O sino da capela soou às cinco da manhã, como fazia todos os dias há quatro anos. Sofia Conti abriu os olhos antes mesmo do último eco se dissipar pelas paredes de pedra do convento Santa Clara. A escuridão ainda cobria o pequeno quarto, mas ela não precisava de luz para encontrar o caminho. Seus pés descalços tocaram o piso frio, e ela murmurou a primeira oração do dia, um fio de voz que se perdia no silêncio da madrugada.
"Senhor, que este novo dia seja de bençãos."
A rotina ao levantar era simples e sagrada, principalmente quando vestia seu hábito. Diante de um espelho simples, em um quarto austero, sem luxos, onde a luz suave da manhã se misturava ao brilho tímido de uma vela. A túnica cinza cai sobre seu corpo com delicadeza, o crucifixo de madeira repousa sobre seu peito, e o cordão branco na cintura guarda discretamente o rosário que balança com o menor movimento possível. Com delicadeza, Sofia segura o véu branco entre as mãos para colocá-lo sobre a cabeça, seus olhos se encontram no reflexo: há muita serenidade, mas também o frescor de sua juventude que se abre ao mistério da fé. Cada gesto é lento, quase como um ritual sagrado, como se o tecido fosse feito de silêncio e oração, pois para ela o hábito não é apenas uma roupa, mas um manto, cheio de promessas, um sinal de sua entrega e de esperança por um futuro cheio de fé e paz em seu coração. Sofia sorriu ao tocar o crucifixo de madeira que descansava sobre seu peito, era um presente da madre superiora no dia de sua entrada.
No corredor, outras noviças também se moviam como sombras silenciosas. Irmã Margarida, com seus olhos sempre marejados de gratidão, acenou-lhe com um sorriso. Irmã Joana, a mais velha do grupo, já carregava o peso de cinquenta anos de votos, mas ainda encontrava energia para corrigir o passo das mais novas. Sofia se sentia em casa ali, naquela comunidade de mulheres que haviam escolhido o amor divino acima de qualquer outro. A capela estava mergulhada na penumbra quando elas entraram, a única luz vinha das velas tremeluzentes no altar, onde o sacrário brilhava como um coração de ouro. Sofia ajoelhou-se no último banco, como sempre fazia. Não por humildade, embora fosse humilde, mas porque ali, das últimas fileiras, ela podia ver todas as outras irmãs. Podia vê-las rezando, cada uma à sua maneira, e isso a enchia de uma alegria tão pura que às vezes lhe doía no peito.
"Aqui estamos, Senhor!" pensou, fechando os olhos. "Tuas filhas, Tuas servas, Tuas noivas."
A missa das seis horas da manhã começou com o canto gregoriano. As vozes das freiras subiam como incenso, enchendo o pequeno espaço de uma beleza que Sofia julgava ser o mais próximo do céu que se podia alcançar na Terra. Ela cantou com todo o coração, cada sílaba latina como um fio que a ligava à eternidade. Quando o padre elevou a hóstia, Sofia sentiu as lágrimas quentes escorrerem por seu rosto.
Não era tristeza. Era plenitude.
Depois da missa, o café da manhã no refeitório. Pão duro, leite fresco das vacas do convento e um pouco de mel que Irmã Clara, a apicultora, colhia com tanto carinho. As conversas eram baixas, sempre sobre os afazeres do dia, sobre a horta que precisava ser regada, sobre os panos que precisavam ser costurados para os órfãos da cidade vizinha.
"Sofia, você terminará o enxoval hoje?" perguntou Irmã Margarida, quebrando o pão em pedaços pequenos.
O enxoval. Sofia sentiu um calor subir às suas bochechas. Não era um enxoval de casamento, como o mundo entendia. Era o conjunto de vestes que ela usaria no dia de sua profissão solene, quando finalmente faria os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência. A data estava marcada: três meses. Apenas três meses a separavam de se tornar, de fato, uma esposa de Cristo.
