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Seu mundo ideal.

Seu mundo ideal.

Autor:: renata medeirosM
Gênero: Aventura
Desembarquei em Las Vegas ainda sem acreditar na reviravolta que minha vida tinha acabado de dar. Eu iria participar do The Ultimate Fighter, maior reality show de UFC da porra do planeta. E ia ficar dois meses sendo treinado pelo próprio Jon Jones. O cara era não só era um dos meus maiores ídolos como também era pica para caralho, só havia sido derrotado no octógono uma única ocasião. De bônus, ainda pisaria fora do Brasil pela primeira vez. E logo na Cidade de Pecado. Não tinha como combinar mais comigo. Eu sempre lutei, desde criança. Comecei no judô com 5 anos de idade e de lá até a adolescência passei pelo muay thai, jiu jitsu, boxe e capoeira. Além de, claro, uns treinos ocasionais dando porrada nos filhos da puta que implicavam com a minha irmã na escola. Eles sempre chegavam confiantes acreditando que como eu era mais novo, seria fácil me derrotar. Se fodiam. Mas foi quando ingressei na faculdade de jornalismo que passei a me dedicar ao treino de forma profissional. No meu primeiro semestre, numa Chopada, conheci meu parceiro e irmão de vida, Edu. Ele na época era meu veterano do quinto período. Toda a nossa interação aconteceu basicamente porque ele queria pegar uma garota, mas ela disse que não deixaria a amiga sozinha.

Capítulo 1 Seu mundo ideal.

ARTHUR

Desembarquei em Las Vegas ainda sem acreditar na reviravolta que

minha vida tinha acabado de dar. Eu iria participar do The Ultimate Fighter,

maior reality show de UFC da porra do planeta. E ia ficar dois meses sendo

treinado pelo próprio Jon Jones. O cara era não só era um dos meus maiores

ídolos como também era pica para caralho, só havia sido derrotado no

octógono uma única ocasião. De bônus, ainda pisaria fora do Brasil pela

primeira vez. E logo na Cidade de Pecado. Não tinha como combinar mais

comigo.

Eu sempre lutei, desde criança. Comecei no judô com 5 anos de idade e de

lá até a adolescência passei pelo muay thai, jiu jitsu, boxe e capoeira. Além

de, claro, uns treinos ocasionais dando porrada nos filhos da puta que

implicavam com a minha irmã na escola. Eles sempre chegavam confiantes

acreditando que como eu era mais novo, seria fácil me derrotar. Se fodiam.

Mas foi quando ingressei na faculdade de jornalismo que passei a me

dedicar ao treino de forma profissional.

No meu primeiro semestre, numa Chopada, conheci meu parceiro e

irmão de vida, Edu. Ele na época era meu veterano do quinto período. Toda a

nossa interação aconteceu basicamente porque ele queria pegar uma garota,

mas ela disse que não deixaria a amiga sozinha.

― Fala aí, brother. Tá vendo aquela mina? ― ele disse, se aproximando

de mim e apontando para uma garota loira um pouco afastada.

― Gostosa. ― respondi, analisando a garota de cima a baixo.

― Então, eu quero pegar a ruivinha do lado, mas ela meteu o caô de que

não quer deixar a amiga sozinha. ― ele não precisava dizer mais nada. Eu já

tinha entendido o recado.

― Tô ligado. Deixa comigo. ― aproximei-me da loira gostosa e em dois

minutos minha língua já estava dentro da boca dela.

De lá pra cá, eu e Edu tínhamos nos tornado inseparáveis. Foi ele quem me

apresentou pela primeira vez à um amigo que era empresário e agente

esportivo. Henrique, o agente, pediu para assistir alguns dos meus treinos e

me perguntou se eu teria interesse de lutar profissionalmente MMA, um

esporte que misturava todas as artes marciais. Assinamos um primeiro

contrato mais curto e com lutas de pequeno porte, como um teste para ver

como eu me saía.

No primeiro ano de contrato, venci as 24 lutas que competi, 23 com

nocaute. Meu desempenho começou a chamar a atenção de algumas equipes

e outros empresários. Recebi inúmeros convites que me permitiriam

conseguir uma escalada vertiginosa para o ramo mais disputado do MMA.

Mas foi Henrique que me ofereceu tudo quando eu ainda não tinha nada e por

isso segui com ele, ainda que o caminho pudesse ser mais demorado.

Ano após ano, segui lutando campeonatos estaduais, até me tornar

conhecido no esporte. Nos últimos dois anos, meu nome já estava

relativamente famoso no Brasil, principalmente porque eu me destacava mais

do que a maioria dos meus oponentes.

Fui campeão do campeonato nacional e mantive meu desempenho

invicto. Nenhuma derrota. Para felicidade da minha mãe e da minha irmã,

Helena, que se desesperavam cada vez que eu lutava. As duas ainda não

tinham nem conseguido assistir a nenhuma luta pessoalmente de tanto

nervosismo.

Com os dois títulos nacionais e a empresa de Henrique crescendo

exponencialmente, recebi no final do ano passado o convite mais incrível da

minha vida. A chance de participar do The Ultimate Fighter. Se eu

conseguisse me sagrar o campeão dessa temporada, eu assinaria um contrato

de 2 anos com o UFC, 12 lutas e uma bolsa por luta de 12 mil dólares.

