Meu marido, Arthur, o homem que o mundo via como meu devoto admirador, era o artista da minha dor. Ele já havia me punido noventa e cinco vezes, e esta era a nonagésima sexta.
Então, uma mensagem da minha meia-irmã, Joyce, vibrou no meu celular: uma foto de sua mão com unhas perfeitas segurando uma taça de champanhe, com a legenda: "Comemorando mais uma vitória. Ele realmente me ama mais."
Uma segunda mensagem, de Arthur, veio em seguida: "Meu amor, está descansando? Pedi para o médico ir aí. Sinto muito que tenha sido assim, mas você precisa aprender. Chego em casa logo para cuidar de você."
Eu sempre soube que Joyce era o gatilho, mas nunca entendi o mecanismo. Pensei que fosse apenas a crueldade particular de Arthur, inflamada pelas mentiras de Joyce.
Mas então, encontrei uma gravação de voz de Arthur. Sua voz calma preencheu o quarto silencioso: "...número noventa e seis. Uma mão quebrada. Deve ser o suficiente para apaziguar Joyce desta vez. Mas minha dívida precisa ser paga. Quinze anos atrás, Joyce salvou minha vida. Ela me tirou daquele carro em chamas depois do sequestro. Jurei naquele dia que a protegeria de tudo e de todos. Até da minha própria esposa."
Minha mente ficou em branco. Sequestro. Carro em chamas. Quinze anos atrás. Era eu quem estava lá. Fui eu a garota que tirou um menino apavorado e chorando do banco de trás, pouco antes de o carro explodir. O nome dele era Arthur. Ele me chamou de sua "estrelinha". Mas quando voltei com a polícia, outra garota estava lá, chorando e segurando a mão de Arthur. Era Joyce.
Ele não sabia. Ele havia construído todo o seu sistema distorcido de justiça sobre uma mentira. Joyce havia roubado meu ato heroico, e eu estava pagando o preço. Cada célula do meu corpo gritava uma única palavra: Fugir.
Capítulo 1
Alana Menezes havia suportado noventa e cinco punições.
Esta era a nonagésima sexta.
A dor era um veneno familiar, infiltrando-se em seus ossos. Ela jazia no chão de mármore gelado do banheiro principal, seu corpo uma tela de hematomas novos e antigos.
Seu marido, Arthur Bernardes, o homem que o mundo via como seu admirador devoto, era o artista dessa dor.
Ele fazia tudo por sua meia-irmã, Joyce.
Uma semana atrás, Joyce "acidentalmente" tropeçou em um tapete em um jantar de família, derramando vinho tinto na esposa de um político.
Joyce chorou, apontando um dedo trêmulo para Alana.
"Ela deve ter colocado o tapete ali de propósito. Ela sempre teve inveja de mim."
Naquela noite, Arthur chegou em casa, seu rosto uma máscara de fria decepção.
Ele a arrastou para a cozinha e a forçou a se ajoelhar sobre cacos de vidro.
"Joyce é frágil, Alana. Você sabe disso. Você precisa aprender a ser mais cuidadosa perto dela."
Duas semanas antes disso, foi a nonagésima quarta punição.
Arthur a trancou na adega por dois dias, sem comida e com apenas uma garrafa de água.
O gatilho? Joyce reclamou que Alana havia recebido mais elogios por seu vestido em um baile de caridade.
"Você a envergonhou", Arthur disse através da grossa porta de madeira. "Você precisa entender o seu lugar."
A nonagésima terceira punição foi ainda mais absurda.
Ele segurou a cabeça dela debaixo d'água na banheira até ela quase desmaiar.
Seu crime foi esquecer de regar um vaso de orquídeas que Joyce lhes dera, uma planta à qual Alana era alérgica.
"Foi um presente, Alana. Um símbolo da bondade dela. Seu descuido é um insulto a ela."
Agora, a nonagésima sexta.
Sua mão esquerda estava estilhaçada.
