ARTHUR
Desembarquei em Las Vegas ainda sem acreditar na reviravolta que
minha vida tinha acabado de dar. Eu iria participar do The Ultimate Fighter,
maior reality show de UFC da porra do planeta. E ia ficar dois meses sendo
treinado pelo próprio Jon Jones. O cara era não só era um dos meus maiores
ídolos como também era pica para caralho, só havia sido derrotado no
octógono uma única ocasião. De bônus, ainda pisaria fora do Brasil pela
primeira vez. E logo na Cidade de Pecado. Não tinha como combinar mais
comigo.
Eu sempre lutei, desde criança. Comecei no judô com 5 anos de idade e de
lá até a adolescência passei pelo muay thai, jiu jitsu, boxe e capoeira. Além
de, claro, uns treinos ocasionais dando porrada nos filhos da puta que
implicavam com a minha irmã na escola. Eles sempre chegavam confiantes
acreditando que como eu era mais novo, seria fácil me derrotar. Se fodiam.
Mas foi quando ingressei na faculdade de jornalismo que passei a me
dedicar ao treino de forma profissional.
No meu primeiro semestre, numa Chopada, conheci meu parceiro e
irmão de vida, Edu. Ele na época era meu veterano do quinto período. Toda a
nossa interação aconteceu basicamente porque ele queria pegar uma garota,
mas ela disse que não deixaria a amiga sozinha.
― Fala aí, brother. Tá vendo aquela mina? ― ele disse, se aproximando
de mim e apontando para uma garota loira um pouco afastada.
― Gostosa. ― respondi, analisando a garota de cima a baixo.
― Então, eu quero pegar a ruivinha do lado, mas ela meteu o caô de que
não quer deixar a amiga sozinha. ― ele não precisava dizer mais nada. Eu já
tinha entendido o recado.
― Tô ligado. Deixa comigo. ― aproximei-me da loira gostosa e em dois
minutos minha língua já estava dentro da boca dela.
De lá pra cá, eu e Edu tínhamos nos tornado inseparáveis. Foi ele quem me
apresentou pela primeira vez à um amigo que era empresário e agente
esportivo. Henrique, o agente, pediu para assistir alguns dos meus treinos e
me perguntou se eu teria interesse de lutar profissionalmente MMA, um
esporte que misturava todas as artes marciais. Assinamos um primeiro
contrato mais curto e com lutas de pequeno porte, como um teste para ver
como eu me saía.
No primeiro ano de contrato, venci as 24 lutas que competi, 23 com
nocaute. Meu desempenho começou a chamar a atenção de algumas equipes
e outros empresários. Recebi inúmeros convites que me permitiriam
conseguir uma escalada vertiginosa para o ramo mais disputado do MMA.
Mas foi Henrique que me ofereceu tudo quando eu ainda não tinha nada e por
isso segui com ele, ainda que o caminho pudesse ser mais demorado.
Ano após ano, segui lutando campeonatos estaduais, até me tornar
conhecido no esporte. Nos últimos dois anos, meu nome já estava
relativamente famoso no Brasil, principalmente porque eu me destacava mais
do que a maioria dos meus oponentes.
Fui campeão do campeonato nacional e mantive meu desempenho
invicto. Nenhuma derrota. Para felicidade da minha mãe e da minha irmã,
Helena, que se desesperavam cada vez que eu lutava. As duas ainda não
tinham nem conseguido assistir a nenhuma luta pessoalmente de tanto
nervosismo.
Com os dois títulos nacionais e a empresa de Henrique crescendo
exponencialmente, recebi no final do ano passado o convite mais incrível da
minha vida. A chance de participar do The Ultimate Fighter. Se eu
conseguisse me sagrar o campeão dessa temporada, eu assinaria um contrato
de 2 anos com o UFC, 12 lutas e uma bolsa por luta de 12 mil dólares.
Com esse dinheiro eu conseguiria investir nos cursos de especialização em
jornalismo esportivo que eu tanto queria. Quando me formei na faculdade,
mesmo amando lutar, eu tinha o sonho de me tornar apresentador de algum
programa de esporte. Mas esse nicho é fodidamente inacessível para quem
não tem um "padrinho" dentro da televisão.
A única parte ruim de participar do TUF era ter que encarar o fodido do
Renan durante mais tempo do que eu gostaria. Ele era um filhinho de papai
que também era agenciado pelo Henrique como troca de favores para o pai
dele. A gente se detestava desde a primeira vez que nossos olhares tinham se
cruzado. Sem motivo, gratuitamente. Mas eu sabia ele era um filho da puta,
então tinha razão em odiá-lo.
◆◆◆
Eu tinha conseguido chegar na final. E melhor ainda, o babaca do
Renan tinha batucado nas quartas de final. A minha carreira de lutador tinha
crescido mais nos últimos meses do que em todos esses anos. Com a
transmissão do reality show semana após semana, minhas redes sociais
bombaram. Meu Instagram tinha acabado de bater 500 mil seguidores e eu já
estava recebendo contatos para algumas propagandas de material esportivo e
suplementos. Henrique disse que meu nome ficou nos trending topics do
Twitter no Brasil durante a transmissão da minha luta na semifinal.
