O cheiro de asfalto quente misturado com o perfume caro que custava a durar o trajeto inteiro da Zona Sul até a Zona Norte era a linha divisória do meu mundo.
Para os vizinhos, os professores da faculdade de arquitetura e até para a minha tia Heloísa em Ipanema, eu era Maya Albuquerque: uma jovem de vinte e cinco anos, reservada, estudiosa, que carregava a elegância silenciosa de quem parecia ter tido uma vida protegida.
Mas no Morro do Alemão, o meu nome era outro. Lá, eu era Dóris.
A liderança não caiu no meu colo por sorte, nem por herança familiar convencional. Ela foi banhada a sangue, construída sobre as cinzas de uma infância que me foi roubada dezessete anos atrás.
Renata, uma das poucas pessoas que conheci logo nos meus primeiros anos no morro através do Júlio - da segurança da boca -, era uma das poucas almas que conhecia os contornos da minha duplicidade. Ela não precisava me julgar; ali em cima, todo mundo carregava cicatrizes, mas as minhas eram profundas o bastante para manter qualquer um a uma distância segura.
A polícia me caçava, claro. Viviam colados nos meus calcanhares, colando cartazes e tentando entender quem comandava o tabuleiro.
Mas quem achava que eu era apenas mais uma criminosa sedenta por sangue se enganava redondamente.
Eu não matava por esporte ou crueldade gratuita. No entanto, fraqueza era algo que eu não tolerava. Dias antes, por exemplo, quase executei um dos meus próprios homens por crueldade desnecessária contra uma mãe de família.
Ele achou que podia espancar uma mulher por causa de um erro banal dentro do território. Paguei na mesma moeda, mostrando visualmente quem ditava as regras. Quem mandava ali era eu. E quando a raiva ancestral que habitava em mim vinha à tona, não havia trégua.
Porque a minha história não começou no crime. Ela começou numa noite que foi apagada a tiros.
Eu tinha apenas oito anos. Naquela noite, a nossa casa parecia um oásis de normalidade e falsa segurança.
Meus pais e meu irmão jantavam enquanto a mansão exibia aquela fachada sofisticada que tanto chamava atenção das minhas colegas de escola. Meu pai era um homem de silêncios pesados, uma figura de autoridade inquestionável que nunca precisava elevar o tom de voz para impor respeito.
Mas havia um lado dele que ele escondia a sete chaves: um escritório trancado onde guardava um verdadeiro arsenal de guerra.
Naquela noite fatídica, por capricho do destino ou curiosidade infantil, a porta daquele escritório estava entreaberta. Entrei e vi o armário de vidro refletindo o brilho metálico de armas pesadas. Não entendi o que aquilo significava na época, mas guardei cada detalhe. Pouco depois, o som seco de uma explosão estilhaçou a paz da casa.
O caos se instalou em segundos. Lembro do desespero do meu pai, do som abafado dos disparos e da ordem desesperada antes de me empurrar para o meu refúgio secreto:
- Corre para o seu esconderijo, minha princesa, eu vou te encontrar!
Mas ele não voltou.
Abafei meus próprios soluços dentro do esconderijo, ouvindo os gritos e a execução sistemática da minha família. Quando o silêncio fúnebre finalmente tomou conta, rastejei para fora e espreguei os olhos na escada. A cena era uma pintura do inferno: meus pais e meu irmão caídos, o sangue manchando o piso impecável.
Um homem se destacava entre os assassinos. Ele chutou o corpo do meu pai, que ainda respirava com dificuldade, e vociferou com um ódio que me congelou a espinha:
- Eu vou achar sua filha e acabar com seu clã maldito! Esse morro será meu, e você, seu merda, já matou demais dos meus. Agora chegou a minha vez de brilhar e me vingar de você. Sua mulher era para ser minha, e um dia vou fazer você pagar por isso!
O monstro ainda rugiu, procurando por mim, ameaçando me matar na frente do meu pai agonizante. Protegida pelas sombras, recuei para o meu esconderijo e só saí horas depois, quando a sirene da polícia cortou a madrugada e uma policial me encontrou encolhida, trêmula e completamente sozinha no mundo.
Fui morar com minha tia Heloísa em Ipanema. Tive o melhor colégio, a faculdade, a terapia que tentava em vão apagar os rostos daqueles homens da minha mente.
Mas a terapia não adiantava contra a sede de justiça que queimava no meu peito. Eu reconheci cada rosto naquelas fotos que a polícia me mostrou. E jurei que eles pagariam. Até mesmo Genebra, o segurança que teoricamente deveria ter nos protegido e que me enchia de presentinhos, fazia parte da traição.
