Meu marido, Ricardo, me tirou do abismo depois que meu irmão morreu, me salvando quando eu não tinha nada. Ele prometeu me proteger para sempre. Mas por dez anos, seus casos intermináveis e jogos mentais cruéis foram um veneno lento, me deixando com uma doença terminal e um espírito quebrado.
O golpe final veio no nosso décimo aniversário. Ele deu o meu presente - um colar de esmeraldas com que eu sonhava desde a nossa lua de mel - para a amante dele, Amanda.
Mas isso não foi suficiente. Ele então deu a ela a última parte do meu irmão que me restava: sua sinfonia final. Ela rabiscou as páginas, usou-as como porta-copos e chamou a obra da vida dele de "lixo".
Enquanto meu corpo falhava, percebi que o homem que jurou me salvar havia usado meus traumas mais profundos como uma arma para me destruir. Meu amor se transformou em uma raiva fria e silenciosa.
Agora, afogado em culpa, ele destruiu Amanda para se redimir de seus pecados. Ele se ajoelha ao lado do meu leito de morte, implorando por perdão, prometendo fazer qualquer coisa para merecê-lo.
Ele não faz ideia de que meu último ato de vingança exige sua devoção absoluta.
E a vida dele.
Capítulo 1
Meu celular vibrou. Uma mensagem de um número que eu não reconhecia.
"Ele é todo meu agora. Achou mesmo que ia ganhar?"
As palavras queimaram, mas o fogo era familiar, amortecido por inúmeras outras chamas.
O rugido de Ricardo rasgou o ar, sacudindo a arte cara nas paredes. Ele não estava apenas com raiva; ele era um furacão de fúria pura e incontrolável. O vaso de cristal da Tânia Bulhões, um presente de casamento de sua mãe, se espatifou contra a lareira, ecoando a fratura em nossas vidas. Cacos voaram, pequenas facas brilhando na luz fraca, espelhando o sentimento dentro de mim enquanto ele apontava um dedo trêmulo para os lençóis amassados.
"Como você pôde, Juliana? Depois de tudo? Depois que eu voltei? Ele?"
Sua voz falhou na última palavra, carregada de nojo.
Eu o observei, meu coração uma batida surda no peito, um tambor gasto. Meu corpo parecia pesado, desconectado, como uma marionete cujas cordas foram cortadas. Puxei um fio solto nos lençóis de seda.
"Foi um experimento, Ricardo", eu disse, minha voz monótona, quase entediada. A verdade parecia ao mesmo tempo vazia e profunda.
Ele riu, um som cru e gutural que arranhou meus tímpanos.
"Um experimento? É assim que você chama transar com um estranho na nossa cama? É o seu jeito sofisticado de compositora de dizer 'eu te odeio'?"
Ele tropeçou para trás, passando a mão pelo cabelo perfeitamente penteado, agora desgrenhado, selvagem.
"Você me odeia tanto a ponto de fazer isso?"
Eu dei de ombros, um movimento pequeno e involuntário. O que era o ódio, afinal? Meu ser inteiro parecia uma árvore oca, apodrecendo por dentro. Não havia energia para o ódio, apenas um cansaço profundo e doloroso. Minhas mãos, antes ágeis nas teclas do piano, agora às vezes tremiam, um tremor que eu tentava esconder, um segredo sombrio em meus ossos.
"Você não disse que tudo bem, Ricardo?", perguntei, minha voz mal um sussurro. "Desde que não significasse nada? Essas foram as suas palavras, não as minhas."
Olhei para o vaso quebrado, sua beleza delicada agora uma bagunça perigosa. O quarto era um campo de batalha de confiança quebrada e anos desperdiçados. Copos tombados, uma cadeira virada bloqueando a porta, e o leve cheiro de sexo velho pairava pesado, um testemunho do meu próprio ato de rebelião.
No canto, Caio, meu "experimento", estava encolhido na beirada do pufe, com os olhos arregalados e aterrorizados. Ele parecia um cervo pego pelos faróis, completamente fora de lugar em nossa gaiola dourada que era o quarto. Ele já deveria ter ido embora.
Os olhos de Ricardo, ardendo com um fogo verde, se voltaram para Caio.
"Fora!", ele rosnou, sua voz um ronco baixo e perigoso.
