Envolta em segredos e perigos, Molly foi criada de uma forma rara para alguém que crescia dentro da máfia, como uma burra inerte a qualquer perigo, eu diria.
Aos 17 anos, a caçula de Caio e Matheus, assassinos profissionais a serviço do falecido Don Teodoro que era todo o problema ali, ela era um enigma para seus irmãos. Apesar de ter crescido sob a sombra do crime, ela permanecia alheia aos negócios da família, uma inocência que os preocupava profundamente.
Criada em isolamento, Molly era uma jovem de estatura mediana, adornada por longos cabelos castanhos que emolduravam seu rosto angelical. Seus olhos, ainda que carregassem a ingenuidade da juventude, escondiam uma inteligência aguçada e uma perspicácia incomum. Era como se, por trás da fachada de uma jovem inexperiente, existisse uma alma perspicaz pronta para desabrochar.
Filha da cafetina da máfia, sua mãe nutria o desejo de que ela conseguisse manter um homem bom e que a protegesse na máfia, assim como ela mesma fizera, moldando-a em uma moça bela, vaidosa e atraente, sua mãe a criou para ser uma noiva perfeita e nada alem disso, o que poderia ser considerado loucura, e era considerado, para seu pai e irmãos, mas não se opuseram a criação da cafetina Matilde, mesmo que se sentissem aflitos com a forma como ela fazia tudo parecer um mar de rosas, mas agora o que ela faria na iminente caça a sua família, onde ate Molly poderia ser morta?
Molly estava ate inerte a tudo que acontecia, ate presenciar a preparação de sua família para uma partida iminente, sem saber o que se passava por trás das portas, era uma tortura para ela. A angústia de ser mantida de fora, estava a consumindo amargamente.
- Que saco! Por que eles nunca me contam nada? - resmungava Molly ao passar por cada porta, seus olhos castanhos ardendo de curiosidade.
No andar de baixo, seu pai perambulava de um lado para o outro, a inquietude estampada em seu rosto. Molly se esgueirou até a sala, observando seus irmãos Caio e Matheus empacotando freneticamente as malas.
- O nosso pai sabe o que vai acontecer se ficarmos. Temos que ir antes que a guerra comece - sussurrou Caio, a voz carregada de receio, apesar de tentar disfarçar. Com seus 24 anos, ele era o irmão do meio e tinha um pouco mais de experiência no mundo da máfia.
- Eu sei - confirmou Matheus com indiferença, o filho mais velho e mal-humorado de 30 anos. Ambos os irmãos ainda não haviam se casado, tendo conseguido escapar dos casamentos arranjados pela família, mesmo que fossem vantajosos. - Devíamos ter nos unido a outra máfia - sugeriu ele, lançando um olhar sombrio para Caio.
- Você sabe que isso significa morte, a menos que fosse uma aliada. Mas a única aliada que tínhamos é a que vai começar a matar todos por causa da dívida bilionária de Teodoro.
- Aquele infeliz! - rosnou Caio, batendo o punho na mesa.
- Mas somos precavidos, não vamos esperar eles fecharem todos os buracos - resmungou Matheus enquanto organizava suas malas, alheio à irmã que o observava pela fresta da porta.
- Entre, irmãzinha - ele a convidou ternamente, revelando que a havia visto. Matheus, apesar de rigoroso com todos, era gentil com Madson, sua única fraqueza. Ela era seu ponto mais fraco.
Madson o encarou timidamente antes de entrar no quarto.
- Já disse para não ficar à espreita - ele a repreendeu, mas logo a envolveu em um abraço apertado que a fez reclamar de dor. Matheus era alto e forte como um soldado, e suas tatuagens escondidas sob a camisa social só aumentavam sua aura sombria. Seu rosto geralmente era mal-humorado, mas ele sempre se esforçava para sorrir para sua irmã. Caio, o irmão mais novo, não era muito diferente, apenas um pouco mais magro e com uma expressão mais gentil. Ambos adoravam Madson.
- O que está acontecendo? - perguntou Madson Molly, sentando-se na cama para ajudar a dobrar as roupas ainda empilhadas.
- Na verdade, é o que vai acontecer - corrigiu Matheus, voltando a esvaziar o guarda-roupa.
