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Sofia: A Escolha

Sofia: A Escolha

Autor:: Cecilia
Gênero: Romance
Meus olhos se abriram. O cheiro de lavanda, o tique-taque do relógio. Tudo familiar, mas algo estava terrivelmente errado. Eu tinha 27 anos de novo, jovem e sem rugas, mas a memória da minha vida anterior me atingiu como uma onda avassaladora. Anos de dedicação cega a Lucas, meu marido 'magnata', e aos nossos filhos, Pedro e Isabela, que idealizavam Beatriz, o primeiro amor dele. Minha vida terminou sozinha, esquecida num asilo. Desta vez, não serei a tola. Liguei para Beatriz. "Vou me divorciar do Lucas. Entrego tudo: ele, as crianças, a casa." Ela tentou disfarçar, mas vi a ganância em seus olhos. O pesadelo se concretizou. Meus próprios filhos, Pedro e Isabela, que eu amava mais que tudo, gritavam: "Não queremos você! Queremos a Tia Bia! A mamãe é má!" E Lucas? Ele me tratava com frieza, sem sequer me olhar. A dor era insuportável. Mas o fundo do poço veio quando eles mesmos, manipulados por Beatriz, me forçaram a comer amendoim – eu, alérgica! Lucas me segurou enquanto Beatriz enfiou a pasta na minha boca. Eu desmaiei. E o pior: acordei ouvindo meus filhos desejarem minha morte. "Aí a tia Bia pode ser nossa mamãe para sempre." Naquele instante, a mãe em mim morreu. Eu estava quebrada, mas renascida. Na escuridão do poço do elevador, onde fui abandonada por Lucas para salvar Beatriz, eu entendi: não há nada a salvar, nada a lutar. E sozinha, com o corpo ferido, mas a alma livre, decidi. Eu sobreviveria. Por mim mesma.

Introdução

Meus olhos se abriram. O cheiro de lavanda, o tique-taque do relógio. Tudo familiar, mas algo estava terrivelmente errado.

Eu tinha 27 anos de novo, jovem e sem rugas, mas a memória da minha vida anterior me atingiu como uma onda avassaladora. Anos de dedicação cega a Lucas, meu marido 'magnata', e aos nossos filhos, Pedro e Isabela, que idealizavam Beatriz, o primeiro amor dele. Minha vida terminou sozinha, esquecida num asilo.

Desta vez, não serei a tola. Liguei para Beatriz. "Vou me divorciar do Lucas. Entrego tudo: ele, as crianças, a casa." Ela tentou disfarçar, mas vi a ganância em seus olhos.

O pesadelo se concretizou. Meus próprios filhos, Pedro e Isabela, que eu amava mais que tudo, gritavam: "Não queremos você! Queremos a Tia Bia! A mamãe é má!" E Lucas? Ele me tratava com frieza, sem sequer me olhar. A dor era insuportável.

Mas o fundo do poço veio quando eles mesmos, manipulados por Beatriz, me forçaram a comer amendoim – eu, alérgica! Lucas me segurou enquanto Beatriz enfiou a pasta na minha boca. Eu desmaiei. E o pior: acordei ouvindo meus filhos desejarem minha morte. "Aí a tia Bia pode ser nossa mamãe para sempre."

Naquele instante, a mãe em mim morreu. Eu estava quebrada, mas renascida. Na escuridão do poço do elevador, onde fui abandonada por Lucas para salvar Beatriz, eu entendi: não há nada a salvar, nada a lutar. E sozinha, com o corpo ferido, mas a alma livre, decidi. Eu sobreviveria. Por mim mesma.

Capítulo 1

Sofia Mendes abriu os olhos. A luz do sol da tarde entrava pela janela do quarto, tingindo tudo de um dourado pálido. O cheiro familiar de lavanda dos lençóis, o tique-taque suave do relógio de pêndulo na sala de estar, tudo era exatamente como ela se lembrava. Mas algo estava terrivelmente errado, ou terrivelmente certo.

Ela se sentou na cama, o coração batendo descontroladamente. Olhou para as próprias mãos, lisas e sem as rugas da velhice. Tocou o rosto, a pele firme. Levantou-se e correu até o espelho. A mulher que a encarava de volta tinha 27 anos, com longos cabelos escuros e olhos castanhos que, naquele momento, estavam arregalados de choque e um terror primordial.