"Sim, Irmã. Falta apenas bordar o nome de Jesus no véu" respondeu, a voz tremendo levemente de emoção.
"Que alegria, filha!" exclamou a madre superiora, que se aproximou com sua andarilha silenciosa. Madre Teresa era uma mulher pequena, de olhos azuis como o céu depois da chuva, e sua presença sempre trazia uma sensação de acolhimento. "Há quanto tempo esperamos por este dia. Você é uma das noviças mais dedicadas que já tivemos."
Sofia baixou os olhos, sentindo o peso do elogio como uma bênção. "Tudo é graça de Deus, Madre."
"Sim, e Ele a escolheu para uma missão belíssima." Madre Teresa tocou seu ombro. "Você trará muita luz a este convento, Sofia. Sua fé é um exemplo para todas nós."
O dia seguiu seu curso. Sofia trabalhou na horta, suas mãos se sujando de terra fértil, arrancando ervas daninhas com a mesma paciência com que arrancava de sua alma qualquer pensamento que não fosse de louvor. Plantou sementes de manjericão, cantarolou um salmo enquanto regava os canteiros, e até os pássaros pareciam escutá-la.
À tarde, no silêncio do scriptorium, ela bordou. A agulha entrou e saiu do linho branco, traçando letras douradas com fios de ouro que brilhavam sob a luz da janela. JESUS. Era o nome que ela levaria para sempre no coração. Cada ponto era uma promessa: Eu Te escolho. Eu Te amo. Eu sou Tua.
"Sofia, você está sorrindo de novo."
Era Irmã Joana, que a observava de sua própria bancada, onde copiava manuscritos antigos. Sofia passou a mão pelo véu, envergonhada.
"Não posso evitar, Irmã. Penso no dia dos votos e meu coração transborda."
"Isso é bom, filha. É bom que sua alma cante." Irmã Joana suspirou, um suspiro de quem já havia visto muitas noviças como Sofia. "A vida religiosa não é fácil. Haverá dias de deserto, dias em que o silêncio de Deus parecerá um abandono. Mas quem começa assim, com o coração em chamas, tem mais força para atravessar a noite escura."
Sofia ouviu as palavras, mas não as compreendeu verdadeiramente. Como poderia Deus abandoná-la? Ela o sentia em cada fibra de seu ser, em cada batida de seu coração, em cada raio de sol que entrava pela janela. Sua fé era uma certeza tão sólida quanto as paredes de pedra do convento.
Quando o sino tocou para as Vésperas, Sofia fechou o bordado com cuidado e seguiu as outras irmãs para a capela. O pôr do sol pintava os vitrais de vermelho e dourado, e a luz caía sobre o altar como uma promessa divina. Ela ajoelhou-se, juntou as mãos e rezou. Não pediu nada. Sua oração era apenas presença: "Estou aqui, Senhor. Tu és tudo o que preciso."
Enquanto as vozes se erguiam no Magnificat, Sofia sentiu uma paz tão profunda que lhe pareceu flutuar. Ela fechou os olhos, deixando-se levar pela melodia, e naquele instante teve a certeza de que aquele era seu lugar. Sua vocação. Sua vida.
"Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador."
Sim, ela estava alegre. Mais alegre do que jamais estivera. E enquanto o sol se punha atrás das colinas, Sofia Conti, noviça do convento Santa Clara, mal podia esperar para que os dias passassem e ela pudesse finalmente dizer, diante de Deus e dos homens: Sim, para sempre. Mas o que ela ainda não sabia é que o mundo lá fora, o mundo que ela havia deixado para trás, não estava disposto a deixá-la ir, e em breve, sua fé inabalável seria posta à prova de maneiras que nem mesmo Irmã Joana, com toda sua sabedoria, poderia imaginar.
Os dias no convento de Santa Clara seguiam seu curso como as pétalas de um rosário, cada uma idêntica à outra, cada uma um elo na corrente interminável da devoção. Sofia havia perdido a noção do tempo externo, daquele mundo lá fora que girava em sua própria órbita de vaidades e tormentos. Aqui, dentro dos muros de pedra, o relógio marcava apenas as horas das orações, das refeições, do trabalho e do descanso, mas o que ela não sabia é que o tempo, teimoso, continuava a passar lá fora. E que ele cobrava seu preço.
