Zara Nox
Era 28 de fevereiro de 2022, o dia do meu aniversário de dezoito anos... e o dia da minha expulsão do internato.
Ironia do destino, talvez.
As mensalidades venciam hoje e, segundo as rígidas regras do colégio, eu não poderia ficar nem mais um minuto ali. Era como se estivessem contando os segundos para me ver partir.
Não havia amigas me esperando para se despedir. Nenhum abraço, nenhuma lágrima de saudade. Só o eco dos meus próprios passos nos corredores frios e aquele cheiro de desinfetante que parecia grudar na alma.
Nada me prendia àquele mausoléu de paredes cinzentas - e, para ser sincera, a diretora devia estar comemorando por me ver ir embora.
Não eram nem nove da manhã e minha mochila já estava pronta, com as mesmas roupas que recebi por doação durante os anos. Um punhado de lembranças trancadas num zíper.
Peguei o pouco que me pertencia e fui para a sala da diretora. Ela me esperava sentada atrás da mesa, como sempre, com a postura impecável e o olhar distante.
Quando entrei, ela ergueu os olhos do papel que assinava e foi direto ao ponto, sem rodeios.
- Nesse envelope está tudo que te pertence, Zara. - A voz dela saiu fria, mas havia algo estranho... um traço de arrependimento. - Me perdoe se fui muito rígida com você. Espero, de verdade, que tenha um futuro melhor.
Ela estendeu o envelope sobre a mesa.
- Aí dentro tem um celular já formatado, as chaves de um apartamento, algum dinheiro, seus documentos, e o acesso a uma conta bancária em seu nome - explicou. - Também há sua carta de aceitação na faculdade. Creio que suas aulas começam no início de março.
Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando assimilar cada palavra.
Um apartamento? Faculdade paga?
Era como se alguém tivesse decidido, do nada, reescrever o meu destino.
- Como assim? - perguntei, franzindo o cenho. - Quem mandou isso?
Ela respirou fundo, como quem tem medo de dizer algo errado.
- Não me pergunte, Zara. Eu apenas recebi ordens. Não sei quem foi - se sua família, algum benfeitor, ou... qualquer outra pessoa. Só me pediram que entregasse. Agora vá, o táxi já chegou.
Peguei o envelope, sem dizer nada.
A diretora abaixou os olhos, evitando me encarar, como se também sentisse culpa por algo. Mas não importava mais. Eu só queria ir embora dali.
Saí pelos portões do internato pela última vez.
O céu estava nublado, e o vento frio da manhã cortava meu rosto. Entrei no táxi e entreguei o papel com o endereço ao motorista.
- Midtown, hein? Lugar chique. - Ele comentou, ajeitando o espelho. - É longe. Vai demorar umas quatro horas.
Apenas assenti.
O carro arrancou e, enquanto a estrada se estendia à frente, olhei pela janela.
As árvores passavam rápido, borradas pelo vento, e uma sensação de vazio se instalava no peito.
Dezoito anos. Nenhuma família. Nenhum passado. Só um futuro misterioso embalado num envelope.
Abri o lacre com cuidado e comecei a olhar o conteúdo: um celular novinho, documentos, chaves e uma folha impressa com o logotipo de uma faculdade. Meu nome em letras grandes.
Por um instante, senti uma pontada no peito - um misto de medo e esperança.
Quem teria feito isso por mim?
O caminho foi longo. Dormi, acordei, dormi de novo. Quando o táxi finalmente parou, o motorista virou-se com um sorriso cansado.
- Chegamos, senhorita.
Paguei a corrida com o dinheiro vivo que estava no envelope e desci.
O prédio à minha frente era alto e moderno, com janelas de vidro que refletiam o céu.
Um porteiro uniformizado me observava do hall.
- Boa tarde, senhorita Nox? - perguntou com um sorriso gentil. - Estávamos esperando por você.
Estávamos? Quem mais sabia da minha chegada?
Engoli em seco e apenas murmurei:
- Sim... sou eu.
- Seu apartamento é no último andar, número 290. - Ele disse, estendendo o crachá temporário. - Qualquer coisa, meu nome é Juca.