Ela estava de volta. Tinha renascido. A memória da sua vida anterior a atingiu como uma onda avassaladora. A vida de dedicação cega a Lucas Costa, o magnata da tecnologia, e aos seus dois filhos, Pedro e Isabela. A vida de ver seu marido e filhos idealizarem outra mulher, Beatriz Lima, o primeiro amor de Lucas. A vida que terminou com ela, velha e sozinha, morrendo esquecida em um asilo, enquanto Beatriz vivia a vida que deveria ter sido sua, ao lado de sua família.

Um sorriso frio e determinado curvou os lábios de Sofia. Não desta vez. Desta vez, ela não seria a tola.

Ela pegou o telefone e discou um número que conhecia de cor, um número que a assombrou em seus pesadeles por décadas.

"Alô?" A voz do outro lado era suave, quase melódica. Era Beatriz Lima.

"Beatriz, é a Sofia," disse Sofia, sua voz surpreendentemente calma. "Preciso falar com você. Pode me encontrar no café da esquina em vinte minutos?"

Houve uma pausa. "Sofia? Aconteceu alguma coisa com o Lucas?"

"Não. É sobre você e ele. Esteja lá." Sofia desligou antes que Beatriz pudesse responder.

Vinte minutos depois, Sofia estava sentada em uma mesa no canto do café, um copo de água intocado à sua frente. Beatriz entrou, parecendo uma visão em um vestido branco de linho, seus cabelos loiros perfeitamente arrumados. Ela era a imagem da pureza e da elegância, a "dama de branco" que Lucas nunca esqueceu.

"Sofia, você me assustou," disse Beatriz, sentando-se. "O que é tão urgente?"

Sofia foi direto ao ponto. "Eu vou me divorciar do Lucas."

Beatriz congelou, seus olhos azuis se arregalando em choque. "O quê? Por quê? Vocês parecem tão felizes."

"Nós não somos felizes," disse Sofia, com uma franqueza brutal. "E eu sei que você o ama. Eu sei que ele nunca te superou. E sei que meus filhos te adoram mais do que a mim." Cada palavra era uma faca, mas Sofia as proferia sem vacilar. "Então, eu estou te oferecendo um acordo. Eu quero o divórcio, e eu entrego tudo para você. Lucas, as crianças, a casa. Tudo."

Beatriz ficou em silêncio por um longo momento, o choque em seu rosto dando lugar a uma incredulidade cautelosa, e depois, a um brilho inconfundível de ganância. Ela tentou disfarçar, compondo suas feições em uma máscara de preocupação.

"Sofia, isso é loucura. Você não pode estar falando sério. E as crianças?"

"As crianças preferem você," repetiu Sofia, a voz vazia de emoção. "Elas sempre preferiram. Você é a mãe que elas sempre quiseram."

A resistência de Beatriz desmoronou. Um pequeno sorriso vitorioso brincou em seus lábios antes que ela o reprimisse. "Se é isso que você realmente quer... Eu sempre me preocupei com o Lucas. Ele trabalha demais. E as crianças, elas são uns anjos. Eu faria qualquer coisa por eles."

Sofia sentiu um calafrio. A falsidade de Beatriz era tão óbvia, mas ninguém mais parecia ver. Eles só viam a fachada perfeita.

"Ótimo. Então está decidido."

Quando Sofia voltou para casa, a porta se abriu e seus filhos, Pedro, de seis anos, e Isabela, de cinco, correram para dentro. Mas eles não correram para ela. Eles correram para os braços de Beatriz, que havia chegado logo depois dela.

"Tia Bia!" eles gritaram em uníssono.

Lucas entrou atrás deles, seu rosto se suavizando ao ver Beatriz. "Bia, o que você está fazendo aqui? Que surpresa agradável." Ele nem olhou para Sofia.

"Sofia me convidou," disse Beatriz, abraçando as crianças com força. "Nós estávamos colocando o papo em dia."

"Ah, é?" Lucas finalmente olhou para a esposa, mas seu olhar era distante, quase entediado. "Tudo bem?"

Sofia não respondeu. Ela apenas observou a cena: seu marido, seus filhos, todos reunidos em torno de outra mulher, na sua própria casa. Eles eram uma família perfeita, e ela era a estranha.

Naquela noite, deitada na cama, a memória de sua morte na vida anterior voltou com uma clareza assustadora. Ela tinha setenta e sete anos. Seu corpo estava fraco e doente. Ela ligou para Lucas, para Pedro, para Isabela. Ninguém atendeu. Uma enfermeira lhe disse que eles estavam celebrando o aniversário de Beatriz em uma viagem à Europa. Naquele dia, sozinha e esquecida, Sofia Mendes morreu de coração partido.