Ele marchou em direção a Caio, sua estrutura poderosa irradiando ameaça. Caio se levantou desajeitadamente, tropeçando nos próprios pés, e praticamente voou pela porta sem olhar para trás. Já vai tarde. Ele era apenas um meio para um fim.
Então, Ricardo estava de volta, sua sombra caindo sobre mim. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando na minha carne, uma acusação silenciosa. Ele me puxou para cima, torcendo meu braço para trás até que uma dor aguda atravessou meu ombro. Minha respiração engatou.
"Você acha isso engraçado, Juliana?", ele sussurrou, sua voz perigosamente suave, um contraste gritante com a força brutal que ele exercia. Ele me encurralou contra a parede, seu corpo pressionando o meu, me prendendo. "Acha que pode jogar esses joguinhos?"
Seu hálito estava quente na minha orelha, uma mistura enjoativa de menta e algo azedo, como leite talhado. Meu estômago revirou.
A humilhação me envolveu, espessa e pegajosa, mas era apenas mais uma camada em um manto já pesado de vergonha. Eu não senti nada de novo, apenas uma dor mais profunda, um reconhecimento de quão baixo havíamos caído. Tentei empurrá-lo, um esforço fútil. Meu corpo parecia chumbo.
Ele socou a parede ao lado da minha cabeça, com força suficiente para rachar o gesso. Seus nós dos dedos estavam em carne viva, já sangrando, mas ele não vacilou. Ele apenas me encarou, seus olhos arregalados, quase suplicantes. Havia um brilho de algo antigo e desesperado neles, um medo primitivo da perda. Era perturbador.
Eu recuei, mas ele foi rápido demais. Ele prendeu meus pulsos acima da minha cabeça, seu corpo um peso sufocante contra o meu. O quarto começou a girar, as bordas da minha visão embaçando. Uma onda de náusea me atingiu, forte. Minha cabeça latejava, uma convidada familiar e indesejada.
"Quem era ele, Juliana?", ele exigiu, sua voz carregada de uma mistura distorcida de ciúme e raiva. "Uma emoção barata? O que ele tinha que eu não tenho? Era a juventude dele? A falta de bagagem? Ou apenas o puro prazer de me ver quebrar?"
Seu aperto se intensificou, meus ossos gritando em protesto.
"Quer saber o que eu acho?", ele berrou, seu rosto a centímetros do meu, cuspindo. "Acho que você é uma vadia narcisista. Acho que você curtiu cada segundo disso, sabendo que me destruiria! Você quer me matar, não é? É isso?"
A dor no meu abdômen explodiu, aguda e súbita, como um raio. Minha visão turvou. Eu engasguei, um gosto metálico inundando minha boca. Não foi de propósito, mas meu corpo me traiu. Afastei-me dele, meu estômago se contraindo, e vomitei no tapete branco impecável, quase errando seus caros sapatos Ricardo Almeida. Foi um espasmo patético e involuntário, bile e ácido estomacal queimando minha garganta. Eu não conseguia nem olhar para ele.
Ele cambaleou para trás, para longe da sujeira, seu rosto pálido de choque e nojo.
"Juliana? Que porra é essa...?" Sua voz estava cheia de descrença, um lampejo de algo parecido com mágoa. "Você está fazendo isso só para me provocar, não é? Você está estragando tudo."
Eu não conseguia responder. A dor era intensa demais, um nó de fogo no meu estômago, torcendo e virando. Meus membros pareciam fracos, minha cabeça uma batida de agonia. Tudo o que eu podia fazer era ofegar, tentando puxar ar suficiente para meus pulmões em chamas.
"É isso, Juliana", ele disse, sua voz dura, quase resignada. Ele limpou a mão na boca, seus olhos fixos na poça no tapete. "Acabou. Pra sempre desta vez. Você quer ser independente? Ótimo. Viva com suas escolhas. Não somos nada além de estranhos a partir de agora."
Com isso, ele saiu furioso do quarto, a pesada porta de carvalho batendo atrás dele com um baque final e ecoante que vibrou pelo assoalho. O silêncio repentino foi ensurdecedor, um vácuo sugando todo o ar do quarto.
