CAMILA
Ano de 1993, São Paulo, Brasil.
Eu tinha apenas sete anos quando um caminhão de mudanças estacionou em frente à casa mais bonita da rua. Aquela casa era o castelo dos sonhos, um lugar que todas as crianças da vizinhança sonhavam em habitar um dia. Com suas paredes de um amarelo suave, janelas amplas que deixavam entrar a luz do sol e um jardim florido que exalava o perfume das rosas, ela era um verdadeiro ícone de beleza e felicidade. Ficava logo em frente ao meu lar, e sempre que passava por ali, meus olhos se perdiam na admiração pela sua fachada impecável e pelos detalhes que a tornavam tão especial. Naquele dia em particular, eu voltava da casa de um parente, segurando a mão da minha mãe, quando algo no ar parecia vibrar com uma nova energia.
O vento soprava levemente, trazendo consigo o doce cheiro das flores do jardim, e eu sentia que algo extraordinário estava prestes a acontecer. Foi então que, em um instante que se gravaria para sempre na minha memória, eu o vi. O garoto que, sem que eu soubesse, mudaria minha vida de uma forma que eu nunca poderia imaginar. Era como se o tempo tivesse parado. Meu coração, até então despreocupado e leve, acelerou com uma intensidade que me deixou atordoada. Ele estava lá, em pé no meio do movimento dos adultos retirando os móveis do caminhão, com os cabelos escuros caindo despreocupadamente sobre os olhos. Aqueles olhos profundos e enigmáticos, que pareciam guardar um universo inteiro de segredos e aventuras.
A maneira como ele observava ao redor, com um misto de curiosidade e doçura, me deixou hipnotizada. Era como se ele carregasse um magnetismo silencioso, uma aura que prendia minha atenção de um jeito que eu nunca havia sentido antes. Senti um frio na barriga, como se um feitiço tivesse sido lançado. Meu mundo, que até então era repleto de brincadeiras inocentes e rotinas tranquilas, de repente, ganhou cores mais vibrantes. Cada detalhe daquele momento parecia se intensificar: o canto dos pássaros nas árvores, o murmúrio distante das conversas dos adultos, e o brilho do sol que refletia nas folhas. Eu sabia, naquele instante mágico, que minha vida nunca mais seria a mesma. Enquanto eu permanecia ali, estática, quase sem respirar, minha mãe, sempre calorosa, se aproximava da nova vizinha, a mãe dele, com aquele sorriso amigável que ela sempre exibia.
A conversa entre elas começou a fluir, cheia de risadas e trocas de histórias, mas eu mal conseguia ouvir uma palavra sequer. Tudo o que eu conseguia fazer era me concentrar nele, aquele garoto que parecia ter saído de um conto de fadas, tentando entender o que havia nele que fazia o mundo ao meu redor desaparecer em um borrão de cores e sons. Cada movimento dele parecia coreografado, como se ele estivesse dançando uma música apenas dele, uma sinfonia que apenas eu podia ouvir. Seu olhar, curioso e perspicaz, era um convite silencioso para descobrir mais sobre seu universo. Eu sabia, naquele instante, sem entender muito bem o motivo, que aquele momento havia se tornado especial.
Era como se uma luz tivesse acendido dentro de mim, iluminando partes do meu ser que eu nem sabia que existiam. Embora eu fosse jovem demais para compreender a profundidade do que sentia, algo dentro de mim sussurrava que ele seria mais do que apenas o novo vizinho. Meu coração, naquele dia, foi capturado sem que eu sequer percebesse, preso em uma rede de encantamento que eu nunca havia imaginado ser possível. Então, a realidade me puxou de volta quando minha mãe abriu o velho portão de madeira rangente. O som ressoou no ar, como um lembrete de que a vida continuava, e juntas entramos em casa. A sensação de encantamento que eu havia experimentado permanecia grudada em mim, como uma sombra luminosa que não queria se apagar.
Cada objeto ao meu redor parecia menos importante do que a memória dele, e mesmo enquanto guardava as coisas que levava, o pensamento dele insistia em permanecer, dançando em minha mente como uma brisa suave, trazendo à tona sorrisos involuntários e um calor inexplicável em meu peito. Depois de organizar tudo, não consegui resistir e fui para o quintal, meu refúgio mágico. O espaço de terra vermelha, sem muros, cercado apenas por arame farpado e bambus, era o cenário de todas as minhas aventuras. Ali, naquele lugar simples, onde o mundo exterior parecia se dissipar como uma névoa ao amanhecer, eu me sentia livre, como se tivesse criado um pequeno reino onde os adultos não podiam entrar. A cercania sussurrava uma mensagem silenciosa: não entrem, aqui vivem pessoas. Nesse espaço sagrado, eu era a rainha absoluta. Sentei-me no chão, concentrada em fazer comidinha de barro, mergulhada em meu mundinho de fantasia. Moldava cada pedaço com a devoção de uma artista, dando vida a pratos imaginários que contavam histórias de fadas e criaturas mágicas.
O aroma da terra fresca preenchia o ar, e eu estava em paz, com o sol aquecendo meu rosto e o vento suave acariciando meu cabelo. Mas então, algo interrompeu minha concentração. Uma sensação estranha, como se um par de olhos invisíveis estivesse me observando, me fez parar. Levantei a cabeça devagar, o coração batendo acelerado em meu peito, e, para minha surpresa, lá estava ele novamente. O garoto dos olhos encantadores. Ele me observava, uma mistura de encantamento e curiosidade pintada em seu rosto, como se eu fosse uma pintura viva que ele nunca tinha visto antes. Seus olhos brilhavam com uma intensidade quase hipnotizante, acompanhando cada movimento meu, como se eu fosse a protagonista de um espetáculo que ele não queria perder. Senti meu rosto esquentar, um misto de timidez e excitação pulsando em minhas veias.
O tempo parecia ter parado novamente, cada segundo se estendendo como um fio de seda. Nesse instante, o que antes era uma simples brincadeira de barro se transformou em algo muito maior, uma promessa de aventura e descoberta. Ele sorriu, e meu coração disparou como se quisesse saltar do meu peito, ecoando como um tambor em um desfile festivo. A conexão entre nós era evidente, como se estivéssemos entrelaçados por um fio invisível que nos unia. Naquela troca silenciosa de olhares, eu soube que algo extraordinário estava apenas começando.
O quintal, antes um simples refúgio, agora vibrava com uma nova energia. Não consegui evitar. Com o coração acelerado, levantei-me e, sem pensar muito, caminhei em direção a ele, como se algo invisível me puxasse em sua direção. Aproximando-me do alambrado, meu peito batia forte, e, com uma mistura de ansiedade e esperança, perguntei:
- Quer brincar comigo?
Ele não respondeu com palavras, mas um leve aceno de cabeça afirmativo fez meu coração saltar de alegria. Era como se todo o peso do mundo tivesse sido tirado dos meus ombros, como se um novo capítulo estivesse prestes a se desenrolar diante de mim. Sem perder tempo, corri até o portão, minhas pequenas mãos lutando para remover a corrente pesada que prendia a fechadura improvisada.
