Por sete anos, trabalhei como limpadora de cenas de crime, esfregando a morte para salvar a vida do meu filho. Finalmente juntei os R$ 1.250.000 para o tratamento experimental que curaria sua rara doença genética.
Mas, ao chegar no hospital, ouvi meu namorado, Beto, conversando. Não era sobre uma cura. Era um "experimento social", um teste de sete anos para provar que eu não era uma interesseira. Meu filho nunca esteve doente.
Minha melhor amiga estava no meio de tudo, rindo. Então ouvi a voz do meu filho.
"Não quero que a mamãe fedida volte. Quero a tia Júlia. Ela tem cheiro de biscoito."
Eles me humilharam na escola dele, me chamando de faxineira desequilibrada. Meu filho apontou para mim e disse a todos que não me conhecia, enquanto o homem que eu amava me arrastava para longe, me acusando de ser uma vergonha.
Meu amor não era amor; era um dado estatístico. Meu sacrifício não era um sacrifício; era uma performance. Eles viraram meu próprio filho contra mim para o seu jogo doentio.
Eles achavam que estavam testando uma faxineira pobre e simplória. Eles não sabiam que ele era Bernardo Yates, herdeiro de uma dinastia bilionária. E não faziam ideia de que eu era Alina Diniz, da família Diniz.
Peguei o telefone e liguei para meu irmão.
"Estou voltando para casa."
Capítulo 1
Ponto de Vista: Alina
O último real que ganhei limpando a morte de alguém era o que deveria salvar a vida do meu filho.
Por sete anos, eu esfreguei os momentos finais e brutais da vida de outras pessoas. O cheiro de água sanitária e sangue estava tatuado dentro do meu nariz, um fantasma permanente nos meus sentidos. Trabalhei até minhas mãos ficarem em carne viva, até minhas costas serem um nó constante de dor excruciante, tudo por um número na tela. Hoje, esse número finalmente atingiu a meta. Um milhão e duzentos e cinquenta mil reais. O custo de um tratamento experimental que curaria a rara doença genética do Lucas.
O cheque final parecia pesado no meu bolso, um peso sagrado. Eu tinha acabado de limpar uma cena em um apartamento no centro, um fim solitário que deixou um gosto amargo na boca, mas não importava. Tinha acabado. Chega de ajoelhar em pisos frios e manchados. Chega de ver os contornos de giz de estranhos nos meus sonhos.
Minha picape velha chacoalhava enquanto eu dirigia em direção ao hospital, uma caixa azul brilhante com um kit para montar um foguete espacial no banco do passageiro. Lucas amava qualquer coisa relacionada ao espaço. Imaginei seu rosto se iluminando, suas mãozinhas montando cuidadosamente as peças de plástico. Em breve, teríamos todo o tempo do mundo para coisas assim. Em breve, ele estaria saudável, e eu poderia ser apenas uma mãe. Não uma faxineira. Não uma mulher constantemente assombrada pelo fantasma das contas médicas. Apenas... mamãe.
Estacionei a picape e puxei o retrovisor, tentando me ajeitar. Eu parecia acabada, mais velha que meus vinte e nove anos. Havia sombras permanentes sob meus olhos, e meu cabelo estava impiedosamente preso em um rabo de cavalo. Eu cheirava levemente a produto de limpeza industrial. Era um cheiro que eu nunca conseguia tirar completamente. Mas meu sorriso era genuíno, mais largo do que tinha sido em anos. Eu estava levando a melhor notícia de nossas vidas.
Eu queria fazer uma surpresa. Beto - meu Beto Sales, o homem que esteve ao meu lado durante tudo isso - provavelmente estava na sala de espera privativa que o hospital oferecia para pacientes de longa data. Júlia, minha melhor amiga, provavelmente tinha levado os lanches favoritos do Lucas.
O corredor para a sala estava silencioso. Conforme me aproximei, ouvi vozes através da porta entreaberta. Diminuí o passo, minha mão já alcançando a maçaneta, o sorriso congelado no meu rosto.