Ele a golpeou repetidamente com um livro pesado de seu escritório.
Ela estava trabalhando em um novo projeto de arquitetura, um esboço do qual se orgulhava, e esqueceu de atender a uma ligação de Joyce.
Joyce então ligou para Arthur, soluçando, dizendo que Alana a estava ignorando, que devia odiá-la.
A respiração de Alana falhou. A agonia em sua mão era um grito branco e quente. Ela tentou se mover, rastejar para longe do centro da sala vasta e fria, mas todos os músculos protestaram.
Seu celular, que havia deslizado para debaixo de uma penteadeira durante a luta, de repente acendeu.
Uma mensagem. De Joyce.
Uma foto de sua própria mão, com unhas perfeitas, segurando uma taça de champanhe. A legenda dizia: "Comemorando mais uma vitória. Ele realmente me ama mais."
O coração de Alana parou. Ela sempre soube que Joyce era o gatilho, mas nunca entendeu o mecanismo. Pensou que fosse apenas a crueldade particular de Arthur, inflamada pelas mentiras de Joyce.
Então, uma segunda mensagem vibrou. Esta era de Arthur.
"Meu amor, está descansando? Pedi para o médico ir aí. Sinto muito que tenha sido assim, mas você precisa aprender. Chego em casa logo para cuidar de você."
O mundo conhecia Arthur Bernardes como um marido dedicado. Um magnata da tecnologia que só tinha olhos para sua brilhante esposa arquiteta, Alana Menezes. Ele comprava ilhas para ela, nomeava empresas em sua homenagem e falava dela em entrevistas com uma reverência geralmente reservada aos deuses.
Ninguém jamais acreditaria na verdade.
Às vezes, nem mesmo Alana conseguia. Como o homem que beijava suas cicatrizes com tanta ternura podia ser o mesmo que as colocava ali?
Ela se lembrava de sua conquista. Tinha sido implacável, uma tempestade de adoração e grandes gestos. Ele invadiu sua vida quando ela estava no fundo do poço.
Ela sempre fora cautelosa com o amor. Seu passado a ensinara a ser.
Sua mãe morreu quando ela tinha dez anos. Seu pai, um homem obcecado em subir na vida, casou-se novamente em menos de um ano.
Sua nova esposa e a filha dela, Joyce, transformaram a vida de Alana em um inferno silencioso. Ela se tornou a empregada não remunerada, a sombra em sua própria casa, culpada por todo infortúnio.
Seu pai, precisando das conexões de sua nova esposa, permitiu. Ele via Alana não como uma filha, mas como um inconveniente.
Então Arthur Bernardes apareceu. Ele a viu. Ele era um convidado em uma festa que seu pai deu e viu Joyce "acidentalmente" tropeçar em Alana, fazendo-a rolar por um pequeno lance de escadas.
Ele não a ajudou a se levantar. Em vez disso, caminhou até o pai dela e falou em uma voz baixa e perigosa.
No dia seguinte, as ações da empresa de seu pai despencaram. Arthur havia sistematicamente demolido seus negócios.
Ele então presenteou Alana com as ações majoritárias do que restou da empresa de seu pai, efetivamente devolvendo a ela a herança que seu pai planejava dar inteiramente a Joyce.
Ele fez seu pai e sua madrasta se desculparem publicamente com ela. Ele fez Joyce se transferir para uma escola em outro estado.
Ele segurou o rosto dela em suas mãos, seus olhos ardendo com uma intensidade que parecia salvação.
"Eu nunca vou deixar ninguém te machucar de novo, Alana. Eu juro."
E ela, uma garota faminta por proteção e amor, acreditou nele. Ela se jogou em seus braços e confiou a ele os pedaços quebrados de sua alma.
Uma mentira. Era tudo uma mentira.
Ele não a protegeu. Ele apenas se tornou o único autorizado a machucá-la. E ele fazia tudo por Joyce.