- Ei, pequeno pêssego - disse Caio, o irmão mais novo, levantando-se da poltrona e sentando-se ao lado dela na cama. Ele inclinou o rosto em seus cabelos e fungou. - Ah... Isso sim! É um cheiro incrível, vontade de morder e arrancar um pedaço - disse com seriedade, fazendo Madson levar a sério.
- Ah! Você não pode fazer isso!
- Mas o cheiro dessa fruta... A mãe tem que parar de fazer estoque desse xampu. Qualquer dia você vai ser canibalizada - ele disse segurando o riso.
- Esse é meu favorito, vocês sempre reclamam - resmungou Madson, emburrada.
- Normalmente parece uma droga; às vezes me dá ânsia de vômito e outras vezes eu sinto que pêssego é minha fruta preferida, mas eu nem como essa fruta - comentou Matheus sem os encarar.
- Uhm... eu também nunca comi pêssego. Parece ser uma fruta difícil por aqui.
- Mas, em compensação, você cheira da cabeça aos pés - completou Matheus, enquanto continuava segurando a ponta dos cabelos da irmã sobre o nariz.
- A mãe te dá um monte desses cremes. Pode contrabandear uns para mim? - perguntou Caio.
- São para meninas.
- Eu sei, se eu ganhar uns desses, com certeza pensarei para qual garota eu posso dar. Quem sabe a minha futura esposa. - Caio comentou pensativo, como se já tivesse alguém em mente.
- Apenas compre alguns diferentes. Imagina ter uma esposa com o cheiro da sua irmã, parece assustador. - confessou ela sentindo calafrios.
- Verdade, talvez eu encomende um tão bom no mesmo lugar que a mãe encomendou os seus. - Caio comentou, e Matheus o encarou de soslaio, desaprovando. Ele sabia que os produtos que Molly usava não eram por acaso, e ele até mesmo queria jogar tudo fora.
- Sabemos que não tem aqui no Brasil. Desde que você disse gostar deles, nossa cafetina sempre compra em caixas para você, perfumes e cremes com esse cheiro.
- verdade o fornecedor disso é tão misterioso, com certeza seria um bom presente para alguém que eu quisesse me casar?
- Está apaixonado, irmãozinho? - perguntou Matheus com a voz arrastada e cautelosa, apertando o ombro de Caio, o fazendo se contorcer de dor como se tivesse falado algo errado.
- Não...! - urrou Caio, puxando a grande mão do irmão do seu ombro como se fosse um gancho. - Não estou pensando nisso agora... Me solta! - ele tentou se soltar ao sentir aquele aperto machucar seu músculo.
- Theus! Solta! - pediu Molly, também tentando tirar a mão de Matheus, ajudando seu irmão. Mas os dois não tinham força para aquele homem de dois metros e intimidador.
- Ok... Mas casamento é um assunto proibido aqui - concluiu Matheus , obedecendo ao pedido da irmã.
- Aconteceu! - gritou seu pai, irrompendo no quarto. Os irmãos se silenciaram. - Todas as contas foram bloqueadas; a máfia sul está começando a caçar nossas cabeças - avisou ele, trêmulo, tentando manter a calma.
- Já está tudo pronto, vamos apenas sair - anunciou Matheus sem demonstrar emoção, pegando seu fuzil em cima do guarda-roupa e entregando um também ao irmão. - Chame os empregados para descer com as malas. Sairemos no carro forte até o subsolo; se bloquearam as contas, não temos como sair da cidade.
- Matheus! Não temos como sair da cidade; eles já fecharam tudo. Não sei quantos dias vamos conseguir ficar escondidos. Eu serei um dos primeiros a ser caçado por ser braço direito de Teodoro.
- Afinal, é só a máfia sul que está começando uma guerra? - perguntou ele pensativo, enquanto Caio e Madson Molly apenas prestavam atenção em silêncio. Lincoln, pai de dos três presentes, era sottocapo de Teodoro e, portanto, sucessor, mas devido à dívida do capo, a máfia sul estava cobrando com a vida de todos de sua organização.
- Sim, foi o que informaram.
- Então a máfia da cidade leste não vai se unir a eles, certo?