No meio dos treinos diários, por horas a fio, eu conseguia tirar um
pouco das noites para me distrair e sair para conhecer a cidade. E de
preferência, voltar acompanhado para o hotel. Apesar de amar o esporte, a
única atividade física que jamais me cansava e que eu nunca recusaria era
sexo.
Eduardo: Fala, mlk. O grande dia tá chegando, hein. É amanhã
A mensagem de Edu brilhou na tela do meu celular. Eu tinha acabado
de pedir ao barman um drink para a mulher sentada no bar ao meu lado. Eu
seguia bebendo água, já que amanhã seria o dia da final do TUF.
Arthur: Vou acabar com aquele fdp no 2o round, pode anotar
Eduardo: Pq no 2o?
Arthur: Não quero tirar a graça da galera q tá pagando pay per view
e acabar a luta nos primeiros minutos, né brother
Arthur: Seria mto vacilo
Guardei o celular de volta no bolso e concentrei minha atenção na
mulher. A bebida que eu tinha pedido chegou e eu aguardei até que ela
bebesse tudo para convidá-la até meu quarto de hotel. Ela obviamente não
recusou.
O sexo foi médio, mas deu para relaxar. Assim que terminamos, vesti
minha boxer e pedi um Uber para a gostosa da noite. Eu precisava de uma
noite tranquila de sono antes da grande final.
Acordei no dia seguinte com o sol no meu rosto e várias mensagens
no meu celular.
Helena: Boa sorte hj, maninho e por favor toma cuidado. Lu e
Bernardo vão estar torcendo pelo tio preferido junto cmg.
Deslizei a tela e vi mais algumas notificações.
Mãe: Se cuida filho. Vc já é o campeão da mamãe.
Rafael: Fala aí, cunhado, já to com a cerveja e o churrasco
preparado pra colocar o pay per view e te ver vencer. Bellini e Gusta tbm
vão vir e te mandaram arrebentar a cara do canadense filho da puta
Sofia: Boa sorte, Arthur! Eu e Thithi estamos torcendo por vc. Bjos
Eu sempre fui o preferido da minha mãe, por mais que Helena se
recusasse a aceitar. Minha mãe era daquelas que implicava com todas as
namoradas que eu tive durante a escola, sempre dizendo que nenhuma delas
era boa o suficiente para mim. Até que eu decidi que namorar não combinava
comigo.
Rafael era marido da minha irmã e um grande amigo. Desde o início
das minhas competições ele sempre me deu força pra seguir em frente. Sofia,
era irmã dele e uma ex foda casual. Ela era uma mulher incrível, divertida e
que mesmo depois de tudo, eu ainda conseguia manter como amiga.
A luta aconteceria às dez horas da noite, no horário de Las Vegas. Durante
o dia inteiro eu estaria numa programação de fisioterapia e poucos exercícios
físicos. A maior parte do dia de hoje seria dedicada à estratégia.
Às nove horas da noite, eu desci para o saguão do hotel onde seria o
evento, com um segurança do programa, meu empresário e o treinador
adjunto. Fui cercado por jornalistas enquanto tentava atravessar o percurso
até o carro que nos levaria à Arena.
― É o Birkman! The Wolf! ― alguns jornalistas anunciavam aos outros
em inglês, atraindo pelo menos 10 deles atrás de mim. Durante o programa,
eu tinha sido apelidado pelo meu treinador como Arthur "The Wolf"
Birkman, pela minha habilidade de partir para cima do adversário como um
lobo, mas principalmente pela tatuagem que cobria todo o meu antebraço
direito com a imagem do animal.
― Birkman, o que você gostaria de dizer ao seu adversário de hoje? ― um
jornalista me questionou. Parei de andar. Meu segurança permitiu que eu me
aproximasse do celular esticado na minha direção.
― Que eu espero que ele se recupere bem depois que eu arrebentar a cara
dele daqui a pouco. ― respondi em inglês e pisquei para uma das repórteres
que me cercava. Ela sorriu pra mim e esticou um papel na minha direção.
Não precisei nem abrir para saber que o telefone dela estava ali dentro. Até
que ela seria um excelente jeito de comemorar a vitória.
Assim que cheguei do lado de fora da Arena, os gritos do público sendo
entretido pelas lutas menores da noite me atingiu. Henrique me levou para o
camarim e me mandou trocar de roupa. No meio de todos os contatos de
patrocínio, eu tinha conseguido fechar com a marca de materiais esportivos
Everlast como fornecedora do meu uniforme. Coloquei meu tradicional short
de compressão preto e um roupão da mesma cor por cima. O treinador entrou
no camarim pronto para colocar a bandagem nas minhas mãos antes da luva.