A percepção foi uma pedra fria e dura em seu estômago.
Ela precisava saber o porquê. Precisava entender a base dessa loucura.
Ignorando o fogo em sua mão, ela se levantou, usando a penteadeira como apoio. Tinha que chegar ao escritório dele. Seu escritório particular. Era lá que ele guardava seus segredos.
Ela cambaleou para fora do banheiro, pelo corredor grandioso e silencioso. A casa parecia uma tumba linda.
O escritório dele ficava no final da ala oeste. A porta estava trancada com um scanner biométrico. Sua impressão digital não funcionaria.
Mas a senha dele era sempre a mesma. O aniversário dela. A ironia era um gosto amargo em sua boca.
A porta se abriu com um clique.
O quarto cheirava a couro e seu perfume caro. Era um lugar onde ela raramente era permitida entrar.
Ela foi até a mesa dele. Em seu computador, um aplicativo de gravação de voz ainda estava aberto. Ele costumava gravar seus pensamentos.
Ela clicou no arquivo mais recente, datado de hoje.
Sua voz preencheu a sala silenciosa, calma e racional.
"...número noventa e seis. Uma mão quebrada. Deve ser o suficiente para apaziguar Joyce desta vez. Tem que ser o suficiente. Não suporto machucar Alana mais do que isso. Mas minha dívida precisa ser paga."
A voz continuou, e Alana sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
"Quinze anos atrás, Joyce salvou minha vida. Ela me tirou daquele carro em chamas depois do sequestro. Ela era apenas uma criança, tão corajosa. Jurei naquele dia que a protegeria de tudo e de todos. Até da minha própria esposa."
Ele suspirou. Um som de conflito genuíno.
"Alana é o meu mundo, mas ela é teimosa. Ela machuca Joyce sem pensar. Essas punições... são uma forma de corrigi-la, de equilibrar a balança. De manter minha promessa a Joyce e ainda manter Alana ao meu lado. É o único jeito."
A mente de Alana ficou em branco.
Sequestro. Carro em chamas. Quinze anos atrás.
Era eu quem estava lá.
Eu era a garota que estava brincando na mata e viu a van preta bater. Fui eu quem tirou um menino apavorado e chorando do banco de trás, pouco antes de explodir.
O nome dele era Arthur. Ele tinha uma pequena cicatriz acima da sobrancelha, um detalhe que eu nunca esqueci. Ele me chamou de sua "estrelinha" por causa da presilha em forma de estrela no meu cabelo.
Eu corri para pedir ajuda, mas quando voltei com a polícia, outra garota estava lá, chorando e segurando a mão de Arthur.
Era Joyce.
O mundo girou. Alana agarrou a mesa, uma onda de náusea a dominando.
Ele não sabia. Ele havia construído todo o seu sistema distorcido de justiça sobre uma mentira. Joyce havia roubado seu ato heroico, e Alana estava pagando o preço.
Uma dor aguda e agonizante atravessou seu estômago. Uma dor que se tornara mais frequente nos últimos meses. Os médicos não conseguiam encontrar uma causa.
Ela se lembrou de Arthur, na semana passada, abraçando-a, acariciando seu cabelo.
"Nós vamos descobrir isso, meu amor. Vou contratar todos os especialistas do mundo. Não suporto te ver com dor."
Seu amor era uma mentira. Sua proteção era uma jaula. Seu cuidado era veneno.
Cada célula do seu corpo gritava uma única palavra.
Fugir.
Ela não conseguiria sozinha. O poder de Arthur era absoluto. Ele tinha olhos e ouvidos em todos os lugares.
Ela precisava de um inimigo dele. Alguém poderoso o suficiente para desafiá-lo.
Daniel Ulisses.
Seu maior rival no mundo da tecnologia. Um homem que, segundo os tabloides, odiava Arthur há anos.
Um homem que ela conhecera na faculdade. Um homem que a olhara com uma bondade silenciosa que ela tivera medo demais para aceitar na época.