Era uma tarde de terça-feira quando a portaria do convento tocou. Sofia estava no claustro, regando os vasos de alecrim que bordejavam o pátio interno, quando ouviu o som distante do sino de bronze. Não era um toque comum, era mais rápido, mais urgente, como se a própria campainha estivesse aflita.
"Sofia!" chamou Irmã Margarida, surgindo na arcada com o rosto pálido. "Há um homem na portaria. Um senhor. Ele diz que é seu pai."
A regadora caiu das mãos de Sofia com um estrondo metálico. A água escorreu pelo chão de pedra, formando uma poça que refletiu seu rosto, um rosto que, de repente, perdera toda a cor.
"Meu pai?" repetiu, a voz mal saindo de sua garganta. "Mas papai nunca vem ao convento. Ele não... ele não gosta deste lugar."
Era verdade. Giorgio Conti sempre respeitara a decisão da filha, mas jamais escondera sua dor. Para ele, o convento era um túmulo onde sua filha viva havia se enterrado. Nas raras vezes em que se encontravam, nas visitas permitidas uma vez por semestre, ele vinha com o olhar carregado de uma tristeza que Sofia aprendera a ignorar. Mas ele nunca, jamais, aparecia sem aviso.
"Ele está na sala de visitas" Irmã Margarida disse, hesitante. "Madre Teresa pediu que você fosse vê-lo. Diz que seu pai... não está bem."
Sofia não esperou ouvir mais. Ergueu as saias do hábito e correu, seus passos ecoando pelos corredores de pedra como tambores de guerra. O coração batia tão forte que ela podia senti-lo na garganta, um pássaro preso em uma gaiola de costelas. Que horas são? pensou, atordoada. Será que minha mãe...?
A sala de visitas era um cômodo pequeno e austero, com duas cadeiras de madeira, uma mesa simples e uma cruz na parede. Era ali que as freiras recebiam seus familiares, em encontros breves e vigiados, onde cada palavra era medida, cada toque era contido. Sofia parou na porta, ofegante. E então o viu. Giorgio Conti estava sentado em uma das cadeiras, mas não como Sofia se lembrava. Seu pai sempre fora um homem forte, de ombros largos e postura firme, um comerciante que construíra sua fortuna com as próprias mãos, que nunca abaixava a cabeça para ninguém. O homem que agora a encarava, no entanto, era uma sombra de si mesmo. Seus cabelos, antes grisalhos nas têmporas, agora eram completamente brancos. Suas bochechas, que Sofia recordava cheias e rosadas, estavam cavadas, e a pele pendia frouxa sob seus olhos. Olhos que já não tinham o brilho vivo do passado, mas um véu opaco de desespero.
"Papai?" Sofia sussurrou, dando um passo à frente. Giorgio levantou-se com dificuldade, como se cada osso doesse. Quando abriu os braços para abraçá-la, Sofia viu que suas mãos tremiam. Ela correu para ele, enterrando o rosto em seu peito, sentindo-o tão frágil que quase tinha medo de apertá-lo.
"Meu docinho" ele murmurou contra o véu de Sofia. A voz estava rouca, quebrada. "Minha menina..."
"O que aconteceu?" Sofia afastou-se para olhá-lo, os olhos marejados. "Papai, você está doente? É a mamãe? Ela está bem? Por que você não avisou que viria?"
Giorgio sentou-se novamente, puxando Sofia para a cadeira ao lado. Suas mãos não soltavam as dela, como se ele tivesse medo de que ela desaparecesse. Por um longo momento, ele não disse nada. Apenas a olhou, com uma expressão que Sofia não conseguia decifrar, era amor, sim, mas também uma angústia tão profunda que parecia devorá-lo por dentro.