- Você sabe que não, afinal tem algo que ele tem bastante interesse em nossa família... - interrompeu ele a fala, engolindo em seco ao encarar Molly. Ela estava próxima demais e não poderia saber o motivo da máfia leste não atacar, que tinha a ver exatamente com ela.
- Então, devido à aliança que iria ser formada, ele decidiu não se envolver? Interessante. - murmurou Matheus, engolindo em seco sem entrar muito no assunto.
- Ainda assim, ele não vai nos proteger, porque a aliança não foi formada. A máfia leste é a mais influente em todas as organizações. Se tivéssemos o selo de trânsito livre da família Seagreme que eles carregam livremente, poderíamos apenas apresentá-lo e ser livres desse lugar - resmungou seu pai.
- O selo de trânsito livre?
- Sim! O selo que é feito com o anel do brasão da família Seagreme, os que comandam toda a cidade e podem ir de um lugar a outro, concedendo esse privilégio a todos que confiam.
- Aquele maníaco que está prestes a se tornar capo da máfia? O mesmo que você entregaria a nossa... - Matheus se calou novamente com cautela, mas Molly já estava curiosa.
- Vamos pensar sobre isso e entrar em contato, se...
- Não! - Matheus interrompeu Lincoln, nenhum dos irmãos concordava com a decisão do pai.
- Mas se a entregarmos, ele nos daria o selo e poderíamos sair! - retrucou seu pai desesperado.
- Ela não é objeto de troca, nosso trato é um e você vai cumprir até o fim.
- Pai, nós não vamos aceitar fazer isso. Então, é bom que lute! - asseverou Caio entregando um fuzil a seu pai, batendo contra seu peito. Madson não entendia o que estava acontecendo. Por um momento, ela encarou aqueles três homens fortemente armados, ao mesmo tempo em que eles a encaravam sérios. Ela mal imaginava o que poderia ser, mas ficou pensativa sobre o selo de trânsito.
Filha, minha pequena flor, pode sair, por favor? Espere lá fora. - Pediu seu pai gentilmente. A expressão de Madson escureceu como se desconfiasse ter algo a ver com ela. Sem debater, ela saiu e seguiu até o quarto da sua mãe, mantendo-se desinteressada em relação ao assunto dos homens.
- Você não vai entregá-la, nenhum de nós dois se casou e você só pode fazer isso quando um de nós se casar. - o relembrou Matheus com um ar seguro.
- Vocês estão fazendo de propósito! - Bradou seu pai esmurrando a porta do quarto limitado.
- Vamos apenas seguir o plano, se sairmos agora, não vamos ter que confrontar ninguém.
- Vocês podem ir! - ouviu a voz feminina em seguida. Matilde abriu a porta, entrou no quarto e trouxe Madson pela mão.
- Não me diga que você ainda vai trabalhar de cafetina? - perguntou Matheus descrente.
- Óbvio que vou! Minha conta foi a única que não foi bloqueada. Se não repararam, tenho que carregar três marmanjos nas costas e minha princesa, que por sinal também não teve sua conta bloqueada. - Comentou Matilde orgulhosamente.
- Você vai continuar levando ela com você para aquele lugar impuro?
- A única coisa que acontece ali é a designação das garotas. Nenhum homem entra ali a não ser os da segurança. E hoje tenho que arrumar cinco garotas para lugares diferentes. Preciso do dinheiro já que vamos sair do país.
Matilde, famosa cafetina no mundo da máfia, porém com uma vida familiar estritamente secreta. Todos sabem apenas que ela tem uma filha, já que seus filhos Matheus e Caio vivem sob constante vigilância.
- Deixe Madson em casa! - ordenou Matheus.
- Óbvio que não! E eu sou sua mãe, não se atreva a mandar em mim. Não me faça vender você para a máfia das Amazonas.
- Aqueles demônios nunca terão minha pele como tapete!
- Como se fosse isso que elas quisessem do ogro garanhão! Matilde soltou uma gargalhada, irritando-o ainda mais.
- Theus! Gritou Molly. - Eu vou com a mãe. Eu sempre fui e ajudei nas finanças e com o pagamento das garotas. A maioria nem sabe que somos dessa família de loucos. - sugeriu ela com firmeza, inflando o peito.
