Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Sob o domínio do Don
Sob o domínio do Don

Sob o domínio do Don

Autor:: ana.goliveira95
Gênero: Romance
Tomazzio Messina, o implacável Don da máfia siciliana, viaja até Roma para negociar uma trégua com uma família rival. No entanto, a negociação se revela uma emboscada mortal. Ferido e cercado por inimigos, ele é baleado e cai no rio, sendo levado pela correnteza. Elena, uma médica brasileira com um passado marcado por tragédia e fuga, encontra seu corpo à deriva e, contra todos os instintos de autopreservação, decide salvá-lo. Ao descobrir que está abrigando um dos homens mais perigosos da Itália, ela se vê dividida entre o medo e a necessidade de ajudá-lo. Enquanto Tomazzio luta para se recuperar, Elena percebe que escondê-lo pode ser uma sentença de morte. Mas quando seus inimigos começam a caçá-lo, ela não tem escolha a não ser lutar ao seu lado. Juntos, eles enfrentam uma fuga eletrizante pelas ruas de Roma até a segurança da Sicília, onde Tomazzio propõe um acordo: ele a protegerá de qualquer ameaça, desde que ela permaneça ao seu lado. Presos em um mundo onde confiança é um luxo e desejo pode ser uma armadilha, Elena e Tomazzio mergulham em um jogo perigoso de poder, segredos e paixão. Mas até onde Elena está disposta a ir para sobreviver? E Tomazzio... conseguirá protegê-la sem perder o controle sobre si mesmo? Uma história intensa de romance, perigo e redenção no coração do submundo da máfia.

Capítulo 1 Sangue na Ponte - Tomazio

Roma nunca foi minha cidade. Suas ruas, suas sombras, seus becos apertados – nada disso me pertencia. Eu sou siciliano. E um siciliano nunca se sente confortável em território inimigo, mesmo quando há uma trégua.

A noite estava fria e úmida, um prenúncio do que estava por vir. Eu estava no centro de uma ponte esquecida por Deus na periferia de Roma, cercado por homens que deveriam ser aliados. Mas no fundo, eu sabia que confiança era um luxo que um Don não podia se dar ao luxo de ter.

"Vamos direto ao ponto"

disse Carlo Marchesi, o Don local, enquanto acendia um charuto barato.

"Você quer armas. Eu quero dinheiro. Então, por que essa merda está demorando tanto?"

Marchesi era um bastardo arrogante, sempre foi. Nossa rivalidade durava anos, mas a guerra custava caro e, por isso, aceitamos negociar. Um carregamento de armas russas deveria selar nossa aliança frágil. Mas havia algo errado. Meu instinto gritava.

Meus olhos percorreram os rostos dos soldados de Marchesi. Havia tensão demais. Silêncio demais.

"Mostre as armas," exigi, ignorando sua impaciência.

Ele estalou os dedos. Dois homens abriram um dos caixotes. AK-47s reluziam sob a luz amarelada dos postes. Mas algo ainda estava errado. Não era só paranoia.

Foi quando vi.

A sombra de um rifle posicionado no topo de um prédio próximo.

"ARMADILHA!"

Gritei, puxando minha pistola no mesmo instante em que o primeiro tiro ecoou pela noite.

O caos se instaurou.

Marchesi recuou como o rato que era, enquanto seus homens abriam fogo. Os meus tentaram reagir, mas foram pegos desprevenidos. Sangue espirrava no asfalto. Um dos meus capangas caiu ao meu lado, um buraco vermelho na testa.

Eu me movi rápido, descarregando minha arma contra os traidores. Acertei um, dois... mas eles eram muitos.

"Tomazio!"

Alguém gritou atrás de mim, antes de ser silenciado por uma rajada de tiros.

Minha munição acabou. O clique seco da pistola foi como um golpe de sentença. Antes que eu pudesse reagir, um impacto queimou meu lado esquerdo.

Dor. Feroz. Rasgando minha carne.

Meus joelhos cederam. O mundo girou. Outro tiro. Meu ombro explodiu em agonia.