Com um esforço final, consegui abrir o portão, e então o vi entrar, tímido, mas com uma presença que iluminava o espaço ao meu redor. Aproximei-me mais, a curiosidade borbulhando dentro de mim. Queria saber tudo sobre ele, como se estivesse prestes a descobrir um tesouro precioso.
- Qual o seu nome? - perguntei, tentando esconder a excitação que tremulava em minha voz.
Ele me olhou com um ar desconfiado, como se estivesse decidindo se poderia confiar em mim. Um momento de silêncio envolveu o ar, e meu coração disparou na expectativa. Mas, após essa pausa, respondeu, embora com certa timidez:
- É Dante.
Havia algo na maneira como ele pronunciava seu nome, um timbre que parecia carregar um mundo de histórias e mistérios. Meu peito aqueceu ao ouvir, como se tivesse encontrado uma parte perdida de mim mesma. Ele então devolveu a pergunta, seus olhos escuros brilhando com curiosidade:
- E qual o seu nome?
- É Camila - respondi, me sentindo mais à vontade do que jamais estive com alguém. A barreira entre nós parecia desaparecer, dissolvendo-se como a neblina ao sol. Sem hesitar, segurei sua mão, quente e suave, e puxei-o gentilmente para o meu mundo de brincadeiras, onde a terra vermelha se tornava um vasto campo de aventuras e nossas risadas ecoavam como música.
Levei Dante até o pequeno caos que eu havia criado com a terra e o barro, onde, até alguns minutos atrás, brincava sozinha. Agora, tudo parecia diferente. O sol parecia brilhar mais forte, e o vento, mais suave, como se a presença dele tivesse o poder de transformar até o ar ao nosso redor. Cada respiração se tornava mais leve, cada risada, mais contagiante. Começamos a brincar juntos, mergulhando na terra vermelha, onde a criatividade fluía livremente.
Nossos dedos sujos de barro se moviam com uma alegria desenfreada, e cada instante se tornava uma nova descoberta, uma nova aventura. Nossas risadas ecoavam no ar, misturando-se com o som das folhas balançando nas árvores, e cada olhar cúmplice se transformava em uma memória que, eu sabia, iria durar para sempre. Naquele momento mágico, cercados pelo alambrado e pelo aroma terroso, uma amizade especial nascia, uma conexão que prometia ser o alicerce de algo ainda mais profundo. À medida que as horas passavam, o mundo parecia se desvanecer ao nosso redor. A partir daquele dia, Dante e eu nos tornamos os melhores e mais inseparáveis amigos. Era como se, de repente, o mundo tivesse ganhado novas cores, vibrantes e cheias de vida.
A rotina se transformou em uma série de brincadeiras inventivas e explorações apaixonadas. Estávamos sempre juntos, correndo pela rua e explorando cada canto da vizinhança, como dois aventureiros em busca de tesouros escondidos, com risadas que ecoavam como música leve no ar. Quando a mãe dele finalmente me convidou para ir à casa deles pela primeira vez, meu coração pulou de alegria. Aquela era a casa que todos sonhavam em ter, e lá estava eu, brincando no quintal que tantas crianças invejavam. Me sentia como se tivesse entrado em um conto de fadas, onde os sonhos ganhavam vida em cada canto daquele espaço mágico. O quintal estava repleto de flores coloridas, um balanço pendurado em uma árvore frondosa e um cheiro doce de grama recém-cortada, e eu sabia que cada momento ali seria guardado para sempre na minha memória.
Ano de 1994.
O tempo passou rapidamente, e logo chegou meu aniversário de oito anos, uma data que eu aguardava ansiosamente o ano inteiro. Para mim, aquele dia era mais do que especial; era o momento em que minha mãe preparava um bolo gigantesco, que se tornava o centro de todas as atenções. Lembro-me claramente da cena: ela batia as claras de ovo até virarem neve, com um sorriso radiante no rosto que iluminava toda a cozinha. Cada batida parecia trazer consigo a promessa de um dia perfeito. O bolo, coberto com uma camada macia de creme e decorado com confeitos prateados que reluziam à luz como pequenos tesouros, era uma verdadeira obra-prima, digna de qualquer festa de conto de fadas.
Toda a criançada da rua era convidada para a festa, e a expectativa de comer um pedaço daquele bolo enorme e tomar refrigerante animava a todos. Eu sabia que aquele bolo era algo especial, não apenas pela aparência, mas pela alegria que ele trazia, uma felicidade compartilhada que preenchia o ar. Após os "parabéns" e a alegria de soprar as velas, cada criança pegava um pedaço para levar consigo, e mesmo assim, sempre sobrava o suficiente para durar a semana inteira, como um doce lembrete de um dia maravilhoso.
Naquele ano, porém, o que mais me empolgava não era só o bolo ou os amigos reunidos, mas saber que Dante estaria lá, ao meu lado, comemorando comigo. A presença dele tornava tudo ainda mais significativo. O simples ato de compartilhar um pedaço de bolo, que já era tão importante para mim, parecia se transformar em um momento mágico, um símbolo de nossa amizade crescente. Ao olhar para o rosto dele, cercado de sorrisos e felicidade, eu soube que estava vivendo um dos melhores momentos da minha vida. O brilho em seus olhos refletia a mesma alegria que eu sentia, e, por um instante, tudo parecia perfeito, como se o universo estivesse conspirando a meu favor.
Naquela mesma época, Dante me fez uma promessa que nunca esqueci: ele disse que se casaria comigo quando nos tornássemos adultos. Eu sorri, acreditando em cada palavra, como só as crianças sabem fazer. Era uma declaração inocente, mas ao mesmo tempo repleta de significado. Íamos juntos para a escola todos os dias, lado a lado, e voltávamos juntos também. Estudávamos na mesma classe, compartilhando cadernos, risadas e segredos, criando um mundo só nosso, uma bolha de felicidade que parecia indestrutível, um laço tão forte que nada poderia romper.
Ano de 1996.
Eu tinha completado dez anos quando, com seu jeito carinhoso, ele me deu o apelido de "Cacau". Segundo ele, eu era a pessoa mais doce que já havia conhecido. Aquela frase ficou gravada no meu coração como um lembrete silencioso do quanto ele era especial para mim, um tesouro que eu guardava com carinho. Com o passar dos anos, nossa amizade continuava tão sincera quanto antes, mas algo dentro de mim começou a mudar. Eu o amava mais a cada dia que passava, mas guardava esse sentimento em segredo, como se fosse um precioso cristal que não queria arriscar quebrar. O medo de perder aquela amizade tão preciosa me impedia de revelar o que sentia, criando um nó apertado no meu peito.
Ano de 2001.