Uma única lágrima escorreu por seu rosto. Ela a enxugou com raiva. Chega de lágrimas. Chega de dor.

No dia seguinte, Sofia começou a fazer as malas. Ela não estava pegando as roupas de grife ou as joias. Ela estava pegando seus pertences pessoais, os poucos itens que tinham valor sentimental: um livro antigo de sua mãe, seus cadernos de desenho de moda, uma pequena caixa de madeira com fotos de antes de se casar.

Pedro entrou em seu closet e a viu colocando os cadernos em uma caixa.

"O que você está fazendo, mamãe?" ele perguntou, a voz tingida de desconfiança.

"Estou arrumando algumas coisas," respondeu Sofia calmamente.

"Você não pode levar esses cadernos. A tia Bia disse que vai usar este espaço para guardar as coisas dela."

O coração de Sofia se apertou, mas seu rosto permaneceu impassível. "A tia Bia disse, é?"

"Sim. Ela disse que você não desenha mais mesmo," acrescentou Isabela, que apareceu na porta. "Ela vai fazer deste um quarto de brincar para nós."

A crueldade inocente de seus filhos era a pior parte. Eles não entendiam o quanto aquelas palavras a feriam.

Naquela noite, Sofia tentou conversar com Lucas. Ela o encontrou no escritório, o rosto iluminado pela tela do laptop.

"Lucas, precisamos conversar."

Ele suspirou, sem tirar os olhos da tela. "Estou ocupado, Sofia. Pode ser depois?"

"Não, não pode," ela insistiu. "É sobre as crianças. E sobre Beatriz."

"O que tem a Bia?" ele perguntou, a irritação clara em sua voz. "Ela é ótima com as crianças. Elas a amam. Você deveria ser grata por ela ajudar tanto."

A frieza dele era a confirmação final. Ele não via o sacrifício dela, a dor dela. Ele só via a conveniência de ter Beatriz por perto. Ele não a amava. Talvez nunca a tenha amado.

"Você tem razão," disse Sofia, a voz baixa e firme. "Eu deveria ser grata."

E naquele momento, a última brasa de amor que ela sentia por ele se extinguiu, deixando apenas cinzas frias. A decisão estava tomada. Ela iria embora. E ela nunca mais olharia para trás.

Capítulo 2

No dia seguinte, Sofia parou. Simplesmente parou. Ela não fez o café da manhã. Não preparou os uniformes de Pedro e Isabela. Não revisou a agenda de Lucas nem lembrou a ele de suas reuniões. Ela se levantou, tomou um banho, vestiu-se e sentou-se na poltrona da sala de estar com um livro, como se fosse uma convidada em sua própria casa.

Inicialmente, ninguém pareceu notar. Lucas estava acostumado a sair correndo pela manhã, pegando uma xícara de café e uma torrada que magicamente apareciam na bancada da cozinha. As crianças estavam acostumadas a serem vestidas e levadas para a mesa do café da manhã pela mãe ou pela babá.

A primeira rachadura na rotina perfeita apareceu quando Lucas desceu as escadas, já atrasado, e não encontrou seu café.

"Sofia? Onde está o meu café?" ele gritou do andar de baixo.

Sofia virou uma página de seu livro. "Não fiz café hoje, Lucas. A máquina está na cozinha."

Ele apareceu na porta da sala, a testa franzida em confusão. "Você não fez? Por quê?"

"Eu estava cansada," ela disse simplesmente, sem tirar os olhos do livro.

A confusão de Lucas se transformou em irritação. Ele bufou e foi para a cozinha, batendo as portas dos armários. Alguns minutos depois, a babá desceu com as crianças, ambas com os uniformes amassados e o cabelo despenteado.

"Senhora Mendes, não consegui encontrar a lancheira do Pedro," disse a babá, parecendo estressada.

"Está no armário de sempre," respondeu Sofia, ainda calma.

O caos se instalou. Lucas não conseguia fazer o café da qualidade que estava acostumado. A babá não conseguia encontrar as meias iguais de Isabela. Pedro reclamava que seu pão não tinha a crosta cortada. Era uma pequena amostra do que acontecia quando a engrenagem invisível que era Sofia parava de girar.

No final do dia, a casa estava uma bagunça. Pratos sujos na pia, brinquedos espalhados pelo chão, uma sensação de desordem que não existia há anos. Lucas chegou em casa e seu rosto se fechou em uma carranca.