Eu não podia cair ali. Não daquele jeito.

A única saída era o rio.

Com o pouco de força que me restava, cambaleei para a beira da ponte. Outro tiro atingiu minha perna. Mas eu já estava no ar, caindo.

A água gelada me engoliu, arrancando um grito mudo dos meus pulmões.

Eu não podia morrer ali. Não ainda.

A água era um choque brutal contra meu corpo ferido. O impacto arrancou o ar dos meus pulmões, me puxando para as profundezas escuras do rio. O sangue escorria dos meus ferimentos, manchando a correnteza ao meu redor. Cada batida do meu coração era uma martelada de dor.

A superfície estava acima de mim, tão perto e ao mesmo tempo inalcançável. Meus músculos gritavam, mas eu me forcei a nadar, ignorando o peso da roupa ensopada e o sangue que atraía a morte.

Meus pulmões queimavam. O instinto de sobrevivência gritou mais alto. Com um último esforço, rompi a superfície, arfando por ar. A ponte já estava distante, mas as balas ainda cortavam a água ao meu redor.

Filhos da puta. Eles não estavam satisfeitos em me emboscar. Queriam me ver morto, afundado naquele rio sujo como um qualquer.

Minha visão ficou turva por um instante. A dor era insuportável. Eu sabia que, se não encontrasse terra firme logo, minha vida terminaria ali, não pelas balas, mas pela correnteza.

Lutei contra a escuridão que ameaçava tomar minha mente. Deixei a água me levar, controlando a respiração, tentando manter a consciência. A cidade se dissolvia em sombras distantes. O frio cravava suas garras em mim.

Então, eu vi.

Luzes fracas, pequenas casas amontoadas às margens do rio. Não era um lugar bom. Um bairro perigoso, onde a polícia só entrava quando queria que alguém desaparecesse. Mas para mim, era a única chance.

A correnteza me empurrou em direção a um pequeno barranco. Meu corpo bateu contra algo sólido, e eu agarrei a borda lamacenta com todas as forças que me restavam.

Me arrastei para fora da água, cada movimento uma tortura. Meu sangue pingava na terra escura.

Mantenha-se acordado.

Minhas pálpebras pesavam. A dor pulsava, cravando-se fundo.

Foi quando ouvi passos.

Alguém estava ali.

E então, uma voz feminina. Baixa, cautelosa.

- Meu Deus...

Pisquei, tentando focar a visão. A silhueta de uma mulher se destacou contra as luzes fracas de um casebre próximo.

Ela hesitou. Eu tentei falar, mas minha garganta estava seca.

E então, tudo escureceu.

---

Algum tempo depois...

A consciência voltou aos poucos, como um raio de luz filtrado por cortinas pesadas. Meu corpo parecia feito de chumbo. O cheiro de álcool e algo metálico – sangue – pairava no ar.

Eu estava deitado. Um colchão duro sob mim.

A voz feminina soou novamente, mais próxima desta vez.

- Se acordar de repente, não tente me atacar. Sua sorte é que sou médica, ou estaria morto.

Minha mente processou as palavras lentamente. Abri os olhos. O teto era baixo, de madeira envelhecida. A iluminação fraca vinha de uma lâmpada solitária pendurada por um fio.

A dor me atingiu como um golpe. Meu ombro, minha perna, minhas costelas – tudo queimava.

Lutei para sentar, mas mãos firmes me seguraram.

- Fique parado. Você perdeu muito sangue.

Minha visão clareou o suficiente para finalmente vê-la.

A mulher ajoelhada ao meu lado era jovem, mas havia algo em seus olhos castanhos que parecia velho, cansado. Ela segurava uma bandagem, e suas mãos estavam manchadas de sangue – meu sangue.

- Quem... é você? – minha voz saiu rouca, arranhada.

Ela hesitou, como se considerasse se deveria responder.

- Elena.

O nome girou em minha mente nebulosa. Eu não a conhecia. Isso significava que ela não era uma ameaça. Pelo menos, não ainda.