Os minutos anteriores a luta pareceram segundos, mas apesar disso, eu não
estava nervoso. Lutar era o que eu fazia melhor, então se eu não acreditasse
que poderia vencer, não estaria nessa porra. Entrei no octógono e encarei de
frente o idiota que eu ia precisar destruir hoje. Nada contra ele, claro. Mas era
parte do jogo. Quando o juiz anunciou o início da luta, eu ouvi o público
gritar ao mesmo tempo que eu avançava sobre o meu adversário.
Nossa modalidade de luta era completamente diferente. Eu lutava no estilo
striker, partindo para cima do adversário de forma ofensiva, especialmente
com chutes e socos, sem dar a chance de um ataque. O canadense era mais do
estilo finalizador, que tenta levar o adversário para o solo e terminar a luta.
Ele tinha vencido todas as suas disputas no TUF desse jeito. Pena que para
que ele tivesse chance comigo, precisaria primeiro conseguir me colocar no
chão. E eu nunca caía.
Meu adversário tinha estudado meu estilo. Quando avancei sobre ele com
dois cruzados de esquerda e um de direita, ele conseguiu desviar do primeiro
soco, mas não dos outros dois. Durante os primeiros 4 minutos, eu seguia
chutando e socando de forma estratégica para que ele perdesse as forças. Ele,
por sua vez, só se defendia, provavelmente esperando que eu cansasse e ele
pudesse me derrubar no chão.
Eu estava começando a ficar entediado da porra da cara desse filho da puta.
Eu estava aqui para lutar e não para ficar observando-o se defender como um
imbecil. Eu odiava lutar com finalizadores.
Verdade seja dita, eu havia tentado entreter o público na Arena e em casa,
mas já estava na hora de mostrar para o canadense quem mandava nessa
merda.
Diminuí a velocidade dos golpes propositalmente. Quando ele acreditou
que eu estava me cansando, deu um passo para trás e pegou velocidade com o
objetivo de tentar agarrar meu tronco e me derrubar. Eu não desviei, armei
um chute frontal e sem que ele esperasse acertei seu maxilar. Ele caiu no
chão na mesma hora. Parti para cima determinado a finalizar aquela luta, mas
antes que eu precisasse acertar mais um soco sequer, o juiz entrou no meio e
declarou o nocaute.
Eu era agora campeão do The Ultimate Fighter e oficialmente contratado
pelo UFC por dois anos. E isso era só o começo.
MAYA
― Me diz de novo: por que a gente está assistindo esse negócio mesmo?
― perguntei aos meus dois colegas de casa enquanto me sentava no sofá
segurando uma vasilha de pipoca e uma garrafa de Smirnoff Ice.
― Porque eu sou constantemente obrigado a assistir aos filmes que vocês
escolhem. Então nada mais justo do que vocês assistirem a final do TUF
comigo. ― Ramiro respondeu com os olhos vidrados na televisão. ― Porra,
isso aí! ― ele comemorou enquanto um cara caía de cara no chão na tela da
tv. ― Ano que vem, se tudo der certo, eu vou estar assistindo a final ao vivo
em Vegas, já que ver a disputa oficial do cinturão do UFC é mais concorrido
do que o tal show da Sandy & Júnior que vocês tanto falavam! Vocês podem
ir comigo se quiserem.
― Eu assisto porque tem vários homens gostosos sem camisa. ― Iane
respondeu.
― Agora sim eu vi vantagem. ― respondi, fazendo Ramiro revirar os
olhos.
― A luta é um tipo de arte. E você mais do que ninguém deveria saber
disso, já que é a artista dessa casa. ― meu amigo me repreendeu.
Nós três compartilhamos um apartamento de três quartos no Flamengo.
Iane foi a primeira moradora do apê 403. Ela se mudou para cá assim que
passou no vestibular para cursar Publicidade e Propaganda. Assim, ficaria
mais próxima da faculdade. Ela e Ramiro se conheceram nas primeiras
semanas de aula e se aproximaram devido a um trabalho que precisaram fazer
juntos. Quando ele comentou que precisava de um lugar para morar, ela disse
que tinha um quarto sobrando no apartamento em que morava.
Iane e eu nos conhecemos desde... Bom, desde sempre já que somos
primas. Apesar de Iane ser mais velha dois anos, sempre fomos melhores
amigas e vivíamos grudadas uma na outra. Depois de um tempo, quando eu
passei no vestibular e decidi que queria sair da casa dos meus pais, ela me
convidou para ocupar o quarto que ainda tinha sobrado por aqui. Foi assim
que uma aspirante a atriz, uma louca do cabelo colorido e um apaixonado por
lutas marciais viraram melhores amigos.
Atualmente, eu trabalhava como professora de teatro para crianças em
uma escola perto de casa. Eu gostava do meu trabalho e ele pagava as minhas
contas. Mas, desde que eu comecei a cursar Artes Cênicas, meu objetivo
sempre foi estrelar uma grande peça no teatro. Meu maior sonho, óbvio, um
dia é me apresentar na Broadway. Sonhar não custa nada, né? Embora, por
enquanto, tudo que eu tinha conseguido foram pequenos papéis em algumas
peças teatrais e figuração em algumas novelas. Mas eu não desisto dos meus
sonhos. Todo teste de elenco euzinha sou presença confirmada. Uma hora
meu momento vai chegar. Não é isso que dizem? Se você pensar positivo, a
positividade vai até você. Ou algo assim.