Quando chegamos ao ensino médio, Dante havia se transformado em um adolescente charmoso e desejado, sua presença agora quase magnética. O garoto que eu conhecia havia se tornado o centro das atenções, e não era difícil entender o porquê. As garotas começaram a notar sua beleza e carisma, lançando olhares admirados e sussurrando entre si sempre que ele passava. Ele não passava mais despercebido; eram tantas, cada uma mais linda que a outra, sempre sorrindo para ele nos corredores da escola, como se ele fosse um ímã de atenção.
E eu? Eu me sentia invisível, uma mera espectadora em um espetáculo do qual sempre quis fazer parte. "Quem sou eu na fila do pão?" Esse pensamento me corroía por dentro. Apesar da intimidade que construímos ao longo dos anos, comecei a sentir que estava ficando para trás, como uma sombra na vida dele, assombrando-me com dúvidas sobre meu próprio valor. Por medo de revelar o que sentia e pela vergonha que surgia ao me comparar com aquelas meninas deslumbrantes, tentei me afastar emocionalmente.
Queria, de alguma forma, desapegar, me convencer de que não era amor, que poderia ser apenas uma fase passageira. Mas a verdade era outra: eu falhei miseravelmente. Cada tentativa de ignorar o que sentia era inútil. Meu coração teimava em bater mais forte por ele, e cada vez que nossos olhares se cruzavam, aquele sentimento florescia, incontrolável e inevitável, como uma planta que se recusava a ser sufocada sob a sombra do meu medo. O que antes era um amor doce e ingênuo se tornava um turbilhão de emoções conflitantes. Eu me via dividida entre o desejo de ficar perto dele e a necessidade de me proteger da dor que poderia advir da rejeição.
Cada risada compartilhada, cada toque acidental, cada momento que vivíamos juntos se transformava em um desafio para o meu coração, que pulsava descompassado, como se estivesse gritando para ser ouvido. Dante parecia não notar a tempestade dentro de mim. Ele continuava a ser meu amigo, compartilhando risadas e confidências, enquanto eu lutava contra uma tempestade de emoções que ameaçava me engolir. Cada momento ao seu lado era uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo; era impossível lutar contra o amor que crescia silenciosamente dentro de mim. A amizade que antes me trazia tanta alegria agora se tornava um campo de batalha, onde meu coração e minha mente se enfrentavam constantemente. Eu temia o momento em que teria que decidir entre proteger o que já tínhamos ou arriscar tudo por um sentimento que ardia como uma chama indomável, um fogo que me consumia por dentro.
Ano de 2004.
Após o término do ensino médio, a realidade se abateu sobre nós como uma tempestade implacável. Dante e eu fomos separados de forma definitiva. Ele precisou voltar para a Itália, seu país de origem, pois seus pais desejavam que ele concluísse a faculdade por lá. A notícia foi um golpe duro, um soco no estômago que me deixou sem ar. Meu mundo desabou em frações de segundo, e toda a cor e alegria que ele trazia à minha vida se dissiparam, dando lugar a um cinza opressivo.
Nossa amizade, e tudo o que eu sentia por ele, parecia desmoronar sob o peso da distância, como castelos de areia levados pelas ondas do mar. Enquanto ele seguia seus estudos do outro lado do oceano, eu fiquei ali, em São Paulo, enfrentando a realidade da minha vida, que parecia mais cinza e vazia sem ele ao meu lado. A situação financeira dos meus pais não me permitiu ingressar no ensino superior. Apesar de ter tentado inúmeras vezes conseguir uma bolsa de estudos, cada tentativa terminava em frustração.
Eu me sentia como um pássaro preso em uma jaula, com o desejo de voar alto, mas sem as asas necessárias para fazê-lo. Com o tempo, fui aceitando que minha realidade seria outra. Fiz alguns cursos técnicos, mas ao me lançar no mercado de trabalho, sempre carregava aquela sensação dolorosa de que algo havia ficado incompleto; não só nos meus estudos, mas dentro de mim. Uma parte do meu coração parecia estar faltando, como um quebra-cabeça com uma peça essencial perdida, uma lacuna que não poderia ser preenchida por nada ou ninguém. De vez em quando, Dante e eu trocávamos cartas.
Era raro, mas quando acontecia, eu me agarrava àquelas palavras como se fossem um fio invisível que ainda nos ligava, uma ponte entre nossos mundos separados. Cada carta que recebia trazia um misto de esperança e saudade, um lembrete do que tínhamos e do que ainda poderia existir. Eu lia suas palavras em voz alta, tentando sentir sua presença através de cada frase, cada risada e cada lembrança que ele compartilhava.
CAMILA
Contudo, depois de um tempo, as cartas dele pararam de chegar. O silêncio se tornou pesado, como se uma porta tivesse sido fechada sem aviso, deixando um eco doloroso na minha alma. A ausência de notícias se transformou em um vazio que parecia se expandir a cada dia, uma ferida aberta que não cicatrizava. Senti como se as cores da minha vida fossem se esvaindo, e eu, presa em um ciclo de lembranças nostálgicas, lutava para encontrar um novo propósito. As memórias de Dante e das promessas que fizemos eram como fantasmas que me assombravam, sussurrando as verdades que eu não conseguia aceitar.
O amor que guardava por ele, embora enterrado sob a dor da separação, continuava a pulsar dentro de mim, como uma chama que se recusava a se apagar. Após um tempo, acabei descobrindo, através da mãe dele, que ele havia começado a namorar. Naquele momento, senti como se uma parte de mim desmoronasse, um desabamento interno que me deixou atordoada. O que eu sempre temia havia acontecido: o mundo dele estava se afastando cada vez mais do meu, e a dor era quase insuportável. Uma onda de desespero e impotência me envolveu, como se eu estivesse sendo arrastada por uma correnteza forte e implacável, incapaz de nadar contra a maré de sentimentos que me consumia.
Para ser honesta, eu também não estava sozinha. Durante esse período, iniciei um relacionamento com Fernando, um rapaz que conheci por acaso em um evento de trabalho. Ele era gentil, atencioso e parecia a escolha certa naquele momento da minha vida, uma âncora em meio à tempestade emocional que eu enfrentava. Ele tinha um jeito carinhoso que me confortava, e, por um breve instante, achei que poderia encontrar paz nos braços dele. Mas, mesmo assim, saber que Dante estava com outra pessoa mexeu profundamente comigo, muito mais do que eu gostaria de admitir.
A imagem dele, com seu sorriso encantador e seus olhos brilhantes, persistia na minha mente como uma sombra que não me abandonava. Ele era a luz que eu tinha perdido, e a dor da perda era uma constante que não se apagava. Cada vez que estava com Fernando, havia um eco da presença de Dante, como se ele estivesse me observando à distância, lançando sombras sobre os momentos que eu deveria estar aproveitando. Era uma luta constante entre seguir em frente e o desejo de voltar no tempo, para um momento em que tudo era mais simples e mais puro, onde risadas e promessas preenchiam o ar ao nosso redor.