- Você... me salvou.

- Não tive muita escolha. – Seus olhos correram para minha perna enfaixada. – Achei que ia morrer na minha porta. Isso teria dado um trabalho do caralho.

Uma mulher com língua afiada. Interessante.

- Onde estou?

- Nos arredores de Roma. Um lugar onde ninguém faz perguntas e ninguém quer saber de respostas. O que significa que você pode se esconder por enquanto. Mas quando amanhecer, você vai embora.

Aquilo me fez rir – ou tentei. Uma pontada de dor me cortou o peito.

- Não sou exatamente um homem que pode simplesmente sair andando.

Ela suspirou, passando uma mão pelos cabelos castanhos. Eu percebi, então, que havia algo diferente nela. Algo que não combinava com esse lugar. Seu olhar era afiado, calculista, como se estivesse sempre esperando uma ameaça.

- Quem atirou em você? – perguntou.

Eu a estudei.

- Você faz perguntas demais.

- E você sangrou no meu chão. Acho que estamos quites.

Havia um brilho nos olhos dela – uma força que eu não esperava.

Elena não era uma mulher comum.

E eu sabia, naquele instante, que essa mulher mudaria meu destino.

Capítulo 2 O Homem do Rio- Elena

A água escura do rio se movia lentamente, carregando restos de lixo e sombras do que quer que tivesse caído ali. O vento gelado cortava minha pele, mas o que realmente fez meu corpo se arrepiar foi a visão de um homem sendo arrastado pela correnteza.

Meu primeiro instinto foi ignorar.

Aqui, nesse lugar esquecido por Deus, corpos aparecem no rio de vez em quando. E as pessoas não fazem perguntas. Quem faz, acaba sendo o próximo.

Mas algo dentro de mim se recusou a olhar para o outro lado.

Ele ainda estava vivo.

Eu vi o peito dele subir e descer, ofegante, lutando contra a morte. Um gemido fraco se misturou ao som da água, e minhas mãos se fecharam em punhos.

Isso não é problema seu, Elena. Você não é mais médica.

Mas tentei repetir isso para o coração acelerado no meu peito, para a maldita consciência que ainda gritava. Eu podia virar as costas e entrar na minha casa, ou podia salvar um estranho que provavelmente não merecia ser salvo.

A decisão veio em um suspiro frustrado.

- Merda.

Corri pela margem escorregadia, meus pés afundando na lama, e me joguei para alcançar o corpo antes que a corrente o levasse para longe. Meus dedos se agarraram a um braço molhado e pesado, e precisei de toda a força que tinha para puxá-lo para a margem.

Meu coração batia descontrolado. O que diabos estou fazendo?

Com esforço, virei o homem de costas e vi seu rosto pela primeira vez. Ele estava desacordado, os traços endurecidos mesmo na inconsciência. Tinha a pele quente sob o toque dos meus dedos trêmulos – febre? Perda de sangue?

Então, meus olhos desceram para suas roupas. Isso não é coisa de um qualquer.

O terno negro estava encharcado e sujo, mas era de corte caro. E no pulso, um relógio reluzia debaixo da luz fraca dos postes. Aquilo valia mais do que tudo que eu tinha naquela casa miserável.

Meu estômago se revirou.

Quem diabos é você?

O medo rastejou sob minha pele. Eu o ajudei sem pensar, sem avaliar o risco. Agora, tinha um homem ferido e perigoso na minha porta.

Mas não podia recuar agora.

Apoiei suas costas contra o meu peito e, com esforço, me levantei. Ele era alto, musculoso – um peso morto impossível de carregar sozinha. Com muito custo, consegui arrastá-lo até minha casa, quase tropeçando a cada passo.

Quando finalmente o soltei no chão da sala, minhas pernas tremiam de exaustão. Me inclinei sobre os joelhos, recuperando o fôlego.

- Espero que você valha a pena, desgraçado.

Mas ele não respondeu. Não podia. E talvez nunca pudesse, se eu não fizesse alguma coisa.