- Se eles soubessem, com certeza temeriam. Vão embora antes que eu desista. - Findou Matilde, voltando a pegar os cartuchos.
- Acha mesmo que é seguro elas saírem nessa situação? - perguntou Matheus.
- Bom, se você tiver dinheiro debaixo do colchão, posso chamar as duas. - sugeriu Caio com indiferença. Seu irmão apenas silenciou.
- Vamos descer primeiro ao submundo, elas sabem onde é, podem nos encontrar lá, depois - avisou o Lincoln.
Os homens seguiram para a garagem, onde um galpão secreto guardava a entrada para um mundo subterrâneo. Lá dentro, uma casa cuidadosamente planejada oferecia refúgio e segurança, vigiada por câmeras em todos os cantos.
Madson Molly e Matilde seguiram em direção ao bordel. Matilde, apesar de não fazer parte do ramo, era bastante respeitada pelas meninas. Ela havia decidido entrar no negócio apenas para cuidar delas, pois o antigo dono as submetia a condições precárias.
- Olá senhora Matilde - A cumprimentou Lisaura, uma das prostitutas mais velhas no ramo.
- Olá, daqui a pouco Madson desce com os pagamentos e os endereços de onde vocês devem ir hoje. - avisou Matilde de forma superficial e meticulosa.
- Sim, senhora - Confirmou Lisaura, dando uma piscadela para Molly que retribuiu silenciosamente. Ela e Lisaura haviam se tornado amigas, mesmo que sua mãe tivesse proibido.
- Já te disse que você não pode fazer amizade com as garotas daqui, uma garota como você não seria bem vista - repreendeu a sua mãe após elas se afastarem de Lisaura.
- Não me importo - retrucou Molly. - alem disso se fosse mesmo algo importante para você, você não estaria cuidando delas, não me preocupo.
- Mas deveria - insistiu a mãe. - Um dia vai querer casar, isso não vai acontecer se tiver dezenas de amigas prostitutas.
- Mas você é casada com o papai - argumentou Molly.
- E eu era uma assassina da máfia como ele, confesso que nunca quereria isso para você.
- Por tanto que eu fique longe de casamento, com certeza não ligo de ficar nesse meio.
- Deixe de falar besteira, está ficando sem cérebro?
- Mãe... - resmungou Madson, ficando em silêncio.
- Bom entregue esses envelopes às respectivas garotas. São cinco designadas, todas aqui em cima. Não se atreva a descer ao bordel.
- Sim, senhora! - Confirmou Madson, animada, saindo correndo e passando entre os quartos. Cada quarto era ocupado por duas garotas que dividiam o espaço. Madson podia ouvir as comemorações com os pagamentos assim que fechava a porta.
- Lisaura... - cantarolou seu nome, animada para entregar o envelope e o endereço a ela e sua amiga Eloah que é uma colega de quarto, cada quarto abrigava no Maximo duas mulheres.
- Molly - Lisaura a respondeu gentilmente.
- Estava com saudades de conversar com você! - falou Madson, entrando sem pedir licença. Era a primeira vez que ela entrava no quarto de Lisaura, que era dividido em dois espaços: a cama de Lisaura de um lado e o espaço da amiga do outro. - Uau! - Suspirou Madson com olhar sapeca e dedos curiosos, mas Lisaura a impediu.
- Não mexa em nada, sua mãe me mataria!
- Onde está a sua amiga? - perguntou Madson, entregando um dos pacotes de envelopes a Lisaura.
- Ela... Bom... Dê-me o envelope dela, está bem? - respondeu Lisaura nervosa, tentando pegar o envelope, mas Molly o retirou da sua vista. - Ah!... Sua moleca, apenas me dê! Eu e Eloah somos melhores amigas!
- O que aconteceu? - perguntou Molly, sendo direta.
- Do que você está falando?
- Das outras três vezes você quem pegou o envelope da sua amiga, você pega os endereços e os pagamentos dela já faz algum tempo. O que está acontecendo?
- Nossa você é muito observadora... - esbaforiu Lisaura, coçando a cabeça ao sorrir sem graça. - Você vai me dar o envelope e o endereço? - tentou negociar sem explicar.