― Quem é esse Deus grego? Olha só esse tanquinho. ― Iane comentou.
Retornei minha atenção para o programa que estava na televisão.
― Quando dizem que lugar de mulher é no tanque, eu imagino um tanque
assim. ― eu respondi olhando para o cara gostoso que estava lutando. ―
Qual o nome desse lutador, Ramiro? Eu vou seguir no Instagram agora
mesmo.
― O nome dele é Arthur Birkman. Ele é uma lenda. No último ano foi
campeão nacional invicto e foi convidado pro TUF esse ano.
Joguei o nome do lutador na busca da rede social e logo achei o seu perfil,
repleto de fotos sem camisa para a minha sorte.
Ai. Meu. Deus. Ele tinha uma foto (sem camisa, claro) com uma criança
e um cachorro? Isso era demais para o meu coração.
― Iane, você está vendo o perfil desse cara? ― perguntei à minha prima,
sentada esparramada do outro lado do sofá.
― A gente precisa mandar A mensagem.
― Eu voto sim! ― respondi.
A mensagem era uma brincadeira inventada, com muito orgulho, por mim.
Em uma noite de sábado, depois de mais taças de vinho do que eu estava
acostumada, abri meu Instagram com uma missão: mandar uma mensagem
escrito "vc é gostoso d+" para um modelo gringo famoso na rede social que
eu seguia há um tempo. Por que eu fiz isso? Não sei. Mas a Maya bêbada
achou que seria interessante dizer para um cara que ela nunca viu na vida que
ele era gostoso, mesmo que ele nem sequer entendesse português.
Como a Maya bêbada sempre tem razão, nós tornamos isso a nossa
própria espécie de ritual de melhores amigas. A partir desse dia, sempre que
o perfil de alguém gostoso, brasileiro ou gringo, aparece na nossa tela
mandamos A mensagem.
― Vocês nunca desistem disso? ― Ramiro perguntou. ― Ele tem mais de
500 mil seguidores. Vocês nunca serão notadas.
― Nunca diga nunca, Ramirinho. ― eu brinquei enquanto mandava A
mensagem para Arthur. ― E a graça é exatamente essa. Mandar várias
mensagens até um dia ser notada. Pode deixar que eu apresento ele para você
quando virarmos melhores amigos de Instagram. Você vai poder tietar ele à
vontade, tirar foto e tudo.
― Eu já tenho foto com ele, querida. ― Ramiro se gabou. Puxando o
celular do bolso, ele abriu seu próprio perfil e me mostrou um story antigo
dos dois juntos depois de alguma luta que ele havia assistido ao vivo.
― Quando e como você conheceu esse deus grego? ― questionei.
― Ser publicitário de marcas voltadas para o esporte tem seus benefícios,
Maya. Talvez assim vocês se animem a ir comigo em alguma luta quando eu
chamar da próxima vez.
Ramiro quase sempre conseguia ingressos de graça para assistir às lutas.
Muitas vezes ele convidava Iane e eu para irmos com ele, mas a gente sempre
inventava uma desculpa. Eu estava tão arrependida. Nunca mais iria sugerir
que ele levasse outros amigos no meu lugar. De repente MMA me pareceu
um esporte muito, muito interessante.
◆◆◆
No dia seguinte, a brisa fresca que tinha surgido no Rio de Janeiro tinha
tornado possível que eu ficasse sentada na sacada do nosso apartamento,
bebendo um suco e escrevendo o roteiro para a peça de final de semestre dos
meus alunos. Esse ano o tema escolhido foi Peter Pan na Terra do Nunca. As
crianças estavam super empolgadas e confesso que eu também. Depois da
história da Chapeuzinho Vermelho, Peter Pan era a que eu mais gostava. Eu
estava no meio de uma das minhas cenas preferidas quando uma notificação
de nova mensagem no WhatsApp apareceu no canto inferior direito da tela do
meu computador.
Lívia: Oie, amigos! Nosso reencontro de alunos está marcado para o
próximo sábado, às 20h, no pátio do nosso querido Colégio Nossa Senhora
da Paz. Estamos preparando tudo com muito carinho para receber a tds vcs!
Qm não confirmou presença, por favor, confirme através do link a seguir:
www.reencontrocnspaz.org/confirmacao . Um bjão a tds! :)
Alguns instantes depois, outra mensagem chegou.
Lívia: Oi, Maya. Ainda não vi seu nome na listinha dos confirmados. O
site tá abrindo direitinho pra você? Sua presença é mto importante. Se
precisar de ajuda me fala, querida. Bjinhos :*
― Nem em sonho que eu vou nisso.
― Tá falando com quem, priminha? ― Iane perguntou, me fazendo notar
que eu tinha falado aquilo em voz alta.
― Aquela vaca da Lívia Motta, lembra dela?
― Vagamente. Você deve ter reclamado comigo dela apenas umas 13.495
vezes.
