repente.

Esse era o grande mal de usar fones desse tipo. Mas, mesmo com o fio meio partido, eu não abria mão deles por nada. Até porque, na minha cabeça, era bem melhor ter só um lado do fone funcionando do que ter um fone sem fio moderno que descarrega a qualquer momento e te deixa no silêncio.

- Vamos começar com um melodrama - falo sozinha, arrastando o dedo pela tela, procurando uma música bem dramática na minha playlist.

Às vezes eu era tão boba que começava a chorar com músicas das quais nem sabia a tradução. Minha mente de estudante de teatro criava todo um cenário cinematográfico na janela do ônibus. Como muitos conhecem por aí, eu criava uma fic... e, no meu caso, era uma fic dentro da própria fic da minha vida.

Quando finalmente desço do ônibus, o trânsito já havia feito o seu trabalho: eu estava tranquila, mas oficialmente com meia hora de atraso.

Apresso o passo pelos portões da faculdade. Assim que entro no corredor principal, avisto Érika. Ela parecia extremamente nervosa, andando de um lado para o outro enquanto segurava o celular com força na mão.

Franzo a testa, diminuindo o passo ao notar sua agitação.

- Ei, Érika, o que foi? - pergunto ao parar do seu lado.

Ela se sobressalta de leve, mas logo abre um sorriso amarelo, tentando disfarçar a tensão.

- Nada, só uns problemas pessoais - respondeu, guardando o aparelho no bolso.

Observo os olhos dela por alguns segundos, sentindo que havia algo errado, mas decido respeitar o espaço dela e apenas assinto.

- Se precisar de ajuda com algo, sabe que pode contar comigo - ofereço, tocando levemente em seu ombro.

Ela assente, parecendo aliviada com a mudança de foco.

- Você está atrasada, o professor está um nervo só, já que a estrela dele não chegou - brinca, mudando completamente de assunto e apontando para a porta do laboratório de teatro.

Solto uma risada leve, sentindo o frio na barriga voltar.

- Pois é, nem me fale - digo, revirando os olhos com humor. - Acredita que meu despertador quebrou?

Ela nega com a cabeça, rindo da minha falta de sorte crônica.

- Dorminhoca - implica com carinho. - Vamos, senhora dorminhoca, acalmar a fera do professor Léo - completa, me puxando pelo braço em direção à nossa sala.

Enquanto caminho com Érika em direção à sala, um arrepio súbito percorre minha espinha. Sinto uma energia negativa esquisita, como se estivesse sendo observada de longe. Olho de relance para trás, mas não vejo ninguém suspeito, apenas alguns colegas de outros cursos conversando perto dos armários.

- O que foi? - Érika nota minha inquietude.

Nego com a cabeça, tentando espantar o pressentimento. Talvez fosse só o sono; eu tinha dormido muito mal na noite anterior.

Assim que adentramos a sala de teatro, todos os olhares recaem sobre nós. Sinto minhas bochechas corarem de vergonha imediatamente. Eu era tímida por natureza, o que parecia uma ironia para alguém que queria ser atriz.

O professor Léo vem direto em nossa direção, cruzando os braços.

- A mocinha está atrasada - disse ele, ajeitando os óculos. - A audição já começou - completa.

Engulo em seco, sentindo o estômago dar um nó.

- Desculpe, peguei trânsito, não vai acontecer mais - justifico, olhando para os meus pés.

Confiança definitivamente não era o meu forte.

O professor solta um suspiro dramático, mas seus olhos são compreensivos.

- Tá, tá, para de me encarar com essa cara de choro e vai lá para trás se preparar, você é a próxima, arrase! - ordena, acenando com as mãos para que eu me apressasse.

Abro um sorriso gigantesco, sentindo o alívio me inundar.

- Obrigada, professor - digo, correndo para trás do palco.

Érika vem logo atrás de mim, pronta para me ajudar com o figurino.

- Você consegue, Candy - murmuro para mim mesma, tentando controlar os batimentos cardíacos.

As cortinas se abrem e, de repente, sinto meu corpo travar por inteiro ao ver tantas pessoas me observando lá de baixo. Fico totalmente parada, encarando a plateia. Eu e minha maldita timidez.