- Obrigada, Juca. - murmurei, entrando no elevador ainda tentando entender absolutamente nada do que estava acontecendo.
O som do elevador subindo parecia acompanhar a batida do meu coração.
"Último andar."
As portas se abriram e me deparei com uma única porta no corredor: 290.
Meu apartamento.
A mão tremia quando girei a chave.
E, quando a porta se abriu, o ar me faltou.
O apartamento era... lindo.
Um luxo que eu nunca imaginei sequer visitar, muito menos morar.
O piso brilhava, o sofá era de veludo cinza, os lustres reluziam sob a luz do fim de tarde. Tudo parecia novo, como se alguém tivesse acabado de preparar o lugar para mim.
Deixei o envelope e a mochila sobre o sofá e fechei a porta com a chave.
Sozinha em um lugar daqueles, a primeira regra era simples: não deixar a porta aberta.
Caminhei devagar, ainda incrédula.
A vista da janela era de tirar o fôlego - o Central Park se estendia logo abaixo, verde e sereno, em contraste com o caos da cidade.
Por um segundo, esqueci de respirar.
- Isso não pode ser real... - murmurei para mim mesma.
Fui até a cozinha e abri a geladeira.
Cheia.
Carne, frutas, leite, até iogurte. Tudo fresco.
Os armários estavam repletos de mantimentos, e até a cafeteira era automática, daquelas que eu só via em comerciais.
Toquei o balcão frio de mármore, como se precisasse me convencer de que era sólido.
"Quem faria tudo isso por mim?"
Segui para o corredor.
Três portas.
Abri a primeira o meu quarto com certeza. Cama enorme, cortinas de linho, um abajur dourado, e uma escrivaninha com um notebook novo, tinha duas portas, a primeira - um banheiro branco e espaçoso, com uma banheira que parecia saída de um catálogo.
A segunda... e meus olhos quase saltaram.
Um closet. Enorme.
Lotado de roupas.
De todos os tipos: ternos femininos, vestidos de gala, roupas de dormir, casacos de inverno.
Todas, absolutamente todas, do meu tamanho.
- Tá legal... - sussurrei, rindo nervosamente. - Isso tá ficando cada vez mais estranho.
Peguei um vestido preto, toquei o tecido. Seda pura. E na etiqueta... meu nome bordado.
Engoli em seco.
- Será que... minha mãe lembrou que tem uma filha? - falei para o nada.
Mas o silêncio do apartamento respondeu por ela.
Olhei ao redor do quarto e em cima da escrivaninha tinha algo que fez meu coração bater descompassado. Uma carta.
"Para Zara Nox.
Use essa nova chance para recomeçar.
A segunda e terceira porta dava para quartos de hóspedes. O mundo lá fora é cruel, mas você é mais forte do que imagina."
Sem assinatura.
Sem remetente.
Fechei os olhos e suspirei.
Havia algo de reconfortante e assustador em saber que alguém lá fora se importava comigo - mas não o bastante para dizer quem era.
Sentei-me na cama e deixei o olhar vagar pelo quarto.
Era tudo perfeito demais.
Luxuoso demais para uma garota como eu.
Mas, pela primeira vez na vida, não senti medo de aceitar algo bom.
- Talvez... eu mereça - murmurei, deitando devagar.
A chuva começou a cair lá fora, batendo nas janelas imensas.
O som era suave, quase como um sussurro.
Fechei os olhos por um instante, lembrando de todas as noites em que chorei sozinha no internato, pedindo a Deus que, um dia, alguém me tirasse de lá.
E agora, aqui estava eu.
Num apartamento que parecia saído de um sonho.
Com um futuro misterioso me esperando do lado de fora daquelas paredes.
Levantei-me de novo, incapaz de ficar parada. Fui até a varanda e olhei a cidade iluminada.
Carros passando, pessoas correndo, vidas acontecendo.
Pela primeira vez, eu sentia que a minha estava prestes a começar.
- Aí, meu Deus... - sussurrei, com um sorriso tímido. - Obrigada por não esquecer de mim.
Depois de tantos anos de sofrimento... será que, enfim, terei anos de paz?