Com esse dinheiro eu conseguiria investir nos cursos de especialização em

jornalismo esportivo que eu tanto queria. Quando me formei na faculdade,

mesmo amando lutar, eu tinha o sonho de me tornar apresentador de algum

programa de esporte. Mas esse nicho é fodidamente inacessível para quem

não tem um "padrinho" dentro da televisão.

A única parte ruim de participar do TUF era ter que encarar o fodido do

Renan durante mais tempo do que eu gostaria. Ele era um filhinho de papai

que também era agenciado pelo Henrique como troca de favores para o pai

dele. A gente se detestava desde a primeira vez que nossos olhares tinham se

cruzado. Sem motivo, gratuitamente. Mas eu sabia ele era um filho da puta,

então tinha razão em odiá-lo.

◆◆◆

Eu tinha conseguido chegar na final. E melhor ainda, o babaca do

Renan tinha batucado nas quartas de final. A minha carreira de lutador tinha

crescido mais nos últimos meses do que em todos esses anos. Com a

transmissão do reality show semana após semana, minhas redes sociais

bombaram. Meu Instagram tinha acabado de bater 500 mil seguidores e eu já

estava recebendo contatos para algumas propagandas de material esportivo e

suplementos. Henrique disse que meu nome ficou nos trending topics do

Twitter no Brasil durante a transmissão da minha luta na semifinal.

No meio dos treinos diários, por horas a fio, eu conseguia tirar um

pouco das noites para me distrair e sair para conhecer a cidade. E de

preferência, voltar acompanhado para o hotel. Apesar de amar o esporte, a

única atividade física que jamais me cansava e que eu nunca recusaria era

sexo.

Eduardo: Fala, mlk. O grande dia tá chegando, hein. É amanhã

A mensagem de Edu brilhou na tela do meu celular. Eu tinha acabado

de pedir ao barman um drink para a mulher sentada no bar ao meu lado. Eu

seguia bebendo água, já que amanhã seria o dia da final do TUF.

Arthur: Vou acabar com aquele fdp no 2o round, pode anotar

Eduardo: Pq no 2o?

Arthur: Não quero tirar a graça da galera q tá pagando pay per view

e acabar a luta nos primeiros minutos, né brother

Arthur: Seria mto vacilo

Guardei o celular de volta no bolso e concentrei minha atenção na

mulher. A bebida que eu tinha pedido chegou e eu aguardei até que ela

bebesse tudo para convidá-la até meu quarto de hotel. Ela obviamente não

recusou.

O sexo foi médio, mas deu para relaxar. Assim que terminamos, vesti

minha boxer e pedi um Uber para a gostosa da noite. Eu precisava de uma

noite tranquila de sono antes da grande final.

Acordei no dia seguinte com o sol no meu rosto e várias mensagens

no meu celular.

Helena: Boa sorte hj, maninho e por favor toma cuidado. Lu e

Bernardo vão estar torcendo pelo tio preferido junto cmg.

Deslizei a tela e vi mais algumas notificações.

Mãe: Se cuida filho. Vc já é o campeão da mamãe.

Rafael: Fala aí, cunhado, já to com a cerveja e o churrasco

preparado pra colocar o pay per view e te ver vencer. Bellini e Gusta tbm

vão vir e te mandaram arrebentar a cara do canadense filho da puta

Sofia: Boa sorte, Arthur! Eu e Thithi estamos torcendo por vc. Bjos

Eu sempre fui o preferido da minha mãe, por mais que Helena se

recusasse a aceitar. Minha mãe era daquelas que implicava com todas as

namoradas que eu tive durante a escola, sempre dizendo que nenhuma delas

era boa o suficiente para mim. Até que eu decidi que namorar não combinava

comigo.

Rafael era marido da minha irmã e um grande amigo. Desde o início

das minhas competições ele sempre me deu força pra seguir em frente. Sofia,

era irmã dele e uma ex foda casual. Ela era uma mulher incrível, divertida e

que mesmo depois de tudo, eu ainda conseguia manter como amiga.

A luta aconteceria às dez horas da noite, no horário de Las Vegas. Durante

o dia inteiro eu estaria numa programação de fisioterapia e poucos exercícios

físicos. A maior parte do dia de hoje seria dedicada à estratégia.

Às nove horas da noite, eu desci para o saguão do hotel onde seria o

evento, com um segurança do programa, meu empresário e o treinador

adjunto. Fui cercado por jornalistas enquanto tentava atravessar o percurso

até o carro que nos levaria à Arena.

― É o Birkman! The Wolf! ― alguns jornalistas anunciavam aos outros

em inglês, atraindo pelo menos 10 deles atrás de mim. Durante o programa,

eu tinha sido apelidado pelo meu treinador como Arthur "The Wolf"

Birkman, pela minha habilidade de partir para cima do adversário como um

lobo, mas principalmente pela tatuagem que cobria todo o meu antebraço

direito com a imagem do animal.

― Birkman, o que você gostaria de dizer ao seu adversário de hoje? ― um

jornalista me questionou. Parei de andar. Meu segurança permitiu que eu me

aproximasse do celular esticado na minha direção.