- Vai lá, Dulce, você consegue! - Érika incentiva, sussurrando dos bastidores.

Respiro fundo, dou um passo à frente e tomo coragem para quebrar o silêncio.

- Sou Dulce Maite, desculpe, estou um pouco nervosa... Posso começar de novo? - minhas mãos tremem visivelmente.

Os juízes na primeira fileira assentem com a cabeça, compreensivos. Volto a respirar fundo, fecho os olhos por um segundo e recomeço. Dessa vez, a mágica do teatro acontece: consigo me apresentar e entregar tudo de mim na cena.

Quando as cortinas finalmente se fecham, sinto um alívio avassalador tomar conta do meu peito.

- Aí, caramba, achei que meu coração fosse sair pela boca - comento com Érika, que já me estende uma garrafa d'água.

Ela ri da minha reação dramática.

- Você está exagerando. Mesmo que tenha travado um pouco no início, você mandou bem demais - elogia, me dando um tapinha encorajador no ombro.

Sorrio. Ela sempre dava um jeito de me animar quando eu duvidava de mim mesma.

- Obrigada, você é a melhor amiga que eu poderia ter - digo, e me jogo em seus braços em um abraço apertado.

- Óbvio, o que seria de você sem mim? - brinca, retribuindo o gesto.

Depois de algum tempo, a hora do almoço finalmente chega e nós duas vamos juntas para a cantina da faculdade. Pegamos nossas bandejas, mas, na hora de passar pelo caixa, a situação fica tensa.

- Desculpe, mas seu cartão foi recusado - a moça que serve a comida fala para Érika.

Minha amiga fica completamente sem graça, o rosto ganhando um tom vermelho enquanto ela abaixa a cabeça, encabulada.

- Desculpe! - balbucia Érika, prestes a devolver o prato.

Antes que ela passe mais vergonha, pego o meu próprio cartão e o estendo para a funcionária, pagando o almoço dela sem hesitar.

- Deixa que eu pago o dela - peço com um sorriso leve. - Prontinho, vamos sentar ali - indico para Érika, apontando para uma mesa vazia no canto.

Nós nos sentamos e o clima pesado logo se dissipa.

- Obrigada, depois eu te devolvo o dinheiro - agradece ela, ainda um pouco sem jeito.

Nego com a cabeça, desconsiderando o assunto.

- Não precisa, somos amigas. Sei que se fosse eu, você faria o mesmo.

Ela sorri, grata.

- Sem pensar duas vezes.

A hora de ir embora se aproxima. Érika precisou sair um pouco mais cedo porque tinha alguns problemas pessoais para resolver, então sigo o caminho de volta para casa andando. Sevilha havia amanhecido calma hoje, mas agora o céu exibe nuvens pesadas e cinzentas; o clima típico de chuva iminente.

No meio do caminho, meu celular começa a tocar na mochila. Paro na calçada para atender. Na tela, brilha o nome de Jonas, um colega da igreja.

- Oi, Jonas - atendo, abrindo um grande sorriso ao ouvir a voz dele.

Nesse exato momento, um carro preto de vidros escuros encosta devagar junto ao meio-fio da rua deserta. Não dou muita atenção ao veículo e continuo concentrada na ligação.

- Só liguei para avisar que hoje teremos o ensaio do coral, para você não esquecer, hein - avisa Jonas do outro lado da linha.

Eu tinha esse terrível costume de esquecer as coisas, principalmente compromissos e eventos importantes.

- Ok, obrigada por avisar, eu já tinha até esquecido... - começo a responder, mas a frase morre na minha garganta.

A porta do carro se abre abruptamente. Antes que eu possa reagir ou gritar, um vulto surge atrás de mim e um pano preto embebido em um líquido forte tampa meu nariz e minha boca. Sinto um cheiro químico e avassalador.

Tento lutar, minhas pernas vacilam e o celular escapa dos meus dedos, caindo na calçada. Meu corpo perde as forças rapidamente e apago por completo enquanto me debato inutilmente contra os braços que me prendem.

Capítulo 2 Capitulo 2

Dulce Maite - Sevilha, Espanha

Acordo um pouco confusa, com a mente enevoada e uma dor de cabeça incômoda. Minha primeira reação é achar que tudo não passou de um pesadelo ruim: sonhei que estava no meio da rua e que homens vestidos de preto haviam me sequestrado.