Depois de um longo momento, meu corpo lentamente se desenrolou de sua posição fetal. A pulsação na minha cabeça diminuiu, substituída por uma dor surda. Meus olhos percorreram os destroços do quarto, um espelho dos destroços dentro de mim. Então eu vi. Na minha mesa de cabeceira, cuidadosamente colocado ao lado da minha pilha habitual de revistas médicas, havia uma pequena caixa de veludo. Com relevo dourado.
Estendi a mão para pegá-la, meus dedos tremendo levemente. Dentro, havia um delicado colar de diamantes, com uma pequena esmeralda perfeitamente lapidada como peça central. Era o mesmo que eu havia admirado anos atrás, na vitrine daquela pequena boutique em Campos do Jordão durante nossa lua de mel. Um luxo frívolo, eu tinha dito na época, mas uma parte secreta de mim ansiava por sua elegância fria. Lembrei-me de traçar a esmeralda com o dedo, imaginando seu peso contra minha pele, um símbolo de um futuro em que eu acreditava.
Ricardo deve ter voltado para buscá-lo. Depois de tudo, ele ainda voltou por ele. Lembrei-me de nossa última reconciliação, apenas alguns meses atrás. Ele parecia tão sincero, tão dedicado a fazer as coisas funcionarem, me cobrindo de atenção, de presentes, de promessas. Ele sempre foi bom em promessas. Ele cozinhou para mim, tocou minhas peças clássicas favoritas no piano de cauda lá embaixo, ficou acordado conversando comigo a noite toda, ouvindo meus medos, minhas ansiedades, meus sonhos. Ele era o Ricardo com quem eu pensei ter me casado, aquele que me resgatou do abismo depois que Léo morreu. Ele era atencioso, devotado, quase obsessivamente. Ele cobriu todas as bases, antecipou todas as necessidades. Ele era perfeito.
Mas mesmo assim, uma suspeita fria começou a se infiltrar em meu coração. Isso era real? Ou era apenas mais uma performance? Outro movimento calculado para recuperar o controle? Ele sempre foi tão bom em interpretar o papel, em me fazer acreditar no conto de fadas depois de tê-lo estilhaçado.
A sombra de Amanda Neal, seu último caso, ainda pairava. O fantasma dela estava em cada toque suave, cada palavra sussurrada, cada presente luxuoso. Eu era assombrada pelo pensamento de que ele era apenas um ator melhor do que eu. Minha doença, ainda um segredo, me corroía, tirando minha capacidade de criar, minha capacidade de viver. O medo, a dor, a traição - tudo se enrolava, cada vez mais apertado, até que eu senti que estava sufocando. Eu tinha chegado ao meu limite.
Minhas ações esta noite, com Caio, foram uma paródia desesperada e feia de suas próprias traições. Olho por olho, um teste de sua própria filosofia distorcida. Ele pregava que atos físicos não significavam nada, que apenas a conexão emocional importava. Eu queria ver se ele realmente acreditava nisso quando o jogo virasse.
Meus dedos trêmulos se fecharam em torno do pequeno cartão aninhado dentro da caixa de veludo. A caligrafia elegante soletrava uma data: "Nosso 10º Aniversário. Para sempre, minha Ju." Amanhã. O colar, o cartão, o vaso quebrado, as feridas abertas nos nós dos dedos de Ricardo, a bile no tapete e o cheiro persistente do estranho - tudo se fundiu em uma dor aguda e agonizante no meu peito. Um grito silencioso rasgou minha alma.
Naquele momento, meu celular vibrou novamente, iluminando a escuridão. Era aquele número, o da mensagem provocadora. A tela piscou outro texto.
Amanda Neal: "Ele é meu agora, Ju. Achou mesmo que ia ganhar?"
A mensagem de Amanda ficou na minha tela, uma provocação brilhante no quarto escuro, zombando da mensagem de aniversário de Ricardo. Meus dedos, ainda manchados de vômito seco, rolaram para além da mensagem dela. Abri um navegador e digitei o nome dela, Amanda Neal, na barra de pesquisa. O rosto dela, perfeitamente esculpido e filtrado, sorriu de volta para mim de uma dúzia de perfis de mídia social. Cliquei em sua última postagem no Instagram.
Uma foto dela, rindo, o braço entrelaçado confortavelmente com o de Ricardo, apareceu na minha tela. Eles estavam em algum evento de tecnologia de alto perfil na Faria Lima, as luzes brilhando nas taças de champanhe caras. Mas não foi apenas a imagem deles juntos que me tirou o fôlego. Ao redor do pescoço de Amanda, um delicado colar de diamantes pulsava com um brilho esmeralda familiar. Minha esmeralda.