Era a voz de Beto, suave e confiante, não o tom cansado que ele geralmente usava ao discutir a saúde de Lucas. "Os dados do teste com placebo são conclusivos, Sr. Yates. O Dr. Evans confirmou. Os sinais vitais do Lucas permaneceram perfeitamente estáveis. Ele respondeu exatamente como uma criança saudável de seis anos responderia."
Meu sangue gelou. Sr. Yates? Teste com placebo?
Outra voz, clínica e desconhecida, respondeu. "Excelente. É um experimento social fascinante, Bernardo. Sete anos é muito tempo. Você está satisfeito com os resultados?"
Bernardo? O nome do meu Beto era Beto Sales. Pressionei meu ouvido mais perto da porta, meu coração batendo um ritmo doentio e pesado contra minhas costelas.
"Quase", disse Beto - Bernardo. "Ela provou que não é uma interesseira. Ela trabalhou em um emprego que faria a maioria das pessoas vomitar só para juntar o dinheiro. Ela não me pediu um centavo a mais do que meu 'salário' poderia cobrir."
Então eu a ouvi. Júlia. Minha melhor amiga. Sua voz era leve, brincalhona. "Então, o teste acabou? Você pode finalmente contar a verdade para ela?"
Um pavor gelado, agudo e sufocante, envolveu meus pulmões. Isso tinha que ser um engano. Uma piada horrível e doentia.
"Ainda não", disse Bernardo, e eu podia imaginar a inclinação arrogante de sua cabeça. "Acho que precisamos de mais seis meses. Apenas para ter certeza absoluta de que o caráter dela é sólido. Assim que ela entregar o cheque final, vamos observá-la por meio ano. Ver se ela se ressente. Ver se ela muda."
"Mais seis meses?" A voz de Júlia estava tingida com algo que soava como excitação. "Bê, você é tão cruel. Adorei."
Então, ouvi a voz do meu filho. Do Lucas. Clara e brilhante.
"Papai, a gente pode ir pra casa logo? Não quero que a mamãe fedida volte. Ela sempre cheira a produto de limpeza ruim."
As palavras me atingiram com mais força do que um soco. Mamãe fedida.
"Logo, campeão", disse Bernardo afetuosamente. "Só temos que esperar um pouco mais."
"Eu não quero ela", insistiu Lucas, sua voz se transformando em um choro manhoso. "Eu quero a tia Júlia. Ela tem cheiro de biscoito e me compra Legos novos. A mamãe só chora."
"Eu sei, Lu", disse Júlia, sua voz baixando para um arrulho meloso. "A tia Júlia vai ficar com você. Vamos nos divertir muito, só nós três."
"Só mais seis meses", repetiu Bernardo, sua voz firme, como um CEO fechando um negócio. "Então o teste estará completo. Veremos se Alina Diniz é digna de ser uma Yates."
Alina Diniz. Ele não me chamava assim há anos. Para ele, para todos nesta vida, eu era Alina Sales.
O foguete em sua caixa azul brilhante de repente pareceu pesar uma tonelada na minha mão. Eu cambaleei para trás, longe da porta, minha mão voando para a boca para abafar o som que tentava escapar da minha garganta.
Sete anos.
Sete anos da minha vida, do meu corpo se desfazendo, do meu espírito sendo moído até virar pó. Não era por uma cura. Era um teste. Um teste de lealdade. Um jogo elaborado e cruel orquestrado pelo homem que eu amava, minha melhor amiga, e abraçado pelo filho por quem eu sacrifiquei tudo.
A pilha de dinheiro que eu acumulei, cada real manchado de sangue e lágrimas, não era para um tratamento que salvaria uma vida. Era uma taxa de entrada para uma família que me observava como um rato de laboratório em uma gaiola.
Meu amor não era amor para eles. Eram dados. Meu sacrifício não era um sacrifício. Era uma performance.
Olhei para o kit do foguete em minhas mãos. Um presente para um menino que não me queria. Um símbolo de um futuro que era uma mentira.
Minha vida inteira era uma mentira.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. As risadas de dentro da sala, uma cena de família feliz, ecoavam no corredor estéril. Era o som do meu coração se partindo.
Eu me virei e fui embora, meus passos duros. Passei por uma grande lixeira cinza perto dos elevadores. Sem hesitar, levantei a tampa e joguei a caixa azul brilhante lá dentro. Ela caiu com um baque oco.