- Só se me contar. Caso contrário, eu digo a minha mãe que ela não está vindo mais e então os pagamentos param e você também perde os pedidos.
- Como não? Sua mãe recebe os pagamentos dela, cada encontro está sendo cumprida, então ela só está recebendo o justo pelo seu trabalho.
- Eu sei! Mas... É você que pega as designações, e se elas não chegarem não tem trabalho.
- O que quer dizer?
- que você anda fazendo o trabalho duplo aqui, onde está a sua amiga? - perguntou ela analisando a parte reservada do quarto que pertence a Eloah, percebendo também um cabide com algumas perucas e pares de óculos;.
- Então... Se eu te contar, você promete que não vai contar para sua mãe? - Perguntou receosa se sentando na cama de Eloah, ao lado de Molly.
- Ok! Quero saber o que esta acontecendo, prometo não contar a ninguém.
- Então... Na verdade, faz dois meses que Eloah não vem para o trabalho - Contou com nervosismo sem conseguir encarar Molly.
- Você não contou a minha mãe?
- Não posso, ela precisa do dinheiro...
- Mas é só vir trabalhar.
- Não é tão fácil, a história é a seguinte... Eloah estava feliz que arrumou um namorado. Pensava ele ser bom e gentil, então deixou a vida de acompanhante de luxo.
- Então ela tem ajuda do namorado, você não precisa se sacrificar.
- Somos melhores amigas, e ela precisa - contou Lisaura, desviando o olhar com vergonha de contar.
- Como pode, e o namorado dela?
- Ele é soropositivo... Já sabe o que aconteceu, não é?
- Isso é triste...
- Ela se contaminou. Não tem como ela trabalhar desse jeito, mas o pior é que a doença evolui mais rápido nela e ela está internada fazendo tratamento. Então eu faço o seu serviço e te dou o dinheiro... - contou Lisaura segurando as lágrimas enquanto Madson ficou de queixo caído.
- Então ela está morrendo?
- Sim! Não conte a sua mãe, por favor... - implorou Lisaura desesperada. - Eu preciso desse dinheiro.
- Não vou contar. Aqui está o endereço para onde sua amiga iria. - avisou Molly lhe entregando o envelope e o papel. Assim que Lisaura leu o endereço, assim que leu ficou evidente que não era algo que lhe agradava, Molly não conseguiu ignorar, o mesmo tempo que tentava ler curiosa, as anotações a mão.
- O que há de errado? - perguntou arrebatando o papel sem aviso prévio.
- Esqueci que a cada três meses esse homem... Nossa, eu ainda não fui a esse encontro... - naquele momento parece que o mundo de Lisaura desabou, ma conseguiu completar o que queria falar.
- Esse é... - hesitou Molly tentando ler o nome.
- O Lobo Farejador, o mais temido assassino de máscara, entre outros apelidos para cada situação diferente. - explicou Lisaura, pensativa, assim como Molly.
"Então... Uma das prostitutas escolhida por ele é daqui", pensou Molly ao se lembrar do que seus irmãos estavam conversando.
- Mas, por que você está com medo?
- Porque só Eloah se deita com esse homem. - contou Lisaura, petrificada.
- Então é só você se disfarçar dela - comentou Molly, pegando a peruca e colocando na cabeça. Ela encenou passos de modelo e rodopiou como se a situação fosse simples.
- Não é tão fácil, esse homem é um pouco peculiar, como se já não fosse suficiente ser um mafioso perigoso. - resmungou ela.
- Espera! Esse homem é o mesmo que tem o anel... Aquele...
- Selo de tráfego - contou indiferente. - Eloah falava muito sobre esse anel, já que ela havia ganhado o selo dele, só assim ela consegue entrar lá e sair e ir a lugares privilegiados que as maiorias das prostitutas não podem entrar.
- E onde está? - perguntou ansiosa.
- Na gaveta dela, está tudo aqui, ela disse que eu precisaria se algum dia eu fosse ao encontro desse homem.