"Estou bem, fisicamente" disse ele, finalmente. "Estou... estou vivo. Mas, Sofia, eu preciso que você me escute. Preciso que você me ouça com calma." O coração de Sofia gelou.
"Papai, você está me assustando." Giorgio passou a mão pelo rosto, um gesto que ele fazia quando estava nervoso, e Sofia viu que suas unhas estavam roídas até a carne.
"Eu fiz algo terrível, filha. Algo que nunca imaginei que seria capaz de fazer." Sua voz falhou. "Eu... eu perdi tudo. A loja, a casa, as economias de uma vida. Perdi tudo."
"Como?" Sofia apertou suas mãos. "O que aconteceu? Um incêndio? Um assalto?"
"Pior." Giorgio riu, um som amargo e sem humor. "Foi a ganância, Sofia. Apostei. Investi em negócios que não existiam, em pessoas que me enganaram. Emprestei dinheiro para pessoas que não devia emprestar."
Sofia sentiu um frio subir pela espinha. Havia algo na maneira como ele disse "pessoas que não devia emprestar" que a fez estremecer."Que pessoas, papai?"
Giorgio não respondeu imediatamente. Em vez disso, seus olhos se desviaram, fixando-se na cruz na parede. Por um momento, Sofia pensou que ele fosse rezar. Mas quando ele falou, sua voz era um sussurro áspero, como areia.
"Você se lembra da família Marino? O Tony... Tony Marino?"
Sofia franziu a testa. O nome soava familiar, mas distante, como uma memória de infância que ela nunca se dera ao trabalho de examinar.
"Os Marino? Eles têm um grande restaurante na cidade, não?"
"Têm." Giorgio engoliu em seco. "E têm outras coisas também. Coisas que você não precisa saber. Mas, Sofia, eu devo dinheiro a eles. Muito dinheiro. Mais do que eu poderei pagar em dez vidas." O ar pareceu rarear na sala. Sofia soltou as mãos do pai, recostando-se na cadeira.
"Quanto?" perguntou, a voz tão baixa que mal era audível. Giorgio fez uma pausa. Quando respondeu, foi como se as palavras arrancassem pedaços dele.
"Seiscentos e cinquenta mil euros."
O número pairou no ar como uma nuvem negra. Sofia sentiu o estômago se contrair, a cabeça girar. Duzentos e cinquenta mil euros. Seu pai, que sempre fora tão cuidadoso, tão prudente, devia Seiscentos e cinquenta mil euros a um homem chamado Marino.
"Mas isso é um absurdo" ela disse, tentando encontrar uma lógica. "Como você pode dever tanto? Você é um comerciante, papai. Você sempre foi..."
"Um tolo" interrompeu Giorgio, a voz se quebrando. "Um tolo orgulhoso e ambicioso. Achei que poderia dobrar meu dinheiro em seis meses. Achei que seria esperto, que enganaria os outros antes que eles me enganassem." Ele enterrou o rosto nas mãos. "Perdoe-me, Sofia. Perdoe-me por estar aqui, envergonhando você diante das irmãs. Perdoe-me por ter falhado."
Sofia não sabia o que dizer. O mundo, que até poucos minutos atrás parecia tão ordeiro e seguro, começava a se inclinar em seu eixo. Ela olhou para o pai, para o homem que sempre fora seu herói, seu porto seguro e viu apenas ruínas.
"Nós vamos resolver isso" ela disse, mas sua voz não soou convincente nem para si mesma. "Talvez as irmãs possam ajudar. Há fundos de caridade, empréstimos da igreja..."
"Não, Sofia." Giorgio levantou a cabeça e Sofia viu, para seu horror, lágrimas escorrendo por suas rugas. "Não é assim que as coisas funcionam com os Marino. Não existe negociação, não existe misericórdia. Tony Marino não quer o dinheiro."
"Como assim?" Sofia piscou, confusa. "O que ele quer, então?"
O silêncio que se seguiu foi tão pesado que parecia ter peso. Giorgio a olhou, e naquele olhar Sofia viu algo que a fez querer recuar, uma mistura de culpa e desespero, como se ele estivesse prestes a jogar uma bomba em seus pés.
