Meu marido bilionário gastou três anos e uma fortuna para encontrar um coração de doador e salvar minha vida. Ele era meu herói, meu mundo inteiro, depois que uma mulher chamada Carla Santos incriminou meu pai e destruiu minha família.
Então, descobri que ele a estava protegendo o tempo todo. Ela era sua amante, grávida de um filho dele.
Da noite para o dia, me tornei a vilã aos olhos dele. Ele ignorou meus pedidos de socorro enquanto os capangas dela me espancavam e me arrastavam atrás do carro deles. Ele me forçou a ajoelhar na neve a noite toda como punição pelo aborto que ela fingiu e me culpou.
O ato final de sua crueldade foi um funeral no mar para o "bebê" que eu havia "assassinado". Em seu iate, ele a segurava nos braços, seus olhos queimando com um ódio que feria minha alma.
Quando ela "acidentalmente" deixou a urna cair no oceano, ele voltou sua fúria para mim.
"Então pule e encontre!", ele rugiu.
Eu olhei para o monstro que usava o rosto do meu marido, o homem que eu amei mais que a própria vida.
E, sem hesitar, eu me joguei na água gelada.
Capítulo 1
"Você tem certeza absoluta, Sra. Sampaio?"
A voz do médico era gentil, mas seus olhos continham uma seriedade que cortava o ar estéril de seu consultório.
"Sim, Dr. Evandro. Eu tenho." Minha própria voz era um sussurro, um farfalhar de folhas secas.
Ele suspirou, inclinando-se para frente e cruzando as mãos sobre a mesa polida. "Helena, seu marido, o Sr. Sampaio, gastou três anos e uma quantia astronômica de dinheiro para encontrar este coração de doador para você. Ele financiou pessoalmente a ala de pesquisa avançada onde o procedimento foi desenvolvido. Esta é a única compatibilidade que encontramos. É sua única chance."
Suas palavras deveriam ser uma tábua de salvação, mas pareciam uma âncora.
"Se você recusar este transplante", ele continuou, seu tom se tornando mais urgente, "seu coração vai falhar. Com base na sua condição atual, você tem menos de um mês. Na melhor das hipóteses."
Uma estranha calma me invadiu. Um mês. Parecia uma vida inteira e nenhum tempo.
"Eu entendo", eu disse, meu olhar fixo em um ponto logo atrás de seu ombro. "Estou recusando o transplante."
Dr. Evandro me encarou, uma mistura complexa de pena e frustração em seu rosto. Ele via uma mulher frágil, a amada esposa de um bilionário da tecnologia, inexplicavelmente desistindo de uma chance de viver. Ele não podia ver o deserto que existia dentro de mim.
Ele empurrou um formulário pela mesa. "Você precisará assinar isto. É um termo de responsabilidade, isentando o hospital e a mim de toda e qualquer responsabilidade."
Peguei a caneta, minha mão surpreendentemente firme. "Preciso que isso seja mantido em sigilo. Meu marido não deve ser informado da minha decisão até que o horário agendado para a cirurgia tenha passado."
"Helena...", ele começou, mas eu apenas o encarei. Ele se calou e assentiu.
Assinei meu nome, a tinta um traço final e escuro. Então me levantei e saí de seu consultório, meus passos parecendo leves, quase desconectados do chão.
Eu não saí do hospital. Em vez disso, peguei o elevador para o último andar, para a ala VIP privada que Caio basicamente comprou nos últimos três anos.
Este andar inteiro era um monumento à sua riqueza e, eu acreditava, ao seu amor pela minha família.
Estava silencioso, exceto pelo zumbido baixo dos equipamentos médicos. Por três anos, este andar foi o lar da minha mãe.
O diagnóstico do médico foi direto. "AVC massivo. Ela está em estado vegetativo persistente. Sinto muito, não há mais nada que possamos fazer."
Abri a porta do quarto dela e caminhei até sua cama. Peguei sua mão; estava quente, mas sem vida.
"Mãe", sussurrei, minha garganta apertada. "Me desculpe. Eu sinto muito, muito mesmo."