- Posso ver? - perguntou Molly com curiosidade, mas Lisaura apenas apontou para a penteadeira, indicando a gaveta. Molly correu até a gaveta e pegou uma pequena caixa de madeira, a única ali. Ao abri-la, viu uma espécie de embrulho feito com um tecido super delicado. Quando o desdobrou com cuidado, viu o pequeno objeto de metal com a marca do brasão cravado.
- É tão precioso assim? - Perguntou Molly, deslumbrada.
- Sim, normalmente no mundo da máfia isso te torna intocável, mas apenas o Dono pode usar esse objeto que é encomendado pelo portador do anel, tipo... Aqui só quem pode usar é Eloah.
- Por quê?
- Porque Eloah é a "Favorita do Dono". Ela tem a sua confiança e proteção.
- Atrás tem cravado o nome da pessoa e da família, ele é válido somente para Eloah
Molly ficou desapontada, já que não serviria para sua família.
"Então eu realmente precisaria do anel" pensou Madson enquanto sua cabeça enchia de pensamentos obscuros.
- E o anel? Qualquer pessoa pode usar o anel para ir e vir? - Existem três desses anéis, são jóias de família compartilhadas entre o pai e seus dois filhos. Normalmente, se alguém mais possui um, é provável que seja um membro da família. Não tenho certeza se esse homem em particular é um membro da família, mas sei que o próprio Don lhe concedeu esse privilégio como recompensa por seus serviços.
- Então, mesmo se uma pessoa estiver marcada para morrer, se ela possuir um desses anéis, ela estará salva?
- Sim, a máfia da cidade leste firmou uma aliança com todas as outras organizações. Sendo a mais poderosa, ela não se envolve nos conflitos entre elas. Portanto, esse homem que possui o anel é o futuro líder da máfia e pode conceder a marca do selo a qualquer uma das organizações aliadas.
- Entendo... Mas qual é a peculiaridade desse lobo farejador... ou como eles têm costume de chamar?
- Eloah o chama assim porque ele identifica as pessoas pelo cheiro. No entanto, ela faz questão de usar um perfume diferente a cada encontro, na esperança de que ele não a rejeite. Parece que nenhum perfume consegue agradá-lo.
- Por que você está tão interessada nesse homem? -perguntou Lisaura desconfiada.
- Estou apenas curiosa.
- Isso tem a ver com o anel? Eu sei o que está acontecendo com a sua família.
- Estou pensando em mandar alguém roubar esse anel - Ela contou de forma abrupta, sem rodeios.
- Você está louca? Quem quer que seja, morreria. Você teria coragem de fazer isso? - asseverou Lisaura cética quase caindo para trás.
- Não... Acho que estou pensando demais. - Molly se corrigiu mordendo os lábios e desviando o olhar, constrangida.
- Além disso, tenho uma semana para me preparar para esse homem.
- Por quê?
- Vou te contar... - suspirou Lisaura sem resistir ao olhar curioso de Molly.
- Madson Molly! - Sua mãe gritou, quase derrubando a porta, entrando em pânico como se algo sério estivesse acontecendo.
Molly pulou da cama, jogando todas as coisas suspeitas longe, sem que sua mãe percebesse.
- Mãe, aconteceu algo? - perguntou assim que sua mãe entrou visivelmente nervosa.
- Já entregou todas as encomendas? - perguntou Matilde, demonstrando preocupação.
- Já.
- Vamos embora! - anunciou ela, puxando-a apressada como se estivesse fugindo.
Madson não tinha idéia do que estava acontecendo. Seguiram para o carro e saíram em alta velocidade. Sua mãe sempre mantinha os olhos na estrada pelo espelho retrovisor, certificando-se de que ninguém as seguia. Madson apenas se encolheu no banco, amedrontada, sem perguntar mais nada.
- Parece que alguém nos seguiu. - sugeriu Molly, assustada.
- Que droga! - bradou Matilde ao ver uma moto atrás delas. - Aqui! - jogou o telefone no colo de Molly. - Ligue para Matheus, agora!
Madson fez sem questionar. Em seguida, recebeu um pedaço de tecido lançado em seu rosto.
- São os homens que querem matar nossa família? - perguntou ela, assustada, enquanto fazia a ligação.
- Cubra seu rosto e não deixe eles te verem - ordenou sua mãe quando mais três motoqueiros se aproximaram do carro. Então, pisou fundo no acelerador. Apesar de seu carro morder, as motos também eram velozes.
