Eu fui a mulher que tirou meu marido, o bilionário da tecnologia Breno Queiroz, do fundo do poço. Nossa história era um conto de fadas moderno que todos conheciam.
Então, descobri que estava grávida. Mas o bebê não era meu. Era um embrião criado por ele e minha pior inimiga, implantado em mim sem meu consentimento. Eu era apenas uma barriga de aluguel para o herdeiro deles.
Quando minha mãe estava morrendo, ele se recusou a ajudar, deixando-a perecer por negligência médica porque estava ocupado demais com sua amante.
Quando tentei ir embora, ele teve o registro do meu advogado cassado e me trancou em nossa mansão, uma prisioneira em uma gaiola de ouro. Ele me pressionou contra a parede e me disse que eu era sua propriedade para sempre.
Depois que ele me submeteu a um procedimento médico aterrorizante apenas para me lembrar de quem estava no controle, eu soube que o homem que eu havia salvado era um monstro.
Ele não apenas me traiu; ele assassinou minha mãe e roubou meu corpo.
Então, fiz um acordo com seu maior rival. Vendi minha participação majoritária em sua empresa por quinhentos milhões de reais e um plano para desaparecer. No convés do superiate que ele batizou com meu nome, forjei um aborto espontâneo, provoquei uma explosão e me joguei no mar.
Breno Queiroz acreditaria que eu estava morta. Ele acreditaria que havia levado sua esposa e seu precioso herdeiro ao suicídio.
Que ele vivesse com isso.
Capítulo 1
"Você foi o anjo que o salvou do fundo do poço. Essa é a história que todo mundo conhece, Amélia."
Hélio Jeferson sentou-se à minha frente, seu terno caro perfeitamente alinhado, sua expressão uma mistura de curiosidade e cautela. Estávamos em uma sala privativa de um restaurante tão exclusivo que nem tinha nome, em pleno Jardins.
"A mulher que tinha um food truck e apoiou o grande Breno Queiroz por três anos enquanto ele não era nada. Um conto de fadas dos tempos modernos."
Encarei o copo de água intocado à minha frente. A história era verdadeira. Eu tinha feito tudo aquilo. E agora eu era a esposa de Breno Queiroz.
"Eu quero fazer um acordo, Hélio."
Ele se inclinou ligeiramente para a frente, seus olhos afiados. Ele era o maior rival de Breno no mundo da tecnologia, um homem que faria qualquer coisa para conseguir uma vantagem.
"Estou ouvindo."
"Eu vou te dar minha participação de trinta por cento no Grupo Queiroz."
Sua compostura se quebrou. Um lampejo de choque cruzou seu rosto. Trinta por cento era uma participação majoritária. Era o suficiente para destronar Breno.
"O que você quer em troca?", ele perguntou, a voz baixa.
"Quinhentos milhões de reais. E que você me ajude a desaparecer."
Observei-o processar a informação. O dinheiro não era nada comparado ao poder que eu estava oferecendo. Mas a segunda parte era o problema.
"Desaparecer?"
"Quero que me ajude a forjar minha morte."
Hélio Jeferson me encarou, a boca ligeiramente aberta. O CEO pragmático e oportunista estava, pela primeira vez desde que o conheci, sem palavras. O ar na sala ficou denso e pesado.
Ele finalmente encontrou sua voz. "Sra. Queiroz... Amélia. Você está com algum tipo de problema? Existem outras maneiras de terminar um casamento. Advogados de divórcio existem por um motivo."
Ele estava tentando ser razoável, me demover de um precipício que ele não conseguia ver.
"Um divórcio não vai funcionar", eu disse, minha voz vazia. "Ele nunca vai me deixar ir."
As palavras tinham gosto de cinzas. Pensei nos últimos meses. A vigilância constante. A forma como seus olhos escureciam se eu falasse com outro homem por muito tempo. A possessividade que ele disfarçava de amor.