Acabou, pensei, as palavras um grito silencioso em minha mente. Não o teste. Nós.
Eu desisto.
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Ponto de Vista: Alina
O telefone tocou uma hora depois, um som estridente e indesejado no silêncio sufocante da minha picape. A tela se iluminou com um número familiar: Clínica Pediátrica Morumbi, Setor de Cobrança.
Durante anos, uma ligação como essa teria enviado uma onda de pânico puro pelas minhas veias. Significaria outra negociação frenética, outra rodada de súplicas por um prazo maior, minha voz falhando de desespero enquanto eu prometia um pagamento que não podia fazer.
Desta vez, não senti nada. Um vazio vasto e frio havia se instalado onde o medo e a esperança costumavam viver.
Atendi a ligação, minha voz surpreendentemente firme. "Alina falando."
"Alina Sales?" A mulher do outro lado foi ríspida, seu tom já cansado. "Estou ligando sobre o saldo devedor do Lucas Casey para o protocolo de tratamento preliminar. Temos um valor em atraso de vinte e cinco mil reais."
Encostei a cabeça no couro rachado do assento. Lembrei-me da última vez que ela ligou. Eu estava de joelhos, esfregando uma mancha de sangue de um piso de madeira, e chorei enquanto implorava por apenas mais duas semanas. Ela suspirou e concedeu, mas não sem um sermão sobre responsabilidade fiscal.
"Sim, eu me lembro", eu disse, minha voz vazia.
O tom dela se aguçou um pouco, pega de surpresa pela minha falta de emoção. "Bem, o prazo acabou. Precisamos do pagamento imediatamente, ou teremos que suspender o acesso do Lucas ao programa."
Suspender o acesso dele. A ameaça que foi meu pesadelo pessoal por meia década. Eu costumava acordar suando frio sonhando com isso. Agora, as palavras não significavam nada.
Que programa havia para suspender? Um programa de pílulas de açúcar e soro fisiológico? Um programa projetado não para curá-lo, mas para me testar?
"Por que você está me ligando por isso?", perguntei, uma pergunta genuína. "Meu entendimento era que este era o valor final devido antes do início do tratamento principal. Aquele para o qual eu venho economizando."
A mentira tinha gosto de cinzas na minha boca.
"Sim, mas isso é por serviços já prestados", disse ela impacientemente. "O Sr. Sales - seu marido - geralmente lida com essas ligações, mas não conseguimos falar com ele."
Sr. Sales. Beto. Bernardo Yates. Um homem tão rico que provavelmente usava notas de cem reais para acender a lareira, e ele me deixou implorar e me virar por míseros vinte e cinco mil reais. Não era porque ele não podia pagar. Era parte do teste. Para ver até onde eu iria. Para ver se eu quebraria.
Eu cansei de quebrar.
"Você pode enviar a conta para ele", eu disse calmamente. "Não vou mais cuidar dos assuntos financeiros do Lucas."
Houve um silêncio chocado do outro lado. "Senhora? Não entendo. Você sempre..."
"Eu sei o que eu sempre fiz", interrompi, a frieza na minha voz surpreendendo até a mim mesma. "As coisas mudaram. Envie a conta para Beto Sales. Ou melhor ainda, envie para Bernardo Yates."
Desliguei antes que ela pudesse responder, jogando o telefone no banco do passageiro.
No mesmo instante, uma SUV preta e elegante estacionou na vaga ao lado da minha picape enferrujada. Beto - Bernardo - saiu. Ele parecia impecável em um terno sob medida que provavelmente custava mais que todo o meu guarda-roupa. Quando me viu, um lampejo de surpresa cruzou seu rosto bonito, rapidamente substituído por um sorriso caloroso e preocupado. O mesmo sorriso que me enganou por sete anos.
"Alina! Querida, o que você ainda está fazendo aqui? Eu ia te ligar. Pensei que você ia trabalhar até tarde."
Ele se moveu para abrir minha porta, seus movimentos fluidos e charmosos. O parceiro perfeito e dedicado.
"O trabalho terminou mais cedo", eu disse, minha voz desprovida de qualquer calor. Eu não me movi para sair.