Lívia Motta. O terror da minha infância e adolescência. Ela era a menina
mais popular da escola: linda, cheia de amigos e só tirava notas altas. Eu era
uma criança tímida, tinha apenas duas amigas e notas dentro da média. Minha
mãe achou que seria uma boa ideia me colocar no clube do teatro para ganhar
mais confiança e perder a timidez. E, assim como eu, Lívia também era do
mesmo clube. Mas, ao contrário de mim, ela queria mais era ser o foco de
toda atenção.
A gente estava no 4º ano quando tudo aconteceu. A nossa professora
estava fazendo a seleção dos alunos para o papel de Chapeuzinho Vermelho.
Eu precisava daquele papel. Eu amava a Chapeuzinho Vermelho. Todos os
dias eu estudava meu texto, decorando cada ponto e cada vírgula daquele
roteiro. No dia do teste, pedi para minha mãe me arrumar como se eu fosse a
própria personagem. Minha mãe, que amava a ideia de ter uma filha atriz,
arrumou uma fantasia com cesta e capa vermelha para que eu usasse. Era o
dia mais feliz da minha vida. A sorte estava ao meu favor. Quando subi no
palco para fazer o teste, surgiu em mim uma confiança que eu nem sabia que
existia. E, para minha total alegria, o papel de Chapeuzinho se tornou meu.
Lívia, que também queria esse papel, ficou morrendo de raiva de
mim. A partir desse dia ela saiu do clube de teatro e decidiu que isso era coisa
de fracassados e perdedores. Ela também decidiu que eu era a líder dos
fracassados e perdedores. E quando Lívia Motta decidia uma coisa, toda a
escola a seguia.
― Ela decidiu fazer um reencontro estúpido naquela escola estúpida. E
agora está me mandando mensagem dizendo que não viu meu nome na lista
de confirmados. Mas é óbvio que ela não viu. Não tem a menor possibilidade
de eu aparecer por lá.
― Por que não?
― Livia e os amigos populares idiotas me fizeram passar pelo verdadeiro
inferno naquela escola. Não quero ver a cara deles nem pintados a ouro.
― Ah, mas você vai sim. Você vai chegar lá toda linda e maravilhosa e
mostrar pra eles o mulherão incrível que você se tornou. ― Iane tomou o
celular da minha mão.
― O que você está fazendo, sua doida?
― Confirmando sua presença, claro. Prontinho. ― ela anunciou depois de
alguns segundos e me devolveu o celular. ― Presença confirmada. Já posso
começar a pensar no cabelo, make e roupas para você usar?
― Eu tenho outra escolha? ― perguntei ainda que eu soubesse a resposta.
2.
MAYA
― Você está uma verdadeira musa do verão. ― Iane comentou
enquanto olhávamos meu reflexo no espelho do quarto. A festa organizada
por Lívia tinha como tema Verão Tropical. Eu usava um top cropped branco
com uma saia de cintura alta azul pastel de um tecido leve que ia até a altura
dos tornozelos. Nos pés, uma sandália de tiras, também na cor branca,
completava meu look.
― Estou me sentindo uma sereia tropical com esse look. ― eu comentei,
admirando o quão bonito ficava o contraste da minha pele bronzeada com as
cores claras da minha roupa. Apesar de estar me vendo linda, eu ainda me
sentia nervosa e insegura de aparecer naquela festa com todas aquelas
pessoas que por tantos anos zoaram da minha cara.
― Que cara é essa? Você não está pensando em desistir, né?
― É só que... Iane, eu não sei se consigo. Voltar lá, no meio daquela
gente. ― o som das risadas de deboche e dos apelidos que ganhei na escola
ainda me assombravam.
― Maya, você não é mais uma garotinha. Você é um mulherão. Uma
grande atriz que em breve terá seu nome estampando todas as revistas de
fofoca do mundo. Mas fica tranquila que serão só fofocas falando bem de
você, tá? ― ela me abraçou. ― Mas, só por precaução, o Ramiro fez umas
caipirinhas pra gente beber antes de você ir. Isso vai te ajudar a ficar mais
relaxada.
Chegando na cozinha, Ramiro já estava com os drinks preparados em cima
da bancada. Ele me entregou um copo e deu outro para Iane. Erguendo seu
próprio copo, ele fez um brinde:
― Às voltas que o mundo dá. ― virei minha bebida de uma vez.
― Eu quero mais, Ramiro! Foi muito pouco.
― Seu pedido é uma ordem! ― ele imediatamente me preparou mais um
copo.
Quando terminei meu segundo copo de caipirinha já me sentia mais
alegre, solta e confiante. Peguei meu celular de dentro da bolsa para chamar
um Uber que me levaria até minha antiga escola. Ele ainda demoraria 10
minutos para chegar no meu prédio segundo o aplicativo mostrava na tela.