Ele encontrou Sofia no mesmo lugar, lendo o mesmo livro.

"O que diabos está acontecendo, Sofia?" ele exigiu, a voz dura. "Por que a casa está assim? Por que as crianças jantaram sanduíche? A babá disse que você não deu nenhuma instrução hoje."

Sofia finalmente fechou o livro e olhou para ele. Havia uma calma em seus olhos que o desarmou. Não era a calma submissa que ele conhecia, mas uma calma distante, gélida.

"Eu estou cansada, Lucas," ela repetiu. "Cansada de ser a gerente desta casa, a babá, a cozinheira, a sua assistente pessoal. Cansada de fazer tudo e não receber nem um 'obrigado'."

Ela se levantou e caminhou até a janela. A memória de sua vida passada voltou. Anos e anos de dedicação. As noites em que ficou acordada com as crianças doentes para que ele pudesse dormir e estar descansado para o trabalho. As festas de negócios que ela organizou com perfeição para impressionar seus sócios. O tempo que ela abandonou sua própria carreira, seu próprio sonho de ser uma estilista de moda, para que ele pudesse construir seu império.

Tudo por nada.

"Eu passei os últimos seis anos garantindo que sua vida e a vida das crianças fossem perfeitas," continuou ela, a voz ainda baixa, mas carregada de uma dor antiga. "Eu sacrifiquei tudo por esta família. E em troca, o que eu recebi? Indiferença. Um marido que mal olha para mim e filhos que preferem outra mulher."

Lucas ficou sem palavras. Ele nunca a tinha visto assim. Ele sempre a viu como uma presença constante e confiável, algo que ele não precisava pensar.

"Isso não é justo, Sofia. Você sabe que eu trabalho duro..."

Antes que ele pudesse terminar, a porta da sala se abriu com um estrondo. Pedro e Isabela entraram correndo, os rostos vermelhos de raiva.

"Mamãe, por que você não quer mais cuidar da gente?" gritou Pedro. "Você é uma mãe má!"

"Nós não queremos você!" acrescentou Isabela, as lágrimas escorrendo por seu rostinho. "Nós queremos a tia Bia! Ela é a melhor! Ela sabe brincar e faz os melhores bolos!"

Aquelas palavras, vindas de seus próprios filhos, eram as mais cruéis de todas. Em sua vida anterior, elas a teriam destruído. Mas agora, elas apenas solidificaram sua resolução.

Sofia olhou para as duas crianças, seus filhos, e depois para o marido. Um sorriso triste e resignado tocou seus lábios.

"Tudo bem," disse ela, a voz soando estranhamente leve. "Se é isso que vocês querem."

Lucas a encarou, chocado com sua aceitação imediata. "Sofia, o que você está dizendo? Eles são crianças, não sabem o que dizem."

"Eu acho que eles sabem exatamente o que dizem," respondeu Sofia. "Eles estão apenas sendo honestos. Eles querem a Beatriz. Então, eles terão a Beatriz."

Ela se virou para as crianças. "Vão arrumar suas coisas. O papai vai levar vocês para a casa da tia Bia."

Pedro e Isabela pararam de chorar, surpresos. Depois, um olhar de triunfo substituiu as lágrimas. Eles correram para fora da sala, gritando de alegria.

Lucas ficou parado, atordoado. "Sofia, você enlouqueceu? Você está realmente entregando nossos filhos?"

"Eu não estou entregando nada, Lucas," disse ela, a voz cansada. "Eu estou apenas dando a todos o que eles sempre quiseram. Você, seus filhos, e a Beatriz. Agora vocês podem ser a família feliz que sempre sonharam ser. Sem mim no caminho."

Ele não sabia o que dizer. A mulher à sua frente era uma estranha. Determinada, fria, inabalável.

Ele subiu as esceras, pegou as crianças, que já estavam com suas pequenas mochilas prontas, e desceu. Ao passar por Sofia na porta, ele parou.

"Você vai se arrepender disso," ele disse, a voz baixa e ameaçadora.

Sofia o encarou, os olhos secos. "Não, Lucas. Eu já me arrependi de muitas coisas na minha vida. Mas disso, eu tenho certeza que não vou."

Ele saiu, batendo a porta atrás de si. Sofia ficou sozinha no silêncio da casa enorme e vazia. Pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu dor. Ela sentiu uma estranha e assustadora sensação de liberdade. O futuro era uma página em branco, e pela primeira vez, era ela quem segurava a caneta.

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