Me levantei e me ajoelhei ao lado dele. O cheiro de sangue impregnava o ar. Meus dedos foram até sua camisa molhada e rasgada. Precisava ver os ferimentos.

Respirei fundo e rasguei o tecido com um puxão firme.

O que vi debaixo da camisa me fez prender o ar.

Seu corpo era forte, tatuado – símbolos, frases, uma história escrita na pele. Mas era o sangue escorrendo por sua lateral que chamou minha atenção. Um buraco de bala perto das costelas. Outro no ombro. Sangramentos feios, mas não fatais, pelo menos não ainda.

Toquei sua pele quente, sentindo o pulso fraco, a respiração irregular.

Ele precisava de mim.

Mesmo que eu não soubesse quem ele era.

Corri até meu pequeno banheiro e peguei o kit de sutura que sempre mantive comigo. Um hábito dos tempos em que minha vida ainda fazia sentido.

Voltei para o lado dele e limpei a área ao redor do ferimento. O sangue continuava escorrendo, quente, vermelho, me lembrando de todas as coisas que tentei deixar para trás.

A agulha tremia entre meus dedos.

- Foco, Elena.

Eu sabia que ele precisava de anestesia, mas não tinha nada disso. Isso vai doer como o inferno.

Me preparei para o primeiro ponto, quando um gemido rouco me fez parar.

Seus olhos se abriram.

E então, a dor o puxou de volta para a inconsciência.

Bom. Pelo menos, não vai gritar.

Continuei, costurando a pele rasgada. Cada ponto me fazia lembrar que eu ainda sabia fazer isso. Que eu ainda era médica, mesmo que ninguém mais reconhecesse isso.

Quando terminei, limpei o suor da testa e joguei o sangue da minha mão na toalha ao lado.

O homem respirava fundo agora. Mais estável. Mas ainda um mistério.

E foi só então que realmente olhei para ele.

Alto. Moreno. A mandíbula marcada por uma barba rala, os lábios firmes, os cílios longos demais para alguém com um rosto tão endurecido. As tatuagens cobriam os braços e parte do peito. Um símbolo na clavícula me chamou atenção. Parecia familiar.

Meu coração apertou.

O que eu fiz?

Antes que pudesse continuar analisando, ouvi um som baixo.

Ele estava acordando.

Os cílios se mexeram, os olhos se abriram devagar, focando em mim. Castanhos. Intensos.

A tensão tomou conta do ar.

- Onde estou? – a voz dele era áspera, como se rasgasse a garganta ao sair.

Minha respiração travou por um instante.

Ele piscou algumas vezes, tentando focar. Então, ergueu os olhos para mim de novo.

- Quem é você?

Engoli em seco.

- Elena.

Ele respirou fundo. Tomando consciência. Avaliando a situação.

- Você me salvou.

- Eu te impedi de morrer. Ainda não decidi se foi um erro.

Um canto de sua boca quase se ergueu. Um sorriso?

- Sempre tão gentil com seus pacientes, doutora?

Minha coluna ficou rígida.

Ele percebeu.

- Não se preocupe. Eu não sou seu inimigo.

- Então quem é você? – perguntei, cruzando os braços.

Silêncio. Ele ponderou por um momento antes de falar.

- Tomazio.

O nome pairou entre nós. Meu coração acelerou. Eu já tinha ouvido antes. Não sabia onde, mas sabia.

Ele percebeu minha reação.

- Você já ouviu falar de mim.

Engoli em seco.

- Isso deveria me assustar?

Ele sorriu, mas seus olhos diziam algo diferente.

- Provavelmente.

E foi naquele momento que percebi: eu tinha acabado de salvar um homem muito perigoso.

Capítulo 3 O Nome Que Eu Conheço

O calor era insuportável.

Eu sentia minha pele queimar, mesmo sabendo que o quarto estava frio. A febre corroía meu corpo, me puxando para um limbo onde realidade e delírio se misturavam.

