Meu nome é Maya, mas todo mundo me chama de Dóris. Sou a líder do Morro do Alemão, na Zona Norte do Rio, e, por mais que a vida aqui tenha seus altos e baixos, esse lugar tem um espaço grande no meu coração. Também sou a pessoa mais procurada pela polícia do Rio, mas quem me conhece sabe que não sou do tipo que sai machucando ou matando por aí.
Renata foi uma das primeiras pessoas que conheci depois da morte do meu marido. Ela já morava no morro, mas só a encontrei pessoalmente quando o Júlio, que trabalha na boca, me a apresentou. Desde o início, gostamos uma da outra. Ela é uma das pessoas que vai saber do meu segredo, o que não era novidade para quem vive aqui.
Agora, sobre por que sou tão procurada... Não faço ideia. Não sou uma pessoa de violência gratuita, mas não sou fraca, e quem me desafia aprende isso da pior forma. Detesto quando me tomam o controle de algo, como aquelas cenas horríveis nas quais pessoas são levadas para tortura. Recentemente, quase matei um cara por espancar uma mãe de família. A mulher tinha cometido um erro, sim, mas nunca mereceu aquele castigo. Isso não podia ficar assim, então eu fiz o mesmo com quem mandou fazer aquilo. Já disse, quem manda aqui sou eu.
Eu sou boa, mas quando a raiva toma conta, ninguém me segura. E ninguém aqui, depois do que aconteceu com a minha família, quer ver um sofrimento injusto. Deixe-me contar o que aconteceu há 17 anos, numa noite que mudou tudo. Eu, meus pais e meu irmão estávamos em casa, jantando, como qualquer noite normal...
Meu pai, sempre ocupado, tinha um escritório onde guardava várias armas, um lugar que ele nunca deixava acessível. Mas, naquela noite, a porta estava aberta. E a minha curiosidade, talvez um pouco inocente, me levou até lá, aonde eu encontrei um verdadeiro arsenal escondido em um armário de vidro. O que meu pai fazia, eu ainda não entendia... mas naquele momento, tudo que vi naquele escritório ficou gravado na minha memória, mudando para sempre a forma como eu olharia para a minha família e o que estava por trás de tudo aquilo.
Muitas pessoas desconhecidas costumavam chegar em nossa casa, tanto homens quanto mulheres. A casa era bonita, sofisticada, mas eu não entendia o real significado de toda aquela pompa. Quando minhas amigas vinham brincar, elas sempre comentavam sobre isso. Meus pais, apesar da aparência de normalidade, estavam sempre rodeados por uma aura de mistério.
Meu pai era uma figura de autoridade, mas nunca vi ele perder a calma. Um homem de poucas palavras, mas com um poder imenso por trás de seus gestos. Uma vez, testemunhei ele confrontando alguém de maneira tão implacável que deixava claro: desrespeito não era algo que ele tolerava.
Certa noite, estávamos todos reunidos em casa, assistindo televisão, quando o som de uma explosão cortou o ar. No começo, eu não sabia se eram disparos ou algo pior. O que eu sabia é que, normalmente, havia quatro homens no portão, mas naquela noite só estava Genebra. E então, tudo aconteceu muito rápido.
Meu pai me pediu para me esconder. Não havia tempo para mais nada. "Corre para o seu esconderijo, minha princesa, vou te encontrar", ele disse, mas quando eu ainda tentava entender o que estava acontecendo, ele já estava distante. Antes de conseguir pensar em mais alguma coisa, me vi entrando no meu esconderijo, aquele cantinho que ele mesmo havia feito para mim e meu irmão.
Dentro do esconderijo, só ouvi gritos, tiros e depois... um silêncio. O medo me consumia. Eu tapava meus ouvidos, mas ainda assim sentia o peso de cada som. Quando o silêncio tomou conta, decidi sair devagar, tentando não ser vista.
Olhei pela escada e vi uma cena que eu jamais esqueceria: homens armados, rindo, rodeando os corpos dos meus pais e do meu irmão, todos caídos no chão, manchados de sangue.
Um dos homens, com voz grave e furiosa, se aproximou do meu pai, que ainda respirava com dificuldade, e gritou:
- Eu vou achar sua filha e acabar com seu clã maldito! Esse morro será meu, e você, seu merda, já matou demais dos meus. Agora chegou a minha vez de brilhar e me vingar de você. Sua mulher era para ser minha, e um dia vou fazer você pagar por isso!