- Que bobagem... Por que eu seria sequestrada? - rio de mim mesma, tentando espantar o mal-estar.

Tento me levantar da cama, mas meu corpo parece não responder. Quando olho para baixo, sinto meu coração parar por um segundo e arregalo os olhos, o pânico subindo pela garganta. Eu estava firmemente amarrada por uma corda grossa.

Fico completamente apavorada, principalmente ao olhar ao redor e perceber que aquele lugar não é o meu quarto e, obviamente, não é o meu apartamento. As paredes são frias, o ambiente é estranho.

- Eu fui mesmo sequestrada? - murmuro, a ficha finalmente caindo. - Socorro! Socorro, alguém... - grito, me desesperando por completo enquanto tento puxar as amarras.

Antes que eu possa clamar uma terceira vez, a porta do quarto se abre abruptamente. Por ela passa um rapaz loiro, vestindo roupas escuras, que ostenta um sorriso estranhamente calmo no rosto.

- Oi amiga, fica de boa aí. O chefe já está chegando para bater um papo com você - diz ele, parando bem na minha frente com as mãos nos bolsos.

Jura que ele disse isso? Tipo, eu fui sequestrada, estou presa a uma cadeira e ele quer que eu fique calma diante de uma situação como essa?

- Eu não fiz nada, por que me sequestraram? Por favor, menino, eu não tenho dinheiro e ninguém para pagar o meu resgate, me deixe ir, por favor! - imploro, e as lágrimas começam a rolar pelo meu rosto.

Ele pisca os olhos, parecendo genuinamente surpreso com o meu choro.

- Não chora não. A gente cometeu um erro, na verdade não era para você estar aqui, confundimos a pessoa... Mas a culpa também é sua, quem mandou ser parecida com a moça lá? - argumenta, tentando passar a responsabilidade para mim com a maior naturalidade do mundo.

Inacreditável. Eles cometem o crime, erram o alvo, e a culpada sou eu por causa dos meus traços? Seria uma piada engraçada, se não fosse absolutamente trágica.

- Já que o erro foi de vocês, por que não me solta e me deixa ir? Prometo que não conto para ninguém sobre o que aconteceu - peço, balançando a cabeça para afastar os fios de cabelo que caíam sobre os meus olhos.

Os olhos dele se estreitam em uma expressão divertida.

- O que aconteceu? Você estava dopada, amiga, não viu nada não, só o meu rostinho bonito - comenta, rindo da minha tentativa de barganha.

Solto uma pequena risada involuntária. Parecia que, para ele, aquilo era a coisa mais comum do mundo, como se acontecesse todos os dias.

- Hum... Então o que vai acontecer comigo? Vocês vão me matar ou vender para o tráfico humano? - pergunto, tentando conter o tremor na voz.

Ele ri alto do meu questionamento, caminhando até a parte de trás da cadeira. Suas mãos seguram a corda grossa que envolve meu corpo.

- Você é engraçada, nós não trabalhamos com esse tipo de coisa - fala, desatando os nós com agilidade. - Vou te soltar!

Ele afasta as cordas e eu finalmente posso mexer os braços, massageando os pulsos que começavam a marcar.

- Se você tentar fugir, iremos atrás de você e trazê-la de volta pelos cabelos - avisa ele. Seu tom, de repente, carrega uma ameaça real.

Engulo em seco, abandonando qualquer ideia impulsiva.

- Não vou. Pode me dar um copo d'água e também me deixar ir ao banheiro? - peço, olhando ao redor.

Ele aponta com o queixo para uma porta de madeira no lado esquerdo do quarto.

- Vai lá, de boa. Vou descer rapidinho e pegar sua água. Prefere com gás ou sem? Quer comer também? Temos uns lanchinhos - ele simplesmente não para de falar.

A situação era totalmente surreal. Eu estava presa por uma organização criminosa e o meu sequestrador agia como um anfitrião de hotel.

- Qual é o seu nome? - a curiosidade fala mais alto.

- Kiliam, mas te deixo me chamar de Liam - ele pisca para mim de forma descontraída antes de passar pela porta e me deixar sozinha no cômodo.