Pensei no teste de gravidez positivo no balcão do meu banheiro, um teste que fiz há dois dias. Pensei na alegria ofuscante no rosto de Breno, uma alegria que parecia uma jaula se fechando ao meu redor.
E pensei na minha mãe.
Seu rosto, pálido e magro em uma cama de hospital. As ligações frenéticas que fiz para Breno, implorando para que ele usasse sua influência, para conseguir o especialista de que ela precisava. Suas garantias displicentes.
"Ela está recebendo o melhor tratamento, Amélia. Não se preocupe."
Ela morreu uma semana depois do que os médicos chamaram de "complicações imprevistas", resultado de negligência médica. O especialista nunca foi chamado. Breno estava ocupado demais lançando um novo produto. Ocupado demais com Catarina Vasconcelos.
Pensei em flagrá-los. Breno e Catarina, minha algoz do colégio, a mulher cuja ganância corporativa da família levou a empresa do meu próprio pai à falência, resultando em seu suicídio anos atrás. Eles estavam na nossa cama. Na minha cama.
A memória era um golpe físico, roubando meu fôlego.
"Ele me encontrará em qualquer lugar deste planeta, Hélio", eu disse, minha voz tremendo um pouco antes de eu forçá-la a ficar firme. Olhei-o diretamente nos olhos, deixando-o ver o abismo dentro de mim. "A única maneira de eu ser livre é se ele pensar que estou morta."
Empurrei um documento pela mesa. Um acordo preliminar de transferência de ações.
"Esta é uma oferta por tempo limitado. Sim ou não. Se for sim, quero o dinheiro em uma conta offshore até o final do dia. E quero um plano. Um iate, uma explosão, um aborto forjado. Inarrastreável."
Hélio pegou o papel, seus olhos percorrendo o texto. O silêncio se estendeu.
Então, um bipe baixo. Ele olhou para o celular. Olhou de volta para mim, sua expressão indecifrável.
"A transferência está feita", disse ele. "Quinhentos milhões. Os detalhes da conta estão neste celular descartável." Ele deslizou um pequeno celular preto pela mesa. "Minha equipe entrará em contato para coordenar o resto. Eles são os melhores. Ninguém jamais a encontrará."
Levantei-me, pegando o celular. Não disse obrigada. Isso não era um favor. Era uma transação. Minha alma pela minha liberdade.
Enquanto eu saía, deixando-o com o poder de arruinar meu marido, ouvi-o perguntar ao seu assistente: "Por que o aborto? Por que adicionar esse detalhe?"
Não esperei por uma resposta. Eu sabia o porquê.
Porque o filho que eu carregava não era meu.
Entrei no meu carro, minhas mãos tremendo tanto que mal conseguia segurar o volante. Consegui dirigir alguns quarteirões antes de parar em uma rua escura e vazia.
As muralhas cuidadosamente construídas que eu ergui ao redor do meu coração desmoronaram. Um soluço rasgou minha garganta, cru e agonizante. Desabei sobre o volante, a dor do último ano, da última década, caindo sobre mim.
Não era para ser assim.
Lembrei-me da primeira vez que o vi. Breno não era um magnata da tecnologia na época. Era apenas um homem, sangrando em um beco atrás do meu food truck, espancado e deixado para morrer por agiotas. Ele havia perdido tudo. Sua empresa, sua fortuna, sua noiva.
Essa noiva era Catarina.
Limpei suas feridas. Dei-lhe sopa quente e um lugar para ficar. Ouvi enquanto ele me contava seus sonhos de recuperar tudo. Seus olhos ardiam com uma intensidade que me atraiu. Ele era brilhante e quebrado, e eu me apaixonei.
Por três anos, trabalhei em turnos duplos, investindo cada centavo que eu tinha para apoiá-lo enquanto ele reconstruía seu império do meu minúsculo apartamento. Ele era implacável, incansável. Ele via inimigos em todos os lugares.
Uma vez, ele quebrou a mão de um homem que me assediou na rua. Ele olhou para mim então, os nós dos dedos ensanguentados, e disse: "Ninguém desrespeita o que é meu."