Sua mão latejava, mas uma nova e fria determinação inundou suas veias. Ela pegou seu celular reserva, escondido.
Encontrou o número dele através de uma antiga rede de ex-alunos da USP. Seus dedos tremiam enquanto ela digitava a mensagem.
"Daniel Ulisses. Aqui é Alana Menezes. Preciso da sua ajuda. Posso te dar minhas ações na Bernardes Industries. Todas elas. Apenas me tire deste país. Me dê uma nova vida."
Ela apertou enviar.
O celular vibrou em seu bolso. Era um número novo, não rastreável.
"Aqui é o Daniel."
Sua voz era exatamente como ela se lembrava da faculdade - calma, profunda e firme. Era uma âncora na tempestade de seu pânico.
"Eu preciso ir embora", Alana sussurrou, a voz rouca. "Esta noite. Preciso de uma nova identidade, uma nova vida em algum lugar que ele nunca possa me encontrar."
"Onde você está?", ele perguntou, sem nenhum traço de surpresa em seu tom.
"Estou em casa. Na mansão Bernardes."
"Fique onde está. Eu cuido de tudo. Você terá um novo passaporte, um novo nome e a confirmação de um voo em uma hora. As ações são uma oferta generosa, Alana, mas minha ajuda não depende delas."
"Não", disse ela, a voz se firmando. "É uma transação. Estou comprando minha liberdade. Você o odeia. Desmontar a empresa dele por dentro será sua recompensa."
Ela conhecia Daniel o suficiente para saber que ele era um pragmático. Apelar para sua rivalidade com Arthur era mais inteligente do que apelar para sua piedade.
Houve uma breve pausa do outro lado. "Tudo bem, Alana. Uma transação, então. Vou mandar um carro. Esteja pronta."
A linha ficou muda.
Alívio e terror lutavam dentro dela. Ela se moveu rapidamente, sua mão quebrada um lembrete surdo e latejante de sua realidade. Encontrou uma pilha de documentos na mesa de Arthur - propostas de investimento, contratos, acordos de parceria.
No fundo da pilha, ela deslizou os papéis do divórcio que seu advogado havia redigido meses atrás, uma fantasia que ela nunca pensou que teria a coragem de realizar.
Ela voltou para seu quarto, seus passos leves, quase flutuando.
Arthur voltou uma hora depois. Ele a encontrou deitada na cama, a imagem de uma esposa frágil e arrependida.
Ele correu para o lado dela, o rosto marcado pela preocupação. Ele segurou sua mão não ferida, seu toque surpreendentemente gentil.
"Meu amor, me desculpe", ele murmurou, a voz embargada pelo que parecia ser um arrependimento genuíno. "Eu odeio fazer isso com você. Eu odeio."
Ele se inclinou, seu hálito quente contra sua orelha. "Nunca pense em me deixar, Alana. Eu não sei o que faria. Acho que enlouqueceria."
Ela se lembrou da vez em que foi a um congresso de arquitetura de três dias em Curitiba. Ele rastreou seu avião, comprou todas as diárias do hotel em que ela estava e teve um ataque de pânico quando o celular dela ficou sem bateria por duas horas. Ele era obsessivo. Possessivo.
Ele via o amor dela não como um presente, mas como sua propriedade.
Alana simplesmente olhou para ele, sua expressão cuidadosamente neutra. Não podia deixá-lo ver a fúria fria que fervia sob a superfície.
"Tenho alguns projetos novos que preciso que você veja", disse ela, a voz suave. "É um novo projeto de resort. Os investidores estão ansiosos."
Ela deslizou a pilha de papéis para a cama, o acordo de divórcio escondido com segurança dentro. "Sua assinatura é necessária na aprovação preliminar."
Arthur, ansioso para voltar ao seu papel de marido solidário, nem sequer olhou para eles. Ele confiava nela implicitamente em questões de negócios e design. Era a única área em que ele a considerava sua igual.