― Que eu espero que ele se recupere bem depois que eu arrebentar a cara

dele daqui a pouco. ― respondi em inglês e pisquei para uma das repórteres

que me cercava. Ela sorriu pra mim e esticou um papel na minha direção.

Não precisei nem abrir para saber que o telefone dela estava ali dentro. Até

que ela seria um excelente jeito de comemorar a vitória.

Assim que cheguei do lado de fora da Arena, os gritos do público sendo

entretido pelas lutas menores da noite me atingiu. Henrique me levou para o

camarim e me mandou trocar de roupa. No meio de todos os contatos de

patrocínio, eu tinha conseguido fechar com a marca de materiais esportivos

Everlast como fornecedora do meu uniforme. Coloquei meu tradicional short

de compressão preto e um roupão da mesma cor por cima. O treinador entrou

no camarim pronto para colocar a bandagem nas minhas mãos antes da luva.

Os minutos anteriores a luta pareceram segundos, mas apesar disso, eu não

estava nervoso. Lutar era o que eu fazia melhor, então se eu não acreditasse

que poderia vencer, não estaria nessa porra. Entrei no octógono e encarei de

frente o idiota que eu ia precisar destruir hoje. Nada contra ele, claro. Mas era

parte do jogo. Quando o juiz anunciou o início da luta, eu ouvi o público

gritar ao mesmo tempo que eu avançava sobre o meu adversário.

Nossa modalidade de luta era completamente diferente. Eu lutava no estilo

striker, partindo para cima do adversário de forma ofensiva, especialmente

com chutes e socos, sem dar a chance de um ataque. O canadense era mais do

estilo finalizador, que tenta levar o adversário para o solo e terminar a luta.

Ele tinha vencido todas as suas disputas no TUF desse jeito. Pena que para

que ele tivesse chance comigo, precisaria primeiro conseguir me colocar no

chão. E eu nunca caía.

Meu adversário tinha estudado meu estilo. Quando avancei sobre ele com

dois cruzados de esquerda e um de direita, ele conseguiu desviar do primeiro

soco, mas não dos outros dois. Durante os primeiros 4 minutos, eu seguia

chutando e socando de forma estratégica para que ele perdesse as forças. Ele,

por sua vez, só se defendia, provavelmente esperando que eu cansasse e ele

pudesse me derrubar no chão.

Eu estava começando a ficar entediado da porra da cara desse filho da puta.

Eu estava aqui para lutar e não para ficar observando-o se defender como um

imbecil. Eu odiava lutar com finalizadores.

Verdade seja dita, eu havia tentado entreter o público na Arena e em casa,

mas já estava na hora de mostrar para o canadense quem mandava nessa

merda.

Diminuí a velocidade dos golpes propositalmente. Quando ele acreditou

que eu estava me cansando, deu um passo para trás e pegou velocidade com o

objetivo de tentar agarrar meu tronco e me derrubar. Eu não desviei, armei

um chute frontal e sem que ele esperasse acertei seu maxilar. Ele caiu no

chão na mesma hora. Parti para cima determinado a finalizar aquela luta, mas

antes que eu precisasse acertar mais um soco sequer, o juiz entrou no meio e

declarou o nocaute.

Eu era agora campeão do The Ultimate Fighter e oficialmente contratado

pelo UFC por dois anos. E isso era só o começo.

Capítulo 2 Seu mundo ideal.

MAYA

― Me diz de novo: por que a gente está assistindo esse negócio mesmo?

― perguntei aos meus dois colegas de casa enquanto me sentava no sofá

segurando uma vasilha de pipoca e uma garrafa de Smirnoff Ice.

― Porque eu sou constantemente obrigado a assistir aos filmes que vocês

escolhem. Então nada mais justo do que vocês assistirem a final do TUF

comigo. ― Ramiro respondeu com os olhos vidrados na televisão. ― Porra,

isso aí! ― ele comemorou enquanto um cara caía de cara no chão na tela da

tv. ― Ano que vem, se tudo der certo, eu vou estar assistindo a final ao vivo

em Vegas, já que ver a disputa oficial do cinturão do UFC é mais concorrido

do que o tal show da Sandy & Júnior que vocês tanto falavam! Vocês podem

ir comigo se quiserem.

― Eu assisto porque tem vários homens gostosos sem camisa. ― Iane

respondeu.

― Agora sim eu vi vantagem. ― respondi, fazendo Ramiro revirar os

olhos.

― A luta é um tipo de arte. E você mais do que ninguém deveria saber

disso, já que é a artista dessa casa. ― meu amigo me repreendeu.

Nós três compartilhamos um apartamento de três quartos no Flamengo.

Iane foi a primeira moradora do apê 403. Ela se mudou para cá assim que

passou no vestibular para cursar Publicidade e Propaganda. Assim, ficaria

mais próxima da faculdade. Ela e Ramiro se conheceram nas primeiras

semanas de aula e se aproximaram devido a um trabalho que precisaram fazer

juntos. Quando ele comentou que precisava de um lugar para morar, ela disse

que tinha um quarto sobrando no apartamento em que morava.

