Peixinhos podem sentir frio?
- Será que a água está gelada? Mirou a linha do horizonte, o olhar perdido, sem realmente esperar uma resposta.
- Hum? o outro perguntou confuso, afinal, o que significava?
As ondas do mar iam e vinham de encontro com as pedras. O sol coberto pelas nuvens brilhava cada vez menos anunciando o anoitecer.
O vento forte fazia seus cabelos se movimentarem em um ritmo hipnotizante. Este mesmo se encontrava com o rosto vermelho devido ao frio, se assemelhava facilmente a um belo quadro, se a pintura retratada não fosse terrivelmente trágica.
- Deve estar, certo? - Continuou encarando o mar.
Lian olhou para as costas do garoto a sua frente, ele não sabia a quanto tempo ele estava ali ou que estava planejando.
Mas algo o chamou atenção enquanto voltava para casa.
Ele estava perto. Perto demais da margem.
Mais um pouco e ele facilmente poderia fundir-se com a água.
- Bom, você não gostaria de experimentar - Disse Lian sem entender muito bem o que o garoto queria dizer com aquilo ou apenas escolheu ignorar.
- Você não acha que os peixes podem sentir frio? - Sua voz era trêmula, os olhos ainda fixos nas ondas.
Lian não sabia o que responder, ninguém nunca o fizera perguntas tão sem sentido em toda a sua vida.
Logo, não demorou muito para que o silêncio tomasse conta.
Quando estava cogitando responder, ele ouviu uma risada seca cortar o ar.
A risada dele.
- O que eu estou falando? Não importa, nada mais faz sentido. - As palavras saíam de forma seca, sem vida. Pensava no quão idiota parecia agora, mas isso já não importava tanto, tudo estava prestes a acabar.
- O que você está fazendo aqui? - Lian não pode deixar de perguntar.
Pela primeira desde que estivera ali o garoto se virou e olhou para para Lian.
Ele tinha uma aparência simples, um olhar doce. cabelos negros um pouco grandes demais cobriam uma boa parte de seus olhos, estes eram de um tom de azul escuro, quase preto.
- Eu não consigo mais - Disse com lágrimas nos olhos.
Quebrado. foi o que viu em seus olhos, o vazio, a dor que o pequeno estava sentindo, isso transparecia ainda mais a cada lágrima que escapava.
Seu olhar era carregado de angústia e dor. Qualquer um poderia ver o quanto ele estava sofrendo...
Estava perdido, sem forças.
Lian não pode deixar de se aproximar e hesitante pousou Sua palma no ombro do garoto.
- Você pode me contar o que aconteceu?
Lian também estava perdido, não sabia o que falar que pudesse o ajudar, não era todo de dia que você se deparava com um garoto querendo fazer companhia para os peixes, se é que você me entende.
completou, depois de um tempo - Eu vou te ouvir.
O garoto o olhava com intensidade, cogitando se deveria dizer ou não. seu coração dizia que sim, dizia que precisava de alguém que o escutasse e lhe desse atenção, ele estava tão sozinho que se agarraria a qualquer um.
Por fim ele acabou desabando em lágrimas chutando as palavras para fora da boca, foda-se também.
- Eu não tenho mais ninguém, a única que sempre esteve comigo me deixou. Eu a amava tanto... Por quê ela fez isso?! Eu não sei se posso suportar.
Lian se surpreendeu, o garoto se quer respirou entre as frases, cuspindo toda a sua dor, como se dependesse disso
- Eu tentei seguir em frente, eu fiz tudo que estava ao meu alcance, mas no fim não serviu de nada...
O choro que antes era apenas gotas d'agua frias e vazias, se tornou incessante e cada vez mais forte, enchendo o peito do maior de desespero.
- O que eu faço agora?! Hein?
Qual a razão pra continuar assim?!
Ela era o único motivo pra eu ainda estar aqui me mantendo de pé, agora que ela se foi nada mais justo que eu me junte a ela.
Seu corpo inteiro tremia enquanto pronunciava cada palavra.
A esse ponto ele já tinha se virado de volta e dava seus últimos passos em direção a água.
- Agora eu posso aquecer os peixinhos.
Disse ele sorrindo em meio a torrente de lágrimas. - eles podem pegar meu calor.