Na época, pensei que era proteção. Não vi que era a possessão que realmente era.
Ele me pediu em casamento uma dúzia de vezes. Em telhados, em parques, no meio de uma rua lotada. Cada vez com um anel maior, um gesto mais grandioso. Eu sempre dizia sim.
Nós nos casamos. O primeiro ano foi um borrão de felicidade. Ele me cobriu de presentes, de afeto. Ele me chamava de sua rainha, sua salvadora. Ele construiu uma narrativa para o mundo: o bilionário que nunca esqueceu a mulher que o amou quando ele não tinha nada.
Era uma história perfeita. E ele era seu autor perfeito.
Então, as rachaduras apareceram. Suas viagens de trabalho ficaram mais longas. Seu celular estava sempre virado para longe de mim.
Eu os encontrei há um ano. Catarina, na minha casa, usando meu roupão. A expressão em seu rosto era de puro triunfo. A expressão no rosto de Breno era... de contrariedade. Não de culpa. Contrariedade por ter sido pego.
Tentei ir embora. Tantas vezes.
Fiz minhas malas. Ele me encontrou no aeroporto e me carregou de volta para casa como uma criança.
Entrei com o pedido de divórcio. Ele teve o registro do advogado cassado.
"Você é minha esposa, Amélia", ele disse, sua voz terrivelmente calma enquanto me prendia contra uma parede. "Você não vai a lugar nenhum. Nunca."
Então veio o acidente. Uma pequena queda na cozinha. Bati a cabeça. No hospital, me disseram que eu estava grávida.
Por um momento, senti um lampejo de esperança. Um bebê. Talvez um bebê consertasse isso. Talvez trouxesse de volta o homem por quem me apaixonei.
Breno ficou em êxtase. Tornou-se carinhoso, atencioso. Prometeu terminar as coisas com Catarina. Prometeu ser o pai perfeito, o marido perfeito.
Ele estava mentindo.
Duas semanas atrás, eu o ouvi no telefone com seu médico. Eu estava no jardim, logo abaixo da janela do seu escritório.
"A fertilização in vitro foi um sucesso", disse o médico. "A barriga de aluguel está saudável."
Um pavor gelado me invadiu. Continuei ouvindo.
"Apenas certifique-se de que Amélia nunca descubra que o óvulo que usamos era da Sra. Vasconcelos", disse Breno. "Ela é o receptáculo perfeito. Forte. Saudável. Ela levará meu herdeiro até o fim, e então... ela terá cumprido seu propósito."
Meu propósito. Ser um receptáculo para o filho do meu marido e sua amante.
O mundo girou em seu eixo.
Então veio o golpe final e imperdoável. A doença da minha mãe. Sua crueldade casual. Sua recusa em ajudar. Não foi apenas negligência. Foi uma escolha. Ele a deixou morrer.
Foi quando o amor que eu sentia por ele se transformou em algo frio e duro. Foi quando contatei Hélio Jeferson.
Uma batida forte na janela do meu carro me trouxe de volta ao presente.
Meu sangue gelou.
Era Breno.
Abaixei o vidro, meu rosto uma máscara cuidadosamente inexpressiva.
Ele não estava sorrindo. Seus olhos, da cor de um mar tempestuoso, me percorreram, procurando.
"Onde você esteve?" Sua voz era baixa, carregada de suspeita.
"Apenas tomando um ar", eu disse, meu coração batendo contra minhas costelas.
"Você deveria estar em casa há uma hora. Eu te liguei. Você não atendeu."
Não era uma pergunta. Era uma acusação. Ele via tudo como uma traição. Um ano atrás, eu estaria frenética para acalmar sua raiva possessiva. Teria me desculpado, explicado, tranquilizado.
Não mais.
Pensei nele quebrando a mão daquele homem. Pensei nele dizendo a um advogado com o registro cassado que eu era sua propriedade. Pensei na minha mãe, sozinha naquele quarto de hospital.