"Ele quer você, Sofia." As palavras caíram como pedras no chão. "O que?"
"Ele disse que pagará a dívida..." Giorgio continuou, as palavras saindo aos tropeços, "Do próprio bolso. Mas com uma condição. Ele quer que você... que você se case com ele."
Sofia sentiu como se o chão tivesse aberto sob seus pés. Ela se levantou tão abruptamente que a cadeira rangeu contra o chão.
"Isso é loucura. Você está mentindo. Não pode estar falando sério."
"Eu gostaria de estar mentindo." Giorgio também levantou, estendendo as mãos para ela. "Sofia, por favor, entenda. Tony Marino não é um homem comum. Ele é perigoso. As coisas que ele faz com seus devedores... as coisas que ele já fez com outras pessoas que tentaram fugir..."
"Estou protegida aqui!" Sofia gritou, e sua voz ecoou pelas paredes de pedra. "Este é um convento, papai! Sou uma noviça, vou fazer meus votos em três meses. Ninguém pode me tirar daqui. Nem você, nem um mafioso, nem o próprio diabo!"
"Ele não precisa te tirar daqui" Giorgio disse, sua voz de repente cansada, derrotada. "Ele pode simplesmente esperar. Pode esperar até você sair, até ir visitar sua mãe, até fazer uma caminhada. Ele tem homens, Sofia. Homens que obedecem a qualquer ordem."
Sofia sentiu as pernas fraquejarem. Ela se apoiou na mesa, o coração disparado.
"Isso é uma ameaça?"
"É a verdade." Giorgio deu um passo em sua direção. "Tony Marino tem seus olhos em você há meses. Desde que viu uma fotografia sua no meu escritório. Ele disse que... que você era a mulher mais bonita que já viu. Que sempre quis uma esposa devota, uma mulher de fé. E então ele soube da dívida e viu a oportunidade."
A sala de repente pareceu pequena demais. Sufocante. Sofia tentou respirar fundo, mas o ar não entrava. As imagens embaralham em sua mente "seu pai, a dívida, o nome de Tony Marino. E a voz de Madre Teresa, tão clara em sua memória, dizendo que sua fé era um exemplo."
"Eu não posso" ela sussurrou, mais para si mesma do que para o pai. "Eu não vou. Eu já escolhi, papai. Escolhi Jesus. Escolhi esta vida."
"Eu sei, eu sei, meu amor." Giorgio finalmente a abraçou, e Sofia sentiu seu corpo tremer. "E eu não tenho o direito de pedir que você mude essa escolha. Mas eu não sabia mais o que fazer. Não sabia onde mais correr. Tony ameaçou sua mãe. Disse que se eu não trouxesse a notícia para você, ele mesmo viria. E você sabe o que aconteceria se ele viesse aqui."
Sofia fechou os olhos. As lágrimas que ela vinha segurando finalmente romperam a barreira, escorrendo quentes por suas bochechas.
"Isso é um pesadelo" ela murmurou. "Isso não pode estar acontecendo."
"Querida, eu vou embora agora." Giorgio a soltou, enxugando as próprias lágrimas com o dorso da mão. "Só queria que você soubesse. Queria que estivesse preparada. Se Tony aparecer aqui, e ele vai aparecer, não tente enfrentá-lo. Não diga não, pelo menos não diretamente. Ele não é um homem que aceita uma negativa."
"E o que você sugere que eu faça?" Sofia perguntou, a voz carregada de uma amargura que nunca sentira antes. "Que eu me curve à vontade de um bandido?"
Giorgio hesitou. "Eu sugiro que você reze. Reze muito. E que me perdoe." Ele a beijou na testa, um beijo rápido, como o de um homem que está fugindo. E então, sem olhar para trás, Giorgio Conti saiu da sala, deixando Sofia sozinha com o eco de suas palavras e o silêncio que as seguia. Sofia ficou imóvel por um longo tempo. Olhou para a cruz na parede, para o Cristo de braços abertos, e tentou encontrar ali a paz que sempre encontrava. Mas algo havia mudado. A sala, o convento, sua vida, tudo parecia agora uma casa de cartas prestes a desabar. Ajoelhou-se no chão frio e juntou as mãos.