Talvez o universo estivesse, finalmente, me devolvendo algo que sempre foi meu:
a chance de pertencer.
O vento frio tocou meu rosto, e, sem perceber, uma lágrima escorreu.
Não de tristeza - mas de gratidão.
De esperança.
De medo também, talvez.
Porque algo dentro de mim dizia que, por mais que tudo parecesse perfeito... nada era tão simples assim.
E eu estava prestes a descobrir o porquê.
{...}
Zara Nox
Dia 1º de março de 2022.
Aqui estava eu, usando uma calça de alfaiataria branca, uma blusa preta simples, e um blazer branco por cima - tudo novo, tudo meu, tudo ainda com cheiro de loja.
Nos pés, um par de saltos que quase me fez cair na sala momentos antes de sair. Mas eu precisava parecer alguém.
Alguém que pertencia àquele novo mundo.
O reflexo no espelho mostrava uma versão de mim que eu nunca tinha visto antes.
Elegante. Adulta.
Uma mulher.
- É isso, Zara - murmurei para o espelho. - Hoje começa o resto da sua vida.
Peguei minha bolsa e saí.
A faculdade ainda estava vazia quando cheguei. Um campus bonito, moderno, cheio de gente que parecia saber exatamente o que estava fazendo ali. Eu, por outro lado, me sentia como uma intrusa.
Mas isso mudou assim que conheci a diretora Flávia.
Ela me recebeu com um sorriso largo e um olhar gentil - algo que eu raramente via em figuras de autoridade.
- Querida Zara! Seja muito bem-vinda! - disse, apertando minhas mãos entre as dela. - Suas aulas começam na próxima semana, mas que bom que veio conhecer o campus antes.
Assenti educadamente, ainda tentando me acostumar com tanto entusiasmo.
- Aqui está um envelope - ela continuou, pegando algo da mesa. - É uma carta de admissão para a Castellani Corp. Você começa um estágio remunerado lá.
- Eu...? - arqueei as sobrancelhas. - Mas eu nem comecei as aulas ainda.
- Justamente por isso. - Ela sorriu. - Eles têm um programa de integração para estudantes de administração. Gostam de formar os próprios profissionais.
Peguei o envelope, confusa, tentando entender como minha vida tinha virado de cabeça para baixo em menos de vinte e quatro horas.
Ontem, eu não tinha absolutamente nada.
Hoje, eu tinha um apartamento, comida, uma conta bancária, uma faculdade paga... e agora, um emprego.
- Diretora Flávia... - comecei, hesitante. - A senhora tem certeza que não houve engano?
- Nenhum. - Ela sorriu de novo, como se soubesse mais do que dizia. - Aproveite a oportunidade, querida.
E foi isso.
Saí da faculdade com o envelope apertado contra o peito, chamei um táxi e dei o endereço que estava escrito lá dentro: Castellani Corporation.
O prédio era imenso, espelhado, o tipo de construção que grita poder e dinheiro a quilômetros de distância.
Quando desci do carro, senti o peso do salto e do nervosismo.
Respirei fundo.
"Postura, Zara. Postura. Não mostra que é sua primeira vez em um lugar desses."
Entrei.
O hall era tão grande que minha voz ecoaria se eu dissesse um simples "oi".
Lustres de cristal, piso de mármore, recepcionistas uniformizadas... e eu, tentando parecer natural, como se não estivesse impressionada.
Uma moça com um sorriso simpático me chamou atenção no balcão.
- Bom dia! - disse ela, animada. - Me chamo Liz. Em que posso te ajudar?
- Oi... - forcei um sorriso. - Sou Zara Nox. Vim saber sobre meu estágio. A diretora da faculdade me enviou.
Ela olhou para o computador e, logo em seguida, para mim.
- Ah, sim. Estávamos te esperando. - Ela sorriu. - O senhor Castellani quer falar com você pessoalmente.
Eu pisquei, surpresa.
- Comigo?
- Não se assuste. - Ela riu baixo. - Ele fala com todos os novos estagiários. Mas, pelo que entendi, você vai trabalhar diretamente com ele.