Antes que ele pudesse ser engolido pelas ondas que desesperadamente tentavam o alcançar algo o segurou pela cintura e o puxou para traz.
Com um baque, os dois caíram no chão de uma forma desajeitada.
Ao perceber que tinha sido impedido, seu coração se aqueceu por um milésimo de segundo. Mas logo a dor voltou e o menor começou a se debater nos braços de Lian.
- Me deixe ir! - rugia.
Me solte!
Quanto mais se debatia mais forte ele era segurado por aqueles braços. Lian não tinha a mínima intenção de solta-lo.
- Não.
- Me solte agora! Por favor...
Cansado e sem forças ele desistiu de se debater e se permitiu ser abraçado.
- Porquê? Por que você não me deixa ir?
Por que eu te deixaria ir?
- Não posso - foi tudo o que Lian conseguiu dizer. - Venha comigo, me deixe cuidar de você.
Oliver não sabia o porque, mas se sentiu seguro. Ele tinha a noção de que estava preso nos braços de um completo desconhecido, mas a essa altura do campeonato nada mais importava. há muito tempo ele não se sentia assim.
Pra vcs não esquecerem
Enquanto caminhavam, Oliver tentou organizar seus pensamentos, sua cabeça estava uma bagunça. Lembranças de sua mãe insistiam em vir a tona fazendo aquilo que se encontrava em seu peito se apertar. Ele se lembrava exatamente de como ela era. Os cabelos negros, o sorriso doce, e principalmente como seus olhos se transformavam em uma linha fina quando ela sorria.
Ele se lembrava de tudo.
Lembrava do seu típico cheiro de terra, resultado de passar o dia inteiro no jardim. Lembrava até de reclamar disso.
Ela não era uma pessoa de muitas ambições na vida.
só queria poder chegar em casa no fim do dia e se sentir satisfeita consigo mesma. Sentir que estava fazendo a coisa certa.
Oliver, seu único filho, era o seu maior orgulho. Ela não cansava de se gabar que o garoto era inteligente, bonito, de que iria pra uma boa faculdade e se casaria com uma boa pessoa. Seu maior sonho era vê-lo feliz.
Mas infelizmente ela não pode presenciar isso.
Sobre tal pensamento o coração de Oliver se apertou.
Desde a sua trágica ida ele vinha tentando seguir frente, um passo de cada vez.
Ele prometeu pra si mesmo que iria continuar, ele iria ser forte.
Tudo isso para no fim ele acabar se encontrando no fundo de um abismo. Quanto mais ele se esforçava pra subir, mais era empurrado para baixo. Tudo em vão.
Depois de tantas tentativas fracassadas ele já estava decidido de que acabaria com todo esse sofrimento de uma vez por todas. Só não contava com a súbita aparição de Lian.
Oliver olhou para o garoto ao seu lado que firmemente segurava sua mão. Ele a segurava com tanta força como se estivesse com medo de que se a soltasse o menor iria dar meia volta e correr em direção ao mar.
O que talvez era era meio verdade.
Ele não sabia o real motivo para o outro o estar ajudando, era a primeira vez que alguém o estendia a mão depois de muito tempo sem ter outras intenções. Ele podia confiar nele? Ele não iria o machucar como muitos outros fizeram?
Logo após a morte de sua mãe, Oliver não lidou muito bem com os sentimentos e tentou se aproximar de outros garotos na tentativa de afastar a dor, no final acabava sempre acordando com um espaço vazio ao lado de sua cama. Ele se sentia sujo e indigno de ser amado, dormindo com tantas pessoas que nem conhecia.
Logo, Não demorou muito para que conhecesse os anti depressivos.
quando achava que não podia piorar, a vida vinha e lhe fazia uma linda surpresa.
Que ótimo.
Eles andaram lado a lado durante um bom tempo até que parassem em frente a uma pequena cafeteria.
Puxando Oliver pela mão, eles adentraram o local.
Assim que seus pés ultrapassaram o batente da porta ele foi atingido por um forte cheiro de café e chá verde. Olhando ao redor, ele pode notar algumas pessoas que estudavam ali, alguns gringos conversando animadamente E uma garota que parecia imersa em um livro. ele sempre admirou pessoas que liam, achava incrível o fato de que alguém pudesse se perder e passar horas e horas construindo um mundo só seu em sua cabeça...