Eu tentava me convencer de que estava feliz com Fernando, mas a verdade é que uma parte de mim ainda aguardava por Dante, como se o universo tivesse prometido que um dia nos reencontraríamos. Eu me sentia como uma viajante perdida, vagando entre dois mundos: um onde a vida seguia seu curso natural e outro onde o amor da minha infância ainda tinha a capacidade de me fazer sonhar. E assim, enquanto tentava construir uma nova vida, a saudade de Dante se tornava uma presença constante, um lembrete doloroso de que algumas histórias nunca têm um final feliz.
Naquele mesmo mês, a decisão brotou dentro de mim como uma planta que não podia mais ser sufocada. Eu decidi romper com Fernando. A ideia de continuar naquele relacionamento já não me parecia viável; eu simplesmente não conseguia seguir em frente. Era como se uma névoa densa me sufocasse, escondendo o que realmente desejava, e a clareza finalmente começava a se fazer presente. Não podia mais viver uma mentira, enganando a mim mesma e a ele em relação aos sentimentos que, no fundo, eram tão imaturos e frágeis. Convoquei toda a coragem que tinha e marquei um encontro para conversarmos. Meu coração disparava enquanto pensava nas palavras que eu usaria, e uma onda de ansiedade me invadia a cada passo em direção ao café onde nos encontraríamos. A atmosfera estava carregada, e as mesas ao redor pareciam distantes, como se o mundo tivesse se concentrado apenas naquele instante.
Quando Fernando chegou, seu sorriso iluminou o local. Mas, para mim, era apenas uma lembrança do que não poderia ser. A conversa fluiu no início, mas a cada palavra que trocávamos, uma parte de mim se despedia, como se estivesse enterrando algo precioso. Eu sabia que, em algum lugar dentro de mim, ainda havia carinho por ele. Mas, ao olhá-lo nos olhos, percebi que não era o amor que ele merecia, e isso me cortou como uma faca afiada.
- Fernando, precisamos conversar sobre nós... - comecei, minha voz tremendo ligeiramente.
Ele franziu a testa, e a expressão dele começou a mudar, como se uma nuvem tivesse cruzado seu rosto ensolarado. Eu continuei, a verdade transbordando de mim, cada palavra uma libertação.
- Eu não estou sendo honesta. Não posso continuar com isso. Não é justo com você, nem comigo.
A dor no meu peito se intensificou, mas ao mesmo tempo, havia uma leveza que começava a surgir, como se eu estivesse me libertando de correntes invisíveis. Fernando, em sua generosidade, tentou entender, mas a expressão de confusão e dor em seu rosto me partiu o coração.
- Eu pensava que estávamos felizes! - ele respondeu, a tristeza transparecendo em sua voz.
- Sinto muito por isso, você é uma pessoa excelente e merece alguém que te ame com todo o coração. Eu não posso te dar esse amor; queria poder, mas não posso! - Eu suspirei, e a profundidade das minhas palavras parecia ressoar no ar ao nosso redor.
Fernando não disse uma palavra sequer, apenas me encarou. O silêncio se estendeu entre nós, pesado e carregado de emoções não ditas. Seu olhar, que antes era repleto de alegria, agora estava tingido de confusão e tristeza. Eu podia ver a luta interna em seu rosto, como se estivesse tentando entender a repentina mudança no nosso mundo. A dor que eu causava a ele me atingia como uma onda, e eu desejava poder apagar aquele momento, de alguma forma aliviar a ferida que estava abrindo. Mas a verdade era que eu não podia mais me esconder. O amor que sentia por Dante era uma chama que não se apagava, e era hora de dar um passo à frente, mesmo que isso significasse deixar Fernando para trás.
- Eu só... eu não quero que você sofra... - eu continuei, tentando explicar, mesmo sabendo que as palavras pareciam inadequadas. - Você merece alguém que possa te dar tudo o que você quer. Alguém que possa realmente estar presente.
Ele balançou a cabeça lentamente, como se tentasse se convencer de que aquilo era apenas uma fase passageira. Mas a dor em seus olhos dizia o contrário. Fernando era uma boa pessoa, e a ideia de magoá-lo me deixava ainda mais angustiada. Ele não merecia essa incerteza.
- Eu não sabia que você estava tão confusa! - ele disse, a voz embargada. - Pensei que estávamos felizes, que tudo estava indo bem.
Minhas mãos tremiam sob a mesa, e uma onda de culpa me invadiu. Eu queria gritar que estava tão perdida quanto ele, que minha mente estava uma tempestade de sentimentos conflitantes. Mas em vez disso, mantive meu olhar firme, tentando transmitir a sinceridade que não conseguia colocar em palavras.
- Eu só quero que você encontre alguém que te faça feliz, Fernando. Você é incrível, e eu sei que irá conquistar o mundo! - eu disse, desejando que ele sentisse um pouco da verdade nas minhas palavras.
Finalmente, ele desviou o olhar, encarando a mesa entre nós, onde as xícaras de café vazias pareciam se tornar testemunhas mudas da nossa despedida. O silêncio se fez novamente, e eu sabia que ele estava absorvendo tudo. Depois de alguns instantes que pareceram horas, Fernando olhou para mim com uma expressão de resignação e tristeza.
- Eu entendo. Você tem que seguir seu coração.
Essas palavras, embora suaves, cortaram ainda mais fundo. Ele se levantou lentamente, como se cada movimento fosse um desafio. O espaço entre nós, que antes estava repleto de risadas e confidências, agora se tornava um abismo de solidão. Eu assisti enquanto ele se afastava, sentindo meu coração pesar a cada passo que ele dava em direção à porta. Assim que ele desapareceu do meu campo de visão, uma mistura de alívio e tristeza me invadiu. A decisão estava tomada, mas o peso da escolha pesava em meus ombros. Eu sabia que o caminho à frente seria desafiador, mas não havia como voltar atrás.
E ali, enquanto estava sozinha, eu percebi que, embora estivesse fazendo a coisa certa, isso não tornava a decisão menos dolorosa. Era como se um capítulo da minha vida estivesse sendo encerrado, e eu me sentia perdida em um mar de emoções contraditórias. Mas no fundo, eu sabia que a única maneira de realmente encontrar a felicidade seria enfrentar a verdade que sempre esteve em meu coração: o amor que eu sentia por Dante nunca havia desaparecido.
Ano de 2008.
Quatro anos haviam passado sem que nos víssemos pessoalmente, mas a ausência de Dante parecia mais um eco do que uma distância. Nesse tempo, muitas coisas mudaram na minha vida. Eu havia crescido e amadurecido; até mesmo tentei seguir em frente com meu coração. No entanto, algo sobre aquele período parecia sempre estar incompleto, como se faltasse uma peça fundamental que eu nunca conseguisse encontrar.