Minha visão embaçou, mas as lágrimas não vieram. Apenas um nó frio e duro no meu estômago. Ele tinha dado a ela. O presente de aniversário. Meu presente. Ele tinha dado a ela enquanto ainda tentava se "reconciliar" comigo. Era mais uma camada de traição, uma crueldade fria e calculada que ia além da simples infidelidade. Ele não estava apenas traindo; ele estava esfregando na minha cara, usando meus desejos, meu passado, como armas.
Uma vibração súbita e aguda me assustou. Meu celular estava tocando. Era Ricardo. Ele provavelmente tinha acabado de ver a postagem de Amanda também, ou talvez tivesse apenas organizado seus pensamentos e estivesse pronto para outra rodada. Meu dedo pairou sobre o botão de aceitar, meu coração uma pedra surda e pesada no peito. Eu atendi.
"Juliana! Que porra foi aquela mensagem da Amanda?!", sua voz estava tensa, um rugido mal contido. "Você enlouqueceu? Postando aquilo nas redes sociais? Você vai estragar tudo!"
"Tudo?", perguntei, minha voz monótona, desprovida de emoção. "O que 'tudo' resta para estragar, Ricardo? Você já deu a ela o meu presente de aniversário. O que mais você poderia ter a perder?"
Ouvi uma inspiração aguda do outro lado. Então ele me ouviu. Bom.
"Não se atreva a me acusar", ele cuspiu, sua voz cheia de veneno. "Quer jogar sujo? Ótimo. Você acabou de soltar um monstro, Juliana. Vai se arrepender."
Ele desligou abruptamente, me deixando com o tom de discagem ecoando no quarto silencioso.
Olhei para o telefone, depois para a bagunça no tapete, o vaso quebrado, a caixa de veludo intocada com seu espaço vazio. Minha cabeça latejava, meu corpo doía. Fui ao banheiro, meus movimentos rígidos, robóticos. Abri o armário de remédios e peguei o frasco de analgésicos. Sacudi três, depois quatro, depois cinco pílulas na minha palma. Engoli-as secas, empurrando-as com goles de água da torneira. O amargor permaneceu na minha língua, mas eu o acolhi. Era uma distração da dor mais profunda e insidiosa.
Nas semanas seguintes, Ricardo cumpriu sua ameaça. A estrela de Amanda ascendeu rapidamente. Ela estava em toda parte - em capas de revistas, contratos de publicidade, programas de entrevistas. Sempre ao lado de Ricardo, agarrada a ele, seu colar de esmeraldas brilhando sob as luzes. Suas aparições públicas se tornaram um espetáculo regular, um ato deliberado de humilhação orquestrado por Ricardo. Ele a estava exibindo, exibindo o caso deles, esfregando sua vitória na minha cara.
Uma manhã, os canais de notícias estavam em chamas com reportagens sobre uma grande gala de caridade. Ricardo e Amanda eram os convidados de honra, anunciando uma nova fundação em seus nomes. Uma gala de caridade onde a "Fundação Nicholson-Neal" foi lançada. A ironia era uma pílula amarga. Recebi um convite, um cartão branco impecável, entregue por um mensageiro de rosto solene. Meu nome, Juliana Freeman, se destacava como uma relíquia de uma era esquecida.
Eu aceitei. Uma calma silenciosa e aterrorizante havia se instalado sobre mim. O mundo cuidadosamente construído de Ricardo, sua persona pública, seu legado - era tudo um frágil castelo de cartas esperando para desmoronar. Eu assistiria queimar.
Ricardo, enquanto isso, estava se desfazendo. A fachada pública que ele mantinha com Amanda estava rachando. Sussurros circulavam sobre seu comportamento cada vez mais errático, seus surtos, sua necessidade obsessiva de controle. Ele estava desesperado, e eu sabia por quê. Ele estava lutando uma guerra em duas frentes - mantendo sua imagem pública enquanto tentava obter uma reação de mim. Ele queria que eu quebrasse, que implorasse, que lutasse. Mas eu estava além disso. Eu estava apenas observando.