Aproveitei para dar uma olhada no instagram se alguma das minhas colegas
já tinham postado algum story do reencontro. Pulando de uma postagem para
outra me deparei com um vídeo do Arthur Birkman treinando, postado pelo
próprio. Não resisti. Cliquei na caixa de resposta e digitei uma mensagem:
@mayamoura respondeu ao story: nossa, hein... nem um guindaste
Aquele homem era gostoso demais para seu próprio bem. Um aviso
de que meu carro se aproximava apareceu na tela do celular, tirando minha
atenção do corpo malhado de Arthur na academia. Guardei meu celular na
bolsa, peguei minhas chaves e fui em direção ao elevador. Estava na hora de
mostrar para Lívia Motta que eu não era mais a perdedora que ela acreditava.
Na porta de entrada da festa, uma menina vestida como uma havaiana
entregava colares de flores para todos os convidados. Mais a frente, uma
mesa de madeira estava repleta de copos em formato de abacaxi.
Aparentemente, cada convidado deveria ter um copo desse e usá-lo durante
toda a noite. Pegando meu copo, fui direto para a mesa de bebidas enchê-lo.
O ginásio estava todo decorado com cangas e almofadas coloridas pelo chão.
Balões de várias cores flutuavam pelos cantos do lugar criando um ambiente
agradável e feliz. Totalmente diferente das lembranças que eu tinha da minha
adolescência naquele lugar.
Parei perto da mesa que estava com as comidas e tirei meu celular da
bolsa para mandar uma mensagem para Aninha, uma das minhas únicas duas
amigas da época de escola, para saber se ela já estava vindo. Não queria ficar
ali sozinha. Mariana, a terceira integrante do nosso trio, estava fazendo um
intercâmbio e, para a própria sorte, não tinha como comparecer aqui hoje.
Depois que a escola acabou, nossa amizade permaneceu. Infelizmente não
tínhamos mais tanto contato quanto antigamente devido a vida corrida de
cada uma. Mas sempre que possível, a gente marcava de sair para fofocar e
matar as saudades.
― Maya, querida, que bom que você veio. ― uma voz irritantemente falsa
soou atrás de mim. Eu sabia quem era mesmo antes de me virar para ver o
rosto da pessoa.
― Oi... ― respondi secamente. Uma mensagem de Aninha apareceu na
tela dizendo que estava atrasada. Como sempre.
― Sou eu, Lívia Motta, lembra? ― como se eu pudesse esquecer. ― Uau,
você está tão diferente. Seu cabelo está... bem cuidado. E você não usa mais
aqueles óculos também, né? Você tinha uma carinha de nerd fofa com eles.
― nerd fofa? Ela vivia me chamando de fracassada de quatro olhos. Que
falsa!
― E você está... a mesma Lívia de sempre.
― Ah, obrigada, querida. ― não tinha sido um elogio. ― Mas olha, eu já
estou até com algumas rugas na testa. ― ela disse apontando para o próprio
rosto. Eu não poderia me importar menos. ― Me conta o que você anda
fazendo? Nunca mais ouvi falar de você.
― Eu me formei em Artes Cênicas e segui carreira de atriz. Eu estou
dan...
― Atriz, hein? Engraçado, nunca te vi na TV. Mas também essa rotina de
médica, sabe como é. Muito puxada. Fica difícil eu ter tempo para assistir
novelas, filmes, essas coisas fúteis.
― Eu não acho que a arte seja futilidade. Você teve uma fase que queria
ser atriz também, né? Por que você desistiu mesmo?
― Ah, eu não quis dizer isso. Eu... ― mas antes que ela inventasse uma
desculpa qualquer para não responder a minha pergunta, que eu sabia que
tinha a irritado, um homem alto, forte e muito bonito se aproximou de nós
duas.
― Sua bebida, meu amor. ― ele lhe entregou um copo e deu um beijo de
leve nos seus lábios. ― Acho que não nos conhecemos, eu sou o Pedro. ― o
homem disse estendendo a mão para que eu apertasse. Droga, ele ainda era
simpático. Ela não merecia esse cara. Ou melhor, ele não merecia alguém
como ela. Uma bruxa.
― Sou a Maya.
― Mais uma de suas amigas de infância? ― ele perguntou para Lívia.
― Não exatamente...― Respondi.
― O Pedro é o meu namorado. ― ela me interrompeu. ― Ele é
anestesista. Estamos juntos desde a faculdade, né Pedrinho? ― ele assentiu.
― E você, Maya? Está namorando?
Eu tenho muito orgulho do que eu me tornei. Me formei em uma das
melhores universidades do Brasil, trabalho com o que eu amo e consigo me
sustentar muito bem sozinha, mesmo a arte sendo tão desvalorizada. O fato
de não ter um namorado nunca me incomodou. Quer dizer, eu já namorei
antes. Porém, nesse momento, eu estava passando por uma fase de
autoconhecimento. Pelo menos era o que eu dizia para as pessoas. Mas,
naquele momento, totalmente tomada pela raiva e, talvez, pela inveja, o que
saiu da minha boca foi outra coisa.
― Claro que sim. Ele ficou tão arrasado que não poderia vir hoje. Mas,
sabe como é, trabalho...
― Que pena. Eu adoraria conhecer o sortudo que roubou o coração da
nossa Maya. Nunca vi você com um namorado na nossa época de escola. Eu
o conheço?