Ele pegou sua caneta e assinou a primeira página, depois folheou, assinando cada uma sem pensar duas vezes. Sua assinatura nos papéis do divórcio foi um rabisco rápido e arrogante.
"Qualquer coisa por você, meu amor", disse ele, pondo os papéis de lado. "Sempre apoiarei seus sonhos."
Ela sentiu uma pontada amarga e triunfante. Ele acabara de assinar o fim de seu casamento, e não tinha a menor ideia.
Ele então insistiu em alimentá-la, trazendo uma bandeja de sopa e pão para a cama. Ele era um monstro, mas sua atuação como marido amoroso era impecável.
Assim que ela estava terminando a última colherada, a porta de seu quarto se abriu com um estrondo.
Joyce estava lá, um sorriso vicioso no rosto. Ela ergueu o celular.
"Olhe isso, Alana. Uma nova cicatriz para sua coleção. Esta na sua mão é particularmente feia. Será que você conseguirá segurar um lápis de novo?"
No celular dela havia uma foto em close da mão machucada e inchada de Alana.
Alana se lembrava vividamente daquela punição. Arthur havia quebrado dois de seus dedos porque Joyce alegou que Alana lhe dera um "olhar sujo".
"Apague isso, Joyce", disse Alana, a voz baixa. "E saia do meu quarto."
"Me obrigue", Joyce provocou, aproximando-se.
Passos ecoaram no corredor. Arthur estava voltando.
Os olhos de Joyce se voltaram para a porta, um lampejo de pânico e depois uma inspiração cruel neles.
Ela pegou um abridor de cartas da mesa de Alana, fez um corte superficial em seu próprio braço e cambaleou para trás bem no momento em que Arthur entrou.
"Arthur!", ela gritou, lágrimas escorrendo pelo rosto. "Alana... ela me atacou! Ela disse que ia me matar!"
Os olhos de Arthur voaram do braço sangrando de Joyce para o abridor de cartas no chão, perto dos pés de Alana.
Alana esperava a explosão. A raiva. A crença imediata nas mentiras de Joyce.
Mas não veio.
Arthur ignorou Joyce completamente. Ele correu para o lado de Alana.
"Você está bem? Ela te machucou?", ele perguntou, suas mãos pairando sobre ela, procurando por ferimentos.
Ele olhou para Joyce com fria irritação. "Joyce, o que você está fazendo aqui?"
"Ela tentou me esfaquear!", Joyce gritou, estendendo o braço.
"Alana está ferida. Ela mal consegue se mover, muito menos atacar você", disse Arthur, a voz impassível. "Não seja ridícula."
Alana o encarou, perplexa. Isso era uma novidade. Ele a estava defendendo.
"Eu não a toquei, Arthur", disse Alana, a voz tremendo com uma mistura de fúria e emoção genuína. "Verifique as câmeras. Por favor. Apenas verifique as câmeras pela primeira vez."
Seu corpo inteiro tremia. A injustiça de tudo aquilo, os anos de acusações infundadas, desabaram sobre ela.
O rosto de Arthur se suavizou. Ele a puxou para um abraço gentil. "Shh, meu amor. Está tudo bem. Eu acredito em você. Eu sempre vou acreditar em você."
Ele acariciou seu cabelo. "Você não precisa provar nada para mim."
Ele então se virou para Joyce. "Vá para casa, Joyce. Alana precisa descansar."
Joyce pareceu atordoada, depois furiosa, mas saiu do quarto batendo a porta.
Alana sentiu um lampejo de algo perigoso. Esperança.
"Você... você realmente acredita em mim?", ela perguntou, a voz baixa.
"Claro, meu amor", ele sussurrou, beijando sua testa. Ele a segurou com força por um momento, depois a soltou. "Vou buscar um pouco de água para você. Não se mova."
Ele saiu do quarto, seus passos se afastando pelo corredor.