Ele golpeou meu pai, que sangrava pela boca. Eu vi tudo de onde estava, o sofrimento de meu pai e o riso cruel dos outros homens. Mas o pior foi quando ele gritou, com uma voz cheia de ódio:
- Onde está a pirralha? Vou matá-la na sua frente, se ainda conseguir respirar!
Meu pai, com o olhar que só ele sabia expressar, me pediu, sem palavras, para voltar ao esconderijo. Sem hesitar, fiz isso e permaneci lá, em silêncio, até que os sons ao redor se apagaram completamente.
Horas depois, ouvi sirenes de polícia. Uma policial me encontrou e me tirou de lá. Eu estava assustada, chorando, e com fome, após tantas horas escondida. Quando me perguntaram sobre meus parentes, falei sobre minha tia, e eles a chamaram.
Ela foi informada sobre o que havia acontecido, mas a verdade é que eu não conseguia entender tudo. Apenas via aqueles homens rindo enquanto meu pai ainda lutava pela vida.
Quando me mostraram várias fotos, tentando me fazer identificar os responsáveis, eu reconheci a todos. Mas, naquele momento, eu sabia o que queria.
Apesar de ter apenas oito anos, o desejo de justiça queimava dentro de mim. Eles pagariam caro pelo que fizeram, e eu faria isso acontecer. Até Genebra, que sempre foi gentil comigo e até me presenteava, teria que pagar.
Fui morar com minha tia em Ipanema, longe de tudo que me lembrava o sofrimento. Na escola, tinha tudo que podia desejar, mas nada disso amenizava a dor que me consumia. Por mais que tentassem me ajudar com terapia, os rostos daqueles homens e a cena da minha família caída no chão não saíam da minha mente.
Eu levava uma existência dupla, mantendo uma fachada de estudante respeitada de arquitetura, enquanto, no submundo, minha verdadeira identidade era de alguém imersa no crime. Ninguém sabia da minha vida secreta, e eu planejava que assim continuasse.
Com o tempo, me vi nos bailes funk, rodeada por criminosos que me viam como um troféu. Já não era mais virgem quando tive minha primeira vez, com um universitário.
Ele era um bom rapaz, muito correto para mim, e eu não queria mais nada além daquela noite com ele. Minha vida estava longe de ser normal, mas eu gostava disso.
A adrenalina me atraía; ver aqueles idiotas se atrapalhando e tentando invadir o meu espaço era divertido. Sempre com uma arma à mão, sentia que tinha o poder de fazer justiça por minha família.
Então, numa dessas festas, encontrei um dos assassinos dos meus pais. A emoção foi indescritível. Mas, ao confrontá-lo, percebi que ele não estava sozinho.
Ele fazia parte de um grupo envolvido no massacre. Sem hesitar, procurei a ajuda de Gael, um aliado de confiança, e juntos conseguimos capturar o criminoso. Levamo-lo para um local isolado que aluguei, acreditando que ninguém nos seguiria. Estávamos errados. O dono do morro estava observando tudo, filmando a tortura impiedosa que impus a aquele homem.
Ele morreu sem revelar o paradeiro dos outros envolvidos.
Mas o que ninguém sabia era que o homem que filmava tudo caiu aos meus pés. Aos quinze anos, fui morar com ele, o líder da favela. A convivência com aquele homem foi difícil, ele era cruel e abusivo.
Após algumas situações intoleráveis, o eliminei. Ele tentou me agredir na primeira oportunidade, além de me chantagear, exigindo dinheiro e ameaçando me denunciar à polícia. Descobriu, tarde demais, que eu era mais poderosa do que ele imaginava. Acabei tomando o seu lugar e me tornando a verdadeira líder do morro.
Agora, dividia minha vida entre o Morro do Alemão e Ipanema. Numa certa noite, vi um cara entrar no baile funk. Idêntico ao desgraçado que destruiu a minha família.
- E aí, o que você veio fazer na boca da loba? - ouvi alguém sussurrar, enquanto ele passava ao meu lado.
- Tô na área pra conhecer a loba e, quem sabe, se rolar, tomo esse morro. Seria da hora, né, mano?
- Se você se meter a besta e tentar tomar esse morro, pode crer que não vai sair daqui vivo, não. Nem vai ter chance de falar quem te matou .
