Sete anos.
Sete anos de namoro, de planos, de sonhos construídos, tudo culminava naquela noite perfeita, no bistrô charmoso que Patrícia tanto amava.
Eu a esperava, com o coração transbordando, pronto para o "sim" que selaria nosso noivado, rodeado por amigos que vieram celebrar nosso amor.
Então, a foto.
Em um piscar de olhos, a imagem dela sorrindo ao lado de outro, em um apartamento vazio, caixas de mudança espalhadas, um mundo desabou sobre mim.
"Ajudando o amigo Tiago na casa nova! Que comece a nova fase! 💪"
A legenda zombava da minha dor enquanto eu, sozinho, era humilhado diante de todos.
Meu estômago gelou, a bile subiu à garganta.
Ela não estava atrasada; ela não viria.
Ela me trocou por caixas.
A humilhação era um soco, a confusão um nó na garganta.
Como ela pôde?
Como pude ser tão cego?
A dor da traição.
O choque da indiferença dela quando, ao chegar em casa, eu a confrontei.
"Eu esqueci completamente! A gente pode fazer outra festa, não tem problema!"
Era só uma festa para ela, mas para mim, era o fim de tudo.
"Saiam da minha casa. Agora."
Com um anel de noivado jogado no bueiro e a alma em frangalhos, fechei aquela porta para sempre.
Acertei as malas, comprei a passagem para a Europa.
Decidi que era hora de virar a página e construir minha nova fase, longe de tudo que me destruiu.
Longe dela.
O restaurante que Miguel escolheu com tanto cuidado estava impecável.
Toalhas de mesa brancas, taças de cristal brilhando sob a luz suave e um aroma delicioso de comida flutuando no ar. Ele tinha reservado o lugar inteiro, um pequeno bistrô charmoso que Patrícia sempre disse que adorava, para celebrar o noivado deles. Sete anos de namoro. Parecia uma vida inteira, e ele estava pronto para o próximo passo.
Seus amigos começaram a chegar, um por um, cada um com um sorriso, um abraço apertado e uma garrafa de vinho na mão.
"E aí, Miguel! Parabéns, cara!"
"Cadê a noiva? Escondendo o anel?"
Miguel sorria, cumprimentava a todos, mas seus olhos não paravam de mirar a porta. Ele olhou o relógio. Sete e meia. A festa estava marcada para as sete.
"Ela deve estar se arrumando, sabe como é," ele respondeu, tentando manter a voz firme.
Ele pegou o celular e ligou para ela. A chamada foi direto para a caixa postal. Ele franziu a testa. Estranho. Patrícia nunca desligava o celular. Ele tentou de novo. Caixa postal.
Uma hora se passou. A comida começou a ser servida, as conversas ficaram mais altas, mas a cadeira ao lado de Miguel continuava vazia. A ansiedade começou a apertar seu peito. Seus amigos percebiam, lançando olhares preocupados em sua direção.
"Ela não atende?", perguntou Léo, seu melhor amigo, em voz baixa.
Miguel balançou a cabeça.
"Isso não é do feitio dela."
Foi então que a namorada de Léo, Carla, que estava mexendo no celular, fez uma cara estranha. Ela se inclinou e mostrou a tela para Léo, que arregalou os olhos.
"O que foi?", Miguel perguntou, o estômago gelando.
Léo hesitou, depois virou o celular para ele.
Era uma foto no Instagram. De Patrícia. Ela estava sorrindo, ao lado de um cara que Miguel reconheceu vagamente. Tiago, um colega da faculdade dela. Eles estavam em um apartamento vazio, caixas de mudança espalhadas pelo chão. A legenda da foto, postada por Patrícia há menos de trinta minutos, dizia: "Ajudando o amigo Tiago na casa nova! Que comece a nova fase! 💪"
Miguel sentiu o ar faltar. Ele olhou para a mesa cheia, para os amigos que vieram celebrar seu amor, para a cadeira vazia ao seu lado. A humilhação foi como um soco no estômago. Ela não estava atrasada. Ela nem sequer estava vindo. Ela o tinha trocado para ajudar um "amigo" a se mudar.
Ele se levantou devagar. A sala ficou em silêncio. Todos os olhos estavam nele.
"Pessoal," ele disse, a voz surpreendentemente calma. "Obrigado por terem vindo. Comam, bebam, aproveitem. A conta já está paga. Eu... eu preciso ir."