Foi tudo culpa minha. Tudo.
Três anos atrás, meu pai, um arquiteto respeitado, viu seu mundo desmoronar. Um arranha-céu na Faria Lima que ele projetou sofreu uma falha estrutural catastrófica. A investigação apontou para relatórios de materiais falsificados. A desgraça pública e a ruína financeira foram demais. Ele tirou a própria vida.
A chave para sua absolvição era sua gerente de projetos júnior, uma jovem que eu havia orientado e acolhido. O nome dela era Carla Santos. Foi ela quem assinou a liberação dos materiais. Mas no dia em que o prédio falhou, ela desapareceu.
Meu marido, Caio, e eu a procuramos incansavelmente. Investimos milhões em investigadores particulares, mas era como se ela tivesse evaporado.
Sem o testemunho dela, meu pai foi considerado postumamente responsável. Os processos judiciais levaram nossa família à falência. Minha mãe, sobrecarregada pela dor e pela vergonha, sofreu o derrame que a deixou assim.
Em uma noite, eu perdi todos.
Caio me amparou em tudo. Ele era minha rocha, meu mundo inteiro.
Ele secou minhas lágrimas e segurou meu rosto em suas mãos. "Helena, eu juro a você, vou encontrar Carla Santos. Vou fazê-la pagar pelo que fez à sua família. Vou limpar o nome do seu pai."
Eu acreditei nele. Na escuridão da minha dor, ele era minha única luz. Eu me agarrei a ele, confiei nele completamente.
Então, duas semanas atrás, eu o encontrei. Um notebook antigo e esquecido dele em um depósito. Eu estava procurando por fotos antigas da família. Em vez disso, encontrei uma pasta oculta. Dentro havia e-mails e extratos bancários. Transferências mensais, nos últimos três anos, para uma conta no exterior. Uma conta pertencente a Carla Santos.
O mundo girou sobre seu eixo. Meu coração, já fraco, parecia ter sido arrancado do meu peito.
Todos aqueles anos, enquanto eu chorava até dormir, enquanto ele me abraçava e jurava vingança, era ele quem a escondia. Ele era seu protetor.
Ele estava me fazendo de boba. A busca inteira era uma mentira. Ele sabia onde ela estava o tempo todo.
Meu pai morreu em desgraça. Minha mãe era um fantasma vivo. Tudo porque confiei no homem errado. Tudo porque eu trouxe Caio Sampaio para nossas vidas.
O bipe rítmico e agudo do monitor cardíaco ao lado da cama da minha mãe de repente se transformou em um único tom. Interminável.
Biiiiiiiiiiiiip.
O som foi um golpe físico. Meu corpo enrijeceu. Eu não conseguia me mover. Não conseguia respirar.
Enfermeiras entraram correndo, seus rostos sombrios. Elas me puxaram gentilmente para fora do quarto. Fiquei no corredor, uma estátua oca, meus dedos discando entorpecidamente o número de Caio. Era instinto, um hábito estúpido e arraigado.
O telefone tocou uma vez, depois foi desligado. Um momento depois, o número dele estava fora de serviço.
Meu celular vibrou com uma mensagem de texto. Era de um número que eu não reconhecia. Uma foto.
Era de Caio, com o braço em volta de Carla Santos. Ela estava radiante, a mão pousada na barriga inchada. Abaixo da foto, o texto dizia: "Caio e eu estamos muito animados para receber nosso pequeno. Ele queria que você fosse a primeira a saber. Finalmente seremos uma família de verdade."
As palavras se borraram. Um médico saiu do quarto da minha mãe, o rosto cheio de compaixão.
"Sinto muito, Sra. Sampaio. Ela se foi."
Uma dor aguda e lancinante atravessou minha mão. Olhei para baixo. Minhas unhas haviam cravado tão fundo na minha palma que o sangue escorria pelo meu pulso, pingando no chão branco e imaculado.
Eu era órfã. Meu último parente de sangue se fora.
Eles me deixaram voltar para o quarto. Inclinei-me sobre o corpo imóvel de minha mãe, minhas lágrimas caindo em sua bochecha.