Ele me encarou, os olhos fixos nos meus, com um sorriso desafiador. Podia sentir a tensão no ar, mas não me importava. Ele era só mais um que teria o fim que merecia. Estava finalmente chegando o momento da minha vingança, depois de dezessete anos esperando por isso. Era agora ou nunca.
As memórias do passado se agarram a mim como sombras vingativas, insistentes em sua presença, impossíveis de exorcizar.
Elas não são apenas lembranças, são cicatrizes vivas, pulsando com uma dor que não se acalma, queima como brasas sob a pele e me arrasta, noite após noite, à beira de um abismo que parece não ter fim.
Minha tia, com seu coração bondoso e suas mãos sempre estendidas para mim, tentou tudo o que podia para me salvar dos pesadelos que me devoravam.
Ela buscou especialistas, cada um com suas promessas vazias de cura, de um alívio que parecia estar sempre ao meu alcance, mas que eu sabia, no fundo, ser impossível.
Em cada sessão, eu me escondia atrás de uma máscara impenetrável, fingindo uma força que nunca tive, esboçando sorrisos ensaiados enquanto, por dentro, uma tempestade feroz de dor e raiva ameaçava explodir.
O psicólogo nunca percebeu a real, o que rolava de verdade nos meus olhos. Ele nunca chegou perto da escuridão que tava lá dentro, enterrada sob camadas de mentiras que eu mesma criei pra me proteger.
Com o tempo, os gritos ensurdecedores na minha mente viraram um sussurro distante, quase como um eco. Minha tia, querida e ingênua, acreditou que eu tinha finalmente deixado o passado pra trás, que minha alma tinha encontrado paz. Pobre tia... Ela nunca soube que eu só tinha aprendido a disfarçar, a me fazer de forte.
Eu envolvi minha dor numa frieza brutal, tipo um escudo que afastava todo mundo e mantinha a curiosidade de quem me rodeava longe. No morro, eu andava como se fosse dona da porra toda, com um olhar que falava pros outros: "Cuidado, aqui não tem espaço pra fraqueza." Diziam que meu coração era uma pedra. Talvez fosse. Mas era o preço, o sacrifício silencioso, pra me manter viva.
Eu sabia que o caminho que escolhi era um jogo mortal, tipo uma roleta russa. Cada passo me aproximava mais do fundo do poço, mas a adrenalina queimava nas minhas veias como uma droga, e eu não podia parar.
Era o único caminho que me restava, o único que alimentava a chama da justiça dentro de mim. A vingança pela morte da minha família não era só desejo; era um fogo que não se apagava, uma chama que me consumia a cada respiração.
Eu tava disposta a tudo, até a sacrificar minha própria vida, pra fazer com que aqueles que acabaram com minha família pagassem. Não ia ter descanso, não ia ter misericórdia, ia ser na raça.
Hoje, porém, o dia é diferente. O Morro do Alemão me chama de volta, como uma amante insaciável que não se contenta com migalha.
É ali que a adrenalina corre de verdade, onde o perigo e a excitação se misturam, onde cada passo pode ser o último, mas também o mais intenso.
O telefone vibra na minha mão, e eu atendo com a calma de quem já viu o inferno de perto, escondendo o turbilhão de emoções que me consome.
- Oi, tia Isabella, tô indo pra casa da Bianca. Vou ficar uns quatro dias lá.
- Quatro dias? Mas por que tanto tempo, minha filha? Isso tá me matando. Não some assim, não agora, por favor.
A mentira sai com a facilidade de quem já se acostumou a dar aquele jeitinho na verdade. Suave como uma brisa, mas com um veneno ardente por baixo.
Dentro de mim, a real tá gritando, tipo um furacão prestes a virar tudo de cabeça pra baixo. Não tem mãe doente, não tem amiga precisando de ajuda. O que precisa de mim agora é o morro, meu território, meu império, que não pode ficar vulnerável.
- Tia, eu adoraria ficar com você, mas a mãe da Bianca está muito doente. Eu preciso estar lá pra ajudar. Fica tranquila, já tô quase me formando.
As palavras saem com tanta naturalidade que até eu me convenço, mas sei que a real missão me espera, e ela é bem mais sombria.
No morro, sou Doris, a rainha que comanda aquele labirinto de concreto, onde cada olhar é calculado, onde cada gesto pesa, e não tem como ignorar.
Lá, sou mais do que uma estudante qualquer na PUC. Lá, sou a mulher que ninguém mete a cara pra desafiar, mas que, no fundo, carrega uma dor que não vai sair de dentro de mim.