Aproveito o momento para explorar o quarto. O espaço é enorme, bem decorado e fica no segundo andar. Caminho até a janela e olho discretamente para fora: a vista dá de frente para um lindo e bem cuidado jardim. O lugar é, provavelmente, uma mansão isolada. Os muros da propriedade são extremamente altos, vigiados e sem qualquer chance de fuga.

- Melhor esperar o tal do chefe mesmo - suspiro frustrada, cruzando os braços e me afastando do vidro.

Depois de ir ao banheiro, volto para o quarto e me sento na beirada da cama, aguardando o retorno de Liam.

Estou distraída, roendo as unhas de puro nervosismo, quando passos pesados e firmes começam a ecoar pelo corredor. Fico apreensiva imediatamente; aquele ritmo de caminhar definitivamente não parecia ser o de Liam. Era algo muito mais imponente.

Olho fixamente para a porta. Um homem alto, vestido com roupas pretas impecáveis, passa pelo batente e para, me encarando. Longos segundos se passam em um silêncio sufocante, onde sinto o peso do seu olhar analítico me escanear por inteira.

- Oi, você é o tal do chefe que o Liam falou? Por favor, não me mate! - disparo as palavras rapidamente, a voz trêmula.

A testa dele se franze em uma linha dura. Ele ignora o meu apelo e caminha calmamente até mim, parando a poucos passos de distância.

- Você não é a Érika! - afirma, a voz fria e cortante.

O encaro, completamente confusa. Como assim? A Érika conhecia aquele tipo de gente? O que ela tinha feito?

- Não sou, me chamo Dulce Maite. Mas o que vocês querem com essa moça? - pergunto, ficando na defensiva. Eu nunca entregaria a minha melhor amiga para criminosos.

O olhar dele é cirúrgico, calculista.

- Não a conhece? - questiona ele. Nego com a cabeça, tentando sustentar a mentira. - Engraçado, você me parece muito com a mulher nesta foto ao lado dela.

Zian vira a tela do tablet que segurava em minha direção. No visor, brilha uma foto nítida minha ao lado de Érika, tirada no campus da faculdade. Sinto meu rosto esquentar e abro um sorriso amarelo, sem saber onde enfiar a cara.

- Hum... Bom, você também não especificou qual Érika. Tipo, no mundo existem mil mulheres com esse nome - dou a minha melhor desculpa de atriz, embora saiba que não colou.

O homem solta um leve sopro de ar, quase divertido com a minha audácia, e ergue uma sobrancelha.

- Certo, senhorita Dulce Maite, então me diga: o que eu faço com você agora?

- Me deixe ir para casa, juro que não vou contar a ninguém sobre você - peço, levantando-me da cama em um impulso e fazendo o sinal de juramento com os dedos.

- Mesmo? E o que você sabe sobre mim? - ele rebate, cruzando os braços.

Caramba, outra vez. Esses homens realmente são difíceis de convencer. O que eu saberia sobre ele se nem o nome dele eu tinha?

- Então apenas me deixe ir - peço novamente, quase em um sussurro implorante.

Ele nega com a cabeça, os olhos escuros fixos nos meus, irredutíveis.

- Negativo. Você é uma peça no meu xadrez que eu não sei onde jogar, descartá-la agora é inviável - comenta, ditando o meu destino com a frieza de quem move um peão no tabuleiro.

Capítulo 3 Capitulo 3

Dulce Maite - Sevilha, Espanha

Engulo em seco. O homem na minha frente tinha deixado bem claro que, enquanto não soubesse o que fazer comigo, eu não sairia dali. Ou seja, eu estava oficialmente presa.

- Você não pode fazer isso, o erro foi de vocês - acuso, tentando buscar alguma firmeza na voz, embora minhas pernas ainda tremam.

Sua expressão não muda nem por um segundo. Ele permanece calmo, frio e totalmente controlado.

- Você não ficará presa, apenas não poderá sair daqui. Pegue e ligue para alguém que te conheça e que possa notar o seu sumiço - diz ele, estendendo um celular moderno na minha direção. - Não preciso dizer o que você não deve falar, certo?