Iane e eu nos conhecemos desde... Bom, desde sempre já que somos

primas. Apesar de Iane ser mais velha dois anos, sempre fomos melhores

amigas e vivíamos grudadas uma na outra. Depois de um tempo, quando eu

passei no vestibular e decidi que queria sair da casa dos meus pais, ela me

convidou para ocupar o quarto que ainda tinha sobrado por aqui. Foi assim

que uma aspirante a atriz, uma louca do cabelo colorido e um apaixonado por

lutas marciais viraram melhores amigos.

Atualmente, eu trabalhava como professora de teatro para crianças em

uma escola perto de casa. Eu gostava do meu trabalho e ele pagava as minhas

contas. Mas, desde que eu comecei a cursar Artes Cênicas, meu objetivo

sempre foi estrelar uma grande peça no teatro. Meu maior sonho, óbvio, um

dia é me apresentar na Broadway. Sonhar não custa nada, né? Embora, por

enquanto, tudo que eu tinha conseguido foram pequenos papéis em algumas

peças teatrais e figuração em algumas novelas. Mas eu não desisto dos meus

sonhos. Todo teste de elenco euzinha sou presença confirmada. Uma hora

meu momento vai chegar. Não é isso que dizem? Se você pensar positivo, a

positividade vai até você. Ou algo assim.

― Quem é esse Deus grego? Olha só esse tanquinho. ― Iane comentou.

Retornei minha atenção para o programa que estava na televisão.

― Quando dizem que lugar de mulher é no tanque, eu imagino um tanque

assim. ― eu respondi olhando para o cara gostoso que estava lutando. ―

Qual o nome desse lutador, Ramiro? Eu vou seguir no Instagram agora

mesmo.

― O nome dele é Arthur Birkman. Ele é uma lenda. No último ano foi

campeão nacional invicto e foi convidado pro TUF esse ano.

Joguei o nome do lutador na busca da rede social e logo achei o seu perfil,

repleto de fotos sem camisa para a minha sorte.

Ai. Meu. Deus. Ele tinha uma foto (sem camisa, claro) com uma criança

e um cachorro? Isso era demais para o meu coração.

― Iane, você está vendo o perfil desse cara? ― perguntei à minha prima,

sentada esparramada do outro lado do sofá.

― A gente precisa mandar A mensagem.

― Eu voto sim! ― respondi.

A mensagem era uma brincadeira inventada, com muito orgulho, por mim.

Em uma noite de sábado, depois de mais taças de vinho do que eu estava

acostumada, abri meu Instagram com uma missão: mandar uma mensagem

escrito "vc é gostoso d+" para um modelo gringo famoso na rede social que

eu seguia há um tempo. Por que eu fiz isso? Não sei. Mas a Maya bêbada

achou que seria interessante dizer para um cara que ela nunca viu na vida que

ele era gostoso, mesmo que ele nem sequer entendesse português.

Como a Maya bêbada sempre tem razão, nós tornamos isso a nossa

própria espécie de ritual de melhores amigas. A partir desse dia, sempre que

o perfil de alguém gostoso, brasileiro ou gringo, aparece na nossa tela

mandamos A mensagem.

― Vocês nunca desistem disso? ― Ramiro perguntou. ― Ele tem mais de

500 mil seguidores. Vocês nunca serão notadas.

― Nunca diga nunca, Ramirinho. ― eu brinquei enquanto mandava A

mensagem para Arthur. ― E a graça é exatamente essa. Mandar várias

mensagens até um dia ser notada. Pode deixar que eu apresento ele para você

quando virarmos melhores amigos de Instagram. Você vai poder tietar ele à

vontade, tirar foto e tudo.

― Eu já tenho foto com ele, querida. ― Ramiro se gabou. Puxando o

celular do bolso, ele abriu seu próprio perfil e me mostrou um story antigo

dos dois juntos depois de alguma luta que ele havia assistido ao vivo.

― Quando e como você conheceu esse deus grego? ― questionei.

― Ser publicitário de marcas voltadas para o esporte tem seus benefícios,

Maya. Talvez assim vocês se animem a ir comigo em alguma luta quando eu

chamar da próxima vez.

Ramiro quase sempre conseguia ingressos de graça para assistir às lutas.

Muitas vezes ele convidava Iane e eu para irmos com ele, mas a gente sempre

inventava uma desculpa. Eu estava tão arrependida. Nunca mais iria sugerir

que ele levasse outros amigos no meu lugar. De repente MMA me pareceu

um esporte muito, muito interessante.

◆◆◆

No dia seguinte, a brisa fresca que tinha surgido no Rio de Janeiro tinha

tornado possível que eu ficasse sentada na sacada do nosso apartamento,

bebendo um suco e escrevendo o roteiro para a peça de final de semestre dos

meus alunos. Esse ano o tema escolhido foi Peter Pan na Terra do Nunca. As

crianças estavam super empolgadas e confesso que eu também. Depois da

história da Chapeuzinho Vermelho, Peter Pan era a que eu mais gostava. Eu

estava no meio de uma das minhas cenas preferidas quando uma notificação

de nova mensagem no WhatsApp apareceu no canto inferior direito da tela do

meu computador.

Lívia: Oie, amigos! Nosso reencontro de alunos está marcado para o

próximo sábado, às 20h, no pátio do nosso querido Colégio Nossa Senhora

da Paz. Estamos preparando tudo com muito carinho para receber a tds vcs!