Amanda, no entanto, estava prosperando sob os holofotes. Ela até teve a audácia de me enviar outra mensagem, uma foto dela e de Ricardo compartilhando uma piada particular, a mão dele repousando intimamente na coxa dela. "A vitória me cai bem, não acha?", dizia a legenda. Meus dentes rangeram.
Esmaguei meu celular contra a parede, a tela se partindo em mil pequenas fraturas, assim como minha vida. Minhas mãos tremiam, não de medo, mas de uma onda aterrorizante de algo frio e poderoso. Entrei no estúdio vazio que raramente usava mais. Estava cheio de telas inacabadas, partituras meio escritas e os fantasmas do meu passado.
Uma tela, em particular, chamou minha atenção. Era um retrato de Léo, meu irmão mais novo, banhado pela luz do sol, seus olhos cheios de vida e música. Inacabado, assim como sua sinfonia, assim como sua vida. Meu peito se apertou, uma dor familiar se espalhando pelas minhas costelas. Os tremores em minhas mãos se tornaram mais pronunciados, meu pé direito arrastando levemente enquanto eu andava. Minha cabeça latejava. Meu corpo, antes um recipiente para a música, era agora uma jaula, se deteriorando lentamente.
Passei meus dedos trêmulos sobre a tela áspera, depois sobre a partitura da sinfonia de Léo, guardada em uma gaveta empoeirada. Este era o meu legado, minha conexão com ele. Era isso que eu tinha que terminar, não importava o quê. A dor em minhas mãos, a fraqueza em minhas pernas - eram apenas distrações. Eu precisava terminar esta sinfonia, por Léo, por mim mesma. E então... e então eu os faria pagar.
A noite da gala chegou. O salão de festas do Hotel Unique brilhava com lustres de cristal, refletindo nos pisos de mármore polido. Um mar de pessoas impecavelmente vestidas, suas risadas e conversas um zumbido oco em meus ouvidos. Eu me movia entre eles como um fantasma, uma observadora, não uma participante.
Amanda, uma visão em verde esmeralda, estava ao lado de Ricardo, banhando-se no brilho de sua atenção. Ela usava o colar, é claro. Ela ria um pouco alto demais, seus olhos constantemente varrendo o salão, buscando validação. Ela estava interpretando o papel da amante triunfante, e a multidão, ou pelo menos uma parte significativa dela, estava comprando.
Senti seus olhares, sussurros me seguindo como sombras. "Aquela é a Juliana Freeman", ouvi uma mulher sussurrar. "A que ele deixou pela Amanda. Coitadinha." Outra riu: "Coitadinha? Ela o traiu primeiro!" O julgamento, a pena, a alegria com o infortúnio alheio - tudo girava ao meu redor, uma nuvem sufocante.
Então Amanda, com o braço de Ricardo ainda entrelaçado no dela, se soltou e deslizou em minha direção, um sorriso predatório no rosto.
"Juliana", ela ronronou, sua voz pingando falsa doçura. "Que bom que você pôde vir." Ela se inclinou, seu perfume, enjoativamente doce, agredindo meus sentidos. "Você parece... bem."
Era uma mentira. Eu sabia que parecia um cadáver ambulante.
Meus olhos se fixaram na esmeralda em seu pescoço. Pulsava com uma luz fria e malévola, zombando de mim. Não era a joia bonita que eu admirei uma vez; era um símbolo da minha humilhação, um troféu de sua vitória. Lembrei-me de Ricardo me dizendo uma vez: "Esta esmeralda me lembra seus olhos, Ju. Tão profundos, tão cheios de segredos." Agora, essas palavras eram uma piada cruel.
"Combina com você", eu disse, minha voz mal acima de um sussurro, meu olhar ainda fixo na esmeralda. "Ele sempre teve um talento para escolher coisas que refletiam seu gosto."
Minhas palavras foram uma farpa velada, insinuando que ela era apenas mais uma de suas posses, facilmente adquirida e facilmente substituída.
O sorriso de Amanda vacilou por um microssegundo.
"Ele tem um gosto requintado, não é?", ela retrucou, depois baixou a voz, seus olhos brilhando com malícia. "Ele me contou tudo sobre você, Juliana. Como você é uma coisinha frágil, sempre precisando ser salva. Como a morte do seu irmão te quebrou. Como você nem consegue mais tocar piano, consegue?"