Cresci dividida entre dois universos. Na Zona Sul, Maya estudava arquitetura, vivia romances passageiros sem importância - como aquela primeira vez desajeitada com um universitário correto que não cabia no meu mundo caótico - e mantinha as aparências. No submundo, Dóris se moldava de ferro e astúcia.
Até que, em uma das noites no baile funk do morro, o passado cobrou sua fatura.
Encontrei um dos rostos daquela noite. Com a ajuda de Gael, meu fiel escudeiro, armei a armadilha e o levei para um cativeiro isolado para arrancar dele os nomes que faltavam.
Mas o plano saiu do eixo: o antigo líder do morro apareceu nos observando, filmando tudo. Ele tentou me chantagear, virar o jogo e me subjugar. Mal sabia ele que subestimar uma criança sobrevivente era um erro fatal. Eliminei o tirano e assumi o seu trono, tornando-me a temida dona do Morro do Alemão.
Agora, anos depois, o tabuleiro parecia pronto para o xeque-mate.
O som grave e estridente do funk ecoava pelas caixas de som gigantescas quando vi um homem abrir caminho entre a multidão na boca do morro. Ele tinha um porte imponente, um sorriso insolente e, por um segundo que fez meu coração falhar uma batida, traços que me lembraram fantasmas que eu enterrei.
Uma sombra se aproximou de mim, sussurrando em alerta:
- E aí, o que você veio fazer na boca da loba?
O desconhecido parou diante de mim, ignorando completamente a tensão ao redor, e cravou os olhos nos meus sem um pingo de medo.
- Tô na área pra conhecer a loba e, quem sabe, se rolar, tomo esse morro. Seria da hora, né, mano? - ele provocou, com um tom displicente que fez o sangue ferver nas minhas veias.
O segurança ao meu lado rosnou:
- Se você se meter a besta e tentar tomar esse morro, pode crer que não vai sair daqui vivo, não. Nem vai ter chance de falar quem te matou.
Ele não desviou o olhar de mim nem por um centésimo de segundo. A energia que emanava dele era perigosa, arrogante e estranhamente magnética. Eu podia sentir o perigo palpável zumbindo no ar.
Ele não sabia quem eu era, nem o que eu representava. Mas, para o meu azar ou destino, aquele homem acabara de cruzar a linha de chegada da minha paciência.
Se ele achava que podia brincar com fogo no meu território, descobriria da pior forma que a loba nunca perdoa quem ousa desafiá-la. A vingança estava em curso, e ele parecia ser a peça que faltava para incendiar tudo de vez.
As memórias do passado se agarram a mim como sombras vingativas, insistentes em sua presença, impossíveis de exorcizar.
Elas não são apenas lembranças; são cicatrizes vivas, pulsando com uma dor que não se acalma, queima como brasas sob a pele e me arrasta, noite após noite, à beira de um abismo que parece não ter fim.
Minha tia Heloísa - a quem carinhosamente chamo às vezes de Isabella nos meus disfarces do dia a dia, para despistar qualquer curiosidade alheia -, com seu coração bondoso e suas mãos sempre estendidas para mim, tentou tudo o que podia para me salvar dos pesadelos que me devoravam.
Ela buscou especialistas, cada um com suas promessas vazias de cura, de um alívio que parecia estar sempre ao meu alcance, mas que eu sabia, no fundo, ser impossível.
Em cada sessão, eu me escondia atrás de uma máscara impenetrável, fingindo uma força que nunca tive, esboçando sorrisos ensaiados enquanto, por dentro, uma tempestade feroz de dor e raiva ameaçava explodir.
O psicólogo nunca percebeu a real, o que rolava de verdade nos meus olhos. Ele nunca chegou perto da escuridão que estava lá dentro, enterrada sob camadas de mentiras que eu mesma criei pra me proteger e sobreviver.
Com o tempo, os gritos ensurdecedores na minha mente viraram um sussurro distante, quase como um eco. Minha tia, querida e ingênua, acreditou que eu tinha finalmente deixado o passado pra trás, que minha alma tinha encontrado paz. Pobre tia... Ela nunca soube que eu só tinha aprendido a disfarçar, a me fazer de forte.
Eu envolvi minha dor numa frieza brutal, tipo um escudo que afastava todo mundo e mantinha a curiosidade de quem me rodeava bem longe. No morro, eu andava como se desse as cartas, com um olhar que falava pros outros sem precisar de aviso prévio: "Cuidado, aqui não tem espaço pra fraqueza." Diziam que meu coração era uma pedra. Talvez fosse. Mas era o preço, o sacrifício silencioso, pra me manter viva e focada no meu objetivo.