Ele queria poder imaginar um mundo também, um mundo onde sua mãe ainda estava viva e o aplaudia orgulhosamente enquanto ele pousava para uma foto segurando em mãos, um diploma.
Seus olhos marejaram subitamente com o pensamento.
- Você está bem?
Oliver, "..."
Essa era a primeira frase que saia de sua boca desde o episódio anterior, sua voz era carregada de um tom de preocupação.
- Sente-se aqui - Indicou um lugar a sua frente, assim ele poderia ficar de olho em cada movimento.
- Certo.
Ele apenas concordou, sentia que mesmo negando o outro não iria deixá-lo ir tão facilmente.
Afinal, No momento ele não era um dos melhores exemplos de estabilidade emocional.
- O que você vai querer?
- Qualquer coisa.
Ele só queria poder sair correndo dali e se enfiar em um buraco, tem essa opção?
- Qualquer coisa não tem.
Oliver, - "..."
Lian o fitava com um sorriso desafiador no rosto.
Sem saber pra onde ir, Ele rapidamente correu os olhos pelo cardápio e escolheu o que mais lhe agradava.
- chocolate quente.
- Um chocolate quente e um café, por favor. - Disse se virando para a atendente que o retribuiu com um sorriso doce.
Oliver o observou por um momento, ele era de fato muito bonito. Seus cabelos caiam em ondas ao longo de sua nuca, seus olhos eram de um tom de castanho claro que exalavam uma sensação de conforto e tranquilidade. Tudo era perfeitamente alinhado em seu corpo.
- Foi difícil escolher? Digo, o pedido.
Oliver ainda o estava encarando como um bobo.
Rapidamente mudou sua postura e desviou o olhar.
- Na verdade não.
Onde ele queria chegar com isso?
Lian segurou suas mãos e o olhou no fundo de seus olhos
- Para tudo na vida se tem escolhas, você só tem que escolher aquilo que te faz mais feliz. Hoje foi apenas um chocolate quente. Nem sempre vai ser assim tão fácil, mas o que você precisa saber é que não existe um só caminho.
Puta merda.
Ele já tinha pensado nisso tudo antes mesmo de me arrastar pra cá?
- Você entende? - disse em um tom sério, suas mãos ainda firmes.
Oliver, - Entendo.
Ele queria realmente o entender. Aprender com ele, se o que ele dizia era verdade, então ele deveria ter tido outras escolhas.
Não demorou muito para que os pedidos chegassem.
- Você mora com alguém?
- Não.
- Você tem algum parente pra quem possa pedir ajuda?
- Não.
- Você não quer me contar como foi parar lá?
- Não.
- Você só vai responder "não"?
Ele não queria parecer grosso, só não adiantaria nada encher a cabeça dele com seus problemas. ele parecia ser uma pessoa tão boa que Oliver não se perdoaria se o enchesse de histórias sombrias a respeito de seu passado.
Por que era a isso que sua vida se resumia.
Eles "conversaram" durante um tempo, mesmo que Oliver não fosse a melhor pessoa nesse quesito. Lian por outro lado sempre se mantinha calmo e ouvia com atenção cada palavra que saia de sua boca.
Quando finalmente saíram da cafeteira, o céu já se encontrava estrelado.
Quando foi a última vez que ele parou pra observar as estrelas? Ele fazia isso frequentemente com sua mãe. Era divertido porque ela sempre errava os nomes e esse era o seu maior momento de se gabar e dizer com precisão o nome de cada uma.
Eles eram tão felizes...
Sem perceber ele já estava sorrindo, Lian notou mas preferiu não dizer nada.
Essa era a primeira vez que ele via uma expressão feliz em seu rosto. Uma expressão que não fosse de dor desespero ou angústia.
Sobre aquele céu se encontravam apenas duas almas já cansadas.
Eles não tinham a mínima pressa de ir embora.
Oliver não sabe dizer exatamente por quanto tempo eles permaneceram alí sentados na porta da cafeteira. ele só gostava de ter Lian ao seu lado, seu silêncio era reconfortante.
Ele queria poder fazer esse momento durar para sempre. pela primeira vez ele não se sentia triste em relação a sua mãe, mas sim orgulhoso pela pessoa incrível que ela foi, de agora em diante ele seria melhor.