Suas palavras eram veneno, direcionadas diretamente aos meus pontos mais vulneráveis.
Minha cabeça se ergueu, encontrando seu olhar. Minhas mãos se fecharam em punhos, meus nós dos dedos brancos. Ela não tinha o direito. Nenhum direito de falar de Léo, nenhum direito de tocar naquela ferida. Meu sangue gelou, depois ferveu. Ricardo deve ter contado a ela. Ele havia usado meu trauma mais profundo contra mim. Ele havia dado a ela não apenas meu presente, mas toda a história da minha vida, minhas vulnerabilidades, para ela dissecar e zombar.
Ricardo, que estava conversando animadamente com um grupo de investidores por perto, olhou, um lampejo de preocupação em seus olhos. Mas ele não se moveu. Ele apenas observou, um cúmplice silencioso da crueldade de Amanda.
Uma névoa vermelha desceu. Meu corpo se moveu sem pensamento consciente. Minha mão disparou, não para atingir Amanda, mas para arrancar o colar de esmeraldas de seu pescoço. Eu queria arrancá-lo, esmagá-lo, destruir o símbolo de sua união grotesca. Meus dedos se fecharam em torno do metal frio, puxando com força.
Amanda gritou, tropeçando para trás. Ricardo, finalmente reagindo, correu para frente, seu rosto uma máscara de fúria. Ele me empurrou, com força, me fazendo cair no chão polido. Minha cabeça bateu no mármore com um baque doentio, estrelas explodindo atrás dos meus olhos. A força do impacto abalou meu corpo já frágil. Uma dor aguda e lancinante atravessou meu crânio, seguida por uma onda vertiginosa de náusea. Minha visão turvou, as luzes brilhantes do salão se transformando em um caleidoscópio de agonia.
O caos explodiu ao meu redor. Suspiros, gritos, uma cacofonia de medo e confusão enquanto as pessoas se dispersavam, sua compostura elegante estilhaçada. Ricardo, com o rosto como uma nuvem de tempestade, já estava puxando Amanda para cima, seu braço protetoramente ao redor dela. Ele não me lançou um olhar enquanto a manobrava pela multidão, desaparecendo no meio do pânico. Ele se foi, absorvido pelo caos, me deixando sozinha no chão de mármore frio.
A dor na minha cabeça era um martelo implacável, cada batida ecoando o vazio no meu peito. Meus membros pareciam pesados, sem resposta. Minha respiração vinha em arquejos irregulares, as luzes brilhantes acima girando em um vórtice aterrorizante. A sensação de estar presa, sufocada, me dominou. Minha fobia, adormecida por tanto tempo, arranhou seu caminho para a superfície. Eu estava me afogando.
Assim que tentei me levantar, um chute forte atingiu minha lateral.
"Sua vadia!", Amanda sibilou, seu rosto contorcido de fúria, sua maquiagem perfeita borrada. Seu colar de esmeraldas, milagrosamente ainda preso em seu pescoço, brilhava desafiadoramente. "Achou que ia se safar com isso? Achou que ia estragar a minha noite?"
Outro chute acertou, este mais forte, logo abaixo das minhas costelas. Um suspiro escapou dos meus lábios, o ar sendo expulso dos meus pulmões. Meu corpo convulsionou, uma onda de náusea me atingindo novamente. Meu estômago se revirou, mas não havia mais nada para sair. Apenas espasmos secos e violentos que me deixaram fraca e ofegante.
"Ricardo!", engasguei, um apelo desesperado e cru escapando dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-lo. O som era patético, até para os meus próprios ouvidos. Um grito desesperado pelo mesmo homem que acabara de me empurrar.
Os olhos de Amanda se aguçaram, um sorriso cruel se formando em seus lábios. Ela se ajoelhou ao meu lado, seu vestido de grife farfalhando.
"Ricardo? Ah, querida, ele se foi. E não vai voltar por você." Sua mão, adornada com um anel de diamante maciço, apertou minha mandíbula, forçando minha cabeça para o lado. "Ele me contou tudo. Sobre seu precioso irmão, Léo. Como você era inútil sem ele. Como você se agarra ao Ricardo porque ele te 'salvou'. Patético."
As palavras me atingiram mais forte do que qualquer golpe físico. Eram as palavras de Ricardo, distorcidas e cuspidas pela língua venenosa de Amanda. Minha mente cambaleou, uma torrente de memórias voltando, ameaçando me arrastar para o fundo.