Qm não confirmou presença, por favor, confirme através do link a seguir:

www.reencontrocnspaz.org/confirmacao . Um bjão a tds! :)

Alguns instantes depois, outra mensagem chegou.

Lívia: Oi, Maya. Ainda não vi seu nome na listinha dos confirmados. O

site tá abrindo direitinho pra você? Sua presença é mto importante. Se

precisar de ajuda me fala, querida. Bjinhos :*

― Nem em sonho que eu vou nisso.

― Tá falando com quem, priminha? ― Iane perguntou, me fazendo notar

que eu tinha falado aquilo em voz alta.

― Aquela vaca da Lívia Motta, lembra dela?

― Vagamente. Você deve ter reclamado comigo dela apenas umas 13.495

vezes.

Lívia Motta. O terror da minha infância e adolescência. Ela era a menina

mais popular da escola: linda, cheia de amigos e só tirava notas altas. Eu era

uma criança tímida, tinha apenas duas amigas e notas dentro da média. Minha

mãe achou que seria uma boa ideia me colocar no clube do teatro para ganhar

mais confiança e perder a timidez. E, assim como eu, Lívia também era do

mesmo clube. Mas, ao contrário de mim, ela queria mais era ser o foco de

toda atenção.

A gente estava no 4º ano quando tudo aconteceu. A nossa professora

estava fazendo a seleção dos alunos para o papel de Chapeuzinho Vermelho.

Eu precisava daquele papel. Eu amava a Chapeuzinho Vermelho. Todos os

dias eu estudava meu texto, decorando cada ponto e cada vírgula daquele

roteiro. No dia do teste, pedi para minha mãe me arrumar como se eu fosse a

própria personagem. Minha mãe, que amava a ideia de ter uma filha atriz,

arrumou uma fantasia com cesta e capa vermelha para que eu usasse. Era o

dia mais feliz da minha vida. A sorte estava ao meu favor. Quando subi no

palco para fazer o teste, surgiu em mim uma confiança que eu nem sabia que

existia. E, para minha total alegria, o papel de Chapeuzinho se tornou meu.

Lívia, que também queria esse papel, ficou morrendo de raiva de

mim. A partir desse dia ela saiu do clube de teatro e decidiu que isso era coisa

de fracassados e perdedores. Ela também decidiu que eu era a líder dos

fracassados e perdedores. E quando Lívia Motta decidia uma coisa, toda a

escola a seguia.

― Ela decidiu fazer um reencontro estúpido naquela escola estúpida. E

agora está me mandando mensagem dizendo que não viu meu nome na lista

de confirmados. Mas é óbvio que ela não viu. Não tem a menor possibilidade

de eu aparecer por lá.

― Por que não?

― Livia e os amigos populares idiotas me fizeram passar pelo verdadeiro

inferno naquela escola. Não quero ver a cara deles nem pintados a ouro.

― Ah, mas você vai sim. Você vai chegar lá toda linda e maravilhosa e

mostrar pra eles o mulherão incrível que você se tornou. ― Iane tomou o

celular da minha mão.

― O que você está fazendo, sua doida?

― Confirmando sua presença, claro. Prontinho. ― ela anunciou depois de

alguns segundos e me devolveu o celular. ― Presença confirmada. Já posso

começar a pensar no cabelo, make e roupas para você usar?

― Eu tenho outra escolha? ― perguntei ainda que eu soubesse a resposta.

2.

MAYA

― Você está uma verdadeira musa do verão. ― Iane comentou

enquanto olhávamos meu reflexo no espelho do quarto. A festa organizada

por Lívia tinha como tema Verão Tropical. Eu usava um top cropped branco

com uma saia de cintura alta azul pastel de um tecido leve que ia até a altura

dos tornozelos. Nos pés, uma sandália de tiras, também na cor branca,

completava meu look.

― Estou me sentindo uma sereia tropical com esse look. ― eu comentei,

admirando o quão bonito ficava o contraste da minha pele bronzeada com as

cores claras da minha roupa. Apesar de estar me vendo linda, eu ainda me

sentia nervosa e insegura de aparecer naquela festa com todas aquelas

pessoas que por tantos anos zoaram da minha cara.

― Que cara é essa? Você não está pensando em desistir, né?

― É só que... Iane, eu não sei se consigo. Voltar lá, no meio daquela

gente. ― o som das risadas de deboche e dos apelidos que ganhei na escola

ainda me assombravam.

― Maya, você não é mais uma garotinha. Você é um mulherão. Uma

grande atriz que em breve terá seu nome estampando todas as revistas de

fofoca do mundo. Mas fica tranquila que serão só fofocas falando bem de

você, tá? ― ela me abraçou. ― Mas, só por precaução, o Ramiro fez umas

caipirinhas pra gente beber antes de você ir. Isso vai te ajudar a ficar mais

relaxada.

Chegando na cozinha, Ramiro já estava com os drinks preparados em cima

da bancada. Ele me entregou um copo e deu outro para Iane. Erguendo seu

próprio copo, ele fez um brinde:

― Às voltas que o mundo dá. ― virei minha bebida de uma vez.

― Eu quero mais, Ramiro! Foi muito pouco.

― Seu pedido é uma ordem! ― ele imediatamente me preparou mais um

copo.