Nego com a cabeça, entendendo perfeitamente a ameaça implícita. Pego o aparelho e começo a digitar o número de Jonas, mas, antes de apertar o botão para chamar, me recordo de um detalhe importante:

- Não acha que faria mais sentido eu ligar do meu celular? Tipo, não levantaria tanta suspeita, e eu também preciso tirar uma licença da faculdade - aponto, tentando cobrir todas as pontas soltas.

Embora eu estivesse em uma situação onde claramente não tinha o direito de impor minhas opiniões, não podia deixar que eles prejudicassem o meu futuro. A faculdade era a coisa mais importante na minha vida.

- Ajeitarei as coisas para você em relação à faculdade. Quanto ao seu celular, não está mais aqui. Ligue desse mesmo. Se não se lembra do número, também posso resolver esse problema, basta me dar o nome da pessoa - responde ele, com uma seriedade que me dá calafrios.

Suspiro, derrotada. Eu realmente não conseguia convencer ninguém naquela casa.

- Não precisa, lembro bem o número - rebato, e finalmente coloco a ligação para chamar.

Passo alguns minutos tentando, mas a linha apenas chama até cair. Jonas parecia estar ocupado demais para atender o telefone. Desisto frustrada depois da quinta tentativa.

- Ele não atende - aviso, entregando o celular de volta para o homem.

- Quem é ele? - questiona, arqueando uma sobrancelha com um brilho analítico no olhar.

- Um amigo - respondo de forma simples, sem querer dar detalhes da minha vida.

- Certo, mais tarde tentaremos novamente - ele guarda o aparelho no bolso do terno. - Sou o Zian - se apresenta por fim.

Zian.

O nome ecoa na minha mente. Zian parecia o oposto completo de Liam. Enquanto o capanga era animado, falante e totalmente sem noção, o chefe era calmo, controlador, um homem de poucas palavras e uma frieza cirúrgica.

Por falar no loiro, ele estava demorando uma eternidade com a minha água e os meus lanches.

- Hum... Você não viu o Liam pelo caminho para cá? Ele disse que me traria água e lanche - comento, olhando em direção ao corredor vazio.

Zian franze a testa por um breve momento, desfazendo sua expressão impassível.

- O Kiliam? - pergunta, e eu concordo com a cabeça. - Saiu, disse que iria comprar algumas coisas. Está com fome? Preparo um lanche para você!

Meus olhos brilham e minha barriga ronca alto só de ouvir a palavra lanche.

- Quero sim, estou faminta - concordo, esquecendo por um segundo o medo que deveria estar sentindo.

Ele se vira e sai do quarto. Logo em seguida, ouço sua voz ecoar pelo corredor:

- Venha, não vou trazer o lanche no quarto para você.

Abro um sorriso involuntário. Finalmente eu sairia daquelas quatro paredes. Apresso o passo e sigo logo atrás dele, observando a imponência de suas costas.

- Sua casa é bonita, Zian. Quantos anos você tem? - pergunto, tomada pela curiosidade sobre o meu captor enquanto começamos a descer a imensa escadaria.

- Trinta e um anos - responde ele, sem parar de caminhar.

- Não parece. E o Liam? - continuo com a minha enxurrada de perguntas.

Zian para por um breve instante no último degrau e olha para trás por cima do ombro, me encarando de forma intensa.

- Você é bem curiosa, né? - questiona.

Ignoro o aviso em seu tom e olho ao redor. Chegamos à sala principal: o espaço era enorme e muito bem decorado, predominando os tons escuros, mas com um ar extremamente moderno e sofisticado.

- Na verdade não, sou bem tímida. Mas acontece que estou nervosa, e quando isso acontece, costumo falar pelo cotovelo - admito, dando de ombros.

Nesse momento, um outro homem aparece no nosso ponto de visão, saindo de um dos cômodos da mansão.

- Quem é esse? - pergunto, levantando a mão e apontando diretamente para o desconhecido.

Antes que eu possa piscar, Zian se aproxima e segura o meu dedo indicador com firmeza, abaixando minha mão. O toque de seus dedos é quente e firme contra a minha pele.

- Seja mais educada, é falta de educação apontar para as pessoas. Por fim, respondendo à sua pergunta, esse é o Félix, o que ajudou o Liam a te sequestrar - revela, com o tom de voz totalmente seco e direto.