Ele franziu a testa, a sobrancelha se curvando daquele jeito que eu costumava achar tão cativante. "Você está bem? Parece pálida." Ele estendeu a mão para pegar a minha.
Eu a puxei antes que seus dedos pudessem me tocar.
Sua carranca se aprofundou. Um flash de algo - irritação? - cruzou suas feições antes de ser mascarado novamente pela preocupação. "Dia difícil?"
"Pode-se dizer que sim."
Finalmente empurrei a porta da picape e saí, ficando de frente para ele. Ele era mais alto que eu, sua presença geralmente um conforto. Agora parecia uma ameaça.
"Eu ia te buscar", disse ele, com a voz suave. "Você não deveria ter que dirigir todo esse caminho depois de um turno longo. Podemos ir ver o Lucas juntos."
Próxima vez. Ele achava que haveria uma próxima vez. Ele achava que eu simplesmente voltaria para o meu lugar, a mulher amorosa e exausta que vivia para ele e nosso filho. A mulher que faria qualquer coisa por eles.
Essa mulher morreu há uma hora em um corredor de hospital.
O cheiro de água sanitária nas minhas roupas parecia mais forte agora, um contraste gritante com o perfume caro e limpo de sua colônia. Por anos, eu esfreguei, economizei e me sacrifiquei, acreditando que estava lutando pela vida do meu filho. Eu não estava. Eu estava fazendo um teste para um papel que eu nem sabia que estava concorrendo.
E eu tinha acabado de ser informada, em termos inequívocos, que não consegui o papel.
"Não", eu disse, minha voz baixa, mas firme. "Acho que não vou mais ver o Lucas."
Seu sorriso vacilou completamente. "Do que você está falando, Alina? Não seja dramática. Você só está cansada."
Cansada. Sim, eu estava cansada. Eu estava cansada nos meus ossos, na minha alma. Cansada das mentiras. Cansada do teste. Cansada dele.
"Eu estou cansada", concordei. "Tão cansada de tudo isso."
Olhei para além dele, em direção às portas de vidro reluzentes do hospital. Dentro daquele prédio, minha melhor amiga estava bancando a mãe para o meu filho, e o homem que eu amava estava bancando Deus com a minha vida. Uma raiva amarga e ardente começou a derreter o gelo em minhas veias.
Ele me alcançou novamente, sua expressão uma máscara perfeita de preocupação amorosa. "Vamos, vamos entrar. A Júlia fez biscoitos. O Lucas está perguntando por você."
A mentira era tão fácil, tão praticada. Me dava nojo.
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Ponto de Vista: Alina
Deixei que ele me guiasse de volta para o hospital, meus pés se movendo como se estivessem atravessando cimento. Cada passo parecia uma traição à mulher que havia fugido deste lugar em agonia apenas uma hora antes. Mas eu tinha que ver. Eu tinha que ver tudo com meus próprios olhos, agora que o véu do engano havia sido rasgado.
O calor que eu costumava sentir ao caminhar por este corredor, a antecipação de ver o rosto de Lucas, havia desaparecido. Tudo o que restava era uma dor oca e ecoante.
Enquanto nos aproximávamos da sala privativa, ouvi o som de risadas. Risadas altas e felizes. Era o Lucas. Ele estava rindo com uma alegria despreocupada que eu não ouvia há meses. Uma alegria que ele nunca parecia ter quando eu estava por perto.
Beto abriu a porta, um sorriso largo fixo em seu rosto. "Olha quem eu encontrei vagando no estacionamento."
A cena lá dentro era uma imagem perfeita de felicidade doméstica. Júlia estava sentada no sofá macio, Lucas aninhado em seu colo, a cabeça jogada para trás em uma gargalhada enquanto ela fazia cócegas em sua barriga. Um livro de histórias aberto estava ao lado deles. Eles pareciam tão naturais, tão certos. Uma mãe e seu filho.
Quando os olhos de Lucas pousaram em mim, seu sorriso desapareceu. Não apenas se desvaneceu; ele se apagou, como uma luz sendo desligada. Seu corpo enrijeceu nos braços de Júlia.
"Ah", ele murmurou, sua voz mal um sussurro. "É você."
A alegria na sala evaporou.