/ Estão nos seguindo? - perguntou Matheus sem delongas assim que atendeu, como se já soubesse que isso aconteceria.
- Sim! Tem vários motoqueiros. - respondeu Molly.
Matheus sorriu entre os dentes, com o rifle de precisão posicionado.
- Estamos a poucos minutos de distância! - Gritou Matilde do banco da frente, desesperada.
Assim que ela cruzou a rua com os três motoqueiros, Matheus conseguiu vê-los. Ele apenas esperou a posição certa e derrubou um deles facilmente, enquanto os outros dois ficaram confusos, mas continuaram a seguir. No entanto, quando o segundo caiu, o terceiro tentou fugir.
- Amadores! - Suspirou Matheus ao derrubar o terceiro.
Elas puderam seguir para o local secreto. Matheus também fugiu dali de moto, seguindo o carro de sua mãe, já que ainda estavam a dez quilômetros de distância do esconderijo.
Assim que chegaram, foram recebidas por Lincoln, que já estava ciente de tudo o que tinha acontecido.
- Matheus avisou para vocês não se arriscarem! - Bradou Lincoln enquanto a esperavam na frente do galpão, após passarem pelo portão.
- Não esperava que eles me reconheceriam. - lamentou Matilde
- E Molly? - Perguntou preocupado, ao encarar a garota com o rosto ainda coberto.
- Ninguém a viu. No mínimo, pensam que é só uma das garotas que trabalha lá. - Avisou ela, puxando-a para o subsolo, contudo Matheus ainda não havia chegado ali, estava averiguando se ninguém mais a seguiu, além de averiguar se não tinha rastreador no carro.
Não demorou muito para Matheus chegar de moto, então seguiram juntos para a área secreta subterrânea, onde foi construído como se fosse uma casa, com três quartos, uma sala, cozinha e banheiros.
- O que aconteceu realmente? - Perguntou Lincoln, impaciente, enquanto todos se reuniam na sala.
- Descobri que minha conta foi bloqueada hoje - contou ela, com o olhar perdido ao mesmo tempo em que Matheus vai ao encontro deles, também ouvindo a conversa.
- Ah! - fez Matheus, fingindo surpresa, batendo palmas. - Você trabalha há anos ilegalmente naquele lugar. Pensa que a máfia não iria investigar sobre você? Mãe! Você é tão ingênua. Nem consigo acreditar que foi você que me ensinou o que sei hoje - resmungou indignado.
- Porque a senhora também não me ensinou a ser uma? - protestou Molly repentinamente, puxando o pano que cobria seu rosto, revelando um olhar enfurecido.
- Fique calada! - As vozes se uniram em um único som contra ela, que se sentou aborrecida no sofá.
- Bom, qual é a nossa situação agora?
- A única que ainda tem dinheiro é a Madson Molly. - Todos os olhares se direcionaram a ela.
- Eu? Eu nem sequer sabia ter conta bancária.
- Mas tem, para sua faculdade e seu futuro caso não prestasse para nada, porque vamos ser sinceros, sua mãe criou você ingênua demais.
- Vocês me tiraram da escola quando tinha 14 anos! Do que estão falando? Nada disso é culpa minha! - resmungou ela, indiferente, com as pernas suspensas no braço da poltrona.
- Olha essa garota! - resmungou Matheus. - A única que está livre da caçada nessa floresta de pedra e ainda tão sem modos! - asseverou, furioso, dando um tapa na ponta do pé dela, a fazendo se endireitar na poltrona.
- Mas voltando ao assunto, ainda temos dinheiro, porém ficou no meu escritório. Alguém precisa voltar e pegar aquela mala. - Começou Matilde. - Tem uma parte secreta embaixo da mesa, com certeza eles reviraram tudo por lá, mas não conseguiram encontrar a mala, ninguém, além de mim, sabe daquele lugar.
- Precisamos desse dinheiro para fugir. - resmungou Caio.
- É tanto dinheiro assim? - perguntou Matheus.
- 150 mil. - respondeu Matilde.
- É um valor simbólico. Ele pode nos manter por alguns meses em outro país. - comentou Matheus com indiferença.