Encontrei seu olhar e o sustentei, meu silêncio uma forma de desafio.
"Amélia." Ele suavizou o tom, uma tática que agora eu reconhecia como pura manipulação. Ele estendeu a mão pela janela, sua mão acariciando minha bochecha. Seu toque parecia uma marca de ferro. "Não faça isso. Não me exclua."
"Estou cansada, Breno."
"Eu sei que você ainda está chateada com sua mãe", disse ele, sua voz gotejando falsa simpatia. "E eu sei que não tenho estado... presente. Mas tudo isso vai mudar. Por você. Pelo nosso bebê."
Ele estava tentando reescrever a história, suavizar as arestas de sua traição com promessas vazias.
Senti uma risada amarga subir pela minha garganta, mas a engoli. Eu tinha que fazer meu papel. Só mais um pouco.
Deixei-o ver um lampejo de rendição em meus olhos. Inclinei-me para seu toque, um gesto que me custou tudo.
"Ok, Breno", sussurrei.
Ele sorriu, um sorriso triunfante e possessivo que não me enganava mais.
"Vamos para casa, meu amor."
Enquanto eu dirigia de volta para a gaiola de ouro que ele chamava de nosso lar, um pensamento ecoava em minha mente.
Eu estou te deixando. Estou deixando esta vida. E você nunca vai me encontrar.
O funeral foi um evento sombrio, um mar de ternos pretos e murmúrios baixos. O caixão da minha mãe estava fechado, um arranjo de lírios brancos cobrindo a madeira escura. Cada olhar de compaixão parecia uma mentira. Eles me viam como a filha enlutada, a amada esposa do grande Breno Queiroz. Não viam a mulher que estava sufocando.
Breno estava ao meu lado, um pilar de força para as câmeras, sua mão um peso pesado na base das minhas costas. Um genro perfeito e enlutado.
Então, eu a vi.
Catarina Vasconcelos, caminhando em nossa direção, seu rosto uma máscara de tristeza que não alcançava seus olhos frios e calculistas. Ela usava um vestido preto ridiculamente caro, mais adequado para um coquetel do que para um funeral.
Meu sangue virou gelo.
"O que ela está fazendo aqui?", sibilei para Breno, minha voz baixa e venenosa.
Ele apertou minhas costas, um aviso silencioso. "Comporte-se, Amélia. As pessoas estão olhando."
Catarina parou na nossa frente. "Amélia, eu sinto muito, muito mesmo pela sua perda. Sua mãe era uma mulher maravilhosa."
A hipocrisia era de tirar o fôlego.
"Saia daqui", eu disse, minha voz tremendo de raiva.
Ela fingiu choque, colocando a mão sobre o coração. "Eu só vim prestar minhas condolências."
"Você quer prestar suas condolências?" Minha voz se elevou, atraindo alguns olhares curiosos. "Ajoelhe-se, Catarina. Ajoelhe-se aqui neste chão frio e implore o perdão da minha mãe. Perdão pela vida que você e sua família destruíram. Perdão pelo meu pai."
Um suspiro percorreu a pequena multidão que se formava ao nosso redor.
Os olhos de Catarina brilharam de raiva antes que a máscara de luto voltasse ao lugar. Ela olhou para Breno, uma donzela em perigo.
"Breno, eu..."
"Amélia, já chega", disse Breno, seu tom não deixando espaço para discussão. Ele a estava protegendo. Ali, no funeral da minha mãe, ele estava protegendo sua amante.
"Chega?" Eu ri, um som agudo e quebrado. "Nunca será o suficiente. Eu quero que ela vá embora."
Ele se inclinou, seu hálito quente contra minha orelha. "Não faça uma cena. Discutiremos isso em casa." As palavras eram uma ameaça.
Catarina me deu um pequeno sorriso triunfante por cima do ombro de Breno. Ela tinha vencido. Ela sempre vencia.