Diretamente com o CEO?
Meu estômago deu um nó.
- Todos os outros estagiários eram homens, mas... - ela inclinou-se um pouco para sussurrar - ele mesmo pediu que essa vaga fosse aberta para uma mulher. Dizem que somos mais organizadas.
Engoli seco.
- Sim... claro.
- O elevador é por ali. Último andar. Há uma recepção lá, com duas salas: a da presidência e a da vice. Boa sorte, Zara.
Sorri em agradecimento e segui para o elevador.
O coração batia rápido demais.
A cada andar que o número aumentava, parecia que eu subia para um outro tipo de vida.
Quando as portas se abriram, fui recebida por uma jovem elegante, provavelmente a secretária da vice-presidência.
- Boa tarde - disse ela. - Senhorita Nox, certo?
Assenti.
- O senhor Castellani está te esperando. Pode entrar.
As palavras ecoaram dentro de mim.
"Está te esperando."
Como se ele já soubesse exatamente quem eu era.
Empurrei a porta devagar.
E lá estava ele.
De costas, olhando pela janela panorâmica que dava uma visão perfeita da cidade.
Alto.
Postura impecável.
O terno escuro perfeitamente ajustado ao corpo.
Ele se virou quando a porta fechou atrás de mim, e, por um segundo, o ar pareceu desaparecer da sala.
Lorenzo Castellani.
O tipo de homem que você vê em revistas e acha que é photoshop.
O olhar dele era frio, calculado, e ainda assim... havia algo nele que me fez estremecer.
Aquele tipo de presença que não precisa de palavras para dominar o ambiente.
- Senhorita Nox. - A voz dele era grave, firme, e soava como uma ordem disfarçada de cumprimento. - Seja bem-vinda à Castellani Corp.
Tentei não gaguejar.
- Obrigada, senhor. É... uma honra.
- Pode se sentar. - Ele indicou a cadeira à frente da mesa de mogno.
Sentei, mantendo as mãos firmes no colo para esconder o tremor.
Ele se sentou também, os olhos fixos em mim.
E foi nesse instante que percebi algo estranho.
Ele parecia... me estudar.
Cada movimento, cada respiração.
- Veio da faculdade de administração, certo? - perguntou, abrindo uma pasta à frente.
- Sim, senhor. - Respondi o mais educadamente possível. - A diretora Flávia me enviou.
- Entendo. - Ele assentiu, sem desviar os olhos. - Gosto de conhecer pessoalmente quem trabalha perto de mim.
A intensidade do olhar dele me fez engolir em seco.
Tentei desviar, mas era impossível.
A cada segundo, eu me sentia mais presa ali.
Entre o nervosismo e uma curiosa atração que não fazia sentido algum.
- Parece nervosa. - Ele comentou, um leve sorriso nos lábios. - Costuma ser assim com todos os novos funcionários?
- Não, senhor... - menti. - Só não esperava ser recebida por... você.
Ele arqueou uma sobrancelha, divertido.
- "Você"? Não é assim que minhas funcionárias costumam me chamar.
O calor subiu até o meu rosto.
- Me desculpe... senhor Castellani.
Ele riu baixo, um som rouco, quase perigoso.
E por um instante, o ar entre nós pareceu mudar.
Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa, entrelaçando os dedos.
- Diga-me, Zara, por que escolheu administração?
Olhei para ele, tentando manter a compostura.
- Porque quero entender o que faz o mundo girar, senhor.
- E o que faz o mundo girar, na sua opinião?
- Poder. - Respondi sem pensar.
Um sorriso quase imperceptível curvou seus lábios.
- Boa resposta.
O silêncio se instalou.
Mas não era um silêncio desconfortável.
Era denso. Quente.
Ele me olhava como se me conhecesse - e, ao mesmo tempo, como se tentasse decifrar algo que só ele sabia.
- Gosto da sua confiança. - Ele disse, por fim. - Vai precisar dela aqui.
Tentei sorrir, mas o coração estava acelerado demais.
Ele se levantou. O movimento fez o perfume dele preencher a sala - um aroma amadeirado, masculino, caro.