"Mãe", engasguei. "Estou chegando. Espere por mim. Estaremos todos juntos novamente em breve."
Saí do hospital atordoada, cuidando dos arranjos com uma dormência mecânica. Minha mente era uma nevasca de traição e dor. Havia apenas uma coisa a fazer.
Eu tinha que vê-los. Tinha que ver a verdade com meus próprios olhos antes de deixar este mundo.
Dirigi até o endereço que encontrei nos arquivos de Caio - uma maternidade de luxo e privada. Através dos vidros escuros do meu carro, eu os vi andando no jardim.
Carla estava linda, radiante em sua gravidez. Ela olhava para Caio com olhos de adoração.
Ele era gentil com ela, a mão protetoramente em suas costas, um sorriso suave no rosto que eu não via há anos.
"Caio, meus pés estão inchando de novo", Carla reclamou, encostando-se nele. "E este bebê não para de me chutar a noite toda."
Ele riu, um som baixo e quente que fez meu estômago se contrair. "Isso significa que ele é forte. Vai ser um lutador, assim como a mãe." Ele se inclinou e beijou a barriga dela.
"Você sofreu tanto, Carla", disse ele, a voz embargada de emoção. "Vivendo escondida assim, tudo por causa dos Esteves. Mas acabou agora. Eu prometo, vou proteger você e nosso filho para sempre."
Para sempre. Ele havia me prometido para sempre.
Os olhos de Carla se encheram de lágrimas falsas. "Mas e a Helena? Eu me sinto tão culpada. Eu nunca quis destruir a família dela."
"Não foi sua culpa", disse Caio, sua voz endurecendo. "O pai dela era corrupto. Você foi uma vítima. E ela... ela vai entender. Vou garantir que ela seja cuidada. Eu te devo minha vida, Carla. Nunca mais deixarei ninguém te machucar."
Ele a abraçou, e ela enterrou o rosto em seu peito, um sorriso triunfante brilhando em seu rosto por apenas um segundo.
A dor no meu peito não era mais uma dor surda. Era um rasgo físico. Cada palavra, cada gesto terno, era mais uma volta da faca.
Eu estava acabada. Não havia mais nada para mim aqui.
Dirigi para longe, minha visão embaçada por lágrimas que eu não sabia que ainda tinha para chorar. Havia um lugar que eu conhecia, um penhasco onde Caio e eu tivemos nosso primeiro encontro. Foi onde prometemos um ao outro para sempre.
Era o lugar perfeito para acabar com tudo.
Depois de fazer os arranjos para a cremação da mamãe, dirigi sem destino. Minha mente era uma lousa em branco, limpa pela dor. Minhas mãos apenas guiavam o carro, meus pés apenas pressionavam os pedais.
Eventualmente, me vi estacionada do outro lado da rua do meu antigo colégio. O prédio de tijolos vermelhos parecia menor do que eu me lembrava. Através da cerca de arame, eu podia ver o campo de futebol coberto de mato.
Lembrei-me de mim aos dezessete anos. Pequena, quieta, com óculos grandes demais para o meu rosto. Uma garota que vivia na biblioteca e observava o mundo das arquibancadas.
Meu mundo naquela época tinha um sol, e seu nome era Caio Sampaio. Ele era o capitão do time de futebol, o presidente do grêmio estudantil, o garoto com quem toda garota sonhava e todo cara queria ser.
Eu o observava de longe, um segredo que guardava trancado no peito. Eu memorizava seu horário, seu lanche favorito, o jeito que ele passava a mão pelo cabelo quando estava pensando.
Ele nunca olhou na minha direção. Ele era uma supernova, e eu era apenas um grão de poeira em sua órbita.
Fechei os olhos com força, afastando a memória. Doía demais lembrar da garota que tinha tanta esperança.
"Helena? Helena Esteves, é você?"
A voz era calorosa e familiar. Abri os olhos. Uma mulher com um rosto gentil e enrugado sorria para mim da janela da pequena lanchonete ao lado do meu carro. Era a Dona Gabriela, que administrava o lugar desde que eu era estudante.