― Não. ― respondi, mais rápido do que deveria. Alguém, por favor,
me tira daqui!
― Eu quero ver uma foto dele. Cadê?
Ai. Meu. Deus. Eu estava tão ferrada, por que tive que abrir minha
boca? O que eu responderia para ela? De repente, uma ideia maravilhosa
surgiu na minha cabeça. Certamente vinda direto dos céus. Não tinha como
dar errado. Peguei meu celular da bolsa e entrei no Instagram do Ramiro. O
irmão dele não morava no Rio há anos, não tinha como os dois se
conhecerem. Era o plano perfeito. Ele tinha vindo para o Rio alguns meses
atrás, nas férias, e Ramiro tinha feito vários stories com ele dos passeios que
fizeram. Obrigada Ramiro por ser adepto da exposição nas redes sociais. Fui
até o destaque nomeado "Férias" e comecei a passar as fotos até achar uma
dos dois juntos. Coloquei meu dedo na tela para pausar na foto que eu queria.
― Esse é ele. O da direita. ― apontei mostrando a tela do celular para
ela.
― Ai, nem dá pra ver direito. Me dá isso aqui. ― Lìvia tomou o
celular da minha mão. Abusada.
― Nossa, Maya! Você se deu bem. Como você conseguiu conhecer
alguém como ele? ― o tom da sua voz era de incredulidade. Eu não achava
o irmão de Ramiro tão bonito assim, mas...
― Esse não é aquele lutador de MMA? Arthur Birkman? Já assisti
algumas lutas dele. O cara é foda! ― Pedro comentou olhando a tela do
aparelho. Espera. O QUÊ? Puxei o celular da mão de Lívia. Ah, não! Parece
que tinha como dar errado sim. Aquela definitivamente não era a foto que eu
tinha selecionado para mostrar a ela. Mas, na hora que ela pegou o celular da
minha mão, acidentalmente pulou de um story para o outro. A foto que
aparecia na tela era de um Ramiro muito feliz ao lado de ninguém mais
ninguém menos que o gostoso do Arthur em uma das lutas que ele assistiu
com o irmão nas férias. ― Como vocês se conheceram?
― A gente... ― eu era atriz. Eu tive aulas de improviso. Eu
conseguiria me sair bem dessa. ― O Ramiro, meu colega de quarto,
apresentou nós dois. Ele trabalha no meio esportivo. Marketing de empresas
de esporte, sabe como é. Você é fã de MMA? ― ai meu Deus, Maya. Cala
sua boca!
― Eu sou um cara mais do futebol, mas tenho amigos que curtem
MMA e, algumas vezes, nos reunimos para assistir algumas lutas na casa de
um deles. É nossa versão de reencontro de amigos do ensino médio. ― ele
disse rindo.
― Eu tive uma ideia! ― Lívia exclamou. ― Por que a gente não
marca de jantar todo mundo junto lá em casa um dia desses? Eu vou adorar
reviver nossas lembranças da época de escola, Maya.
― Eu posso chamar meus amigos também. ― Pedro parecia
realmente animado. ― Eles vão adorar conhecer The Wolf pessoalmente.
― Não sei, Lívia. A agenda do Arthur é muito complicada, com os
treinos e tudo mais.
― Ah, para com isso. Até parece que ele não vai querer satisfazer os
desejos da namoradinha. Bom, eu tenho seu número de telefone salvo. Você
conversa com ele e a gente marca uma data. Vou te mandar uma mensagem
durante a semana.
― Já avisei no grupo de WhatsApp dos meus amigos. Eles estão
empolgados! Esse jantar vai ser topzera. ― Pedro disse.
Eu estava muito, muito ferrada.
― Ah, olha. A Aninha chegou. Ela deve estar me procurando. Vou lá
falar com ela. Nos vemos no nosso jantar então. ― me despedi correndo
antes de falar mais alguma coisa da qual eu me arrependesse depois. Lívia
nunca deixaria aquele assunto morrer. Ela iria querer de todas as formas
conhecer meu namorado. Ainda mais agora sabendo que ele é famoso. E eu
queria muito, muito mesmo, esfregar meu namorado gostoso na cara dela.
Então, fiz a única coisa que me cabia fazer naquele momento. Abri o
Instagram do Arthur e comecei a lotar a sua caixa de mensagem.
@mayamoura: Oi, Arthur! Eu sou a Maya. Vc quer ser meu
namorado fake?
@mayamoura: Me nota pfvr, eu to desesperada!!!!!!!!!
@mayamoura: Eu meio que disse pra minha rival da época escola
que a gnt namorava e agora ela e o Pedro querem fazer um jantar pra
nós dois (e uns amigos do Pedro rsrs)
@mayamoura: O Pedro é o namorado dela, ele é anestesista e mto
lindo
@mayamoura: Eu não poderia ficar por baixo, me entende? Eu
odeio aquela vaca!