Olho assustada para o tal Félix, esperando uma postura ameaçadora, mas o homem à minha frente apenas abre um sorriso sem jeito.

- Bom... Foi mal. Você meio que estava de costas e achamos que era sua amiga - justifica-se, fazendo gestos desajeitados com as mãos.

Parando para pensar, no que raios eu sou parecida com a Érika? Tipo, eu tenho cabelos castanhos-claros, olhos escuros e sou baixa, enquanto ela é ruiva natural, tem olhos verdes, sardas e é alta. Repetindo: ela é ruiva. Então, eu pergunto mentalmente: como raios fomos confundidas por profissionais do crime?

- Eu não diria que somos parecidas, talvez vocês precisem de óculos. Por falar nisso, você viu o meu? Não enxergo muito bem sem ele - comunico, olhando ao redor com os olhos semicerrados.

Zian se vira para o capanga, a voz assumindo aquele tom de comando que não aceita réplicas:

- Providencie isso para ela e também algumas roupas, itens pessoais e um quarto.

Félix retira as mãos dos bolsos, assentindo com presteza.

- Quer que eu pinte o quarto também? Alguma cor específica para as roupas, tamanho? - pergunta ele, encarando o chefe.

Vejo um bloco de notas em cima da mesinha de centro da sala. Vou até lá e o pego; por sorte, havia uma caneta logo ao lado. Sem perder tempo, começo a anotar detalhadamente tudo o que eu iria precisar para os próximos dias de confinamento.

- Aqui, está tudo anotado, não esqueça nada, por favor - peço, estendendo a folha arrancada para Félix.

Ele assente, pegando o papel.

- Vamos, a cozinha fica ali - Zian interrompe, saindo em direção ao cômodo vizinho.

Eu o sigo de perto, curiosa. Assim que entro na imensa e moderna cozinha, meus olhos batem diretamente em uma fruteira de inox. Vejo um abacate perfeitamente maduro na bancada da pia.

- Posso fazer uma vitamina de abacate? - peço, olhando para ele com expectativa.

Zian desvia o olhar para a fruta por um breve instante antes de cravar seus olhos escuros nos meus.

- Pode fazer o que quiser, em relação à comida. Mas para sair dessa casa, deve pedir permissão a mim - avisa, deixando as regras bem claras.

Fico genuinamente animada com a nova informação. Significa que, desde que eu permaneça dentro dos limites da mansão, eu não precisaria dar satisfações a ele a cada passo que desse. Era uma pequena vitória na minha atual falta de liberdade.

- Papai... - uma voz doce de menina ecoa, chamando a atenção.

Pai?

Meu coração dá um salto no peito e eu congelo onde estou. Ele tinha uma filha?

Antes que eu possa processar a informação, duas crianças adentram a cozinha correndo. Pelo tamanho, eles pareciam ter cerca de onze anos, quase pré-adolescentes. Olho para os dois em choque, sentindo um estalo na minha mente... o meu sonho da noite passada.

Os dois param abruptamente ao me ver ali.

Juro que tinha sonhado na noite anterior com um homem misterioso e duas crianças, agora Zian e essas duas crianças estavam ali na minha frente.

- Quem é ela? - as crianças perguntam em uníssono, olhando alternadamente entre mim e Zian.

Meu olhar curioso não passa despercebido por Zian, que toma a frente para responder às crianças.

- Dulce Maite - diz ele, de forma direta.

Aceno timidamente para os dois, tentando parecer amigável apesar das circunstâncias.

- Ela é sua namorada? - a menina pergunta, com os olhos muito abertos.

Arregalo os meus próprios olhos, assustada com a audácia da garota.

- Não! - Zian corta o assunto imediatamente. Seu tom é seco, gélido.

- Então o que ela faz aqui? - a menina insiste, sem se deixar abalar pela grosseria do pai.

Fico muda, preferindo me manter calada no meu canto enquanto observo a interação.

- Irá morar conosco por um tempo - finalmente ele solta a bomba.

No mesmo instante, os olhos da menina brilham em pura empolgação, enquanto o menino ao lado dela fecha a cara, parecendo profundamente incomodado com a novidade.