Minha garganta apertou. Eu não conseguia falar, apenas assenti.
"Querida, você parece pálida como um fantasma. Entre, vou fazer uma sopa para você."
Eu a segui para dentro como uma sonâmbula, afundando em uma cabine no canto mais distante. Era a mesma cabine em que eu costumava sentar todos os dias depois da escola, esperando por um vislumbre de Caio.
Dona Gabriela colocou uma tigela fumegante de sopa de tomate na minha frente. "Não te vejo desde o seu casamento. Você e aquele rapaz, Caio. Você finalmente o conquistou, hein? Eu sempre soube que você tinha uma queda por ele."
Eu a encarei, chocada. "Você sabia?"
Ela riu, limpando as mãos no avental. "Querida, você era um livro aberto. O jeito que você o observava, qualquer um com olhos podia ver."
Ela mencionou que ele não voltava desde que se formou. "Ouvi dizer que ele se deu bem com tecnologia. Bom para ele."
Peguei minha colher, uma pergunta queimando em minha mente. Ele realmente tinha sido tão alheio? Todos aqueles encontros "acidentais" que eu planejei, os livros que comecei a ler porque o vi com eles, o jeito que eu pedia o mesmo café preto que ele, mesmo odiando o gosto.
Depois que nos casamos, ele nunca falou sobre nossos dias de colégio. Nenhuma vez.
Peguei um pouco de sopa, mas o gosto era como cinzas na minha boca. Meu estômago revirou.
Senti uma onda de pena, não apenas pela mulher moribunda que eu era agora, mas por aquela garota esperançosa e tola. Nós duas havíamos desperdiçado nosso amor em um homem que não merecia.
"Falando no diabo e ele aparece!", a voz de Dona Gabriela soou do balcão.
Meu sangue gelou. Olhei para a entrada.
Caio Sampaio estava entrando, o braço firmemente em volta de Carla Santos.
"Caio, meu rapaz!", exclamou Dona Gabriela. "E esta deve ser sua adorável esposa! Parabéns pelo bebê!"
Minha mão voou para a boca para abafar um soluço. Dona Gabriela, sem saber, sorriu para eles.
"Sabe, sua antiga colega de classe, Helena, está aqui também! Deixe-me ir chamá-la..."
"Não!", a palavra me escapou, aguda e desesperada. Joguei algumas notas na mesa e fugi, deixando a sopa intocada para trás.
"Bem, isso foi estranho", ouvi Dona Gabriela murmurar enquanto a porta se fechava atrás de mim.
Caio estava muito ocupado ajudando Carla a se sentar na cabine - a minha cabine - para notar.
Das sombras do outro lado da rua, eu os observei.
"Ela está tão bonita como sempre", disse Dona Gabriela a Caio, obviamente falando de Carla. "Cuide bem dela, ouviu?"
Carla corou e se aninhou no ombro de Caio. Ele beijou sua testa.
A cena foi uma ferida fresca. Eu era o fantasma do lado de fora, observando meu marido construir uma nova vida nas ruínas da minha.
Eu era uma covarde. Não conseguia nem mesmo encará-los.
Lembrei-me de ter perguntado a ele, uma vez, no início do nosso casamento, se ele queria visitar nosso antigo colégio, talvez comer algo na lanchonete da Dona Gabriela.
"Por que faríamos isso?", ele perguntou, a testa franzida. "Não há nada para nós lá."
Agora eu entendia. Ele não queria ser lembrado do lugar onde sua grande mentira começou.
Um arrepio repentino percorreu a espinha de Caio, e ele olhou para a janela, seus olhos varrendo a rua. Ele não podia me ver, mas por um segundo, pensei que ele sentiu minha presença.
"O que foi?", perguntou Carla, dando-lhe um pedaço de torta.
"Nada", disse ele, balançando a cabeça. "Só... por um segundo, pensei naquele beco atrás do ginásio."
Ele comeu um pedaço da torta e seus olhos se tornaram distantes. "Eu estava apanhando feio daqueles veteranos. Eles me encurralaram depois do treino."