@mayamoura: Vc deve tá me achando bem doida, mas eu não sou
@mayamoura: Talvez só um pouco
@mayamoura: PELO AMOR DE DEUS ME NOTA EU PRECISO
DA SUA AJUDA!!!
ARTHUR
― PORRA, ARTHUR, DE NOVO? ― Henrique entrou na academia onde
eu treinava por 7 horas por dia, todos os dias, na preparação da minha estreia
no UFC. ― Sua sorte é que eu sei que se te der um soco, quem vai sair
perdendo é a minha mão!
― Calma, brother. Eu não sei do que você tá falando. ― respondi, me
afastando do saco de pancada onde eu treinava alguns socos e chutes.
― EU TÔ FALANDO DESSA MERDA AQUI! ― ele esticou o celular
na minha direção. Na tela, uma página de fofoca do Instagram mostrava uma
foto minha de duas noites atrás com duas mulheres nos meus braços.
― Não tem nada demais nessa foto. As duas estavam comigo por livre e
espontânea vontade...
― E A PORRA DESSE PRINT, BIRKMAN? ― Henrique gritou mais
uma vez. Peguei o celular de novo e vi o print da noite anterior quando uma
das garotas da foto tinha entrado em contato comigo pelo WhatsApp
perguntando se iríamos nos ver de novo.
― Quê? Eu fui simpático E sincero. "Poxa, gatinha, apesar de ter gostado
da nossa noite de ontem, eu não durmo com a mesma garota duas vezes pra
não dar a ela falsas esperanças. Mas foi bom te conhecer". Viu só? ―
Henrique bufou do meu lado.
― Você agora está no foco, Arthur, porra. Você é o campeão mais rápido
da história do TUF e as todas expectativas da sua estreia estão lá no alto. A
divulgação dessas fotos e desses prints já me fizeram ter que aturar duas
horas de vídeo chamada com o representante da Whey Suplementos e da
Everlast. DUAS HORAS!
Eu me senti culpado. Duas horas de vídeo chamada com o representante
chato pra porra da Whey Suplementos era o mesmo que tortura. O cara era
um mané. Ele reclamou da foto que postei como publicidade dizendo que "o
foco estava muito em mim e não no produto". O Instagram era meu, caralho.
As pessoas entravam ali porque queriam me ver, pra ver foto de shake de
suplemento elas pesquisariam no google, porra. Ele precisou dar o braço a
torcer quando minha foto bateu 150 mil likes em algumas horas. Os homens
curtiam porque queriam ser como eu e as mulheres porque obviamente
queriam sentar na minha cara.
― Aparecendo em Instagram de fofoca, Birkman? Que nível baixo. ― o
filho da puta do Renan implicou, do outro lado da academia.
― Controla a inveja, parceiro. ― retruquei. Eu odiava que Henrique
precisava aturar esse boçal. A nova agora era que na verdade ele não era um
lutador ruim, ele só demorou a descobrir que era um boxeador e precisava
investir mais para as próximas olimpíadas. Olimpíada é o caralho.
― Arthur, foca aqui. Ignora o babaca do Renan. ― Henrique pediu.
― Porra, Henrique, o que você quer que eu faça? Já vazou, não tenho o
que fazer.
― Quero que você tente ser menos imbecil. Sei que é difícil, mas se
esforce, pelo menos.
― Sua sorte é que você é meu empresário e meu amigo, se não fosse por
isso, já teria te arrebentado pelo tanto que você me irrita às vezes. ―
Henrique riu e se aproximou mais. Ele abaixou a voz e falou para que só eu
ouvisse:
― Eu recebi um contato de dentro do Plurishow. ― ergui meu olhar,
assustado. Agora ele começava a falar a minha língua. Plurishow era um
canal à cabo focado em esportes, com os maiores apresentadores esportivos
do país. ― Eles estão desenhando um projeto de quadro pro Esporte da Vez,
o programa principal de sábado.
― Eu sei o que é Esporte da Vez, porra. Desembucha logo. ― interrompi,
ansioso.
― A ideia deles é um quadro chamado "No Octógono", pra comentar as
lutas de MMA. Eles querem dois apresentadores fixos e alguns convidados
variáveis. ― eu engoli em seco. ― Eles entraram em contato comigo para
sondar se você teria interesse.
― Você respondeu que sim, né? Sim pra caralho? ― perguntei, quase
desesperado com a oportunidade. Henrique assentiu.
― Claro. Mas o quadro estrearia só daqui há uns 3 meses. Eles disseram
que vão te observar até lá.
― Fodeu. ― respondi simplesmente.
― Agora você entendeu porque não pode ficar aparecendo em Instagram
de fofoca todo dia? ― fiz que sim com a cabeça.
― Vou fazer o possível.
― Você tem sua estreia no UFC em um mês. E vai ser aqui no Rio. Foca
nisso e chega de mulher toda noite, Arthur.
― Aí você está começando a pedir demais, Henrique.
― Pelo amor de Deus, tenta só ser mais discreto, por favor.
― Isso eu posso fazer. ― sorri e me concentrei em voltar a socar
imaginando a cara do Renan naquele saco de pancadas.