Por ela.
Oliver observou enquanto Lian tentava chamar um táxi.
Já estava muito tarde e lian parecia estar tendo dificuldade em achar algum disponível.
Oliver tentou negar de início, mas Lian insistiu para deixá-lo em casa.
Não queria dar mais trabalho para ele, sentia que já tinha roubado muito de seu tempo.
Ele parecia muito centrado no seu celular, vez ou outra ele dava um olhar na direção de Oliver para confirmar se o menor estava bem, e sorria. Mas logo voltava a mexer no celular. Oliver também tentava dar o seu melhor sorriso, ainda era muito difícil.
Suas sobrancelhas se encontravam franzidas e os lábios formando um leve bico.
Oliver não pode deixar de achar fofo, então assim era ele irritado?
Seu coração se aqueceu um pouquinho.
- Consegui! - Lian cortou o silêncio dando mini pulinhos.
Ele já estava tentando há um bom tempo, foi bom ver ele todo feliz e animado como uma criancinha.
- Vamos?
- Vamos.
Durante todo o trajeto, Lian segurou firmemente a mão de Oliver, que retribuiu com a mesma intensidade. eles não trocaram muitas palavras. As vezes seus joelhos se esbarrava um no outro, ou o ombro a coxa...
Resumindo, foi um desafio e tanto para Oliver não se grudar em Lian ali mesmo.
Quando o carro parou em frente a sua casa, Lian ainda segurava a sua mão. Ele parecia receoso de que se a soltasse ele não poderia encontrá-la novamente. Imagens de Oliver indo em direção a água ainda insistiam em vir a tona em sua cabeça.
O que teria acontecido se ele não estivesse ali naquele exato momento? Algum outro alguém teria aparecido para o ajudar?
Ele não gostava de pensar sobre isso, o que o confortava era saber que agora ele estava ali ao seu lado, a mão que ele segurava era a sua, Ele estava sendo aquecido por Lian, não congelado pelas águas.
Após um período de tempo Lian finalmente decidiu soltar a sua mão, seu estado agora com certeza não era de felicidade.
- Hum, então eu vou entrar.
Obrigado.
- Não durma tarde - disse.
- Certo.
- Se alimente bem, não fique comendo só besteiras.
- Tabom.
- Saia pra passear pela manhã, não fique só dentro de casa.
- Hum.
- Boa noite, Oliver.
- Boa noite, Lian.
Após o interrogatório, ele desceu do carro e foi em direção a sua casa.
No caminho ele ouviu Lian gritando com ele, se virou assustado.
- Me ligue se precisar de algo!
Oliver assentiu.
Quando o carro já estava dando a volta para a pista, Lian se lembrou de um pequeno detalhe.
Ele não tinha dado o seu número para Oliver.
Como ele poderia ligar?
DROGA!
Sem pensar muito gritou para fora da janela.
- OLIVER!
Esse já se encontrava abrindo sua porta, ao ouvir o outro o chamando se virou e olhou pra Lian que parecia quase saltar para fora da janela.
Ele não queria imaginar a expressão do motorista agora.
Só pode gritar de volta.
- O QUE ACONTECEU?
- SEU NÚMERO!
Oliver não entendia o que estava saindo de sua boca.
- O QUE?!
- VOCÊ NÃO ME PASSOU O SEU NÚMERO!! - Lian disse palavra por palavra.
- MEU O QUE??!
Lian não era do tipo que desistia tão fácil.
- NÚMERO! - Essa saiu do fundo da garganta de Lian, coitado de quem estivesse por perto.
Eles estavam um gritando com o outro sem entender nada.
Algumas pessoas que voltavam de alguma festa ou algo do tipo não puderam deixar de assistir o espetáculo, e algumas até se atrevem a rir.
Era realmente uma cena interessante.
Percebendo que sua tática de gritar com todas as suas forças não estava dando certo, ele começou a gesticular com as mãos.
Oliver olhava de longe sua tentativa falha de se comunicar com as mãos.
Lian era desajeitado, tudo que ele tentava fazer era confuso.
Oliver soltou uma risada.
O que ele estava tentando fazer?
No final, só pode acenar de volta um tchau.