As lembranças de nossa infância e adolescência eram um misto de doce nostalgia e dor. Os risos compartilhados, as promessas inocentes de um futuro juntos, tudo isso ainda ressoava dentro de mim, como uma melodia que nunca deixava de tocar. Mesmo distante, Dante ainda era uma sombra viva em meus pensamentos, uma presença que, de alguma forma, nunca havia me deixado completamente.
Era como se, mesmo sem saber, ele continuasse a influenciar cada decisão que eu tomava, cada caminho que escolhia. Às vezes, enquanto caminhava pela cidade, me pegava imaginando como ele estaria. "Seria o mesmo garoto sorridente que eu conheci, com seu jeito despreocupado e olhar curioso, ou teria se tornado um estranho?" O tempo, que havia me transformado em uma mulher, também o havia transformado em homem, e essa dualidade me deixava intrigada e ansiosa.
As conversas que um dia compartilhamos se tornaram um tesouro guardado em meu coração, mas a incerteza do futuro me mantinha em um estado de limbo emocional. As noites eram particularmente desafiadoras. Eu me deitava na cama, cercada por sombras e lembranças, e a ausência de Dante se tornava evidente, como um peso que pressionava meu peito. As estrelas brilhavam lá fora, e eu me perguntava se ele também olhava para elas, se ainda se lembrava de mim. O que mais me atormentava era a sensação de que o universo ainda guardava um desfecho para nossa história, mas qual seria esse desfecho? Era em momentos de solidão que as palavras dele se tornavam meu consolo. A promessa de que ele um dia voltaria, de que teríamos a chance de reescrever nossa narrativa, ecoava em minha mente.
Eu sabia que precisava seguir em frente, mas não conseguia me desvincular do passado. Cada novo relacionamento que tentava estabelecer parecia se desvanecer diante da lembrança dele, como uma sombra que se recusava a desaparecer. Os anos passavam, mas eu ainda me lembrava de seu sorriso, da maneira como seus olhos brilhavam quando falava sobre seus sonhos. E mesmo que o mundo ao meu redor estivesse mudando, uma parte de mim permanecia presa naquela infância, onde tudo era mais simples e onde a amizade era o maior tesouro. A ideia de reencontrá-lo me preenchia de esperança e medo, como um coração dividido entre o que foi e o que poderia ser.
Certa manhã, enquanto tomava café em uma cafeteria local, uma música familiar começou a tocar ao fundo. Era aquela mesma canção que costumávamos ouvir juntos, nas tardes ensolaradas, enquanto sonhávamos acordados. O som suave das notas era como um portal que me transportava de volta para aqueles momentos mágicos. Eu fechei os olhos, permitindo que a melodia me envolvesse, e, por um breve instante, pude sentir a presença de Dante novamente ao meu lado.
A vida continuava, mas dentro de mim havia um espaço reservado, um canto secreto onde as memórias de Dante dançavam como folhas ao vento. Eu não sabia se algum dia teríamos a chance de nos reencontrar, mas a esperança persistia, como uma luz tênue que se recusava a se apagar. Enquanto tentava construir uma nova vida, a presença dele ainda me acompanhava, como um sussurro suave que insistia em não ser esquecido. A cada passo que dava, sentia sua sombra se projetar sobre mim, um lembrete constante do que havia perdido. Ao olhar para trás, percebia que meu coração havia sido moldado pela sua ausência, um vazio que deixava marcas profundas e indeléveis.
Mesmo com o passar dos anos, a imagem de Dante permanecia inabalável, como uma âncora que me impedia de navegar em águas desconhecidas. A saudade se tornava uma companheira constante, um eco de risadas e carinhos que um dia foram reais, uma lembrança dolorosa da inocência perdida e da simplicidade de um amor que ainda não tinha coragem de deixar ir. Então, um dia, enquanto revisitava algumas fotos antigas empoeiradas, encontrei uma imagem de nós dois. Nela, nossos sorrisos largos e olhos brilhantes refletiam a pureza de um tempo que parecia distante. A fotografia capturava não apenas um momento, mas a promessa de um futuro que, na época, parecia tão certo.
Uma onda de emoção me invadiu, e percebi que, não importava quantos anos se passassem, Dante sempre teria um lugar especial em meu coração. A partir daquele momento, fiz uma promessa a mim mesma, uma determinação silenciosa que ressoava em minha alma: "um dia, eu o encontrarei novamente. E se o destino permitir, terei a coragem de revelar o que realmente sinto, de abrir meu coração e libertar os sentimentos que tanto tempo estiveram guardados."
Ano de 2013. Duas décadas depois do início.
Era quase seis horas da tarde, e o céu começava a tingir-se de laranja e roxo, uma paleta vibrante que anunciava a despedida do sol no horizonte. Saí do trabalho exausta, mas minha mente continuava vagava por memórias antigas, como se aquelas lembranças estivessem ganhando vida novamente, dançando sob a luz do crepúsculo. Peguei o metrô e, durante as duas ou três horas que passei a bordo, o movimento rotineiro das pessoas entrando e saindo parecia me afastar da realidade. Os rostos anônimos e as conversas indistintas ao meu redor formavam um fundo sonoro para a nostalgia que me consumia, envolvendo-me em um manto de recordações. Ao desembarcar, encontrei-me caminhando pelas ruas do bairro onde cresci, já próxima da casa dos meus pais, onde ainda moravam com minha irmã. Não ia lá há tempos, desde que decidi ser independente e aluguei uma pequena casa só para mim.
Mas naquele dia, algo inexplicável me puxou de volta, como uma força invisível que não pude ignorar. À medida que caminhava, uma imensa onda de nostalgia me envolveu. As ruas que antes eram familiares, as árvores balançando suavemente com o vento, os sons conhecidos da vizinhança... tudo parecia me puxar de volta para um tempo que eu tentava manter à distância. Porém, o que realmente mexeu comigo foi ver a casa em que Dante havia morado. Ela estava lá, tão imponente e bonita quanto eu me lembrava, as paredes preservadas, o jardim ainda florido e vibrante.
Parecia intacta, como se o tempo não tivesse ousado tocá-la. A saudade que senti naquele instante foi esmagadora, quase insuportável, uma pressão no peito que me fez parar. Lágrimas inesperadas surgiram em meus olhos, misturadas a um turbilhão de lembranças que invadiu minha mente, trazendo de volta risos, promessas e sonhos que um dia foram nossos. Era como se todas as emoções que eu havia guardado durante anos de repente explodissem dentro de mim, uma tempestade de sentimentos reprimidos. Sem perceber, soltei as palavras no ar, como se estivesse tentando conversar com o passado:
- Como seria se eu tivesse ficado com ele? Com certeza seria tudo muito diferente!
Minha voz quebrou o silêncio da rua vazia, reverberando nas paredes da casa como um eco perdido. O vento pareceu sussurrar, carregando a fragilidade do meu desejo. Mas o que eu realmente buscava não era apenas uma resposta; era a validação de um sentimento que ainda existia, enterrado sob camadas de experiências e escolhas que fiz ao longo dos anos. O eco da minha pergunta ficou apenas comigo, uma lembrança amarga do que poderia ter sido, um desejo que ficou preso em algum lugar entre o tempo e a distância, como uma história interrompida, aguardando por um final que nunca chegou.