Ele tocou uma cicatriz fraca acima da sobrancelha. "Um deles tinha um cano. Ele me atingiu por trás. Pensei que estava acabado."
"Então, do nada, ouvi alguém gritar: 'Ei! Deixem ele em paz! Vou chamar a polícia!'"
Sua voz era suave, reverente. "Eu estava no chão, tudo estava embaçado. Mas vi uma figura, uma garota de uniforme escolar, parada no final do beco. Ela continuava gritando, me dizendo para aguentar, que a ajuda estava chegando."
Ele olhou para Carla, os olhos cheios de adoração. "Então eu acordei no hospital. E você estava lá."
Carla sorriu, uma imagem perfeita de inocência. "Eu vi eles te cercando. Fiquei com tanto medo, mas sabia que tinha que fazer alguma coisa."
"Obrigado, Carla", disse ele, a voz embargada. "Você salvou minha vida naquele dia."
O sorriso de Carla vacilou por uma fração de segundo enquanto seus olhos se desviavam para o beco que ele mencionou. Foi um lampejo de desconforto, tão rápido que quase perdi.
Mas eu não perdi. Porque eu estava lá naquele dia. Foi a minha voz que gritou por ajuda. Fui eu quem chamou a polícia de um orelhão e correu de volta, dizendo a ele para aguentar. Eu era a garota nas sombras. Carla tinha sido apenas a primeira a chegar ao hospital para reivindicar o crédito.
Voltei para casa e agi como se não soubesse de nada. A máscara da esposa amorosa, embora terminalmente doente, era uma que eu havia aperfeiçoado ao longo dos anos. Foi fácil voltar a usá-la.
Nos dias que se seguiram, estive ocupada. Liquidei meus bens pessoais - ações do meu pai, joias da minha mãe, tudo o que eu possuía que não estava ligado a Caio.
Usei o dinheiro para estabelecer uma fundação de caridade em nome dos meus pais, dedicada a fornecer assistência jurídica para os acusados injustamente e bolsas de estudo para estudantes de arquitetura de baixa renda.
Mergulhei no trabalho, redigindo estatutos, reunindo-me com advogados, entrevistando funcionários. Era uma corrida contra o tempo.
Meu corpo estava falhando. A dor no meu peito era uma companhia constante, uma pressão surda e pesada que às vezes se aguçava em uma agonia ofuscante. Eu ficava mais fraca, mais sem fôlego, a cada dia que passava.
Caio desempenhou o papel do marido preocupado lindamente.
"Helena, você está se esforçando demais", ele dizia, tentando tirar os arquivos das minhas mãos. "Deixe minha equipe cuidar disso. Você precisa descansar."
Eu sorria fracamente e afastava suas mãos. "É o legado dos meus pais, Caio. Preciso fazer isso sozinha."
"Sinto muito", ele dizia, a testa franzida com falsa preocupação. "Sei o quanto isso significa para você. Depois do transplante, quando você estiver bem, vamos administrar juntos."
Ele prometeu estar no evento de lançamento, uma gala que eu havia planejado para anunciar oficialmente a fundação.
Naquela noite, enquanto ele se arrumava para um "jantar de negócios", notei um longo fio de cabelo loiro no colarinho de sua camisa branca. Não o meu castanho escuro. Não senti nada. A parte de mim que podia sentir ciúmes ou mágoa havia morrido.
Na noite da gala, eu estava sustentada por um coquetel de analgésicos, meu sorriso pintado no rosto. O salão de festas estava cheio da elite da cidade, todos lá para apoiar uma causa nobre.
Então, um grito repentino cortou a conversa educada.
A multidão se abriu. Lá, no centro da sala, estava Carla Santos. Ela estava no chão, agarrando sua barriga grávida, o rosto uma máscara de terror.
Eu apenas fiquei lá, minha mente entorpecida. Claro. Claro que ela estaria aqui. Ela não podia nem me deixar ter essa última coisa. Ela tinha que envenenar meu último ato de amor por meus pais.
Caio correu para o lado dela assim que os repórteres avançaram, suas câmeras piscando como uma tempestade violenta.