Ele não esperou por respostas. Saiu do restaurante, deixando para trás os olhares de pena e a festa que deveria ser a mais feliz de sua vida. Na rua, o ar frio da noite bateu em seu rosto. Ele enfiou a mão no bolso e sentiu a pequena caixa de veludo. O anel. Ele o tirou, olhou para o diamante que tinha economizado meses para comprar e, com um movimento rápido e furioso, o jogou no bueiro mais próximo. O som minúsculo do metal batendo na grade foi o som do fim.
Ele caminhou sem rumo pelas ruas, o celular vibrando no bolso sem parar. Eram chamadas dela. Patrícia. Ele ignorou. Quando finalmente chegou em casa, o apartamento parecia frio e vazio. Ele se sentou no sofá, no escuro, e só então a raiva deu lugar a uma dor profunda e oca.
Finalmente, a porta se abriu. Patrícia entrou, sorrindo, como se nada tivesse acontecido.
"Oi, amor! Desculpa a demora, o Tiago precisava muito de ajuda com a mudança, coitado, ele não conhece ninguém na cidade."
Ela parou ao ver a expressão dele.
"O que foi? Aconteceu alguma coisa na festa?"
Miguel a encarou, a voz saindo baixa e cortante.
"Você tem noção do que fez hoje, Patrícia?"
Ela franziu a testa, confusa.
"Do que você está falando? Eu só ajudei um amigo. Você está com ciúmes do Tiago? Não seja ridículo, Miguel."
Sua falta de compreensão era mais dolorosa do que a própria ausência. Ela não via. Ela simplesmente não entendia a gravidade de sua escolha.
"Eu anunciei nosso noivado hoje, Patrícia. Para todos os nossos amigos. E você não estava lá."
"Ah, meu Deus! Eu esqueci completamente! Com a correria da mudança dele... a gente pode fazer outra festa, não tem problema!"
Era isso. Para ela, era apenas uma festa que poderia ser remarcada. Para ele, era o fim de tudo.
Nesse momento, o celular dela tocou. Ela olhou para a tela e um sorriso apareceu em seu rosto.
"É o Tiago. Ele está lá embaixo, acho que esqueceu a chave reserva que eu tinha."
Ela atendeu, a voz cheia de preocupação.
"Oi, Tiago! Já estou descendo! Fica aí!"
Ela desligou e se virou para Miguel, já indo em direção à porta.
"Eu volto já, tá?"
E então, Tiago apareceu na porta, que Patrícia havia deixado entreaberta. Ele tinha um sorriso arrogante no rosto.
"E aí, cara. A Patrícia me disse que você deu uma festa. Foi mal por ter 'roubado' a estrela da noite. Mas a ajuda dela foi essencial."
A provocação era clara, o tom de posse em suas palavras era inconfundível. Patrícia, ao lado dele, não disse nada. Apenas olhou para Miguel, esperando que ele "entendesse".
Miguel respirou fundo. A dor tinha se transformado em um gelo cortante. Ele não ia gritar. Ele não ia fazer uma cena.
"Saiam da minha casa," ele disse, com uma calma que assustou até a si mesmo. "Agora."
"Miguel, o que é isso? Não fala assim com o Tiago!", Patrícia reagiu imediatamente, colocando-se ligeiramente à frente de Tiago, como se o estivesse protegendo. "Ele não fez nada de mal. Você está exagerando."
A defesa dela foi a última pá de cal. Miguel olhou para ela, depois para Tiago, que mantinha o mesmo sorriso presunçoso, e sentiu algo se quebrar dentro de si de forma definitiva. Não era só a ausência na festa. Era a escolha clara que ela fazia, ali, na frente dele.
"Eu não estou exagerando, Patrícia. Eu estou terminando," ele disse, cada palavra pesando uma tonelada.
Tiago riu, um som baixo e debochado.
"Calma, campeão. Não precisa de tanto drama por causa de uma festinha."
Miguel nem se deu ao trabalho de olhar para ele. Seus olhos estavam fixos em Patrícia. Ela o encarava, chocada, como se ele tivesse falado em outra língua.
"Terminando? Você está terminando comigo por causa disso? Depois de sete anos? Você é um egoísta, Miguel!"
Foi a vez de Miguel rir, mas sua risada não tinha humor. Era um som seco, amargo.
"Egoísta? Eu sou o egoísta? Certo." Ele fez um gesto em direção à porta. "Vão embora. Os dois."
Patrícia o fuzilou com o olhar, pegou na mão de Tiago e o puxou para fora.
"Vamos, Tiago. Ele não está bem da cabeça. Amanhã, quando ele se acalmar, a gente conversa."
Miguel observou os dois descerem o corredor juntos, a figura dela se afastando ao lado da dele. A porta do elevador se fechou, e o silêncio que ficou para trás foi absoluto e ensurdecedor. Ele fechou a porta do apartamento, trancou-a e se encostou nela, finalmente deixando o corpo ceder.