A saudade era uma amiga constante, sempre me acompanhando em meus dias, mas naquele momento, ela se tornava um peso que eu precisava carregar. Olhei mais uma vez para a casa de Dante, desejando fervorosamente que ele estivesse lá, que o tempo não tivesse nos afastado. Uma onda de nostalgia me envolveu, e então percebi que, embora as coisas não tivessem saído como eu esperava, as lembranças dele sempre estariam presentes, como uma sombra que nunca se dissiparia, eterna e silenciosa. Respirei fundo, tentando me recompor, e continuei caminhando, perdida em meus pensamentos. O som dos meus passos ecoava na calçada vazia, quando, de repente, ouvi meu nome cortando o ar frio da noite:
- Camila! - uma voz feminina me chamou, vibrante e familiar.
Ao me virar, fiquei surpresa ao ver dona Georgiana, a mãe de Dante, parada no portão da casa onde tantas memórias estavam guardadas. Ela parecia a mesma de sempre, com aquele olhar endurecido que me fez sentir como se nenhum tempo tivesse passado. A visão dela foi como um sopro de vida em um dia de outono, trazendo de volta a essência de um passado que eu pensava ter enterrado, uma conexão que imediatamente me envolveu em calor e conforto.
- Oi, dona Georgiana. Quanto tempo! - exclamei, enquanto me aproximava e a abraçava com carinho. O toque dela era familiar, e aquele abraço me envolveu em uma onda de lembranças, como se eu estivesse de volta àquela infância despreocupada, repleta de risadas e promessas.
- Em breve o Dante estará de volta. Ele quer que você trabalhe com ele! - ela disse com uma naturalidade que me pegou de surpresa, como se a conversa fosse tão comum quanto perguntar sobre o tempo. As palavras dela ressoaram dentro de mim, uma mistura de esperança e ansiedade.
Eu franzi o cenho, confusa e um tanto hesitante. A ideia de Dante de volta à minha vida era ao mesmo tempo excitante e assustadora, um convite para reabrir feridas que eu tentava desesperadamente cicatrizar.
CAMILA
- Mas eu já estou trabalhando... - respondi, fazendo uma careta, sem saber muito bem o que pensar. O que ela estava dizendo parecia um sonho, uma promessa que poderia se transformar em realidade, mas a realidade parecia tão distante.
Ela me olhou de cima a baixo e acrescentou, com um olhar decidido:
- Você sabe como as pessoas da minha família são. Nunca aceitamos um não como resposta. Acho que seria prudente você pedir demissão, se possível amanhã mesmo.
A firmeza nas palavras dela me deixou sem reação. A ideia de ver Dante novamente, de trabalhar com ele... girava como uma tempestade em minha mente. Era tudo tão repentino, e ao mesmo tempo, algo dentro de mim se agitava com aquela possibilidade, como um pássaro preso numa gaiola, ansioso por voar, pela liberdade que sempre sonhou. Não consegui dizer nada. Apenas concordei com a cabeça, como se estivesse em um sonho, incapaz de processar tudo o que estava acontecendo.
Nossa conversa terminou ali, mas eu fiquei parada por um momento, sentindo o peso das palavras dela. Imaginava o que aquela volta poderia significar, não apenas para minha vida profissional, mas para tudo o que eu ainda sentia por ele. A ideia de reencontrá-lo, de redescobrir as emoções que um dia haviam sido tão intensas, fazia meu coração acelerar e minha mente girar em um turbilhão de expectativas e medos. Eu trabalhava no atendimento de uma farmácia, uma rotina simples que havia se tornado familiar e reconfortante. Era um emprego seguro, mas, aos poucos, o dia a dia começava a parecer monótono e sem graça, como um filme repetido que eu já conhecia de cor.
Continuei meu trajeto até a casa de meus pais, onde estranharam minha visita repentina, já que fazia tempo que eu não os via. A surpresa deles trouxe um sorriso ao meu rosto, e logo me vi desfrutando de um jantar agradável com eles, rindo e contando histórias enquanto os aromas da comida caseira preenchiam o ambiente. Durante a refeição, expliquei para minha mãe sobre a oferta de trabalho que Dante havia feito, e seus olhos brilharam com a possibilidade. Ela rapidamente se animou com a ideia, como se visse um reencontro esperado há muito tempo. Minha família sempre gostou muito dele, e minha mãe, com seu olhar sagaz, secretamente sabia dos sentimentos que eu guardava por Dante, mesmo quando eu tentava escondê-los.
Decidi passar aquela noite na casa dos meus pais. Já era tarde e, assim, poderia ficar um pouco mais com minha irmã também, desfrutando da companhia que me lembrava os dias simples e felizes da infância. Na manhã seguinte à conversa com a dona Georgiana, tomei coragem e pedi minha demissão, como ela havia sugerido. O coração batia acelerado, ecoando em meu peito, enquanto falava com meu supervisor. As palavras saíam de mim num turbilhão de emoções, uma mistura de medo e esperança. Era um passo arriscado, mas a ideia de voltar a ter Dante em minha vida, mesmo que de forma profissional, era tentadora.
A possibilidade de reatar aquela conexão perdida me deixava inquieta, como uma chama acesa que iluminava uma parte de mim que eu achava que estava apagada. Ao sair da farmácia pela última vez, uma mistura de ansiedade e expectativa tomou conta de mim. O futuro era incerto, mas havia algo no ar que prometia renovação, como a brisa fresca que traz o cheiro da terra molhada após a chuva. Com cada passo que eu dava, a esperança crescia, e finalmente eu poderia estar a um passo de descobrir se os sentimentos que guardava ainda eram tão intensos quanto antes. O horizonte parecia mais brilhante, e uma nova aventura se desenhava à minha frente, como um livro em branco aguardando para ser preenchido com novas histórias e emoções.
Nos dias que se seguiram, fiquei em casa descansando, mergulhando em reflexões sobre as mudanças que estavam por vir. A expectativa crescia dentro de mim, pulsando como um tambor em um ritmo frenético, enchendo meu coração de uma mistura de ansiedade e esperança. Quando finalmente Dante voltou, tudo parecia estar se ajustando de uma maneira que eu nunca poderia imaginar. Ele não era mais aquele menino tímido que eu conhecia. Agora, era o poderoso CEO de uma grande corporação, ostentando o sobrenome da família na fachada do edifício, um símbolo de prestígio e tradição que ressoava com a força de suas conquistas.