"Helena, por favor!", Carla soluçou, rastejando de joelhos em minha direção. "Sinto muito! Tive que ir embora todos aqueles anos! Eles estavam me ameaçando, minha família... eles me fizeram incriminar seu pai! Por favor, me perdoe!"
Foi uma performance magistral. A vítima, forçada a uma escolha impossível, agora implorando por perdão.
"Sr. Sampaio!", gritou um repórter. "Qual é a sua relação com a Sra. Santos?"
Caio os ignorou, sua equipe de segurança se movendo para esvaziar a sala. Ele se abaixou para ajudar Carla, depois pareceu pensar melhor, sua mão pairando desajeitadamente no ar.
Ele se virou para mim, o rosto uma nuvem de tempestade. "Helena, por que ela está de joelhos? O que você disse a ela?"
Olhei para além dele, meus olhos fixos em Carla. "Por que você está aqui?" Minha voz era plana, desprovida de emoção.
Lágrimas escorriam por seu rosto. "Eu... eu só queria me desculpar. Por favor, Helena, não machuque meu bebê. Ele é inocente."
Caio se interpôs entre nós. "Já chega, Helena. Ela veio aqui para se desculpar. Você não precisa ser tão agressiva."
Agressiva? Eu queria rir. Eu estava a um suspiro da morte, e ele me chamava de agressiva.
A dor no meu peito se intensificou. Eu tinha que sair dali. Virei-me, de cabeça erguida, e me afastei da cena, minha dignidade o único escudo que eu tinha.
No momento em que entrei no carro, a fachada desmoronou. Eu desabei, soluços sacudindo meu corpo frágil. Vi o rosto dele, o jeito que ele olhava para ela, os olhos cheios de uma ternura que ele não me mostrava há anos.
Meu telefone começou a tocar sem parar. Caixas de correio de voz cheias de xingamentos. Mensagens me chamando de monstro.
Abri um site de notícias. As manchetes eram brutais. "Esposa Traída Humilha Amante Grávida." "Filha de Arquiteto Ataca Vítima do Pai em Fúria."
Eles haviam distorcido a história completamente, me pintando como a vilã, Carla como a santa. Eles desenterraram as mentiras sobre meu pai, chamando-o de desgraça. Minha fundação foi rotulada como uma farsa, uma maneira de lavar o "dinheiro sujo" da nossa família.
Tentei postar um comentário, explicar, mas minhas palavras foram deletadas instantaneamente. Uma enxurrada de ódio encheu a tela.
A voz do motorista estava tensa. "Senhora, tem um carro atrás de nós. Eles estão na nossa cola há quilômetros."
Olhei para trás. Um SUV preto ziguezagueava no trânsito, diminuindo a distância com uma velocidade aterrorizante. Não eram paparazzi. Isso era outra coisa.
Procurei meu telefone, meus dedos tremendo enquanto discava para Caio.
Em sua cobertura, Caio olhava para as notícias em alta, o maxilar cerrado.
"Limpe isso", ordenou ao seu assistente. "Tudo."
Carla agarrou seu braço, o corpo tremendo. "Caio, estou com tanto medo. E se essas coisas que estão dizendo online... e se as pessoas acreditarem?"
Ele olhou para ela, depois para a foto dela chorando no chão. "Você realmente tinha que ir lá hoje à noite, Carla?"
O rosto dela se desfez. "Eu só queria consertar as coisas!", ela chorou, enterrando o rosto em seu peito. "Eu sei que a Helena me odeia, mas nunca pensei que ela seria tão cruel em público."
Ele se abrandou, envolvendo-a em seus braços. "Eu sei, eu sei." Ele pensou na "bravura" dela no colégio, como ela supostamente o defendeu. Ele devia tudo a ela. Sua lealdade era uma névoa ofuscante e fatal.
Minha ligação chegou. Ele viu meu nome na tela. Ele viu a foto do rosto de Carla manchado de lágrimas. Seu polegar pairou sobre o botão verde, depois pressionou o vermelho, encerrando a chamada.
Sua raiva, alimentada pelas mentiras dela, acabara de assinar minha sentença de morte.