No passado, eu teria corrido para ele, de braços abertos, desesperada por um abraço que ele teria dado a contragosto. Eu teria me ajoelhado, com o coração doendo, e perguntado o que havia de errado, por que ele parecia tão distante. Eu teria me culpado, culpado meu trabalho, meu cansaço.
Hoje, eu apenas fiquei ali, parada, com as mãos cerradas ao lado do corpo.
Lembrei-me de todas as vezes que o segurei quando ele chorava à noite pelo que eu pensava serem dores fantasmas de sua doença. Eu sussurrava promessas em seu cabelo, jurando que trabalharia mais, economizaria mais rápido, faria qualquer coisa para melhorá-lo. Eu vou conseguir o dinheiro, eu prometia. A mamãe vai consertar isso.
E minha recompensa por essa devoção, por sete anos de trabalho exaustivo e esmagador, não foi seu amor. Foi seu nojo.
Ele se contorceu para sair do colo de Júlia e se afastou de mim, escondendo-se um pouco atrás das pernas dela. O pequeno movimento foi uma rejeição tão profunda que roubou o ar dos meus pulmões. Ele estava aliviado por eu não estar me aproximando.
Apertei minha bolsa, meus nós dos dedos brancos, lutando para manter minha expressão neutra. A máscara de uma mãe calma e amorosa era a coisa mais pesada que eu já havia usado. Eu não conseguia mais nem forçar um sorriso. Meu rosto parecia de pedra.
"Lucas", eu disse, minha voz soando estranha e tensa. "Você não vai dar um oi para a mamãe?"
Ele espiou por trás de Júlia, seu rostinho emburrado. Ele balançou a cabeça, enterrando o rosto na saia cara dela. "Não quero."
Júlia acariciou seu cabelo, sua expressão uma mistura perfeita de simpatia e repreensão gentil. "Lu, seja bonzinho. Sua mãe está cansada. Ela trabalha muito por você." Ela me lançou um olhar, um que eu costumava interpretar como amizade solidária. Agora, eu via o brilho de triunfo em seus olhos. O desafio não dito.
"Ele só está um pouco tímido hoje", disse ela para mim, sua voz escorrendo uma doçura falsa. "Ele tem estado um pouco sobrecarregado."
Tímido? Meu filho não era tímido comigo. Ele sentia repulsa. Eu tinha visto em seus olhos.
Pensei no dia em que ele foi "diagnosticado". Eu era uma jovem mãe apavorada, e Júlia segurou minha mão, prometendo estar lá por nós, não importava o quê. Eu fiquei tão grata, tão comovida com sua lealdade. Eu até brinquei, em meio às lágrimas, que ela teria que ser a madrinha dele.
Ela não se tornou apenas sua madrinha. Ela se tornou sua mãe. Ela roubou meu filho de mim, bem debaixo do meu nariz, com biscoitos e conjuntos de Lego e um cheiro que não o lembrava de morte e decomposição.
De repente, Júlia ofegou, um pequeno som teatral. Ela se inclinou para frente, derrubando uma tigela de frutas da mesa de centro. Uvas e fatias de maçã se espalharam pelo chão branco impecável.
"Oh, que desastrada!", ela exclamou.
Imediatamente, Beto estava ao seu lado, ajoelhando-se para ajudá-la. "Você está bem, querida?", ele perguntou, sua voz carregada de uma preocupação que ele nunca demonstrou por mim quando eu chegava em casa com minhas próprias dores e ferimentos.
Eles se ajoelharam ali juntos, uma equipe perfeita, limpando uma bagunça que ela havia criado. Lucas correu para ajudar também, pegando cuidadosamente cada uva como se fosse uma joia preciosa.
Eu fiquei parada perto da porta, completamente ignorada. Eu era uma estranha na minha própria família. Um fantasma na vida pela qual eu sangrei.
Senti uma certeza fria e dura se instalar em meu peito. Não havia mais nada para mim aqui.
"Eu tenho que ir", eu disse, minha voz vazia.
Beto olhou para cima, a testa franzida de aborrecimento. "Alina, não seja assim. Apenas sente-se."
Mas eu já estava me virando. Eu não conseguia respirar naquela sala por mais um segundo. Estava me sufocando.
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