De repente, ele estava perto demais.
Encostou-se à mesa, a poucos passos de mim.
- O setor de administração começa às nove. Estará lá amanhã. - A voz dele saiu baixa, firme. - Sua função inicial será me auxiliar pessoalmente.
- Eu... pessoalmente? - repeti, surpresa.
- Exatamente. - O olhar dele desceu até meus lábios por um segundo - rápido demais para ser notado, mas eu notei. - Tenho a sensação de que você aprende rápido.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Ele sorriu, quase imperceptível, como se soubesse o efeito que causava.
- Algo errado, senhorita Nox?
- N-não, senhor.
Ele voltou para trás da mesa e pegou um crachá.
- Bem-vinda oficialmente à Castellani Corp. - estendeu o crachá em minha direção. - E... Zara?
- Sim?
- Evite chamar atenção demais. Aqui dentro, tudo o que brilha demais costuma ser perigoso.
Havia uma seriedade na voz dele que me fez estremecer.
Peguei o crachá e forcei um sorriso.
- Eu não costumo brilhar, senhor.
- Veremos. - murmurou, voltando ao trabalho.
Saí da sala tentando respirar.
O coração ainda batia forte, e minhas pernas pareciam de gelatina.
Apertei o crachá nas mãos.
"Meu Deus... o que foi isso?"
Ele era... tudo o que um homem não devia ser: perigoso, confiante, inacessível.
E, mesmo assim, algo em mim implorava para revê-lo.
Mas eu não podia.
Eu tinha um emprego a zelar.
E ele era meu chefe.
Quando entrei novamente no elevador, uma parte de mim já sabia: aquele homem não seria apenas o início da minha carreira.
Ele seria o início da minha ruína.
{...}
Lorenzo Castellani
O dia de hoje me trouxe uma surpresa que eu estava esperando por onze anos. Zara Nox, estava grande, bonita, e muito mulher, ela não sabia, mas eu sei absolutamente tudo da história dela, e que a estadia dela aqui na empresa foi totalmente premeditada.
- Será que algum dia na sua vida você poderia lembrar de algum almoço com sua vice presidente, Lorenzo? - Alessia, minha irmã fala entrando na minha sala e cruzando os braços.
- Foi mal irmã, esqueci completamente. - Digo levantando pegando o celular, carteira e as chaves do carro. - Vamos?
- Vamos!
Saímos da sala e encontramos Rômulo, meu melhor amigo e meu braço direito aqui na empresa.
- Bom dia senhor. - Alessia diz sorridente. Ela sempre foi apaixonadinha nele, mas ele sempre a tratou como uma irmã caçula.
- Acho bom você tomar cuidado em, Rômulo?
- Como assim? - Rômulo pergunta sem entender.
- Alessia tá tentando roubar seu lugar na vice presidência.
- Sinto muito princesinha, esse lugar é meu. - Rômulo diz rindo.
Em meio a risadas entramos no elevador, Alessia não parava de tagarela, quando as portas do elevador abriram vi ao longe, Zara e a recepcionista saindo.
- Quem é a mocinha nova? - Alessia pergunta.
- Zara Nox, minha assistente.
- Estagiária com esse cargo alto, maninho? Você não tá interessado nela não né?
- Não, Alessia. - Digo rápido demais, e Rômulo da risada.
Quando chegamos no restaurante, Alessia recebeu uma ligação da nossa mãe e teve que correr pra ajudar em alguma coisa, me deixando sozinho com meu amigo.
- Essa menina, é a mesma que você fez questão de ajudar?
- Sim. - Digo bebericando minha água com gás.
- Tá de brincadeira, Lorenzo. O apartamento, tudo que veio dentro dele, a faculdade paga e a conta recheada não foram suficientes?
- Eu não sei explicar, eu só sei que quero ela perto de mim.
- Você sabe que um dia ela vai descobrir né?
- Ela só vai descobrir se você abrir a boca, os únicos que sabem da história do passado é eu e você.
- Mas, e interesse amoroso?
- Ela é uma gata, mas eu sou dez anos mais velho que ela. Não rola!
- Ela já é de maior. - Rômulo diz o óbvio.