Naquela mesma noite, ele não dormiu. Abriu o notebook e olhou para o e-mail que estava em sua caixa de entrada há semanas. Uma oferta de emprego. Não era qualquer oferta. Era da "Nexus Games", uma das maiores desenvolvedoras de jogos do mundo, com sede na Europa. Um sonho que ele tinha engavetado por causa de Patrícia, porque ela não queria sair do país, longe da família e dos amigos.
Ele clicou em "Responder" e digitou com os dedos trêmulos: "Eu aceito a oferta. Quando posso começar?".
No dia seguinte, o celular dele não parou. Mensagens de Patrícia. Ligações. Ele ignorou tudo. Começou a arrumar suas coisas, uma sensação estranha de liberdade e pânico se misturando dentro dele.
A campainha tocou incessantemente. Ele sabia que era ela. Por fim, ele abriu a porta.
Patrícia estava ali, com os olhos vermelhos de choro.
"Miguel, me desculpa. Eu fui uma idiota. Eu não pensei. Por favor, vamos conversar. Sete anos, a gente não pode jogar tudo fora assim."
"Já jogamos, Patrícia. Ontem."
"Não, não jogamos! Eu te amo! Foi só um erro estúpido!"
Ele balançou a cabeça. "Não foi um erro. Foi uma escolha. E você continua fazendo."
Ele comprou a passagem de avião para a semana seguinte. A resposta da Nexus Games foi imediata e entusiasmada. Seu orientador da faculdade, que tinha feito a ponte para a vaga, ligou para parabenizá-lo.
"Fico feliz que você finalmente tenha aceitado, Miguel. É uma oportunidade que você merece. Eu sabia que adiar aquilo por um relacionamento era um erro."
A semana passou voando, entre resolver burocracias e se despedir dos amigos. Ele evitou Patrícia a todo custo, mas na véspera da viagem, ela conseguiu interceptá-lo na portaria do prédio.
Ela não estava sozinha. Tiago estava com ela, parecendo desconfortável.
"Miguel, eu preciso do seu notebook antigo," ela disse, a voz tensa. "Aquele que você me deu. Tem o protótipo do meu projeto final da faculdade lá."
Miguel franziu a testa. "Eu o formatei. Ia vendê-lo."
O pânico tomou conta do rosto dela. "O quê? Não! Você não pode ter feito isso! Meu projeto! Tiago tentou me ajudar a passar os arquivos, mas o HD externo dele deu problema e corrompeu tudo!"
Tiago deu um passo à frente. "É, cara, foi mal. Acontece. Mas você não devia ter formatado o computador dela sem avisar."
A acusação velada fez o sangue de Miguel ferver. Ele tinha dado aquele notebook a ela. E agora, a culpa era dele?
"O computador não é dela, Tiago. É meu. E o que eu faço com as minhas coisas não é da sua conta."
Foi então que o orientador de Miguel, que por coincidência morava no mesmo bairro e estava passando, se aproximou. Ele ouviu a última parte da conversa.
"Miguel? Algum problema?", perguntou o professor, um homem calmo e observador.
"Professor! Não, sem problemas," Miguel tentou desconversar.
Patrícia, porém, viu uma oportunidade. "Professor, o Miguel apagou meu projeto final da faculdade! Ele fez de propósito porque está com raiva de mim!"
O orientador olhou de Patrícia para Miguel, depois para Tiago, com uma expressão indecifrável.
"Patrícia, o Miguel não faria isso. Mas, falando em projetos importantes, você sabe que o protótipo de jogo no qual o Miguel estava trabalhando e que foi danificado na universidade na semana passada, quando você e o Tiago estavam no laboratório fora do horário, vale mais de meio milhão de reais em investimento inicial?"
Patrícia e Tiago congelaram.
"O quê?", ela gaguejou. "D-danificado? Ninguém nos disse nada."
"A investigação está em andamento," o professor continuou, calmamente. "E Miguel, a empresa já foi notificada. Eles vão acionar o departamento jurídico para apurar as responsabilidades. Eles levam a destruição de propriedade intelectual muito a sério."
O rosto de Patrícia ficou pálido. Ela se virou para Miguel, o pânico agora misturado com fúria.
"Você vai me processar? Processar a mim e ao Tiago? Depois de tudo que a gente viveu? Você é um monstro!"
Miguel a encarou, o cansaço de sete anos pesando em seus ombros.
"Eu? Um monstro?", ele respondeu com um sarcasmo gélido. "Interessante você dizer isso, Patrícia. Muito interessante. Agora, se me dão licença, eu tenho um avião para pegar."