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Silêncio entre os muros

Silêncio entre os muros

Autor:: Lanuza Santos
Gênero: Romance
Em 2014, Marcos, um jovem estudante de Direito, conhece Diana, filha de um influente empresário do ramo imobiliário em São Paulo. O que começa como um encontro casual se transforma em uma paixão intensa - mas cercada de silêncios, omissões e segredos de família que se entrelaçam entre os dois sem que percebam. Enquanto se apaixonam, descobrem que suas famílias têm um passado entrelaçado por traições, corrupção e um crime não solucionado - o desaparecimento do irmão de Diana, anos antes, abafado pelos pais. A cada capítulo, um novo fragmento do passado vem à tona, aproximando-os da verdade... e os afastando um do outro.

Capítulo 1 O Começo de tudo

São Paulo, novembro de 2014.

O som abafado do rádio tocava um sucesso de Legião Urbana enquanto Marcos olhava pela janela embaçada do ônibus. A cidade era um caos de buzinas, fumaça e pressa, mas naquela noite havia algo diferente no ar - uma inquietação que ele não sabia nomear.

Tinha 24 anos, cursava o quarto ano de Direito e começava a entender que a vida adulta era feita mais de silêncio do que de certezas. Foi então que ele a viu, pela primeira vez.

Diana estava encostada na parede do salão da república da Vila Mariana, onde um amigo dava uma festa. Não dançava. Não sorria. Segurava um copo de cerveja como se fosse escudo, observando tudo com olhos atentos e distantes.

Marcos ficou hipnotizado. Havia nela um mistério que não era forçado - como se carregasse segredos antigos que pesavam mais do que o vestido preto que usava. Quando os olhos dos dois se cruzaram, foi rápido. Mas o suficiente para ele sentir o mundo dar um estalo por dentro.

Ele se aproximou sem pensar.

- Gosta de Legião? - perguntou, tentando soar casual.

Ela o encarou por dois segundos inteiros antes de responder.

- Gosto de silêncios. Eles dizem mais do que as letras.

E sorriu. Um sorriso pequeno, quase triste.

Naquele instante, Marcos soube duas coisas: que queria vê-la sorrir de novo... e que havia algo naquela mulher que ia bagunçar tudo que ele achava que conhecia.

Capítulo 2 Ecos do passado

O sorriso que Diana deu a Marcos naquela noite não foi por simpatia. Foi defesa.

Ela aprendera cedo que o perigo nem sempre vinha de estranhos. Às vezes, usava gravata, tinha sobrenome e jantava com você à mesa.

Depois da festa, ao deitar no quarto escuro da mansão dos pais, no Paraíso, ela não conseguia dormir. A imagem de Marcos voltava à mente. Algo nele parecia honesto - e isso a assustava mais do que atraía.

Ela se levantou e foi até o escritório do pai. Caminhou até a estante antiga, de onde tirou uma caixa de madeira escondida atrás de livros jurídicos. Dentro, recortes de jornal amarelados, fotos de infância... e uma pulseira de couro que ainda guardava o cheiro de terra molhada.

- Gustavo... - sussurrou.

Seu irmão desaparecera em 2006, aos 17 anos. Um desaparecimento que ninguém mais mencionava. A polícia arquivou. Os pais silenciaram. Mas ela nunca esqueceu. Nunca deixou de desconfiar.

Na última vez que o viu, Gustavo saiu à noite para encontrar "um amigo do pai", como dissera. Nunca mais voltou. E tudo que restou dele foi aquela pulseira - que, por coincidência (ou não), Marcos também usava uma parecida no pulso direito.

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Na semana seguinte à festa, Marcos não conseguiu parar de pensar em Diana.

Havia algo inquietante nela. Não só beleza - isso ele já tinha visto em muitas outras - mas um tipo de dor quieta que ele reconhecia. E que, estranhamente, o atraía.

Decidiu ligar. Ela atendeu com voz baixa, como se estivesse num ambiente onde não podia ser ouvida. Aceitou um café, mas sugeriu que ele a buscasse em frente ao prédio, "sem buzinar".

Enquanto dirigia para lá, lembrou-se do pai.

Carlos Rocha não gostava que o filho ficasse fuçando o passado da família. Anos atrás, quando Marcos fazia perguntas sobre um antigo parceiro que "sumiu do mapa", o pai apenas mudava de assunto. Só que agora, o nome daquele empresário voltava à memória: Eduardo Lisboa.

O mesmo sobrenome de Diana.

Quando Diana entrou no carro, seu perfume misturou-se ao cheiro de couro do banco. Ele sorriu.

- Pronta?

Ela respondeu com um aceno. E, por um segundo, ele teve a estranha sensação de que aquela mulher não era apenas um encontro casual. Ela era uma chave.

E ele, talvez, fosse a porta errada.

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Capítulo 3 Coisas que não se dizem

Ponto de vista de Marcos

O portão de ferro rangia como se guardasse segredos há décadas. A casa de Diana, no bairro Paraíso, era um sobrado antigo, daqueles com janelas de madeira, vitrais no hall e cheiro de cera no chão.

Ao entrar, Marcos sentiu o peso do silêncio. Não havia fotos nas paredes, apenas quadros de paisagens frias, montanhas encobertas de neblina, rios sem pessoas.

- Meus pais não gostam de memórias - disse Diana, notando o olhar dele.

Marcos sorriu com leveza, tentando disfarçar o arrepio. Na sala, um quadro acima da lareira o fez parar. Era uma pintura abstrata em tons escuros, com uma assinatura no canto inferior direito: G. Soares.

- Quem pintou? - perguntou.

- Meu irmão. Antes de... sumir.

Marcos gelou. Gustavo Soares. O nome bateu como um sino na cabeça dele. Lembrou-se de uma conversa antiga, fragmentada, entre seu pai e um homem que mencionava "aquele garoto metido a artista... que sabia demais".

Ele se virou para Diana. Ela o observava, mas não dizia nada. Só apertava a própria pulseira de couro - idêntica à que ele também usava, herança do pai.

Ali, pela primeira vez, Marcos entendeu que aquela visita era mais do que um encontro com uma garota. Era o começo de algo que talvez não pudesse parar.

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Ponto de vista de Diana

Ela observava Marcos com atenção. Cada passo, cada olhar ao redor da casa. Ele não fingia surpresa. Parecia verdadeiramente incomodado - como quem reconhece algo que não queria encontrar.

Quando parou diante do quadro, ela teve certeza: ele sabia de alguma coisa.

Não era só mais um garoto curioso. Não era só sobre química ou atração. Era sobre laços invisíveis. Sobre o passado que sempre volta, mesmo quando enterrado.

Diana se aproximou dele devagar.

- Você está bem?

Ele hesitou.

- Estou... é só que essa casa parece guardar histórias demais.

Ela sorriu de canto.

- A maioria delas ninguém quer contar.

Marcos assentiu, mas desviou o olhar. Diana percebeu: ele estava mentindo. Ainda não sabia o quê, mas sabia que ele não veio até ali apenas por ela.

E, mesmo assim, algo nela queria que ele ficasse.

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