- Mas é uma menina, viveu nada da vida ainda. E você sabe como eu sou, talvez ela não iria aguentar.
- E se esse teu ego resolver querer a menina?
- Ai Rômulo, não faz pergunta difícil. Não vou deixar meu instinto falar mais alto, só me sinto responsável pelo futuro dela.
- Essa menina ainda vai ser sua perdição. - Rômulo diz bebendo seu energético.
O almoço tinha acabado mais rápido do que eu esperava. Alessia teve que sair correndo para atender a uma ligação da nossa mãe, deixando Rômulo e eu sozinhos à mesa.
- Essa menina, é a mesma que você fez questão de ajudar? - ele perguntou, bebendo um gole de água com gás, o olhar fixo em mim, mas claramente falando sobre Zara.
- Sim - respondi, tentando manter a naturalidade. - Não sei explicar, só sei que quero ela perto de mim.
- Tá de brincadeira, Lorenzo. O apartamento, tudo que veio dentro dele, a faculdade paga e a conta recheada não foram suficientes? - Rômulo riu, mas havia um toque sério na voz.
- Eu não sei explicar - admiti -, mas é diferente. É... ela é diferente.
- Você sabe que um dia ela vai descobrir, né? - Ele inclinou-se para frente, como se estivesse me desafiando.
- Só vai descobrir se você abrir a boca. - Sorri, mas não consegui evitar que um flash de culpa me atravessasse. Os únicos que sabiam a verdade sobre o passado eram eu e ele.
- E interesse amoroso? - ele provocou, tentando arrancar algo que eu não queria admitir.
- Ela é... atraente, sim. Mas dez anos mais nova, Rômulo. Não rola. - A firmeza na minha voz não convenceu nem a mim.
- Ela já é maior de idade - disse Rômulo, óbvio.
- Mas é uma menina... nunca viveu nada. E você sabe como eu sou. Talvez ela não aguentasse. - Suspirei, sentindo o peso da responsabilidade me puxar para baixo.
- E se esse teu ego resolver querer a menina? - ele brincou, mas havia seriedade por baixo da provocação.
- Ai, Rômulo, não faz perguntas difíceis. - fechei os olhos por um segundo. - Não vou deixar meu instinto falar mais alto. Só quero cuidar do futuro dela.
- Essa menina ainda vai ser sua perdição. - Ele terminou, bebendo seu energético e me olhando como se lesse algo que eu não podia admitir.
Levantei-me, sinalizando que era hora de voltar. O carro nos aguardava.
A viagem de volta para o escritório foi silenciosa, exceto pelo som da cidade passando rápido pelas janelas.
Meu pensamento estava fixo nela. Zara Nox.
A forma como ela tinha entrado na minha vida tão de repente... e a maneira como meu corpo reagiu quando a vi pela primeira vez na minha sala.
Respirei fundo.
Isso não podia acontecer.
Não podia sentir nada por ela.
Mas quando chegamos à empresa, algo no ar mudou.
Logo na entrada do saguão, antes mesmo de pegarmos o elevador, ouvi vozes alteradas.
- Ei, mocinhas, por que não sorriem para mim? - uma voz masculina, baixa e arrogante, ecoou pelo espaço.
Lancei um olhar para Rômulo.
Ele arqueou a sobrancelha.
E então eu a vi: Zara e Liz estavam próximas da recepção, sorrindo nervosamente, mas claramente desconfortáveis. Um homem alto, camisa social abotoada até o último botão, estava encostado perto delas de maneira invasiva, com aquele sorriso irritante que você quer arrancar do rosto.
- Zara... - minha voz saiu firme, controlada, mas com um leve roçar de raiva - afaste-se dele.
Ela me olhou, surpresa.
Os olhos dela encontraram os meus, e naquele momento algo mudou.
O sorriso nervoso desapareceu, substituído por confusão.
- Lorenzo? - sua voz era baixa, quase um sussurro.
Eu não falei nada.
Avancei alguns passos, meu corpo ocupando o espaço entre ela e o homem.
- Senhor... - Liz começou, tentando intervir, mas eu já havia feito meu movimento.