Olhei para os lírios brancos no caixão, meu coração um peso frio e morto no peito. Eu não podia lutar com ele aqui. Não podia lhe dar essa satisfação.
"Tudo bem", sussurrei, a palavra uma rendição.
Ele se endireitou, seu rosto público de volta ao lugar. "Catarina, talvez seja melhor você ir", disse ele, sua voz gentil. Ele a estava livrando.
Ele a pegou pelo cotovelo e a levou para longe, murmurando algo que não consegui ouvir. A multidão os observava, seus sussurros seguindo o casal. Provavelmente pensaram que ele era um santo, lidando com sua esposa histérica com tanta graça enquanto confortava uma amiga da família.
A ironia era uma pílula amarga.
Virei-me, incapaz de observá-los. Senti-me completamente sozinha, uma ilha de luto genuíno em um oceano de performance. O resto do serviço passou como um borrão. Não ouvi o elogio fúnebre. Não senti os tapinhas de compaixão no meu ombro. Minha mente era um espaço em branco, entorpecido.
Depois, Breno nos levou para casa em silêncio. A tensão no carro era uma coisa viva. Olhei pela janela, observando as luzes da cidade se tornarem um borrão, evitando deliberadamente seu olhar.
Ele finalmente quebrou o silêncio quando entramos em nossa garagem. "Precisamos conversar sobre o que aconteceu hoje."
"Não há nada para conversar."
"Você me envergonhou, Amélia. Você se envergonhou."
Ele estacionou o carro, mas não desligou o motor. Virou-se para mim, o rosto duro. "Eu conhecia sua mãe há anos. Eu me importava com ela."
A mentira era tão descarada, tão insultuosa, que quase me fez rir. Pensei nele, anos atrás, comendo o ensopado caseiro da minha mãe em nosso pequeno apartamento, dizendo a ela que sempre cuidaria de sua filha. Prometendo-lhe o mundo.
"Você se importava com ela?", perguntei, minha voz perigosamente baixa. "É por isso que você a deixou morrer?"
Seus olhos brilharam. "Não seja ridícula. Não foi isso que aconteceu."
"Não foi?"
Antes que ele pudesse responder, um caminhão, com os faróis apagados, surgiu dobrando a esquina. Estava se movendo impossivelmente rápido.
Só tive tempo de gritar o nome dele.
O impacto foi violento, um esmagamento brutal de metal e vidro estilhaçado. Minha cabeça bateu contra a janela lateral. A dor, branca, quente e ofuscante, explodiu em meu abdômen.
O mundo girou. Senti o gosto de sangue.
"O bebê", ofeguei, agarrando minha barriga.
O carro fora arremessado para a calçada, o lado do motorista esmagado. Breno parecia praticamente ileso, protegido pelo volume do motor.
Ele olhou para mim, os olhos arregalados com algo que não consegui decifrar. Medo? Contrariedade?
Seu telefone tocou. A tela se iluminou com uma foto de Catarina.
Ele atendeu.
"Você está bem?", disse ele ao telefone, a voz tensa de preocupação. "Onde você está? Fique aí. Estou indo."
Ele soltou o cinto de segurança.
Eu o encarei, minha mente lutando para processar o que estava acontecendo. A dor irradiava por mim em ondas. O sangue se espalhava pelo meu vestido.
"Breno, não", implorei, minha voz fraca. "Me ajude. Por favor."
Ele olhou para mim, o rosto uma máscara fria e sem emoção. Olhou para o sangue manchando meu vestido. Olhou de volta para o meu rosto.
E então ele saiu do carro.
Ele nem olhou para trás. Apenas começou a correr pela rua, desaparecendo na escuridão, me deixando sozinha nos destroços.
O abandono foi mais doloroso que o acidente. Foi uma confirmação final e brutal do que eu já sabia. Eu não era nada para ele. O bebê não era nada. Apenas Catarina importava.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, misturando-se com o sangue. Tentei alcançar a maçaneta da porta, mas estava emperrada. A dor no meu estômago estava piorando, uma sensação aguda e cortante.