O acidente de carro. O metal retorcido, o cheiro de borracha queimada e sangue. Léo, tão cheio de vida, tão vibrante, silenciado em um instante. E eu, a sobrevivente, presa nos destroços, vendo sua luz se apagar, incapaz de ajudar. A culpa era uma coisa viva, roendo minhas entranhas, me deixando oca, uma casca vazia. Meus pais, consumidos por sua própria dor, me afastaram, incapazes de olhar para a lembrança viva de seu filho perdido. "Você devia ter sido mais cuidadosa", minha mãe sussurrou, seus olhos desprovidos de calor. "Você era mais velha. Deveria tê-lo protegido." Suas palavras, como punhais, se torceram na ferida da minha culpa, infeccionando por anos. Eu estava completamente sozinha, à deriva em um mar de dor e culpa.
Então Ricardo apareceu, um farol na minha escuridão. Ele me encontrou, uma garota quebrada assombrando o conservatório abandonado onde Léo e eu costumávamos tocar. Ele ouviu pacientemente enquanto eu derramava meu coração, minha culpa, meus sonhos desfeitos. Ele viu a música em mim, os resquícios de um talento que eu pensei estar perdido para sempre. Ele me ergueu das cinzas, me deu um novo propósito, uma nova razão para viver. Ele era meu salvador, minha âncora, meu tudo. Ele me prometeu uma vida, um futuro, uma família. Ele prometeu me proteger.
E agora, ele havia traído essa confiança, não apenas com seu corpo, mas com minha ferida mais profunda e sagrada. Ele deu a Amanda a munição para me destruir, para zombar da própria base da minha existência. Ele zombou da memória de Léo.
Uma dor lancinante, mais aguda do que qualquer coisa antes, atravessou minha parte inferior das costas. Minha visão escureceu por um segundo. Meu corpo estava falhando, rapidamente agora. O tremor em minhas mãos havia se espalhado, todo o meu lado esquerdo agora um peso de chumbo.
"Juliana!" Uma voz, distante e abafada, cortou a névoa. Ricardo. Ele estava chamando meu nome, frenético.
Tentei responder, gritar, estender a mão. "Ricardo...!" Mas apenas um grasnido rouco escapou da minha garganta, mal um sussurro. Minhas mãos arranharam o chão polido, tentando encontrar apoio, tentando me mover.
O corpo de Amanda enrijeceu. Ela pegou meu celular de onde havia caído, sua tela rachada ainda acesa.
"Não se incomode, querida", ela sibilou, sua voz um triunfo baixo e astuto. "Ele está comigo." Seus dedos voaram pela tela, digitando rapidamente. Então ela pressionou o telefone contra meu ouvido. "Ricardo? Sim, querido, estou bem. Só um pouco abalada com a confusão. A Juliana? Ah, ela provavelmente está emburrada em algum lugar. Você sabe como ela é. Vamos embora, estou exausta." Sua voz era enjoativamente doce, uma performance para ele.
Ouvi a resposta abafada de Ricardo, depois o som distante de sua voz se afastando, recuando. Ele estava indo embora. Ele estava realmente indo embora. De novo. Com ela. Ele nem mesmo me procurou.
Amanda tirou o telefone, um sorriso triunfante no rosto.
"Viu? Eu te disse." Ela jogou o telefone de volta no chão, onde ele pousou com um baque suave. Assim que ela se virou para sair, a tela piscou, uma nova mensagem de texto de Ricardo aparecendo.
"Ju, onde você está? Não brinque comigo. Venha para casa. Precisamos conversar."
Olhei para a mensagem, depois para as costas de Amanda se afastando, seu vestido brilhando enquanto ela desaparecia. Uma risada amarga e quebrada borbulhou do meu peito, seca e áspera. A ironia foi um soco no estômago. Ele queria conversar agora? Depois de tudo isso?
Meus olhos arderam, mas eu não choraria. Não agora. Não por ele. Eu vi o padrão, claro como o dia. Seu ciclo de traição, seu remorso fingido, suas tentativas manipuladoras de me puxar de volta para sua órbita. Ele era um mestre manipulador, e eu era apenas sua boneca favorita. Meu coração endureceu, transformando-se em gelo.