Alana soltou um suspiro que não percebeu que estava segurando. Por um único e insano momento, ela pensou que talvez estivesse errada. Talvez ele pudesse mudar.
O pensamento foi obliterado um segundo depois.
Alguém a agarrou por trás, uma mão pressionando um pano encharcado de produtos químicos sobre sua boca e nariz.
O mundo girou, o cheiro doce e enjoativo enchendo seus pulmões.
Seu último pensamento consciente foi das palavras de despedida de Arthur. Eu acredito em você.
Outra mentira. A mais brutal de todas.
Escuridão.
Essa foi a primeira coisa que Alana registrou enquanto a consciência retornava lentamente. Uma escuridão densa e sufocante que a pressionava de todos os lados.
Ela tentou mover as mãos, mas estavam amarradas firmemente atrás das costas. Seus tornozelos também estavam amarrados.
Uma voz familiar cortou o silêncio, tingida de uma decepção cansada que fez sua pele arrepiar.
"Alana, Alana. Por que você tem que tornar isso tão difícil? Eu te disse para não machucar a Joyce."
Era Arthur.
"Eu disse que acredito em você", ele continuou, sua voz ecoando no espaço pequeno e escuro. "Mas ações têm consequências. Você tem que aprender isso."
Ela se debateu contra as amarras, um grito silencioso preso na garganta. A corda áspera cortava seus pulsos.
"Agora", a voz de Arthur comandou de algum lugar fora de sua linha de visão, "prosseguiremos com a punição número noventa e sete."
Ele nem estava na sala. Estava assistindo, ouvindo de outro lugar.
Uma luz súbita e ofuscante inundou o espaço, e uma máquina zumbiu para a vida. Duas garras de metal dispararam, agarrando sua mão esquerda já estilhaçada e prendendo-a a uma mesa de aço.
"Isso é pela dor da Joyce", a voz de Arthur anunciou, desprovida de toda emoção.
Uma broca desceu do teto, sua ponta brilhando sob a luz forte. Ela girava cada vez mais rápido, um zumbido agudo que perfurava sua própria alma.
Ela desceu em direção ao seu dedo indicador.
Alana mordeu o próprio lábio com força, o gosto metálico de sangue inundando sua boca, qualquer coisa para não gritar. A dor era excruciante, um universo de agonia explodindo em sua mão. Ela sentiu a broca ranger contra o osso.
A próxima coisa que soube foi que estava acordando em um quarto de hospital. Não um hospital público, mas a ala médica particular de Arthur em sua mansão.
O ar cheirava a antisséptico e lírios.
Através da névoa dos analgésicos, ela ouviu vozes do lado de fora de sua porta. Arthur e um médico.
"O soro de regeneração nervosa está pronto", disse o médico. "Mas só há uma dose disponível este mês. A Srta. Cummings também precisa para o corte no braço."
O coração de Alana gelou.
"Dê para a Joyce", disse Arthur sem um momento de hesitação. "A lesão dela, embora menor, foi causada pela agressão de Alana. Isso servirá como um lembrete para minha esposa. Deixe que a dor dela lhe ensine uma lição."
Uma lição. Ele havia destruído a mão dela e estava chamando isso de lição. Ele ainda acreditava em Joyce. Suas palavras de confiança no quarto não passaram de um prelúdio para essa tortura.
Um pequeno som involuntário escapou de seus lábios, um gemido de puro desespero.
A porta se abriu com um estrondo.
Arthur correu para o lado dela, seu rosto uma imagem perfeita de preocupação amorosa.
"Meu amor, você está acordada", ele sussurrou, estendendo a mão para ela. "Você me assustou."
Ele a viu se encolher ao seu toque.
"O que há de errado?", ele perguntou, a testa franzida. "Você ainda está com raiva de mim?"