"Senhor" ela orou, a voz trêmula, eu não entendo. "Como pode ser esta a Tua vontade? Eu te escolhi. Eu me entreguei a Ti. Por que este sofrimento? Por que este medo?"
Mas o céu, naquele momento, permaneceu em silêncio. E Sofia, pela primeira vez em quatro anos, sentiu a sombra da dúvida tocar seu coração.
Os três dias que se seguiram à visita de seu pai foram os mais longos da vida de Sofia. O convento continuava sua rotina imutável, os sinos tocavam nas mesmas horas, as orações eram recitadas nos mesmos tons, as irmãs caminhavam pelos mesmos corredores com a mesma serenidade de sempre. Mas para Sofia, tudo havia mudado. O mundo, que antes era um jardim de paz, agora parecia uma paisagem estrangeira, onde cada sombra escondia uma ameaça e cada silêncio carregava um segredo. Ela não contou a ninguém sobre o que ouvira.
Como poderia? Como explicar que seu pai, o homem que a criara com tanto amor, a havia trocado por uma dívida de jogo? Como confessar que um mafioso desconhecido a reivindicava como se ela fosse uma propriedade? As palavras ficavam presas em sua garganta, tão pesadas e venenosas que Sofia temia que, se as soltasse, contaminariam a pureza daquele lugar sagrado.
Na manhã seguinte à visita de Giorgio, Sofia acordou antes do sino. Ficou deitada na cama estreita, os olhos abertos para o teto de madeira, enquanto a luz da aurora se infiltrava lentamente pela janela. Rezou, como sempre rezava. Mas as palavras pareciam ocas, ecoando em um vazio que antes não existia.
"Pai Nosso, que estais no Céu.." murmurou, mas interrompeu-se. "Santificado seja o Vosso nome. O Vosso nome..." Ela pensou em Tony Marino. Pensou em como ele devia ter ouvido seu nome pela primeira vez, em como seus lábios deviam ter pronunciado "Sofia" como quem prova um vinho raro. O pensamento a enojava.
"Não" disse em voz alta, sentando-se na cama. "Não vou deixar que ele me roube isso também."
O dia transcorreu em uma névoa. Sofia foi à missa, cantou os salmos, trabalhou na horta. Mas suas mãos agiam por conta própria, enquanto sua mente vagava por labirintos de medo e incerteza. Ao meio-dia, enquanto almoçava com as outras irmãs, Irmã Margarida tocou seu braço.
"
"Sofia, você está pálida. Comeu quase nada." Sofia forçou um sorriso.
"Estou bem, Irmã. Apenas... pensativa. Os votos estão chegando, e a emoção tem me tirado o apetite."
"Ah, a doce ansiedade de uma noiva de Cristo!" Irmã Margarida riu, batendo palmas. "Lembro-me de como me sentia antes dos meus votos. Era como se meu coração fosse explodir de tanta alegria."
"Sim" Sofia concordou, baixando os olhos para o prato. "Como se fosse explodir." Como se fosse explodir de medo, completou em pensamento.
À tarde, Madre Teresa a chamou ao seu escritório. A madre superiora estava sentada atrás de sua escrivaninha, os dedos entrelaçados sobre a madeira polida. Seus olhos azuis, que sempre pareciam ver através das almas, fixaram-se em Sofia com uma intensidade que a fez estremecer.
"Sente-se, filha." Sofia obedeceu, com as mãos suadas sobre o hábito.
"Soube que seu pai a visitou anteontem" Madre Teresa disse, sua voz suave como veludo. "Geralmente, as visitas familiares nos trazem alegria. Mas notei que, desde então, algo parece perturbá-la. Seu olhar está distante, suas orações, mecânicas."