Quando terminei meu segundo copo de caipirinha já me sentia mais

alegre, solta e confiante. Peguei meu celular de dentro da bolsa para chamar

um Uber que me levaria até minha antiga escola. Ele ainda demoraria 10

minutos para chegar no meu prédio segundo o aplicativo mostrava na tela.

Aproveitei para dar uma olhada no instagram se alguma das minhas colegas

já tinham postado algum story do reencontro. Pulando de uma postagem para

outra me deparei com um vídeo do Arthur Birkman treinando, postado pelo

próprio. Não resisti. Cliquei na caixa de resposta e digitei uma mensagem:

@mayamoura respondeu ao story: nossa, hein... nem um guindaste

Aquele homem era gostoso demais para seu próprio bem. Um aviso

de que meu carro se aproximava apareceu na tela do celular, tirando minha

atenção do corpo malhado de Arthur na academia. Guardei meu celular na

bolsa, peguei minhas chaves e fui em direção ao elevador. Estava na hora de

mostrar para Lívia Motta que eu não era mais a perdedora que ela acreditava.

Na porta de entrada da festa, uma menina vestida como uma havaiana

entregava colares de flores para todos os convidados. Mais a frente, uma

mesa de madeira estava repleta de copos em formato de abacaxi.

Aparentemente, cada convidado deveria ter um copo desse e usá-lo durante

toda a noite. Pegando meu copo, fui direto para a mesa de bebidas enchê-lo.

O ginásio estava todo decorado com cangas e almofadas coloridas pelo chão.

Balões de várias cores flutuavam pelos cantos do lugar criando um ambiente

agradável e feliz. Totalmente diferente das lembranças que eu tinha da minha

adolescência naquele lugar.

Capítulo 3 Seu mundo ideal.

Parei perto da mesa que estava com as comidas e tirei meu celular da

bolsa para mandar uma mensagem para Aninha, uma das minhas únicas duas

amigas da época de escola, para saber se ela já estava vindo. Não queria ficar

ali sozinha. Mariana, a terceira integrante do nosso trio, estava fazendo um

intercâmbio e, para a própria sorte, não tinha como comparecer aqui hoje.

Depois que a escola acabou, nossa amizade permaneceu. Infelizmente não

tínhamos mais tanto contato quanto antigamente devido a vida corrida de

cada uma. Mas sempre que possível, a gente marcava de sair para fofocar e

matar as saudades.

― Maya, querida, que bom que você veio. ― uma voz irritantemente falsa

soou atrás de mim. Eu sabia quem era mesmo antes de me virar para ver o

rosto da pessoa.

― Oi... ― respondi secamente. Uma mensagem de Aninha apareceu na

tela dizendo que estava atrasada. Como sempre.

― Sou eu, Lívia Motta, lembra? ― como se eu pudesse esquecer. ― Uau,

você está tão diferente. Seu cabelo está... bem cuidado. E você não usa mais

aqueles óculos também, né? Você tinha uma carinha de nerd fofa com eles.

― nerd fofa? Ela vivia me chamando de fracassada de quatro olhos. Que

falsa!

― E você está... a mesma Lívia de sempre.

― Ah, obrigada, querida. ― não tinha sido um elogio. ― Mas olha, eu já

estou até com algumas rugas na testa. ― ela disse apontando para o próprio

rosto. Eu não poderia me importar menos. ― Me conta o que você anda

fazendo? Nunca mais ouvi falar de você.

― Eu me formei em Artes Cênicas e segui carreira de atriz. Eu estou

dan...

― Atriz, hein? Engraçado, nunca te vi na TV. Mas também essa rotina de

médica, sabe como é. Muito puxada. Fica difícil eu ter tempo para assistir

novelas, filmes, essas coisas fúteis.

― Eu não acho que a arte seja futilidade. Você teve uma fase que queria

ser atriz também, né? Por que você desistiu mesmo?

― Ah, eu não quis dizer isso. Eu... ― mas antes que ela inventasse uma

desculpa qualquer para não responder a minha pergunta, que eu sabia que

tinha a irritado, um homem alto, forte e muito bonito se aproximou de nós

duas.

― Sua bebida, meu amor. ― ele lhe entregou um copo e deu um beijo de

leve nos seus lábios. ― Acho que não nos conhecemos, eu sou o Pedro. ― o

homem disse estendendo a mão para que eu apertasse. Droga, ele ainda era

simpático. Ela não merecia esse cara. Ou melhor, ele não merecia alguém

como ela. Uma bruxa.

― Sou a Maya.

― Mais uma de suas amigas de infância? ― ele perguntou para Lívia.

― Não exatamente...― Respondi.

― O Pedro é o meu namorado. ― ela me interrompeu. ― Ele é

anestesista. Estamos juntos desde a faculdade, né Pedrinho? ― ele assentiu.

― E você, Maya? Está namorando?

Eu tenho muito orgulho do que eu me tornei. Me formei em uma das

melhores universidades do Brasil, trabalho com o que eu amo e consigo me

sustentar muito bem sozinha, mesmo a arte sendo tão desvalorizada. O fato

de não ter um namorado nunca me incomodou. Quer dizer, eu já namorei

antes. Porém, nesse momento, eu estava passando por uma fase de

autoconhecimento. Pelo menos era o que eu dizia para as pessoas. Mas,

naquele momento, totalmente tomada pela raiva e, talvez, pela inveja, o que

saiu da minha boca foi outra coisa.