Emburrado, Lian voltou a se sentar no banco como uma pessoa normal.
Como eu pude ser tão idiota? Eu só tinha que ter pego seu número, nem isso eu fui capaz de fazer.
Esse cara também não podia esperar? Saiu que nem um louco.
Pensou olhando feio para o motorista.
O motorista, coitado. Não tinha nada a haver com a suas loucuras.
Se sentido incomodado com o olhar mortal que era direcionado a ele por aquele pequeno ser, disse.
- Você já sabe onde ele mora, garoto. Pode vir aqui depois.
Uma luz se acendeu na cabeça de Lian, claro! Ele poderia vir aqui depois. Como eu não pensei nisso antes? Eu estou ficando mais burro?
Não era difícil imaginar como Lian se sentia mal agora pelo motorista.
Abaixando a cabeça, se desculpou do fundo de seu coração. Seu rosto se encontrava vermelho de vergonha.
- Err... Me desculpa.
O taxista só o lançou um olhar de reprovação.
- E... Obrigado.
(...)
Oliver acordou cedo pela manhã, essa tinha sido uma das melhores noites de sono que tivera desde o ocorrido com sua mãe.
Foi um sono tranquilo, sem pesadelos e preocupações.
Quando acontecia de ter pesadelos ele sempre tinha sua mãe ao seu lado, ela o acariciava e dizia que estava tudo bem, que não era real. Depois que ela se foi suas noites de sono passaram a ser conturbadas, imagens dela morta imersa em uma poça de sangue se repetiam noite após noite.
Ele não teve mais um único momento de paz desde a sua ida.
Ele se lembra exatamente do dia em que voltava de férias com seus antigos amigos, tinha em mãos um pequeno pote de vidro com uma planta dentro. Quando a viu sabia que sua mãe iria amar.
Sua mente cheia de boas lembranças, não via a hora para chegar em casa e contar tudo para ela enquanto era mimado por aquelas doces mãos.
Sua mãe havia ficado sozinha em casa durante um mês, Ela havia insistido que seria bom para Oliver ir viajar, esfriar a cabeça.
Então ele apenas concordou.
Chegando na porta de casa, chamou animado por ela.
- Mãe! Cheguei.
Foi ótimo mãe, o lugar era lindo.
Assim que tivermos tempo eu irei levar a senhora lá.
Sua mãe não respondia.
Estranho, conhecendo ela, na primeira palavra de Oliver ela já teria corrido para o abraçar.
Ela deve estar dormindo, pensou Oliver adentrando a sala.
Assim que ergueu os olhos seu coração parou, o pote de de vidro que se encontrava em suas mãos caiu fazendo um barulho alarmante.
Logo não demorou muito para que seus joelhos encontrassem os cacos de vidro.
Sua mãe, Aquela que sempre cuidou dele, que o amava com todas as suas forças se encontrava morta no chão da sala envolta em uma nuvem vermelha de sangue.
Oliver gritou.
Gritou até ficar sem voz.
Era sua culpa, você causou isso. Você a matou, Oliver.
Sua mente repetia as mesmas palavras sem descanso, se ele não tivesse ido viajar e deixado ela sozinha isso não teria acontecido.
NÃO TERIA.
Oliver a abraçou com tudo o que lhe restava de força, suas roupas ficando vermelhas do sangue daquela única pessoa que ele amava.
- MÃE! ME DESCULPA! MÃE!
Volta... - Dizia entre soluços.
- POR FAVOR...
- NÃO ME DEIXE.
- MÃE!
Já era tarde demais.
Logo, não demorou para que os vizinhos o escutassem gritando loucamente por sua mãe.
Carros de polícia preenchiam a frente de sua casa.
Oliver ainda lá dentro se recusava a soltar o corpo já sem vida de sua mãe.
Dor, era tudo o que sentia.
(...)
Indo em direção a cozinha, comeu uma uma porção de cereal e um pouco de leite.
Ele não tinha nada pra fazer, então resolveu sair pra dar uma caminhada com Lian havia dito.
Fazia um dia quente, o sol brilhava em um lindo tom de dourado.
Enquanto caminhava, ele passava por debaixo de algumas árvores, O sol ultrapassava as folhas em formato de raios e manchavam o rosto ainda um pouco sonolento de Oliver.