Sofia abriu a boca para negar, mas as palavras não vieram. Em vez disso, sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Madre Teresa levantou-se imediatamente, contornou a mesa e ajoelhou-se diante dela, tomando suas mãos.
"Minha filha, o que aconteceu?"
"Madre" Sofia sussurrou, a voz falhando "eu não posso... não posso dizer. É terrível. É tão terrível que tenho medo de que, ao dizê-lo em voz alta, ele se torne real."
"Ele já é real, Sofia." Madre Teresa apertou suas mãos com firmeza. "Seja qual for o fardo que você carrega, Deus já o conhece. E Ele não o colocou em seus ombros para que você o carregue sozinha. Conte-me. Confie em mim."
Por um longo momento, Sofia hesitou. Mas a bondade nos olhos da madre superiora era como um ímã, atraindo para fora tudo o que ela havia mantido preso. E assim, entre soluços, Sofia contou tudo: a dívida, a ameaça, a condição imposta por Tony Marino. Quando terminou, o silêncio no escritório era tão denso que Sofia podia ouvir o tique-taque do relógio na parede. Madre Teresa permaneceu imóvel, seu rosto uma máscara de serenidade que escondia, Sofia sabia, uma tempestade de preocupação.
"Isso é gravíssimo" disse a madre, finalmente. "Seu pai colocou você em uma posição impossível."
"Eu sei." Sofia enxugou os olhos com a manga do hábito. "Mas o que eu faço, Madre? Posso ficar aqui, escondida atrás destes muros, para sempre?" Madre Teresa suspirou.
"Não, filha. Não para sempre. Você precisa sair para fazer compras, para visitar sua mãe, para consultar o médico. E mesmo que nunca saísse, o mundo tem pernas longas. Tony Marino, se for tão poderoso quanto seu pai diz, pode encontrar maneiras de chegar até você."
"Então estou condenada?" A voz de Sofia era um fio de desespero. "Devo simplesmente aceitar minha sorte e me casar com um estranho?"
"Não." Madre Teresa levantou-se, caminhando até a janela. Lá fora, o jardim do convento florescia sob o sol da tarde. "Há sempre uma escolha, Sofia. Sempre. Mas precisamos de sabedoria para enxergá-la."
A madre voltou-se para ela, seus olhos brilhando com uma luz determinada. "Fique aqui, no convento, pelos próximos dias. Não saia. Não atenda a ninguém. Eu vou entrar em contato com o bispo, com algumas pessoas influentes da igreja. Talvez possamos interceder junto às autoridades, talvez possamos encontrar uma saída legal para essa situação."
"E se ele vier antes disso?"
"Se ele vier, eu mesma falarei com ele." Madre Teresa endireitou os ombros, e Sofia viu nela a força de uma mulher que havia enfrentado tempestades muito piores. "Este é um lugar sagrado, Sofia. Ninguém, nem mesmo um mafioso, entra aqui sem minha permissão."
Sofia sentiu um fio de esperança se acender em seu peito.
"Obrigada, Madre. Obrigada."
"Não me agradeça ainda." Madre Teresa a abraçou. "Apenas reze. Reze com toda a força de sua fé. E confie que Deus não a abandonará."
Naquela noite, Sofia rezou mais do que jamais rezara. Ajoelhada na capela vazia, sob a luz trêmula das velas, ela derramou sua alma diante do sacrário. Pediu força. Pediu coragem. Pediu que Tony Marino desistisse de seu plano, que seu pai encontrasse uma maneira de pagar a dívida, que o mundo, de alguma forma, voltasse a fazer sentido. Mas o céu permaneceu em silêncio.
No segundo dia, Sofia começou a notar coisas estranhas. Um carro preto estacionado do lado de fora do portão principal, que permanecia ali por horas antes de desaparecer. Um homem de terno escuro que caminhava pela rua, olhando para as janelas do convento com uma fixação que fazia sua pele se arrepiar. Pequenas coisas, quase imperceptíveis, mas que se acumulavam como nuvens de tempestade no horizonte.