A única pessoa que sabia da minha real existência foi, levando consigo a única verdade que me protegia, deixando-me exposta em um mundo onde não posso vacilar.
Por trás da fachada de universitária, eu era uma estranha naquele mundinho de falsas perfeições e arrogâncias disfarçadas.
Nos corredores da PUC, cheios de egos inflados e sorrisos amarelos, eu me destacava entre os bolsistas, os que estavam na luta para conquistar um futuro que parecia sempre escapar.
Se ao menos eu tivesse me chegado mais na minha amiga, se tivesse mostrado minha verdadeira força, talvez tivesse mandado aqueles imbecis, que olhavam pra ela como se fosse nada, pra aquele lugar.
- Fica tranquila, tia. Vou te manter informada. Te amo, beijos.
Desligo o telefone com um sorriso que não chega nos olhos e sigo pra garagem, onde deixo pra trás a estudante e, num piscar de olhos, me transformo na mulher que ninguém consegue entender.
Troco a suavidade pela minha outra eu. A calça justa, a blusa de onça. Cada peça de roupa é uma declaração silenciosa de quem sou, do que sou capaz.
Em segundos, já tô em cima da minha moto, acelerando pelas ruas como se estivesse fugindo de alguma coisa, mas, na real, tô indo ao encontro de quem realmente sou.
O vento no meu rosto me dá uma sensação de liberdade visceral, algo que só a velocidade consegue proporcionar.
Motos são minha paixão secreta, meu refúgio. São cinco, cada uma mais bruta, mais potente que a outra, cada uma um pedaço da minha alma indomável.
Um pedaço de mim que minha tia nunca ia entender, que ninguém ia entender. Porque, no fundo, eu sabia que a verdadeira Doris não tinha vez naquele mundo. Ela pertencia ao asfalto, ao perigo, à adrenalina que corre nas minhas veias.
"Chega de devaneios, Maya."
Sim, sou Maya. Mas para o mundo que criei, sou Doris, uma lenda silenciosa e perigosa, a líder que ninguém ousa desafiar.
A verdade sobre quem eu realmente sou está sepultada sob camadas impenetráveis de segredos, armaduras forjadas pelo sofrimento e pela dor. Esse disfarce, essa personagem que governa com mãos de ferro e um coração feito de gelo, é tudo o que resta de mim – e é o suficiente.
O que sou de verdade não importa a ninguém, nem mesmo a mim. Só importa a figura que eu construí, a mulher implacável que controla tudo ao seu redor.
Aqui, no Morro do Alemão, o que me sustenta é a vingança. Cada respiração que dou é impregnada pelo desejo feroz de justiça, uma dívida de sangue para com os responsáveis pela morte da minha família.
Não sei o que sobrará de mim quando essa chama finalmente se extinguir; talvez apenas um vácuo profundo, um abismo sem retorno.
Mas agora, o que conta são os cinco nomes restantes na minha lista, os últimos fantasmas que preciso exorcizar. Eu serei a sombra de suas condenações, a mão que trará seu fim.
Vivo cada dia como uma penitente, sobrevivendo ao peso de uma maldição lançada pelo próprio sangue. Meu pai, o homem que me salvou naquela tarde maldita, foi ao mesmo tempo meu salvador e minha perdição.
Se não fosse por ele, não existiria Doris, não existiria essa vida que eu chamo de inferno. Mas estou aqui, cada pulsar do meu coração é uma prova de que o destino ainda não me desamparou, e a justiça, esse velho espectro, ainda me aguarda no fim da minha jornada de dor e cinzas.
Aquela garotinha que um dia corria pelo mundo com o sorriso aberto e olhos brilhantes morreu há muito tempo, devorada pelas sombras de um passado que se recusa a me abandonar.
Ela se foi, substituída por essa versão endurecida de quem eu deveria ser. O rancor tomou o lugar da inocência, a escuridão se tornou minha única companhia. Agora, resta apenas o fogo incessante da vingança, esse desejo sombrio que é, ao mesmo tempo, minha maldição e meu propósito.
Esse anseio é o que me mantém de pé, é o aço que endurece minha alma, me impedindo de cair. Não agora. Não ainda.
A cada segundo que passa, minha sede de vingança cresce, envenena, se alimenta vorazmente de mim. O pensamento de ajustar as contas com aqueles que destruíram minha vida é o único alívio que me resta, um consolo sombrio.