Eu sabia que o caminho que escolhi era um jogo mortal, tipo uma roleta russa. Cada passo me aproximava mais do fundo do poço, mas a adrenalina queimava nas minhas veias como uma droga pesada, e eu não podia parar.
Era o único caminho que me restava, o único que alimentava a chama da justiça dentro de mim. A vingança pela morte da minha família não era só um desejo passageiro; era um fogo que não se apagava, uma chama que me consumia a cada respiração.
Eu estava disposta a tudo, até a sacrificar minha própria vida, pra fazer com que aqueles que destruíram minha família pagassem na mesma moeda. Não ia ter descanso, não ia ter misericórdia. Ia ser na raça.
Hoje, porém, o dia é diferente. O Morro do Alemão me chama de volta, como uma amante insaciável que não se contenta com migalhas.
É ali que a adrenalina corre de verdade, onde o perigo e a excitação se misturam, onde cada passo pode ser o último, mas também o mais intenso.
O telefone vibra na minha mão enquanto estou perto do carro, e eu atendo com a calma de quem já viu o inferno de perto, escondendo o turbilhão de emoções que me consome por dentro.
- Oi, tia... Tô indo pra casa da Bianca. Vou ficar uns quatro dias lá.
- Quatro dias? Mas por que tanto tempo, minha filha? Isso tá me matando. Não some assim, não agora, por favor... Você sabe que eu fico aflita.
A mentira sai com a facilidade de quem já se acostumou a dar aquele jeitinho na realidade. Suave como uma brisa, mas com um veneno ardente por baixo.
Dentro de mim, a verdade está gritando, tipo um furacão prestes a virar tudo de cabeça pra baixo. Não tem mãe de amiga doente, não tem colegas precisando de ajuda com faculdade. O que precisa de mim agora é o morro, meu território, meu império, que não pode ficar vulnerável nem por um segundo.
- Tia, eu adoraria ficar com você, mas a situação lá tá complicada, a mãe da Bianca precisa de apoio. Eu preciso estar lá pra ajudar. Fica tranquila, já tô quase me formando, a faculdade tá nos eixos.
As palavras saem com tanta naturalidade que até eu me convenco, mas sei que a verdadeira missão me espera, e ela é bem mais sombria do que qualquer prova de arquitetura.
No morro, sou Dóris, a rainha que comanda aquele labirinto de concreto, onde cada olhar é calculado, onde cada gesto pesa, e onde ninguém ousa desafiar a minha autoridade.
Lá, sou muito mais do que uma estudante qualquer na PUC. Sou a mulher que ninguém mete a cara pra peitar, mas que, no fundo, carrega uma dor incurável que nunca vai sair de dentro de mim.
A única pessoa que conhecia a minha real extensão no início se foi, levando consigo a única proteção que me restava, deixando-me exposta em um mundo onde um único vacilo custa caro.
Por trás da fachada de universitária recatada, eu era uma estranha naquele mundinho de falsas perfeições e arrogâncias disfarçadas.
Nos corredores da PUC, cheios de egos inflados e sorrisos amarelos, eu me destacava entre os bolsistas, os que estavam na luta para conquistar um futuro que parecia sempre escapar das mãos. Se ao menos aqueles imbecis soubessem quem eu realmente sou quando tiro os sapatos de salto e coloco coturnos...
- Fica tranquila, tia. Vou te manter informada sempre que puder. Te amo, beijos.
Desligo o telefone com um sorriso que não chega aos olhos e sigo pra garagem. É hora de deixar a estudante para trás e, num piscar de olhos, me transformar na mulher que ninguém consegue decifrar.
Troco a suavidade da roupa social pela minha outra pele. A calça justa, a blusa de onça, o coldre bem firme junto ao corpo. Cada peça de vestimenta é uma declaração silenciosa de quem sou e do que sou capaz de fazer para alcançar a justiça.
Em segundos, já estou montada na minha possante moto, acelerando pelas ruas como se estivesse fugindo de algum fantasma, mas, na real, estou indo ao encontro de quem realmente sou.
O vento cortante no meu rosto me dá uma sensação de liberdade visceral, algo que só a velocidade extrema consegue proporcionar.
Motos são minha paixão secreta, meu refúgio e minha arma de fuga. Tenho cinco na garagem, cada uma mais bruta, mais potente que a outra, representando um pedaço da minha alma indomável.