― Claro que sim. Ele ficou tão arrasado que não poderia vir hoje. Mas,

sabe como é, trabalho...

― Que pena. Eu adoraria conhecer o sortudo que roubou o coração da

nossa Maya. Nunca vi você com um namorado na nossa época de escola. Eu

o conheço?

― Não. ― respondi, mais rápido do que deveria. Alguém, por favor,

me tira daqui!

― Eu quero ver uma foto dele. Cadê?

Ai. Meu. Deus. Eu estava tão ferrada, por que tive que abrir minha

boca? O que eu responderia para ela? De repente, uma ideia maravilhosa

surgiu na minha cabeça. Certamente vinda direto dos céus. Não tinha como

dar errado. Peguei meu celular da bolsa e entrei no Instagram do Ramiro. O

irmão dele não morava no Rio há anos, não tinha como os dois se

conhecerem. Era o plano perfeito. Ele tinha vindo para o Rio alguns meses

atrás, nas férias, e Ramiro tinha feito vários stories com ele dos passeios que

fizeram. Obrigada Ramiro por ser adepto da exposição nas redes sociais. Fui

até o destaque nomeado "Férias" e comecei a passar as fotos até achar uma

dos dois juntos. Coloquei meu dedo na tela para pausar na foto que eu queria.

― Esse é ele. O da direita. ― apontei mostrando a tela do celular para

ela.

― Ai, nem dá pra ver direito. Me dá isso aqui. ― Lìvia tomou o

celular da minha mão. Abusada.

― Nossa, Maya! Você se deu bem. Como você conseguiu conhecer

alguém como ele? ― o tom da sua voz era de incredulidade. Eu não achava

o irmão de Ramiro tão bonito assim, mas...

― Esse não é aquele lutador de MMA? Arthur Birkman? Já assisti

algumas lutas dele. O cara é foda! ― Pedro comentou olhando a tela do

aparelho. Espera. O QUÊ? Puxei o celular da mão de Lívia. Ah, não! Parece

que tinha como dar errado sim. Aquela definitivamente não era a foto que eu

tinha selecionado para mostrar a ela. Mas, na hora que ela pegou o celular da

minha mão, acidentalmente pulou de um story para o outro. A foto que

aparecia na tela era de um Ramiro muito feliz ao lado de ninguém mais

ninguém menos que o gostoso do Arthur em uma das lutas que ele assistiu

com o irmão nas férias. ― Como vocês se conheceram?

― A gente... ― eu era atriz. Eu tive aulas de improviso. Eu

conseguiria me sair bem dessa. ― O Ramiro, meu colega de quarto,

apresentou nós dois. Ele trabalha no meio esportivo. Marketing de empresas

de esporte, sabe como é. Você é fã de MMA? ― ai meu Deus, Maya. Cala

sua boca!

― Eu sou um cara mais do futebol, mas tenho amigos que curtem

MMA e, algumas vezes, nos reunimos para assistir algumas lutas na casa de

um deles. É nossa versão de reencontro de amigos do ensino médio. ― ele

disse rindo.

― Eu tive uma ideia! ― Lívia exclamou. ― Por que a gente não

marca de jantar todo mundo junto lá em casa um dia desses? Eu vou adorar

reviver nossas lembranças da época de escola, Maya.

― Eu posso chamar meus amigos também. ― Pedro parecia

realmente animado. ― Eles vão adorar conhecer The Wolf pessoalmente.

― Não sei, Lívia. A agenda do Arthur é muito complicada, com os

treinos e tudo mais.

― Ah, para com isso. Até parece que ele não vai querer satisfazer os

desejos da namoradinha. Bom, eu tenho seu número de telefone salvo. Você

conversa com ele e a gente marca uma data. Vou te mandar uma mensagem

durante a semana.

― Já avisei no grupo de WhatsApp dos meus amigos. Eles estão

empolgados! Esse jantar vai ser topzera. ― Pedro disse.

Eu estava muito, muito ferrada.

― Ah, olha. A Aninha chegou. Ela deve estar me procurando. Vou lá

falar com ela. Nos vemos no nosso jantar então. ― me despedi correndo

antes de falar mais alguma coisa da qual eu me arrependesse depois. Lívia

nunca deixaria aquele assunto morrer. Ela iria querer de todas as formas

conhecer meu namorado. Ainda mais agora sabendo que ele é famoso. E eu

queria muito, muito mesmo, esfregar meu namorado gostoso na cara dela.

Então, fiz a única coisa que me cabia fazer naquele momento. Abri o

Instagram do Arthur e comecei a lotar a sua caixa de mensagem.

@mayamoura: Oi, Arthur! Eu sou a Maya. Vc quer ser meu

namorado fake?

@mayamoura: Me nota pfvr, eu to desesperada!!!!!!!!!

@mayamoura: Eu meio que disse pra minha rival da época escola

que a gnt namorava e agora ela e o Pedro querem fazer um jantar pra

nós dois (e uns amigos do Pedro rsrs)

@mayamoura: O Pedro é o namorado dela, ele é anestesista e mto

lindo

@mayamoura: Eu não poderia ficar por baixo, me entende? Eu

odeio aquela vaca!