Eu via sombras, vultos se movendo ao meu redor. Sons distantes, a voz de uma mulher-às vezes calma, às vezes apressada.

Minha mente tentava lutar contra a escuridão, mas a dor me puxava para baixo.

Não sei quanto tempo fiquei assim, preso entre a inconsciência e a febre, mas em um raro momento de lucidez, senti algo fresco tocando minha testa.

Uma mão.

Minha respiração falhou por um instante. O toque era cuidadoso, mas firme. Eu quis abrir os olhos, mas meu corpo não respondia.

- Você precisa melhorar logo, Tomazio.

A voz era suave, mas carregava uma tensão contida.

Elena

Eu estava nas mãos dela agora. Exposto. Vulnerável.

E essa era uma posição que eu nunca aceitava estar.

###

Elena

Ele se mexeu na cama, os lábios se movendo como se tentasse dizer algo, mas nenhum som saiu.

A febre estava alta. O suor escorria por sua pele bronzeada, destacando ainda mais as tatuagens que cobriam seus braços e peito. O homem parecia um maldito deus grego, mesmo à beira da morte.

Eu não deveria estar aqui, observando-o desse jeito. Mas havia algo nele que me fazia querer entender mais.

E o nome dele...

Tomazio.

Já ouvi esse nome antes.

Enquanto trocava o pano úmido da sua testa, minha mente tentava puxar de onde eu conhecia isso. Então, como um estalo, lembrei.

Corri até meu telefone e digitei o nome no Google.

A resposta veio em segundos.

Tomazio Messina Empresário. Importante nome do ramo de exportação na Sicília.

Mas não era só isso.

A manchete mais recente fez meu coração acelerar:

"Empresário Tomazio Messina desaparecido após atentado em Roma."

Meus olhos percorreram o texto com pressa. O artigo dizia que um ataque havia acontecido numa ponte na periferia da cidade. Vários mortos. Tomazio Messina estava entre os desaparecidos.

Meu estômago revirou.

Me virei lentamente para olhar para ele, ainda desacordado na cama improvisada. O homem que eu salvei do rio não era apenas um empresário.

Ele era um alvo.

E eu o trouxe para dentro da minha casa.

Minha respiração ficou pesada. Apertei o telefone nas mãos e voltei a pesquisar, lendo mais sobre ele. Os artigos falavam de negócios bem-sucedidos, uma ascensão meteórica no mercado internacional. Mas entre as reportagens oficiais, havia rumores.

Conexões com a máfia siciliana.

Minha garganta secou.

Eu trouxe um mafioso para dentro da minha casa.

Me afastei, tentando pensar racionalmente. Mas como fazer isso quando eu estava sozinha, com um homem perigoso, que provavelmente tinha inimigos em todos os cantos da cidade?

Olhei para ele de novo. Ele ainda lutava contra a febre, a respiração irregular.

Se ele fosse mesmo parte da máfia, deveria ser um homem cruel. Um assassino. Mas ali, na minha frente, ele não parecia nada disso. Parecia... humano.

Você pode estar cometendo um grande erro, Elena.

Suspirei e passei as mãos pelo rosto. Mas não podia voltar atrás agora. Ele precisava de mim.

E eu precisava entender quem ele realmente era.

O calor da febre parecia piorar a cada hora. Tomazio se remexia inquieto na cama, a testa franzida em desconforto. Eu me aproximei para trocar o pano úmido, tentando ignorar o turbilhão de pensamentos que me atormentava.

Mafioso.

A palavra ecoava na minha mente como um alerta vermelho.

Desviei o olhar para o celular na mesa, a tela ainda aberta no artigo sobre ele. Desaparecido após um atentado.

Eu sabia que tinha algo errado.

Os olhos dele, a forma como me analisou quando acordou pela primeira vez. Aquele tipo de olhar não pertencia a um homem comum.

Apoiei as mãos na mesa, respirando fundo. Meu instinto gritava para correr, me afastar desse problema antes que se tornasse maior do que eu podia lidar.

Mas não consegui.