O homem riu, arrogante.
- Ora, ora... quem é esse? O segurança pessoal dela? - Ele se aproximou, ignorando meu olhar gélido.
Foi a gota d'água.
Um movimento meu, rápido, e ele parou imediatamente, sentindo a tensão no ar.
Minha mão pousou levemente no ombro dele, mas o suficiente para transmitir que a paciência tinha acabado.
- Escute bem, amigo. - Minha voz era baixa, cortante, quase sussurrada, mas carregava ameaça. - Você se afasta agora. Antes que eu perca a paciência.
O silêncio caiu.
O homem ergueu as mãos em rendição e recuou um passo, surpreso com a força da minha presença.
Eu mantive os olhos fixos nele até ter certeza de que ele não faria nada estúpido.
- Obrigado... - Liz sussurrou, ainda segurando a respiração.
Zara, porém, não disse nada.
Ela apenas me olhava, os olhos grandes, assustados e fascinados ao mesmo tempo.
Era impossível não notar o choque em cada gesto dela.
O modo como sua respiração acelerou quando a afastei do perigo.
Eu me afastei lentamente, mantendo o controle, mas não pude deixar de sentir o efeito que ela tinha em mim.
Coração batendo mais rápido, mente girando, aquele puxão interno que eu sempre tentei ignorar.
- Está tudo bem, senhor? - perguntou Liz, ainda trêmula.
- Sim. - Minha voz saiu firme, mas com uma ponta de aviso. - Está tudo bem.
Ela assentiu, mas meus olhos não deixaram Zara sair do meu campo de visão.
E ela também não desviou.
Cada músculo do corpo dela estava alerta, como se percebesse a tensão sem entender sua origem.
- Vamos? - falei, rompendo o silêncio. - O elevador está ali.
Zara me seguiu, silenciosa, e algo em mim se contorceu com a vontade de aproximar-me, tocar sua mão, dizer que estava tudo bem.
Mas não podia.
Não agora.
Não enquanto minha mente lembrava do passado dela, da minha culpa, da minha obsessão de mantê-la segura, mesmo que isso significasse me manter à distância.
O elevador subiu lentamente, cada andar trazendo o silêncio entre nós dois mais denso, mais carregado.
Os olhos dela, verdes e curiosos, me prendiam.
Os meus, sombrios e duros, tentavam transmitir autoridade, mas falhavam em esconder a preocupação - e talvez, algo mais que eu não queria admitir.
Quando chegamos ao andar, ela respirou fundo, tentando recompor a postura, como se nada tivesse acontecido.
Eu apenas observei.
- Zara, não se preocupe com nada do lado de fora enquanto estiver aqui.
Ela assentiu, leve tremor na mão que segurava a pasta.
Eu sabia que meu tom de voz a havia atingido de um jeito estranho.
Não apenas medo, mas respeito... e algo que eu não queria.
- Obrigada, senhor... - disse ela, quase murmurando, mas seus olhos não me deixaram mentir.
Ela sentiu o mesmo que eu.
Essa química impossível de negar, mesmo que ambos estivéssemos determinados a ignorar.
- Venha. - Eu indiquei a cadeira. - Vamos organizar seu espaço antes de qualquer outra coisa.
E, por um instante, o mundo fora da Castellani Corp desapareceu.
O perigo, a cidade, tudo... havia apenas ela, e a sensação de que não podia perdê-la de vista, nem mesmo por um segundo.
Eu respirei fundo, tentando engolir o que sentia.
Porque, mesmo que meu instinto gritasse para me aproximar dela, para protegê-la de tudo e de todos, eu não podia cruzar certas linhas.
Pelo menos não ainda.
Mas, algo dentro de mim sabia que essa menina já tinha começado a me dominar, mesmo que ela nem imaginasse.
E, enquanto nos posicionávamos em nossas cadeiras, um jogo silencioso havia começado.
Um jogo de olhares, de proximidade, de tensão... que nenhum de nós dois poderia negar.
O saguão ficou para trás.
E ali, na sala de trabalho, uma guerra silenciosa e irresistível começava.
{...}