O garoto sonhador, que costumava compartilhar seus anseios de futuro comigo, agora tinha a postura confiante de um homem que carregava o peso de uma responsabilidade imensa sobre os ombros. Nosso reencontro foi intrigante e surreal ao mesmo tempo. Quando me vi diante dele, o tempo pareceu parar por um momento. Sentir o aperto do abraço forte dele foi como encontrar um abrigo acolhedor após uma longa tempestade. O calor do seu corpo se misturou ao meu, e olhar aquelas veias saltantes de seus braços musculosos mexia com todos os meus sentidos, me deixando sem ar, como se cada respiração fosse uma lembrança do que um dia compartilhamos. No entanto, havia também uma distância sutil entre nós, como se as experiências e os anos passados criassem uma barreira invisível.
Mas, naquele instante, enquanto me entregava ao abraço, percebi que, apesar de tudo, a conexão que existia entre nós ainda tinha a mesma intensidade. O passado se reascendia em meu coração, como uma chama que nunca tinha se apagado. Quando ele me contratou como sua secretária executiva, senti uma mistura de alegria e nervosismo. Uma parte de mim estava extasiada por estar ao seu lado novamente, mas outra parte se perguntava se eu era realmente a pessoa certa para aquele cargo. Eu não tinha experiência na área, e essa falta de conhecimento me deixava insegura, mas Dante acreditava em mim de uma forma que me dava coragem.
Ele sempre foi meu maior apoiador, e naquele momento, era minha vez de retribuir essa confiança. Apesar de tudo, mergulhei de cabeça no desafio. Me esforcei ao máximo para me adaptar e me tornar a melhor profissional que pudesse ser. O trabalho era intenso e exigente, mas eu me dedicava a aprender rapidamente cada aspecto da função. Os dias se transformaram em uma maratona de reuniões, telefonemas e prazos apertados, e, mesmo assim, a energia no escritório era eletrizante. Eu estava ansiosa, mas a adrenalina me impulsionava a dar o meu melhor. No entanto, a parte mais difícil para mim eram os comentários maldosos que ouvia ao longo do caminho.
Muitos colegas insinuavam que eu estava ali apenas por ser amiga do CEO, como se minha amizade com Dante fosse a única razão pela qual eu havia conseguido aquela posição. Essas palavras eram uma faca de dois gumes; sabia que, de certa forma, havia um fundo de verdade. Era inegável que, em um ambiente tão competitivo, a conexão pessoal poderia abrir portas, e isso me deixava em conflito. A ideia de ser vista apenas como "a amiga do CEO" era dolorosa. Ainda assim, eu me recusava a deixar que isso me abalasse. Me esforçava muito, estudava fora do horário de trabalho e tentava absorver o máximo possível. Queria mostrar a todos que merecia estar ali, não apenas por causa do nosso passado, mas por minha própria capacidade. Cada pequeno sucesso no trabalho era uma vitória pessoal, um passo para afirmar que eu não era apenas uma sombra no mundo de Dante, mas uma profissional capaz e dedicada.
Com o passar do tempo, as pequenas conquistas se tornaram um combustível que alimentava minha determinação. Concluí projetos importantes, organizei reuniões bem-sucedidas e, aos poucos, os olhares de desdém começaram a se transformar em reconhecimento. Para cada comentário malicioso, eu respondia com um sorriso e um desempenho impecável, porque sabia que, no fundo, minha maior motivação era superar não apenas as expectativas dos outros, mas também as minhas. E, apesar dos desafios, havia algo reconfortante em saber que, não importava o que acontecesse, eu estava novamente perto de Dante, e isso tornava tudo mais significativo.
Cinco anos depois. Ano de 2018.
Era surpreendente pensar que cinco anos haviam passado desde que comecei a trabalhar com Dante. Ao refletir sobre esse tempo, percebi que passava mais momentos ao seu lado do que com qualquer outra pessoa na minha vida. A proximidade diária, as reuniões que se estendiam por horas, as conversas despreocupadas e até os pequenos momentos durante o expediente foram alimentando um sentimento que crescia em meu coração como uma chama que se recusava a se apagar.
Cada risada compartilhada e cada olhar furtivo trocado tornavam meu amor por ele mais intenso, mais difícil de ignorar. Era um sentimento que parecia estar emaranhado em cada fibra do meu ser, um misto de alegria e angústia que pulsava como um eco constante. Foi em um almoço em nosso restaurante favorito, aquele que havia se tornado um refúgio de risos e confidências, que tudo mudou. Estávamos sentados em nossa mesa habitual, cercados pela familiaridade do ambiente e pelo aroma de pratos que já conhecíamos de cor.
Conversávamos despreocupadamente sobre o trabalho, relembrando histórias engraçadas de projetos passados, quando, de repente, Dante quebrou a leveza do momento com uma revelação inesperada. Suas palavras cortaram o ar como um raio em dia ensolarado.
- Cacau, preciso que me ajude a escolher um colar e um anel de noivado!
Naquele instante, o suco que eu estava bebendo quase saiu pela boca, e eu me engasguei. O mundo ao meu redor desapareceu. O burburinho do restaurante, as risadas dos outros clientes, tudo se tornou irrelevante. Olhei para Dante, confusa e aterrorizada, tentando decifrar o que aquelas palavras significavam. Meu coração disparou, e, naquele momento, percebi que meus sentimentos estavam em um ponto crítico; a linha entre amizade e amor se tornava cada vez mais tênue.
- Noivado? Com quem? - Minha voz saiu trêmula, e a desilusão se fez evidente. O medo de perder o que tinha recuperado com ele começou a se materializar em meu peito.
- Ah, você não a conhece! Ela fez faculdade comigo, seu nome é Sophie! - Ele respondeu com um brilho nos olhos, e enquanto mostrava uma foto da mulher para mim, meu mundo pareceu desmoronar.
A imagem de Sophie, uma desconhecida que eu nem sabia quem era, sorriu de volta, radiante e cheia de vida. Ela era uma mulher bonita e elegante, e na foto usava um vestido vermelho de lã que realçava suas curvas de maneira sofisticada. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque impecável, com algumas mechas soltas emoldurando seu rosto de forma delicada. Senti uma onda de ciúmes e tristeza se misturando dentro de mim, como se o chão tivesse desaparecido sob meus pés.
O peso da realidade me atingiu com força, e a dor do que poderia ser se transformou em um lamento silencioso. Como pude chegar a esse ponto? Como não percebi que estava prestes a perder Dante para outra? O vazio se instalou em meu coração, e a esperança de que um dia ele pudesse sentir o mesmo por mim parecia uma miragem distante.
- Gosta tanto assim dela? Ao ponto de querer se casar? - perguntei, um nó se formando em minha garganta, como se as palavras fossem difíceis de engolir.
- Bem, eu não a amo, mas gosto o suficiente para poder casar! Um homem na minha posição tem que formar uma família. Tenho que causar uma boa impressão, entende? E, por falar nisso, já estamos com trinta e dois anos, e você sequer conseguiu um namorado ainda; isso é preocupante! - Ele me encarou, seu olhar desafiador cortando através da confusão que me envolvia.
- Minha vida amorosa não está em discussão aqui! - Tossi algumas vezes, nervosa com a direção do assunto, as palavras escapando como um grito contido.