Já provei o gosto amargo da vingança, e ele é intoxicante. Um deles já não respira. Lembro com clareza de seus últimos momentos – o olhar de desespero, a súplica silenciosa, o sangue escorrendo entre os dedos enquanto ele se agarrava à vida miserável que levou.
Nos últimos instantes, ele revelou a verdade que eu sempre soube, mas custava aceitar: Olavo foi o arquiteto de toda a ruína, o mestre das cordas que controlou a tragédia que me despedaçou. Sua confissão foi apenas uma vitória fugaz, uma fagulha que momentaneamente acalmou meu tormento, mas minha dor exige mais. Minha sede só será saciada quando o último fragmento do meu passado for consumido em chamas.
Entre as poucas pessoas que ainda se aproximam de mim, Renata e Heloísa são as que restaram. Renata, com seu silêncio que parece decifrar minha alma sem julgamentos, entende os abismos do meu sofrimento sem proferir perguntas vãs.
Ela sabe que meu tormento é insondável, sem respostas fáceis. Já Heloísa, com sua vida luxuosa e protegida no Leblon, representa tudo o que eu poderia ter sido se o destino não tivesse me lançado neste abismo.
Ela, com sua crença inabalável nos laços genuínos e no poder do amor, tenta me convencer de que ainda há espaço para algo além da vingança.
Mas amor é um veneno que não posso mais arriscar. Nunca me permiti amar, e agora esse sentimento é um luxo perigoso, uma fraqueza que poderia me destruir. Meu coração é uma fortaleza impenetrável, cercada por muralhas tão altas que nada pode atravessá-las.
No fundo, sei que já não busco mais redenção. Minha salvação foi enterrada há muito tempo, junto com os sonhos que um dia ousei ter. Vingança é tudo o que me resta. E enquanto essa chama ardente não consumir o último espectro do meu passado, nada mais terá importância.
Na universidade, sinto os olhares curiosos dos colegas sobre mim. Para eles, sou a figura impassível, a que não se deixa enredar pelos dramas juvenis, pelos romances perigosos ou pelas paixões avassaladoras por professores carismáticos.
Sou a que permanece distante, intocável. Mas, mesmo cercada pela armadura que construí, acabei cedendo a um impulso. Envolvi-me com um rapaz que parecia verdadeiramente interessado, talvez na esperança de provar a mim mesma que ainda sou capaz de sentir algo além da raiva inabalável.
Passamos noites juntos, momentos intensos que, para qualquer outra pessoa, poderiam ter significado um sopro de romance, uma promessa.
Mas, para mim, foram apenas lembretes amargos de que meu coração é incapaz de sustentar esses sentimentos. O amor, percebo agora, é apenas uma distração, uma ilusão que não posso me permitir.
Após aquela noite, ficou claro que esse envolvimento não poderia continuar. Despedi-me da ilusão com a frieza de quem já não espera nada além da solidão. Voltei meu foco para o que realmente importa: a vingança. A chama da determinação arde mais ferozmente a cada dia, consumindo tudo dentro de mim, pronta para incinerar quem quer que ouse cruzar meu caminho.
O amor, descobri, é uma fraqueza perigosa, uma brecha mortal que não posso me permitir. Uma fissura na minha armadura que poderia me derrubar se não fosse cuidadosamente ignorada.
Não há espaço para sentimentos, para vulnerabilidades, enquanto restar um único nome na minha lista e o sangue da minha família ainda clamar por justiça. Cada suspiro de afeto, cada ato de ternura, é uma distração que poderia me desviar do meu objetivo.
O amor é um luxo que não posso pagar, uma ilusão que só serve para enfraquecer aqueles que se atrevem a senti-lo. Eu não sou mais uma mulher capaz de amar, porque amar é permitir-se ser fraca.
E, enquanto eu tiver um inimigo para destruir, uma conta a ser paga, não posso me permitir essa fraqueza.
O fogo da vingança, esse sim, é meu único aliado, e ele me consome de maneira implacável. Cada passo que dou em direção à minha missão é um passo para mais longe de qualquer possibilidade de redescobrir o que um dia conheci como amor.
O amor morreu no mesmo instante em que minha família foi destruída, e desde então, ele não tem espaço em minha vida.
Justiça. Apenas isso. Até que o último nome seja riscado da minha lista, até que o sangue derramado seja vingado, o amor é um veneno que não posso me permitir beber.