Um pedaço de mim que minha tia jamais entenderia, que o pessoal da Zona Sul nunca compreenderia. Porque, no fundo, eu sabia que a verdadeira Dóris não tinha vez naquele mundinho limpinho. Ela pertencia ao asfalto, ao perigo, ao cheiro de pólvora e à adrenalina que corria pesada nas minhas veias, guiando-me direto para o acerto de contas que esperei dezessete longos anos para realizar.
Partimos com Lucas na garupa da minha moto. Sentia a rigidez do corpo dele colado ao meu, um incômodo que me deixava em alerta máximo.
Nem sei ao certo se este sujeito é realmente sangue do homem que odeio com todas as forças.
Não pouparei esforços para destruí-lo. Sei que o maldito principal está vivo, entocado, procurado pela polícia, escondido em algum buraco que vou descobrir logo.
Enquanto ele curte a vida em alguma mansão confortável, a minha foi despedaçada pelo ódio e pelo sangue. Ao imaginar essa realidade crua, mal posso esperar para eliminar todos os envolvidos. Essa é a única forma de me libertar desse peso.
Caso Lucas seja mesmo parente daquele lixo, sinto que o destino está me apontando o caminho da retaliação. Que o diabo me ajude: não me importo com quem cruze meu caminho. Só quero encontrar os ratos.
Assim que chegarmos à minha base, vou atraí-lo para uma armadilha. Primeiro vou testá-lo, ver até onde vai a marra desse playboy.
Descemos da moto e ele veio rapidamente em minha direção, me puxando para um beijo sem permissão. Para não levantar suspeitas e fingir o papel que me cabia, retribuí por um segundo, embora o contato me causasse repulsa.
- Você é maravilhosa, tão gostosa que meu desejo está incontrolável. Nunca me senti assim antes, mesmo tendo várias opções lá embaixo - falou o otário com um sorriso convencido. Ridículo.
- Que legal que você está apreciando o que vê. Também te achei um cara interessante - menti descaradamente. Não achei nada demais, mas ele não precisava saber disso.
Ele é fisicamente atraente, é verdade. Esguio, mas forte, com um contraste marcante entre a pele escura e os olhos cerrados de quem está acostumado a mandar. Mas a beleza não passava de fachada.
Apesar da pose, ele não despertava meu interesse real. Eu só precisava simular abertura para mantê-lo perto. Poderia simplesmente tê-lo mandado embora da comunidade ou apagado ali mesmo, caso se confirmasse a ligação dele com o passado que me assombra.
Sempre passou pela minha cabeça eliminar toda a linhagem deles antes de dar o golpe final. Quando se cresce nutrindo ódio por dezessete anos, fica difícil enxergar o mundo além da fúria.
No entanto, de vez em quando, a imagem da minha tia invadia meus pensamentos. Quando eu completar minha missão, sei que sobrará muito pouco de mim. Queria que ela tivesse paz, que não ficasse sozinha quando eu já não estivesse por perto para protegê-la.
Estava tão perdida nesses pensamentos sombrios que quase ignorei a investida dele.
- E aí, gata, vamos ficar aqui fora mesmo? Eu não me importo de te pegar aqui no canto, sem frescura - murmurou ele, colando o corpo no meu.
Que repugnante.
- Não estou com pressa. Vamos entrar para ter mais privacidade - respondi, mantendo a voz fria. - E eu trouxe você aqui para conversarmos, não pense besteira.
Mal cruzamos a porta do meu espaço privado e ele mudou da água para o vinho. Aproximou-se de forma brusca, tentando arrancar minha blusa à força. Mandei parar com rispidez, mas o sujeito insistiu, rindo como se o meu "não" fosse apenas um joguinho de conquista.
A minha paciência esgotou num segundo. Desferi um golpe seco com a mão aberta no rosto dele, estalando o ar. No mesmo instante, o idiota sacou uma arma da cintura e a apontou diretamente para a minha cara.
Ele teve sorte de eu ter usado apenas a mão aberta e não os nós dos dedos para arrancar os dentes dele.
- Você só pode ser maluca ou uma vagabunda abusada para bater em um homem do meu tamanho! Vai se arrepender agora mesmo, sua desgraçada! - ele vociferava descontrolado, cuspindo sangue pelo canto da boca.
Aparentemente, aquele playboy nunca tinha levado um corretivo na vida, muito menos de uma mulher. Eu continuava olhando para ele quase com tédio, sabendo perfeitamente que podia arrancar aquela arma da mão dele num piscar de olhos.
Mas queria ver até onde ia a falsa valentia daquele macho dominante, que logo apelava para ofensas baratas. Detestava aquele tipo de vocabulário machista, o xingamento típico de quem acha que o mundo pertence aos fortes.