@mayamoura: Vc deve tá me achando bem doida, mas eu não sou

@mayamoura: Talvez só um pouco

@mayamoura: PELO AMOR DE DEUS ME NOTA EU PRECISO

DA SUA AJUDA!!!

ARTHUR

― PORRA, ARTHUR, DE NOVO? ― Henrique entrou na academia onde

eu treinava por 7 horas por dia, todos os dias, na preparação da minha estreia

no UFC. ― Sua sorte é que eu sei que se te der um soco, quem vai sair

perdendo é a minha mão!

― Calma, brother. Eu não sei do que você tá falando. ― respondi, me

afastando do saco de pancada onde eu treinava alguns socos e chutes.

― EU TÔ FALANDO DESSA MERDA AQUI! ― ele esticou o celular

na minha direção. Na tela, uma página de fofoca do Instagram mostrava uma

foto minha de duas noites atrás com duas mulheres nos meus braços.

― Não tem nada demais nessa foto. As duas estavam comigo por livre e

espontânea vontade...

― E A PORRA DESSE PRINT, BIRKMAN? ― Henrique gritou mais

uma vez. Peguei o celular de novo e vi o print da noite anterior quando uma

das garotas da foto tinha entrado em contato comigo pelo WhatsApp

perguntando se iríamos nos ver de novo.

― Quê? Eu fui simpático E sincero. "Poxa, gatinha, apesar de ter gostado

da nossa noite de ontem, eu não durmo com a mesma garota duas vezes pra

não dar a ela falsas esperanças. Mas foi bom te conhecer". Viu só? ―

Henrique bufou do meu lado.

― Você agora está no foco, Arthur, porra. Você é o campeão mais rápido

da história do TUF e as todas expectativas da sua estreia estão lá no alto. A

divulgação dessas fotos e desses prints já me fizeram ter que aturar duas

horas de vídeo chamada com o representante da Whey Suplementos e da

Everlast. DUAS HORAS!

Eu me senti culpado. Duas horas de vídeo chamada com o representante

chato pra porra da Whey Suplementos era o mesmo que tortura. O cara era

um mané. Ele reclamou da foto que postei como publicidade dizendo que "o

foco estava muito em mim e não no produto". O Instagram era meu, caralho.

As pessoas entravam ali porque queriam me ver, pra ver foto de shake de

suplemento elas pesquisariam no google, porra. Ele precisou dar o braço a

torcer quando minha foto bateu 150 mil likes em algumas horas. Os homens

curtiam porque queriam ser como eu e as mulheres porque obviamente

queriam sentar na minha cara.

― Aparecendo em Instagram de fofoca, Birkman? Que nível baixo. ― o

filho da puta do Renan implicou, do outro lado da academia.

― Controla a inveja, parceiro. ― retruquei. Eu odiava que Henrique

precisava aturar esse boçal. A nova agora era que na verdade ele não era um

lutador ruim, ele só demorou a descobrir que era um boxeador e precisava

investir mais para as próximas olimpíadas. Olimpíada é o caralho.

― Arthur, foca aqui. Ignora o babaca do Renan. ― Henrique pediu.

― Porra, Henrique, o que você quer que eu faça? Já vazou, não tenho o

que fazer.

― Quero que você tente ser menos imbecil. Sei que é difícil, mas se

esforce, pelo menos.

― Sua sorte é que você é meu empresário e meu amigo, se não fosse por

isso, já teria te arrebentado pelo tanto que você me irrita às vezes. ―

Henrique riu e se aproximou mais. Ele abaixou a voz e falou para que só eu

ouvisse:

― Eu recebi um contato de dentro do Plurishow. ― ergui meu olhar,

assustado. Agora ele começava a falar a minha língua. Plurishow era um

canal à cabo focado em esportes, com os maiores apresentadores esportivos

do país. ― Eles estão desenhando um projeto de quadro pro Esporte da Vez,

o programa principal de sábado.

― Eu sei o que é Esporte da Vez, porra. Desembucha logo. ― interrompi,

ansioso.

― A ideia deles é um quadro chamado "No Octógono", pra comentar as

lutas de MMA. Eles querem dois apresentadores fixos e alguns convidados

variáveis. ― eu engoli em seco. ― Eles entraram em contato comigo para

sondar se você teria interesse.

― Você respondeu que sim, né? Sim pra caralho? ― perguntei, quase

desesperado com a oportunidade. Henrique assentiu.

― Claro. Mas o quadro estrearia só daqui há uns 3 meses. Eles disseram

que vão te observar até lá.

― Fodeu. ― respondi simplesmente.

― Agora você entendeu porque não pode ficar aparecendo em Instagram

de fofoca todo dia? ― fiz que sim com a cabeça.

― Vou fazer o possível.

― Você tem sua estreia no UFC em um mês. E vai ser aqui no Rio. Foca

nisso e chega de mulher toda noite, Arthur.

― Aí você está começando a pedir demais, Henrique.

― Pelo amor de Deus, tenta só ser mais discreto, por favor.

― Isso eu posso fazer. ― sorri e me concentrei em voltar a socar

imaginando a cara do Renan naquele saco de pancadas.

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