Um homem passeando com seu cachorro correu até a janela do carro. "Senhora, você está bem? Estou ligando para o 190!"
"Por favor", solucei, minha voz mal um sussurro. "Meu marido... ele me deixou. Por favor, você tem que me ajudar. Meu bebê..."
O mundo começou a desvanecer nas bordas. Pontos pretos dançavam em minha visão. A voz do homem tornou-se distante, abafada.
A última coisa que vi antes de desmaiar foi a rua vazia onde Breno estivera. Ele se foi. Total e completamente.
Acordei com o bipe constante de um monitor cardíaco e uma dor surda e latejante no abdômen. O cheiro de antisséptico enchia meu nariz. Eu estava em um quarto de hospital particular, do tipo de luxo estéril que o dinheiro de Breno podia comprar.
Meu primeiro pensamento foi no bebê.
Levantei-me, ignorando o protesto agudo dos meus músculos. Minha mão foi instintivamente para minha barriga. Ainda estava lá. Uma onda de alívio, complicada e confusa, me invadiu.
Eu precisava sair. Precisava saber o que estava acontecendo.
Passei as pernas para o lado da cama, meu corpo doendo a cada movimento. Encontrei um roupão sobre uma cadeira e o vesti. O corredor estava silencioso, o chão polido refletindo a iluminação fraca da noite.
Movi-me lentamente, usando a parede como apoio. Estava procurando por uma enfermeira, um médico, qualquer um. Ao me aproximar do posto de enfermagem, ouvi vozes vindas de uma pequena sala de estar privativa.
Uma voz era de Breno. A outra pertencia ao seu assistente pessoal, um homem chamado Marcus. Gelei, me escondendo nas sombras do corredor.
"Senhor, tem certeza disso?", Marcus soava hesitante, preocupado. "Deixar a Sra. Queiroz logo após o acidente... a mídia..."
"Eu cuido da mídia", Breno retrucou. Sua voz era fria, desprovida de qualquer preocupação. "Catarina estava histérica. Ela achou que o caminhão estava vindo atrás dela. Ela precisava de mim."
Meu coração parou. Catarina. Ele me deixou sangrando em um carro destruído por ela. Porque ela estava com medo.
"Mas a Sra. Queiroz está grávida, senhor. Com seu filho. O que o senhor fez esta noite... trancá-la na máquina de ressonância magnética..."
Tapei a boca com a mão para abafar um grito. Do que ele estava falando?
"Ela tem claustrofobia", disse Breno, sua voz plana e assustadoramente distante. "Um pequeno susto foi necessário. Ela tem se comportado mal. A cena no funeral. Seu desafio. Ela precisava de um lembrete de quem está no controle."
Ele não estava falando do acidente de carro. Estava falando de outra coisa. Algo que aconteceu depois. Devo ter sido trazida para cá, e ele... ele fez algo comigo.
"Esta criança é meu herdeiro, Marcus. É a única coisa que importa. Amélia é apenas a portadora. Uma incubadora. Um meio para um fim. Assim que o bebê nascer, sua utilidade terá acabado."
As palavras foram como socos, cada uma aterrissando com força brutal. Uma incubadora. Um meio para um fim.
"E o senhor tem certeza de que ela ainda não sabe sobre a doadora do óvulo?", perguntou Marcus.
"Ela não é inteligente o suficiente para descobrir", Breno zombou. "E mesmo que descobrisse, o que ela faria? Ela não tem nada. Ninguém. A mãe dela está morta. Eu me certifiquei disso."
O mundo se dissolveu em um grito silencioso. Eu me certifiquei disso.
Não foi negligência. Não foi um erro. Ele havia intencionalmente negado tratamento. Ele havia assassinado minha mãe.
Senti uma onda de náusea tão forte que tive que me agarrar à parede para não desmaiar. O homem que eu amei, o homem que eu salvei, era um monstro. Um assassino a sangue frio que orquestrou a morte da minha mãe e agora estava usando meu corpo para carregar o filho dele com outra mulher.