- Não acredito que o valentão tem o hábito de avançar nas garotas sem consentimento e acha normal. Deixa eu te ensinar uma coisa: aqui quem decide quem toca no meu corpo sou eu. Em nenhum momento te dei esse direito, então é bom abaixar essa arma antes que eu mesma decida te apagar agora, entendeu? - falei pausadamente, a voz cortando como vidro.
O espertinho ignorou o aviso, mantendo o cano da pistola firme na minha direção, soltando um riso debochado que faria qualquer outra pessoa congelar de medo.
Erro fatal.
No milésimo de segundo seguinte, usei a técnica que aprendi nas ruas do morro: torci o pulso dele com força cirúrgica, desarmei o infeliz e encostei o cano da arma fria bem no meio da testa dele.
- Você é surdo ou só burro? Eu mandei abaixar essa porcaria! Se não gostou de levar umas palmadas na cara e ficar sangrando, é melhor sumir da minha frente antes que eu perca a paciência e puxe o gatilho - sussurrei, sentindo a adrenalina pura correr nas veias.
Ele arregalou os olhos, suando frio, transbordando de raiva e humilhação. E eu só consegui soltar um sorriso seco, olhando para ele como o otário que era.
- Como... como foi que você tirou essa arma da minha mão sem eu ver? - gaguejou, o verniz de durão caindo por terra.
Decidi não responder. Não estava ali para dar aula. A minha mente já flertava com aquela urgência sombria de sempre, a única coisa que me traz um simulacro de paz antes de descobrir o que fazer com os restos dos meus inimigos.
- Some daqui. Desaparece da minha vista agora. Não tenho interesse no seu papinho e muito menos em deitar com você. Se pisar na bola de novo, as consequências vão ser definitivas. Entendeu o recado?
O sujeito saiu correndo tropeçando nas próprias pernas, pisando firme de raiva, mas com o medo impresso nos olhos. Aquele tipo de homem vive achando que pode subjugar qualquer mulher só porque exibe marra e porte físico.
Se fosse outra garota no meu lugar, sem o preparo que tive, a história teria terminado em tragédia. Ficava cada vez mais claro que a família dele carregava um histórico de sangue e abuso que não era coincidência.
Lembrei de cenas antigas, fragmentos que teimavam em voltar à tona na minha mente.
Passado:
- Não se pode permitir que ele escape de novo, chefe. Se deixar esse sujeito solto, ele faz outra vítima.
- Quero ver aquele miserável morto o mais breve possível, entendeu? Não quero saber de desculpas.
Presente.
Quando eu era criança, antes do mundo desabar, minha curiosidade me fazia escutar conversas de adulto pelos cantos da casa. Meu pai jamais imaginava que a filhinha dele absorvia termos pesados e segredos perigosos.
Certa vez, presenciei uma discussão tensa na sala de casa, pouco antes da tragédia. Meu pai estava indignado com um associado que cometia crimes contra mulheres, algo que no código de honra antigo era punido com a morte sumária. As cobranças eram feitas nas sombras, mas quando a justiça chegava, o infeliz rezava para nunca ter nascido.
Meu celular vibrou no bolso, me puxando de volta para a realidade do morro.
- Chefe, o carro que veio buscar o boyzinho já tá descendo a pista. A gente liberou na barreira como a senhora mandou, avisou um dos olheiros pelo rádio.
- Beleza. Fiquem de olho em cada movimento.
Eu não tinha medo de andar sozinha por aquelas vielas a qualquer hora da noite, mas a segurança ali exigia método. Mantinha informantes em cada esquina estratégica, garantindo o controle de quem entrava e saía, bloqueando surpresas.
Meu ex-parceiro de comando quase caiu porque começou a ignorar os avisos da comunidade, achando que era intocável até o dia em que os tiros ecoaram sem controle na praça. Aprendi a lição da pior forma: quem vacila na vigilância vira alvo.
Preciso ser de ferro com todos aqui. Não posso demonstrar uma única fresta de fraqueza, embora saiba o quanto meu interior está esgotado. Estou guiada pela vingança, pela necessidade avassaladora de fechar essa conta.
No começo, o medo me paralisava debaixo daquela escada; hoje, o que me move é a descarga violenta de adrenalina quando o perigo bate à porta ou quando preciso dar uma lição em quem ousa testar meus limites.
Vou continuar assim até o fim. Sem medo de morrer, sem olhar para trás. Que a polícia continue tentando cercar o morro e colando cartazes com o rosto de Dóris. Por enquanto, eles só sabem arranhar a superfície. O jogo verdadeiro ainda está apenas começando.