Era pouca coisa, mas já o fazia se sentir melhor.
O vento balançava as folhas das árvores fazendo os pontos dourados de luz em seu rosto se movimentarem em uma dança hipnotizante.
A Suécia era linda.
Enquanto caminhava, sua mente viajava para longe e voltava. Mal percebeu quando chegou em uma área verde.
Crianças corriam para todas as direções, alguns casais se encontravam acampando no gramado próximo ao lago, cachorros também podiam ser vistos brincando com seus donos.
Cada pessoa ali vivia a sua vida da melhor forma, por que só a sua tinha que ser tão complicada?
Continuou olhando até que seus olhos caíssem sobre um garoto sentado em um banco mexendo no celular.
A brisa ajudava a dar vida aos cabelos que caiam em ondas sobre a nuca.
Era Lian.
Oliver não sabia se ficava feliz por vê-lo ali, ou triste pelas roupas que se encontrava. Quando saiu de casa, não pensou muito no que estava usando.
Ele se arrependia amargamente agora.
Quer saber? Não me importo.
Se ele quiser, vai gostar de mim assim.
Foi caminhando com passos firmes em direção a Lian. Dados sete passos parou.
Vamos Oliver, continue.
Dessa vez, deu a volta por trás de onde Lian se encontrava. Iria fazer uma surpresa.
O garoto estava com fones de ouvido o que dificultaria um pouco as coisas, não queria tocado.
Ainda não.
Então Pensou e chegou na sua maior ideia.
- Cof Cof...
Nada.
- COF COF...
Ainda sem reação nenhuma.
- Atchim!
Poxa Lian, porque você está dificultando as coisas para mim?
- AAAATCHIM! AAAATCHIM!
AAAATCHIM!!
Essa veio do fundo da garganta de Oliver.
Não é preciso dizer que Lian levantou em um pulo. Parecia tão confuso...
Oliver não pode deixar de sorrir em satisfação por dentro, que ótima reação hehehe.
Quando Lian o viu atrás de si foi outro susto.
- Oliver?
- Ah! Lian? Que coincidência haha.
Foi tudo natural, você viu ele só agora.
- Eh... Você está bem? - Disse colocando a mão em sua própria garganta.
- Ah, não se preocupe.
É apenas poeira.
- Só poeira?
- Só poeira.
Lian já havia entendido tudo, ele não era idiota.
Mas preferiu continuar indo no jogo de Oliver, era fofo.
- O que você está fazendo aqui?
- Só pegando um ar.
- Entendi, não fique andando muito no sol, tudo bem?
- Certo.
- Ah! Quase me esqueço! Ontem, eu não peguei o seu número. Como você poderia me ligar?
Claro! O número!
Então era isso que ele estava gritando noite passada?
- Você pode me passar agora? Eu tentei dizer ontem mas você não me escutou. Eu até fiz um sinal com as mãos de telefone...
Ele parecia um pouco decepcionado.
- Aquilo era pra ser um telefone?
- Ah, bem... Sim? - Disse envergonhado passando a mão pela nuca.
- Haha, ficou muito bom - disse Oliver fazendo um sinal de joinha com a mão. - Você fez muito bem.
- Não sei... Você parece não estar falando a verdade - Disse.
- O que? Claro que eu estou!
Quer dizer, talvez não.
- Não é querendo dizer nada não mas você também estava com o ouvido bem ruim...
Oliver "..."
- Bem, você queria o que? Já estava muito longe - Disse desviando o olhar.
- Não sei, talvez...
Ele não pode terminar sua frase quando uma garota pequena vinda de não sei aonde o deu um tapa em sua nuca parecendo bastante brava.
- Onde você estava?? Te procurei por toda parte! Da próxima vez me avisa antes de sumir!
- Ei! porque você está me batendo?! Ficou doida? - Esbravejou.
- Quem você está chamando de doida?? - A garota gritou.
- VOCÊ!
- SEU....
Sua mão voou mais uma vez antes de acertar o nada, Lian já havia se esquivado a muito tempo para trás de Oliver.
- ME SALVE! ELA É DOIDA. - Disse aos prantos.
- Eu...
Sua cabeça só girava a mesma pergunta.
Lian, quem é essa garota