"São apenas imaginações suas" disse a si mesma, enquanto trabalhava no scriptorium. "Você está nervosa, vendo perigos onde não existem."
Mas não conseguia acreditar nisso. Naquela noite, enquanto se preparava para dormir, Sofia ouviu um barulho vindo do jardim. Levantou-se e foi até a janela, o coração batendo acelerado. Lá embaixo, na penumbra do pátio, uma figura masculina se movia entre as roseiras. Não era uma das irmãs. Era alto, de ombros largos, vestido de preto. Sofia prendeu a respiração. A figura parou, olhou para cima, e por um momento seus olhos se encontraram através da escuridão. O homem sorriu, um sorriso lento, predatório e então se virou e desapareceu na noite.
Sofia recuou da janela, o coração disparado. Seus dedos tremeram enquanto fazia o sinal da cruz.
"Ave Maria, cheia de graça..." murmurou, mas a oração parecia inútil, as palavras vazias.
No terceiro dia, a calmaria finalmente se rompeu de vez. Era início da tarde quando o sino da portaria tocou novamente. Sofia estava na capela, ajoelhada diante do altar, quando ouviu os passos apressados de Irmã Margarida no corredor.
"Sofia!" a irmã chamou, ofegante. "Há um homem na portaria. Ele está pedindo pra te ver."
"Quem é? " Sofia perguntou, embora já soubesse a resposta.
"Ele disse que se chama Tony Marino." Irmã Margarida parecia assustada, as mãos tremendo. "Ele está com outros homens. Homens grandes, de terno. A madre Teresa está falando com ele, mas ele... ele insiste em vê-la."
O nome pairou no ar como um chicote. Sofia sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Por um momento, todo o ar pareceu se esvair da capela, e ela teve que se segurar no banco para não cair.
"Eu sabia" sussurrou, a voz rouca. "Eu sabia que ele viria."
"Você não precisa vê-lo" Irmã Margarida disse, pegando sua mão. "Madre Teresa pode despachá-lo, pode chamar a polícia..."
"Não, Irmã." Sofia levantou-se lentamente, seus olhos fixos no crucifixo do altar. "Se eu me esconder agora, ele só vai voltar. E da próxima vez, talvez não venha sozinho." Ela virou-se para a irmã mais velha, seu rosto uma máscara de determinação forjada no desespero. "Vou encontrá-lo. Vou olhar nos olhos desse homem e dizer a ele que não sou uma mercadoria."
"Sofia, isso é perigoso!"
"Eu sei." Sofia apertou a mão de Irmã Margarida. "Mas também é a única maneira de mostrar a ele que não tenho medo." Com o coração disparado e as mãos geladas, Sofia caminhou pelos corredores do convento em direção à portaria. A cada passo, ela repetia mentalmente as palavras de Madre Teresa: Há sempre uma escolha. Sempre.
Quando finalmente chegou à entrada, viu-o. Tony Marino estava de pé no pátio interno, cercado por seus homens. Ele era mais alto do que Sofia imaginara, mais magro, com cabelos escuros penteados para trás e olhos que brilhavam como aço sob o sol da tarde. Vestia um terno impecável, cinza-escuro, e suas mãos, mãos que Sofia sabia serem capazes de violência, estavam enfiadas nos bolsos com uma casualidade estudada. Ao vê-la, Tony sorriu. E aquele sorriso, Sofia percebeu com um calafrio, era o sorriso de um homem que já sabia que vencera.
"Sofia Conti" ele disse, sua voz grave e aveludada, como o rumor de uma seda sendo rasgada. "Finalmente. Eu estava começando a pensar que você nunca sairia."
Sofia ergueu o queixo, suas mãos cerradas contra o hábito. "O que o senhor quer aqui, Sr. Marino?"
Tony deu um passo à frente, e Sofia sentiu os olhos dele percorrerem seu corpo como um ladrão avaliando uma joia.
"O que eu quero?" Ele riu, um som baixo e perigoso. "Eu quero você, Sofia. E eu sempre consigo o que quero."