- Mas esse valor é o que tem na maleta. Molly, em sua conta bancária, tem mais de 990 mil.
- Como pode ter tanto dinheiro assim? Ela nem trabalhou para ganhar isso! - asseverou Caio.
- Mas eu nem sabia ter dinheiro! Eu não tenho nem 10 reais agora! - resmungou Molly irritada, levantando-se e os deixando sozinhos, mas ao sair apenas se manteve ali, já que eles ficavam sempre receosos quando ela estava perto e nunca conversavam sobre a real situação da família.
- Agora que ela saiu, diga qual é a real situação. - perguntou Lincoln a Matheus.
- Já cercaram a cidade. Não vamos poder sair, e esse esconderijo não será secreto para sempre. - contou ele, sem perceber que Molly estava a alguns metros, escutando tudo.
- Alguns assassinos de Teodoro foram recrutados, outros estão na cova. Todos os corpos estão sendo triturados e jogados para os cachorros. Ninguém nunca vai saber o que está acontecendo.
- Não há uma saída segura?
- Você sabe que a nossa única saída é aquele selo. - comentou ela, indiferente, sentando-se na poltrona que outrora pertencia à irmã.
- Não temos como negociar com o capo. - Lincoln retrucou, incomodado.
- Não! É uma idéia inaceitável. Vocês não a venderão por um selo!
- O único com idéias loucas aqui é o Lincoln. Não vamos tratá-la como uma daquelas garotas. Você sabe muito bem qual pode ser o futuro dela se for desaprovada. O casamento não vai durar, e ela se tornará como as meninas que eu cuido. A maioria era casada com um desses crápulas, que as abandonaram sem destino, recusadas até pela própria família.
- A mãe tem razão. Se a mulher não for como ela, é óbvio que não tem vez no nosso mundo. - Matheus concordou indiferente.
- E ela, por mais que seja inteligente e atraente isso não vai significar muito já que a criação da cafetina Dona Matilde a tornou uma criança rebelde e um pouco inútil. - comentou Caio. - Então, vamos ter que protegê-la até o último fio da espada! - anunciou ele, e tanto Matheus quanto sua mãe concordaram com fervor, exceto Lincoln, que ainda estava com o pé atrás.
- Três contra um é inquestionável. Você não pode fazer nada, pai. - Matheus sugeriu, com orgulho.
- Eu ainda sou o sottocapo! - rosnou furioso.
- Nós te respeitamos como tal, mas a nossa garota não vai parar nas mãos de nenhum assassino! - Caio anunciou com veemência.
- Não me façam sentir como se eu não amasse minha filha, mas já pensaram que é apenas um jeito de salvar pelo menos ela? Eu estou no topo da lista dos caçados, além de que você, Matheus, está do meu lado. Sua cabeça está sempre a prêmio, e sua reputação só aumenta por causa de todas as figuras públicas e importantes que você matou para Teodoro subir ao poder. - Lincoln suspirou, resignado.
- Não me orgulho disso, mas eu não vou morrer por causa disso. E ainda vamos proteger a todo custo nossa irmã.
"Mesmo prestes a morrer, ainda pensam em me proteger", Molly ponderou, forçando a mente a se recordar. "No dia que me tiraram da escola, eu havia ouvido um homem... Eu tinha visto ele conversando com meus pais no escritório, eu só conseguia ver seu braço todo tatuado, mas até onde eu sei, pode ser qualquer pessoa, porque até Matheus tem tatuagem por todos os lados mesmo que ele tente esconder de mim." A lembrança a fez voltar rapidamente para a sala.
- Eu tive uma idéia! - Gritou Molly invadindo de forma abrupta, chamando a atenção dos quatro. - Eu posso ir até ao prédio e pegar o dinheiro.
- Estava ouvindo atrás da porta de novo! - asseverou seu pai a puxando pela orelha.
- Ai... Como eu dizia, eu vou até lá e trago o dinheiro.
- Você não vai sozinha naquele lugar! - Lincoln protestou.
- Mas eles não me conhecem. Além disso, eles podem pensar que sou funcionária de lá.
- E esse é o problema! - Matheus retrucou, indo a sua direção.