- Você é engraçada! - Ele bagunçou meu cabelo, um gesto familiar que, em outro momento, teria feito meu coração acelerar de alegria, mas agora apenas serviu para aumentar a agonia que se instalava dentro de mim. - Preciso me apressar, tenho uma reunião com os executivos daqui a pouco! Você pode cuidar do colar e do anel pra mim? Escolha como se fossem para você! - Ele sorriu, levantando-se da mesa com uma leveza desconcertante, como se nada tivesse acontecido.
Levantei-me em seguida, ainda processando suas palavras, e ajeitei a gravata dele que estava torta, um gesto automático que só aumentava meu tormento. Ele saiu do restaurante com a mesma despreocupação de sempre, enquanto eu fiquei parada, consumida por uma mistura de rancor e ressentimento. O peso da sua escolha se abateu sobre mim como uma tempestade, e cada segundo que se passava parecia um lembrete amargo de tudo o que eu nunca teria. Uma tristeza profunda invadiu meu ser, como se um abismo tivesse se aberto sob meus pés. Como pude ter sido tão cega? As horas que passei ao lado dele, os momentos que compartilhamos, as confidências trocadas... tudo parecia ter sido em vão.
O amor que sentia se transformava em um espinho que se cravava cada vez mais fundo, e a ideia de escolher um colar e um anel para a mulher que ele amava, mesmo que apenas "suficientemente", parecia uma tortura insuportável. A vontade de me afastar, de pedir demissão, crescia a cada instante, como um grito de socorro em meio a um mar de dor, mas a realidade de deixar tudo para trás; tudo o que havia construído, cada risada, cada olhar compartilhado, era igualmente angustiante. Eu estava presa entre o desejo de escapar e a necessidade de permanecer, sufocada pela imensidão daquilo que nunca poderia ser. Engoli meu orgulho ferido e segui até uma das joalherias mais sofisticadas da cidade para cumprir o que Dante havia pedido.
Assim que entrei, fui recebida por uma exibição deslumbrante de joias, cada peça mais linda que a outra, refletindo a luz de maneira hipnotizante. Com as mãos trêmulas, coloquei um anel que havia escolhido no meu dedo. Por uma fração de segundos, senti uma imensa felicidade, uma sensação de sonho realizado; mas essa alegria logo se transformou em dor aguda. Era pra ser eu. Era pra ele se casar comigo. Ele não passa de um homem sem palavra! Ele prometeu que se casaria comigo há vinte anos atrás... O pensamento me atingiu como um soco no estômago, e uma lágrima quente e dolorosa escorreu pela minha bochecha, tornando amargo o sabor da perda de alguém que eu tanto amava. O anel, que deveria simbolizar amor e compromisso, agora era um lembrete cruel de tudo o que eu não tinha, uma ironia cruel do destino.
- Camila? Está tudo bem? Por que está chorando? - A voz familiar de Laura, uma amiga do trabalho, me trouxe de volta à realidade. Ela havia acabado de entrar na joalheria, e a preocupação estampada em seu rosto me fez sentir um pouco envergonhada.
- Estou com uma tremenda dor de cabeça, é por isso! - Tive que mentir, a verdade se escondendo sob um véu de vergonha, pois não poderia revelar a ela o real motivo da minha angústia.
- Eu estava passando e resolvi dar uma olhada na vitrine. Acabei vendo você! Estou indo pra empresa, você vai demorar? Podemos ir juntas, se quiser! - Ela explicou, sua voz calorosa e amigável contrastando com o peso que eu sentia no peito.
- Claro. Eu já estou indo, me dê só um minuto pra pagar pelas joias do CEO! - Suspirei, tentando esconder a tempestade de emoções que se passava dentro de mim enquanto me dirigia até o caixa.
Entreguei o cartão de crédito de Dante, que sempre ficava comigo por conta das compras que ele frequentemente me pedia para fazer. Quando vi o valor do comprovante: um esplêndido cento e quarenta mil reais, meus olhos quase não conseguiam acreditar no que estavam vendo. Era uma quantia absurda, e o pensamento de que eu estava escolhendo essas joias para outra mulher me deixava ainda mais atordoada, como se o mundo ao meu redor estivesse girando rapidamente.
- Pagar pelas joias do CEO? Nunca vi você o tratando com tanta formalidade! O que ele tá aprontando? É aniversário de alguém? - Laura perguntou, curiosa enquanto caminhávamos até a empresa, que ficava bem próxima do local.
- Aparentemente, ele vai se casar! - Murmurei, minha voz tão baixa que mal conseguia ouvir a mim mesma.
- Nossa, isso foi tão de repente. Estou surpresa! - Ela arregalou os olhos, claramente chocada pela novidade. Sua reação era compreensível; todos na empresa conheciam a nossa amizade e, agora, eu me via no centro de um turbilhão emocional.
- Acredite, você não está tão surpresa quanto eu! - Respirei fundo, deixando escapar o peso que sentia, a verdade um fardo que eu não conseguia mais suportar.
- Você gosta dele, não é? - O olhar de Laura sobre mim era melancólico, como se ela pudesse enxergar além da minha fachada, penetrando as camadas de dor que me envolviam.
- O quê? Claro que não! De onde você tirou essa ideia ridícula? - Sorri, completamente sem graça, mas a minha própria risada soava vazia e nervosa, como um eco que reverberava sem vida.
- Bem, o jeito que você olha para ele me diz o contrário. Mas quem sou eu para insistir nesse assunto! - Ela deu de ombros, mas a expressão dela deixava claro que sabia mais do que estava disposta a admitir. Uma sensação de desconforto começou a me envolver, como se ela tivesse exposto algo que eu tentava esconder até de mim mesma.
- Eu pretendo sair da empresa em breve! Acredito que em um mês, no mais tardar! - Acabei revelando, quase sem pensar, a confissão escapando como um segredo guardado por tempo demais.
- O quê? Por que vai sair tão de repente? - Laura arqueou a sobrancelha, claramente intrigada, seu olhar penetrante parecendo investigar as camadas da minha decisão.
- Por motivos pessoais! - Engoli em seco, tentando manter a voz firme, mas a emoção estava prestes a transbordar.
- Ah, já entendi tudo. Vai sair por causa do noivado! - Laura revirou os olhos, como se a situação fosse óbvia, e eu percebi que a minha máscara estava se desgastando.
- Claro que não. Eu recebi uma oferta melhor de emprego! - Inventei, de forma descarada, a primeira coisa que me veio à mente, as palavras saindo como um reflexo de desespero.
- É mesmo? Em qual empresa? - Ela estreitou os olhos, claramente cética, a desconfiança transparecendo na expressão dela. Eu poderia sentir o peso da mentira pesando sobre meus ombros.
- Na hora certa você vai descobrir. Preciso entregar essa encomenda, a gente se vê depois! - Despedi-me dela, forçando um sorriso que não alcançou meus olhos, e segui até o elevador, com o coração pesado.