Ele se ajoelhou ao lado da cama dela, seus olhos suplicantes. "Eu sei que você está chateada. Mas você não pode continuar machucando a Joyce. Ela é inocente. Ela é frágil. Você quase a fez ter um ataque cardíaco."
Alana o encarou, o puro absurdo de suas palavras sugando o ar de seus pulmões.
"Minha mão, Arthur", ela sussurrou, a voz um arranhão rouco. "Você está preocupado com os sentimentos da Joyce, mas e a minha mão?"
Uma sombra de culpa cruzou seu rosto. Ele olhou para baixo, incapaz de encontrar seus olhos.
"Foi necessário", disse ele em voz baixa. "Para te ensinar."
Então ele fez algo que revirou seu estômago. Ele tirou uma pequena faca afiada do bolso, do tipo que usava para abrir cartas.
Ele passou a lâmina pela própria palma da mão, um corte profundo e limpo. O sangue brotou, pingando no chão branco e imaculado.
"Vê?", disse ele, seus olhos selvagens com uma espécie de dor distorcida. "Eu também estou sofrendo, Alana. Sua dor é a minha dor. Me perdoe. Por favor, me perdoe."
Ela se lembrou dele fazendo isso antes. Era sua tática de manipulação final. Quando suas punições iam longe demais, quando ele via a luz nos olhos dela começar a diminuir, ele se machucava. Uma forma de compartilhar a dor, de provar que seu amor era real, um ato de penitência desequilibrado para puxá-la de volta da beira do abismo.
Tinha funcionado antes. Ela havia chorado, cuidado de seus ferimentos e acreditado em seu remorso.
Não mais. Ela via o ato pelo que era: uma performance. Uma forma de controlá-la, de fazê-la se sentir culpada por sua própria crueldade.
"Estou cansada", disse ela, a voz plana e vazia. "Quero dormir."
Ele pareceu magoado com a frieza dela, mas assentiu. "Claro, meu amor. Descanse. Estarei bem aqui."
Ele puxou uma cadeira para o lado da cama e se recusou a sair, apesar dos protestos das enfermeiras. Ele ficou ali por dois dias, observando-a, às vezes falando com ela em tons baixos e amorosos, recontando suas memórias mais felizes.
Ele a alimentou, a banhou e cuidou de seus ferimentos com uma gentileza que era absolutamente aterrorizante em seu contraste com sua violência.
Uma das enfermeiras suspirou sonhadoramente enquanto trocava o soro de Alana. "O Sr. Bernardes te ama tanto. Nunca vi um marido tão dedicado."
Alana quis rir. Se elas soubessem.
No terceiro dia, ela ouviu um choro suave vindo do corredor.
Era Joyce. Ela estava parada do lado de fora da porta, falando com Arthur.
"Arthur, eu te amo", Joyce sussurrou, a voz embargada por lágrimas falsas. "Eu sei que ela é sua esposa, mas você sabe como eu me sinto."
O sangue de Alana gelou. Ela se ergueu um pouco, o coração batendo forte.
Pela fresta da porta, ela viu.
Arthur, seu marido dedicado e amoroso, puxou Joyce para um abraço.
Ele olhou nervosamente para o quarto de Alana, certificando-se de que ela ainda estava "dormindo".
Então, ele se inclinou e beijou Joyce.
Não foi um selinho de consolo na bochecha. Foi um beijo profundo e apaixonado, um que falava de um segredo feio e compartilhado.
Alana sentiu o último pedaço de seu coração virar pó.
Sua aliança de casamento parecia uma marca de ferro em seu dedo. Com a mão boa, ela, lenta e deliberadamente, a tirou. Foi uma luta, seus dedos inchados pelo soro.
Ela segurou o anel de diamante, o símbolo de seu "amor eterno", e o jogou na lixeira de metal ao lado de sua cama.
Ele caiu com um clique suave e final.
Arthur escolheu aquele momento para voltar. Ele viu o espaço vazio em seu dedo, depois seus olhos correram para a lixeira.
Ele viu o anel.