Porque ele já está aqui. Porque ele precisa de mim.

Pisquei algumas vezes, tentando me concentrar. Pensar como médica.

Ele ainda estava muito fraco. A perda de sangue o deixava vulnerável, e sem antibióticos, a infecção era uma ameaça real. Se eu o deixasse assim, ele não sobreviveria.

Virei-me para a prateleira, pegando o pouco de suprimentos que tinha.

Quando voltei para o lado dele, ele gemeu baixo, os olhos se movendo sob as pálpebras cerradas.

- Tomazio. - Chamei seu nome com cautela.

Nenhuma resposta.

Me aproximei, sentando ao lado dele. Minha mão tocou a lateral do seu rosto quente. Febre ainda alta.

Suspirei e troquei o pano na sua testa. Se ele não melhorasse até o amanhecer, eu teria que arriscar procurar um antibiótico de alguma forma.

Então, algo inesperado aconteceu.

A mão dele se moveu de repente e segurou meu pulso com força.

Minha respiração parou.

Os olhos dele se abriram lentamente, desfocados, mas intensos. Sua expressão era dura, como se estivesse em alerta mesmo naquele estado.

- Onde estou? - A voz saiu rouca, cheia de dor.

Eu poderia ter puxado meu braço. Poderia ter me afastado. Mas não fiz.

- Em um lugar seguro.

Os dedos dele relaxaram ao redor do meu pulso.

Ele piscou algumas vezes, tentando focar em mim.

- Você me trouxe para cá?

Assenti.

- Por quê?

Ótima pergunta.

Pensei em responder que era médica, que meu instinto falou mais alto. Mas a verdade era mais complicada do que isso.

Ele me observou em silêncio, os olhos escuros estudando cada detalhe do meu rosto.

- Você sabe quem eu sou.

Meu coração acelerou.

Ele percebeu.

Engoli em seco. Ele estava fraco, mas ainda assim, conseguia me intimidar.

- Sim. - respondi, sem rodeios.

A sombra de um sorriso puxou o canto da boca dele.

- E mesmo assim não me jogou de volta no rio?

Cruzei os braços.

- Ainda estou decidindo se deveria.

Dessa vez, ele riu - um som rouco, mas carregado de algo... perigoso.

- Você tem coragem, Elena.

- E você tem sorte.

O silêncio entre nós se prolongou.

Ele fechou os olhos por um instante, respirando com dificuldade.

- Quanto tempo estou aqui?

- Algumas horas. Sua febre piorou à noite.

Ele assentiu levemente, como se estivesse processando as informações.

- Você não chamou ninguém?

Soltei uma risada irônica.

- E dizer o quê? 'Oi, tem um mafioso ferido na minha casa, podem vir buscá-lo?'

Ele abriu os olhos outra vez. Dessa vez, mais alerta.

- Mafioso? É isso que pensa que sou?

Me inclinei ligeiramente para frente.

- Não sou ingênua, Tomazio. Sei o que li sobre você.

Ele manteve o olhar fixo em mim.

- E mesmo assim me ajudou.

Meu estômago se revirou.

Sim. E era isso que mais me incomodava.

Eu deveria ter fugido disso desde o começo. Mas não consegui.

Porque havia algo nele... algo que me fazia hesitar.

Desviei o olhar, pegando os curativos para trocar as bandagens do ferimento. Ele ficou em silêncio, me observando.

Quando me abaixei para tocar sua pele novamente, senti o calor de seu olhar em mim.

- Por que fugiu para a Itália? - A pergunta veio do nada, pegando-me de surpresa.

Meus dedos pararam no curativo.

- Isso não é da sua conta.

- Você sabe quem eu sou. Quero saber quem você é.

Respirei fundo, sentindo o peso daquela pergunta. Mas não respondi.

Eu não devia nada a ele. Assim como ele não devia nada a mim.

Mas uma coisa era certa: estávamos presos nessa situação juntos.

E algo me dizia que, depois dessa noite, minha vida nunca mais seria a mesma.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022