- Legal! Vou ter alguém para conversar coisas de menina. Tia, sou a Zuria - apresenta-se, cheia de energia.

Sorrio com a animação contagiante dela.

- O meu nome você já sabe, não preciso repetir. E você, rapazinho? Como se chama? - tento puxar assunto com o garoto, buscando quebrar o gelo.

- Matheus - soa vago, a voz quase morrendo no ar.

Acho que ele não era muito chegado a conversas.

Matheus. O nome combina com ele. Curto, simples e direto, exatamente como a resposta que acabou de me dar.

- Prazer em conhecer você, Matheus - digo, mantendo um sorriso acolhedor.

Ele apenas dá de ombros, desviando o olhar.

- Tanto faz.

- Math! - Zuria reclama imediatamente, cruzando os braços. - Seja educado.

- Eu fui educado.

- Não foi, não!

Os dois começam uma pequena discussão ali mesmo, na beira da bancada. Pela primeira vez desde que acordei desesperada naquele lugar estranho, me pego soltando uma risada genuína.

Zuria para de implicar com o irmão e volta toda a sua atenção para mim, os olhos faiscando de curiosidade.

- Você gosta de filmes?

- Gosto - respondo, achando graça.

- E de maquiagem?

- Um pouco.

- E de sorvete?

- Muito!

- Eu sabia! - ela comemora alto, apontando para mim como se tivesse acabado de descobrir um segredo de Estado extremamente importante.

Matheus revira os olhos, soltando um suspiro entediado.

- Você fala com todo mundo como se conhecesse a pessoa há anos.

- E você fala com todo mundo como se estivesse bravo com o mundo - Zuria rebate na hora.

- Porque o mundo é irritante.

- Você é irritante!

- Você é mais.

- Você é muito mais!

Mantenho o sorriso no rosto enquanto os dois voltam a discutir por bobeira, mas aproveito o momento para observar Zian de relance. Ele continua parado perto da bancada de inox, assistindo a tudo em absoluto silêncio. Por um breve segundo, tenho a impressão de que sua expressão rígida parece um pouco mais relaxada do que antes.

- Eles brigam assim o tempo todo? - pergunto a ele, em um tom mais baixo.

- Todos os dias - responde ele, com sua calmaria habitual.

- Mentira! - Zuria protesta, o ouvido afiado captando nossa conversa.

Zian arqueia uma sobrancelha para a filha.

- Ontem vocês discutiram por causa de um controle remoto.

- Porque ele pegou o meu! - ela se defende.

- Era nosso - Matheus corrige, sem paciência.

- Era meu!

- Nosso.

Não consigo evitar e acabo rindo novamente. Por um instante, o medo evapora e eu esqueço completamente que fui sequestrada por engano. Por um breve e ilusório instante, aquilo tudo parece apenas a rotina de uma família comum.

Até que o celular de Zian vibra em cima da bancada de pedra.

O ambiente muda imediatamente. O ar na cozinha parece congelar.

Ele abaixa o olhar para a tela e sua expressão endurece na mesma hora. Aquele vislumbre de humanidade desaparece, e o olhar frio, focado e calculista retorna no mesmo centésimo de segundo.

- O que foi? - pergunta Matheus, astuto o suficiente para perceber a mudança drástica no pai.

Zian bloqueia a tela com um clique rápido, guardando o aparelho no bolso do terno.

- Nada que interesse a vocês - diz, a voz voltando a ser um muro intransponível.

Mas ele foi lento demais. Eu vi. Por apenas um segundo, antes de a tela se apagar por completo, o nome de Érika brilhava em letras garrafais nas notificações.

Meu sorriso desaparece lentamente, os músculos do meu rosto travando enquanto dou um passo discreto para trás.

Não.

Eu devia ter visto errado.

O medo e o cansaço deviam estar pregando peças na minha mente. Mas o peso no meu estômago dizia o oposto: tinha sido Érika. Eu tinha certeza absoluta do que meus olhos recém-focados haviam lido.

Olho para Zian, que agora exibe uma postura ainda mais rígida e distante, completamente alheio ao meu choque interno. A pergunta martela na minha cabeça, ensurdecedora:

Por que o telefone de um líder criminoso estava recebendo mensagens da minha melhor amiga?

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