"Ela vai entrar na linha", Breno continuou, sua voz cheia de uma confiança arrogante que fez minha pele arrepiar. "Ela me ama. Ela é fraca. Ela vai me perdoar por tê-la deixado esta noite, assim como perdoa todo o resto. Ela sempre perdoa."
Não consegui mais ouvir. Voltei cambaleando pelo corredor, minha mente um turbilhão de horror e luto. Ele achava que eu era fraca. Achava que eu o perdoaria.
Ele não tinha ideia de quem eu era mais.
Eu tinha que ser esperta. Tinha que fingir.
Voltei para o meu quarto bem a tempo de uma enfermeira entrar. Deitei-me na cama, arrumando meu rosto em uma máscara de confusão fraca.
"Sra. Queiroz, você acordou!", disse ela alegremente. "Você nos deu um belo susto."
"O que aconteceu?", perguntei, minha voz um rouco convincente.
"Você tem alguns hematomas e uma concussão leve do acidente, mas você e o bebê estão perfeitamente bem. As ordens do médico são para você ficar em observação. E precisamos levá-la para uma ressonância magnética de rotina, apenas para verificar sua lesão na cabeça."
A ressonância. As palavras de Breno ecoaram em meus ouvidos. Um pequeno susto foi necessário.
Meu sangue gelou. Ele havia planejado isso.
"Ok", eu disse, forçando um sorriso pequeno e confiante. Eu tinha que seguir o jogo. Era a única maneira.
Dois maqueiros vieram e me transferiram para uma maca. Eles me levaram para o departamento de imagem, as luzes brilhantes do hospital piscando sobre minha cabeça. Eles foram gentis e profissionais. Quase me deixei acreditar que era apenas um procedimento de rotina.
Eles me ajudaram a deitar na cama estreita da máquina de ressonância magnética.
"Vamos apenas deslizá-la para dentro agora, Sra. Queiroz", disse um deles. "Apenas fique perfeitamente imóvel."
Quando a cama começou a se mover, me deslizando para dentro do tubo apertado e cilíndrico, minha respiração ficou presa na garganta. As paredes pareciam estar se fechando.
Uma memória, nítida e aterrorizante, brilhou em minha mente. Eu era uma criança, talvez com seis anos. Brincando de esconde-esconde com meus primos. Eu me escondi em uma geladeira velha e abandonada. A porta se fechou, a trava se encaixando no lugar.
A escuridão. O silêncio. A sensação do ar ficando rarefeito. O pânico, arranhando e gritando, presa naquela caixa pequena e sufocante. Meu pai finalmente me encontrou, horas depois, histérica e mal respirando.
Eu tinha pavor de espaços fechados desde então. Breno sabia disso. Ele sabia que era meu medo mais profundo e primitivo.
A máquina ganhou vida, o barulho alto e rítmico ecoando a batida frenética do meu coração. Eu estava presa. As paredes estavam a centímetros do meu rosto. Eu não conseguia me mover. Não conseguia respirar.
Eu gritei. Implorei para que me deixassem sair. Arranhei as paredes do tubo, minhas unhas raspando no plástico duro. Mas ninguém veio. O barulho continuou, uma trilha sonora implacável para o meu terror.
Meus pulmões ardiam. Pontos pretos dançavam em minha visão. O mundo se estreitou para este tubo sufocante. A dor no meu abdômen voltou, aguda e insistente. Eu ia morrer aqui. Ele ia me matar, assim como matou minha mãe.
Não sei quanto tempo fiquei lá dentro. Pareceu uma eternidade.
Então, quando senti que estava prestes a perder a consciência, o barulho parou. A cama começou a deslizar para fora.
As luzes brilhantes da sala eram ofuscantes. Uma figura estava sobre mim. Não era um médico ou um maqueiro.
Era Hélio Jeferson.
"Recebi sua mensagem", disse ele, o rosto sombrio. "Parece que precisamos acelerar o plano."